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150ª Leva - 05/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Rani Ghazzaoui

 

Ilustração: Drika Prates

 

Aorta

 

entendo pouco de anatomia
sei da distância dos meus dedos
da densidade dos meus pelos
de quando em quando vêm os meus respiros
em todos os meus apelos
observo meus músculos
ora robustos, ora murchos
o músculo rubro
que bombeia até todas as minhas veias
cada uma das minhas linhas
absolutamente todas
as minhas histórias
não entendo de biologia
mas sei o gosto das minhas lágrimas
a espessura da minha saliva
(ainda mais quando misturada noutra)
sei da minha matéria
sei conversar o amor
por culpa dessa artéria
que me inunda
que me transborda
não me interessam as outras partes
(preciso delas, mas não me são essenciais)
o que me importa é uma saudável aorta
robusta, potente, pulsante
esse túnel que leva a tudo
essa latejante porta
que me deixa sobreviver
que me previne de escrever
morta

 

 

 

 

***

 

 

 

O Pêndulo

 

se eu vier balançando
me fazendo de pluma
ou de pêndulo
por cima da crosta
deslizando
um tiro no escuro
gemendo
te peço que não me segure
que não abafe em mim
qualquer sentimento
não cerre meus punhos
nem imobilize meus membros
preciso de espaço
para ouvir a vida dizendo
deitar num abraço
(ainda que eu gostasse)
não funciona para quem vive
tremendo

 

 

 

***

 

 

 

Só Sei Saber De Mim 

 

não sou uma especialista
em coisa alguma
que não seja
relacionada aos meus próprios sentimentos
não sei construir prédios
as plantas da minha casa sempre morrem
coleciono desamores ao redor do mundo
os amigos que sobraram cabem nos dedos
não sou uma sommelier
de qualquer gosto
que seja assim
tão refinado
me finco nas certezas do meu ofício
de conhecedora das travessas de mim mesma
sei de cor a cor de todos os abismos
que moram dentro do meu peito
não tenho ambições além dos muros
pra fora da minha mente desvairada
jamais quis saber de outros edifícios
menos ainda de qualquer outra fachada
há muitos que usam a vida
pra juntar conhecimento
e saber de um tudo o que há
além das fronteiras do sujeito
eu que não sou mestre em nada
sento na frente do espelho
e num plano de vida traçada
vou decifrando a minha esfinge
do meu jeito

 

 

 

***

 

 

 

Amor E Literatura

 

Derrama em mim teus medos
Conta pra mim teus segredos
Ensopa-me com tuas lembranças
Penetra-me as tuas esperanças
Aloja em meu ventre teus sonhos
Permite-me gerar teus inconhos
Afaga aos meus problemas
Me deixa te escrever em poemas

 

 

 

***

 

 

 

Desastrosa Queda

 

se estamos nos matando
acontece a quatro mãos
em velocidade cronometrada
com capacidade mútua
de execução

sua boca presa à minha
não há registros de ar algum entrando
veias não bombeiam
nem oxigênio
nem sangue

se estamos no buraco
caímos aqui de empurrão duplo
tua mão na minha nuca
o meu pé na tua bunda
um tombo assim cinematográfico

 

 

 

***

 

 

 

Absorta, Semimorta

 

olho
para baixo
vejo meus pés
ensanguentados
já não sei
de quem é esse sangue
se vem de dentro de mim
ou se saiu de vasos seus

o azulejo branco parece pulsar
estamos à deriva
vivendo nesse mar de amar
desço minha mão com delicadeza
coloco o dedo no coágulo
e, antes mesmo de pensar,
levo meu dedo à boca

sugo
chupo
devoro

esse sangue que não sei se é meu
esse sangue que eu sei que é nosso

 

Nascida em São Paulo e naturalizada australiana, Rani Ghazzaoui é escritora, comunicadora, atriz e poeta. Começou a escrever muito jovem — “desde que conseguiu segurar corretamente a caneta” — como ela mesma diz. “Aorta” (Lyra das Artes), seu livro de estreia publicado em março de 2022, é uma antologia de poemas escritos num espaço de quatorze anos, entre 2007 e 2021.”Aorta” está à venda nas maiores livrarias do Brasil, em todos os e-commerces de livros e no formato Kindle através deste link.

 

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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Drika Prates

 

Foto: Gilucci Augusto

 

 

culpei-me
como se fosse meu o controle do tempo
culpei-me até por não morrer
culpei-me pelas dores do mundo
e pelas minhas próprias
desculpei-me por ser maria
e também quando não fui
como quem entende que não existe tempo, nem controle
desculpei-me da desculpa por envelhecer
desculpei-me pela vida e por amar o mundo, ainda que cheio de dores
desculpei-me, arranquei a culpa do amor-próprio
e ele próprio me desculpou

 

 

 

***

 

 

 

Sujeito é verbo

 

Não soube não ser anônima
É homônima

Homófona

Não sabe ser hegemônica
Quem é de escola antropofágica

 

 

 

***

 

 

 

note minha natureza morta
esqueci de abrir a porta
e de nós surge a revolta
impedindo aquele sim

veja a muralha que nos cerca
é o medo da poeta
ainda há viga entreaberta
concreto que esgota em mim

se já não entendo o que me importa
e desconheço minha resposta
natureza viva ou morta
com visão um pouco torta
percebo o mundo à minha volta

mas se me prende ou se me solta
se me sente ou se desloca
se me vende ou subloca
se me entende ou acha louca
se me quer ou me conhece
se me mente ou se me esquece
se projeta o meu alcance
não sou boa nesse lance…

a linguagem que me livra
de confusão desmedida
incompleta a minha obra
e o que é que de mim sobra?

a reforma que me cobra
quem sou eu para mim?

note a minha natureza torta
nossa vida em minha porta
o que não sei não me solta
o que sei sempre se esgota
quem me salva da revolta?

me interessa aquele sim.

 

 

 

***

 

 

 

sou produto do hoje (com memória)
precedida a história
sou produto do hoje (com medo)
precedido o enredo
sou processo lento (contento)
resultado do tempo
procuro o presente
-no limiar do sentimento-
precedidas posturas
procuro não procurar futuro …
ai.

 

 

 

***

 

 

 

a real tem idade
e são anos luz
sem tempos de agora
(nem depois)
nem olho que vê
nem cheiro que sente
nem tato que esbarra
um tropeço no real, para,
do chão passar
rejeição é doença que sara
ao lembrar de olhar pra frente

 

 

 

***

 

 

 

Kafka

 

eu aspirei esse ar pirado
fiquei asfixiado
e aficcionado
por qualquer tipo de enredo e qualquer tipo de estado
passei pela rua e sorri
fui filmado
passei da linha e recebi
importante papel timbrado
no documento li “fichado”
caí nas lentes, fui logrado

 

Drika Prates trabalha como ilustradora, designer gráfica e, de vez em quando, pinta murais. Seu trabalho com as imagens é retroalimentado por sua escrita, que vai das crônicas aos poemas. Vive em Portugal desde 2018, quando resolveu fazer um mestrado em História da Arte Contemporânea e participou de residências artísticas locais, como o Festival A Salto e a Bienal de Coruche. Nos últimos anos, ilustrou dois livros de poesia: “Exposta”, de Marina Vergueiro e “Aorta”, de Rani Ghazzaoui. Acredita que um dia vai ilustrar um livro próprio, integrando suas palavras e imagens. Sua escrita reflete cartografias que vão do micro ao macro, do corpo(natureza) à cidade, além de transitar por inquietações feministas.