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155ª Leva Janelas Poéticas

Aperitivo da Palavra I

SOBRE MENINOS E HOMENS

 Por Gustavo Rios

 

 

Gosto de Amora, publicado em 2019 pela Editora Malê, é um livro com 15 contos divididos em duas partes. Nele, Mário Medeiros nos mostra, entre outras coisas, que a verdade, a proximidade com a vida e um bom bocado de talento podem nos trazer muito mais do que uma simples leitura.

Mário, que além de escritor é doutor em sociologia pela Unicamp, parece se valer da própria vivência para produzir seus contos. Todavia, diante do que li, posso dizer que esse recurso não se aproxima da chamada autoficção – aqui considerando o conceito do  Doubrovsky -, servindo apenas para dar a medida exata das suas verdades. Verdades que passam pela realidade de milhões tais como ele, sendo Medeiros um homem negro num país essencialmente, terrivelmente e estruturalmente racista.

Já pela parte gráfica, concebida pelo talentoso artista paulistano João Pinheiro que, entre outras coisas, foi ganhador de prêmios pelo seu trabalho com a Hq Carolina, uma parceria com a escritora Sirlene Barbosa, Gosto de Amora já nos mostra para que veio. E para aonde quer ir e estar.

 

Linguagem

       

Nas 146 páginas da obra nos deparamos com uma linguagem simples e direta. As histórias se baseiam na vida de pessoas que muitas vezes trafegam num mundo invisível. Num tipo de invisibilidade que extrapola o enfoque “social”, negando-os até mesmo a própria perspectiva ao contar suas histórias.

Ao entrar como homem e indivíduo nos textos, o tom supostamente confessional enriquece o trabalho. Assim, além da leitura propriamente dita (a que se prende ao estilo, a linguagem, ao ritmo e a beleza; ao texto em si), Mário nos oportuniza duas coisas: a de conhecermos e/ou confirmarmos uma realidade terrível que berra ao nosso redor, e a de podermos enxergar que, dentro de uma coletividade, existem indivíduos; cada um com sua voz e com sua, importante dizer, subjetividade.

O olhar do leitor extrapola o entendimento, ou mesmo a lembrança fundamental de que, como sociedade, estamos apressados indo para um abismo, apesar das generosas lufadas de esperança decorrentes da última eleição. Porém, essa necessária visão do todo (as pessoas no geral), deve nos comover a partir do uno (uma pessoa: uma vida e, por que não dizer, um coração).

Como exemplo, descrevo um belíssimo trecho do conto “Meias de seda se esgarçando”: “Eu escrevia, no meio da tarde, no meio da sala. Era um domingo. Ela apareceu do nada. Eu, inocentemente, perguntei se havia dormido bem, se estava se sentindo mais disposta. A tudo ela respondeu que sim. Ambos sorrimos. Sabíamos que, do contrário, iriamos nos ferir mais que há três horas, quando tentáramos, mais uma vez o amor.”

 

Crianças e homens

 

Novamente me valendo da professora Mariana (sem ela eu seria incapaz de fazer esta resenha), no livro também podemos ter a ideia de nos depararmos com contos infantis, “dentro dos moldes ocidentais”.

Em “Fábrica de balas”, por exemplo, Medeiros já nos mostra suas intenções. No conto o personagem sofre, transita em sua comunidade, encara a miséria ao redor, se relaciona com amigos e com suas próprias angústias – e devemos entender angústia como algo muito além das dores do tipo existenciais, mas que, ainda assim, são calcadas no privilégio de poucos.

O que era para ser doce, ao menos de forma sugerida da bala, vira enjoativo, numa realidade em que a fábrica produzia “balas que (o protagonista do conto, Rubi) não podia chupar, balas que não podia pagar no mercadinho de merda ali perto da favela (a não ser quando as recebia de troco, fato raro, pois sempre tinha o dinheiro contado).”

Uma fábrica “velha, feia, suja, fedida, cuja chaminé – preta, para variar – deixava sair aquele cheiro doce e enjoativo, impregnando todos os cantos, todos, todas as roupas, todos os narizes.”

O trecho abaixo deve confirmar a ideia de que Mário Medeiros não está para brincadeiras:

 

“Às vezes o Preto Rubi agradecia por não tomar café, porque no barraco da dona Maria Baiana, ela, a filha, o genro, o filho da filha dela, enfim, todo mundo parecia ter as tripas soltas à noite toda, fazendo tudo num barraco só. E como era o primeiro barraco ao lado do córrego que ficava perto da ponte por onde Rubi passava…bom, como era o primeiro barraco, tinha uma espécie de escadinha por onde às cinco e quarenta e cinco, pontualmente, alguém jogava o líquido feito chocolate quente no córrego. Às vezes aquilo dava nojo no Rubi Preto e ele cuspia de lado. Antes, quase vomitava. Depois de dez anos, nem isso”.

 

Notem no parágrafo acima: Mário trabalha de uma forma simples, como se conversasse conosco. Ideia reforçada pelo uso das reticências e da repetição proposital que se segue (…bom, como era o primeiro barraco…”), recurso que se mostra fundamental para o bom andamento da cena.

 

Família

 

A relação com a família também é outro tema recorrente. E não poderia ser diferente. Medeiros muito nos comove com suas descrições de uma “mão preta, grande, gorda e boa” que o conduzia do portão até o “Grupo Escolar.” Ou mesmo de sua vó, conforme outro belíssimo trecho abaixo:

 

“Eu adorava seus cabelos brancos e bem penteados, trançados para trás. Seu cabelo branquinho e sua pele preta lisa. Sua voz arrastada e seus olhos vivazes. Vovó. Vó. Vó Paina. Vó desbocada, Vó palavrão, que me ensinou vários, cabeludos feitos suas madeixas largas. Vó Paina que, ao tombar, um dia, derrubou todos nós, deixando um vazio tão grande.”

 

Da relação familiar, à relação com a comunidade ao redor, Mário nos mostra que, grosso modo, a dinâmica familiar também existe na relação com o outro. Seja o amigo de infância ou mesmo com as pessoas de um bairro. Para exemplificar, sugiro a leitura do conto “Pau, panela, apito”.

 

A maturidade

 

Assim, confirmo a ideia de que Gosto de Amora é o trabalho de um escritor maduro e talentoso. Um artista que não vai permitir que lhe determinem o espaço e as escolhas individuais: ele seguirá falando sobre o que desejar, seja algo “coletivo” ou íntimo; ou as duas coisas juntas. Por escolha própria, esse mesmo autor também não deixará de se assumir como parte de um todo, no que podemos chamar e literatura negra e periférica – que conta com outros nomes, tais como Allan de Rosa, Ferrez, Nelson Maca e Fábio Mandingo, entre tantos outros e outras (os nomes citados priorizaram homens de estilos bem distintos, mas com algo em comum; ao menos na minha visão).

A viagem individual de Medeiros é grandiosa pela própria natureza. Mas abarca diversas outras vozes. E isso o torna uma grande pedida. Sem dúvida.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.

 

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155ª Leva Janelas Poéticas

Aperitivo da Palavra II

Desventuras de uma alpinista social         

Por Roberto dos Santos

 

 

Estas linhas tratarão sobre Quem falou?, de 2023, lançado pela Editora Penalux, romance de André Cunha, experiente romancista, novelista e cronista brasiliense, indicado por esta obra como semifinalista da modalidade romance literário do Prêmio Jabuti de 2024. Quem falou? é descrita pelo autor como uma “comédia romântica inteligente”, o que nos parece fazer jus a uma parcela de filmes do gênero. De fato, sua história se revela uma narrativa despretensiosa, mas competente na pesquisa que se vê por trás do mudo apresentado, sejam as locações e vernáculo catarinenses ou o mundo de negócios na área sanitária.

O romance é escrito em primeira pessoa, uma história com “altas doses de cinismo e uma franqueza brutal”, como bem define Francyne França, na orelha da primeira capa. O enredo é ambientado em Santa Catarina, alternando os cenários entre Jurerê Internacional, Balneário Camboriú e a periferia de Florianópolis. Nele acompanhamos Rebeca Witzack, que está mais para uma anti-heroína do que para simples mocinha caracterizada pela ênfase em virtudes. A protagonista é levemente detestável e, na medida em que é apresentada, vai nos cativando com sua humanidade. De personalidade inconstante ao longo do romance, passa por uma montanha-russa de acontecimentos, flutuações de humor e vício em ansiolíticos.

A maré dos acontecimentos e veredas abertas pelas escolhas da protagonista nos conduzem a uma busca por autoconhecimento, algo que ela não faz conscientemente, já que na maior parte da trama apenas se satisfaz com sua beleza padrão e com relações nos círculos de elite e da fama. A heroína assim é humanizada por sua personalidade ambígua e saúde mental volátil em tempos de adoecimento coletivo – sim, a história se passa em meio à pandemia de Covid-19 –, além de uma severa endometriose.

Rebeca inicia sua jornada “comprometida com um e grávida de outro”. Depois de ser exposta em um vídeo erótico vazado na rede, transforma esse revés em oportunidade, aproveitando a fama para se tornar colunista de um portal de notícias. Mergulha então numa vida de futilidades como seu El Dorado existencial, negligenciando camadas mais profundas de si mesma. A protagonista usa de expedientes escusos para colher vingança, projetando uma imagem de mulher empoderada. Contudo, acaba por não cuidar das feridas que o episódio da exposição lhe causou.

Justamente no período pandêmico, durante o qual fica encastelada numa cobertura em um dos cenários mais paradisíacos e elitistas do país, usufruindo da la dolce vita, mais ela se afasta do autoconhecimento e autocuidado, apesar do suporte financeiro, da segurança privada e dos testes rápidos de Covid à disposição. O leitor e leitora são convidados a acompanhá-la em tudo, a observar os atos mais inconfessáveis que a protagonista leva a cabo, mas a esta parece sempre faltar o olhar sobre o que realmente está se processando dentro de si. Para reforçar essa autoalienação, recorre à medicação controlada, como se a bioquímica dos fármacos pudesse preencher os vazios existenciais.

A protagonista vive desventuras em busca das aparências, do conforto, do luxo, circulando entre figuras proeminentes do mundo empresarial, musical e desportivo. Nesses momentos, o livro nos brinda com referências a celebridades nacionais para, ao final, abraçar outra perspectiva de vida.

A narrativa sobrepõe acontecimentos dos mundos externo e interno da protagonista, com direito a comentários de crítica musical sobre um dos maiores ícones da música brasileira, Chico Buarque. Também é utilizado o recurso de notas de rodapé que devem ser lidas concomitantemente e enriquecem a narrativa. A questão da saúde mental se mostra fio condutor subterrâneo que só encontra sua resolução dramática ao fim dessa leve, mas nada rasa aventura.

As notas de rodapé podem parecer enfadonhas, mas cumprem seu papel e trazem revelações sobre a personagem. Além disso, a parte de jargão técnico sobre a tecnologia de testes de Covid pode desagradar algum leitor pelo espaço que ocupa no texto, mas acreditamos que é necessária para dar maior verossimilhança. Traz informação e há leitores que certamente apreciarão o carinho dado a essa parte de pesquisa.

Ao início da obra, a protagonista afirma que só queria amar e ser amada e, na procura desse objetivo único, chegou a vender a própria alma e trilhar caminhos tortuosos em busca de um lugar bonito na fotografia, esquecendo de cultivar o amor por si mesma. Mas, como heroína de comédia romântica, após toda uma rocambolesca trama de autossuperação, encontrou o que verdadeiramente precisava no príncipe encantado do amor próprio e no afeto verdadeiro pelas coisas simples, depois de muito ter sido beijada pela lona até despertar do sono enfetichado em que caíra.

 

Roberto dos Santos é professor do Instituto Federal de Brasília e escritor. Publicou o livro de poemas Nomear é Preencher o Vazio (Editora Trevo), além de prefácios e participou de coletâneas. Foi finalista na categoria crônica do Prêmio Off Flip 2023 e nas categorias conto e poema no Prêmio Off Flip 2024.

 

 

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154ª Leva - 02/2024 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

NAS CINZAS DAS HORAS DEPOIS DAS HORAS

 Por Maruzia Dultra

 

 

De todos os órgãos, a pele é o que possui o trato mais direto com o tempo – “o tempo nos toma/ feito obsessor/ revira nossa pele”, “a urgência/ de cada gesto como/ envelhecer todo dia.” É nela e através dela que a passagem das horas se faz presente-passado-futuro, esculpe o corpo a seu modo, nos cava fugazes demoras de uma poesia vívida que “todo mundo vê, o cinegrafista vê, a jornalista vê, mas não escreve, não tem tempo” (Miró da Muribeca). Nos falta tempo, no entanto é irresistível “inventar uma pele para tudo” (Nuno Ramos), roçá-la, esfolheá-la, penetrá-la, transpassá-la.

Aí me cai, sobre “o tato mais experiente [que] é a palma da mão” (Arnaldo Antunes), essa espécie de tratado dermotemporal. Um “cair como caem” os sonhos, ininstagramável “instante-já” (Clarice Lispector). Não consigo deixar de perceber assim o livro de poemas O inquilino das horas (Villa Olívia, 2024), de Nílson Galvão – “Newson”, o poeta da física, como brinco –, que não se constrange frente a dicotomias ilusórias e persegue imagens complexas, que não refletem, nem complementam as polarizações do mundo – antes, nos dizem baixinho e mansamente: sim E não.

Imagens que escapam às binariedades vulgares que “acusam o ridículo do pensador: sim, sempre os dois aspectos” (Gilles Deleuze): “ser é quente-e-frio”; “ela chora e ri”; “coisas combinam e não”; “ainda/ é ontem, já é amanhã: nunca/ soube decidir sobre coisas assim.”; “quase/ não chove por quarenta/ anos e chove chove chove/ por quarenta anos, e ficamos/ doidos de nossos sentidos,/ quer de alguma chuva/ quer de chuva alguma,”; “tão diversos/ tão simétricos/e tão os/ mesmos.”; “o vagão impregnado de/ algo indefinível e palpável/ no entanto”.

É nesse incansável vaivém de inclusões (vai E vem, porque a norma linguística não sufocará o gracejo!) que o poeta faz morada no tempo, reverenciando-o em seus “deuses quandos”: “já faz muito tempo/ mas naquele posto/ persiste a imagem de/ uma súbita mudança”; “ali ulisses nos aguarda com a/ civilização inteira em sua loja/ de quinquilharias.”; “a começar/ pelos ossos partidos/ dos que foram jogados/ no abismo da história”; “as bananas/ quase verdes// agora quase/ passadas// neste canto/ da casa.”; “o tempo é um sol/ decaído, fica frio mas/ um sol é um sol”.

E, na duração das fotografias em preto E branco de sua memória, dentro delas, de seus grãos, verte em personagem constante a manhã: “hoje de manhã não havia/ manhã nenhuma quando/ acordamos”; “não menospreze as manhãs/ esquisitas, dessas que nascem/ com um brilho que não é o que/ se pensa”; “o nome/ do silêncio/ exato/ entre um/ galo e o/ outro e/ o outro/ no halo/ dessa manhã”; “a pele frágil da/ manhã ficando vermelha”; “a verdade late lá fora./ temos tanta coisa pra/ fazer e a manhã é tão/ curta.”

Dizer a manhã “pele do dia” faz cruzar topologia e cronologia, ao modo filosófico de uma pele-tempo, como ocorre no vivente: a superfície dérmica é o presente do corpo, por isso “o tato não tem antecipação” (Sandro Ornellas) e “organiza na pele uma inteligência” (Lais Muller). Daí também a interioridade corporal ser entendida como passado (tempo regresso, do já vivido) e a exterioridade como futuro (tempo sucessivo, do vir a ser): “O presente é essa metaestabilidade da relação entre interior e exterior, passado e futuro.” (Gilbert Simondon).

Em meio ao passado interior e futuro exterior, a derme: “de criatura esquisita de quem olha/ de baixo de quanto mais baixo de/ muito mas muito mas muito mais/ baixo sob a atmosfera o chão a pele/ sob a pele sob as sete peles”; “toda/ pele arrasta gosta de/ arrastar-se. toda pele/ enrosca. toda pele/ toca. toda pele fuça./ (…) a pele sabe os poros.”; “a alma/ se tem dor não é com/ a pele que sente”; “deixe que a pele se acostume ao/ que não se sabe.”; “toda pele/ à espreita: toda pele é/ outra.” Toda a pele à espreita quer outra, em sua defasagem, nas cinzas das horas depois das horas cinzas das horas depois das horas… – convite que subjaz em O inquilino das horas, embora insurja do mais óbvio e exposto contorno de nossa incontornável realidade de corpo.

 

Arte: Maruzia Dultra

 

Maruzia Dultra é jornalista, artista-pesquisadora e poeta.

 

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154ª Leva - 02/2024 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

DEPOIS DO FIM, A POESIA

Por Sandro Ornellas

 

 

Após dois livros de crônicas, Kátia Borges retornou ao verso com Dias amenos (Segundo Selo, 2023). Nos livros anteriores, lançados durante a pandemia, Kátia escreve com sua palavra de experiente jornalista, de olhar atento aos nossos solucionáveis conflitos, mas também com sensibilidade para o que há de insolúvel. Com suas crônicas, Kátia nos ajudou a atravessar o áspero deserto daqueles anos falsamente distantes. Já neste último livro, um novo de poemas, o olhar de Kátia continua atento ao mundo – na verdade nunca o abandona –, mas traz algo do lirismo pungente da poeta que também atravessou o mesmo deserto que nós todos e todas. E se apegou à poesia através da jornada, trazendo-nos agora o que restou para ser dito pela palavra.

É como ela começa o livro, com um antológico poema sobre a força e a fragilidade com que é feito um poema: “corda tensa”, “quo vadis”, “hades”, “rocha físsil”, “ode extensa”, “mínimo moto”, “solda de estanho, chumbo”, “peça densa”, “equilíbrio em falso”. E nessa sucessão de metáforas, que são o esforço da poeta em traduzir a tarefa de um poema em dizer e sustentar a poesia, o diálogo com os mortos “se aos vivos nada cabe”, o movimento das pedras e “a fímbria espessa do mundo”. Nesse esforço do poema em dizer a poesia, ao poeta restam as máscaras de “vate” e “Sísifo”. Tarefa ingrata, a da poeta. Talvez mais fácil escrever crônicas em um tempo que tanto falou do seu próprio fim. Fim dos tempos. Tempo do fim. Crônicas para tentar entender, já que o poema é somente o que ressoa de “um fio de cobre [que] estoura”. Talvez também por isso o retorno com tanta força durante a pandemia da escrita e leitura de poesia. Quando os tempos fogem à compreensão, só o poema é capaz de dizer algo desse “sem sentido / apelo do Não”, como nos escreveu Drummond.

Se o poeta itabirano falava da memória como amor ao que se perdeu, Kátia fala do amor ao que existe de menor, discreto, ínfimo ou mesmo invisível no nosso dia a dia. A sua poesia ama o que ainda não se sabe ao certo como dizer, embora tenha sido sentido: “amo tudo o que esteja / ainda inominado. […] // resta sossego nos que silenciam / seus mistérios, nos rituais que negam todo acesso, nos poemas ainda não escritos”. O silêncio a que se refere Adriane Garcia no posfácio funciona na poesia de Kátia como contraponto ao ruído de tantas certezas gritadas por redes e cidades, o incessante ruído das pregações, dos moralismos políticos, das propagandas comerciais e autopromocionais, da música consumida ininterruptamente. A poesia de Kátia resiste bravamente aos fogos de artifício da contemporaneidade, artifícios que têm se tornado bombas com cada vez maior frequência. A discrição e – e sem medo de repetir um clichê – fragilidade da sua poesia é sua maior força em tempos de gestos de violência que se esvaem como modas frágeis, ao sabor do vento e das imagens. Da sua poesia, pode-se dizer ainda o que Kafka escreveu sobre “Odradek”, no conto “A preocupação do pai de família”: “Será então que no futuro, quem sabe se diante dos pés de meus filhos, e dos filhos de meus filhos, ele [ela] ainda rolará pelas escadas, arrastando seus fiapos?”. A poesia de Dias amenos nasce madura por se saber discreta e fina.

Mas a contemporaneidade é tempo de poetas, diria alguém equivocadamente evocando Hölderlin. Eles estão por toda parte, publicando, falando, cantando, divulgando-se, posicionando-se, lutando e performando nas redes, nas ruas e no debate público. É justamente por isso que os Dias amenos da poesia de Kátia podem resistir: como testemunho involuntário e às avessas desses dias extremos e ruidosos. Recentemente, em entrevista, eu disse possuir a tese de que em tempos de crise as pessoas recorrem à poesia para tentar se expressar e dizer o que sentem e pensam. É assim contemporaneamente e foi assim, por exemplo, durante a Ditadura Militar no Brasil. A poesia vem quando a vida é colocada em crise, e o papel (social) dos poemas é sempre tentar dizer exatamente aquilo que não se sabe exatamente como dizer, como são as crises. A poesia de Kátia Borges representa muito bem essa noção de lirismo moderno. Principalmente quando seus poemas falam em primeira pessoa do singular, nas incertezas ou nas perdas, nos prazeres ou nos desejos fugazes, nas saudades ou na melancolia.

Em Dias amenos, para arrefecer a passagem do tempo, Kátia busca cumplicidade em pessoas (“Maria, você bem sabe”, “já não há registros de sua vida, Alice”, “vê, amigo, a vida não é nada”, “era um anjo que nem Dona Olga…”), livros (“no tempo certo, os livros dizem não”, “trabalho para viajar e ler livros”), viagens (“um dia volver a julho”, “quando estivemos em Punta del Este”), família (“os olhos verdes de minha mãe”, “minha mãe desatava os nós”, “sou a terceira / a herdar este rosto”, “cada chevette faz lembrar meu pai”), dentre outros sinais para guiar a memória ainda viva: “preocupa-me a âncora /mais que a bússola”. Mas a verdade é que este é um livro de luto, no qual a poeta chora seus mortos, e não apenas eles. É um livro pós-pandemia, tecendo as memórias anteriores à catástrofe, a sua experiência desconcertante (“fundo um país no apartamento, / provisório, imprevisível”) e a consciência do ponto de não retorno (“paisagens que já não vejo”, “escuto em mim a canção do desapego”).

O verso livre de Kátia consegue abarcar muito do lirismo musical, sem recorrer a métricas e camisas de força rítmicas. Sua prosódia é a da brasileiríssima tradição dos cancionistas populares, que tão habilmente retiram melodia do mais prosaico dos fraseados verbais. Paralelamente, há música na sucessão das imagens criadas na hesitação entre som e sentido dos cavalgamentos (“enjambements”) entre versos, como em “mas apenas me calo, a palavra / sumida na boca, // como às vezes some / uma criança, desaparece / um gato, morre / uma flor, uma planta.” Essa é a música dominante das imagens em Kátia, sem dúvida. Todavia, a poeta não se esquece de alguns procedimentos de ruptura com o lirismo popular, que insinuam – mesmo que brevemente – construtivismos, como nas elipses sintáticas de “é preciso rasgar calendários / que não, / subverter cotidianos / que sempre”. São frases quebradas, de sujeitos quebrados, em tempos quebrados.

É bonito, no entanto, como a tristeza e melancolia dos versos de Kátia são capazes de comover e, ao mesmo tempo, promover alguma esperança. E a poeta sabe muito bem disso. Tanto que, à medida que o livro se encaminha para seu fim, sua última parte traz à cena grãos de futuro. Não como horizontes messiânicos de salvação, consagração, vitória e utopia, e sim como experiências possíveis entre a abertura para o inesperado (“sem saber indo de encontro / a um amor pra toda a vida”), a calma (“então cuidemos de pôr calma / em cada letra, antes / que a violência nos transforme”), a consciência da impermanência (“uma esperança não dura / mais que um verão” ou “e, se resisto, é no orvalho / das manhãs que se demoram / só um segundo”) e o eterno retorno à poesia (“e toda tinta torna à pena, / e toda trama torna ao prólogo”). Por isso que a poesia de Kátia Borges sobreviverá como um dos testemunhos mais fiéis do que experimentamos nos últimos anos, fiel como só a poesia é capaz de ser, fiel à sensação de que o fim do mundo, tão comercializado nas redes sociais, só pode ser interrompido pela poesia em sua eterna recusa aos fins.

 

Sandro Ornellas é escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Isto não é uma carta (P55, 2023) e Colecionador de Nada seguido de Ode Florestal (Villa Olívia, 2024), dentre outros.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

notas dispersas e submersas com alguns grãos de areia colhidos no bolso*

Por Alex Simões

 

 

não, não é de agora que poesia e poetas nadam sobre o mar e passeiam sobre e sob as águas doces e salgadas. Homero e Caymmi cantaram seus  mares respectivos, Sapho tirou sua  própria vida se atirando ao mar Egeu e Camões salvou os Lusíadas nadando com apenas um braço livre sobre o mar da Cochinchina, após o naufrágio ter levado sua Dinamene embora. Alfonsina Storni submergiu as saudades de um grande amigo no Mar del Plata, Waly Salomão tomou o mar de  sargaços de Ezra Pound e o ofertou a Maria Bethânia, que canta “Eu e água”, de seu irmão Caetano Veloso, que junto com Gilberto Gil compôs “Beira-mar”.

Matheus dos Anjos traz um livro de poemas encharcado de água do mar, do rio, da chuva e das lágrimas, com cheiro de salitre e uns grãos de areia, pois o “solo de praia cabe no bolso” (limo dos dias).  seus versos passeiam sobre e sob as águas, doces e salgadas, e lançam mão de diversas estratégias formais para imprimir movência em meio à “liquidez  farta – diferenciada / negando Bauman com a força / de sete mares” (menino da costa do dendê). temos haikais e  outras formas curtas da lírica e outras formas com versos tomando mais fôlego a ponto de plasmar-se em um poema em prosa cheio de memórias de uma infância em um certo “paraíso alagado”.

aqui alguns topônimos e gentílicos escondem água dentro. há água em todos os cantos deste livro, inclusive nos títulos, inclusive em outras línguas que não a portuguesa. se Kirimurê é “o mar interior” – como assim os tupinambá denominavam  a Baía de Todos os Santos –,  é com este título que Matheus nos apresenta uma cartografia de uma Salvador muito nos moldes oswaldianos e nos dá a primeira pista para vislumbramos aonde nos quer levar o título enigmático deste livro: “o côncavo onde a água sempre faz a curva”. “axiluandas” significa “homens do mar” e é como os portugueses chamavam os falantes de quimbundo, os ambundos, grupo étnico que, por uma dessas etimologias mitológicas, ao responder sobre o que estavam fazendo, lançaram um “trabalhar com redes de pesca”.

“um marinheiro ao contrário” vive em exílio em seu próprio apartamento no 5o andar de onde recolhe areia guardada nos bolsos. o tema do marinheiro exilado presente em Álvaro de Campos e em Sophia de Mello Breyner Andresen, e não só neles, ressurge aqui plantando o mar numa horta vertical. neste, que talvez seja meu poema predileto deste livro, a segunda parte de um tríptico, encontramos outras pistas para entendermos o que faz Matheus escrever o que escreve e como escreve: “a natureza do mar é não ter paredes” e “[…] a revolta é / estender os formatos” (II – plantei o mar na minha horta vertical).

um marinheiro ao contrário vê as coisas fora de lugar porque despatriado. algas são vomitadas, o tempo deve vir sem relógios e o corpo é “bom de bagunçar”. o erotismo passeia pelas formas estendidas às vezes nada discreto, como em “prepara tua canoa/ se pretende me cruzar” (igarapé).

leia esse livro como quem nada ou sobe uma ladeira durante uma chuva torrencial até passar por uma curva cheia de água que atravessa o teto de uma casa e pinga sobre sua cabeça. tudo nele é água, doce ou salgada, em estado líquido, sólido e gasoso. leia movendo-se entre o mar exterior e o mar interior, não só Kirimurê. se, por um lado, “cada banho leva em si um cadáver” (renovo diário); por outro lado, há um clima de intensa umidade provocando esse mar de dentro a emergir pelos poros, como o poeta, que se equilibra em uma corda bamba e bomba, nos canta e conta em “mormaço”:

 

“se escrevo
é pra fazer meu sertão de dentro
virar mar”

 

* Este texto era para ser posfácio do livro a pedido do autor, mas, por algum mistério da senda literária, ficou inédito.

Alex Simões é poeta e performer.

 

 

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152ª Leva - 02/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

A “segunda natureza” de Santiago Fontoura

Por Gustavo Rios

 

 

Influenciado em certa medida por gente como Gullar, Bandeira e Drummond1, com alguma coisa da postura do João Cabral de Melo Neto, Antipática Lira, do escritor Santiago Fontoura, parece ter sido concebido a partir do observável e do trivial. O miúdo e o comezinho surgem como matéria e o ponto de partida desse trabalho. Lançado pela editora Segundo Selo, no livro percebemos o olhar do poeta que abarca o todo. Que o expande e o reverbera, sem vacilar em seu trajeto.

O poema Empada de Belém talvez seja um bom exemplo para tentar explicar essa minha primeira impressão: “Há eternidade nesta empada de Belém / (é que ela desperta em mim, / já na primeira mordida, / a certeza – que me foge nos intervalos / em que não degusto a guloseima – / de que a vida, somente a vida, / interessa)”.

Do simples ato de comer a iguaria de origem portuguesa, conhecida também como pastel de Belém, Santiago Fontoura desenvolve um dos fundamentos de sua escrita, que é: todo momento vale a pena; tudo merece atenção e questionamento; todo pequeno gesto contém mais do que mostra, e pode se eternizar para quem tem talento e firmeza.

Daí, as perguntas: qual o verdadeiro alcance da ideia que une, num corpo textual, a eternidade presente num momento tão comum (comer algo) e a comoção causada por esse mesmo momento? Talvez um devir em que a vida, “somente a vida” interessa, e que poucos conseguem expressar? Pensemos no ponto de partida, a empada (sim, a empada!). Na motivação que deu origem ao poema. Agora adicionemos o olhar certeiro do poeta (e o paladar também: a empada vale uma epifania, sim!).

Não é exclusividade de Santiago o uso de tal modus operandi, por assim dizer. Essa coisa de converter momentos imperceptíveis aos olhos cegos em literatura de qualidade já vem de longe, sabemos. E os já citados grandes poetas, assim como outros que também influenciam Antipática Lira e que desconheço, agiram ou agem dessa forma; flâneurs ou não, eles arrancam do banal algo maior do que se mostra.

 

O EU E O CABRAL

 

Quanto ao Cabral, na leitura que fiz do livro entendo que a influência do pernambucano reside na ideia da construção pensada. E numa diluição marota do “eu” sem resvalar para a frieza. Nem para a rigidez.

Santiago Fontoura, o tal “eu” dessa minha teoria amalucada, está presente como persona e pronome-da-primeira-pessoa, até, quando necessário, não escondendo a inquietação diante das coisas simples e de um mundo cheio de pressa e ruínas. Mas a forma escolhida para o texto dialoga com o leitor de perto, digamos. Sem firulas nem hermetismos.

Os chamados versos livres despertam um genuíno interesse pela apresentação e pela integração desses versos à construção do resultado final. Tudo flui, numa boa. Fontoura finca pé trabalhando com o trivial, com o alcançável em termos de linguagem. Contudo, apesar do uso de palavras corriqueiras, o poeta onsegue usá-las de uma maneira em que a cadência do texto, assim como sua força metafórica, instiga.

A tal lira surge não de forma esquemática: não cabe o tal decassílabo, muito menos uma estrutura “rígida de rimas consoantes” ou mesmo toantes, usadas pelo “poeta engenheiro” (o nosso João Cabral). Assim como não há a defesa peremptória de qualquer estilo, formalidade, modernidade fajuta, questionamento banal ou posicionamento estético que trave sua criatividade. Antipática Lira nos conquista pelo pungente, essencial no fazer literário, e por um tipo de clareza transcendente, fruto das escolhas de seu criador.

 

A POESIA QUE PERGUNTA

 

No caso de Santiago, o empenho é pela poesia como veículo de indagação sincera e expressão elevada, sem barroquismos. E esse talvez seja o seu trunfo, se levarmos em conta outra obra, Leitura Neon-reciclada, indicando a mesma linha – ao menos em relação ao tratamento formal e o intuito em se fazer uma literatura de respeito.

Vejamos agora se o exemplo abaixo consegue explicar o que digo: “Macho Ômega / “Ninguém sabe, / mas sou um homem triste. / “Desconheço as ternuras cotidianas: / grandes árvores centenárias, / beijo amigo sem escárnio, / música que somente o vento é capaz de reger. / “Trago entre as pernas uma angústia / – esta carne mole (que faz parecer / que apodreço) explicita que, de fato, / sou feito de camuflado tormento / e nenhuma sabedoria.”

Assim sendo, para melhor definir a visão de Fontoura talvez eu deva apostar minhas fichas no que o velhinho Pound um dia escreveu sobre a chamada “segunda natureza”2, em vez de vinculá-lo à obra Cabralina. Quem sabe seja mais próximo da realidade do que uma possível influência do pernambucano que, com seu belíssimo trabalho, deu “à vertigem, geometria”.

 

OS TEMAS

 

Quanto à temática, nas 122 páginas Fontoura reflete sobre muita coisa: religião, ao menos em seu aspecto humano (“Ratzinger”; “Oração”); o amor real, sem um traço de pieguismo sequer; a amizade franca e a questão do “macho”; a literatura e a sua relação com a vida; a própria vida em si (“Antibudismo”, um dos melhores); a política sem partidarismos (“Conclusão de um homem sem partidos ou legendas”); a paternidade; e, para encerrar, a relação dele com nossa cidade, Salvador, com suas ladeiras e idiossincrasias, sendo o poema abaixo um exemplo válido:  “A praia é o limite – e a cidade, então,/ chega ao fim: não há curvas, becos ou ladeiras. / Mesmo a pressa – tão típica –, mesmo a desordem / – inevitável –, assumem uma estranha distância / quando é a ilha o horizonte alcançável.”

Dando uma olhada no conjunto, penso que o autor consegue a proeza de ser cuidadoso na forma abarcando, com seu olhar atento, diversos conteúdos. Isso sem transigir no seu belo trabalho – fato que tornou seu livro um achado para mim. Santiago pode não ter inventado a roda, ao escolher trabalhar com elementos conhecidos (e acho que nem foi essa a ideia, para ser bem sincero). Mas sua escrita, extremamente pessoal muito por conta de sua personalidade, se mostram ao leitor como verdadeira poesia, entendendo (e estendendo) o termo da melhor forma possível.

Assim sendo, vos digo que, se um dia me perguntarem o que resta aos escritores contemporâneos, ficarei em dúvida entre o pastiche proposital e a cópia descarada – a falsa noção de que está se fazendo e se discutindo algo novo. E o poeta “antipático”, foco desta resenha, me pareceu não se perder, sabendo muito bem o que faz e para onde ir ao evitar ao máximo um desses possíveis extremos.

E caso algum dia me perguntem sobre o que achei do livro dele, acho que vou sugerir uma olhada no Ezra Pound3. Ao menos em alguns dos seus conceitos sobre o fazer literário, antes que meu interlocutor pense em julgar Santiago Fontoura. Ou supor que faltou ao cara arrojo e “novidade”.

 
1 Drummond: mais para a chamada “fase do não”, seguindo a crítica; Bandeira: “Estrela da Manhã” já resolve a parada. Gullar: na forma e na poética em si, desconsiderando a fase “partidão”.

 

2 “É precisamente aqui que tem lugar o sistema usual de sofismar com meias-verdades. De fato, as melhores obras provavelmente ‘brotam’, mas só DEPOIS que a técnica se tornou uma ‘segunda natureza’, e o escritor não precisa mais pensar em CADA DETALHE, da mesma forma como Tilden não precisa pensar na posição de cada músculo em cada lance de tênis. A força, o impulso, etc., seguem a intenção principal, sem dano para a unidade do ato.” Ezra Pound em Abc da Literatura, página 72.

 

3 Como disse um amigo escritor: “O livro é quase um manifesto e, pra isso, é preciso ler um pouco a história da literatura, onde estava e para onde ele queria levar. Depois tem isso da tradução. Bom, vencidos esses pequenos obstáculos, o livro flui na leitura ahahahaha”. A gargalhada é verídica.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.

 

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152ª Leva - 02/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

CRÔNICAS DE VIDA E OBRA

 

Por Sandro Ornellas

 

 

O chileno Benjamín Labatut, em Quando deixamos de entender o mundo (2022), é um escritor borgeano que abandonou o misticismo gnóstico presente no argentino para se dedicar a tratar literariamente da ciência moderna em narrativas igualmente desconcertantes e de gênero incerto. Algo entre biografia geracional, poesia cosmológica e ensaio especulativo. Mas o que me chamou a atenção num primeiro momento foi o esforço de caracterização de cientistas como aquele tipo de herói que parece decalcado do que eram os poetas românticos do século XIX: obcecados por suas ideias brilhantes, excêntricos, doentios, gênios incompreendidos, místicos, competitivos, trágicos e apaixonados. Muito do que marca o estilo dessas caracterizações é uma adjetivação implacável, seja através dos próprios adjetivos – como os que usei acima para seus personagens –, seja por orações adjetivas. Além de caracterizar sujeitos que o senso comum toma por alheados do mundo, tal procedimento dá sabor e riqueza literária aos textos.

Um outro traço das histórias de Labatut – mais sofisticado do que essas representações romantizadas – é sua capacidade de articular narrativamente enredos, o que dá aos seus textos certo caráter de crônicas da vida e da obra de uma geração de cientistas. Um dos elementos de que lança mão são as datas, o que possui lá sua objetividade histórica, embora a articulação não seja verídica, e sim verossímil. Isso é reforçado por aspas retiradas de cartas e diários como fontes comprobatórias do que narra. Mas é a especulação o que mais me chama a atenção, e o que pode nos levar a nomear suas narrativas como ensaios especulativos. Encontramo-la às vezes como um tipo de poesia cosmológica, que são as tentativas de Labatut em verbalizar as brilhantes equações matemáticas que os obcecados cientistas formulam para fenômenos de existência puramente teórica.

Há uma passagem do conto “Quando deixamos de entender o mundo” em que Werner Heisenberg ouve de Niels Bohr que “o físico – como o poeta – não devia descobrir os fatos do mundo, mas apenas criar metáforas e conexões mentais. […] Esse aspecto da natureza requeria um novo idioma”. É como se essa passagem, que Labatut reputa como de Bohr, referendasse as próprias descrições de Labatut das equações de Heisenberg e seus rivais. Falando do matemático Alexander Grothendieck em “O coração do coração”, Labatut escreve que “adorava escolher le mot juste para os conceitos que descobria, como uma forma de amansá-los e torná-los familiares antes de que fossem compreendidos sem uma totalidade. Suas étales, por exemplo, evocam as ondas tranquilas e dóceis da maré baixa, o mar como um espelho imóvel, a superfície de uma asa esticada ao máximo ou os lençóis com os quais se cobre um recém-nascido”.

Se, então, essa poesia descritiva da cosmologia científica dá às narrativas seu traço de ensaio especulativo, há também algo dessa especulação ligada a uma outra cosmologia, talvez o principal arcabouço do livro, amarrando textos autônomos. Refiro-me ao contraste estabelecido entre a última das narrativas e o “Epílogo”. Ela ocupa metade das páginas e com o mesmo título da tradução brasileira, é a que trata da história de alguns dos principais físicos teóricos que depois se reuniriam na Bélgica no ano de 1927 para de alguma forma fundar a física quântica. Trata-se de uma geração dourada de cientistas europeus nobelizados que pareciam, com suas formulações brilhantes e rivalidades teóricas, alheios ao mundo de ascensão do nazifascismo no período entreguerras, bem como às arriscadas consequências de suas invenções.

Não é uma história nova essa contemporaneidade entre a criação de uma ciência teórica, distante anos-luz do mundo cotidiano, a ascensão do nazismo, a guerra daí decorrente e a bomba que pôs fim ao conflito no Japão. No livro, também encontramos essa contemporaneidade logo na primeira narrativa, “Azul da Prússia”, sobre a origem, como pigmento azul para pinturas, e os usos do cianureto para suicídio por oficiais nazistas. “Azul da Prússia” é um exemplo da habilidade de Labatut em amarrar histórias aparentemente díspares. Essa especulação narrativa, encontramos, por exemplo, no enredo que entrelaça de modo misterioso as histórias do matemático japonês Shinichi Mochizuki, admirador de Alexander Grothendieck, cuja vida e obra são contadas até seu voluntário isolamento nos Pirineus. Na hora de sua morte, em 2014, lemos a sugestiva hipótese de o japonês estar ao seu lado do leito hospitalar. Pura ficção entrelaçando vidas de dois matemáticos brilhantes e desconfiados das instituições responsáveis por financiar pesquisas avançadas.

Já o Epílogo, todavia, intitulado “O jardineiro noturno”, aponta para o título original do volume, Un verdor terrible, e explicita um contraponto a todas essas histórias trágicas: um narrador (o próprio Labatut?), entre reflexões sobre a vida junto à natureza, descreve a exuberante paisagem andina encontrada no Chile, em especial junto de uma pequena cidade onde se depara com um ex-matemático que abandonou a profissão para se tornar jardineiro e aprender a lidar com plantas. Teria abandonado a matemática inspirado justamente pelo desaparecimento voluntário de Grothendieck. O jardineiro lhe conta saber como árvores cítricas morrem: “sucumbem por superabundância”. Então o narrador lhe pergunta quanto tempo de vida teria seu limoeiro, ao que o jardineiro lhe responde que “não havia como saber, pelo menos não sem antes cortá-lo e olhar dentro do tronco. Mas quem iria querer fazer isso?”. Assim, o livro se encerra e deixa para o leitor a tarefa de comparar esse limite de curiosidade do jardineiro com a hybris trágica que brilhantes cientistas legaram à humanidade.

Concluí a leitura notando que Einstein pouco aparece em suas páginas, sendo esses momentos preciosos contrapontos ao brilho científico dos demais, como quando ele acusa Bohr e Heisenberg de, com seu princípio da incerteza, desmaterializar a realidade física, afirmando que “Deus não joga dados com o universo”. Inspirado pela presença sibilina de Einstein nas narrativas, lembrei de outro livro, No tempo das catástrofes, da filósofa da ciência belga Isabelle Stengers. Nele, ela faz invectivas para que os cientistas politizem suas pesquisas, diante da catástrofe ambiental instalada e crescente, a que chama “Intrusão de Gaia”. Stengers sugere a ciência e os cientistas passaram a ser hoje cultuados, como se tivessem

muito a ver com a ideia de que o pensamento “é algo que se conquista’” [que] pede renúncia e solidão. Por isso muitas daquelas “cabeças pensantes” poderão, por outro lado, se curvar com respeito diante da paixão de Antonin Artaud, que berrava e vociferava que o pensamento não estava “na cabeça’” Mas o que é importante para eles é que berros e vociferação traduzam uma experiência radical, na vizinhança mais próxima possível da loucura. Artaud, promovido a herói cultural, nos oferece então a confirmação de que o Homem é capaz de afrontar, ainda que se perca nele, o caos abissal que é preciso manter a distância para pensar.

Há algo nessa passagem de Stengers que liga Artaud aos cientistas de Labatut que propiciaram, com seus ímpetos de conquista científica, a criação da bomba atômica e, daí, a crise ambiental que proporções planetárias e que apenas começamos a adentrar. Esses “heróis culturais” do século XX afrontaram “o caos abissal” e, se nos legaram orgulhosas fórmulas de enorme conhecimento abstrato, também nos puseram na rota de um risco iminente. Mas isso não é Labatut quem diz – sou eu, leitor, que concluí com o fim dessa leitura fascinante.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.

 

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151ª Leva - 01/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

PAIXÃO SEM ETERNIDADE

Por Sandro Ornellas

 

 

 

O Deus do Trovão e No chão, o anjo são dois livros de Ivan Castilho, escritor capixaba nascido em Parintins-AM, lançados em 2022 pelas coeditoras Cousa e Villa Olívia. No caso do primeiro livro, uma segunda edição, sendo a primeira do longínquo ano de 1988 e que parece ter assumido ares de livro cult no Espírito Santo, pois o autor não voltou a publicar nada, até No chão, o anjo. Aliás, o nome do estado de adoção e publicação de Ivan parece estar subjacente a ambos os livros naquilo que eles têm de inocência e imoralidade, seja para as novas, seja para as velhas sensibilidades. Isso porque Ivan Castilho parece escrever em muitos momentos como um coroinha que sonha com devassidões e luxúrias, para depois contá-las no confessionário ao leitor. Ou melhor, escreve como um adulto que conta suas memórias de pornógrafo voyeur das mazelas morais e sociais da humanidade brasileira. Ou ainda, como um moralista que sabe muito de perto a alma perturbada que ele próprio e o mundo em que vive possuem, e fala dela para expiar todos os seus pecados. Por fim, como fino observador narra as contradições humanas que muitos querem obrigar a ser coerentes em julgamentos sumários.

Coerente é, na verdade, o próprio Ivan, pois tudo isso vale tanto para o livro de 1988 quanto para o de 2022, apenas um pouco mais amplo na rede temática, embora estejam lá os mesmos tipos e a mesma linguagem. O mundo de Ivan Castilho é o dos que frequentam o subsolo moral da sociedade, à caça de sexo safado, perdidos nas ruas e “bares atômicos” ou entediados em casa, com suas famílias, seus casamentos ou subempregos. Em nenhum desses casos, a felicidade é de fato realizada, apenas sonhada e trocada por um tesão onipresente e grotesco, ou abandonada na frustração pelo alto grau de indignidade em que vivemos. São homens e mulheres em casamentos falidos, malandros mutreteiros, gays solitários e infelizes, estudantes vagabundos, desesperados crônicos. Todos sempre cansados da vida e, ao mesmo tempo, com um tesão irrefreável e pronto para descarregar-se junto à primeira pessoa que o capture, fazendo desses personagens seres apaixonadamente humanos no tratamento que lhes dá Ivan.

Essa contradição, entre o cansaço e o tesão, torna-se evidente porque o autor não deseja despertar pena para seus personagens. Muitos deles, cheios da radioatividade lírica dos homens alcoólatras, das esposas impuras, dos velhos priápicos, dos pedófilos condenáveis, dos adolescentes espinhudos, das mulheres lascivas, dos artistas da vida, dos bêbados tombados, das ex-prostitutas – todos assediados e assediadores profissionais. Profundamente solitários e silenciosos em sua dor.

Enquanto lemos seus minicontos, somos geralmente tomados por diferentes afetos em relação aos personagens. Se começamos algum texto sentindo identificação e tesão, podemos passar rapidamente à repulsa e reprovação – dos personagens e, discretamente, também de nós. Ivan dá voz a homens e mulheres que carregam vidas de desesperança e culpa, de inocência e crueldade, de humor e violência. E que não desistem de vivê-las, apesar de algumas vezes assomar nos enredos algum desejo suicida. É o que Ivan parece traduzir ao evocar repetidamente a figura do anjo, caído e abandonado pelos deuses para vagar sem destino na superfície do mundo: “O anjo, então, caiu de joelhos, ajeitou cabelão loiro, falou mal dos últimos deuses pelo abandono, cuspiu sete espinhas de peixe miúdo e deu um longo suspiro”, ou “Caem alguns anjos – aqueles que desistiram da eternidade”.

Nos dois livros, a vida é o que transcorre fora das telas, rodrigueanamente como ela é, desidealizada, sexualizada, dolorosa, fora-da-lei e triste, muito triste: “Tristeza da porra, tristeza que não tem fim não tem não tem”. O olhar de Ivan para o mundo é de um ceticismo apaixonado, de quem investiga com detalhes o desespero de que é feito o ser humano nesta quadra da história. Isso faz da paixão de Ivan pelos tipos populares uma paixão sem eternidade e sem amor, senão o fugaz e grosseiro. O autor parece cético também em relação à própria literatura – “grandes merdas, esta folha branca, esta caneta preta” –, com apenas dois breves e muito espaçados, embora intensos, livros publicados.

Se seus textos podem ser lidos como minicontos naquilo que possuem de enredos elípticos, muito do efeito criado é próprio da poesia lírica: “Dia a dia simples: minha estrada de tijolos amarelos é aceitação da morte lenta, aquela que sempre chega no fim da tarde: chega macia e rasteira, quase cinza – puã de caranguejo – e aperta aperta aperta aperta”. Na maioria das vezes, um único parágrafo de poucas linhas desenhando vidas menores. É como se Ivan não acreditasse mais nas potencialidades do romance, ou mesmo do conto de maior extensão, de uma narrativa mais estruturada em torno de uma vida. Tudo que sobra são restos de histórias e de vidas. Que Ivan trata de colecionar e experimentar como fragmentos de vidas falhadas. Pois é disso que se trata nos relatos de Ivan: o que resta de possível nessas vidas, que são vividas com tanta força e fragilidade. Para contá-las, no entanto, só sobraram restos de biografias, de romances e de linguagem. Em O Deus do Trovão, percebe-se uma maior experimentação sintática, enquanto No chão, o anjo há um pouco mais de coesão narrativa e reflexiva. Embora nunca nada que se coloque com autonomia de pé. Nada que não solicite do leitor imaginar aquilo apenas recolhido em palavras:

“Seis e meia. Hora sagrada da grande caçada. Ônibus escolhido a dedo: o que passa pela praia do morro. Linha preferida das pobres moças balconistas da rua do trabalho. O herói na melhor roupa: bermudão de marca óculos chingling ráibam chinelão ráider. Barrigão espremido, peito de pombo estufado, cabelão repartido. Olha aquela que pegaria todinha aquela aquela faria amor selvagem nas pedras do siribeira clube. De noite noite toda noite toda toda noite.”

São cenas o que os textos de Ivan constroem, o que os faz imagéticos e com precisão descritiva, quase cinematográfica: “Camisa de seda branca, marcada ao meio por um filete de sangue; pulso esquerdo com fita azul, traçada sete vezes, pelos sete santos; no peito – sem pelos – a estaca brilha, grávida de tantas mortes”. É o texto que abre O Deus do Trovão, “O franco-atirador”, exemplar por muitos motivos: 1) a habilidade em descrever histórias com a precisão de um poeta em fazer imagens, 2) a síntese narrativa conduzida discursivamente a partir do título, 3) a caracterização psicológica do personagem através de elementos concretos e 4) a repetição de marcas estilísticas que, presentes nesse texto, continuam 34 anos, no outro livro. Por exemplo, no uso enigmático do número sete, que aparece acima na contagem dos santos, mas que vemos em inúmeros outros textos de ambos os livros como sete selos, sétimo banco, sete chagas, sétimo dia, sétimo prédio, sétima vértebra, dentre outros. Muito se poderia dizer dos significados místicos do número sete, mas Ivan vai do sagrado ao profano no seu uso. O mesmo vale para a figura do anjo, do tubarão radioativo e da castanheira: “para mim, toda árvore perto do mar é castanheira ou coqueiro”.

É, portanto, nas repetições temáticas, estilísticas e vocabulares de Ivan que encontramos o escritor com suas obsessões mais íntimas. Os textos são escritos com o sarcasmo que parece hoje um tanto démodé, mas que afirma uma parcela da humanidade para quem bem e mal não se diferenciam. Ao contrário, encontram-se unidos, principalmente no corpo apaixonado. Eu poderia listar aqui escritores que formam par com Ivan, mas evito apagar sua singularidade literária, submetendo-o a nomes consagrados. Por isso, concluo apenas registrando que é a paixão sem desejo de eternidade o que move a literatura de Ivan Castilho.

Vale!

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Mohamed Mbougar Sarr: o gênio senegalês e o novo compasso literário

Por Viviane de Santana Paulo

 

 

Mohamed Mbougar Sarr é um escritor nascido no Senegal, ganhador do Prêmio Goucourt de 2021, o mais prestigiado prêmio literário francês, com a obra A mais secreta memória dos homens (se bem que, nos dias de hoje a palavra homem para definir toda a humanidade deveria ser substituída por humanidade, ou seja, A mais secreta memória da humanidade). O romance trata do racismo no meio literário e da paixão pela criação literária, além de aspectos sobre a imigração e o colonialismo africano, e é uma crítica ferrenha contra o meio literário francês. Mas sendo este meio nada diferente de outros, nos quais rege a classe dominante de homens brancos provenientes de países ricos, a crítica de Mbougar Sarr é válida para a maioria dos meios literários mais influentes do planeta Terra.

O enredo é complexo, narra a Odisseia do protagonista, estudante senegalês de filosofia em Paris, chamado Diégane Latyr Faye, e a sua obsessão em torno do romance fascinante intitulado O labirinto do inumano, publicado há setenta anos, que conta a história de um rei sanguinário que através do Mal absoluto pretende alcançar o poder. Com a ajuda da polêmica escritora senegalesa, sexagenária, Maréme Siga D, o protagonista inicia uma pesquisa sobre T. C. Elimane, o autor do livro, que foi acusado de plágio nos anos trinta, em Paris, e sua obra retirada de circulação. Por consequência, o escritor desaparece, transformando-se em numa lenda. Mbougar Sarr inspirou-se na verdadeira história do escritor maliano Yambo Ouologuem, que em 1968 publicou o romance Le Devoir de violence (O Mandamento da Violência), com o qual ganhou o Prix Renaudot.

As referências a Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, são óbvias em vista das muitas reflexões. Aliás, o enrendo é repleto de diversas referências culturais. Como, por exemplo, T.C. Elimane procura o assassino de seu editor Charles Ellenstein, na América do Sul. Ellenstein morreu em um campo de concentração denunciado e torturado pelo literata nazista Joseph Engelmann. Neste trecho, Sarr menciona autores como Ernesto Sábato e o exilado Witold Gombrowicz. A busca pelo misterioso autor da fantástica obra dá-se em vilarejo senegalês, na Paris contemporânea e na Argentina pós-guerra.

No decorrer do enredo, Mbougar Sarr levanta questões controversas sobre o meio literário e seus vícios e limitações, como, por exemplo, na voz da personagem Siga D., ao indagar se alguma coisa mudou no meio literário: Fala-se sobre literatura, sobre valores estéticos, ou fala-se sobre a pessoa do escritor, sua cor da pele, sua voz, sua idade, seu cabelo, seu cachorro, sobre o pelo do cachorro, sobre a decoração do apartamento, da cor de suas meias? Fala-se sobre a escrita ou sobre a identidade, sobre o estilo ou sobre a imagem midiática do/a autor/a? Fala-se sobre criação ou sobre sensacionalismo e culto ao/a autor/a? Mbougar Sarr confronta-nos com a dúvida: deve a literatura estar imprescindivelmente encarcerada na nacionalidade, na cor da pele, na idade, no meio social, no gênero do/a autor/a? Ou devemos interpretar estas características como um aspecto adicional?

 

Mohamed Mbougar Sarr / Foto: Bertrand Guay 

 

Segundo o crítico literário alemão Tilman Krause, no jornal Die Welt: “Sarr refere-se inteligentemente aos discursos mais atuais sobre identidades e políticas de identidade, por exemplo, transformando um romance fictício de 1938, escrito por um senegalês fictício, em um “campo de batalha ideológico” onde, ao invés de questões sobre qualidade, são negociadas ou discutidas questões sobre a identidade do autor. Sarr não está preocupado com qualidades particulares, mas com o que significa ser humano.”

Igualmente, o escritor argentino Juan Jose Saer trata sobre este tema em seu ensaio La selva espesa de lo real, no qual ele menciona: la narración no es un documento etnográfico ni un documento sociológico, ni tampoco el narrador es un término médio individual cuya finalidad sería la de representar a la totalidad de una nacionalidad. Saer repudia a tendência dos críticos europeus em interpretar as obras de autores latino-americanos exclusivamente através do olhar folclórico e colonialista e indiretamente esperar que autores latino-americanos escrevam estritamente sobre temas relacionados à cultura e política de seus países, ou seja, escritores de nacionalidades e procedência não europeia, não branca, estariam condenados a escrever somente sobre questões sociais, culturais e políticas de seus países de origem. Caso contrário, a autenticidade desta obra estaria prejudicada.

Em A mais secreta memória dos homens o personagem Stanislas, tradutor do polonês trabalhando na nova tradução de Gombrowicz Ferdydurke, está convencido que os autores devam ter permissão para escrever o que quiserem, independentemente de onde moram, de onde venham ou da cor de sua pele, e que a única coisa que você tem a exigir dos autores é talento.

Mbougar Sarr, como escritor negro, africano, imigrante, denuncia esteticamente esta falha no meio literário. O fato de a crítica trazer à tona termos generalizados como emigração e exílio sempre que se trata de autores não brancos e não nacionais é um de seus equívocos, como aponta o protagonista Diégane. Sarr antecipa e responde a muitas destas críticas no próprio romance. Além disso, parte da obra é sobre ativistas políticos e a manifestação pela democracia no Senegal.

A mais secreta memória dos homens possui gêneros e temáticas diferentes, e é uma reflexão poética e metafísica sobre a escrita e a literatura em geral – a literatura em geral.

 

Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e Abismanto (poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007).  Seus poemas têm sido publicados em várias revistas e jornais na América Latina e Europa. Em 2012, participa do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua, e em 2016, do XX Festival Internacional “Noites de Poesia”de Curtea de Arges, Romênia. Atualmente, vive em Berlim.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Outros campos de visão

Por Helena Terra

 

 

Ruído nos dentes. Embora, no título, a provocação seja à minha arcada dentária e ao meu maxilar que, volta e meia, expressam minha pulsão de vida e, volta e meia, meus picos de raiva e desconforto, quem, de verdade, se exalta diante dos versos e da prosa deste livro, estranhíssimo no melhor sentido, da Vivian Pizzinga, são os meus olhos.

E o que leem os meus olhos que embaralham os meus pensamentos como se eu estivesse sem óculos ou dentro da dissonância de um sonho permeado pelos poemas e histórias que leio e que, então, recrio e reescrevo enquanto durmo? Sim. Reescrevo o que me absorve, quase sempre com as mesmas palavras que suas autoras e autores, nas horas que eram para ser de repouso. Horas destinadas a regeneração do meu corpo que acabo por usar em favor da minha imaginação.

Imaginação. Eis algo que se multiplica e transborda em grande escala e ressonância no Ruído nos dentes. Imaginação construída em cima da linguagem, dos versos em ruptura com sua própria natureza e em conluio com a prosa, híbridos e livres além do conceito de versos livres. Insubordinados. Desobedientes.

E imaginação construída também em cima da vida no que ela tem de trivial, com suas repetições quase necessárias, no ato de se tomar um café e de pegar o metrô e de tirar a remela dos olhos porque a rotina tem encanto. “A rotina tem seu encanto”. Adoro essa frase. É o título de um filme do Ozu. E falo sobre um filme aqui porque o Ruído nos dentes é muito visual e entrou em cartaz no meu cérebro faz semanas.

Faz semanas que escuto e vejo os seus poemas. Todos em movimento. Em várias sessões. Os meus favoritos são aqueles à beira da crueldade, um tanto malignos, que se movem rasteiros pelo lado mais de dentro de tudo que há de mais inquietante no meu lado de dentro. E que aí me machucam enquanto transformam as minhas percepções em memórias e em elaboração e resistência estéticas. O Ruído nos dentes é um livro sobre resistir. Resistir de verdade.

“A verdade raramente é compreendida por pessoas sem imaginação”, uma personagem de um outro filme, Os inocentes, dirigido pelo Jack Clayton, diz. Livros também raramente são compreendidos por pessoas sem imaginação, eu digo cá com o meu teclado testemunha das tempestades que atingem os meus neurônios. O livro da Vivian Pizzinga é uma. O Ruído nos dentes é uma rota elétrica, de energia. Quanto mais a gente o lê, mais forte ele se torna e indecifrável e inalcançável como devem ser as obras de arte.

 

Helena Terra é de Porto Alegre. É jornalista, criadora e coordenadora do Grupo de leitura e escrita A palavra tem nome de mulher, dentro do presídio feminino Madre Pelletier, com as mulheres privadas de liberdade. Faz leitura crítica de originais e mentoria de escrita com escritores iniciantes. Cursou a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS, e frequentou os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias e organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros”. É coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”, publicada em 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt. E lançou o seu segundo romance “Bonequinha de Lixo”, em 2021.