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132ª Leva - 04/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra III

Um recorte da construção de Brasília no romance de Lima Trindade

Por Geraldo Lima

 

 

Brasília tem servido de cenário ou tema para obras de gêneros literários diversos, mostrando, com isso, sua importância como centro do Poder e, ao mesmo tempo, como cidade que vai, aos poucos, criando sua própria identidade cultural. Quase sempre a vemos retratada já como centro urbano consolidado, em pleno desenvolvimento, exibindo tanto sua beleza arquitetônica, seu inusitado plano urbanístico, quanto os problemas sociais que a cercam ou espalham-se em seu interior. Vê-la retratada ainda durante a sua construção, ora com olhar de encanto, ora com olhar de crítica severa, é coisa rara de se ver. Em As margens do paraíso [romance, Cepe Editora, 2019, 269 páginas], o escritor Lima Trindade, nascido em Brasília e vivendo atualmente em Salvador, cumpre esse papel e nos transporta para o cenário de avenidas empoeiradas, canteiros de obras sob o comando de empreiteiras e empresas públicas, alojamentos precários, escritórios, boates e zonas de baixo meretrício, numa Brasília que marcha para ser inaugurada, impreterivelmente, no dia 21 de abril de 1960.

Antes, porém, de fazer com que a vida de seus protagonistas – três jovens brancos de diferentes camadas sociais – convirja para esse cenário épico da construção da nova capital do país, ele apresenta cada um deles em sua respectiva cidade: Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro. É nessas localidades, distantes umas das outras, que vemos como se deu a formação intelectual e afetiva desses jovens e de como os ecos da construção de Brasília chegavam até eles.

 

A estrutura do romance e a vida dos personagens

 

Como há dois momentos importantes marcando a vida dos protagonistas Leda, Rubem e Zaqueu, Lima Trindade optou, acertadamente, por dividir o livro em duas partes.

Na primeira, a narrativa é feita em 1ª pessoa e cada capítulo recebe o nome do narrador-personagem [Leda, Rubem, Zaqueu], assemelhando-se, nesse aspecto, ao romance Enquanto agonizo, de Faulkner. Desse modo, ficamos sabendo das frustrações, desejos e aspirações de cada protagonista, quase sempre em confronto com o meio em que vive. Leda sofre ao ser explorada na casa do padrinho, em Juazeiro, enquanto sonha com os artistas do rádio e do cinema. Aos poucos, o desejo que sente pelo padrinho vai complicando sua vida, a ponto de levá-la a um desfecho trágico.  Rubem, ao mesmo tempo em que se anima com a ascensão no emprego, frustra-se na vida amorosa, e isso será decisivo para que mude radicalmente seu projeto de vida longe dos bares e praias do Rio. Zaqueu, filho de pais ricos, pertencentes à elite anapolina, rebela-se e nega-se a continuar os estudos. O pai, que o leva ao prostíbulo para que se inicie na vida sexual, é o mesmo com o qual tem duros embates. Todos eles, impactados por acontecimentos trágicos, como é o caso de Leda e Zaqueu, ou frustrantes, no caso de Rubem, vão amadurecer e ganhar, praticamente, uma nova personalidade no universo agitado e tenso da capital que se ergue em pleno cerrado.

Na segunda, ainda que haja dois capítulos curtos, que recebem também o nome do narrador-personagem [Mauro] e com narrativa em 1ª pessoa, vai predominar a narrativa em 3ª pessoa no longo capítulo intitulado “Brasília”.  No novo cenário de cidade em construção, de busca de novos horizontes, de adaptações ao novo ambiente, o narrador onisciente cumprirá bem a função de nos apresentar os personagens com maior riqueza de detalhes, tanto física quanto psicológica. Assim, ficará bem clara a mudança de caráter de Zaqueu e de estilo de vida de Rubem, e isso terá papel fundamental no desfecho da história. O uso do narrador onisciente permitirá, também, que o autor nos forneça um panorama das atividades desenvolvidas na construção da capital, envolvendo desde as empreiteiras até os prostíbulos na Cidade Livre, os quais, de certo modo, ganham relevo nesta narrativa de Lima Trindade. Aliás, o sexo tem um grande destaque nessa história, chegando a influenciar no seu andamento. Assim, podemos perceber que é nos prostíbulos e boates da Cidade Livre que ocorrerá boa parte dos encontros dos personagens. “Zaqueu estivera em outros bordéis da Cidade Livre antes. Divertira-se, bebera e, afora o prazer que desfrutara nos braços femininos, descobriu ser nesses espaços que as oportunidades de negócios se apresentavam com maior frequência. Não quaisquer negócios. Mas justamente os mais lucrativos. Assim como não se apresentavam em quaisquer bordéis” [página 180].

É interessante observar também que a construção frasal muda de uma parte para outra. Na primeira, ouvimos a voz de cada protagonista narrando, no presente, seu cotidiano e os conflitos nele inseridos, e sempre num ritmo mais acelerado, entrecortado, devido ao uso sistemático de frases curtas. Esse procedimento está bem de acordo com a estratégia narrativa adotada pelo autor para esse momento da história. Já na segunda, sob a ótica do narrador onisciente, com amplitude de olhar, as frases longas imprimem à narrativa, que se dá no passado, um ritmo mais lento e possibilitam um maior detalhamento do espaço, dos estados psicológicos e das características físicas dos vários personagens que aí transitam.

 

Pesquisa histórica e imaginação

 

As margens do paraíso é fruto de apurada pesquisa histórica realizada por Lima em cada localidade em que ocorrem os fatos narrados. Durante sua leitura, deparamo-nos com personagens reais envolvidos na construção de Brasília, como é o caso do político Israel Pinheiro e do escritor e também engenheiro Samuel Rawet, e com fatos do conhecimento de todos hoje em dia, como o massacre no alojamento da Pacheco Fernandes. No livro, já com a interferência da imaginação do autor, assistimos a esse triste episódio acontecer em outro lugar: “Meia hora depois, dois caminhões repletos de soldados da GEB ultrapassaram a fronteira dos portões da Estevão Muniz e estacionaram na parte dianteira do alojamento de solteiros, onde havia a maior concentração de operários da empreiteira” [página 258]. Em Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro, percebe-se o cuidado do autor em apresentar ambientes e situações culturais pertinentes ao momento histórico em que os personagens vivem. Vemos já a presença de mulheres com discurso e postura feminista, jovens articulando ações de esquerda no ambiente estudantil, uma juventude influenciada pelas novidades no campo da música e da moda etc.

Assim, a trama deste primeiro romance de Lima Trindade envolve um elemento ficcional, em que a imaginação do autor molda e move as ações dos personagens, até se cruzarem no cenário da construção de Brasília, e um elemento histórico, que serve tanto como cenário, ou pano de fundo, quanto como elemento fundamental no desenvolvimento da história e do seu desfecho.

Lima Trindade, nesta sua obra, além de nos apresentar de modo intenso a trajetória de três jovens brasileiros na década de 1950, nos transporta a um momento singular da história do nosso país, em que se sonhou verdadeiramente grande. Porém, ele não se furta ao dever de apontar os sérios problemas que essa empreitada, levada a cabo por Juscelino Kubitschek, produziu, como, por exemplo, a exploração da mão de obra dos candangos pelas empreiteiras. Em As margens do paraíso, como o título mesmo sugere, de modo irônico, já anunciam-se os graves problemas sociais que ainda hoje cercam o Plano Piloto e dão conta do fracasso do sonho de JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

No tempo da delicadeza

Por Lima Trindade

 

 

Publicado pela Patuá em 2018, Por assim dizer recusa neons e maneirismos. O livro vai na contramão de boa parte do exibido nas páginas das redes sociais e nos estandes das livrarias em que as capas das publicações precisam desesperadamente chamar a atenção de um público não mais tão interessado em atributos como discrição e  elegância. Basta ver a predominância de best-sellers nas vitrines, suas capas carregadas de cores berrantes, seus títulos ofensivos (tanto pela gratuidade do uso de palavras de baixo calão quanto pela “originalidade” de sua poesia). Perto deles, Por assim dizer soa prosaico demais, dito quase como um sussurro para não incomodar a sensibilidade de seus possíveis leitores. No entanto, observemos que a utilização da locução por assim dizer enquanto nome da obra também guarda uma valiosa declaração de intenções, uma não aceitação de um único modo de se ver e se falar sobre as coisas do mundo, uma necessidade de relativização (e reflexão) que julgo extremamente bem-vinda para nosso cenário cultural contemporâneo.

São 16 contos a compor a primeira parte e a reverberar numa segunda. São 16 contos que tratam da condição humana num cenário muito, muito, muito próximo ao que vivemos, presenteando-nos cada um deles com uma centelha de emoção que jamais esbarra em pieguismo, retórica maniqueísta nem pirotecnias linguísticas.

Os temas são variados e estão divididos em “Dos amores”, “Das dores”, “Das viagens”, “Das memórias” e “Das paragens”, desdobrando-se em muitos outros subtemas e situações de conflitos em que os protagonistas lidam com diferenças sociais, violência, desamor, sonhos, esperanças e perdas, as personagens agindo e reagindo como seres autônomos, vivos, senhores e senhoras do próprio destino, muitas vezes nos surpreendendo por suas escolhas e pontos de vista únicos.

Yara Camillo nos faz adentrar a mente de um criminoso quando ele aplica um golpe por telefone num velhinho, permite que acompanhemos os impasses de uma mãe excessivamente protetora em admitir a escolha amorosa do filho, que compartilhemos as alegrias etílicas de uma sem-teto que não sabia rezar, o choro de uma cafetina pela morte de uma das suas protegidas, o pavor que um notório malandro tem de noites de temporal e escuridão, a estranha e compulsiva relação entre uma fã e uma escritora novata e, até mesmo, lança um petardo contra a indústria farmacêutica em sua ânsia monetária.

Esses são alguns exemplos que demonstram vividamente seu interesse em entender de maneira mais profunda a sociedade em que vivemos, mas que seriam vazios se ela não potencializasse a linguagem a seu favor, se não fizesse da técnica uma aliada.

Yara Camillo é adepta da economia verbal. Ela sugere muito mais do que afirma, mostra muito mais do que conta, diz muito ao dizer pouco. Segue o caminho dos mestres, sobretudo Tchekov, Cervantes e o uruguaio Juan José Morosoli, na delicadeza com que constrói suas cenas e explora a tensão de experiências aparentemente banais, assenhorando-se de um tempo com um compasso menos apressado, muito menos leviano. É o que constatamos na abertura de “Duas vias”:

“Ele abria a porta do carro para que ela entrasse.

− A velhice dando passagem à juventude?

− Não: a sabedoria dando vez à pretensão.”

Já neste começo entrevemos o jogo de poder entre o casal, a provocação inteligente, a sedução, o humor, os embates que terão no futuro.

“Com fatos banais e incidentes corriqueiros é possível entrever toda a transformação de uma vida passada a limpo”, diz Arlete Cavalieri ao comentar a síntese poética da narrativa de Tchekov, acrescentando ser essa vida “fragmentária, sem relações imediatas de causa e efeito, sem respostas definitivas aos conflitos e predisposta ao inesperado e ao inexplicável”, juízo esse que se adequa perfeitamente a Por assim dizer, um livro que se presta a mais de uma leitura e não se rende à pressa dos relógios nem à brutalidade das cifras dos mercados. Sua arte está inserida num tempo outro: o tempo da delicadeza.

 

*Para adquirir a obra, clique aqui

 

Lima Trindade é escritor e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Bahia.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Extemporâneo e hermético (?)

 Por Krishnamurti Góes dos Anjos

 

 

O cenário cultural brasileiro é mesmo cheio de surpresas.  Em que pese nosso antológico marasmo, nossa visão curta e imediatista voltada para os imperativos do bolso e do estômago, essa carga tremenda de depressão de valores, de crises éticas, de estagnação de iniciativas que somem à nossa Cultura, e a paralisação criativa em que vamos afundando, aqui e ali surgem centelhas de genuíno talento, inventividade e perseverança. No Litoral Norte do Rio Grande do Sul (cerca de 100 km de Porto Alegre), há uma pequena cidade chamada Osório, onde vive o poeta e professor de português, literatura e texto técnico da rede pública de ensino chamado Anderson Alves Costa ou, como é mais conhecido, Delalves Costa. Muito bem, o senhor Costa tem já 7 livros de poesia publicados (ele tem 37 anos), e estará em breve lançando o oitavo, que se chama Extemporâneo. Uma coletânea de 50 poemas, alguns deles já publicados em livros anteriores.

E republicar alguns poemas tem mesmo o seu valor, expliquemos por que. Novamente, em que pese essa nossa amalucada sede de ineditismo, vamos deixando de esculpir a linguagem, aprimorar a expressão da técnica literária (isto é imprescindível para todos, sobretudo para os iniciantes), para, finalmente, refinar as criações. O poeta, como declarou em entrevista, é adepto do exercício da reescrita, o qual, em geral, é o mais exaustivo processo, momento em que intensamente se trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Antes de irmos mais adiante na apreciação crítica da obra, vejamos o que ele reponde quando perguntado, na mesma entrevista, quanto a temas e estilo: “As nuances do mundo me fascinam, para cada época um olhar sob a ótica das vivências e experiências de leitura. Escrevo poesia puramente descritiva, hermética (grifo nosso) e/ou memorialista, ou experimento a mistura dessas. Verso sobre o cotidiano, e tudo que o cerca e o que nele habita. Contudo, algumas temáticas aparecem com mais frequência, como já apontaram os críticos e leitores mais atentos. A reflexão sobre existência/condição humana e seus disfarces, a natureza e suas nuances, o universo urbano e suas transformações, a infância/tempo/velhice, o descaso social e o erotismo são os temas mais relevantes, isso quando comecei a me dedicar à produção literária mais intensamente. Não cultivo hábitos, minha poesia vem da vida. Simples assim!”

Volvendo ao livro. Como se sabe, o adjetivo “extemporâneo” significa o que ocorre fora do período ideal; que se manifesta numa época inapropriada ou que acontece inoportunamente; fora do momento oportuno; impróprio para o tempo ou circunstância em que ocorre. E aí temos uma das preocupações centrais da obra desse autor. O tempo, esse senhor dos destinos, é objeto de vários poemas. Interessante notar que esse tema aparece hoje em inúmeros poetas. Há, em nosso tempo do “aqui e agora” e paralela a essa carreira desabalada em que vivemos, uma preocupação terrível com o escoar do tempo em nossas vidas. É que nos damos conta – porque estamos presos a essa variável existencial – que afinal não tiramos tudo ou mesmo nada, como queiram, do desfrute da existência que o próprio tempo de EXISTIR nos proporcionaria. Mais uma de nossas frustrações elementares. E ninguém pense que estamos a nos referir às fases naturais da vida. Infância, idade adulta, maturidade, velhice e etc… Vamos queimando etapas e já nem sabemos viver cada uma delas. Esse nosso sombrio tempo. Veja-se o poema:

 

Tempos de solidão

A enviar distâncias, / O descartável e-mail / Que afasta as vozes / Que isola os afagos / E amarra os relógios / Sequestram o tempo / E as vigas de metal. / O castelo é de areia / Já não tarda, o mar / À deriva, o alicerce / À deriva pessoas partem / Seguem e chegam / Como postam cópias / Sem tato sem fogo. / Solitárias, obstinadas / Passam pelos dias, / Vagam pelas noites, / Passam pelas ruas, / Vagam pelos fatos / E negam a si mesmas. / Fronteiras já não há… / O que há são curvas / E distâncias: solidão / Sem direita, esquerda / Sobre a linha tênue / Solidão enunciativa / Num virtual percurso / Entre o lá e o só! / Descartável, est(a)rte / De viver morrendo / Qual metal sem flor… / E poema sem dor… / E carnaval sem cor… / A enviar distâncias / A projeção, o eco / Da sombra curva / Sem rua, sem teto / Nem caverna pelas paredes!

 

O poema abaixo dá a exata medida de como o poeta pensa o Extemporâneo:

 

Palarvas – o Extemporâneo

 

I

Pra libertar, esterco. Lavras / e larvas no inconcluso / caos! Se não devora / germina-se no recluso / extemporâneo afora, / das g(est(ações às palarvas

 

II

pretenso por versos brancos / a tensionar decolonial / de Abaporu a Boitatá / gesta-se arte, ou será / terra esquartejada tal/ Bruzundanga aos trancos…

 

III

Fecundamo-nos outonais / agora e subversivos / ou é caos, pleno luto / pela página! Inculto, ocultam-nos outrora / para dializar os carnavais.

 

IV

Homemporâneo de lavras / em palarvas extrai arte / e a reparte! Destarte / ora canibal ora mito, / ver-se não circunscrito / a estercar-se de palavras.

Os poemas desse livro realmente versam sobre a vida, o amor, o tempo, as ausências, um nítido engajamento social e a própria poesia. Abordam o homem em suas questões existenciais em busca da compreensão metafísica desses temas. Há na obra textos não somente verdadeiramente bem trabalhados, como de uma profundidade existencial digna de nota. São exemplos: “Maria e José e a Família”, “Quixote – leitor de amanhãs”, “Epifania – a flor politizada”, “Vividez – iguais perante a lei”, “O Trágico de Os – o rio pelas veias”, “Ao rio, gozo de Oceano”, “O Homem sono em claro”, “O Efêmero coadjuvante”, “Antropofagia”, “Linguardente”, “Na praça, cão e ninguém” e “Inconcluso – o Homendereço”.

Uma das vertentes que o poeta envereda é também das mais curiosas e criativas. Referimo-nos à reelaboração ou redimensionamento ou, ainda, uma atualização de questões formuladas por outros poetas que, sem dúvida, contribuíram para sua formação literária. Por vezes, ele apropria-se somente do mote de um poema. Identificamos dois momentos nos quais aparecem referências, embora que indiretas, a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.  Não há como deixar de recordar de Bandeira ante a leitura de “Vou-me embora pro Asteroide 329”. No poema de Bandeira – “Vou-me embora pra Pasárgada” -, há aquele desejo de evasão ante as impossibilidades de uma vida prestes a findar-se pela doença que o atormentava e pelas restrições de uma vida acanhada e sem perspectivas de felicidade. De toda uma vida que podia ter sido e não foi. Já em “Vou-me embora pro Asteroide 329”, o desejo de evasão está, a nosso ver, diretamente ligado ao fazer literário do próprio autor em um meio extremamente desfavorável. Fica a pergunta a propósito do livro: Quem ou o quê é extemporâneo? O poeta ou o mundo que insiste em não enxergar verdades?

 

Vou-me embora pro Asteroide 329

 

I

Velam a morte sem corpo / ao falar a língua dos contrastes, / a língua dos estupef(atos). / Divago explícito e tolo / entre tortos poliglotas, / sem a estes pertencer; / de minuto em minuto / acendo os lampiões / pra iluminar Josés e Marias / e seus íntimos países.

II

Mas em tempos de fogos / de ruas e fogo, de mãos / e brasas, sobrará país? / Embora lhes faltem pão, / assistem ao circo / nos bares e lares / os vio(lados opostos).

 

III

Embora eu sofra de mudança, / eu clamo por metáforas! / Prefiro isso a feias verdades: / ócio a divagar. Portanto, / vou pro Asteroide 329, lá / eu falo a língua dos lampiões, / liberto silêncio das ruas.

Sob outra visada podemos ler dois poemas. “JOSSEU – o herói estrangeiro” e “Enigma, o Claro”, que nos remetem respectivamente ao poema “E agora José” e ao livro “Claro enigma”, ambos de Carlos Drummond de Andrade. Quanto a este último, é preciso que acrescentemos um detalhe: enquanto Drummond demonstra naqueles poemas de Claro Enigma um foco mais centrado nos sentimentos e nas transformações sociais da primeira metade do século XX, Delalves Costa parece abandonar o desejo de encontrar respostas e soluções para os problemas sociais e passa a buscar as perguntas que precisam ser feitas, e com o bom auxilio da Literatura que permite que o universo filosófico e metafísico mergulhe no íntimo do ser humano.

 

Enigma, o Claro

É caminho incerto: longe/perto, / visceral aventura; é procura / que se faz realidade, elasticidade / que se reinventa. É tormenta / pelas veias: relâmpago instigante / às escuras, luz nas procuras / a revelar o mistério. É revertério / o verso reverso e universo / quando às escuras sob procuras / o claro enigma, paradigma: / o novo de novo que deixa de ser / para ser outra coisa. É coisa / outra que estimula, que anula / o óbvio de será, de seria / pelo curso, percurso que se leva / que se faz treva e se trava / aos olhos, à mente; e de repente / do nada o mundo obscuro / se torna pleonástico. O elástico / de ponta a ponta se estica / e edifica a vasta aventura e apura / que a pura verdade habita / não erudita, bendita pela criança / sem os relevos do mundo.

Alguns leitores devem ter observado a utilização de palavras, formada por neologismos, aglutinações de outras palavras e/ou sentidos conferidos pela homofonia e por sons que assumem  sentidos próprios. Claro que são artifícios de construção que o autor emprega. Realmente, uma poética incomum. Estamos diante de construções formais (em boa parte dos poemas) bastante peculiares e que têm gerado uma caracterização de sua poética como “hermética”. Ora, sabemos que o conceito de hermetismo, em literatura, é análogo ao utilizado em filosofia, no que toca a algo cujo sentido é muitas vezes fechado, secreto, impenetrável, oculto e até mesmo indecifrável para o leitor/receptor que não dispõe de ferramentas necessárias para uma apreensão mínima. Essa espécie de incompreensão que ronda um texto considerado hermético, no mais das vezes, está ligada a uma intencionalidade que apela ao leitor um duplo movimento de decifração e recifração. Acreditamos serem pertinentes tais observações, porque desfazem preconceitos e julgamentos equivocados. Preconceitos que partem, inclusive, de uma certa parcela da crítica literária “pré-histórica” que ainda, e anacronicamente, não relativiza os parâmetros de análises fundadas exclusivamente sobre bases de cunho efetivamente mimético. Não é demais referir que a base da linguagem poética é a metáfora que, na sua forma radical, é uma afirmação de identidade: “isto é aquilo”. Em toda a nossa experiência comum, a metáfora é não-literal: ninguém, a não ser um retardado mental, pode tomar a metáfora literalmente.

Já não se busca a mimese em primeiro grau. Aliás, já há muito tempo o poema fala por si. Desde William Blake, demiurgo de todo um universo imagético pessoal, tem se buscado (e conseguido), a renovação da linguagem poética. É inclusive vasta a galeria dos ditos “herméticos” que construíram obra de elevada condensação poética. Ocorre-nos, de memória, Nerval, Mallarmé, Rimbaud, Valéry, Rilke, Salvatore Quasimodo, João Cabral e Murilo Mendes, dentre outros. O próprio Rimbaud, em suas “Cartas do vidente”, já não propunha ao poeta a tarefa de descobrir territórios desconhecidos, que ele desbravaria na frente e de onde traria notícias, muitas vezes informes, ao leitor? Muito bem, o senhor Delalves Costa pratica uma poesia de intensa elaboração formal, com maestria técnica e o uso de uma metalinguagem cortante. Sim pode parecer opaco, de uma opaca tessitura atravessada por sombras e silêncios. Mas é precisamente daí que advém o equilíbrio entre silêncio e palavra, entre o individual e o coletivo, entre a tradição e a renovação. É preciso que se entenda que nos é proposto um hábil jogo dialógico no qual o poeta cria entre o mundo real e o universo do imaginário, a partir de uma consciência linguística que dinamiza o estático e humaniza o desumanizado ao tensionar a linguagem ao extremo, desafiando o dizível. Pensemos nisto antes de afirmar: Ah, o sujeito é um hermético!

E, finalmente, há também em “Extemporâneo”, uma busca de caminhos, de soluções, de saídas para uma nova vida, enfim, porque ninguém mais hoje, em sã consciência, pode admitir que a humanidade siga trilhando esse caminho de insensatez. Os três últimos poemas do livro são testemunhos vívidos dessa busca. Transcrevemos o poema “A Reinvenção”:

É preciso rasgar o modelo hipócrita / deste sistema talhado maquiavélico. / Deste sistema retalhado de costuras / de consequências ardilosas… Aliás,

é preciso rasgar o que não edifica, / amputar punho tirano. Rasgar-se. / É preciso morder pelo alicerce / a morta política dos canetaços. / É precisa rein(ventar fórmulas) / sim, para desentortar bengalas / é preciso, sim, reformas / e significados concretos / sim, remontar conceitos / e desobstruir mundos coagulados.

Sim. É preciso repensar sobras / o vigente modelo remendado. / Vamos atear fogo no resultado / renascer das cinzas não basta, / é preciso remodelar as chamas.

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é escritor, pesquisador e crítico literário. Autor de Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contos e  Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 27 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional –  Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

ACERCA DO LIVRO CURSIVO MENOR DE ANTÓNIO VERA*

Por Maria Lúcia Lepecki 

 

 

É um caso raro de acontecer. Eu considero ser um privilégio meu estar aqui a apresentar uma pessoa que durante cinquenta anos escreveu para si mesmo, para a gaveta, e eventualmente, de vez em quando, para aqueles que, como o que está lá ao fundo [o editor], o quiseram publicar, não é verdade? É uma vida dedicada a uma fé. O autor acredita na poesia, acredita na palavra. Eu me sinto de facto comovida de poder estar aqui com ele hoje e gostaria de vos explicar com palavras muito simples, e não vou ser longa, o que é a poesia lírica. A poesia lírica é aquela poesia que mais de perto nos fala ao coração. Aquela que nós gostamos de recitar, aquela de que nos lembramos quando estamos a conversar com os amigos: olha, os sonetos de Camões; olha um poema da Natércia Freire… É aquele que se nos entranha por dentro.

A poesia lírica é uma espécie de conversa de uma pessoa com o mundo, é uma conversa quase secreta. Disse um teórico canadiano da literatura, Northrop Frye, que a poesia lírica é feita do eu para o eu, mas ela é feita também para ser dita ao outro, porque é evidente que ela é uma forma de comunicação. Disse o teórico Northrop Frye que, quando lemos a poesia lírica é como se fosse um ato de indiscrição, é como se a gente “tresouvisse” a privacidade absoluta do outro e é como se esse outro generosamente nos deixasse entrar naquilo que nós costumamos chamar, e bem, de “alma”; entramos na alma do outro pela poesia lírica.

Uma coisa que a poesia lírica tem de muito bonito e que nos faz gostar dela, é o aspeto ritualizado: ela tem um ritual, um jeito de dizer as palavras, um jeito de organizar as ideias que faz com que tudo fique musical e não é à toa que ela é chamada de “lírica”. É porque no início ela era acompanhada pela lira, acompanhava-se ao som da lira. Aquilo fazia uma junção da palavra com a pura melopeia que acompanhava essa palavra. O nosso amigo António Vera nos seus cinquenta anos de escrita secreta acompanhado pela esposa, com certeza que era a sua musa, já se sabe. Não é verdade, ou talvez até tocasse mesmo lira. Às vezes, no convívio de um casal, fazem-se muitas coisas ao longo da vida.

O nosso amigo António Vera tem no meu entender uma grande noção daquilo que faz a substância da poesia ocidental e da lírica ocidental. Essa noção é, em primeiro lugar, a da musicalidade. Ele tem música nos poemas, ele trabalha muito bem nas retomadas dos mesmos sons dentro do mesmo verso ou entre versos. Ele trabalha muito bem no ritmo, como é que ele quer que o leitor leia, com que pausas, com que forças, com que subtilezas de voz. Ele precisa disso, ele sabe fazer isso e, sabendo disso e precisando disso, ele se enquadra de pleno direito na tradição da poesia em que nós vivemos. Aliás, ele se enquadra também porque revisita formas da poesia. Ele faz, por exemplo, uma linda cantiga de amor, neste livro, como faz também sonetos, que são formas particularmente difíceis. O Couto Viana** e o Nogueira*** dirão: “mas o soneto é uma forma exigente”, o soneto pede uma disciplina mental muito grande para você construir uma ideia e chegar àquilo que se chama “chave de ouro” e, portanto, não é qualquer um que faz um soneto. António Vera tem preciosos sonetos e, daqui a pouco, lerei um deles.

Queria falar ainda um bocadinho, que eu não quero tomar muito tempo. Nós temos que pedir ao Papai Noel para trazer ao Fernando**** umas cadeiras de presente para o Natal para os próximos lançamentos, para podermos explicar melhor as obras literárias. Temos que explicar depressa [pois] com o pessoal de pé, não dá. Mas eu queria dizer uma coisa para vocês que é o seguinte: eu, no começo, disse que o lírico é aquele que se encanta perante a variedade do mundo. O mundo é variado, o mundo é diferente, o mundo é bonito, o mundo nunca é igual. O mundo é sempre uma provocação e o lírico sabe disso, e ele dialoga com o mundo e dialoga através de determinados temas que são também revisitados em toda a tradição cultural europeia e talvez mesmo universal, e que são os temas revisitados também pelo António Vera. Por exemplo, um tema fundamental é o tema do tempo. O tempo passa. Ele tem imensas poesias sobre o tempo que passa. E aquele tempo que passa e que ele retrata nos poemas é um tempo que simultaneamente dá a vida, porque evidentemente nós vivemos no tempo, mas traz a morte também. Porque o tempo é aquilo que nós vamos caminhando através de, não é verdade? E vamos chegar ao outro lado. Então nesse tipo de temática vocês encontrarão laivos de melancolia muito bonita, uma melancolia por vezes muito discreta, muito subtil; ele é muito discreto, ele não é um homem do dizer com muitas palavras, ele não é um homem de muitos adjetivos, ele é um homem do pudor do sentimento.

Um outo tema que ele tem, é o tema da morte e outro tema é o tema da natureza. São todos três temas privilegiados na nossa tradição. Quando ele trabalha esses temas, obcessivamente ele fala uma vez naquilo, depois ele torna a falar, depois no poema seguinte toca noutro assunto, depois retorna ao primeiro, vai revisitando a mesma preocupação, que é uma preocupação humana. O que é que ele está fazendo? Ele está fazendo aquilo que todo o poeta faz e que se não se faz isso não se é poeta. Ele está a estabelecer um lugar da sua reflexão sobre as coisas, ele pensa sobre as coisas, ele vai refletindo e quando nós refletimos sobre as coisas, é evidente que nós não pensamos nelas uma vez só. Para a nossa medida precisamos voltar ao mesmo lugar, tornar a pensar, ver como é que é, contar de novo. E quando ele estabelece esse espaço de reflexão e o revisita, ele então inocula na sua poesia aquilo que eu gostaria de chamar, António Vera, de dimensão filosófica. É a dimensão do pensamento que se constrói sistematicamente, retornando aos mesmos temas e tentando ver até que ponto aqueles temas pesam ou não pesam dentro do imaginário do ser e dos seus livros. Eu vou dar para vocês alguns exemplos, vou ler para vocês alguns poemas do António Vera:

 

4

da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.

quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?

responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.

 

17

crepita um vento fraco
na crista lúcida da onda.
colada à sombra do barco
desliza na água minha sombra.
planície, verde várzea,
móvel e falso espelho de deus,
retém a quilha, gela a água!
que vento, quilha, mar e sombra
sou eu.

 

38

verde o reflexo na folha iluminada.
sobre ele adeja a minha nostalgia.

agora lembro aquele antigo dia
feito de som e água.

e um quase nada
daquela cor
aflora aqui a relembrar a minha vida
que se esbate no ar
como o vapor da madrugada.

 

68

a solidão alonga pelo rio,
direita à barra, seu ventre de metal.
presa a estibordo, a dor, que vai partir,
tenta ficar soldada àquele pontal.
manhã nascente, é noite noutro rio.

passos nus, vacilantes, de um arrais,
timbram o silêncio de um som mole e cavo,
e um grito de sereia põe um travo
de acre certeza num manar de ais.
os sinais amarelos das vigias
abriram rumo sobre o rio plano,
enquanto em nós se abre um oceano,
em que naufragam terras e alegrias.

 

Ele tem espírito de humor também. De vez em quando os poemas dele são poemas de espírito de humor:

 

75

à mulher que mais amei
levou-me o vento um recado:
— perdoaste?
— perdoei!
ó vento, muito obrigado!

 

E agora é a revisitação, noutro poema, da poesia medieval da cantiga de amigo:

 

94

ai flores, ai flores do rosmaninho,
se sabeis novas de outro olor amigo,
trazei-mo de volta, de sândalo ou trigo,
trazei-mo de volta, que de respirar vivo,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

trazei-mo de volta, fazei-mo vizinho,
trazei-me um amigo, que não um cativo,
livre como o vento, vivaz como um vinho,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

ai flores, ai flores do rosmaninho,
partiram as barcas, eu fiquei sozinho,
salsugens, madeiras de pinho e de azinho
zarparam pelos ares, foram-se os amigos,
fiquei no azul, suspenso, sozinho…
trazei-mos de volta,
que de amigos vivo,
que de respirar vivo.

 

* Texto que serviu de apresentação da obra quando do seu lançamento em Lisboa a 17 de dezembro de 1998, na Livraria Colibri da Universidade Nova de Lisboa.
** Referência a António Manuel Couto Viana (1923-2010), notável poeta português, dramaturgo, ensaísta, ator e encenador.
*** Referência irónica a um dos apelidos de Fernando Pessoa: Fernando António Nogueira Pessoa.
**** Referência a Fernando Mão de Ferro, primeiro editor deste livro.

 

 

ONZE POEMAS DE ANTÓNIO VERA

 

[sem título]

 

da talha benta da senhorinha morta,
vazio o bojo de pedra, polido.
o rosto deitado da senhorinha morta,
cobre-o um lenço de linho.

quem foi o rosto copiado em cera e lírio
da senhorinha morta?

responde (o que responde?) o bojo polido,
o bojo da talha benta da senhorinha morta,
com uma lágrima de vidro:
conta de um terço rezado à senhorinha morta,
em tempo ido.

in cursivo menor, 2000, pág. 20.

 

 

[sem título]

 

a morte é um planeta inabitado,
donde partiram quantos ali foram
ou voluntariamente ou enganados,
buscando alojamento, paz, alfombra,
descanso para a alma, ou magoados
por não haver onde esconder a sombra.

tal planeta lá para oeste fica,
bem para trás do sol posto, onde se expande
o raio verde, com o fim do dia,

sarcástica mansão dos desenganos
dum mundo atafulhado só de vida,
mas que à vida responde só com vida
e aos desenganos só com desenganos;

onde o tempo-matéria se desfaz
com presteza contrária à da luz
e os calendários giram só pra trás

 

in palavras com rosto, 2000, pág. 75.

 

 

roleta

 

uma fonte, dois cântaros:
em um deles, veneno;
de um só tu beberás.

a tua sede aperta.

alguém te diz “és livre”;
alguém te diz “és cego”.

a tua sede é muda.

acerta ou desacerta,
mas beberás com pressa.

e, certo, serás livre,
nesse momento eterno,
que tu decidirás.

 

in as pestanas de Afrodite, 2001, pág. 29.

 

 

torre do bugio, pau de água

 

à beira de um tejo azul,
grosso pau de água soluça
verdes folhas enlaçadas
em forma de coração.

chora a tepidez dos trópicos,
chora por chica da silva
que lhe afagava o formato
de pau-brasil em ereção,

e os quindins de sinhá-moça,
ao passar por ele as mãos,
duas mil léguas pra lá
dum meridiano a oeste
deste que o ata por cá.

ai! porque as mãos de sinhá,
palmas de leite de coco,
levam-no ao bugio mirar
como se ele fosse um sinal:

a torre sendo um pau de água,
prantado à barra do tejo,
pelas águas enlaçado…
e as dobras das ondas fossem

as lamas das mãos de iá-iá.

 

in escrito na margem, 2003, pág. 43.

 

 

Esta apagada e vil tristeza
(agosto, 2003)

 

entre a piedade e o desalento
revejo monte e vale:
queimado quase tudo
sujos rios
pobres
desempregados
traficantes
bêbados de poder
e de arrogância
ou de mau vinho.

e indigno-me sozinho
comigo e o nosso mal:
terem-nos roubado
o gesto e a sanha
o número e a vontade
as luzes do saber
sequer a manha
de dar sentido e nome
a Portugal.

 

in sons que falam, 2004, pág. 100.

 

 

Flor de sangue

 

caem sonhos no poço onde cai sangue
arterial, contigo misturado,
como um pastor no meio do seu gado
segue o expirar da tarde estreme e langue.

e no poço flutua a flor do mangue
que no líquido vive – é o seu fado –
e no líquido morre: lado a lado,
vida e morte excessivas, força exangue.

é nesse espaço rubro, em quatro quartos,
que a terna flor, vivendo as estações,
dá sustento a nós dois, tornados plasma,

a circular no corpo, em sonhos fartos
de posse, de avidez de sensações,
ébrios da fina dor que entusiasma.

 

in de amor e desengano, 2005, pág. 108.

 

 

O Lacrimensor

 

chora-me ainda hoje
a minha morte breve
para eu saber
se ainda me memoras

medir-te as lágrimas
no rosto
bebê-las a correrem
plo teu corpo

tocar a minha vida e morte
em trasladado gozo

e evaporada a alma
dessas lágrimas
tomá-la dos teus olhos
tão bem vivos

in estrofes elementares, 2007, pág. 102.

 

Esconjurando o inverno

 

desde a raiz da minha vida
uma seiva de fé e de certeza
me sobe ao coração
e a tenho presa
no estame desta flor
que a ti entrego

põem-na entre os teus seios
…………esses meus amores
…………como os teus olhos
…………boca
…………quanto és

porque dessa união
nos nascerá um filho
primaveril e doce
a esconjurar invernos

 

in amor sempre e a seguir, 2009, pág. 31.

 

Português meu amor e língua minha

 

minha língua-mãe
confusa e linda
relampejas de luz
e crias trevas

onde flutua a tua omnisciência
que é dos nossos sonhos

o mar onde nos levas
a descobrir o mundo
o mundo avassalado
por capitães do lucro
e da ganância

esfarrapada e bela
velha e jovem
que outros irmãos te vistam
e alimentem
onde eu falhei vestir-te
de rainha

e te peço perdão
por esta minha torpe
insanável e tola
inconfidência

 

in folha a folha os dias, 2010, pág. 73.

 

Os pólos sensíveis

 

coração foi-me guitarra
quando coração havia
e o céu enchia e vazava
de meu amor e alegria

por isso eu pra ele olhava
e a melodia nascia

e havia uma pedra rara
que dentro de mim caía
e com ela me arrastava
a dias sem sol de luto
onde ninguém habitava
senão a mágoa sem fruto

mas sempre havia a guitarra

pra quem a tocava havia
dois mundos que se fechavam
mas que alternados se abriam
agora sonho o meu nada
cordas guitarra partidas

 

in o frio das metáforas, 2011, pág. 84.

 

Veleiro

 

qual a vela
salgada de um veleiro
enfuno e vou direto aos horizontes
sem escolher nenhum

eles que me escolham
extinto o raio verde da memória
a estrela da manhã
e a sua história

tanto que o vento sopra
sopra hinos
todos sacros de adeus

não voltarei

voltar é renegar o tempo ido
e isso eu não farei

 

in apostila (2015, edição póstuma), pág. 55.

 

 

BIOGRAFIA BREVE DO POETA ANTÓNIO VERA

 

Antonio Vera / Foto: divulgação

 

[José] António Vera [de Azevedo] nasceu em Lisboa, na freguesia das Mercês, a 22 de junho de 1923, e faleceu na mesma cidade a 26 de dezembro de 2012.

Trabalhou desde muito novo: foi empregado no comércio, agente de seguros, funcionário da Contabilidade Pública. De 1958 a 1987 trabalhou nos Serviços da Emigração como representante do governo português para os assuntos da emigração nos países de acolhimento e, já no final da sua carreira, como técnico superior, veio a aposentar-se da ex-Secretaria de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas. Ao serviço da Emigração fez inúmeras viagens, tanto por Portugal como pelo estrangeiro, entre os quais se contam a maioria dos países americanos, vários da Europa, assim como no Irã, tendo-lhe sido necessário dominar fluentemente o Francês, o Inglês, o Castelhano e o Italiano. Completou diversos cursos, entre os quais o Curso Complementar dos Liceus (secção de Letras), o Curso Complementar de Comércio, o Curso do British Council, o da Alliance Française e o Instituto de Estudos Sociais, tendo‑lhe sido conferido o diploma de Política Social pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Também frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, onde não concluiu estudos devido ao facto de não lhe ser permitido faltar ao trabalho para frequentar as aulas e por não existir ensino noturno. Entre 1947 e 1951 colaborou em várias publicações literárias, nomeadamente na Távola Redonda, fundada por António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira, nas revistas Seara Nova e Atlântico, e fez parte dos amigos da Árvore. Exemplos de alguns textos publicados nas revistas citadas acima: Seara Nova: 13/9/47; 1/11/47; 24/2/49; Távola Redonda: 5.º e 7.º fascículos; Atlântico: n.º 5; e revista de Outono de 1951. Foi citado como um dos seus amigos no número da revista Árvore – Primavera e Verão de 1952.

Inscreveu-se como sócio na Sociedade Portuguesa de Autores sob o n.º 4824. Conviva e amigo dos poetas Daniel Filipe e Raul de Carvalho, confraternizou também com José Osório de Oliveira e José Terra. Mas, por dever de ofício e contínuas viagens, não lhe foi possível manter contactos estreitos com estes amigos e outros cultivadores das letras portuguesas. De 1972 a 1974 foi o principal compilador e redator de uma revista informativa editada pelo então Secretariado Nacional da Emigração, o Correio do Secretariado, e de uma revista para jovens filhos de emigrantes, o Boletim da Amizade. Em fins de novembro de 1975, numa viagem de serviço no navio Eugénio C, que fez escala por Génova, e em consequência de uma atribulada mudança de camarote, perdeu uma volumosa coletânea de poesias que tencionava publicar no ano seguinte. Ao empenho extremadamente dedicado de sua filha, Maria José de Azevedo, se deve a publicação da sua obra poética, a qual compreende onze volumes: dez publicados em vida e um volume póstumo. António Vera é também contista e publicou um grande número de artigos ao longo de toda a sua vida.

Da bibliografia ativa do autor contam-se os seguintes volumes: cursivo menor (1998); palavas com rosto (2000); as pestanas de Afrodite (2001); escrito na margem (2003); sons que falam (2004); de amor e desengano (2005); estrofes elementares (2007); amor sempre e a seguir (2009); folha a folha os dias (2010); o frio das metáforas (2011); apostila (2015, edição póstuma). Está em perspetiva a publicação da obra do autor nos países de língua portuguesa.

 

Maria Lúcia Torres Lepecki nasceu em Araxá, Minas Gerais, em 1940. Licenciou-se e doutorou-se em Filologia Românica pela Universidade de Minas Gerais. Foi docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 1970 (Professora catedrática em 1981). Membro do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), membro da Associação Portuguesa de Escritores (1975-1977), vice-presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (1984-1986), conferencista e professora visitante em várias universidades (Salamanca, Oxford, Budapeste, Varsóvia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brown). Investigadora, crítica literária, ensaísta e infatigável divulgadora das literaturas e culturas de expressão portuguesa.

 

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129ª Leva - 01/2019 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A Literatura que não economiza no humor e na fantasia

Por Geraldo Lima

 

 

Claudio Parreira é desses escritores que enxergam a realidade pela ótica da zombaria, do humor, do escracho. Sua crítica aos poderosos ou ao comportamento humano passa sempre pelo rebaixamento ou pela ação de despir qualquer gesto grandioso da sua aura de importância. Na sua narrativa não cabem a sisudez, a dramaticidade ou o discurso grandiloquente. Não que ela seja marcada pela frivolidade, muito pelo contrário: esse seu caráter de desconstrução do que se determina como sério aponta exatamente para a descrença do autor na ideia de redenção do ser humano por intermédio de um discurso edificante. Claudio Parreira é, nesse sentido, um pessimista. Daí o modo zombeteiro com que trata literariamente as aflições humanas. É esse modo de narrar irreverente que o leitor encontra em A Lua é um grande queijo suspenso no céu, romance que o autor publicou, em 2017, pela Editora Penalux.

Para os que leram Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, fica mais fácil entrar no clima fantástico e irreverente desse romance de Parreira. Não que isso se imponha como exigência para se entender a história contada por ele, mas, com certeza, os que leram a referida obra de Machado vão sacar de imediato que o romance A Lua é um grande queijo suspenso no céu dialoga diretamente com ela. Não só dialoga, como traz, para dentro da sua narrativa, a figura do Bruxo do Cosme Velho.

“Sem considerar o absurdo de estar conversando com alguém, digamos, tecnicamente morto, mandei uma pergunta:

– O que é que você, senhor…

– Assis. M. Assis ao seu dispor – ele respondeu, o cigarro lançando uma fumaça preguiçosa para o alto” [pág. 35].

À semelhança do livro de Machado de Assis, o romance de Parreira traz também um defunto-autor [que faz constante uso da metalinguagem e da intertextualidade]. Só que, neste caso, um defunto-autor que está escrevendo um diário, cujos eventos dão-se entre os muros de um cemitério. O livro abre, na verdade, com um prólogo narrado em terceira pessoa. Nesse prólogo, sabemos que um corpo está sendo levado para o IML, numa ambulância, acompanhado por um médico e um enfermeiro.  Junto ao corpo encontra-se um caderno. E é através da leitura, feita pelo médico, do que está escrito nesse caderno que somos conduzidos à história que se passa no interior de um cemitério. Essa história, para espanto do leitor, ainda está sendo escrita pelo protagonista, que, inicialmente, denomina-se Pafúncio [a questão do duplo é uma das tensões presentes na narrativa]: “– Admiro a sua determinação. Não é nada fácil viver uma aventura e escrevê-la ao mesmo tempo” (pág. 109). Essa trama pode parecer absurda e inverossímil num primeiro momento, mas, durante o desenrolar da narrativa, somos constantemente alertados de que, ali, no reino dos mortos [e no reino da fantasia, também!], tudo é possível. O engraçado é que, assim como a protagonista da peça Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, o tal Pafúncio não se reconhece como morto. E vai levar um bom tempo até reconhecer a sua nova condição, apesar de todas as evidências de que já não se encontra no mundo dos vivos.

Se Brás Cubas, no além-túmulo, decide escrever suas memórias com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, o personagem de Parreira não fará muito diferente: com a caneta da galhofa e da fantasia, ele, instigado por outro personagem, o misterioso Bernabé, dá início às suas idas e vindas em busca da panaceia, neste caso, pela cura do grande mal que aflige a humanidade: a Miséria. A partir daí, o que se vê é o nonsense, o fantástico, a irreverência, num universo em que se misturam vivos e mortos. Esse jogo entre vida e morte, entre o anseio pelo conhecimento e a dúvida de que se vale a pena mesmo buscá-lo, cria uma certa tensão entre o protagonista e aquele que o instigou a procurar a panaceia. Mas nada aí se propõe a criar discussões muito engajadas ou climas dramáticos. Quando a narrativa se encaminha nessa direção, o defunto-autor trata logo de desconstruí-la, apelando, até mesmo, para o juízo crítico do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas:

“Poucos fatos, é verdade, mas ainda assim. Esta seria, portanto, a minha salvação (e a de Bernabé também) e, paradoxalmente, a minha maldição. Ó!

– Larga mão de ser dramático!

O forte cheiro de cigarro não deixou dúvidas: era o tal M. Assis de novo…” (pág. 107).

No esforço de afastar o discurso de qualquer tom solene, o autor procura manter a linguagem num nível menos elevado, apelando, às vezes, para a linguagem chula, coloquial. “Em busca da fórmula de porra nenhuma, de uma panaceia tão concreta quanto um unicórnio” (pág. 53). “Estava sobre uma laje de mármore fria pacarái” (pág. 99).  Assim, qualquer palavra mais sofisticada ou expressão mais poética da linguagem que apareçam, como que por descuido do narrador, eis que são logo sacaneadas, rebaixadas, usando-se, para isso, divertidas notas de rodapé. “– Bobagem – pensei enquanto o vento chicoteava meu rosto e cabelos com a fúria das suas carícias.”²9 E a nota de rodapé: “29. Deusolivre! Que expressão…” (pág. 81).

O tom da narrativa de Claudio Parreira é esse. E nessa narrativa marcada pelo gracejo impera a constante desconstrução do sentido elevado da linguagem. Cabe então ao leitor desconstruir-se também e entregar-se ao clima de gozação que a permeia. Muitas vezes, somos alertados pelos autores sobre os riscos ou consequências da leitura da sua obra [o que só nos instiga mais ainda a lê-la].  Assim o faz Lautréamont [ou o eu lírico/narrador dos seus Cantos de Maldoror] logo no Canto Primeiro: “Não convém que qualquer um leia as páginas a seguir; só alguns conseguirão saborear este fruto amargo sem maiores riscos. (…) Ouve bem o que te digo: dirige teus passos para trás e não para frente, assim como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno” (pág. 31). Ou o próprio Brás Cubas, em tom bem debochado: “A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus” (pág. 12).  Parreira, ou seu defunto-autor, só vai se dirigir ao leitor, nesses termos, lá para a página 41, quando percebe que a sua narrativa circular, ou seu eterno retorno ao ponto de partida, pode enfastiar o leitor mais impaciente: “Mas aqui, cá entre nós, já percebi uma coisa: esta narrativa vai e volta, se enrola sobre si mesma, não fode nem sai de cima. Acho que é bom dar logo um norte a esse negócio, senão vocês aí podem ficar entediados e fechar o livro, o que não é bom pra mim e muito menos para a editora. Sigamos então!” (pág. 41).

Então, caro leitor, mergulhe sem medo nas páginas fúnebres e delirantes dessa obra de Claudio Parreira e se divirta um bocado.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.

 

 

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128ª Leva - 06/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

O mundo é uma roda e nós no meio ou como se deu minha Trans forma são

Por Mayana Rocha Soares

 

 

Platão tinha mesmo razão em temer a presença de poetas em seu projeto de pólis. É gente perigosa, que faz movimentos curandeiros com palavras. É brincando de transmutar que o poeta Alex Simões ginga formas, palavras e sentidos, em seu recente livro de poesia Trans Formas São, lançado em 2018, pela editora soteropolitana Organismo. Esses giros de poesia não foram por mim lidos na racionalidade pretendida de uma crítica literária, mas atingiu o corpo. Taí o seu perigo! Atingindo o corpo, ela (a poesia e seu efeito alucinógeno) tem o poder de agir como feitiço e reorganizar sentidos, desejos, gestos de afeto. Alex nos deu um roteiro de transmutação. E mudar é perigoso para os desejos da nação. Há sumários por todos os lados como bússolas para gente poder se perder à vontade. Há o sagrado “no meio do caminho, entrelugares”, entrecaminhos, encruzilhadas tecnológicas, cantos, sons, Exu, ebó, padê. Sem eixos centrais de sustentação. “Mas há um centro?” Só o habitar do fora.

Alex Simões é poeta, professor e performer baiano. Além de muitas outras publicações em livros e coletâneas, realiza no próprio corpo a experiência literária, através da performance. O livro é composto de 37 poemas. Por meio destes, Alex Simões expõe o mundo através dos olhos apaixonados de quem não apenas observa a vida passando, mas a vive. Por quem atravessa a vida transformando e sendo transformado por ela. Trans Formas São é um livro de performances artísticas das palavras, das formas e sentidos todos, reorganizados a partir do que sentimos, de como amamos e de como seguem nossos desejos e afetos.

O poeta admite fingir, mas não só como o Pessoa, o português. Melhor. Não finge só a dor. Ele diz: é que “me faltam boas ideias e tendo a apelar para grafismos”, há que “fingir que já li muitos calhamaços, roubar, plagiar, sempre negar”. É que “a vida sem sentido dá avisos / há vida pulsando / o tempo urge e às vezes dói lembrar”. Eu também roubo suas palavras agora, mas não sou poeta. Me permito transbordar nessa lama de palavras. Mergulho nela e me transformo também. Aquela mulher que abriu a primeira página do livro não é a mesma quando encerrou a leitura. Alex é modesto. “embora não despreze o métier, e seja mau poeta, é de outra subárea: dos que temos alguma vocação, não pra poesia, mas pra gambiarra”. Acha que é um poeta ruim. Se ser ruim é cumprir essa difícil tarefa de trans forma são, sem controle de como isso é possível, sem reconhecer seu alcance, então, fique satisfeito: você é muito ruim nisso! A gambiarra é que salva! “Toda/o poeta é experimental / obcecado por buceta” [de minha parte, também gosto] / transgênero por vocação / híbrido por definição / fundado na incerteza”. A gambiarra é essa arma que faz da literatura ser aquele menor, conforme Deleuze e Guattari nos ensinaram.

As certezas todas foram embora. Em Trans Formas São nos instalamos no oblíquo, na experiência do quase. “é quase um manifesto / por um quase negro / que é quase um homem / quase filho caboclo eké orixá santo sem base”. “O mundo é uma roda e nós no meio” e a “minha vida é um baile entre seus braços”. Transmutei seus versos para senti-los, novamente, dentro de mim de outros modos, em outras velocidades. Eu também não sei ao certo “que porra é mesmo o contemporâneo”. Mas sei que a poesia underground não tem limites temporais, porque vive nos subterrâneos. Depois discutimos “se houve mesmo uma autoria ou criação coletiva”.

Walter Benjamin, sabiamente, uma vez disse assim: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Ainda bem que não estamos tratando de um documento, mas dá sua potência significativa, da poesia em seu estado de resiliência. Em sua formulação viva e pulsante nos corpos. “então pergunto: memória e corpo / há distintos um do outro?”. Recortes palavreiros de uma nação colonial em ruínas. Alex dispara um ciclo de notícias: das desalianças internacionais à barbárie da civilização. Em terras brasilis, “Aqui tudo parece que era ainda construção, e já é ruína”, como cantou Caê. Alex nos joga na parede e nos constrange a pegar visão: “em suspenso ninguém vive nem se acerta sem medida”. Vê isso? É o sangue das ossadas da barbárie ainda fresco batendo nas paredes da memória. Afrodiasporicidade. Ancestralidade. Abre o olho, é preciso ver: “escravizados desembarcaram de navios negreiros / morrendo por maus tratos e/ou de orgulho, talvez numa recusa por servir, morrendo como parte de um processo histórico e de resistência em luta”. Marielle, quem matou? David? Luana? Dandara? “escondemos de nós mesmos trezentos anos de escravidão”. Mas de lá dos escombros nos assombram com seu sangue, sua ossada e sua vingança, “enquanto segue o porto maravilha / com o futuro museu do amanhã / o que fazer dos crimes insepultos?” É verdade, “a gente tem de dar uma de louco porque senão ninguém presta a atenção”. É Grada Kilomba que diz “corpos brancos são sempre corpos que pertencem a algum lugar”, posto que nossos corpos negros foram desterrados e mal enterrados pela colonialidade. Acredito que Trans Formas São territorializa, em alguma medida, esse nosso cuíerlombo, para usar uma expressão de Tatiana Nascimento, de gente preta, insubmissa, dissidente e selvagem.

Trans Formas São também são formas trans, trocadilho barato, mas tem seu efeito. Entre cores e amores, essa poesia carrega uma inquietação, um não sei bem o que de agonia. É por isso que “meu coração não tem memória / nem sabe decorar / então decola”. Corpos trans que nos transmutam, pois se “a moda agora é ser sóbria, nós não podemos ser”. É porque “é uma questão política: o contraste é estratégia de quem milita a alegria”.

Trans Formas São é também leveza e beleza, “com os dois pauzinhos, que às vezes se esfregam aligeirados e outras que se atravessam como pontes”, criando conexões, rasuras e misturas no “perder-se entre outros corpos”. Sem esquecer de “respeitar o tempo”, lograr o tempo e aquela “puta censurada suposta martelada”.

Bom, nem todos os poemas couberam nessa leitura, mas como abarcar toda essa imensidão?        “e para amarrar essa corda / andorinhas passarão” – Mas #elenão!

 

Mayana Rocha Soares é feminista interseccional, decolonial e sapatão. Doutoranda no programa de pós-graduação Literatura e Cultura (PPGLITCULT/UFBA). Mestra em Estudo de Linguagens. Graduada em Letras e Ciências Sociais.

 

 

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128ª Leva - 06/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Trote no pelo

Por Daniel Russell Ribas

 

 

A obra “diário: a mulher e o cavalo”, da autora Julia Raiz, é um ser de dois corpos que se fundem em plena corrida. Na dualidade entre interno e externo, tanto na forma quanto na narrativa, forja-se o elemento que conduz à unidade no grau confessional e literário. Trata-se da mudança de totem para o arquétipo, o sagrado que se torna um princípio platônico. A superfície vislumbra ideias complexas em uma linguagem direta e cuja abordagem determina uma eventual reformulação da mesma. Em um exame minucioso, encontra-se uma investigação através do tempo: a cronologia pelos movimentos executados a cada trecho, em que musicalidade é uma coautora, no lugar de uma medição acumulativa. Sem exibicionismos, experimenta como as sensações, por mais comuns em descrição, são únicas quando aplicadas à individualidade. Assim, como a pessoa que lerá decodificará estas percepções não é o importante. Tudo está no texto, através de ritmo e símbolos.

O fio-condutor está presente no título: em um diário, a mulher investiga a si e o que a cerca, a partir de um veículo, o cavalo, um guia hostil para reflexões. O fascínio se desenha na gradação em que estes objetos de estudo se organizam a uma condição de autodescoberta. A visão de fora da narradora para os dois seres, civilizada e selvagem, cujo enlace em uma criatura própria é tão imprevisível (à primeira vista) quanto inevitável (ao fim). A mulher e o cavalo se unem no enfrentamento ao cotidiano que busca domesticá-las. Pode-se citar dois trechos do capítulo 5 de “Mulheres que correm com lobos”, de Clarissa Pinkola Estés: “… se quisermos ser alimentados por toda a vida, precisaremos encarar e desenvolver um tipo de relacionamento com a natureza da vida-morte-vida” e “O que se teme pode fortalecer. Pode curar”. Essa está presente na epígrafe que sintetiza miopatia como o efeito colateral de uma força que não pode ser contida, pois seria mortal. Ela retoma esta ideia de forma mais explícita no trecho: “Depois, se este fosse um grande romance, o escritor escreveria que os cavalos se reúnem à noite, de costas para a fogueira e cantavam baixinho pedindo paz aos espíritos enganados”. Aquelas que matam, como a mulher do pm, ou mulheres que se matam, como Sylvia Plath, olham para seus pares em sua jornada por uma individualidade em que matadores montam cavalos.

Remete-se a Jung, quando se refere ao cavalo como símbolo do irracional mágico, cujos impulsos ocultam sua incapacidade de consciência: “Assim sendo, o “cavalo” é um equivalente de “mãe”, com uma tênue diferença na nuança do significado, sendo o de uma, vida originária e o de outra, a vida puramente animal e corporal. Esta expressão, aplicada ao contexto do sonho, leva à seguinte interpretação: A vida animal se destrói a si mesma”. Julia Raiz propõe uma releitura, em que a vida animal se reconstrói a partir do conhecimento de sua condição de oprimida e opressora para então construir uma nova e única consciência. Em outro trecho do livro: “A menina que encontrei na lanchonete falou que as mulheres têm que fazer que nem os cavalos na umbanda: transmitir. Eu não entendi. Mas eu sei que as mulheres estão interligadas, nossas mentes formando uma grande rede”. Esta grande rede só pode ser acessada através de uma leitura particular.

A técnica é honesta, com pontuais intervenções em seu formato, como na entrada em que a autora interpõe a narração com observações de cena. Desta forma, reitera sem se repetir a mensagem que permeia cada capítulo: a narradora e sua expressão não são distanciadas. A honestidade reside que cada fator do texto é utilizado para aprofundamento psicológico. Por mais disperso que soe em momentos, ao mencionar personagens e situações que aparentemente não pertencem, trata-se de como o jogo entre autora e quem lê é estabelecido. O fluxo é o bilhete de embarque para o universo mental da personagem. A cada associação a narradora dialoga consiga mesma e quem lê. Essa pessoa, no entanto, não tem participação passiva, pois as indagações do texto buscam estabelecer outra terceira e indireta identificação ou constatação. A brincadeira metalinguística, literária e confessional se faz aí. Como escrito acima, não é interessante uma leitura engessada, mas a transmissão de sinais suficientes para que a pessoa que lê preencha as lacunas propositais.

É um grande romance pessoal dentro de uma pequena novela de dispersos que confluem em linguagem e em tema. Um fluxo com trote incerto, mas cujo caminho está traçado. Como Julia Raiz traduz na entrada do belo “selo”: “Existe sempre uma coisa mais verdadeira acontecendo fora do nosso alcance de visão, no momento que uma estrela se apaga é porque ela já não existia e não existia o fim de uma luz, existe apenas a transformação que escapa à nossa percepção, existe o presente que nunca fomos capazes de captar”.

 

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.

 

 

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127ª Leva - 05/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Sinto, logo, concreto

Por Daniel Russel Ribas

 

 

O título do livro de Roberta Lahmeyer, “Retas oblíquas”, propõe o paradoxo que permeia o conteúdo. A linha visível, tátil e paralela como um ser camuflado, de matéria intocável e formato incerto. Uma busca do sentimento dentro de um espaço gráfico. A imagem condiciona o eu-lírico em sua relação com o mundo. Ou seria o contrário, em que mundo interno moldaria sua manifestação em objeto? No lugar de uma desordenação ingênua, emerge uma brincadeira de teor romântico. Conciso e direto, porém sentimental e sincero em sua busca. Uma segunda leitura permite este jogo leve e divertido que a autora exercita.

Como lidados com o conflito eterno da alma sonhadora e do corpo pragmático? A sinceridade, reitero, torna-se chave. A autora reafirma sua expressão como real, jamais realista. Logo, em um trabalho protagonizado pelo sensorial que transforma a estética em um auxiliar, uma avaliação técnica torna-se coadjuvante. O julgamento é válido, mas de dentro para fora. A autora estabelece uma conexão intimista. A poeta suspira sua presença. A apreciação do leitor depende de sua abertura para a mesma.

O movimento concreto brasileiro caracterizou-se pela reformulação da obra em sua disposição. Remetendo a Sartre, a palavra opaca seria ver de dentro para fora, em que o conceito é o relevante. Lahmeyer engaja a liberdade sentimental em uma opção estética. A ferramenta é incisiva em teor e encarnação, entretanto este é delicado, não-bruto ou cru. Ou seja, há múltiplas maneiras de expressar, tanto em texto quanto estética, o que ela dispõe. Mas esta é a que escolheu, como uma moldura que complementa a pintura. O centro seria o mesmo, mas o enquadramento aumenta a potencialidade, ao mesmo tempo em que se apresenta próprio como discreto.

Como exemplo, transcrevo o poema de onde a autora deriva o título:

 

……….Janelas abertas
para o avesso
………da superficialidade
________________ as formas concretas
……..são retas
mas as sombras são oblíquas

 

À primeira acepção, um texto de um eu-lírico sentimental primário e transbordante em sentimento. No entanto, a forma casa com a movimentação de três palavras-chave no espaço: “janelas”, “retas” e “sombras”. Lahmeyer, assim, impõe a construção de seu interno manifestado em imagens: o retangular de “janelas”, as horizontais que formam “retas” e a inclinação projetada em “sombras”.

O que se projeta do texto é o relevante, e a autora mostra sua maneira de enxergar esse fenômeno. A influência de Drummond é nítida em seu tema do eu-lírico gauche, que busca o sentido de seu interior em um universo fechado. Mas a autora se interessa mais em moldar seus sentimentos do que retratar sua interposição entre linguagem e visão do alheio. Assim, pode-se ler como exercícios que intrigam pela opção estética do que pelo texto em si. Ao mesmo tempo, não descarta o signo. Ela o forma à sua imagem internalizada. Não se trata de vanguarda ou de uma referência a um conceito geométrico, mas um olhar para assuntos atemporais, cuja eternidade reside na nossa maneira de nos interpretar perante o universo.

 

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.

 

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127ª Leva - 05/2018 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Tempestades de dentro: algumas notas sobre o livro Espaço visceral, de Daniela Galdino

Por Alex Simões


 

São 33 as vértebras que integram a coluna do ser humano, do cóccix até o pescoço, onde se encontra o espaço visceral. 33, dizem, é a idade de Cristo. 33 foi o número mais repetido em 2016 por mulheres indignadas em alusão ao número dos violentadores de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro. 33 poemas integram o livro Sobejos do mar, de Lívia Natália. Talvez sem nenhuma relação direta com os diferentes eventos supracitados, 33 é o número de poemas que integram o Espaço Visceral, 3º livro da itabunense Daniela Galdino, lançado este ano pela editora Segundo Selo. Mas, em se tratando de poesia, sabemos: coincidências não existem.

Trata-se de um tomo de poesia erótica, assunto sobre o qual a poeta vem se debruçando há algum tempo, tanto que foi o mote do número 03 da Revista organismo, organizado por ela e Cazzo Fontoura e publicado no ano passado. Devemos tomar erotismo aqui em seu sentido mais amplo, por não se tratar tão somente de uma relação sensual entre corpos humanos, mas de como um corpo, o do enunciador, se relaciona sensualmente com tudo o que consigo fricciona: o próprio corpo, a língua concreta e abstrata, a natureza em todas as suas dimensões e o plano das ideias. É também um espaço de encontros viscerais entre mulheres e suas elaborações verbais e não verbais em diálogo com a obra.  Joana Veloso, assinando o projeto gráfico primoroso e as ilustrações, com seu traço delicado, nos dá pistas de como esses corpos se encontram imersos e recortados do tronco para baixo e enredados pela flora que emerge do texto. O volume também traz textos de Karina Rabinovitz, Cida Pedrosa e Mônica Menezes, mulheres, poetas, não necessariamente nessa ordem, que nos ajudam a percorrer esses caminhos escorregadios elaborados pela verve da poeta.

Daniela Galdino segue adepta das formas curtas da lírica, com versos livres e igualmente curtos, numa poética que ao mesmo tempo se propõe mais logopeica, posto que investe muito em jogos de palavras, arriscando-se, às vezes demasiadamente, pela via das construções de ideias a partir deles, numa sensualidade que é intelectual e politicamente programática, não deixando de ser por esse mesmo procedimento melopeica e fanopeica. Aqui imagens, sons e ideias se fundem com o único objetivo: seduzir-nos, enredar-nos na teia de palavras da poeta e na sua floresta umedecida com as tempestades de dentro, para usar uma expressão da autora nesse difícil exercício de explicar de que trata seu livro. Afinal de contas, um livro de poesia trata de tudo o que couber na poesia. Feita a advertência, seguem alguns notas de campo nada sistemáticas de um leitor que andou descalço nessa floresta úmida de tempestades de dentro.

Surge diante de nós, em diversos poemas, uma flora inusitada, úmida, no “pasto fértil”, “planta eriçada ao léu” “nesta primavera de fugas”. “Cachos de murta”, “pinhão roxo”, “pé de mulungu”, “trigo”, ”almíscares”, “horta de hiatos”, a lua que “enfolha” são alguns trechos de diversos poemas em que vemos uma vegetação diversa e, quase sempre, úmida, nesse “mapa” sobre o qual fazemos nosso trajeto-leitor. Em “arada”, como em outros poemas, essa flora também pode se apresentar como resultante de um labor, seja no título, seja nos versos finais: “levo fachos de gritos/aonde me querem muda//replantando-me/ dou cestos fartos”, sendo a ambiguidade da palavra “muda” um reforço da ideia de que esses elementos da flora são metáforas da força do sagrado feminino, pelo domínio das tecnologias ligadas à fertilidade da terra. A flora aparece também como cúmplice de transformações dessas subjetividades estilhaçadas, múltiplas e em constante processo de (des)identificação, como no poema Círio Torto:

 

seja pé de mulungu
testemunha auricular
das frestas e dos fartos

 

Nesse livro, temos uma sucessão de jorros de gozo, lascívia, sensualidade, “conversa de molhares”: poesia. O que não é poema é inchaço, tropeço, dormência, covardia (o poema que não escrevi, p. 13). O que é poema jorra em oxímoro: “quero fogo na Baía de Todos os Santos” (p. 15). Tudo é fértil, porque jorra, é úmido: “só não verde quem não quer” (p. 5).

O erotismo presente nas páginas de “Espaço Visceral” é ativista, feminista, e põe o homem em seu devido lugar de coadjuvante de um processo de autoconhecimento que passa pelo próprio corpo da poeta, por outros corpos, não só humanos, e nas fricções resultantes desses encontros.  Reparem, no exemplo a seguir, que não pode ser por acaso (como não pode ser o número de vértebras e o número de poemas no livro): a ausência do pronome pessoal do caso reto para a 3ª pessoa, masculino singular*, no poema “trans-bordar” (p. 51):

 

(eu) organizo o meu lugar de fala
(tu) desarranjas o mapa mental
(ela) cospe águas de chuva

desmanchadas espumas
sobrevivemos
três criaturas
consagradas à transgressão

 

Por causa do livro de Daniela Galdino, descubro que a anatomia define o espaço visceral mais ou menos como um compartimento que fica à altura do pescoço e “é limitado superiormente pela cartilagem tiroideia e, claro, pelo osso hióide, e inferiormente pelo pericárdio fibroso. Engloba a faringe, a laringe, a parede anterior do esôfago e traqueia. É frequentemente atingido quando de perfurações esofágicas e corpos estranhos.”** No mais íntimo de nosso corpo, somos mais suscetíveis ao ataque de corpos estranhos e infecções. Expor o que há de mais íntimo é também expor o que há de mais vulnerável em nós e só as fortes sabem exercer esteticamente essa exposição como um ato político. Anna Akhmátova, poeta russa evocada na apresentação de Monica Menezes, é um exemplo de muitas poetas históricas que insistiram a qualquer custo a dar forma e permanência ao seu trabalho com a linguagem.

Sigo lendo e relendo sinais, catando folhas dessa floresta úmida, macerando com as mãos e sentindo o cheiro e os efeitos em meu corpo de homem atento e ciente de meu não lugar nessa floresta. Aqui, como sempre tem sido com meus encontros com os poemas e performances de Daniela Galdino, eu também “coleciono afogamentos” e “navego, sorvo e corro/ até recuperar razão”. Deixo-me molhar pelos jorros dessas tempestades de dentro.

 

* #elenão

 

** Cf. COIMBRA et al. Espaços cervicais: Anatomia descritiva e importância clínica. Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. v. 55, n. 3 (2017). Disponível em URL < https://www.journalsporl.com/index.php/sporl/article/viewFile/587/473  >. Acesso em: 30 set. 2018.

 

Alex Simões (1973) é poeta e  performer soteropolitano. Acaba de lançar seu quarto livro de poesia intitulado “trans formas são” (organismo Editora) e vem atuando na cena cultural baiana desde os anos 90,  com poemas e  performances  que põem em diálogo a poesia, a música, as artes visuais e o artivismo. Publicou poemas em diversas antologias, coletâneas  e revistas  nacionais e internacionais, traduzidos para o inglês e o espanhol. 

 

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126ª Leva - 04/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

EU ME APRESENTO

 

Por Jorge Elias Neto

 

 

 

Há que se entender ou não o ornitorrinco do pau oco?

Eu, por exemplo, vivo em busca de algum autoentendimento.  Só recentemente, relendo uma definição do Breviário da decomposição, de Emil Cioran, é que me descobri um pessimista entusiasmado.

Mas, antes de uma definição psicológica, quem ler esta coletânea de meus três primeiros livros já publicados, em que incluí poemas inéditos, terá primeiro uma impressão de estranhamento e de curiosidade: o porquê de meu nome.

Entendo.

Embora ainda prefira que o leitor procure ler o poema que leva meu nome – sempre considerei a obra mais relevante do que o autor –, sinto-me impelido a prosear um pouco, talvez deixar algum rastro sobre quem somos nós, os ornitorrincos do pau oco.

É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.

Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.

E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

E é aí que me insiro e busco me justificar.

Quem sou? Algo indecifrável, como meu coirmão, objeto de estranhamento? Mamífero, ave?  Ovíparo, vivíparo? Tudo! Menos útil e justificável, embora ele ainda desperte alguma curiosidade científica. O que não parece ser bem o meu caso…

O ornitorrinco do pau oco destoa, e pode, muito em breve, perder de vez muito do lastro dos tempos, desgarrar-se do verde, de sua essência “Terra”. Impregnar-se definitivamente do urbano, perder-se no cinza e embriagar-se com seu-eu-deus-pessoal-bonito no selfie (sou eu lindo na foto, i.e.).

Dito algo sobre o ornitorrinco, há de se falar do “pau oco”.

Essa expressão “roubei” das esculturas que me encantaram na infância, em minhas visitas aos museus de Ouro Preto e Mariana.

Todos sabemos das histórias de ouro e diamantes dentro de esculturas de santos entalhados em madeira em contrabando que ocorria nas Minas Gerais, nos idos dos séculos XVI-XVIII. Nas costas da imagem (ou em seus pés), de forma camuflada, uma pequena abertura permitia a ocultação do metal nobre e das pedras preciosas que movimentavam o Velho Mundo.

É aí que eu me insiro.

Vivemos um momento neoantropofágico na poesia.  Pelo menos vejo isso como uma das tendências em muitos dos poetas atuais. Na miríade de cores, na heterogeneidade da produção atual, vê-se um esfacelamento do corpo, do que resta do corpo, já que a alma já foi esmigalhada.

O final do século XIX trouxe a proposição da morte de Deus, trouxe o materialismo dialético. O homem oitocentista adentrou-se no novo século deslumbrado com a tecnologia e o conhecimento evolucionista. Tivemos o leninismo-stalinismo e vimos que o homem, vestido com a ideologia, transformou a proposta da utopia nas distopias descritas por Orwell e Huxley. Viveu a insanidade nazista e, com o distanciamento histórico, pôde entender que o homem errado no lugar certo pode gerar a insanidade coletiva. Tudo trouxe a descrença, a desilusão e abriu espaço para o deus mercado, o oportunista da vez.

E onde entra o ornitorrinco e o “pau oco” nisso tudo?

Na medida em que o poeta é a “antena da sociedade” ― dito gasto, mas definitivo, de Ezra Pound ―, o poeta-ornitorrinco carrega consigo todo o estranhamento do que o circunda e, impregnado do que “não tem serventia”, por não optar pelo instante em detrimento do efêmero, corre o risco de se tornar uma curiosidade em risco de extinção.

Como pude, busquei me desconstruir, entender minha irrelevância relativa nesta vida. Enfim, vi-me um ornitorrinco.

E o que tem de especial o ornitorrinco? O olhar. E a necessidade… A necessidade de abrir o peito, com força, como tão bem ilustrou o poeta e grande artista Felipe Stefani, na ilustração que acompanha este livro.

Abrir o peito e oferecer o que mais precioso ele traz guardado em seu arcabouço de ossos e carne.

Já que o poeta é um estorvo, ele abre seu peito e joga na cara de quem quer que seja, como seu último ato de vida, rasgando sua última pele – a palavra —, mesmo que inutilmente, a “linguagem-ouro de enganar trouxa” que o alimentou enquanto vivo.

Eis aí o ornitorrinco do pau oco, queiram ou não.

 

 

O ORNITORRINCO DO PAU OCO

 

j´étais le bruit d´absence

 

Fui pelo não ido das manhãs
em voo de cera e contemplação
perseguindo desvãos no Mundo

fui ao sumidouro dos pés
descendo pirambeiras
em abissais loucuras

fui o anônimo
inacabado de véspera

fui inumano

fui testemunha
de corpo ausente
das praticâncias e despudores

fui matraca indignada
fui mendicante

fui a farpa
arrancada da espada

fui consolo adocicado
para línguas ásperas

fui perene e dilatado
fui objeto

fui pão e circo
do apocalipse

fui pudico e privado
fui rasgado
e brocha

fui tardio
sem salva-vidas

fui obsceno
cosseno e outras peripécias

fui o de dentro
sorriso do redemoinho

fui o gênesis
da comédia humana

fui o esteta do insolvível

fui o engate
o torvelinho

Fui o poeta.

 

 

 

***

 

 

 

NÃO ME CALO

 

Mordaça
se rasga com os dentes,
e, se me cortam a língua,
reinvento
a linguagem-uivo
̶ corda vocal é elástico
de boleadeira ̶
que atira longe o eco
do desatino.

 

 

 

***

 

 

 

ANACRÔNICO

 

Meu é este desperdício,
olhar que não se enquadra,
silêncio que espia na luz apagada,
o medo de não estar vazio
quando se acercar a luz do nada.

Meu é este dizer do tempo,
discurso interrompido,
lampejo, lamento,
saber inútil
o saco e a porra.

Meu não é o início,
mas o gargalo,
o rente, o arrebol sorvido,
este escuro – noite que se ressente do frio,
a fresta que observa,
o liberto, o estio,
ornamento dos dentes,
pavor, pavio.

Meu é o fim
justificando a queda,
o dedo ‒ semente das unhas,
o arvoredo brotando no interminável.

Meu é o absurdo,
o privilégio das horas,
o beijo contado,
o assobio, o assombro,
o firmamento inútil.

Meu é o desafio,
o preto e o branco
e este zelo
pelas coisas perdidas.

 

 

 

***

 

 

 

A BOCA DO INEFÁVEL

 

Cobre-te melhor
……….a seda rasgada,
contornando teu corpo,
nas fendas do meu desejo.
E esse cheiro das madrugadas
em que me masturbo
de tanta insônia.
Os momentos perdidos,
em um sonho mau,
tornam justo esse pesar
………..por amanhecer,
………..e ter que partir
nessa rotina que me afasta de ti,
obscena mulher de língua áspera,
………imensa,
………………..onde derramo
minhas noites de macho,
………………..perdido.

 

 

 

***

 

 

 

SAUDÁVEL

 

Humores, farrapos,
cachaça.
Rumores, gargalos,
cabaços.
Batuques, bagulhos,
………….. ..Carcaça.
E eu debruçado
………………no ocaso.

 

 

 

***

 

 

 

BACURAU

 

Quando acordei
o pássaro noturno
permanecia sob a vidraça.

O orvalho,
as penas mortas,
o desatino da solidão.

Fazia frio,
e meu pensamento
caminhava perdido.

Testemunhar o que é casa,
o que é morte.

Não basta a fúria
enterrar-se até à noite.
Saber rasgar as roupas,
fazer curativos
não devolve o ar roubado.

A verdade é o pássaro
e o descuido das formigas.

 

 

 

***

 

 

 

SUPERORNITORRINCO

 

Acabou o sal
― desperdiçado ―
entre os sós,

e cada entranha
buscava o sustento
e a solidão
nos escombros
― como um consolo
na estranheza.

eu, ornitorrinco,
ridículo e ébrio,
reduzido
e semelhante ao consolo
dos demais ébrios,
ressentia-me
da esperança
e claudicava de medo.

não tinha lar,
não tinha sossego,
expirava,
e o que me sustinha:
― o desterro.

uma marca guardada,
uma flor
e o desejo.

chegara o dia
em que o temor me abraçara
com as trevas
e o pavor
da extinção.

troquei olhares,
então,
com os perdidos no calabouço

e percebi o sol
que irrigava a terra
e o verde
que me brotava
entre os dedos.

 

Jorge Elias Neto (1964) é capixaba, médico “eletricista do coração” e poeta. Livros: Verdes versos (Vitória: Flor&Cultura, 2007), Rascunhos do absurdo (Vitória: Flor&Cultura, 2010), Os ossos da baleia (Vitória: Secult–ES, 2013), Glacial (São Paulo: Patuá, 2014), Breve dicionário (poético) do boxe (São Paulo: Patuá, 2015), Cabotagem (Ilhéus: Mondrongo, 2016) e Breviário dos olhos (Vitória: Edição do autor, 2017).