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125ª Leva - 03/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo Palavra II

“Felicidade é a queda, o abismo”

Por Gustavo Rios

 

 

Autor de vários livros, entre eles o comovente O caçador de mariposas (Mariposa Cartonera, 2013) e o romance Estrangeiro no labirinto (Confraria do Vento, 2013), semifinalista do prêmio Portugal Telecom, o escritor pernambucano Wellington de Melo deve gostar bastante do que faz – e ele faz muitas coisas – para conseguir juntar tudo, ou quase tudo que envolva seu interesse, em seu mais recente livro.

Ele, que foi traduzido para o espanhol e francês, e é editor pelo selo Mariposa Cartonera, com o qual publica diversos autores de forma artesanal, é também figura atuante nos meios literários, defendendo claramente suas escolhas políticas, ministrando oficinas cartoneras pelo Brasil e comandando a Cepe Editora.

Não bastasse ele é professor e tradutor. E um sujeito com estilo (não “estilagem”, é bom frisar).

Felicidade, sua mais recente obra, saiu em 2017 pela Editora Patuá. O livro em si é um primor em sua parte gráfica. E um petardo em sua essência.

Dividido em três partes (Beleza, Julgamento e Misericórdia), Felicidade é resultado de um trabalho extremamente poético, sucinto e poderoso. Um trabalho onde o autor consegue unir assuntos relevantes (coletividade, poesia, luta de classes, questões de gênero etc.) com habilidade, sem se perder no caminho – até porque o caminho é ele quem cria.

Em cada página o leitor se sente livre para escolher como construir em sua mente essa ou aquela cena (a necessidade básica de “entender” o enredo e apreender o estilo, simplificando-os na busca de repetições e convergências). Porém, essa sensação é aparente, na medida em que Melo tem o intuito de nos manter por perto, na base da rédea curta – e a tal simplificação cai por terra: cada nova leitura força a admitir que algo sempre nos escapa, que não vamos aprisionar a escrita de Wellington. E ficamos gratos por cair na armadilha.

A poesia (ou prosa poética, fiquem à vontade) serve como base para as situações a priori surreais, mas que trazem em si o elemento político tão caro ao autor– falo de 40 pessoas prontas para um suicídio coletivo na mesma noite em nome de uma causa, dentre outras coisas. Contudo, ao seguir adiante com Ademir, o personagem principal, começamos a perceber que as cenas e os acontecimentos se tornam parte do jogo. Um jogo que vai se mostrando profuso, verossímil e doloroso, onde o indivíduo não se dilui em nome da tal causa. Para nossa sorte.

Um jogo saturado de brutalidade, desespero, poesia e coesão. Uma incrível história.

Então, seguimos. E nos jogamos de edifícios altos e imponentes em nome de um ideal. E caminhamos pela cidade, onde “Duas colunas com capiteis sobre as quais dormem cabeças infantis fraturadas pelo vento e pela cal (…)” surgem numa “ (…) paisagem precária e teimosa, babel silêncio argamassa tijolos e desejo”. E somos violentados, encarando nosso passado, desprovidos do conceito tacanho de gênero (uma aposta certeira do escritor, não somente para aderir ao discurso tão atual, mas para dar a um dos personagens a merecida amplidão), sem paz e sem chances, buscando qualquer tipo de redenção.

Nada é fácil em Felicidade. Mas tudo é sucinto. E direto. E belíssimo.

Wellington faz parte daquele time de escritores que subverte a lógica na descrição de qualquer cena, seja ela crucial ou simplesmente transição entre acontecimentos: são frases curtas e afiadas, em diferentes ritmos. Contudo, essa subversão não é a impossibilidade da leitura e do entendimento, mas a chance de multiplicar esse entendimento, essa construção – sempre lembrando de que existe uma trama por trás e que nada é gratuidade, muito menos confusão.

Não foi raro me deparar com trechos onde supus não entender a ”cena” e o momento. Todavia, uma nova leitura (a doce armadilha do autor) me fez perceber as diversas chances de reconstruir aquilo, sem sair do rumo – o lance da rédea curta. Eu poderia reinventar um determinado instante, um rosto, uma dor, um suicídio, mas estava sempre jogando dentro das regras estipuladas pelo escritor pernambucano, pois havia uma história a ser narrada.

Então a cena era recontada, sempre com um novo brilho (não me arrisco a entregar o enredo, por medo que isso reduza as escolhas do leitor; e vamos em frente).

Num texto onde “(…) pombos de chumbo e acrílico zumbem (…)”; onde os sorrisos dos meninos estão “(…) mergulhados no vácuo (…)”, é fundamental entender que, mais cedo ou mais tarde, durante a leitura, estaremos subjugados e entregues. E que os trechos acima, ainda que pareçam belíssimas falcatruas poéticas, servem para compor a narrativa. Na base da boa literatura.

Em Felicidade existe maestria na condução do texto. Há uma trama sutil em sua forma (poesia ou prosa poética, mais uma vez fiquem à vontade), mas brutal em sua essência (a sequência dos acontecimentos, a tal história; a morte e o esquecimento como atos políticos; o passado dos personagens à tona).

Um movimento de distração nos custa o retorno à página. E esse retorno, curiosamente, pouco nos custa – considerando o ganho na nova leitura, sai barato, uma pechincha. É nessa volta que surge o renovado entendimento.

E um novo livro aparece. Com a mesma trama, todavia: é o desejo do autor.

A liberdade conduzida em Felicidade nos permite interpretações, mas sem nos perder numa narrativa ilógica e supostamente poética – aquele amontoado de palavras soltas; a manjada armadilha das vanguardas vazias, onde o leitor é sempre o ignorante, não importa se a obra foi publicada em mandarim: a gente que se vire com a “lisergia autoral” do gênio.

Wellington nos mostra que a literatura de qualidade, aquela que arrebata e instiga, sempre é resultado de escolhas, labuta e talento. E que é possível converter em poesia qualquer enredo, causa, tragédia, narrativa ou recurso literário, sem se extraviar no percurso.

Felicidade deve ter também alguma relação com o trabalho de um bom carpinteiro (Monteiro Lobato foi mais feliz no uso da metáfora, mas enfim), consciente do resultado de seu ofício. Um troço que transforma madeira rude em alicerce. Aprumado e firme, sim senhor. Mas igualmente repleto do que a literatura e a arte têm de melhor.

 

Gustavo Rios é baiano e escritor invisível.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Contações: a voz que canta ou A memória é editada porque nela habita

 Por Marcelo Labes

 

 

Não sou ainda um leitor antigo da poesia de Tiago D. Oliveira, mas já me considero um leitor próximo. Tive a oportunidade de ler seus dois primeiros livros de poemas, Distraído (Pinaúna, 2014) e Debaixo do Vazio (Córrego, 2016), e tive muito prazer em resenhar estas duas obras para a revista Mallarmagens assim que terminei sua leitura. Naquela ocasião, relacionei os dois livros com uma distância obstaculizada que exigia do leitor mais que olhos. Explico: diferente do lirismo luso-baiano que havíamos lido no primeiro livro, o segundo desmontava, passo a passo, a própria poesia de Tiago e nós, leitores, íamos desmontando junto.

Leitor já de um livro inédito, fui há pouco agraciado com a leitura de Contações, recentemente publicado pela Editora Patuá. E se eu ainda não havia me recuperado de minha leitura de Debaixo do Vazio, esta leitura serviu para me mostrar que de Tiago sempre posso esperar mais, muito mais: eis um poeta que lida com a poesia, própria e alheia, com uma seriedade e uma dedicação difíceis de se deixar passar sem perceber.

Tenho comigo que são poucos os temas que os poetas abordam durante a vida. Ou são muitos os temas, mas poucos eixos em torno dos quais estes temas giram. Ou são muitos eixos e temas para uma quantidade limitada de neuroses. Acho que escrever é lidar consigo e com sua história, sobretudo. Ou tentar lidar, posto que a memória é terreno movediço onde nem sempre conseguimos pisar firme. Contações, de Tiago D. Oliveira, porém, é um elevado, um viaduto: o poeta não somente está seguro do que conta como nos convida a transitar com segurança nesse seu mundo feito de ontens.

A epígrafe do itaparicano João Ubaldo Ribeiro dá o caminho: “Já estou, ou já cheguei à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo” acompanhada da do baiano Jorge Amado: “Tudo que é bom, tudo que é ruim, também termina por acabar”. Chamo os aclamados autores para dizer que não há nostalgia em Contações. Há revisita, retorno, recaminho. Nostalgia não.

Tiago retoma, neste livro, personagens da infância baiana que viveram consigo, muito de perto, para investigar em cada uma delas o porquê de permanecerem tão próximas. De elzinho, abreviação carinhosa de cruelzinho, menino sem mãe que se escondia da chuva sob marquises, sabemos através de loló, personagem que é narrada pelo poeta num poema próprio dela. O mesmo acontece com zé fim, que posfacia o poema arlinda de são pedro – uma melancólica narrativa sobre a mulher mais rica e menos amada do país – para depois ser narrado pelo poeta num poema com seu nome.

A riqueza de Contações, eu dizia, não está no que poderia haver de nostálgico. Continuo afirmando que a construção de Tiago é sólida, capaz de nos fazer atravessar certos de seus pântanos – e isso se demonstra na polifonia constante em alguns de seus poemas: não há um poeta, há um homem diluído em sombras, pois o sol da razão talvez desfizesse aquelas memórias pondo-lhes luz em cima. À sombra, portanto, caminhamos. Mas nunca incertos, apesar do que apregoa zé do rio, uma das personagens, ao reclamar que a cabeça / da gente é assim, falha / quando a gente mais  precisa, / diabo de memória.

O lirismo múltiplo e multiplicado da voz de Tiago permite que não haja um, mas vários eus-líricos – já que a memória, esse terreno pantanoso, não pertence a uma, mas a diversas pessoas. Por isso, podemos às vezes nos perguntarmos se quem fala é o poeta ou uma de suas personagens que a memória, turva, na confusão da lembrança, tornou a escrevente destes versos. Como em dia de fevereiro, onde em torno de um corpo que boia nas águas, o poema esclarece, confundindo: “enquanto as autoridades responsáveis / não chegavam para dar um fim ao espetáculo, / ambulantes vendiam bebidas e espetinhos. / crianças corriam, outros dançavam, / o sentido da vida, do que era elástico”.

Bahia, Itaparica, lugares onde nunca estive, mas que conheço através da poesia de Tiago, e que relembro como se tivesse lá vivido; inclusive é minha a pergunta que faz o poema: “toda dor é esquecida, / toda fome é suprimida, / todo morador é turista, / ou seria, / todo turista é morador?”. Não há, aqui, em momento algum, uma territorialidade excludente, mas a partir do que suponho ser viver num dos maiores rincões turísticos do país, me pergunto – ou é a poesia de Tiago que pergunta através de mim – se há quem seja de fato baiano na Bahia, Itaparicano em Itaparica, que não sejam os devoradores de fotos e paisagens.

A resposta à pergunta anterior é sim, há personagens para além das criadas pelos romancistas e poetas românticos; há pessoas para além das personagens de Jorge Amado e Tiago nos faz ter com elas, cara a cara, como num encontro adiado por muito tempo, mas que finalmente alcança o contato quase físico, quase real, deixando de ser memória para habitar a imaginação comum a quem tenha de quem se lembrar: “lizete / enlouqueceu / quando belo fugídio a abandonou no altar, / não antes de matá-lo / com 42 facadas no mesmo lugar”.

Há isso em poesia: quando os comos importam mais do que os quês. Mas se as experimentações com as vozes – que se misturam – nos dão oportunidade de contato com uma escrita inovadora e forte, há que se pensar que quando o poeta volta-se para si e os seus, ele procura nesse não apenas resolver-se, pois que a poesia confessional e memorialística pode ser desinteressante. Não: Tiago vai mais longe e busca de suas ruas, as nossas; de sua infância, a nossa; de suas personagens, as minhas e, certamente, as tuas.

São poemas ou retratos tirados por uma câmera antiga. Antiga? Se contarmos que dos 80 para cá a tecnologia tem nos deixado tontos, penso que sim: somos antigos os da década de 80. Já antigos. E compartilho deste sentimento de que se não resgatarmos o que nossos olhos viram e aquilo pelo que o coração bateu forte (e hoje bate com saudade, ainda mais quando as recordações afloram), seremos nós mesmos esquecidos. E não podemos esquecer nem deixar que esqueçam as pequenezas que nos fizeram gente, substância de nossa poesia.

Tiago, que experimenta com sua poesia desde o primeiro livro, teve Debaixo do Vazio, aquele monolito instigante, uma mostra de um poeta para fora, em contato com o mundo que o rodeia. Contações nos mostra o poeta voltado para dentro: da memória e da poesia – mas fazendo crescer a própria obra, que deixa agora de ter lado de dentro e lado de fora, e passa a ser o grande momento em que o poeta, novamente e ainda mais, se revela.

 

Marcelo Labes nasceu em Blumenau-SC, em 1984. É autor de Falações [EdiFurb, 2008], Porque sim não é resposta [Antítese, Hemisfério Sul, 2015], O filho da empregada [Antítese, Hemisfério Sul, 2016], Trapaça [Oito e Meio, 2016] e Enclave [Patuá, 2018]. Integrou a mostra Poesia Agora (edição carioca), em 2017. Tem poemas publicados em Mallarmagens, Livre Opinião – Ideias em Debate, Ruído Manifesto, Enfermaria 6 e Revista Lavoura. Edita a revista eletrônica ‘O poema do poeta’, onde publica originais manuscritos, esboços e rabiscos de poetas e ficcionistas.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Lúcida distração

Por Saulo Dourado

 

 

Temos Vagas é o título do primeiro poema de O Exercício da Distração (Penalux, 2017), de Kátia Borges. A escolha da entrada funciona como um aviso na porta: aqui o preço do feijão cabe no poema. Se em Não há vagas Gullar reclama que a poesia só traz “homens sem estômago”, a primeira parte do livro de Kátia se chama “Como se fosse o órgão vivo”. Mas a sutileza e a transmutação é que o órgão vivo também é o próprio poema. Em O gourmet momentâneo, versos de Margaret Atwood estão em papel amassado, no meio de uma aula, “passados em mão em mão como se fosse o órgão vivo”. O ciclo se completa: a poesia, qual um contrabando no mundo oficial, a um só tempo evidencia o cotidiano e se torna outra coisa, reinventando-o.

Outras referências a autores aparecem quase página a página. Poderíamos chamar de intertextualidade, se nesse O Exercício o tema da saudade e da ausência não aparecesse com tanta frequência. Como muitos versos parecem conversas com pessoas ausentes, o uso do contato com outros autores parece também um bate-papo com uma gente que não está ali, ou seja, gente como Quintana e Bandeira seriam conhecidos íntimos que deixam saudades como os amados e os amigos da vida do eu-lírico. O cotidiano na poesia de Kátia Borges assume assim o diálogo permanente com pessoas invisíveis, e o seu olhar as traz para a presença, as coloca ao lado da pedra na praia. Odisseia mostra:

 

Já não espero teu regresso
enquanto teço – a beleza
servirá para os que chegam
ainda que inalcançável
aos que retornam.

Há certa Ítaca intangível
em meu peito
que não se demora.

Um segundo e verte-se
vórtice inatingível
em Itaparica – e na dura
pedra fria dos dias deposita
seus destroços.

 

Há uma tendência ao imaterial, ao universal – uma “certa Ítaca intangível” -, mas que logo se verte e se toma pela realidade mais imediata, ainda que pior, fria e destroçada. É uma decisão de conduta que faz desta distração não uma fuga, um alheamento, um devaneio para sair do mundo tal como é, e sim o aproveitamento das brechas das coisas para trazer o “inatingível” para cá, do céu das ideias para as águas do tempo e das águas para o solo da vida vivida. Se na primeira grande sequência de poemas podemos sentir às vezes ainda o peso do Intangível, e algumas oscilações em Cais e A dor fantasma com desejos contraditórios por um mundo que não está aqui, a partir de Alegria Alegria a poesia de Kátia escolhe a vontade de enxergar ao redor (com a ironia, claro, de “perder os óculos na bolsa” e só encontrá-los nos “cabelos”).

A partir do verso “Nada no bolso ou nas mãos” – que foi um desprendimento para Caetano Veloso em relação aos deveres de sua época, já uma citação d’As Palavras, de Sartre, no qual o filósofo se entende liberado de sua neurose burguesa enquanto busca de ser um homem de exceção -, Kátia se descontrai. Seus versos ficam mais cheios de coisas, justo porque é preciso perdê-las. “Imersa, sigo firme/no exercício que me atrela/a este ofício: perder coisas”. Para perder é preciso estar em permanente contato, sentir, pegar, observar, escolher. É a partir daí que seu olhar pelo cotidiano assume o seu ponto mais alto, e longe da banalidade ou do excesso de idealismo, alcança o meio.

Se o poema Odisseia condensa o primeiro movimento do livro, o singelo Pragmatismo poderia representar o segundo. “Tenho me ocupado com coisas práticas./Se há água ou não há água no pote do cachorro”. Ao descrever acontecimentos de um dia, com o cão cego, as pistas de skate no Jardim dos Namorados, sente-se a vida ali, e o que poderia ser a burocracia do dia-a-dia é, com uma disposição de espírito maior, a própria vida. Os versos finais trazem o segredo e quase pedem a cumplicidade do leitor: “Às vezes penso que seria bom ter um cágado,/daqueles que se escondem durante anos debaixo dos móveis,/de modo que fosse sempre necessário procurá-lo”. Como no poema Infância de Drummond, a própria história se torna mais bonita que a de Robinson Crusoé.

A terceira parte de O Exercício da Distração traz um título autoexplicativo: As Pequenas Vilanias da Cidade. É quando o cotidiano público, visível nas calçadas, marquises e praças, é feito de tristezas e brutalidades. Na lida diária da cidade, a rotina é forte, as ruas não perdoam, a noite por vezes é indigesta. O eu-lírico, que poderia se distanciar das cenas como um mero olhar externo, poetiza uma relação imbricada com o que vê, e faz de seu sentimento o sentimento da cidade, e vice-versa, a exemplo de “A Praça da Piedade”.  Um blues da piedade? Seus poemas tornam-se mais próximos ao rock, letra, música e referência, como já é uma marca em outros livros, Balada de Janis (P55, 2010), Ticket Zen (Escrituras, 2011) e São Selvagem (P55, 2014). Se nos livros anteriores já estavam o rock’n’blues, o I ching, a proteção de Arcanjo Miguel e “o preço do feijão”, em O Exercício de Distração os poemas ganham ainda mais em precisão, visão de mundo e imagem.

Em The End, poema final do livro, tal qual na música de mesmo título dos Beatles no Abbey Road, o livro compreende seu caminho e seu sentido de distração:

 

essa vida que sabemos sem lugar,
posto que o coração não se publica
nos murais, é ócio diluindo o sangue,
manchetes sem fundo
de verdade, qualquer distração
que agrade a audiência.
Sobre o tempo, não sou dessas.
Quando desço a Contorno,
a beleza me golpeia feito o vento.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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123ª Leva - 01/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

As variantes do conto

Por Daniel Russell Ribas

 

 

O livro de estreia do autor César Manzolillo, Angústia e outros presságios funestos (Gramma Editora, 2017), possui as marcas de uma obra iniciante. Sem esconder suas referências literárias, também demonstra uma visão própria para as mesmas. Como em projeto “Mix Lit”, que promove a construção de um novo texto através dos trechos previamente conhecidos, Manzolillo relembra seus ídolos em luz própria. No caso, sua interpretação se sustenta acima dos gigantes em que se apoia.

O estilo breve, quase telegráfico de alguns contos, remete a Rubem Fonseca. Contos como “Cibele”, “Gabriel” e “Gilmar”, inclusive, referenciam imediatamente o universo de submundo e violência exposto no seminal “Feliz ano novo”. Entretanto, são exceções na maneira como o autor se apropria de sua fonte. Se a secura de Fonseca servia a um propósito realista e de choque, Manzolillo reutiliza esta artimanha como uma forma de conduzir o leitor às entrelinhas das narrativas. Ele insinua, no lugar de situar seu receptor. No caso, ele opta por uma desconstrução. Quando mimetiza na superfície o mestre, abre o espaço para a análise de seu uso. Manzolillo, então, oferece uma interpretação labiríntica, em que o narrador descreve uma cena que não se apresenta como uma saída, mas uma nova passagem para a compreensão íntima de seu leitor. O leitor é provocado a criar sua versão, como um novo escritor. O autor mostra as ferramentas e oferece as reticências entre as frases.

Estruturado em relatos breves, todos em 22 linhas, com os nomes de personagens como títulos, há um instigante experimento sobre a função da informação. O fato de não se tratar de contos fechados é a isca para que o ato da criação seja a força motriz. Mais do que a psicologia e o cenário, é a interpretação dos elementos o protagonista frequente do livro. A falta de localização dos atores neste palco, cujas escolhas e vidas são questionadas em múltiplas vozes, forma uma colcha opaca. O resultado é irregular, mas segura o interesse.

Os contos variam em gênero e alcance. Enquanto alguns são simples em sua estrutura, outros arriscam em uma miscelânea de vozes cujo atrativo é o impacto. Como em Dalton Trevisan, outro grandioso a que o livro presta homenagem, não é necessariamente o ato final o ápice dramático. A virada pode surgir logo na metade, um efeito que mexe em toda a compreensão do resto da história. O conto “Bianca” é um ótimo exemplo. A princípio um texto inofensivo, torna-se voraz após uma frase específica inserida em meio às cartas que a protagonista recebe. É um ótimo exemplo de como o minimalismo pode abrir o portal para uma nova visão sobre as ações de seu personagem. O que Bianca fez?, o leitor pode se perguntar.

Já em contos como “Arnaldo” e “Rita”, as narrativas são diretas, cujo propósito é o punch line. Embora sejam seguros, funcionam dentro do corpo da obra. O livro forma um padrão em que estes contos funcionam como alicerces, ou “respiros”, para mergulhos mais expressivos na metalinguagem. Manzolillo os intercala, de modo que a leitura de cada unidade passa ligada a uma anterior, mas com um todo que busca a surpresa do leitor. O autor é bem-sucedido neste aspecto, pois não é fácil adivinhar o que virá em seguida. A sensação de “caos organizado” carrega uma vitalidade que sustenta o espetáculo. Mesmo em contos que não alcançam seu potencial, como “Saulo” e “Clara”, há uma indagação preciosa para manter o interesse. A construção, o caminho, vale mais do que a jornada. Se em textos como esses a proposta torna-se mais óbvia, é quando se arrisca na seletividade de informações que funciona a contento. Matérias crípticas, como “Helena” e “Bartolomeu”, mostram que os personagens são o que menos importa na tapeçaria. São meios para um fim.

A que se destina, então, Angústia e outros presságios funestos? Com seus altos e baixos, é um inteligente exercício sobre escrita iniciante. Não ironicamente, diversos textos lidam com escritores em começo de carreira. Ao mesmo tempo que mostra uma voz ainda presa a seus ídolos, o efeito final é de uma reconstrução, jamais imitação. Há uma relevante questão que permeia o livro: o que torna um material único: originalidade ou uma maneira como nos debruçamos sobre o passado? Como encaramos o que se passou, expandimos nossa visão de mundo e acrescentamos ao jogo da literatura uma possibilidade refrescante. Nossos mestres não precisam ficar presos numa cápsula. Podemos resgatá-los com uma voz nova. A angústia da desconstrução é o que surge no livro de César Manzolillo, cujo presságio e a apreciação literária formam a cumplicidade criativa entre autor e leitor. Se nada é o que parece, cabe ao próximo elemento na cadeia completar os espaços em branco.

 

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.

 

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121ª Leva - 06/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Cidinha da Silva e a crônica como ato de nomear

Por Saulo Dourado

 

 

Números sobre a mortalidade negra no Brasil estão à disposição para quem quiser buscar e se inteirar. Gráficos, porcentagens, tabelas comparativas, que mostram o mapeamento de homicídios, um dos mais graves do mundo. Dos 30 mil jovens assassinados em 2012, 77% são pretos ou pardos, diz a Anistia Internacional. A CPI do Senado de 2016 conta que, a cada 23 minutos, um homicídio de mesma ordem acontece no país, e não há sinais de diminuição. Nas chacinas, autoridades discutem quantos foram os massacrados afinal, com 1 ou 2 a mais ou menos, como um placar.

O livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de Cidinha da Silva, traz os dados e as evidências das mortes físicas e simbólicas de toda uma população, mas os ultrapassa: dá forma e nome aos números. Afinal, com valores absolutos se consegue convencer a razão daquilo que deve importar, mas não o afeto. Quanto mais se banaliza em ofício e em notícias um acontecimento, menos o sentimos, e disso é preciso curar-se. Como antídoto, devemos entrar no particular e no miúdo para que fatos se conectem de novo às tripas e às mãos, para o sentimento e para o rebote.

A crônica tem um papel fundamental, o de tornar especial uma pessoa e um acontecimento a ponto de formar o elo de sentimento entre o particular e o todo. Eis o gênero literário que Cidinha da Silva conduz com ritmo e amplidão, e o mote que ela alcança. Seus textos dão nome, corpo e presença: Maria Julia Coutinho, Sueli Carneiro, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Mirian França, Antônio Pompêo, Luiza Bairros, Aranha, Claudia da Silva Ferreira, Livia Nathália, Liniker… Em uma crônica sobre a postagem de Fernanda Lima que elogia as empregadas domésticas como “batalhadoras”, há uma pergunta pontual da autora: “E por que não pôs os nomes dessas mulheres?” Por que seriam anônimas batalhadoras, e mais uma vez todo um povo ser uma massa anônima? Esta reivindicação percorre o livro: a de tirar a mortalha da despersonificação, causa e efeito do prosseguimento de um genocídio.

Ao contrário da Odisseia de Homero, em que o herói Ulisses se salva de Ciclopes ao se chamar Ninguém, na realidade brutal e de negligência institucionalizada as quais vivem o povo brasileiro, aquele que for Ninguém, pelo contrário, é o alvo fácil. Não se trata de cada um ascender e se tornar Alguém para salvar-se; trata-se de narrarmos e escutar as narrativas dos nomes, como um princípio, para que o Alguém seja por princípio dignidade, e não camadas de ocultação e cinismo, como é no Brasil. “É preciso ir mais fundo”, diz Cidinha em Desde dentro, “É preciso ouvir a estas e a milhões de famílias desde dentro, desde antes das tragédias anunciadas (…) É preciso olhar com os olhos de ver e ouvir com ouvidos de escuta. Desde dentro.”

Os assuntos de #Parem de nos matar! são tantas vezes críticas ao lugar da banalidade das informações: as mídias em geral. A princípio, pode-se questionar: se há tantos casos cruéis contra a juventude preta, guerra civil entre policiais e narcotráfico, por que dedicar três crônicas a Maju do Jornal Nacional, programa de uma emissora eminentemente chapa branca? Está diretamente ligado, pois é preciso assistir e cobrar no palco dos afetos, em filmes, partidas de futebol, novelas, palestras, ministérios, àqueles com os quais a comoção, a admiração, os desejos se tornem vistas e refletidas. Eu preciso ver aquele que me faz sentir: eu preciso sentir candura ou raiva, ternura ou desprezo sem elos específicos de corpo e de pele.  Tudo aquilo que dirige os afetos a tornar um massacre um fato menos sensível é cúmplice de seus acontecimentos.

Sem o sentimento, é muito mais fácil esquecer-se e deixar acontecer. Eu particularmente fico contente por este livro ter-me feito passar irritações, náuseas, estranhezas, comoções, raivas e risos, ter-me deixado baqueado em uma tarde de domingo. Quer dizer que há energia de movimento pelas páginas e que passam por mim. Porque sentir é dar força, é vigor de natureza, e nessa dança não há sentimento ruim ou bom, há aquela que provoca o movimento de dentro para fora, a vontade de ser para além de si. Há métodos de ação? Provoca-se a consciência como as crônicas à Carolina Dieckmann e à Patrícia Moreira, ou por marchas, rolezinhos e protestos, ou por dentro das estruturas para refazê-las, como a política em Luiza Bairros, ou a música de Ellen e o humor de Chris Rock na abertura do Oscar. Ou tudo junto, nisto como em tudo que envolvam coletividades e mudanças.

São vários os subtemas dentro de um grande tema, em circunstâncias diversas. O cronista também é um rebatedor: a realidade se lança plural e inverossímil, e a crônica a devolve menos bruta, talvez mais brutal, tangida por olhar e saliva. O cronista cria veículos de sensações e também organiza e interliga acontecimentos, dá linhas de pensamentos. #Parem de nos matar!, então, enquanto uma compilação de dezenas de textos, está sob o desafio de traçar algum caminho, de ligar uma ideia à outra, e ganhar unidade. Consegue. A princípio, pensei que fosse uma ordem cronológica dos acontecimentos, depois vi que era por temas, e talvez sejam os dois movimentos se costurando. Misturou-se a tal ponto que um texto mais denso, como “Tempo Novo!”, que vai do racismo no futebol ao golpe parlamentar de 2016, seja coeso com o belo “Matias e o Boneco de Star Wars”.

Assim, me deixo levar totalmente por uma crônica como “Obituário de uma lembrança”, com a qual me reconheço nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:

És a primeira pessoa de meu círculo próximo de convivência assassinada e quero que seja a última. Não sei lidar com isso e não quero aprender. Sou fraca e insignificante. Não tenho a força da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha família assassinados, sete foram mortos pela polícia…

Cada um dos que se vai nesse massacre é a primeira de algum círculo, é sentido com uma força que não acreditaríamos se apenas o subtraímos ou o somamos. Do contrário, se não conseguimos religar as dores aos sentidos, o que senão as palavras para fazerem a força de ligação? As crônicas, lumiares das pequenezas, indo do cada um para o todo, e do todo para cada um, formam. O livro de Cidinha da Silva reúne.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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120ª Leva - 05/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Das profundanças

Por Geraldo Lavigne de Lemos

 

 

Há livros que são decisivos para a interpretação de um tempo. Registram fatos. Abordam temas. Promovem o diálogo. Fazem as pessoas avançarem, evoluírem. Alguns desses livros são constituídos de entranhas. São matéria viva, pulsante. São palavras vindas das profundanças. E tal conteúdo adere ao corpo do leitor. Quem o lê, ressignifica o mundo e o que nele existe. Antes, ressignifica-se.

Profundanças 2 reúne 16 escritoras: Aidil Araújo Lima, Ana Mendes, Andréa Mascarenhas, Daniela Galdino, Dayane Rocha, Débora Ramos, Erika Cotrim, Haísa Lima, JeisiEkê de Lundu, Laiz Carvalho, Larissa Pereira, Lílian Almeida, Mel Andrade, Miriam Alves, Rita Santana e Thalita Peixe de Medeiros. Não cabe a mim falar sobre cada uma delas, pois sendo uma, elas são todas, e sendo todas, elas são uma. O que eu poderia dizer sobre uma que não coubesse a outra? Incapaz de distingui-las dentro do discurso uno que o livro traz, e que assim foi feito para assumir a voz de cada mulher, coube-me expor o livro que não inaugura eventos sobre suas vidas – posto que está carregado da luta para livrarem-se de uma condição imposta –, mas assume uma voz antes inaudita, pois era calada.

Daniela Galdino organizou a antologia, que é literária e fotográfica. Ela também foi responsável pela apresentação e expõe sem meias-verdades o que precisa ser dito. A cada frase, o eco de quem hasteia uma bandeira com todos os brasões. O trecho de Conceição Evaristo que serve de epígrafe fala sobre o livro, colhido no céu da imaginação, repartido em folhas dadas às autoras e fotógrafes – como grafado no livro –, e, depois, aos leitores, antes que o sonho perca o penetrante toque da arte pura. Profundanças 2 ressalta a trajetória da mulher pelos caminhos da resiliência. Diz claramente que há um gene comum entre Frida Kahlo e elas, seja biológico ou não, e a sociedade insistentemente fracassa em desativá-lo.

Se uns textos tiram a mulher do sofrimento cotidiano e passam-lhes bálsamo nas feridas, outros são reações enérgicas contra as injustiças que lhe são imputadas. O leitor encontrará o depoimento de todas elas. E preste atenção: eu não disse confissão, segredo, desabafo… eu disse depoimento. Em alguns casos, sentirá o vento frio do inverno sobre o corpo nu; em outros, o sopro abafado do verão no areal. A própria voz é a principal ferramenta adotada pelas autoras, que, sabendo-se parte de um todo, dialogam de mãos dadas com as mulheres e olhos nos olhos com a sociedade. Quando alguma autora assume outra voz, retoma, em verdade, aquele gene comum citado acima, de forma que fala também sobre si. No entanto, não cala a outra voz. Serve, sim, de canal, para que todas sejam ouvidas. Elas são voz e porta-voz.

O leitor, por outro lado, conforme se apresente, terá orvalho ou geada, mas ambos resultantes da noite que elas atravessaram. A leitura poderá incomodar o leitor, se a mordaça estiver em suas mãos. Digo, porém, que o leitor de mãos livres sentirá confiança, se partilhar dos sinais que o livro aponta. Não vou falar ainda em felicidade e justiça, porque são dois estados a serem alcançados quando não houver mais obstáculos causando sombras e penumbras.

Tem-se prosa e verso. Na prosa, vemos regras clássicas e novas aplicações gramaticais. No verso, há os livres, os rimados, os metrificados, e as formas preestabelecidas, como o soneto. Em todo caso, há precisão. A linguagem dos textos é moderna e, embora às vezes pareça truncada, traduz o discurso interrompido pela sociedade e terminado pelas mulheres, porque elas são fortes. A inovação da literatura está presente no livro como está presente nas frestas de luz que os textos permitem ver. A novidade literária surge no desdobramento da própria reinvenção existencial das autoras, que sem perder a identidade e a meta, conseguem construir caminhos em qualquer ambiente.

A leitura flui muito bem, sempre alerta e renovada. Quando os temas são pontuais, a autora vai bem fundo, sem perder o fôlego. Quando os temas são mais abrangentes, a visão amplia sobre uma extensa superfície, até que o ponto nevrálgico seja atingido de uma forma contundente. O leitor permanece desperto a cada página, enquanto o cotidiano passa cru e objetivamente.

Umas das qualidades que se procura na literatura é a condição imagética, capaz de conduzir o leitor por cenários diversos a partir dos enredos. Os textos têm tal condição trabalhada com primor. E vão além. Em Profundanças 2 há uma via de mão dupla com a iconografia, pois as autoras foram registradas em ensaios por 19 fotógrafes, que foram, na respectiva ordem de apresentação das autoras, Camila Camila e Letícia Ribeiro, Josi Oliveira, Henrique Valença, Ana Lee, Cláudio Gomes, Andrezza Tavares, Haísa Lima, Catarina Barbosa, Lanmi Tripoli, Mariana Lisboa e João Caique, Adrian Greyce e Rodrigo Iris, Inajara Diz, Brenda Matos, João Santana, Shai Andrade, e Ytallo Barreto. Cada autora ainda recebeu uma ilustração de Bruna Risério. As fotos e ilustrações são figuras poéticas que acompanham os textos das autoras e trazem mensagens agora capazes de conduzir o observador por enredos a partir das imagens. É a inversão da arte que se espera em uma antologia literária; a transmudação para uma antologia fotográfica. A perspectiva muda. Contudo, leitor, lá estão os mesmos sinais.

Os ensaios e as ilustrações avançam sobre a descrição biográfica das autoras que, tendo deixado detalhes nas entrelinhas das poesias, deixam também nas entrecores e entreposes das figuras. Fotógrafes e a ilustradora conseguem traduzir em imagens as autoras, aproximando-as ao leitor. Um trabalho exitoso, que dá continuidade ao conteúdo, sem sabermos qual antecede qual, porque literatura e iconografia se combinam em busca de traduzir sentidos e sentimentos. Resolve-se, por ora, o impasse entre a palavra imagética e a figura que vale mais que mil palavras. O objetivo é trazer à tona aquilo que por muito tempo foi depositado no fundo.

Se o primeiro volume de Profundanças criou um neologismo, o segundo volume fixa definitivamente o verbete no vocabulário brasileiro, significando aquilo que vem do íntimo, que é da sensibilidade humana e se expõe de forma transparente. Diga-se mais. O livro não se encerra no conteúdo literário e iconográfico. Há, ainda, uma valorosa equipe de produção que permitiu tamanha qualidade. Isto porque a intenção não se resume a publicar o livro. É trazer o tema à baila, discuti-lo repetidamente até que se afastem as grades da imposição.

 

 

* Para baixar Profundanças 2, clique aqui

 

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem publicações em jornais, revistas, blogues e antologias. Desenvolve os poemas furta-cores desde 2014. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus (2017). Mantém o instagram @geralavigne.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Dividir-se para multiplicar: uma leitura de “Desinteiro”, livro de poemas de Guelwaar Adún

Por Alex Simões

 

“É colocando a violência do signo poético no interior da ameaça de violação política que podemos compreender os poderes da linguagem” (Homi Babha, O Local da Cultura, p. 97)*

 

 

 

O que pode ser um livro de poesia? Uma arrumação de poemas temporariamente suspensos no tempo, espacialmente dispostos num livro, ou unidade de sentido mediante o esforço de um artista que o assina e o pensa e o executa como projeto? Desinteiro, livro de estreia do experiente poeta-editor Guellwaar Adún, publicado em 2016 pela Ogum’s Toques, é um projeto desconcertante e consistente, um livro cuidadosamente pensado e executado para abalar a cena literária brasileira. Um livro de 164 páginas, dividido em quatro partes (Corda Retesada para Tiro, o Arco Armado, A Flecha, O Alvo), conta com capa belíssima de Dadá Jaques, ilustração de Raimundo Santos Bida e projeto gráfico do poeta que assina a obra.

Em Desinteiro o fragmento nos leva ao duplo, ao múltiplo, ao mesmo tempo que compõe um todo, por ser desinteiro, e não suas partes, suas metades. I-Tal e qual o livro, este ensaio de leitura pede licença a Exu para falar, Padêlicença. O “signo-como-símbolo” ** é tanto o dono do falo quanto o dono da palavra. É assim que se pode entender o trocadilho como estratégia de contra-ataque, de leitura descolonial da tradição, do poema como lugar do isso-e-aquilo. Eixo e Exu são muito mais que simples contraposições, são índices de um ouvido atento para a diferença entre o que se escreve e o que se diz, de um poeta que traz o que traduz, que se revela no que escuta e que problematiza na escrita o que a própria escrita pensada acriticamente não assimilaria como semelhante-quase-igual. Quando “encruzilhadas” é preterido por “encruzas”, tradições discursivas aparentemente distantes são alinhavadas: os pontos de candomblé e as rimas do rap. Ou como explicar a presença do étimo “encruzas” como item lexical no repertório de um poeta meio carioca, meio baiano? O seixoLalu acompanha Ogum(‘s Toques) e Oxóssi. Cancela ejós, dando luz a outros nós, sóis.

O filho de Oxóssi é guerreiro por definição. Reteza a Arca para o tiro e acerta o alvo branco. Desafia o olhar simplista, mostra o poder dilacerante que se exerce pela palavra, no alvo da página, no jogo entre palavra e alvo, nos interstícios, nas apropriações e nas aproximações: o rondeme é tanto o lugar do sacrifício ritual, quanto o panóptico sagrado a que voluntariamente se dirige o iniciado. Aqui o yorubá (e outras línguas africanas que meu ouvido colonizado não identifica), o espanhol, o francês, o inglês e o português se encontram no mesmo poema, dizendo serem os mesmos os problemas enfrentados na diáspora pelos filhos de África em seus encontros e desencontros, mediados pelos modos de gritar contemporâneos. Desse modo vemos um “eu” que vai aos poucos se dilacerando, em consonância com o rito de iniciação: meu eu,/ despido de meu corpo, (Diga a verdade às crianças); um eu que é um lugar sagrado: Meu corpo é meu templo (I-tal); um eu que se retesa no Arco Armado.

E é n’O Arco Armado, que o guerreiro e sua autoapresentação cede lugar para a cena da guerra e para a heteroapresentação (Ferdinandeando, Roteiro para Semembe). A guerra se dá na linguagem, na disputa por um território, naquilo que tem lugar (tempo) em e toma lugar de(espaço), relembrando Fanon, porque “Relembrar Fanon é um processo de intensa descoberta e desorientação. Relembrar nunca é um ato tranquilo de introspecção ou retrospecção. É um doloroso re-lembrar, uma reagregação do passado desmembrado para compreender o trauma do presente.” (Babha, 2005, p. 101) Fanon que, por sinal, é explicitamente retomado no texto de Guellwaar, não só em nome próprio e intimamente citado pelo prenome, como pela apropriação em forma de verbo em primeira pessoa, num dos poemas que, segundo minha limitada e parcial avaliação, constitui um dos momentos mais potentes do livro, inclusive por nele ouvirmos ao fundo a música versista de Cruz e Souza arrematando a polifonia complexa desse ouvido de músico-e-poeta: Frantz palavras e sotaques, fanoneio / portal do inverno, me recolho e me esgueiro. (Portal)

Já em A Flecha, muda-se a estratégia em relação aos nomes próprios. O que, em outros momentos é apropriação e de nomes próprios, para sinalizar afeto e/ou citação como estratégia poético-discursiva (baldwinamente, saramagueando, fernandiando, fanoneio), aqui é enfrentamento e nomeação: Thomé de Souza, não por acaso, vem em primeira pessoa logo após um poema em que é mencionada uma encomenda do rei (o rei e o mar) e antes do poema dedicado a Hamilton Borges Walê, um guerreiro nomeado e uma espécie de irmão-poético de Guellwaar, com quem compôs o grupo “Os Maloqueiros”, levando a poesia e o teatro para as ruas de Salvador. Essa parte termina no que seria o livro como tradicionalmente o concebemos, com a autoria assinada por um sujeito empírico, que assina uma construção verbal, mas que aqui é arquearia do verbo, em que o alvo é sempre o alvo.

Em O Alvo, o desinteiro se realiza, pleno. Lugar de inscrição do leitor, de incompletude assumida, de assunção da página em branco como locus do entrave, do conflito e da negociação entre leitor e autor, do princípio de cooperação entre o leitor que escreve e o poeta que lê: rasura e traço, poesia militante e não limitante, porque incompleta por consciência de si, por consciência do outro. Poesia em favor de, por ser poesia contra, no sentido formulado por Ricardo Aleixo (2000)***:

 

Vejo….. a ….“boa poesia” ……como…. .sendo ….aquelaque é,
independentemente. de. seus assuntos, contra. Contra a língua
cotidianaa. e ..a ..literária, contra. a …poesia anterior, contra os
conceitos correntes ..de poesia,. contra .a .poesia das palavras
“poéticas”,..contra ela mesma,contra a comunicabilidade fácil,
contra…. .o difícilde superfície, ..contra a.. História, ..contra a
filosofia,…… contra. .a. ordem.. social e .política vigente, contra a
ditadura do sentido único, contra a ideia de identidade (étnica,
cultural, …….religiosa,….. sexual etc.) ….enquanto uma “ficção
simplificadora” …..que ..tem como ..fim último ..a .exclusão da
alteridade, …..contra, ..enfim, ..a enfadonha.. convicção. de que a
poesia está morta.……………… ………………………………………………………..

 

Desinteiro é, portanto, um aceno em direção à poesia viva, que assume riscos, que interpela a participação ativa de leitoras e leitores, que dá a cara a tapa, propondo desafios e trazendo à cena vozes silenciadas, é a pergunta de Fanon “O que quer um homem negro?” tentando ser respondida: o homem negro quer, entre outras coisas, escrever poemas, dizer que está vivo, que caminha sobre espinhos brancos, assumindo sua condição de guerreiro em combate.

E eis a Dicção da Flecha, que prepara a cena do combate ao mesmo tempo que afirma o sagrado do combate, porque a guerra se faz no discurso, na inscrição do sujeito nesse discurso,  e também na cisão desse sujeito, deslocado, diferenciado, reencenando as autoabolições, para, re-nascer. E aqui encerro a minha cena da cena, encerrado nesse discurso em que também me vejo, re-nascido, dividido e multiplicado, desinteiro, irmanado ao sujeito que opera o procedimento cirúrgico e demiúrgico na linguagem:

 

Em busca da paleta imperfeita
na mosca, sem vida fácil,
fixação, incerteza,
zarabatana espreita
olho ácido,ágil
mira acesa

 

 

Notas:

 

* Trad. de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláudia Renate Gonçalves.

 

** Barthes, segundo Babha.op. cit.

 

*** Na Encruzilhada, no meio do redemoinho. In: Pedrosa, Célia (org). Mais Poesia Hoje. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000. P. 154.
 

 

Alex Simões é poeta, escritor, professor, performer e tradutor de poesia. É autor de “Estudos para Lira” (inédito, Menção no Prêmio Copene 2001), “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (Domínio Público, 2013), “(hai)céufies” (Esquizo Editora, 2014) e “Contrassonetos Catados & Via Vândala”(Mondrongo, 2015). Colabora em Revistas Literárias, antologias e em blogs/sites de literatura. Ministra oficinas de poesia, com foco em versificação e ações performáticas em poesia. Recentemente traduziu o livro “Entonces Daniela” (Lummen Editora, 2015) e coeditou um número da Revista Organismo. Integra o Mapa da Palavra e é um dos colaboradores da Revista Barril.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

A busca de si e as formas fixas, a Mecânica Aplicada de Nuno Rau

Por Roberto Dutra Jr.

 

Veio o pós-modernismo e nós nos fragmentamos em tantos pedaços quanto uma tela cubista comporta. Surgiu a world wide web e nos fragmentamos mais ainda em avatares e perfis, redes sociais, raves cibernéticas e encontros virtuais. Uma nova realidade abraça a todos nós e a cidade em que circulamos circula em cada dispositivo móvel em níveis que nos viciam sugando o nosso tempo como vampiros instalados nos chips.

Estas imagens e outras povoam irremediavelmente a minha mente quando carrego as páginas de Mecânica aplicada, o novo livro de Nuno Rau, que saiu recentemente pela Editora Patuá. Façamos o reload.

Nuno Rau faz uma mescla de imagens e narrativas versificadas, surgindo rápidas como flashes entre um fluxo de consciência que também engloba samplers de outros poetas e compositores. A desapropriação de um verso alheio é a identidade de um novo poema. O indivíduo entre estas páginas, que vaga numa polis cyber-punk perdeu as ilusões e dialoga ora com um outro, que pode ser ele mesmo ou um sampler de um poeta (ele mesmo se constrói? Ou uma voz do cânone?). Não temos certeza de quem está lá, à solta; quem é este observador do fluxo de informações, desolado em reflexos de si mesmo que não reconhece. É preciso quebrar os espelhos: “… erradicar / os artefatos / da ilusão”. Fica no ar sempre a pergunta se o indivíduo é o sintoma ou a doença de si.

Uma máquina do mundo revisitada não seria uma leitura extrapolada de Mecânica aplicada. Entretanto, os poemas de Nuno Rau, com um ritmo ainda mais fragmentado, comunicam-se com suas referências drummondianas e haroldianas (de Campos) e revelam uma profunda angústia de ser no século XXI um homem (poético) sampleado.

Ora com modos de graphic novel, algum desvio surrealista e certamente impregnado de distopia, os poemas de Mecânica aplicada não encontram caminhos nessa cyber-cidade, a única fuga é a para dentro de si, como nos versos de “por dentro, por fora”: “vivendo pela margem, neste exílio / de uma pátria que não existe, a não / ser na mais absurda alucinação, / nenhum dia me abre o seu sentido; / … / além do corpo, / … / as coisas seguem normais / … / sob a pele das coisas arde um tal incêndio”.

Mecânica aplicada tem uma unidade conceitual dividida em cinco partes, sendo Subversio machine, Imago mundi, Fenomenologia dos materiais, Opera mundi e Mecânica aplicada. Os poemas “Fragmentação”, “Romantismo mode on mode off” e “Ars poetica” são o ponto de convergência deste eu fragmentado do poeta (sua consciência dentro da máquina do mundo) e dividem o livro em uma tomada de estilo e de forma.  As duas seções finais são compostas de sonetos. O caminho para dentro de si é o encontro de uma forma fixa tradicional da literatura. Seria um retorno à infância ou à infância cultural de um ser poético desiludido num mar de informações e referências, impossível de ser filtrado?

Nuno Rau não reinventa o soneto, mas utiliza o recurso como uma oposição à fragmentação. Se havia uma busca, esta deveria ser por concisão e a aplicação da mecânica surge no verso e sua prática. Versos como: “a forma fixa: o conteúdo, não. / A mente é livre, o pensamento inquieto, / e exposto a mais esta contradição / cometo – extemporâneo – outro soneto”, demonstram o jogo metalinguístico montado.  Tendo a língua como referência na busca de uma possível identidade, este indivíduo, que pode não se perceber na polis cibernética e sampleada, encontra dentro de si uma sample anterior e nela tenta se elaborar, reconhecer-se como tal. A reflexão seria um questionamento constante de muitos autores: existimos apenas enquanto linguagem?

O emprego do soneto dá um frescor no texto, embora fique também outra pergunta latente na leitura dos poemas de Mecânica aplicada: o pós-pós da linguagem literária é a forma fixa? Ainda: a resposta da fragmentação de si na linguagem é o retorno ao cânone? Incluso das alegorias da infância, do amor, do encontro do outro e demais temas que podemos considerar como universais. Creio que faço perguntas demais nessa resenha, isso me intriga, mas também elucida algo muito claramente: uma das funções da arte é nos compelir ao questionamento, além de conformismos, certezas e confortos. Tendo isto em mente quero finalizar dizendo que Mecânica aplicada, de Nuno Rau, acima de tudo, deixa claro que: reload>code = poesia.

Boas leituras.

Roberto Dutra Jr. é um carioca, suburbano e deslocado. Escritor em resistência, mestre em Letras; foi editor da Revista Escrita e contribuiu para o jornal Panorama da Palavra, e escreveu artigos acadêmicos. Atualmente oferece consultorias literárias, e leciona quase na clandestinidade. É colunista regular do blog literário Zonadapalavra, resenhista da revista de artes Mallarmargens e usa o Instagram para experimentos fotopoéticos. Foi recentemente publicado na antologia Escriptonita (Patuá).

 

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117ª Leva - 02/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

A criança como o estado da criação em Poética na incorporação – Maria Bethânia, José Inácio Vieira de Melo e o Ocidente na encruzilhada de Exu, de Igor Fagundes

Por Alexandra Vieira de Almeida

 

Igor Fagundes faz do sagrado, em Poética na incorporação (Editora Penalux, 2016), oitavo livro do autor e quarto de ensaio, um caminho para o novo e desconhecido, sem a roupagem velha e puída com a qual se acostumam aqueles que estão presos à tradição mais gasta do pensamento. Traz o olhar da criança, não em sua pura inocência, mas naquilo que ela tem de esperteza, de astúcia e curiosidade pelo fogo do conhecimento na abertura à indagação.

Uma revelação infantil, um erê, na fonte do riso, no rio, é o ponto de partida para a construção poético-filosófica deste livro magistral, que não se quer mais um monumento de saberes a serem seguidos, mas de questões e descobrimentos de novas veredas vivas. A raspagem é o desnudamento de toda nossa tradição cultural, ocidental e oriental, quebrando as dicotomias e trazendo a infância do mítico à lume, à presença, o originário em toda sua força.

O grande mestre poeta Alberto Caieiro já nos revelava este desvestir, este retirar, na violência, no sangue da palavra, o que se tem de mais tradicional em nossa cultura. Igor Fagundes, com todo seu dom pela e na palavra, nos encanta com um canto trazido pela Mãe Oxum. No encontro, nas incorporações entre Exu, Hermes e Cristo, o poeta-filósofo, por aqui estudado, faz da “encruzilhada” um grande trabalho intertextual de confluência entre vários lugares: o grego, o cristão e o africano. Faz da morada do mítico, do filosófico e do poético um trabalho grandioso de esquecimento e memória, sem tomar a água da repetição, porque a incorporar uma nova vida, um pensar nunca antes visto, mas inovado com palavras originárias.

O sagrado, livre dos pré-conceitos da tradição ocidental, perfaz os entrecruzamentos de territórios que poderiam parecer à primeira vista inconciliáveis, mas que pela artimanha arquitetônica da criação de Igor Fagundes, nos leva, com a cantora Maria Bethânia, da Musa à Pombagira, do mar ao sertão baiano. Faz do poeta José Inácio Vieira de Melo um Ulisses que incorpora Exu. O trabalho de incorporações é o diálogo possível que encontramos presente também nos pré-socráticos, sobretudo em Heráclito, que pela “harmonia dos contrários”, torna admirável esta encruzilhada entre tradições distintas, mas próximas pelo olhar agudo de Fagundes.

Nessa “estória”, como o autor mesmo chama, encontramos um trabalho de raspagem, de desnudamento da tradição, para que o novo da criação, da poesia possa nascer. Pois, só abandonando as velhas roupas, o peso, que a leveza do poético pode advir. É intenso o jogo de paralelismos, espelhamentos neste livro original de Igor Fagundes. O livro não segue um sumário tradicional: são versos que alinham as páginas e os capítulos são belíssimos batuques, não só a críticos, mestres e professores homenageados, mas a entidades como Maria Padilha e Exu Tranca-Rua, da tradição afro-brasileira. Em cada capítulo se constrói um mergulho ao universo do Erê, a criança sempre eterna, que caminha para o processo criativo do nosso imaginário, daquilo que incorpora novamente e, sempre presente, se atualiza.

Nas três metamorfoses do espírito, de que falou Nietzsche em Assim falou Zaratustra, seria preciso o ser humano atingir o estado final de criança, paradoxalmente, para que se fizesse a ponte para a liberdade completa. Da fase do camelo, passando-se para a do leão, atinge-se o estágio da criança, quando as cargas pesadas são deixadas de lado até que surjam novos valores. Não valores que venham a servir de modelos, mas valores que os questionam.

A “raspagem” é o retorno a este estágio de infância, onde se busca a liberdade dos paradigmas do mundo adulto e institucionalizado. O erê – a Lagriminha de Ouro da Oxum – surge como apelo ao filósofo-poeta, que, abarcando novos mares, chega ao sertão das criações. Igor Fagundes, a partir de uma vontade de potência, conquista um mundo que é todo seu e que leva o leitor não a respostas prontas, mas às indagações, conforme o universo da criança. A “raspagem” produz seu efeito: o leitor se desnuda de suas antigas vestes conceituais.

Alexandra Vieira de Almeida é escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ).

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Dois Argumentos para o espanto

Por Jorge Augusto

Na história e na crítica literária, tradicionais, há certa expressão comum que defende dois tipos básicos de produção literária, uma voltada para as preocupações formais, a qual é creditada à experimentação e à evolução das linguagens e formas artísticas. De outro lado, estaria a literatura engajada, de cunho exclusivamente discursivo e voltada quase sempre para discutir ou expor questões sociais contemporâneas de seu autor.

É desnecessário demorarmo-nos na fragilidade dessa dicotomia, são muitos os exemplos que embaralham e refutam essas afirmações, pois existe na cultura brasileira uma sofisticação estética de manifestações e linguagens tidas como marginais pela cultura canônica e hegemônica.  Uma imensa genealogia pode ser listada nessa proposição, que poderia ser brevemente desenhada, partindo dos Racionais Mc´s e Gustavo Black Alien, no rap, Pedro Kilkerry, no Simbolismo, e Arnaldo Xavier na Literatura Negra, Glauber Rocha no cinema, só para citar alguns e poucos nomes de artistas que produzindo fora dos lócus hegemônicos empreenderam experimentos em suas respectivas linguagens.

Porém, sobretudo na literatura, a experimentação parece ser sempre creditada a movimentos que priorizam sempre a forma em detrimento da discussão social e política, fazendo funcionar a frágil dicotomia exposta acima, entre marginal e canônico, como sinônimos de engajamento e experimentação, respectivamente.  Sem dúvida, um problema historiográfico que poderia ser resolvido facilmente com uma crítica que se propusesse a uma metacrítica.

É esse gesto crítico que o livro “A notícia plena ou Argumentos para o Espanto”, do poeta e rapper Robson Poeta Du Rap, possibilita ao leitor atento. A obra embaralha os gêneros letra de rap e poesia e, se podemos afirmar que a discussão sobre rap como poesia é antiga e “consolidada” em alguns meios acadêmicos e dispõe já de bibliografia significante, talvez o mesmo não possamos dizer sobre pensar a poesia como rap, ou seja, pensá-la e construí-la dentro de uma estrutura rítmica pautada nos tempos do rap, como podemos ver no poema “poesia nenhuma no verso”, que diz: o rap é ódio/a vontade de subir num pódium/nem que seja pra cuspir/a condição de não mais existir/poesia nenhuma no verso/ o rap é cuspe/ esse país que não sabe pra quê que serve a USP/ pra quê que serve a USP? – Me parece esse um dos gestos de rasura impressos no livro.

Além deste gesto, um outro, quiçá mais radical e ousado, aparece no livro, a saber: o esgarçamento do rap enquanto forma, a partir da proposição de letras de rap mais curtas e densas, construção denominada por alguns leitores e algumas vezes pelo próprio poeta, não sem ressalvas, como poema-rap-síntese.  Nesse sentido o livro tem uma proposta estética específica e se insere numa genealogia de obras que propuseram experimentações formais, a partir de lugares não canônicos, no cenário da cultura brasileira.

O livro interessa a todo leitor que gosta de poesia, e ou se importa em discutir e ou acompanhar a produção literária baiana e nacional, como também aqueles que pesquisam a relação que pode ser desenhada entre rap e poesia. Robson Poeta Du Rap tem poemas publicados na Revista Caros Amigos, na edição “Ato II” coordenada por Ferrez, e no Jornal Bahia Notícias, além de participações em saraus como Dominicaos e Pós-lida. Seu livro de estreia foi lançado pela Organismo Editora.

Jorge Augusto é poeta e professor. Doutorando em Literatura e Crítica da Cultura, pela UFBA. Publicou textos e poemas em revistas e jornais, como SUL21, Germina Literatura, Cronópios, entre outras. Participou de Algumas antologias como a Enegrescência, publicada pela editora Ogum´s Toques. É editor na Organismo editora.