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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra III

Os Trezentos curtas de Wilson Guerreiro

Por W. J. Solha

 

Comemorando seus 70 anos de idade com estes haicais de Grãos de Esperança – 300 haikais guilhermianos, que acaba de sair pela editora Chiado, de Portugal, ele me lembra que em 2011, seis integrantes do grupo COMPOMUS, da UFPB, criaram – em comemoração dos meus mesmos 70 – a Cantata Bruta,  a partir de curtíssimos contos meus sobre a violência contemporânea.

Estou me exibindo?

Não.

É que, nesse concerto, um trecho particularmente me deslumbrou. De quem, caramba?!

– Wilson Guerreiro!

Estes haicais foram, pra mim, nova surpresa. Daí que parti pra Wikipédia, para saber, afinal, “com quem estava lidando”! E… meu deus!

Wilson Guerreiro nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, 1945. Em 1959, mudou-se com a família pra Campinas-SP, e em 66 ingressou no ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica, como Engenheiro de Eletrônica. Mestre em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da UFPB, Campina Grande (1973), Master of Science (M.Sc.) em Eletrônica pela University of Southampton, Inglaterra (1975), e Ph.D. em Eletrônica por essa universidade (1979), atuou como professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPB no período 1971-1999,

E o que tem isso a ver com haicais? Calma. Prossigo de Wikipédia:

Teve sólida formação musical em cursos de composição, harmonia e instrumentos, tendo estudado com renomados professores, entre os quais Eli-Eri Moura, Marco César de Oliveira Brito e Liduino Pitombeira. Sua produção inclui peças para diversas formações camerísticas, orquestra sinfônica e trilhas sonoras para teatro e vídeo. Recebeu o Prêmio de Melhor Música no VI Festival Nacional de Teatro de Guaçuí, Espírito Santo (2005), e no XIII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, Ceará (2006), pela trilha sonora, composta em parceria com Marcílio Onofre e Samuel Correia, do monólogo gogoliano Diário de um Louco, dirigido por Jorge Bweres e André Morais.

Wilson Guerreiro se descreve no haicai 282, desta edição:

Vivo sem conflito,
na calma, mas a minh’alma
busca sempre o agito.

Genial!

E vamos aos haicais. Guerreiro assume, no subtítulo de seu livro, que os seus são guilhermianos. Como Guilherme de Almeida (poeta paulista, 1890-1969), estabeleceu para si tercetos de 5, 7 e 5 sílabas, rimas do primeiro com o terceiro verso, o segundo com rimas internas na segunda e sétima sílabas. Também assimilou o espírito guilhermiano da coisa:

Haicai é um mero enunciado: lógico, mas inexplicado. Apenas pura emoção colhida ao voo furtivo das estações, como se colhe uma flor na primavera, uma folha morta no outono, um floco de neve no inverno.

 Sobre essa base… técnica surge o estilo Guerreiro, cuja primeira característica é a preocupação social. E outra: paixão pelo sertão nordestino brasileiro, patético e, muito mais: estético. Tanto, que as grandes obras de arte do país são todas dessa região ou sobre ela: Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, bem como os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Os Fuzis, de Ruy Guerra, e novamente Vidas Secas, agora de Nelson Pereira dos Santos. Destaque para A Pedra do Reino, do Ariano, e Dom Sertão, Dona Seca, de Otávio Sitônio Pinto. A Portinari essa área rendeu a impactante série de quadros Flagelados ou Retirantes. Ao poeta João Cabral de Melo Neto, deu Morte e Vida Severina, grande poema tornado popular pela música de Chico Buarque. E bombou na Globo, a novela Velho Chico. Mas eu falei de duas características marcantes destes haicais. Uma terceira: rigor. Músico da Orquestra Sinfônica da Paraíba, Guerreiro – metaforicamente – confessa:

Sustento meus filhos
com canto. A viola, portanto,
deve andar nos trilhos.

Quarta: no espaço tão exíguo do férreo terceto de cinco-sete-cinco sílabas, próprio pra poucas imagens, ele às vezes nos entrega uma bela natureza-morta:

À mesa, moqueca
com coco e pimenta, e um pouco
de chá na caneca.

Mais fotógrafo que pintor – pelo rápido clique – colhe cenas da caatinga, a selva selvaggia de exclusividade brasileira, aspra e forte, como nesta série de cinco haicais, que tiro da ordem, numa atrevida “montagem”:

Sertão. Descampado
sem sombra. A todos assombra
a morte do gado.

No pequeno aterro,
exposto ao tempo, ali posto
já morto, um bezerro.

Sofrida imburana
insiste, mas não resiste
à seca tirana.

No bruto sertão,
carcaças e mais carcaças
dispersas no chão.

Nunca se viu tanta
carência. Uma consequência:
o nó na garganta.

Veja a força disto:

No rosto, a dor muda
de quem tem sede e também
passa fome aguda.

E isto, que nos espanta pelo último verso:

Lar de massapê:
janela, porta, cancela,
antena e tevê.

Claro, nem tudo é trágico. Ou, bem: é, mas – se não desconcertante – deslumbrante:

Solitária flor,
num sulco do solo inculto,
em pleno esplendor.

Guerreiro, porém, supera o fotograma e ousa, quase sempre, um breve… cinema.

A mãe chama o filho
à mesa posta. Surpresa:
só cuscuz de milho.

Põe movimento até para o que não o tem:

Os dedos aflitos
dos galhos de alguns carvalhos
buscam o infinito.

O que tem a ver com outro espetáculo triste que se vê em todo o Brasil:

Entre as grades de aço,
mil mãos suplicam em vão
por mais ar e espaço.

Aqui, a curta ação é promovida por três verbos:

Maitaca chilreia,
quati treme. Sucuri
no chão serpenteia.

Como aqui:

Vento rodopia,
avança mais forte e alcança
frágil moradia.

Ou aqui, em que um dos verbos – queimar – implícito, é limitado pela expressão latina do segundo verso, e se solta, implicitamente, no terceiro.

Seca. Cai a tarde.
Um foco de fogo in loco,
e toda a mata arde.

Aqui, Guerreiro parte para quatro verbos, que são como claquetes no poema:

O sapo coaxa.
A cobra dá o bote e… sobra:
ao sapo não acha!

Take 1 – o sapo coaxa.
Take 2 – a cobra dá o bote.
Take 3: e… sobra.
Como?
Take 4: ao sapo não acha.

Esses… filmetes prosseguem num momento em que ele – abandonando o campo, já no final do livro – parte pro que vê nas cidades. “Estiremos” os haicais, e… cinematograficamente… montemo-los também:

O povo se atiça em becos, ruas, botecos: clama por justiça. // Nas ruas, na praça, país melhor, mais feliz, reivindica a massa.// O povão audaz protesta e se manifesta sob bombas de gás!// Um estampido alto e seco ecoa no beco. Corpo jaz no asfalto.// O Estado recua diante da voz vibrante do povo na rua.

– Atenção: Luz! Câmera! Ação!

Take 1: Árido sertão.O cacto floresce em pacto co’a essência do chão.
Take 2: Tragédia anunciada: grotesca seca, dantesca; gente em retirada.

Bem, isto é uma espécie de trailer. Cabe ao leitor, agora, puxar o freio de mão e, em câmera lenta, usufruir – de um a um – estes belos achados e centenas de outros. Guerreiro, ao contrário do sertão, é tão generoso quanto muito farto.

W.J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora, pela qual também lançou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse é o Homem, em 2013. Em 2015, lançou “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” pela Editora Penalux.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Bífida, o poema na multiplicação da vida

Por Helena Terra

O livro é o de estreia na poesia, mas os versos se apresentam encorpados dentro de uma rota em que a linguagem, a subjetividade e o imponderável, da delicadeza à brutalidade, clarificam-se em uma expressão pessoal e em uma estética representativa do que nos é universal e inesgotável em confronto com o que nos é singular e finito e vice-versa.  Bífida e outros poemas, de Alexandra Lopes da Cunha, uma das vozes mais originais da nova poesia brasileira contemporânea, concilia, em sua dicção ora coloquial ora sofisticada, a escalada e a queda, não necessariamente nessa ordem, dos sentimentos e das inquietações peculiares a todos os seres humanos, em especial, às mulheres, suas nuances e seus espaços.

O título do livro não é aleatório. Bífida, feminino de bífido, vem do latim bífidu, aquele que está fendido em duas partes, que foi partido ou separado.  “Dividida de nascença, / bipartida na origem,” são os versos que abrem o poema que leva o mesmo nome da obra e que serve também como indício, quem sabe porto seguro, da visão de mundo complexa, reflexiva e dialética da autora. Seu pensamento é lúcido, autoconsciente, crítico. Suas emoções, viscerais.  Se por um lado, há ponderação, quase meditação, sobre o sentido da vida, por outro, há indisciplina, quase revolta, sobre o desconcerto de estar no mundo.

Os desdobramentos dos poemas, quarenta e nove organizados em ordem alfabética, são diversos. O corpo na multiplicação da vida: “Na nudez do meu útero / acumula-se o pó dos anos.”; as obrigações do narcisismo culturalmente impostas: “Sou mulher sem qualidades / Desqualificam-me os adjetivos / e os advérbios ignoram-me / solenemente.”; e a pulsão sexual em constante combate com as intimidações da sociedade patriarcal: “Penetra meu corpo pelos poros de minha pele, / imprime em minhas retinas tua onipotência.” são três temas recorrentes do mosaico poético inaugurado por uma das questões mais presentes, senão a maior, da humanidade: a morte.

Os três, repetindo-se e reproduzindo-se, funcionam como uma espécie de tripé ou de paradigma social e emocional para as invasões e desenvolvimento dos demais assuntos e para a consumação do todo poético, do mesmo modo, político, filosófico e ideológico, não havendo um maior ou mais impactante. Por detrás das fragmentações e da discreta falta de nitidez, comunicam-se e convergem-se identidades que nos traduzem.

Nada disso, entretanto, nos permite desvendar ou dominar o Bífida e outros poemas. A abrangência e o significado mais profundo de cada poema se ampliam a cada releitura, renovando o campo semântico e as possibilidades de apropriação e de fruição dos leitores. Uma experiência ressignifica a outra e a outra e assim por diante assim como, também, ressignifica a herança literária e cultural das gerações passadas.

Não há citações, mas é possível vislumbrar influências, rastros; é possível estabelecer conexões e diálogos do Bífida e outros poemas com a produção de outras mulheres poetas: Marina Tsvetáieva, “ não serei animal ferido que se / arrasta”; Wislawa Szymborska,  “habitualmente, acordo na condição da testemunha atrasada, / com o milagre já consumado”; e Emily Dickinson, certeira com o seu “uma palavra morre / quando falada / alguém dizia. / Eu digo que ela nasce / exatamente / nesse dia”, são alguns exemplos da substância contagiante e libertadora da poesia, que se for de verdade, não há por que duvida, já nasce assim de pé e inteira.

Helena Terra é gaúcha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas literárias e o romance A condição indestrutível de ter sido.

 

 

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115ª Leva - 09/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Latejos vermelhos das rochas: o delicado e selvagem exercício do desvio

Por Carla Carbatti

 

 

O que buscamos num livro é a maneira pela qual ele faz passar alguma coisa que escapa aos códigos
G. Deleuze

 

Segundo Lucrécio, os átomos se movem para baixo através do vazio e pelo seu próprio peso. Em nenhum lugar ou tempo fixo eles se desviam e se chocam com outros átomos formando novos corpos, novos mundos. Não fosse isso eles cairiam nas profundezas do vazio como gotículas de chuva e não haveria nada. Em outras palavras, tudo que vive é uma desviação.

Também a linguagem, para Blanchot, só é possível no movimento de desvio. Diz o autor que ali onde tudo é indeciso (e onde não o é?), não se pode viver mais do que em um perpétuo desvio, pois ater-se a algo suporia que há algo determinado a que se ater. Seria retirar da vida sua imanência e condená-la a uma finalidade. Essa é nossa fragilidade e potência: a vida, força infinita, não se significa, não se explica, vive-se.  É preciso, então, dizer, que a escrita viva é aquela que desliza, declina e se desloca.

Katyuscia Carvalho, no seu maravilhoso poemário Vermelho Rupestre (Ed. Patuá), já na capa, numa epígrafe, inicia sua incapturável dança com a vida: “preciso ouvir alto quando falas com essa tua voz rente às estrelas”. A voz, foz, a vida roça com o brilho fascinante desse astro morto, retumba, faz a curva e escapa. Entrar no seu livro é uma espécie de tateamento em uma caverna de Lascaux, onde o grito vermelho das rochas se desprega como que “escapado da fogueira”, “desgarrado do corpo”.  Caverna que é o símbolo da origem, do nascimento, do útero. Mas, vejam bem, como em Clarice Lispector, seu texto está “ferido de vida breve”. A caverna, como lugar de re-nascimento, não seria mais do que um potencializador do “instante já”, “um calafrio na pedra” que propaga não a palavra original, mas suas infinitas reverberações. Corpo-corpus-copulamento: os latejos das rochas produzem signos vermelhos que transbordam a margem linguagem no delicado e selvagem exercício de tocar a vida. Vida amorosa, vida política, portanto, vida indomável. É possível que, o amor e a política, sejam as duas linhas de forças mais potentes da sua escrita. Não o Amor ou a Política, Instituições, mas amor e política criação de uma nova cartografia para a vida: ”habito o corpo de outra terra mas sinto o pulso e o peso do meu continente e recito uma encantação clandestina.” Seu texto em momento algum é fundação, ainda que dialogue com as vozes ancestrais das índias, dos índios, com o nome materno, com os tambores negros, com as “raízes do céu”, seu movimento mais poético, mais político e amoroso é o desvio, “sons de buraco”, “fissura no vento”, “pedras caindo”, “tanger de chuva”, linhas de fugas traçadas, em vermelho rupestre, disparos de novos problemas para errar em outras rotas,  vibrações do verso que estremece e abre novas vias: passagens de vida.

“(…) Eu que me amparo em madeira que range”

Vermelho Rupestre é esse lugar de desorientação e encontro. Um ângulo mínimo de formação de um torvelinho: uma turbulência, “uma dança extraviada”. A agitação mesma naquilo que não se assenta, que sedenta, não sedia, experimenta as forças incolonizáveis das palavras, como “um pássaro insano abrindo fissuras na carne do céu”.

 

Carla Carbatti é mineira, das montanhas, do mar, nômade. Doutoranda em Estudos da Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Poeteira com todos os átomos, possui moléculas poéticas ligadas à Subversa, Zunái, Germina, Alagunas, Mallarmagens, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Contratiempo, etc., à Antologia RelevO 5 anos, ao ESCRIPTONITA: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi e agrupadas no livro autoral “Na Cadência do Caos”, editado pela Urutau.

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115ª Leva - 09/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

RENATO SUTTANA – AS PORTAS QUE ME ABRIRAM

 Por Jorge Elias Neto

                                                                                                              

quando-me-abriram-portas-renato-suttana

Nem sempre as portas que se abrem, os caminhos que se apresentam – vários – se traduzem em possibilidades infinitas ou sinalizam um futuro de luz e certezas. É neste caminho que nos conduz Renato Suttana neste “Quando me abriram portas”.

Diz o poeta das portas transpostas, da ilusória luz do instante, do penoso desdobrar-se neste policromático mundo da pós-modernidade. Propõe a necessidade que o pressuposto semideus tem de “descer do Olimpo” e ficar “em casa, num tédio a demora-se…”, pois somente assim “apagadas as luzes” ele vê “reavivar a brasa do engano-pretensão na alma finita”. Mas, este avançar “sob luz escassa”, que se afigura desolador para os desprovidos, se apresenta ao bardo como uma prova da sombra.

Suttana convida o leitor a hesitar em lançar-se no instante; a aguardar e observar as portas abertas; a observar a luz-poema que antecede o passo desnecessário.

Uma lamparina ilumina muito pouco, quase nada. Seu principal papel pode ser nos mostrar o quão escura é a noite. Podemos raciocinar de igual forma em relação ao poema, pois ele pode servir para muito pouca coisa, ou mesmo para nada, como muitos pensam ou pretendem nos convencer. Mas isso é um engano. O poema nos abre os olhos para as cores em nosso redor. Faz-nos ver a poesia das pequenas coisas do cotidiano. Emociona-nos. E isso é essencial para a humanidade.

Que digo? – E eu, que não sei a não ser isto –
a não ser algum trapo de alcançar
que esfarrapa a nudez de que me visto?

O poeta nos motiva a “passar do trêmulo ao seguro”. E isso é possível quando não nos cobramos tanto em relação ao porvir e às conquistas; quando não imputamos à nossa existência a primazia do instante. Digamos “NÃO” à “urgência que a preguiça desmantela!”. Digamos basta às “necessidades, preitos, juramentos – saltos, vertigens, surtos, lançamentos…”.

Vemos o “ser desnudo”, múltiplo, incoerente a refletir sobre sua existência, abandonado nesse “mistério de avançar sozinho”.

Um brinde então à incoerência humana…

Através dessas portas não transpostas nos atinge a luz da imanência – aguda.

Eis o processo de desconstrução possível, o (desa)sossego atingido, essa “coisa simples, verdadeira, que há de durar, no entanto, a vida inteira.”

Homem, ser-arremesso, que:

Não encontra o propósito que o incumba
E passa assim seu tempo, transtornado,
A pensar no equilíbrio perturbado
De um peso sob o qual, no fim, sucumba.

Somos matéria incógnita – nós – o “capital humano”, os replicantes de “Blade Runner”, fruto de uma robotização, visto serem os replicantes também consumidores a realimentar o ciclo capitalista. Buscamos a notoriedade, mas somos massa de manobra, matéria incógnita.

Não se discute aqui o “salto” camusiano, mas o “salto” cotidiano em busca do que insta e instiga o “errôneo salto”.

Livro que nos diz do caminho, do nosso caminho, nossa relutância – quando críticos – em “avançar para dentro da chuva”, conscientes de estarmos “perdidos em um rastro não perseguido”.

Esse parar e avançar do homem contemporâneo, essa “ansiedade de ver e de saber”, essa busca incessante da superação do limite, esse “disparar-contra mil coisas”.

Não é inócua a batalha da vida. É uma busca inglória, onde nos consumimos em busca de prazer – “combustível de nossa ansiedade – aguado e vão”.

E isso já se observa no poema que nomeia o livro de Renato Suttana, quando o poeta identifica a falsa “Máquina do Mundo”, agora não mais a máquina metafísica drumondiana, mas uma “anti-máquina” – sedutora – a nos polvilhar instantes.

Quando me abriram portas, não passei.
Quando, ao longe, acenando, me chamaram
E a direção da entrada me mostraram,
Foi com orgulho e calma que os tratei.

Quando, sem compreender por que hesitei
Frente aos tesouros que me presentearam,
Finalmente, a sorrir, me deserdaram,
Seguindo o rito de uma antiga lei,

Foi com uma indiferença de mendigo
Que a sagração troquei pelo perigo,
Preferindo os desertos do extravio:

Sem entender eu mesmo – assim ninguém –
O motivo, a razão do meu desdém,
Nem o (se o houve) sentido do desvio.

 

As portas de Suttana se abrem para o efêmero, dizem dos mares, labirintos, nos guiam com a luz-poema por mares, desertos e labirintos. Mostra-nos, e nos faz sentir, a dor de “estar assim de frente para o que é sem resposta e é, no entanto, observável”.

São poemas-galope, de ritmo angustiante, tradução do que nos tornamos. Sim, mais uma vez a poesia nos traduz. Homens “moldados” pelo deus-mercado a nos dizer “Vai mais longe. Não para. Precipita-se. Atira-se por cima – do impossível…”.

 

Velocidade insólita – imprevista –
De tudo quanto a vida movimenta:
Da esperança de ter, que nos alenta,
Do desejo de ver, que nos despista.

Vertigem que nos alça e nos orienta
Em direção a um nada de conquista,
Pulsando em nós (até que a asa desista),
Como um sonho de altura, na tormenta.

Pressa de achar sentido e dar resposta,
No escuro do intervalo, a uma questão
Que é no entanto ou equívoca ou suposta;

Mas que nos leva adiante e nos madura,
Nos instiga entre as chuvas, no verão,
Nos faz querer a meta – erma e futura.

 

Suttana é um “especialista em desistência”.

 

sabe que na metade, em plena urgência
de dar um fecho ao plano, ao meditado,
se cansou – e há de estar ali parado,
satisfeito de espera e inconsistência.

 

Diz Ortega e Gasset que “la conciencia de cada uno de nosostros, em efecto, es uma sociedad de personas; em mi viven vários yos, y hasta los yo de aquellos com quienes vivo.”

Se considerarmos que quando morremos persiste a Vontade, mas parte um Universo representado pelos olhos de nossa consciência; e se somos: “eu e nossa circunstância”, quando morremos morre um pouco da consciência da sociedade, pois nosso olhar, nossa forma particular de olhar, não deixa de sofrer algum olhar que seja o olhar do poeta; uma forma particular de “ver” contida em um universo de olhares “medianos”.

E este livro é uma visão critica da contemporaneidade sob o formato clássico do soneto. É esse o “truque” do poeta: a retomada da forma clássica.

Realizei o meu truque em plena claridade
Diante da multidão que não veio me ver,
Mas por acaso ali parou, a se entreter,
Num limite exterior da infinita cidade.

Movidos (reparei) pela curiosidade,
Uma pergunta me fizeram de ir e ser,
A que eu não soube – o equilibrista – responder,
Pois me ocupava um pensamento da verdade.

Como o espetáculo durasse pobre e morno,
Pediram-me que desse um salto diferente,
De modo a divertir com uma pirueta a gente. –

E eu, com um gesto teatral de excelência e retorno,
Da cartola tirei um pombo, um coelho, um lenço –
Que eram migalhas só do meu denodo imenso.

 

Não gosta o leitor da forma, da métrica? Que pena! Considera-a anacrônica? Um enfado? Sugiro que se desfaça deste ranço, deste preconceito, e reflita sobre o que significaria a retomada das formas clássicas para discutir a questão do nosso tempo.

E nada melhor do que começar pela leitura deste “Quando me abriram as portas”, do poeta Renato Suttana, lançado pela Editora Mondrongo. Certamente, um dos melhores livros de poemas publicados nos últimos anos em nosso país.

 

Jorge Elias Neto é capixaba, poeta, ensaísta e médico. Autor de “Verdes versos” (Flor&Cultura – 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&Cultura – 2010), “Os ossos da baleia” (SECULT – 2012), “Glacial” (Ed. Patuá – 2014), “Breve dicionário (poético) do  boxe” (Ed. Patuá – 2015) e “Cabotagem” (Ed. Mondrongo – 2016). Publica regularmente na Revista Diversos Afins, Mallarmargens, Revista Germina de Literatura e Revista Zunai.

 

 

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114ª Leva - 08/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Vaga queda da velha arquitetura romanesca

Por Márcia Barbieri

 

vaga-queda

 

O livro Vaga queda de Caio Russo se apresenta como uma fusão de gêneros. O próprio subtítulo: peça para piano de afogados op.27 sugere um objeto musical, o que de certa forma é o gênero que mais se adequa ao texto, já que a sonoridade e o ritmo são os pontos mais altos do livro. Como poderíamos classificá-lo? Um romance? Um poema? Uma epopeia? Uma prosa poética? Não cheguei a uma conclusão precisa e definitiva, me parece um romance que suga a estrutura, o imagético e a linguagem do poema, porém sem desprezar a essencialidade do prosaico. Por trás da melodia, existe uma grande narrativa, encontramos pequenos tratados sobre morte, vida, loucura, tempo e identidade.

O texto flui tanto no ritmo quanto na estrutura como um corpo líquido. Caio inventa durante o percurso uma originalíssima partitura e uma nova coreografia. De repente, percebemos uma leveza trágica na duplicidade dos loucos e na dureza dos manicômios: “o hospício de mim era um xadrez sem peças, tabuleiro ou parceiro a arquitetura de um labirinto sem paredes”.

O livro também discute a questão de gênero: José Laura ou Laura José? Em um mundo em que homens e mulheres estão constantemente em cabo de guerra, nada mais pertinente que essa con-fusão de identidades. Aqui, o que mais importa são a estranheza e o estrangeirismo que habita todo corpo consciente do absurdo da natureza humana independente do seu sexo: “a escuridão tamanha que não divisava paredes, eu era o único muro intangível entre Eu, e o quarto, e Eu…”.

Outro questionamento importante é sobre a arquitetura da escrita, sobre as picuinhas literárias, sobre as nomenclaturas que camuflam a verdade do texto: “pensei que podia escrever um livro/autobiográfico/autoficção que é moda pelo que sei/eu e Francis e podia matar alguém e colocar/mais um personagem escritor e parecia vaga…”.

Vaga queda: peça para piano de afogados op. 27 é um texto imprescindível para os homens que apreciam uma sinfonia do holocausto.

Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.

 

 

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Aperitivo da Palavra I

As dexistências em Victor Prado

Por Lisa Alves

 

capa-bastardo

 

”Bastardo” é uma obra poética desmembrada em três capítulos, “Voçoroca”, “Passeio” e “Caleidoscópio”, e possui cerca de 57 poemas dentro de 124 páginas. O livro foi lançado recentemente pela Editora Urutau (que já chama atenção pelo design e qualidade de seus livros e a acertada escalação do corpo de autores). Victor Prado (1995) reside em Franca/SP, publicou dois livretos digitais Mamute (2014) e Onde Eu Poderia Estar (2016). Tem poemas publicados na revista Mallarmargens, Diversos Afins, Enfermaria 6, Jornal RelevO, entre outras revistas e sites literários.

 

“Mas dizer sempre é pior do que ouvir.”

 

Clarões, pequenas interrupções, movimentos e a linguagem arriscando explicar os desentendimentos que nos cercam em torno da palavra. Tenho a sensação que estou assistindo um filme, mas é um poema, o primeiro, talvez o principal – aquele que batizou a obra de Bastardo“.  Lembrei de Blanchot em “Espaço literário”, quando diz que ler não é obter comunicação da obra e sim fazer com que a obra se comunique. Sou leitora, escritora e não tenho condições de criticar qualquer obra literária, mas posso comunicá-la tal como ela se comunicou comigo. Mas advirto: a obra poética de Victor Prado não é explicável, não é uma composição química que podemos separar os elementos envolvidos. Sendo assim, é preciso ler “Bastardo” e degustar uma, duas, três ou infinitas vezes. Vamos lá?

Um dos pontos que mais me atraiu durante a leitura do livro foi a reprodução de títulos seguidos por números, indicando uma sequência ou uma série – confesso que inicialmente fiquei incomodada, afinal de contas o 5 não pode vir antes do 2. “Não mesmo? Quem disse? Quem determinou?” – me questiono. Então lembro à leitora (aqui dentro) que na arte a ordem temporal linear é inútil (ou no mínimo desnecessária) e então afogo meu suposto incômodo e volto a imergir na obra de Victor. Lembrando que vários outros poemas de “Bastardo” seguem também a sequência numérica, tal como os poemas “Arquitetura de Percepção”, “Sábado”, “Domingo”, “Confissão” e “Mal-Estar”, porém comentarei apenas duas séries, pois não pretendo dissecar a obra de ninguém (não acredito em roteiro para leitor), tal como não desejo que façam com a minha, é irresponsável e pretensioso. Acredito que cada leitor é capaz de procurar o próprio caminho durante a comunicação com uma obra (independente do gênero). Sendo assim, destacarei então as sequências “Não-Sei-Onde” e “Domingo”.

A série “Não-Sei-Onde” me trouxe a percepção de uma constante fragilidade na voz do eu poético – uma voz brotada das profundezas, uma voz que assessorou na montagem de um mosaico recheado de quedas, naufrágios e soterramentos. O primeiro poema da série se encontra no primeiro capítulo, “Voçoroca”, é intitulado por “Não-Sei-Onde 5″ e discorre acerca do desmoronamento do ser ao lidar com sentimentos (próprios ou de outros):

(…)

Tua saudade me engole
e eu murcho e sou engolido

 

Não saindo para muito longe, no mesmo capítulo, encontro “Não-Sei-Onde” (agora sem número), que versa o autoconhecimento (nem sempre bem-sucedido) e fatidicamente tem o afogamento como resultado. Paro para digerir o poema e percebo o amplo dedo na ferida que Victor decidiu empregar. De fato, quando nos analisamos de forma profunda não somos capazes (no primeiro minuto) de mergulhar e ter a dimensão da profundidade que estamos nos lançando e tampouco temos a ideia das armadilhas que nos esperam. Mergulhar pode ser um caminho sem volta:

(…)

Mergulho
e desapareço

 

Já lá no segundo capítulo, “Passeio”, dou de cara novamente com outro “Não-Sei-Onde 2” – mais uma vez a série aborda o encobrimento, a ocultação, só que, diferente do primeiro capítulo, o poema atravessa antes pelos escombros materiais do que psicológicos. Victor nos lembra de Mariana – a cidade soterrada pela lama (a lama não metafórica “é a lama, é a lama”) e a lama não para por aqui, outra vez ressurge no poema “Não-Sei-Onde 4“:

(…)

De outros mangues
e critério
e achismos
Me afundo nesta lama
de não-sei-o-quê.

 

E a série é finalizada no capítulo com “Não-Sei-Onde 3”:

(…)

Dexistimos em períodos iguais
Rexistimos com frequências diferentes.

 

Na série “Domingo”, há dois grandes poemas, duas pérolas comoventes e que convidam o leitor a desvestir da própria carne e se lançar no outro, no diferente, no estrangeiro. Leiam os dois poemas na íntegra:

Domingo (cap. Voçoroca, pág. 37):

 

Entro no mercado
e vou ao açougue
E lá está ele:
um japonês-brasileiro
E aquele rosto
me lembra outro mundo

/

me bate uma vontade
de ir pro Japão
de abraçar o japonês
De deixar a fila
sair do mercado
de recomeçar tudo
em outro lugar
em outro tempo
de novo.

 

Domingo 2 (cap. Passeio, pág. 60):

 

O japonês vai embora,
continuo na fila
Um senhor de idade
fura fila e conversa
com o homem na minha frente
Eles sorriem
eu sorrio junto
como se fizesse parte da conversa
O senhor pesa suas batatas
e vai embora
(a fila aumenta)
Eu sou o próximo.

 

“Bastardo” de Victor Prado é um convite poético para um quebra-cabeça sem figura definida. Quer sentir? Então siga além e não se deixe levar apenas por minhas limitadas percepções.

 

Lisa Alves nasceu em 1981, é mineira (Araxá/MG) e radicada em Brasília. É curadora da revista Mallarmargens. A autora tem textos publicados em diversas revistas e páginas literárias (nacionais/internacionais), e poemas publicados em sete antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Lançou em agosto de 2015 seu primeiro livro de poesia, Arame Farpado, pela editora carioca Lug em parceria com o Coletivo Púcaro.

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113ª Leva - 07/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

SÔBOLAS FRONTEIRAS

Por Carlos Trigueiro

 

Nilto Maciel
Nilto Maciel / Foto: arquivo pessoal

Em 15.04.2014, o carteiro que entrega a correspondência do prédio onde moro no Rio de Janeiro (entre o Jardim Botânico e a Lagoa Rodrigo de Freitas), deixou na portaria, dentre envelopes, jornalecos, convites e contas, embalagem proveniente de Fortaleza (CE), identificada como livro remetido por Nilto Maciel, autor que eu sabia também pesquisador, crítico, memorialista, editor, poeta, ensaísta e ficcionista talhado, penso, no seu ambíguo fazer literário: percepção evanescente do mundo ao redor e questionamento fixo sobre a própria existência.

O porteiro do prédio costuma entregar a correspondência dos moradores pela hora da Ave-Maria (expressão varrida pelo tsunami da tecnologia). Coincide com o meu retorno da caminhada diária à borda da Lagoa Rodrigo de Freitas, após suar por quatro, cinco, seis quilômetros conforme disposição interior e reação às paisagens e segurança exterior. Sim, também poderia dizer “sôbolas paisagens” – já que “sôbolas” é expressão arcaica, quinhentista/seiscentista, e significava “sobre as” como aparece em textos camonianos.

Tão logo cheguei a casa e abri a correspondência, estava lá o último livro publicado por Nilto Maciel: “Sôbolas manhãs” (Editora Bestiário, Porto Alegre/RS, 2014, 260 páginas). A dedicatória, surpreendente para mim, não veio manuscrita na primeira ou segunda página como em seus outros livros que me presenteou, mas impressa num papelote: “A Carlos Trigueiro presenteio este exemplar de ‘Sôbolas manhãs’. Tenho dúvida de ter ou não mencionado seu nome em algum dos artigos. Não pude organizar índice onomástico. Se quiser ler ou dispuser de tempo, ficarei muito grato. Tenho certeza de ter escrito um livro de boas ideias ou, pelo menos, com o melhor dos intuitos: o de divulgar os escritores brasileiros avessos ao ‘jornalismo de resultado’, à crítica tendenciosa e aos vendedores de pedras falsas. Fortaleza, 27/3/2014.”.

Ao ler o raro título do livro e sapear capa, cores, índice e quarta de capa, logo constatei uma coletânea variadíssima, dividida em quatro partes, abrangendo crônicas, memórias, registros de viagens, artigos, críticas, e no dizer do autor: “algumas considerações, nada científicas ou acadêmicas, a respeito da gênese (no indivíduo) da escrita literária, do processo criativo e da constatação de que a minha agonia – nada tem de fantástica ou sobrenatural. Porque tudo é feito de barro e servirá a outras construções ou simplesmente será levado ao lixo ou ao cemitério do esquecimento.”.

Nem a orelha do livro, com dados biográficos do autor (nascido em 30.01.1945, no sopé da Serra de Baturité), mencionando devaneios revolucionários de adolescente, nem seus muitos prêmios literários nacionais e estaduais, nem o conteúdo dos respectivos livros agraciados, dentre outros, “Tempos de mula preta”, “Os luzeiros do mundo”, “Punhalzinho cravado de ódio”, “A última noite de Helena”, “Pescoço de girafa na poeira”, “Vasto abismo”, nem mesmo “O cabra que virou bode”, transposto para a tela (vídeo) por Clébio Ribeiro em 1993, retratariam a personalidade incrédula de Nilto Maciel, mormente nos últimos tempos, do que suas próprias palavras transcritas no parágrafo anterior.

Outros comentários de Nilto Maciel também poderiam retratar seu estado de espírito nos últimos anos. Na página 112 de “Sôbolas manhãs”, por exemplo, ele registra que, ao publicar o primeiro capítulo de “De meu sol nado”, respondeu a amigos escritores que lhe aconselhavam cuidados, isso e aquilo sobre suas citações a respeito de gênios da Literatura mundial. Daí que a certa altura dos comentários, solta bem ao seu jeito: “Tenho lido gênios e medíocres também. A vida não pode ser feita só de alturas. É preciso chafurdar na lama também. Ser porco alguma vez.”.

Em verdade, nos idos 28 de janeiro de 2013, datado por ele mesmo na página 113 de “Sôbolas manhãs”, Nilto andava às voltas com a sua coletânea de artigos de mais de trinta anos e título estranhíssimo: “Gregotins de desaprendiz.” Na ocasião, registra não conseguir ler tudo o que os numerosos amigos escritores lhe enviam (diz ter 53 livros para ler), embora vivesse exclusivamente para a Literatura, e também confessa seu comportamento suicida: “ler e escrever sem parar, beber e fumar (já parei), viver em cidade grande, dirigir carro, comer em restaurante, ver televisão, etc.”.  Era assim que respirava, sofria e vivia a sua agonia literária, além de repugnar: “as editoras não investem em literatura, a mídia não dá a mínima importância ao livro…”.

Conheci Nilto Maciel em 1976, quando (aqui peço licença poética) se juntou a outros escritores “entre caminhos e palavras, diversos e afins”, e participou da invenção e publicação da revista literária “O Saco”, ousadia sem par naqueles tempos tupiniquins militarizados. E “O Saco”, esteticamente, parecia ou era mesmo não mais que uma espécie de envelope, na verdade um saco de papel encorpado, onde cabiam páginas soltas (ou quase) contendo textos literários de diversos autores brasileiros, cearenses ou não. Surpresa nacional: “O Saco” vazou sôbolas fronteiras do Ceará e inundou o Brasil.

Por acaso (ou os fantasmas que visitam os escritores me sopraram) dei de cara com a publicação dependurada numa tradicional banca de jornal chamada “Boa Sorte” no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, na esquina das ruas Aurelino Leal com Gustavo Sampaio. Na época, morador das redondezas e antigo conhecido do jornaleiro, pedi para ver e manusear a novidade. Acabei comprando, lendo e matutando sobre “O Saco”, pois, mesmo não sendo cearense, assunto com o Ceará no meio é como ainda costumo dizer e registrar: saí do Ceará em 09.12.1956, mas o Ceará nunca saiu de mim.

Naqueles anos, eu costumava viajar muito a trabalho por nosso continental País. E calhou de, em fins de 1976, ir à Fortaleza, onde procurei a turma empreendedora de “O SACO”. Encontrei, dentre outros sonhadores, o Nilto Maciel (que me confirmou não se lembrar disso). À noitinha, num bar pelas bandas da praia do Meirelles, ou seria da Iracema ou, talvez, do Náutico — Deus saberá, diria Saramago — enfileiramos muitas cervejas regadas a conversas literárias e no idioma exaltado que a fantasia impõe aos escritores marginais. No avançar da noite, da camaradagem e conversa fiada, afiada e desfiada sobre “O Saco” (que se extinguiria em 1977), tudo entre copos, gostos, desgostos, tira-gostos e mulheres praieiras, adquiri uma tela do pintor primitivista cearense Chico Silva (sua marca registrada: briga de galos coloridos, datada de 1975) que ainda mantenho na parede do refúgio doméstico onde costumo escrever, ler e matutar.

Muito mais tarde, por volta de 1994, reencontrei Nilto Maciel (ele também nunca me confirmou isso) em Brasília, no lançamento do meu livro de contos “O Clube dos feios & outras histórias extraordinárias”, no bar CARPE DIEM que se prestava àquele tipo de evento e reunia gente de toda arte, parte e sotaque: autores, leitores, jornalistas, editores, músicos, políticos, estudantes, curiosos, servidores públicos, caçadores de autógrafos, mulheres rueiras amadoras ou profissionais. Na época, tirei pequenas férias e vim ao Brasil especialmente para o lançamento do livro no Rio de Janeiro e em Brasília, pois havia anos trabalhava no Exterior.

Depois disso, e porque a vida e o mundo dançam sem ritmo, passo, fronteira e tratos combinados, e muito menos com papel-passado, ficamos, Nilto Maciel e eu, anos e anos sem trocar palavra, mesmo tendo retornado definitivamente ao País em 1996. Porém, como disse antes, “saí do Ceará em 9.12.1956, mas o Ceará nunca saiu de mim”, e, aos poucos, tomei ou retomei contato, via publicações na internet, com alguns escritores cearenses em atividade (Raymundo Netto, Jorge Pieiro, Pedro Salgueiro, Soares Feitosa e outros).

Entrevista com o escritor cearense Nilto Maciel Foto: Marcos Campos, em 31/01/2009
Nilto Maciel / Foto: arquivo pessoal

Creio que por volta de 2010/2011 através de cruzamentos de blogs e revistas virtuais, reencontrei Nilto Maciel. E foi assim que conheci o blog “Literatura sem Fronteiras” — editado por ele — e a publicar textos de sua autoria ou de autores amigos cujas obras passavam por seu ríspido critério. Trocamos muitos e-mails, livros, informações e ideias de projetos literários até que Maciel se encorajou a publicar alguns textos de minha lavra no excelente “Literatura sem Fronteiras”.

Presenteou-me vários de seus ótimos livros, dentre outros: Contos Reunidos, Volume I e Volume II, Quintal dos Dias, Gregotins de desaprendiz, Como me tornei Imortal, Menos vivi do que fiei palavras, Os Guerreiros de Monte-Mor e o já citado Sôbolas Manhãs. Sobre alguns desses livros escrevi minhas impressões e que ele publicaria em seu blog.

Convém registrar sua predileção por colecionar e juntar manuscritos, bilhetes, cartas e afins de autores de todo gênero e de toda parte, a tal ponto que dizia ter milhares de documentos encaixotados. A propósito, narrou que, certa vez, Soares Feitosa o convidara para captar composições ficcionais de vários autores para o seu prestigioso JORNAL DE POESIA. Pois bem, Nilto Maciel enviou-lhe 500 obras! Pode-se imaginar o espanto de Soares Feitosa…

E como eu disse antes, o mundo e a vida dançam sem ritmo e passo combinados… Pois bem, Nilto Maciel convidou-me para uma conferência que iria proferir em 08.11.2011 sobre o tema “Epistolário hoje: e-mails, blogs”, nada menos do que na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Claro que compareci ao evento e ouvi sua palestra (abordada no seu último livro “Sôbolas Manhãs”). Acadêmicos o receberam e Nilto Maciel saiu-se muito bem principalmente com a experiência adquirida no seu blog “Literatura sem Fronteiras”. Creio que até saiu um pouco do seu estilo áspero e provocou risos na plateia lendo pormenores e dados de seu blog. Houve bom e interessado público. À saída, entre outros seus amigos escritores, cumprimentei-o e trocamos abraços. Inutilmente, tentei lembrar-lhe do nosso primeiro encontro em 1976, mas ele me confessou quase ao pé do ouvido a penúria em que se encontrava a sua memória (fato que registrou na página 120 de “Sôbolas Manhãs”).

Nos anos de 2012, 2013 e início de 2014 trocamos muitos e-mails. E por mensagem de 18.04.2014, convidou-me para participar do seu próximo projeto literário – um livro só de entrevistas com escritores. Respondi-lhe que aceitava o convite, mas pedi-lhe um prazo para iniciarmos a entrevista, pois eu estava terminando de escrever um romance.

Em 19.04.2014, respondeu-me por e-mail dizendo-se agradecido com a minha concordância em participar do seu livro de entrevistas, e, como era próprio dele, aproveitou para criticar um de nossos amigos escritores que se recusara a colaborar em seu novo projeto. Na mesma mensagem me antecipou como seria o teor da entrevista. Aquele e-mail foi nosso último contato, já que dez dias depois, em 29.04.2014, aos 69 anos, em casa, sozinho, Nilto Maciel atravessou a fronteira final deste mundo. Recebi a triste e inesperada notícia por e-mails de amigos escritores cearenses, além de ler pela internet o resumo da fatalidade no jornal O Povo, de Fortaleza.

Numa singela homenagem ao escritor Nilto Maciel, neste conjunto de edições comemorativas pela passagem do 10º Aniversário da prestigiosa Revista “DIVERSOS AFINS”, na qual também colaborou, transcrevo abaixo o seu “PERFIL NÃO CONVENCIONAL” de autor, redigido e rememorado por ele próprio na abertura do livro memorialista “QUINTAL DOS DIAS”, e que, penso, resume convicções presentes no seu espírito:

                     “PERFIL NÃO CONVENCIONAL”

“VENHO DA SERRA, do verde do Ceará, mas meus pais e avós vieram do sertão seco. Do tempo do trabuco, da injustiça, da perseguição, de Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. Não esqueci isso. Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é a obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal. Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances.”.

Sou Carlos Trigueiro, amazonense dos igarapés, igapós e tucumãs; paraense do Ver-o-Peso, açaí e  muçuãs; cearense dos areais, coqueirais,  do mar de esmeralda e dos ciriguelas nos quintais; carioca do Rio Comprido, bloco do Bafo da Onça, dos bondes com reboque e do chope à beira-mar; castelhano das ruelas e dos “bocadilhos” de Madri e, claro, dos “cochinillos”  de Toledo; romano da “Via Appia”, da “Via Veneto”, do café “ristretto” e dos vinhos a granel ; chinês de Macau, provador de chás e aprendiz de “Tai-Chi-Chuan à beira do Rio das Pérolas; americano do meio oeste, curtidor do frio polar e das cafeterias de Chicago; enfim, brasileiro batizado, leitor atabalhoado e aprendiz de escritor ultrapassado.

 

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113ª Leva - 07/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Fatos extraordinários e cenas do cotidiano na poética de Jorge Elias Neto

Por Shirlene Rohr de Souza

Dimensões
As palavras estão lá,
Com seus olhos atentos
A me observar do silêncio
(Jorge Elias Neto)
Jorge Elias Neto
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

Entre as vozes da poesia que se erguem neste tempo de tantas novidades e inquietações, este texto trata especificamente da lírica de Jorge Elias Neto, cuja poética se funda em uma linguagem que alterna violência e ternura, ou potência e fragilidade, e que revela, de uma forma ou de outra, uma convicção niilista. O ceticismo do poeta, contudo, não o paralisa frente aos dilemas humanos: a poesia é a sua ação que nasce de combinações de diferentes perspectivas, tais como impressões do seu entorno (“Nada menos humano, menos carnal que o verde”), observações da vida em cena (“A vida não é um jogo de baralho. Não poderei simplesmente dizer “passo”),  personagens (“Vó Bela! / O homem é assim”) e de imagens surreais (“Não me importo / com numerar as penas do cisne”).  Este ensaio trata das temáticas que se destacam na poética de Jorge Elias, cuja linguagem está plasmada em testemunhos do cotidiano e em convicções pessoais. Os temas, na poética de Jorge Elias, podem ser, em uma determinada perspectiva, colocados em duas esferas de interesses e situações: fatos extraordinários e cenas e ocorrências do cotidiano. Os fatos extraordinários, pela sua condição de eventualidade, ocorrem com menos frequência, mas são profundamente marcantes na escrita do poeta.

Os fatos extraordinários

Os fatos extraordinários se elevam acima dos fatos rotineiros. Alguns poemas de Jorge Elias Neto surgem de uma condição ou de acontecimento extraordinário; esses temas podem sair dos noticiários, mas também podem surgir de vivências de eventos marcantes. No primeiro caso, destaque para “Caligrafia do Bruto”, que revela o assombro do poeta com uma notícia de jornal; no segundo caso, destaca-se “Discurso para o cadáver”, marcado pelo evento da morte.

“Caligrafia do Bruto” surge de uma notícia chocante: sob as referências das matrizes greco-latinas e judaico-cristãs, o mundo ocidental ficou assombrado com a notícia de que uma mulher seria apedrejada até a morte, acusada de adultério e de ter conspirado pela morte de seu marido; o assombro provinha das inconsistências da acusação e da truculência do veredito dos juízes.

A jovem senhora comoveu o mundo quando a mídia deu visibilidade à sua história e, graças à estrondosa repercussão do caso, houve uma reação em cadeia mundial em seu favor: vários organismos internacionais emitiram pedidos de clemência, apelando para os Direitos Humanos e pedindo sua absolvição. Por fim, a pena de morte de Sakineh foi revertida em anos de reclusão.  Mas o que, de fato, aconteceu a essa mulher? Qual seu verdadeiro destino? Quantas sakinehs sucumbiram no anonimato sombrio das tradições religiosas, no oriente e no ocidente?

Se o corpo de Sakineh não foi apedrejado – sua pena foi revertida em chibatadas e reclusão – sua alma de mulher foi despedaçada, irreversivelmente ferida e machucada. Essa é a imagem capturada pelo poeta: a lapidação moral de uma mulher. Corrompida e maculada pelas leis dos homens, Sakineh, a mulher proscrita, nunca passou de mais uma das centenas de milhares de histórias que se encontram em mídias e redes sociais, fadadas ao esquecimento. Mas a violência da narrativa tornou-se perene na poesia de Jorge Elias Neto, para quem essa história representa mais uma escrita da barbárie nas letras dos homens, na caligrafia dos brutos. A barbárie não é o contrário da civilização, é apenas sua outra face, sua irmã siamesa.

Em contraposição à brutalidade da história de Sakineh, que circulava nas redes de internet, os versos do poeta também circularam nas redes sociais, constituindo assim uma resistência em rede contra a violência, de uma curiosidade perversa, da mídia: a poesia fez medrar a ternura de alguém que, como uma multidão de outros anônimos, não se conforma com brutalidade que se exerce sobre as pessoas em nome de uma religião, em nome do poder. Ao colocar o poema “Caligrafia do bruto” em circulação, de alguma forma lança luz sobre um problema universal: a condição feminina nas culturas do mundo cristão, islão ou pagão; a condição da mulher no Brasil ou em países da África, da Ásia, de todas as cidades, de todas as vilas, de todo o mundo. As mulheres são vítimas potenciais de uma intolerância social que impõe um jugo pesado sobre sua alma, seu corpo e seu destino. Silenciadas por um código moral violento, às mulheres cabe um lugar de desvantagem nas culturas do oriente e do ocidente.

Ao falar das damas do Século XII, Duby (2013, p. 110) parece se referir à realidade de muitas sociedades contemporâneas: “Existe assim um espaço fechado reservado às mulheres, estritamente controlado pelo poder masculino”. E não se trata de exceções: tacitamente, não se aceita a presença da mulher em posição de comando, e isso ocorre em todas as sociedades, ainda que em algumas as conquistas e o reconhecimento da mulher sejam mais evidentes. A vida pública é reservada a poucas personalidades femininas, pois insidiosamente grupos de forças tradicionais tramam contra a emancipação da mulher, contra seu sucesso e ascensão, sob o entendimento de que o lugar das mulheres é o recato do mundo privado, onde podem ser vigiadas e punidas, se ousarem tentar romper essa barreira. As conquistas femininas, com notável força a partir do Século XX, são evidentes e importantes, mas ainda pequenas, frágeis e restritas. A pena capital é uma realidade no mundo inteiro, seja pelas leis religiosas, seja pelos códigos masculinos: mulheres são humilhadas, violentadas, espancadas e assassinadas a todo instante. A poesia é impotente frente ao drama das mulheres, impotente frente aos males do mundo, mas ela não se cala e não se esconde frente ao que é extraordinariamente humano: a poesia revela os paradoxos e as dores desses tempos. O poema sublima histórias de horror. A poesia é o afeto do poeta.

“Discurso para o cadáver” trata de um dilema da humanidade: a morte. Ainda que a morte seja um fato corriqueiro do cotidiano, afinal todos os dias morrem pessoas, ela torna-se um evento extraordinário na privacidade dos lares, na intimidade de uma família, na organização de um grupo; a morte arranca as pessoas de sua rotina, fazendo-as pensar, cada uma delas, na própria morte. Assim, a morte constitui um fato extraordinário, sobre o qual o poeta tem muitas coisas a dizer.

“Discurso para o cadáver”, pois, é um pequeno monólogo dirigido a um cadáver. E apenas no título Jorge Elias Neto usa a palavra “cadáver” que, por sua natureza semântica ligada à morte, soa como matéria, puro objeto. A escolha dessa palavra reforça o posicionamento do poeta ante a morte: tudo está acabado. Segundo Houaiss, a etimologia da palavra “cadáver” é de origem latina, significando “corpo morto”; mas a intervenção popular vai além e associa “cadáver” a uma expressão latina: CArne DAta VERmem (Carne Dada aos Vermes). Seria a palavra cadáver, assim, uma sigla. A pessoa reduzida à carne. Na cultura popular, outra palavra contempla o significado de “cadáver”: a palavra “corpo”. Essas palavras traduzem com exatidão semântica aquilo que a morte representa: ausência de alma, ausência de espírito. Falta a vida.

Nos versos do poeta: “Do ponto / em que se parte / ― se esquece ― / o espectro / da carne / ― do irremediável”, outra escolha emblemática: “espectro”. Esta palavra, popularmente, é associada a fantasma. Contudo, a existência de fantasmas pressupõe uma continuidade da vida após a morte, em uma dimensão misteriosa e inexplicável. Ora, uma convicção niilista não permite tal interpretação, restando à palavra um sentido semântico muito diferente: “espectro” como “coisa”: “coisa vazia, falsa; ilusão”. A vida é uma ilusão. A morte é o fim da ilusão.

Em alguns versos o poeta reforça seu ceticismo categórico, carregado de lirismo telúrico: “A você, o privilégio / da dimensão / onde se plantam flores”. A terra, o fim de tudo, onde o “cadáver” encontra seu destino final, o sossego da extinção da alma. Ou talvez não: na dimensão da vida, alimentando os vermes, o cadáver inicia um novo ciclo de vida, adubando raízes de flores de todas as cores. Nas palavras de Arendt (2001, p. 57): “É isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico”. Mas, enquanto o corpo está presente, acima da terra, o profundo respeito do poeta pelo cadáver, o qual faz lembrar que a vida é breve: “Teus olhos / não mentem / essa simplicidade / em dizer: / tão breve, a vida, enquanto saturamos / o ar”.

Os fatos extraordinários eventuais – uma notícia, uma morte ou acontecimento marcante – projetam-se em meio aos acontecimentos de rotina; chamam a atenção por algum motivo, por algum aspecto. A eventualidade é uma força esporádica que atrai o poeta, mas é, certamente, do cotidiano que Jorge Elias Neto pinça seus temas: nas cenas e ocorrências do dia-a-dia.

Jorge Elias Neto
Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

Cenas e ocorrências do cotidiano

As cenas e as ocorrências do cotidiano fornecem os temas mais frequentes à poética de Jorge Elias Neto. O cotidiano, como substantivo, corresponde às ações que se realizam todos os dias, continuamente, ações que se repetem todos os dias, na vida de todos os indivíduos. Hannah Arendt (2001, p. 221) lembra que: “O único atributo do mundo que nos permite avaliar sua realidade é o fato de ser comum a todos nós”. Apesar de o mundo social ser comum a todos, pois, em sua rotina diária, todos o compartilham, as percepções são estritamente pessoais: o mesmo acontecimento pode ser aplaudido por uns e rejeitado por outros. Qualquer ruptura da rotina torna-se um fato extraordinário. Assim, todos os dias, as pessoas se movem em um mundo comum, ainda que, pelos seus sentidos particulares, esse mundo seja compreendido singularmente, por cada indivíduo. Hannah Arendt (2001, p. 221) desenvolve essa ideia e infere:

se o senso comum tem posição tão alta na hierarquia das qualidades políticas, é que é o único fator que ajusta à realidade global os nossos cinco sentidos estritamente individuais e os dados rigorosamente particulares que eles registram. Graças ao senso comum, é possível saber que as outras percepções sensoriais mostram a realidade, e não meras irritações de nossos nervos nem sensações de reação de nosso corpo.

 

Pelo cotidiano, o poeta, em sua singularidade, depara-se com ocorrências percebidas por todas as pessoas, mas sentidas singularmente por ele mesmo. Pelo caminho da singularidade, o poeta questiona certezas e verdades: as convicções estão instaladas em um ponto de vista, o qual apresenta uma versão possível, nunca uma versão absoluta. A poesia é sempre um outro ponto de vista possível. No cotidiano, a rotina se constitui de ternura, violência, dor, risos, expectativas e, no cotidiano do poeta, mesclam-se muitos elementos da vida sensível: saudade, lembranças, amor, família, morte, dor, frango com farofa, passeios, olhares perdidos no nada. Tudo isso, cenas e ocorrências do cotidiano, alimenta os temas da poesia de Jorge Elias. Tudo pode ser o início da poesia, como ocorre com “A poesia começa assim”, cujo segundo verso, demonstra que o poeta está mergulhado no cotidiano: “deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros”. Todavia, a palavra é a força capaz de desmembrar ou de desprender alguma ação, algum gesto ou algum objeto da realidade cotidiana, mas contra a qual ele se rebela: “jogar-se nos trilhos / para salvar a flor”.

É também pela expressão poética que Jorge Elias Neto demonstra sua profunda descrença em alguns grandes pilares da civilização, como a religião, há muito tempo tragada pela linguagem científica, pela lógica da economia e pela exatidão dos resultados apresentados por laboratórios renomados. O poema “Agora é tarde, pintei o muro” dá grande mostra do espírito cético do poeta que, em tom lacônico, afirma: “Comer todas as hóstias / na infância – de uma só vez – / só me serviu para matar a fome de Deus”. Contidos e serenos, esses versos confirmam a tese de T. S. Eliot (1989, p. 44): “o que conta não é a “grandeza”, a intensidade das emoções, dos componentes, mas a intensidade do processo artístico, a pressão, por assim dizer, sob a qual ocorre a fusão”. Dessa maneira, o poeta expressa a condição solitária do homem, sem amparo divino.

Adorno e Horkheimer (1985) advertem que a perda do apoio da religião na reconfiguração moral dos homens contemporâneos não levou as sociedades ao caos cultural, mas ao contrário, não há caos, tudo se movimenta em torno de um ordenamento pragmático do mundo: o arrefecimento da fé integrou um conjunto de forças que redirecionaram o mundo para um novo modelo cultural, submetido a uma prática econômica perversa e imperturbável. Para Adorno e Horkheimer (1985, p. 113), esse novo modelo “confere a tudo um ar de semelhança”. Dominadas pela racionalidade calculista e destruidora, as religiões não se prestam mais ao consolo: “O alento da cristandade / não sei se volta”. Todavia, se obsoletas como campo sagrado, elas ressurgem como uma grande feira de milagres. O vínculo entre o homem e as religiões não se rompe, apenas se corrompe: as religiões sucumbiram às leis do mercado.

Ainda como cenas e ocorrências do cotidiano, uma imagem chama a atenção do poeta: uma árvore morta, uma ingazeira. Na pressa, poucas pessoas reparam as árvores vivas ou agonizantes. Só reparam nelas quando são arrancadas por ventos e interrompem a passagem de carros e pessoas. Reparam e reclamam. O cotidiano exige pressa e emite imprecações. Mas o poeta faz uma reverência, afetuosa em “Poema à morte da ingazeira”, que também reforça o traço de visão niilista do poeta no verso “partir para o esquecimento”.

As cenas e as ocorrências do cotidiano constituem traços de uma poética que se consolida forte, coerente e vigorosa. Os versos de Jorge Elias Neto, de uma maneira geral, expressam diferentes sentimentos, de forma alternada: revolta, rebeldia, ternura, saudade, nostalgia, indignação, contemplação. Alguns poemas são notavelmente especulares, tais como “Seu Jorge” e “Nomear poemas”.  O uso do próprio nome indica um mergulho na própria alma, na própria atividade poética que realiza. O primeiro verso do poema “Nomear poemas” torna-se muito revelador e emblemático, considerando o conjunto de uma poética fortemente marcada pelas próprias experiências, lembranças e reminiscências: “No fundo, os poemas chamam-se Jorge”.

À sensibilidade do olhar do poeta para pessoas, objetos, cenas e acontecimentos de seu tempo, agrega-se ainda um importante diálogo com o sistema filosófico. Com uma linguagem intimista, serena, até mesmo melancólica, Jorge Elias Neto dialoga com questões universais, com muitas referências à vida e à morte, à dor e à alegria. A condição humana e os paradoxos da existência estão em sua poesia.

 

A caligrafia do poeta

 

“Os artistas são as antenas da raça”, afirma Pound (1997, p. 71). A afirmação do poeta-crítico-ensaísta é, com toda justiça, repetida em ensaios de crítica literária. Não seria tão frequente se não fosse verdade. A atividade do artista está relacionada a uma faculdade excepcional de ser sensível às ocorrências que a grande massa ignora ou não percebe. O artista se inclina para um detalhe, nuanças de um evento banal, mas indicativo de algo novo. Artista da palavra, o poeta se esgueira para um pequeno vão, de onde se lança com coragem ao mais profundo precipício, para um abismo onde se vê as raízes da humanidade; ou se lança ao voo mais alto, plainando sobre as paisagens gerais. O poeta capta o que é indizível e traduz seus sentidos em versos, revelando ao mundo seus significados. No registro das paixões, Jorge Elias Neto coloca o juízo da poesia no corpo frágil do verso. O poeta tem algo a dizer sobre as metamorfoses da vida e, no labirinto de palavras enigmáticas e enérgicas, sobre sua própria metamorfose: “(só sei transformar sapato em borboleta)”.  Na escrita potente e sensível de Jorge Elias Neto, a caligrafia registra cenas do cotidiano, bem como os fatos extraordinários. Mas não fala o poeta de si mesmo, para si mesmo: fala para outros. Escuta o poeta.

 

 

Referências:

 

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo; posfácio de Celso Lafer. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. De Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
DICIONÁRIO Etimológico. Disponível em: http://www.dicionarioetimologico.com.br/cadaver/. Última consulta em 14.set.2016.
DUBY, Georges. As damas do século XII. Tradução de Paulo Neves e Maria Lúcia Machado. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
ELIOT. T. S. Tradição e Talento Individual. In: _____. Ensaios. Tradução de Ivan Junqueira. São Paulo: ArtEditora, 1989.
ESPECTRO. In: HOUAISS. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
ELIAS NETO, Jorge. Verdes Versos. Vitória-ES: Flor&Cultura, 2007.
____. Rascunhos do Absurdo. Vitória-ES: Flor&Cultura, 2010.
____. Os Ossos da Baleia. Vitória-ES: Secult, 2013.
____. Glacial. São Paulo: Patuá, 2014.
HOUAISS. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
POUND, Ezra. ABC da literatura. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1997.

 

Shirlene Rohr de Souza é professora Mestre da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT, Campus de Alto Araguaia. O presente ensaio é vinculado ao Projeto de Pesquisa Poetas Críticos, coordenado pelo Prof. Dr. Isaac de Almeida Ramos (UNEMAT).

 

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112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma indelével e tortuosa via chamada memória

Por Fabrício Brandão

 

Capa de A Eternidade da Maçã

 

Existem coisas que deixam nossa mente impregnada de perspectivas. Quando elas nos sugerem imagens e sensações as mais variadas possíveis, é porque algo efetivamente aconteceu dentro de nós a ponto de estimular vontades criativas. Estas tais coisas vão maquinando outras tantas e logo nos percebemos diante de um produto materializado sob a forma de um livro, espaço de projeções, arremates e de livres invenções, sejam elas labirínticas ou não.

Mesmo quando não desejamos, somos acometidos pelo mundo que se anuncia em torno de nós. A partir daí, decidimos se avançamos ou recuamos, mas deixar de perceber as externalidades é graça um tanto improvável de nos ser concedida. Talvez por isso tamanhos conflitos se operem no pulsar desritmado da dimensão mais íntima que guardamos.

A razão para as linhas iniciais deste texto serem assim construídas está diretamente ligada à experiência de leitura proporcionada por “A Eternidade da Maçã” (Ed. 7 Letras), livro de contos do escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues. Nele, irrompe bem vivo um paralelismo de sensações narrativas que demarcam uma válida opção por relacionar aquilo que está fora e dentro dos domínios humanos.

Tendo como fagulhas marcantes de inspiração canções de Caetano Veloso, “A Eternidade da Maçã” apresenta todo um território de ficções contidas num dos períodos mais assombrosos da história do Brasil – a ditadura militar. E possuir como contexto o forte cenário de tensão sugerido pela repressão ditatorial acaba sendo uma espécie de armadilha quando um autor não sabe se livrar dos apelos fáceis do tema. Para a recompensadora constatação do leitor mais atento, Marcus Vinícius foge desses ardis criativos.

O fato é que estamos diante de sete contos marcados por uma menção temporal explícita a histórias compreendidas entre os idos dos anos 60 e 70 do século passado. Ainda assim, isso é apenas um recorte do tempo para situar quem se debruça sobre suas linhas. O destaque maior está em perceber que se trata de narrativas que seguem uma cronologia interna, desvinculada, portanto, de uma sequência ordenada de acontecimentos. Nesse contexto, importa ressaltar o viés notadamente psicológico dos personagens, cujas existências são alvejadas pela ambiência plúmbea dos anos em curso. O tempo psicológico é como um grande personagem central que abraça todos os demais personagens, fazendo-os desfilar suas dores, anseios, hesitações, contradições e desejos contidos.

Marcus Vinícius é hábil em posicionar num mesmo front da consciência de seus personagens tanto as dores de um coletivo (e aqui ressaltemos a mão obscura do regime militar por sobre toda uma sociedade) quanto aquelas individualizadas. Nesse contraponto entre o externo e o interno, as narrativas ganham uma conformação especial na medida em que intercalam cenários difusos de vida. O autor manipula a dinâmica entre passado e presente, utilizando acertadamente recursos de flashback como uma estratégica ferramenta de posicionamento de seus personagens diante da percepção da realidade na qual estão densamente mergulhados.

She has given her soul to the Devil/but the Devil gave his soul to God, canta Caetano numa de suas mais vigorosas composições do período em que amargou seu exílio em paragens londrinas. Esse trecho da música Maria Bethânia, utilizado por Marcus Vinícius como epígrafe de “A Alma do Diabo”, conto que abre o livro, por si só é emblemático e sugere um caminho através do qual o contista segue a seu modo, tornando-nos intrigados observadores. Diante disso, cabe uma pergunta: quais os humanos resultados do encontro, num hospital, entre um doente major e sua enfermeira cujo irmão foi torturado por aquele mesmo militar?

Em “Barco vazio”, as noções de integridade física e moral são postas em xeque ante a extrema necessidade de sobrevivência a qual está submetido seu protagonista. A escolha narrativa aponta que num estado de exceção lógicas tradicionais se invertem a tal ponto que também é permitido ao oprimido utilizar-se dos mesmos expedientes do seu algoz. De modo intermitente, na cabeça do personagem central ecoa a frase: “Às vezes é preciso fazer alguma coisa errada para fazer o que é certo”.

É interessante perceber como o contista foge de lugares comuns, subvertendo expectativas óbvias em alguns de seus personagens. É, por exemplo, o que ocorre em “A flor e a estrela”, trama que tem por curioso arremate a ingênua visão de mundo do seu protagonista, até então alheio a tudo o que representava viver num país subtraído em liberdade. O jovem enamorado que atravessa a cidade sitiada para levar uma rosa a sua amada é a demonstração de como uma suposta alienação política deu margem a algum tempo de delicadeza e poesia.

Mais à frente, no conto “Longe daqui”, subsiste um espaço para o desejo, que em meio a toda sombra circular da traição, encontra algum mínimo abrigo diante da ausência de liberdade plena. O beijo entre amigos do mesmo sexo, parceiros de experiência de vida desde a infância, carrega em si toda uma simbologia, algo que transcende qualquer noção de sexualidade e que se norteia pela consciência de que o corpo é também um receptáculo de gratidão e lealdade.  Estamos diante de uma amizade posta à prova por vias nada usuais.

Aos poucos, vamos percebendo que os personagens são pessoas normais que, mesmo diante dum amplo cenário de repressão, cultivam uma espécie de felicidade clandestina. Esta fugidia, é claro, mas o suficiente para recriar cenários da memória, através dos quais passam vívidos flashes de saudade ou de alguma distante tentativa de reparação. Quando encarcerados ou torturados, os protagonistas das histórias recorrem a lembranças que tanto significam uma válvula de escape para a dor presente como também uma tentativa de vislumbrarem o que seria deles se tudo fosse diferente, ou seja, se suas escolhas fossem outras.

Vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia 2016, “A Eternidade da Maçã” é uma obra que prima pela riqueza de suas narrativas. Seu criador lança mão de bem elaborados recursos descritivos, tecendo um painel que agrega o físico e o imaterial. Assim, não entrega respostas prontas ao leitor. É como se as histórias ficassem em suspensão, sem um arremate derradeiro e prontas para continuar sob a dinâmica de outros olhares.

Terminada a leitura do livro, fica a sensação de que Marcus Vinícius Rodrigues não quer que esqueçamos uma das páginas mais cruéis de nossa história. Na medida em que um autor como ele concretiza isso sem nos impor desgastadas formulações ideológicas, o saldo é por demais positivo. Quiçá a luz ideal posta sobre as coisas seja aquela realmente capaz de proteger a memória, e não usurpá-la repetindo frases perdidas ao vento num desatino sem propósito.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

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112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A loucura nossa de cada dia

Por Neuzamaria Kerner

 

Capa - A loucura dos outros

 

Antes de dizer qualquer coisa, o título que uso nessa resenha de “A Loucura dos Outros”, estonteante livro de contos de Nara Vidal, é importante porque, na própria palavra que sugere insanidade, encontramos a “cura” das paixões que desarranjam a alma. Mas como viver sem esse desarranjo, ser feliz no meio de um mundo tão louco?  Será que a loucura existe somente nos outros ou é vista apenas com nossos olhos cheios de razão sempre a nosso favor?

O drama feminino percorre todos os contos vividos por 21 personagens: Ifigênia, Marta, Ana Rosa, Vanessa, Cecília, Adriana, Maria Dulce, Selma, Lúcia, Amanda, Ana, Marelena, Rita, Olívia, Sílvia, Flávia, Érica, Regiane, Débora, Miriam, Íris. Todas elas envolvidas em dramas que lembram as tragédias gregas, mas, ao mesmo tempo, sendo difícil classificar cada conto dentro de correntes literárias estudadas nas escolas porque há um pouco de tudo. O subjetivismo com sua falta de clareza do movimento simbolista; a prosa realista com seu caráter ideológico onde são discutidos problemas sociais (especificamente num ambiente restrito do universo feminino), quando a autora explora, sem nenhuma hipocrisia, sem pudores e numa linguagem bem clara focando sexualidade, a exploração, a infelicidade, a prostituição, o incesto, a insatisfação da figura feminina atemporal.

Se poderia dizer que são contos de escola naturalista pela forma como a palavra é usada e as ações das personagens com suas histórias tão chocantes que deixam o leitor com os dentes travando e rangendo ao mesmo tempo. No entanto, se poderia dizer que é uma prosa com características existencialistas bem marcantes quando é mostrado o ser humano com suas circunstâncias subjetivas, com sua ânsia de liberdade, mas ao mesmo tempo aprisionado no meio em que vive.

Acredito, porém, que qualquer tentativa de classificação seria desnecessária porque a autora certamente não esteve preocupada com isso enquanto escrevia sobre a alma nua e dolorida da mulher.

Não foi à toa que Nara Vidal abriu o livro, tendo como epígrafe um poema de Silvia Plath – Canção de amor da jovem louca – já que os contos tratam da loucura encoberta pelos cílios de suas personagens. Depressivas, algumas delas cometem suicídio por não suportarem o peso da vida, assim como a poetisa que termina seu texto com os versos abaixo que sinalizavam sua depressão e suicídio:

(…)
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

 

Interessante também observar que a contista dedica o livro a Ismália. Seria uma homenagem e referência ao poema de Alphonsus de Guimaraens? Certamente. A loucura, o miolo da loucura está bem presente. Vejam:

 

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

 

O desfile das personagens se inicia com Ifigênia, num conto dolorido e surreal, a mulher que perdeu a cabeça (literalmente) por amor ao palhaço Vareta. Em seguida, vem Ana Rosa, conto com um depoimento estarrecedor de um traficante assassino, seu marido, que a amava loucamente. E Cecília? Não conseguia mais olhar para o marido. Será que se suicidou no metrô? Nara Vidal brinca com a imaginação do leitor, deixando-o na incerteza. Maria Dulce, nome doce, coitada – a sem coração – deixa cair o filhinho de dois meses, talvez por não suportar que ele viesse a passar pelas mazelas da vida com a coragem necessária. Lúcia, a que fazia queijo de cabras, depois de a fabriqueta ser fechada o marido fica desempregado e não consegue mais ver as estrelas que tanto apreciava com a mulher. Amanda sofria de baixa autoestima e era espancada pelo marido e ainda achava que ele tinha razão. Medo? Vergonha de ter um casamento falido? O que leva uma mulher a sofrer esse tipo de maltrato e ainda ser grata pela comida que o marido bota na mesa? Entre outras comoventes personagens, trago aqui Marelena, a garotinha que limpava a bunda compulsivamente até se ferir. Transtorno obsessivo-compulsivo. O que teria levado a garotinha a adquirir essa doença? Meio em que vive? Abuso sexual? A autora sacrifica o leitor não deixando claro o porquê… é preciso uma ginástica mental para descobrir. Negligência dos pais? O que houve ali?

É interessante conferir a vida das outras personagens para tentar entender suas loucuras. Não se fala aqui da loucura sobre a qual Aristófanes designava na Idade Média. Algo até como divino. “Enlouquecer é ser submetido à angústia e ficar prisioneiro do universo do não sentido, em que nossa linguagem fica aquém da possibilidade de interpretar o que experimentamos” (Birman, 1983). Em todos os contos a vida dessas mulheres anda de mãos dadas com a “loucura”, a angústia, a morte, mesmo que ela não mate a personagem de morte matada ou morte morrida ou, quem sabe, a morte de quem continua vivo.

Creio que a loucura tratada neste denso livro de contos é a insensatez, o desencontro da coerência com a incoerência de pessoas que correm sem saber por que, para onde a fim de encontrar não sei o quê. Talvez essa loucura de que fala a autora seja a do miolo mole mesmo.

Em verdade é a loucura que nos faz viver felizes, lembrando Erasmo de Rotterdam em seu livro Elogio da Loucura, escrito em 1508. Assim como a loucura é a personagem de Erasmo, ela também se reinventa nos contos de Nara Vidal, mostrando quão hipócritas somos de não termos coragem de aceitar que os loucos existem para chamar os sãos à razão; mostrando que o desmiolamento alheio, em seus contos do livro “A Loucura dos Outros”, pode ser aceito e criticado, mas não as nossas  loucuras nossas de cada dia, principalmente no universo feminino. Nesse universo, há que se ser louco para suportar o peso da razão e encontrar um pouco de felicidade.

De repente, encontramos uma cura na Loucura das personagens da autora. Vejamos!

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).