Categorias
111ª Leva - 05/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Panis Et Circencis

Por Sérgio Tavares

sobrepessoasnormais

Corre, pelos contos de “Sobre pessoas normais”, de Marcela Dantés, um tipo de eletricidade nociva. Altos de tensão cujas descargas irão deflagrar inevitáveis tragédias. A esse circuito, a autora mineira condena seus personagens, confrontando-os a situações-limite, a momentos de fraturas em que o abismo provém de uma singela decisão ou da crueza com que se constitui a normalidade da vida.

Marcela parece observar o ordinário por um buraco na parede e, à medida que seu campo de visão se amplia, a cena inicial se desdobra de maneira imprevista, conduzindo a narrativa para um desfecho arrebatador. Uma mulher trancada no banheiro irradia, pelo contato frio dos azulejos, a dor do que foi abortado de si; outra escreve para o ex-amante que o cão deles morreu de saudade; mais um cachorro morre, agora ao ser atropelado pelo carro que leva uma noiva à igreja, e desencadeia a dúvida se é caso de sorte ou de azar.

No excelente “Maré alta temporada”, um homem observa, com desprezo, os dias de uma família em férias na praia, quando é surpreendido por um acontecimento de funda tristeza. O mesmo peso dramático rege “Alencar”, sobre uma mulher que quebra o segredo e vai ao enterro do amante, levando o filho que “não podia exibir o pai que a vida lhe dera”, sem que isso o desabonasse do afeto. “Cada mãe com seu filho na mão, um duelo de lágrimas, quem sentia a maior dor? Alencar, por certo, que nunca desejou isso para ninguém. Se soubesse, não teria morrido. Mas morreu hoje”.

Marcela escreve com contundência, sem se furtar da delicadeza. A violência percorre suas histórias, porém nunca é usada de modo a provocar o choque ou em detalhes explícitos. Está na natureza da circunstância, no acúmulo de sensações que leva o personagem a reagir e, a reboque, faz com que o leitor sinta-se ligado a essa humanidade precária, talvez por também assim o ser. É o caso do conto que dá nome ao livro, no qual um paciente, revidando seu estado terminal, regozija-se ao transitar pelo hospital e presenciar os leitos desocupados pelos que morreram. “Fazia pouco tempo que conseguia controlar o esfíncter, mas preferia continuar mijando nas pessoas, como nos primeiros dias”.

O assalto da maldade também se compraz no exercício da sutileza, e Marcela demonstra talento para articular essa relação em seu processo de escrita e na consistência da forma, adotando um ritmo lento de quem se dispõe a passar o tempo necessário com o conto até entendê-lo lapidado. Desse modo, fica o espanto ao se dar conta de que se trata de uma estreia e, mais ainda, diante da decisão de uma autora que visivelmente esperou estar pronta, madura para finalmente publicar. Isso é raro. Muito, nos dias de hoje.

Tomando emprestado o título de um dos contos, cada um carrega a cruz que pode, pouca gente paga em moeda. “Sobre pessoas normais” não deixa dúvida de seu alto valor.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

Categorias
110ª Leva - 04/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

 A Musa como salvação no absurdo da vida no livro Rarefeito – William Soares dos Santos

Por Jorge Elias Neto

 

RAREFEITO

Sempre é oportuno relembrar que a leitura atenta de um livro começa pelo nome com o qual o autor convida o leitor à leitura – sobretudo quando se trata de um livro de poemas. O poeta costuma buscar a densidade em cada palavra, um visgo que grude na capa toda uma carga de significantes e emoções transfigurados em linguagem.

No caso do livro Rarefeito, do poeta e professor William Soares dos Santos, recentemente publicado pela Ibis Libris, esta observação inicial se faz relevante. Afinal, trata-se de um autor oriundo da academia e estudioso de literatura. Esse aspecto também não passou despercebido ao poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin que, no início do seu prefácio ao livro, nos diz que, “apesar da insinuação do título, rarefeito, o autor, parece operar no domínio de um real bastante denso, pleno de amores e de humores”.

O título do livro, em consonância com o que nos diz o linguista José Augusto Carvalho, sugere, em um primeiro momento, pelo menos duas leituras: o adjetivo rarefeito (que significa “menos denso”) e a palavra-cabide ou palavra-portmanteau (também chamada “palavra entrecruzada”) rarefeito, formada pelo amálgama do adjetivo raro com o substantivo efeito  (raro efeito).

No primeiro caso, o título sugere simplicidade; no segundo, sugere algo novo, raro, diferente. Em ambos os casos, o título sugere ou antecipa o efeito que os poemas provocarão no leitor. Vasculhemos então o que inspira, espira e aspira o autor de Rarefeito.

E o sentido de Rarefeito já ensaia seu contorno nos versos do poeta Inglês William Wordsworth, escolhidos para compor a epígrafe da obra. Neles, o grande poeta romântico homônimo de nosso autor, instiga seu eu lírico a erguer-se: “Up!up! and drink the spirit breathed/From dead men to their kind.”

Somente a literatura e o acaso possibilitaram que esses versos escritos no século XVIII chegassem aos ouvidos do nosso poeta, e soassem assim tão pessoais, provocando-o ao inquirir: “Why, William, on that old grey stone,/ Thus for the length of half a day,/ Why, William, sit you thus alone,/ And dream your time away? ” Finalizando com um desafio:”Where are your books? – that light bequeathed/ To Beings else forlorn and blind!”

E já em Rarefeito, primeiro poema do livro, William Soares nos diz, a seu modo, do imenso desconhecido contido entre o céu e as profundezas terrestres; inicia assim um diálogo presente ao longo da obra – nesta feita com o homônimo William Shakespeare – com os cânones da poesia mundial.

Vejamos:

 

Quero ser tomado,
elevado à montanha mais
alta e submerso ao mar mais profundo.
o que sei de mim é
um constante não saber.

 

Ao seu modo, lançando mão da metáfora, o poeta também ensaia a superação do absurdo.

Sabemos o sentido de urgência do homem contemporâneo, a necessidade de lançar-se no desafio dos limites, na busca de embriagar-se com endorfina.       

Enquanto seus coetâneos, de forma cada vez mais radical e, por vezes, inconsequente, buscam desafiar seus limites se confrontando com ambientes inóspitos, com condições atmosféricas pouco afeitas ao conforto, seja nos picos montanhosos – que se caracterizam por um ar menos denso (rarefeito) e com menor concentração de oxigênio – seja nas profundezas dos Oceanos que oferecem o risco das grandes pressões, comprometendo a lucidez e a coordenação motora, o poeta também busca o desconforto que lhe proporcionará – pelo menos em tese – a experiência criadora.

 

Quero ser tomado de mim,
atravessado pela luz
mais pura que antes
nunca se afigura.

acordei num dia novo e
claro, no qual o ar não está
rarefeito
e nada cala
dentro de mim.

Quero ser tomado do mundo.
a minha passagem será
apenas vento, talvez sombra,
talvez tempo, mas nunca
desatino.

Brancura serena da primavera,
negrume pacificador da alta
madrugada.

 

Disse-nos Emil Cioran: “Escrever seria um ato insípido e supérfluo se pudéssemos chorar à vontade… Se cada vez que os desgostos nos assaltam tivéssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doenças vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma reticência inata, agravada pela educação, ou um funcionamento defeituoso das glândulas lacrimais, condena-nos ao martírio dos olhos secos.” Daí a admiração de Cioran pelos poetas, por sua capacidade de mostrarem-se isentos de pudor – e agora cito as palavras de Nietzsche – em relação às próprias experiências; esta capacidade única de explorar o que tantos tentam omitir e dissimular.

E o poeta dialoga com seu desassossego. Reconhece ser mais um pássaro, entre tantos, grudado nas partituras dos fios elétricos das grandes Metrópolis. Sabe seu espaço no sem sentido, e ensaia um arremedo de liberdade: Um pássaro não é o pássaro,/é um pássaro qualquer.//branco?/pode ser,/para combinar com o azul deste mar,/para ser livre como todos os ideais de vida.// livre como não sou,/livre como não sei o que é ser livre.// mas imagino,/tento,//um pássaro qualquer,/livre,/ser.

E “a dor ladra no tempo”, esse tempo só nosso, em que transgride¹ e nos diz o poeta: ainda que permanecesse/eu seria apenas a lembrança tangível/que insiste na permanência/da intangibilidade de ser. Quantos de nós não sentimos essa náusea sartreana diante da imanência…

E rodopia sem direção,/gira,gira o pião de Sísifo.

Diz-nos Camus que, diante do absurdo, uma das alternativas é o “salto” para a religião. No presente caso, vemos o eu lírico – nesta feita no poema “Crístico” — apresentar-se como aquele que segue os preceitos cristãos da austeridade e do amor. É o herói que suplanta qualquer complexo de heroísmo.

Mas, ao modo de Augusto dos Anjos, William Soares nos diz que nem o poeta profeta sem intenção,/à margem da lição, nem o alquimista que dialoga com os símbolos de Jung, nem mesmo o físico que vê o mundo calculado,/matematizado, equilibrado não sabem o que é o mundo. São como uma criança, com seus olhinhos arregalados, esbugalhados de/surpresa diante da flor que recolhem/todas as manhãs.

Será o tempo é uma brecha que esconde o vento que sopra no rosto imaturo do mundo; ou seria no rosto do homem?

O que resta ao poeta, qual o caminho possível diante da incerteza? A resposta vem de “um anjo azul” que propõe que o poeta toque sua lira. E é essa “lira moderna” que acalenta o poeta e o anjo. Ambos condenados – o imortal e o mortal – à “solidão eterna” dentro de um mundo-prisão circundado pela “grande muralha”.

E o poeta se rebela, e se lança ao mar, pois a leste está a mais bela baía do mundo:

 

No mar que me transporta,
Vejo que não são os meus olhos que veem,
Mas eu que vejo através dos meus olhos.

Eis aí o poeta ensaiando seu eterno retorno à Pasárgada…

Já na República de Platão, Sócrates alerta a Adimanto que as fábulas mentirosas compostas por Hesíodo e Homero seriam contadas aos homens. E entre elas encontrava-se a vingança de Cronos contra seu filho Urano. E, vencendo Cronos, o poeta insiste em despertar a cada dia:

o mundo pesa
sobre mim,
serpente incinerada do estar
que me apeçonha em cada
instante do viver,
ainda quando rasga,
sanguínea e fresca,
a madrugada.

 

E eis que surge a Musa…

 

Somente ela
me trará
o grande sono
na madrugada.

O sono borbotado
de azul,
tão diverso
do cativo desejo
em que me encontro e que me aprisiona
na imensidão do anoitecer.

 

Em seu livro L´amour fou, André Breton nos apresenta o conceito de “acaso racional”. Aquele encontro “inesperado” ― inconscientemente já “agendado” ― com a musa. O grande encontro entre o poeta e a poesia. E muitos dos poemas trazem um poeta e suas luxúrias.

Mas uma nova surpresa — talvez mais uma vez a náusea existencialista leva o poeta a observar:

e eu sou feito um ladrão roubado pelo roubo que leva,
neste anseio de mais abrir o sorriso da boca nascida.

O poeta retorna às areias da praia cantada e à sua calçada de ondas negras e alvas. E depara com os indivíduos que buscam, em rumos distintos, alinhavar suas vidas e por um instante se esquece que é pós-moderno.

Whitman afirma e o poeta inquire: o que fazer com essa inquietude constante e com o desejo de ser muitos? ― lidar com a contradição humana.

Mas restam-lhe a musa e o amor.  E eis aí a densidade possível ao poeta – a pele e o gozo.

Entretanto tudo indica que o meu caminha mais longo será mesmo a solidão.

Mas talvez, como diz o protagonista do livro Náusea, de Sartre, “a margem da solidão”. Um ponto equidistante entre o isolamento e o acesso ao outro.

Mas como isso acontece? Talvez o poeta dissimule, pareça perdido, rendido aos atos costumeiros, diuturnamente… Mas, quando do primeiro estalo da palavra, talvez ele se sobressalte e se lance ao chão para salvar a flor… Resgatar a imagem primeira da musa:

Torna-me à mente
Do teu corpo
A imagem da primeira vez.

eu, inquieto mendicante,
de teu corpo desejante,

a febre tolhia-me o sono,
e entre a penumbra surgiu a tua imagem
a desnudar-se em plena alvura
enquanto tudo se apascentava no hemisfério.

Embora não me governasse,
Me detive em tuas costas,
Como se os astros, a aurora
E o silêncio compactuassem.

Trazia-me o ansiado deleite
Fazendo de meu corpo a chave mestra
Que abria portas à sinistra-destra.

Pensamentos revoavam,
Enquanto eu calava e me concedia,
Tímido e inexperiente,
Às voltas de teu corpo.

Fechei os olhos,
O que palpitava de novo em meu peito?
Menino de nove mais nove sóis,
Tudo se confundia com desejo.

Todas as palavras então ficaram,
Tentativas inexpressivas de retratar
A gravidade de teu corpo.

 

E eis novamente William Wordsworth a nos dizer que “a poesia é o transbordamento espontâneo de sentimentos intensos: tem a sua origem na emoção recordada num estado de tranquilidade”.

O que propõe de novo um poeta pós-moderno?  Talvez o reencontro com a musa, não de uma forma piegas e descompromissada, mas sim através dos clássicos e dos grandes poetas (complementação de rarefeito).

Pois ele nos diz como no poema intitulado Ulisses:

depois de tudo
deixo o teu leito com tudo o mais de óbvio:
molhado de suor,
com a face relaxada,
e uma ferida
encravada no dorso.

deixo o teu leito
como quem
cumpriu uma promessa,
esperando o pão com manteiga
que chega com o cheiro do café
perpassado pela alvorada.
deixo o teu leito
com a incerteza
de um retorno tranquilo
à minha ítaca sonhada
– barco sem porto
faço de ti meu ancoradouro –
deixo o teu leito
com um adeus
desacenado
de quem procura te
encontrar,
– após batalhas
contra troianos, ciclopes e
sirenes encantadas –
Na próxima
dedirósea manhã.

 

Diz-nos Antônio Carlos Secchin no prefácio que  “… é nessa tensão – de dizer-se pelo viés de transformar-se em algo sempre diverso – que reside a força maior de rarefeito”.

Não sou crítico, nem pertenço à Academia. Percorri o livro como leitor de poesia e poeta, e digo que não foi difícil. Vivo neste mesmo ambiente, muitas vezes inóspito; embriago-me na mesma altitude onde é raro o oxigênio e onde a tontura deixa obnubilada nossa memória; indago as mesmas coisas; percorro os mesmos beirais, vou de leste a oeste, consciente da imanência do corpo e, como no poema, “Vésper”,

eu,
vésper celeste,
despeço-me
de minha
imortalidade
para, enfim,
encontrar em
teu corpo
– em não mais que uma hora
eternamente breve –
a luminosidade
inebriante do pulsar
do perecível

agarrando-me à musa, nessa falsa transcendência do infinito instante.

Jorge Elias Neto (1964) é Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Prêmio SECULT – ES – 2013), Glacial (Ed. Patuá – 2014) e Breve dicionário (poético) do boxe (Ed. Patuá – 2015). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Germina, Diversos Afins, Mallarmargens e no Portal Literário Cronópios. Membro da Academia Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira de número 2.

 

Categorias
110ª Leva - 04/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Estradas feitas para se perder

Por Sérgio Tavares

Trilogia do Asfalto Capa

Um dos efeitos mais audaciosos do exercício narrativo é extrair da linguagem uma sonância que repercuta os traços da ambientação da história. “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, é um exemplo vigoroso deste emprego conectivo. O romance, que se passa, em grande parte, na geografia desidratada do sertão nordestino, empresta desta paisagem a ressequidão que constitui sua tessitura, suas frases concisas e esfarelentas. Desde a abertura, a prosa se apresenta destituída de viço, compassada pelo demorar dos pés que avançam quase terra, que se racham quase carne.

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala”.

Em “Trilogia do asfalto”, o baiano Dênisson Padilha Filho se arrisca na execução do mesmo procedimento, e se sai bem. Os contos que compõem a breve coletânea (dois dos quais previamente premiados) são construídos através das economias verbal e narrativa, incorporando ao alicerce semântico a aridez por onde circulam seus personagens. Indivíduos cobertos pela “poeira cortante” das estradas, da vida que pretende uma aliança com o passado a fim de endireitar a rota para o futuro. O caso é que o presente se mostra desgovernável, um progredir que não dispõe das indicações devidas.

“Era um céu de fotografia. Mas pra quem vive à beira daquela rodovia, o azul era tempo encerrado pra chuvas; o calor fazia algo como mutirões pesados. Primeiro, o castigo das nove, depois, um mais severo às onze. E então, já não se via mais ninguém andando pelo asfalto. Janelinhas e portas das casas eram bocas ofegantes. Longe, algumas serras tremiam. Um ônibus parou e ele desceu, só ele, com sua mochila. Parecia não estar muito certo do que acabara de fazer”, assim tem início o rascante “Naquela manhã de fogo”.

No conto, um viajante faz uma parada numa venda à beira de uma rodovia, gerenciada por um sujeito desolado e seu pai, um velho cego de um olho. Ele se dirige à cidade vizinha, onde nasceu, em busca de resposta sobre o homem que entende como seu pai. Protegidos das “ondas de calor que assolavam a terra” do lado de fora, empreenderão um diálogo de contenções que revelará que, na expectativa de que algo aconteça, estarão presos em suas próprias existências. “A gente nem vai nem vem… a gente fica”, conclui o vendedor.

Dênisson trata da impotência, de uma maneira alegórica. Apesar de lançados em jornadas, seus personagens ora seguem estacionados na ideia de partida, ora fazem um movimento contrário em seus íntimos. No conto seguinte, “Como assim, dar pra ele?”, a narradora passa em revista a relação com o marido, enquanto viajam, a contragosto dela, rumo a uma fazenda de café, por conta de um feriadão. No carona, vai um amigo, que terá um papel dissonante dentro do fluxo mental no qual ela busca entender como o casamento atravessou a paixão e chegou a duas pessoas que sequer se olham.

“Eu tenho uma vida inteira pra lhe contar; você nunca quis saber, é verdade, mas antes, ao menos você era meu herói e eu era sua virgem roubada; você sondava meu fogo e meu amor por você. Hoje, pouco lhe importa o gelo da minha pele, que já se esqueceu de seus dedos. O que mais dói em mim, já quis saber nos últimos dois anos? Sem chance, não é? Por isso me enojam suas certezas, e mais, contar a você de minha vida, minhas alegrias, é hoje, mais que uma necessidade, é uma vontade; eu quero ferir você, faço questão”, confessa.

Novamente a prosa se alia ao cenário, criando pontos de tensão em momentos em que a estrada se mostra mais perigosa. O autor entrega a condução da narrativa a uma voz que, por não conseguir se propagar no outro, torna-se perdida, solitária. Isso se agrava no último conto, “Roupa íntima, amor felino”, sobre um fracassado que separa a vida entre se embriagar e detestar os gatos que lotam o prédio em que mora. Amargurado por conta de um amor não correspondido e sem emprego, passa a ocupar o quartinho do zelador, onde começa a decifrar os hábitos dos moradores de baixo para cima. Obviamente, quando não está num bar, à procura de alguém que ouça suas tristezas.

“Em todo boteco há um pouco de carinho de mãe para com seus assíduos. Você senta no bar ou joga sua tonelada de dores no balcão e ele lhe põe uma dose como se dissesse, ‘esqueça, filho, amanhã as ruas estarão cheias de flores’. Não é impossível, mas é muito difícil encontrar um garçom simpático quando se pisa num bar pela primeira vez. Se você volta no dia seguinte não. Aquilo pra ele é um elogio e ele retribui com gentileza. Na primeira vez você é só mais um aventureiro tentando se refrescar, e garçons detestam aventureiros”.

Pondo em marcha um sentido de unidade, a coletânea parte de uma busca e termina num gesto resignado de quem já não consegue chegar a lugar nenhum. O asfalto pavimentado por Dênisson serve para se lançar ao mundo, mas também para se encontrar com o próprio fracasso. Nem todas as estradas apontam um destino. Há também aquelas feitas para se perder, para, como escreveu Graciliano, ficar preso nelas.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

Categorias
109ª Leva - 03/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 

Doses exageradas de estranheza

Por Sérgio Tavares

 

eucowboy

Um exercício de porra-louquice é o que rege o processo de construção de “Eu, Cowboy”, de Caco Ishak. Em seu livro de estreia, o escritor goiano empenha-se na radicalização da forma e do estilo, concebendo uma colagem frenética, um “brainstorming”, uma metralha narrativa que esfacela qualquer conceito instituído de gênero, ação temporal e estrutura temática.

De fato, uma classificação mais adequada ao resultado final seria “um romance de subversão desconstrutiva”. Para se ter uma ideia, somente na página vinte e cinco é que se começa a prestar esclarecimento de quem protagoniza a trama.

Este é Carlo Kaddish (ou assim parece ser). Um sujeito inescrupuloso, hedonista à terceira potência, com queda por (pré-)adolescentes, cujos dias se tencionam numa roleta-russa existencial. Ao seu redor, orbitam amigos também adeptos ao comportamento desbragado e, da mesma maneira, medíocres perante suas responsabilidades. São todos losers, conformados de que “cresceram ficando para trás”. “Continuo andando com os mesmos frustrados de sempre e só porque eu me sinto bem ao lados deles”, confessa Carlo, assumindo o fracasso na condição de um mal congênito.

A culpa estaria na “geração que perdeu o medo de envelhecer” e, assim, ficou suscetível a uma crise extemporânea de meia-idade. “(…) a graça disso tudo é que, mesmo podendo viver até os trezentos, a sensação geral é de que, passou dos trinta, já era”. Portanto, o que resta é se lançar numa incursão de excessos, sem compromissos, incitando “o prazer pelo prazer de carregar um vazio nas costas, já fora do peito, trancafiando nada”.

Os únicos poréns, no caso de Carlo, seriam o afeto pela filha mantida à distancia pela mãe e o gosto pelas artes plásticas. Ou talvez não, quem sabe? Por certo, mesmo a descrição acima tem grande chance de estar equivocada. Isso porque foi montada através de cacos de informações desbaratados por todo o livro. Alguns, inclusive, contraditórios, devido ao jogo verborrágico de encavalar trechos de momentos distintos, sem conexão entre si.

Ishak empreende esse efeito aleatório no desenvolvimento (ou esboroamento) da narrativa, coadunando maciços de texto, diálogos longos e curtos, e-mails, palavras em caixa alta, verbetes de dicionário e trechos de música em inglês. A voz, em primeira pessoa, por vezes rompe os limites internos e se dirige diretamente ao leitor, mostra consciência de que está numa obra de ficção. Passado e presente se intercalam de maneira incessante (quando não se sobrepõem), em saltos temporais que se localizam nos anos 90 e no começo dos anos 2000.

O entender corrosivo destas duas décadas, aliás, é o ponto alto do livro. Embora não deixe de desfilar, por meio de seu protagonista, reflexões carregadas de uma filosofia torta, o autor constrói sua ambientação por meio de referências que vão da cultura pop a fatos históricos. Informações sutis, sugestões, o que hoje é conhecido, na cartilha cinematográfica, como easter egg. De nomes de bandas a títulos de canções que evocam bandas, da MTV ao 11 de setembro, do grunge à uma ressaca permanente, um ressaibo de que tudo se podia, ainda que não se quisesse nada, há iscas para interpretações por todo o romance. É um recurso estimulante, mas que, por conta de outra decisão, vem a se tornar um problema.

Ishak ergue sua história com a pulsão de detalhes, contudo aferrada a um ritmo vertiginoso, uma prosa resfolegante que impede que a leitura se detenha a esses pormenores, tenha tempo para decifrá-los. Tudo vem num jorro, como que arrevessado, sem preocupação em estabelecer um fio condutor, tampouco uma lógica. Isso acaba forçando várias pausas que, por fim, só incrementam a sensação de desbarate.

Outro aspecto contraproducente é a opção pela autossabotagem, a autodepreciação das próprias escolhas, não deixando muito claro se a intenção é sobrepesar a acidez, constituir uma paródia ou destilar doses cavalares de crítica. O autor planta aqui e acolá palavras como “cópia”, “plágio”, brinca com os clichês narrativos, reconhece que escrever é “chupar” o que já foi feito, que escritor é “copiar e colar diferente”.

Em dado momento, quando Carlo sugere largar tudo e cair na estrada a la Kerouac e seu clássico “On the road”, ele mesmo aponta que é uma ideia nada original, ainda que seja, na verdade, uma pose de “tô cagando pro Kerouac”. Essas sacadas, ainda que divertidas, dependem de uma bagagem extraterritorial ao livro, que não está em todo leitor, e acabam soando como um tipo de piada interna, a piada que anula a própria piada.

Enfim, “Eu, Cowboy” é uma experiência mobilizada por sensações, vozerio e muita fúria que se assemelha a uma locomotiva em pleno movimento que, tal uma locomotiva em pleno movimento, não é fácil de embarcar.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

Categorias
109ª Leva - 03/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Singularidade pelo negativo

Por Renato Tardivo

 

capareprodutibilidade

 

Reprodutibilidade estranha e familiar

 

No lançamento de O ser humano na era de sua reprodutibilidade tática (Ed. Patuá), livro de Valerio Oliveira, a criança que me acompanhava disse ao observar a capa: “Olha, esses monstrinhos seguem uma ordem: vermelho, azul, verde, vermelho, azul…”. Ela estava correta.

O título deste livro de poesias é uma paródia – ou atualização – do ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin. Muito resumidamente, a ideia do ensaio é que, sob a égide da reprodutibilidade, a obra de arte teria perdido a sua singularidade e, portanto, seu sentido mais originário: dar a conhecer algo de seu mundo próprio.

O foco dos poemas de Valerio são os seres humanos na (e da) contemporaneidade, período em que os avanços técnicos e tecnológicos atingiram patamares elevados a custos muito altos e são disponíveis a uma mínima parcela da população. Além disso, como já escreveram Horkheimer e Adorno muitas décadas atrás, na conjuntura em que realidade e ideologia correm uma para a outra, os comportamentos dos sujeitos, banalizados entre realidade e artifício, padronizam-se. E, como nos mostra Valerio Oliveira, tem sido assim cada vez mais.

Com humor ácido, metalinguagem e, inclusive, alguma dose de lirismo, o poeta convoca o leitor, pela via da sensibilidade e reflexão, a vivenciar o estranhamento e o incômodo justamente ao se reconhecer em suas personagens. Distante de uma perspectiva panfletária, portanto, os poemas resgatam o leitor (ser humano) de sua reprodutibilidade tática pelo negativo. É ao tomar contato com a reprodutibilidade humana, tão estranha quanto familiar, que nos damos conta de sua singularidade, ainda que às custas, por exemplo, do desconfortável “ombro com ombro com ombro com ombro” (“Deus salve o Estado”).

Poética singular e múltipla

O casal que passeia pelo apartamento (“Ordem e desordem”), o sujeito que sai do cinema de mãos dadas consigo mesmo (“Final feliz”), as “Verdades sem olhos ou pernas”, título da primeira parte do livro, e as “Mentiras sem boca ou braços”, título da segunda, são emblemas dos seres humanos desenhados por Valerio: fragmentados, amputados, esburacados, e equivalentes em sua mediocridade. Nesse sentido, a capa, de autoria de Teo Adorno, é muito apropriada. Os monstrinhos seriais, sagazmente percebidos pela criança que me acompanhava, são metáforas visuais daquilo que somos.

Não é aleatório, portanto, que os últimos poemas do livro abordem as ambiguidades contidas na relação eu-outro: “Eu e os outros”, “Obras completas de Valerio Oliveira”, “World burly brawl” e “Os trinta Valerios”. Dessa perspectiva, o livro torna-se ainda mais interessante. Sabe-se que o autor desdobra-se em múltiplas personas.

Nos anos 1990, surgiu um talento na literatura brasileira: Nelson de Oliveira (embora o próprio tenha me confidenciado que Valerio nascera antes, mas Nelson foi o mais celebrado). Ocorre que, ao desdobrar-se em quatro – Valerio Oliveira, Luiz Bras, Teo Adorno e Nelson de Oliveira –, o artista singulariza-se ao limite, pois assume-se múltiplo.

Diferentemente dos seres fragmentados, da capa ao interior do livro e às páginas do mundo, a unidade da poética do autor decorre justamente da comunicação entre os diversos. A um só tempo singular e múltipla, sua obra é uma espécie de alternativa – irônica, cômica, crítica – aos cenários banalizados retratados no livro.

O milagre da expressão

   

Como um pode ser quatro, ou mais até? Como explicar experiências que atravessam gerações, simultaneamente reais e ilusórias? O mais provável é que não haja explicação, mas, como escreveu Clarice, “viver ultrapassa qualquer entendimento”. E a literatura, essa trama expressiva do sensível, de fato promove milagres. Como o que eu comecei a vivenciar na Bienal do Livro de São Paulo, cerca de dez anos atrás. O sonho de me tornar escritor crescia, sempre alimentado por uma de minhas maiores incentivadoras: minha avó. Pois bem. Lá na Bienal ela me disse: “Escolhe qualquer livro para eu lhe dar de presente”. Escolhi Subsolo infinito, romance de Nelson de Oliveira, livro que guardo com muito carinho.

Não poderia imaginar naquele domingo, na Bienal, que dez anos depois eu estaria lançando meu quarto livro, que me lembraria desse dia ao ver Nelson de Oliveira (ou seria o Luiz, o Valerio, o Teo?) se aproximar para eu lhe fazer a dedicatória no (meu) livro. Tampouco imaginaria que, enquanto escrevia a dedicatória, veria a minha avó de rabo de olho, e pensaria em chamá-la para perguntar se ela se lembrava daquele dia na Bienal e apresentá-la ao autor do livro que ela me deu de presente, e que não haveria tempo para nada disso, porque, na era da reprodutibilidade tática, o próximo da fila já abria o seu exemplar para eu assinar.

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutor em Psicologia Social pela USP, é autor do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp), da novela Castigo (E-galáxia) e dos volumes de contos Do avesso (Com-arte/USP), Silente (7Letras) e Girassol voltado para a terra (Ateliê). Colabora regularmente com textos sobre cultura para veículos como a revista Cult e o Observatório da Imprensa.  

Categorias
108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Aperitivo da Palavra II

Voz assombrada por fantasmas

 Por Sérgio Tavares

Julho é um bom mês pra morrer

É possível definir o procedimento narrativo de “Julho é um bom mês pra morrer”, do paraibano Roberto Menezes, num trecho extraído de suas próprias páginas: “um trem desgovernado tentando governar um trem desgovernado”.

Pois, a despeito do argumento central coeso, a contextura tem a diluição de um curso torrencial, “uma enxurrada”, o descompasso de uma voz que, tentando agarrar-se à lucidez, empreende contato com um interlocutor, alguém que talvez não exista, um contato com a própria inexistência. Tal voz pertence à Laura, uma jornalista desempregada, de trinta e cinco anos, que administra um blog em meio à impossibilidade de administrar uma decisão judicial que a obriga a deixar seu apartamento, em razão de o prédio estar em vias de ser demolido.

O romance se desenrola nessas últimas horas de resistência, em que, contra a parede, ela decide escrever uma carta para a mãe que a abandonou ainda na infância, compondo um misto de desabafo, condenação e despedida. Por conta do tenso das circunstâncias, o relato acaba por incorporar a urgência e a ameaça do esboroamento, desmontando o tempo cronológico num tempo da memória, a sequência não-linear dos fatos rebobinados.

A protagonista, desse modo, persegue culpados e acaba por desencovar culpas. Evoca a presença afetiva da avó, do pai e dos irmãos, e descarrega a voltagem de derrotas e enganos na ausência materna, nos fracassos amorosos de idade e gêneros distintos.

O caso é que, no avançar da tessitura confessional, todos vão se revelando, com mais ou menos gravidade, culpados. Inclusive a própria protagonista, que carrega consigo o fantasma de uma perda insuperável. Laura é um oco, um apartamento vazio, uma voz assombrada por fantasmas.

Menezes se arrisca ao construir uma narrativa mobilizada pela tensão, em que os fatos se fragmentam e se reencaixam entre saltos de capítulos, porém há no autor um domínio técnico capaz de transformar a desordem numa leitura instigante.

No que pese o excesso de frases de efeito (“Deus é o vício das coisas”, “Milagre é a poesia do acaso”, “Esperar é o pior jeito de aguentar a dor”), a maioria é bem colocada e funciona na excursão frenética de Laura pela fronteira entre o devaneio e a realidade. De fato, sob esses blocos de escombros, o romance conserva um fino de poesia, um lirismo pego meio de soslaio antes de a palavra chocar-se contra o concreto.

“’Eu sou o vento, você é o moinho; eu sou o monho, você é o vento’. E começava a adormecer, e a voz foi indo indo, e eu só ouvia você dizendo, ‘Vou indo baby, vou indo baby, vou indo…’ O sonho virou um sonho branco. Dormi tranquila.

Não, não nascem asas quando se perde o chão. Nascem outros chãos”.

Menezes ainda demostra habilidade em usar da experiência dramática de sua protagonista para remontar os cenários socioeconômicos que tiveram impacto em determinados momentos de sua vida, numa analogia ao impacto que estes tiveram para o Brasil.

Da abertura política, na década de 80, que trouxe a reboque a hiperinflação, ao Governo Lula e o sobrepeso de crédito para o mercado imobiliário, a escalada dos anos são como estágios de uma longa queda, uma contagem regressiva rumo a julho, a um inferno que, como classifica a própria narradora, é “o reino das memórias”.

Ao leitor, cabe testemunhar a potência desse inferno, então.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

Categorias
108ª Leva - 02/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Todos fantasmas: A instrução da noite, de Maurício de Almeida

 Por Rafael Gallo

 

instrucaodanoite

Chego só agora que a noite é alta, Teresa, e os degraus se acumulam desproporcionais e cheios de saliências, deformando-se em espirais da garagem à porta desta casa na qual a chave

(com seus muitíssimos dentes)

não entra, veja, Teresa, veja. Soco a porta com violência para colocar a casa inteira abaixo, apenas a chave no chão rindo de mim numa mandíbula desmontada […]

Assim começa A instrução da noite, romance de Maurício de Almeida, recém-lançado pela Editora Rocco. Estreia do autor na narrativa longa, o livro é sucessor de Beijando dentes, coletânea de contos que lhe valeu o Prêmio Sesc de Literatura, e que traz algumas pequenas joias da literatura recente como Duelo, Cadência e Às quatro e meia da manhã.

Na obra mais recente, tratada aqui, um protagonista-narrador se vê preso a uma realidade familiar e pessoal com a qual não consegue conviver, e da qual tampouco se sente apto a escapar (“esse incômodo no qual fiz morada”), representada principalmente pelo ambiente doméstico. Não à toa, a história se inicia e se encerra com o personagem diante da porta de casa, incapaz de atravessá-la. O lar dilacerado de uma família moderna adquire atmosfera kafkiana, em uma narrativa que tem notável estilo particular, “com uma escrita severa e sincopada, mas também de alto teor poético”, tal qual aponta o escritor e crítico José Castello, na orelha do livro.

Um dos primeiros méritos a se destacar no livro é o de o autor dar conta do imenso desafio de conduzir, por páginas e páginas, um personagem ao mesmo tempo patético e dramático, sem permitir-se resvalar nos dois perigos sempre muito próximos: o sentimentalismo de seu lado dramático ou o deboche de sua faceta patética. Trata-se de um grande desafio para qualquer escritor e Maurício não falha ao conciliar os dois polos, para que eles inclusive se potencializem mutuamente, e não se neutralizem de forma tediosa, como seria fácil acontecer. É um feito admirável de construção textual.

Essa é uma daquelas obras das quais contar a história diz muito pouco, diante do todo. Mas, para efeito do mapeamento necessário, a sinopse poderia ser resumida no seguinte: o pai, que abandonou a família na infância do protagonista e de sua irmã, Teresa, ressurge sem que ninguém esteja preparado e funciona como estopim da crise pessoal do protagonista, da qual o romance capta um relance (não é difícil presumir que a angústia dele vem de muito antes e se estenderá ad nauseum após o fim do relato). Completam o restrito (melhor seria dizer claustrofóbico) elenco de personagens as ainda moradoras da casa: Alice, a namorada, e a mãe da família.

Todos esses personagens atuam como fantasmas (“nós todos fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”), especialmente no sentido de serem ao mesmo tempo presença e ausência. Cada um traz diferentes matizes dessa dualidade e é interessante ver como se configuram suas particularidades. A mãe continuou com os filhos, mora com o protagonista até os dias atuais, mas é absolutamente alheia, impossível de se dar a um contato real, com seu sono e torpor por antidepressivos, seu silêncio e suas miradas ininterruptas à televisão. Alice tem um vasto (e excessivo) universo particular, do qual o protagonista e namorado não participa e pelo qual é intimidado, representado especialmente pelas fotografias que ela tira de si mesma e de outras pessoas. Teresa, a irmã, é a interlocutora imaginária constante, sendo a figura mais “presente” para o protagonista, que, no entanto, está sempre distante dela, no tempo e no espaço. O pai impôs o peso insuportável de sua ausência com o abandono (e a ideia desse abandono é uma grande presença) e, ao regressar, impõe a carga também intolerável de sua proximidade perturbadora. A presença ausente é de todos, pessoas descoladas de seus próprios papéis nos relacionamentos. A incomunicabilidade é uma chave central do livro, e o fato de o protagonista-narrador ter uma verborragia voltada apenas para si mesmo (ou para Teresa, a interlocutora imaginária que ainda não é nada mais que sua esfera solitária), sem verdadeiro contato com os outros, solidifica ainda mais as paredes que cercam os indivíduos da história, fazendo de cada um deles a sua própria casa abandonada.

Em uma das muitas cenas memoráveis do livro, a família se reúne para a primeira refeição com o pai após seu regresso perturbador, e os conflitos calados entre ele e o filho se revelam através de pequenos gestos. O descompasso entre a ação exterior e o universo interno do protagonista, sempre em ebulição, é um dos elementos mais perturbadores do livro. Maurício demonstra, nessas sequências, ser não somente um grande escultor da linguagem, mas também um rico observador e construtor de personagens:

Forjando imponência, observei as mãos dele graves e perdidas sobre a mesa, duas ossudas aranhas armando o bote que realizaram ao bolso da camisa. Os dedos amarelecidos pegaram outro cigarro, mas, dessa vez, ele parecia nervoso

(certamente os sapatos tamborilando o chão)

uma longa tragada irritadiça antes de perguntar novamente com uma voz mais gutural, rouca e seca de nicotina

– tudo bem?

ao tempo em que as pupilas dele se expandiram imensas naqueles olhos pequenos fincados em mim, uma réstia de fumaça lhe contornava o olhar que me diminuía e ao qual me curvei e fugi não sem antes responder num tímido fio de voz

– sim, pai.

 

A casa e a cidade em que moram são também personagens, também fantasmas, cujas caracterizações formam uma sinfonia de significados e expressividade bastante vigorosa. A atual morada da família é uma espécie de corpo desarranjado (“porque conheço a intimidade dos tijolos entremeados por fios tramando em volts os nervos desta casa”; o lar e a escola da infância são buscados, mas estão desfeitos como o passado (“a luminária descabelada sobre a porta em fios ou o zinco do corredor aos pedaços, as coisas transformadas em outras numa impertinência do tempo”); os monumentos urbanos se transfiguram, em impressionantes efeitos de plasticidade e dramaticidade. O melhor exemplo desse recurso é provavelmente a estátua do maestro Carlos Gomes, que ora está “regendo a tarde sob a qual nos sentamos neste bar”, ora “no dolorido silêncio de um câncer pendurado na garganta acenando adeus à orquestra que se afogou sonhando escafandros”, conforme os sentimentos expressionistas do protagonista-narrador. O já mencionado bar, com suas imagens entorpecidas, sua selvageria transcendental, mostra que a escrita de Maurício alcança um nível de elaboração que muitos dos escritores atuais, por vezes cultuados somente por inserir a palavra “bar” ou “boteco” no texto, nem sonham.

Maurício comprova, em A instrução da noite, que falar dele como um dos destaques da nova geração de escritores brasileiros é pouco. É um dos grandes autores em atividade, ponto. A leitura desse romance, tecnicamente primoroso e emocionalmente intenso, deixa o leitor assombrado como poucas obras são capazes.

Rafael Gallo é paulistano, autor do romance Rebentar (Record, 2015) e de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti. Tem ainda contos publicados em diversas antologias, como o eBook Desassosego (Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (FBN, 2013).

Categorias
107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Cinquenta anos em um

 Por Marcos Pasche

 Capa - Alexei Bueno

Por mais que se aponte a heterogeneidade para classificar a poesia contemporânea, é possível verificar que os mecanismos de legitimação social da literatura – as grandes editoras, as feiras do ramo, os prêmios mais badalados, os suplementos jornalísticos e as ementas universitárias – tendem a endossar como representantes do presente autores e obras explicitamente herdeiros do Modernismo (o mais festivo e iconoclasta). Por essa perspectiva, não há razão para ver como “de hoje” um poeta que em 1985 publica um volume intitulado Poemas gregos, que em tudo parece demonstrar uma opção pelo passadismo. Esse poeta é Alexei Bueno.

Mas se olhada de perto, e se o olhar despir-se de preconceitos, a obra de Alexei Bueno se revela densamente moderna, porosa e permeável tanto aos fluidos de cima quanto aos detritos do baixo. E é isso o que se verifica em Poesia Completa, lançada pela ocasião do cinquentenário do autor. A publicação reúne os doze livros de versos que Alexei Bueno publicou e manteve em sua bibliografia, aos quais se somam Cinco fugas cromáticas, volume inédito.

Uma quantidade considerável dos títulos poéticos de Alexei dá mostras do quanto sua arte evoca símbolos de requinte: As escadas da torre, Poemas gregos, A decomposição de Johann Sebastian Bach, Lucernário e A juventude dos deuses indicam o teor de solene ancestralidade que lhe perpassa a escrita. Passando ao interior dos livros, poemas como “Helena”, de Lucernário (1993), confirmam o que os nomes sinalizam:

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pelo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram (p. 279-80).

Entretanto, não deixa de haver na confirmação uma nota dissonante.  Num poeta supostamente passadista, orgulhoso da herança clássica, só é pensável encontrar devoção a essa herança, o que, nos textos, se ratificaria pela total evitação do que pudesse manchar estátuas e templos. Em “Helena”, o discurso é plataforma de uma protagonista mitológica (de uma mitologia protagonista na cultura ocidental), alicerçada em quadras decassilábicas e tomada por carga imagística de alta voltagem. Mas, como se constata em cada uma das suas cinco estrofes, o poema trata do monumento em estado de ruína. Helena, eternizada como a mais bela das mulheres, é apresentada nas duas pontas de seu declínio: uma é a decrepitude do corpo e o fim da vida; a outra, a vida em estado de fim mesmo após a morte, com o choro das sombras dos heróis. Em “Helena”, portanto, o discurso é plataforma de antagonismos: o precioso apuro formal relata o avesso do esplendor, e, por extensão, o poeta, ao revelar uma Helena com destino até então desconhecido, insere na tradição uma sombra corrosiva.

Se em Alexei Bueno há nítida assimilação de matrizes helênicas, há que se perceber em sua poética a forma como se manifesta o homem de uma era desprovida de deuses e amputada de helenismos. Nisso se inscrevem os Poemas gregos, livro em que mimesis e poiesis se dão em proporção equânime. Se nele tudo contribui para que seja percebida convictamente a escrita de um autêntico aedo do período clássico ou helenístico, em nada, porém, deixará de haver indícios de um poeta em particular:

Eu, contrário ao geral dos outros homens,
Muito pouco respeito por vós, deuses,
Tenho, e nem temo que em castigo um raio
………..Divida-me a cabeça (p.180).

 

Aí não reside um protesto unilateral ou mesmo a negação absoluta de concepções culturais consagradas pelos anos. A poesia de Alexei Bueno tem na coexistência de contrários sua carne e seu espírito, dando ao termo “atualidade” um sentido tão amplo quanto intrincado. Se é acertado constatar a inserção que o poeta faz da matéria clássica na poesia atual, não menos correto é apontar a maneira moderna como trabalha elementos ancestrais, inserindo na dicção clássica elementos próprios do homem contemporâneo, “Pois ser um é ser morto” (p. 175), como diz o primeiro dos Poemas gregos. Assim, se a estrutura padronizada foi suporte para a elegia de uma divindade, também o será para a ode “Silvia Saint”, consagrada à tcheca Silvie Tomčalová Stodowa (1976 – ), espécie de Helena pós-moderna, visto ser apresentada em seu site oficial como “the most beautiful pornstar”:

Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.

Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?
(…)

Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta
Deusa auto-entregue à escória.
(…)

Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso (p. 589-90).

 

Ao se radiografar a poesia brasileira atual, é inevitável – e procedente – o diagnóstico de um quadro multifacetado. O receio da rotulação numa camisa-de-força estilística impulsiona os poetas a procurarem caminhos próprios, o que encontra largo respaldo numa época de apelo individualista, como é a presente. Ao lado dos poetas, tem recebido maior prestígio a crítica que, ao visitar o passado, identifica a idiossincrasia em meio à massa convencional. Por extensão, essa crítica age para demonstrar as estreitezas das tomadas de posição grupais, o que chega aos contemporâneos como alerta e impulso a um destino independente, isento de obrigações coletivas. Assim o coro cede vez ao canto solo, e de diversos cantos solos compõe-se o fragmentado repertório geral. Considerando isso, Alexei Bueno empreende um adventício modo de afirmação da contemporaneidade. Se o panorama se faz diversificado pela assembleia (laica) das individualidades, no autor de Os resistentes encontra-se a unidade constituída e potencializada por uma comunhão conflitante e pelo conflito comungante das partes que desejam ser na companhia de suas antíteses.

As sirenes da cartilha politicamente correta têm latejado incautas, e nesse sentido o poeta revela outro modo de pertencimento oponente ao seu tempo (o tempo do marketing ubíquo e das declarações em tudo calculadas). O pronunciamento aberto e ríspido na direção do que repreende não escolhe perfis, e admoesta o que vê como estúpido e espúrio: “Cansei-me dos pobres/ Como antes dos ricos” (p.551), diz o irônico “Humanitarismo”.

A confluência de itens irreconciliáveis também se processa na estruturação textual. Se Alexei Bueno é frequentemente rotulado como “neoconservador”, é porque nele praticamente só se nota a aparência tradicionalista. No entanto, há em sua escrita um sólido entrecruzamento de formas consagradas pela tradição e pela modernidade. Em sua bibliografia, por entre os livros em que a forma fixa é dominante – As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livros dos haicais (1989), Lucernário (1993), Em sonho (1999), A árvore seca (2006) e As desaparições (2009) – apresentam-se outros integralmente compostos com versilibrismo e polirritmia hegemônicos, caso de A decomposição de Johann Sebastian Bach (1989), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Os resistentes (2001) e Cinco fugas cromáticas, trazido ao público com a edição desta Poesia Completa. Nesses volumes, de forte carga simbolista (a estabelecer entre eles evidente conexão), a voz lírica, “Como de uma criança que não se conforma de não ter os mundos” (p. 233), traduz a convulsão de um espírito que, aflito pelos limites da unidade, em tudo se vê e a tudo deseja tocar: “Roçam-se em mim, incontadas, as vidas todas – e as vidas de cada vida –/ Como um turbilhão de pássaros que o vento assopra ao mar queixoso” (p. 391).

A poética de Alexei Bueno opõe-se às diversas maneiras com que a cultura ocidental estabelece segregações acerca do pensar e do ser. Especificamente na era do apogeu tecnológico, a celeridade impõe-se como valor e modelo, e suas ramificações ideológicas alcançam os homens da arte. Potentado último e ubíquo, o mercado dissemina a mensagem da troca imediata e irrefreável, e mesmo na poesia, a barrada no baile das grandes vendas, o tácito decreto se instala e por vezes baralha-se ao lema da originalidade e da renovação. Nesse estado de coisas, não poderia ser outra a (repelente) recepção da poesia que se conecta a um pretérito tão morto quanto ainda enigmático e sabedor de novidades – algumas de caráter duvidoso, a ponto de não despertarem qualquer olhar de surpresa fora dos que as anunciam:

É no passado que caminhamos.
Somos história, somos histórias.
Já faz milênios que aqui passamos
Tais nossas roupas, tais nossas glórias.

Mais que os egípcios, mais que os sumérios,
Num lapso o tempo nos fez distantes.
São língua arcaica vossos ditérios,
Homens modernos. Todo hoje é antes (p. 555).

Mas a poesia é recusa e reação: recupera para a comunidade o que não pode se perder, e pelo já havido reinventa os modos de permanecer e de falar aos homens, convidando-os à evasão e convocando-os à presença. O dizer inaugural se reporta à interpenetração dos tempos, e dá a dimensão ativa do que se mostra estático, pois o isso guarda em si algo de aquilo:

 

Deito-me ao lado da estátua marmórea,
Alva, branca, lavada de alegria,
É a alba, a alvorada, a aurora, o dia,
Que se abre já, desnudo e sem história.

Ela é de hoje, saqueada de memória,
Esta deusa, ela nasce, limpa, fria,
Agora, e, ao lado meu, pura, inicia
O mundo neste alvor, o instante, a glória.

Beijo-a virgem na relva, aqui, a vida,
Só tem hojes, abraço-a, nova, clara,
Secularmente pétrea e ora nascida.

Sorrindo na manhã, gelada, ampara
Meu corpo extático, álgida, estendida
No sempre, no surgir que urge e não para (p. 446).

 

Marcos Pasche é professor adjunto de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e crítico literário, autor de De pedra e de carne (Confraria do Vento, 2012).

 

 

Categorias
107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

O Breve dicionário (poético) do boxe e a alegoria poética de Jorge Elias. Primeiras considerações.

Por Orlando Lopes

 

Capa Breve dicionário (poético) do boxe

 

Preâmbulo: a crítica ainda tem lugar nas lutas contemporâneas?

 

Arriscarei aqui algum juízo a respeito deste Breve dicionário, da poética que ele expressa e da autoria que ele passa a constituir com seu lançamento. Dado que a Poesia – a poesia mais legítima, a poesia autêntica – configura a singularidade de uma teia, de uma constelação de elementos estabelecida por princípios “estéticos”: autorais, composicionais, interpretativos etc., pareceu razoável e necessário o apoio da escrita para pesar, medir, arrazoar sobre o lugar do livro, talvez da obra. E é justa esta razão: como falar (e medir) a escrita, a não ser também pela escrita — esta forma mágica de decantação e progressão do pensamento que o cotidiano nos faz banalizar, mas que é capaz de nos permitir dimensionar ou, ao menos, intuir as potências que a linguagem tem, e que parecem tão distantes do cotidiano das pessoas.

Exercer a crítica não é uma prioridade para mim — que me entendo muito mais como teórico da Literatura que como crítico, historiador, analista etc. Exercer crítica envolve competências, disciplinas e rigores e, sobretudo, uma imperatividade, a disposição para impor um valor. Nesse sentido, direi desde já que não me colocarei a priori como crítico do Dicionário, mas como leitor e, exatamente, como teórico. Claro, não pretendo transformar esta fala num tratado, mas é importante notar que não pretendo afirmar a obra que Jorge Elias termina aqui de parir: pretendo, antes, aprender com ela, como pretenso cientista, como ser humano e como poeta.

Será uma breve nota para o universo de questões que sua poética aponta, mas para o momento acredito que servirá como estímulo e provocação aos futuros leitores. Conheço o Jorge Elias pessoalmente há pouco, mas nem é a fama que o precede, é o seu texto, a sua obra poética, e o seu trabalho, o exercício da Medicina, do qual sou de certo modo beneficiário pessoal, ainda que não (ufa!) direto. E pelo texto, pelo que ele codifica, pelo que ele expressa, acreditei desde a primeira leitura uma “assinatura”, uma autoria, aquilo que foucaltianamente podemos reconhecer como uma “função jurídica”, mas jurídica não no sentido de uma propriedade, uma posse ou mesmo um direito. Jurídica no sentido de uma seriedade, de um comprometimento, de um engajamento que se estende à Literatura, à Poesia, à Escrita.

Lendo seus textos antes de conhecê-lo pessoalmente, essa seriedade autoral me pareceu marcar tudo o que li. Isso não é em si e ainda uma qualidade da composição, do texto “em si” (aliás, o Inferno nunca pareceu estar tão cheio de boas intenções…), mas é um dado a ser considerado pela crítica contemporânea: de que adianta uma “bela letra” se ela não posiciona, se ela não argumenta, se ela não significa? Como no Boxe, o discurso e a realidade são construídos, são esculpidos a golpes e a contragolpes, por meio de hegemonias e de contra-hegemonias que se dão entre as “cordas” desse grande ringue simbólico que são as relações sociais, econômicas e culturais.

Jab, Jab, Direto, Direto, Cruzado, Jab, Clinch, Esquiva, Cruzado, Jab, Jab… Lutar é viver, viver é lutar. Discursar é lutar, lutar é discursar. Discursar é falar, é escrever, é agir. Viver é discursar. A realidade, a nossa realidade, é feita de narrativas, de movimentos, de lances. Lutamos – todos – contra um Inimigo (os Fundamentalistas não estão errados!), mas é difícil saber quem ou onde o Inimigo está: e portanto é difícil medir a força e a mira de nossos próprios movimentos, de nossos próprios lances. O bom boxer deve, antes de tudo, saber contra quem – ou contra o quê – está lutando. Do contrário, não se abolirá o acaso, haverá desgaste, desperdício, e tudo poderá deitar por terra: corremos o risco de ser nocauteados quando menos esperamos.

A poesia de Jorge Elias faz esse exercício, desde antes do Breve dicionário do boxe. Perceber, enquadrar, pinçar; perceber, enquadrar, pinçar… a si mesmo, o outro, a situação. Não racionalmente, não apenas racionalmente, mas buscando aquela polaridade mínima, a imagem, o sentido que faz o texto (no leitor) saltar para o estado de poesia. Esse é o movimento, a passagem crucial a que todo poeta almeja, mas que nem todo poema consegue manifestar: superar os significados e saltar para o sentido por meio do gesto estético, portar o sentido até os demais sujeitos que vivem a mesma história.

 É importante retornar à consideração de que a Poesia não luta apenas no território do poema, da fatura estética. Poesia não é apenas Poesia (ato criativo), ela é também Literatura (um modo de produção) – um laço, uma relação entre as pessoas (autoras, leitoras) no espaço de uma sociedade que se estabelece em torno de um Poema (um objeto de valor, um artefato). Criar nos pede uma luta, circular socialmente nos pede uma luta, significar nos pede uma luta. No mínimo.

A luta da escrita poética é rara entre nós, ainda que se encontrem uns bons tantos de poetas, cada vez mais. Eu sempre insisto com os alunos que venho-tendo a vida-inteira que a escrita não pode (não deve) ser desprezada, tanto porque é uma das formas mais baratas que existem de criação artística e autoterapia garantida, quanto porque ela é o instrumento mais básico de controle social, econômico e cultural que se possa conceber. Falo isso em princípio para tentar dar uma valorizada existencial, afinal a escrita dá essa possibilidade de nos mostrarmos antes de tudo a nós mesmos. Mas a escrita é trabalho, é competência, é responsabilidade. Se a gente não tiver o que dizer, a escrita não vale nada. Se a gente não fizer, não vai ter muita gente que faça (fechado que “todo mundo” está em sua própria carapaça).

O Dicionário de boxe de Jorge Elias traz à baila essa cena: um ringue, um espaço de disputas e seus elementos característicos alegorizados, potencializados pela metáfora. A metáfora decantada, depositada em composições curtas, procurando posições, ângulos, eixos, pesos e contrapesos, equilíbrios. Essa metáfora, ampliada, estende suas figuras para medirmos as nossas próprias lutas. Entremos no livro, calcemos aqueles poemas que melhor se ajustem aos nossos punhos. Usemos os poemas que conseguirmos. (Ouvi soar o gongo.)

Apreciação ao Breve dicionário (poético) do Boxe

Este mais recente livro do poeta Jorge Elias Neto segue confirmando uma obra importante para a vida literária no Espírito Santo (não direi “do Brasil”, que cada canto dele tem seus bons poetas, nós aqui é que temos que resolver melhor os nossos). Desde os Verdes Versos (Flor&Cultura, 2007) até o Breve dicionário (poético) do Boxe (Patuá, 2015), há uma poética se configurando, tomando forma, encontrando seus rumos. Enquadrá-la, encará-la, não é tarefa fácil, nem confortável. Mas, enfim, como se poderia aprender algo útil sobre o Boxe sem ao menos um olho roxo ou uma luxação?

A imagem do Boxe é forte, potente, e se impõe desde a capa elegante de Leonardo Mathias até as ilustrações de Felipe Stefani. Uma vez instalada a imagem do lutador, do ringue, passamos a aguardar o soar do gongo. A dedicatória e a epígrafe, como se fossem um fim de sonho e início de despertar, afloram de uma escuridão, de uma zona de inconsciência. Estamos entre a consciência do Homem e a consciência do Poeta, daquele que termina amanhã e daquele que só termina quando acabar o último Homem. O Boxe e a Poesia não se confundem. O Boxe é físico, intenso, corporal, evidente; a Poesia, enfraquecida, com “falta de musculatura”, talvez só possa dar conta de “florbelas”, de “futuros” que obviamente constituem distâncias, de “leituras escolares” que não precisam comprometer-se com “realidades”, de apagamentos, neutralizações, reduções, perversões etc.

A apresentação de Caê Guimarães, esse outro membro das tribos dos poetas e dos boxers, aponta para esse enquadramento que põe a “nobre arte” do Boxe em seu devido lugar, para nós, poetas e leitores de poesia. O poeta luta pela Poesia, para alcançar Poesia. Nota, edita, corta. Salta, oscila, desarma. Apara, espera, escora: erra e acerta. Chegamos ao livro, chegamos aos poemas, que são verbetes, que são referências ao universo do Boxe: o campo alegórico, a metáfora ampliada. Isto põe e afirma um primeiro traço na obra — ela é conscientemente metalinguística, aponta o reconhecimento de que se pode pensar a Poesia empregando as imagens associadas a uma luta, um esporte, um jogo.

A metalinguagem vem sendo relativizada e criticada na Poesia contemporânea, e é justo alertar aos poetas para que não exagerem no cultivo de seus espelhos e interesses mais imediatos e pessoais; mas é igualmente justo alertar aos críticos que sem a consciência e o exercício da metalinguagem fica mais difícil aos Poetas alcançar uma compreensão da linguagem como um fenômeno pleno. Se não se devem apresentar tantos poemas metalinguísticos em publicações de referência, essa já é uma questão crítica e editorial, não dos Poetas.

Em todo caso, a questão aqui é somente de reconhecer que a metalinguagem se instala desde a base da composição do Breve dicionário do Boxe. Antes de haver “Boxe”, há ali “metalinguagem”, a lente que permitirá a projeção dessa imagem, desse “topos” sobre outros planos, sobre outras situações, sobre outros contextos. E, enfim, há Boxe: uma luta que envolve uma disputa, e uma disputa que envolve um prêmio. Um prêmio que vale a pena, mas que varia na infinitude das projeções metafóricas que consigamos fazer. Quanto mais objetiva a luta, mais claro e óbvio será o prêmio. Quanto mais subjetiva, menos claro – para os demais sujeitos, para as demais pessoas.

Tudo estará certo, e tudo estará tranquilo, se o cálculo corresponder ao prêmio, e se os golpes acertarem o Opositor (seu nome não é “Inimigo”, não no Boxe). Mas não: existem lutas reais, simbólicas e imaginárias, e podemos lutá-las todas simultaneamente sem nem perceber. Aqui, no Dicionário, por exemplo, existe uma luta da Poesia, uma luta da Literatura e uma luta do Poema. Três boxes, três arenas, três disputas. E as três apontam, indiscutivelmente, para o domínio do humano, a dimensão do humano. O Dicionário fala do Boxe para poder falar do Homem. O Boxe é o Homem. Plano, Universo, Continente… Toda a intuição de uma Mitologia, de uma Filosofia se encontra aí, concentrada em figuras, em imagens.

Um homem em particular emerge, a figura de Éder Jofre, o elemento mais humano na condução do livro, quase um personagem, quase um protagonista. Mas, também, pedra-de-toque alegórico. Éder é Brasileiro, pensa como brasileiro, age como brasileiro (embora seja antes latino, argentino). Éder Jofre é mais que Éder Jofre: é o Brasil interpretando o Boxe, dançando o Boxe à sua maneira: de uma aparente simplicidade, cinco movimentos e coisa e tal, uma sucessão de movimentos evolui ponto a ponto, contraponto a contraponto. A questão, implícita, é que o boxe não se faz apenas no ângulo de quem golpeia: é preciso atingir algo que não quer ser atingido, que também quer nos atingir, é preciso gerar impacto, é preciso impor-se, é preciso opor-se. É preciso violência. Latinidad. E pensar em Poesia, em Literatura, em Poema como “espaços de violência” não costuma ser frequente em nossa cultura, em nossa tradição lírica.

Claro, a Literatura tem seus bons e variados exemplos de resistência e de contraposição aos beletrismos. A boa Poesia (certo, certo, definamos “boa Poesia”, mas em outro momento…) não deseja ser ornamento, ela deseja ocupar o pensamento, o sentimento, ganhar esse espaço, vencer essa disputa. Não se trata de oferecer o que o Leitor quer, mas aquilo que ele precisa, aquilo que nós precisamos para não deixarmos de ser humanos. É dessa violência que a boa Poesia trata: aquela que nos dá tapas, dá socos… apenas com imagens, com sequências de palavras, e isso não tem nada a ver com usar palavras agressivas ou cenas escatológicas: o horror pode não ser nada além de um imenso ringue vazio.

O ritmo do boxer não é o do Vale Tudo, nem do UFC. É o ritmo do jazz, do Cronópio, idealista, sensível e até ingênuo – posto que acredita piamente que seu(s) Opositor(es) seguirão fielmente as regras do jogo. Assim como o Boxe parece simples, o dicionário também. Mas o dicionário é apenas o conforto de uma linha mais ou menos reta, a ordem alfabética (que, aliás, não é seguida). Dentro dessas cordas, toda uma luta continua a acontecer, as palavras continuam tensionadas umas contra as outras, gerando imagens, tentando produzir sentidos. Se o dicionário convencional trabalha para ordenar “definições referenciais”, um “dicionário poético” pode operar em outro registro, e no caso deste livro parece haver uma sutil inclinação para o aforismo; um aforismo “fora dos padrões”, um aforismo que não adere por princípio a nenhuma moral já estabelecida, mas pela moral do acontecimento, da situação, da “luta”: essa que se arma no espaço do poema.

Sobre o Livro – o trabalho literário

 

Boa parte dos poemas se operam como haikais: descortinam espaços, definem imagens, configuram situações. Veja-se, por exemplo, a série encontrada entre as páginas 60 e 67 (“Knockdown”, “Knockout duplo”, “Knockout”, “Undefeated”, “Cartel”, “Challenger”, “Bruiser”), na qual as imagens-verbetes fazem a síntese tanto dos elementos do universo boxer quanto de uma perspectiva subjetiva – lírica – que fornece a moldura e o enquadramento, o ângulo e a perspectiva do que me arrisco a definir como “momentos plenos do Boxe” tal como eles se acomodam no Breve dicionário (poético)…

Não necessariamente, as situações manifestam ações. Elas estão lá, mas anguladas, estilizadas. Outro tanto tem contornos narrativos mais definidos. Alguns mais, arriscam-se ao limite do aforisma. No poema do “Prefácio”, como a apresentar as regras aos contendores que chegam, estabelece o poeta que é preciso “entender / o to be” (p. 21), o “(a) ser”, uma das formas ao mesmo tempo mais simples e mais complexas da nossa linhagem idiomática. É preciso entender o “ser” e o “estar”, é preciso entender o “agir” caso o Poeta — e agora o Leitor — queira “exprimir em versos o que / se cultua com punhos” (p. 21). É preciso invocar, evocar, com o auxílio dos oráculos digitais se houver interesse em falar com a urbe, a multidão, a massa humana (e aqui, portanto, não se dirigindo à Pólis, à civis) empregando pequenos artefatos, “poemas / lambe-lambe” que vão entremeando o Dicionário.

Assim o livro vai evoluindo. Os versos, simples jabs, diretos, cruzados, formam móbiles sutis. Assim, por exemplo, o minimal “Boxe” nos impele a considerar que arte é possível com “punhos cerrados” (p. 23), com punhos que tenham pouco ou nada nas mãos. O teto nos impele a considerar que potência, que vigência pode ter essa expressão tão limitada (somente o “punho”, somente a “letra”). Em “Pugilismo” (p. 25), nova constatação: para haver confronto é preciso haver resistência, oponência; para haver sentido, é preciso haver resistência, oponência, aderência, tensão, atrito.

Em outro segmento de poemas, os narrativos, encontramos cifras memoriais e históricas, remetendo ora à história do Boxe, ora à história de seus praticantes. No breve terceto “Luvas” (p. 26) e em “Regras”, que o sucede, temos um vislumbre do processo civilizatório da Inglaterra, berço do moderno Boxe: uma civilização em que a brutalidade não deixa de existir; antes, é estimulada e suavizada, absorvida, integrada na vida social. Se apurarmos os ouvidos, perceberemos em outros lugares sociais os ecos dessa civilidade que vai criando o hábito dos “tapas com luvas de pelica”, a diluição da brutalidade em códigos e etiquetas que por um lado as confina, mas que por outro as mascara nos espaços da vida social.

A alegoria, a metáfora do Boxe vai-se colorindo, encontrando e reencontrando formas e imagens, como a dos galos que se antepõem em “Ringue” (p. 32) e “Sparring (fazer luvas)”, o mítico alter-ego que se oculta em nossas sombras (p. 35) ou o Ouroboros que se oculta no “Corner” (p. 37). Aliás, até os “Rounds” (p. 38) ecoam algo mítico, a épica da batalha e da vitória (e da derrota). Assim o livro prossegue, destacando essa topologia também de forma metonímica, com a “Toalha, / gelo, / vaselina. // Massagem, estímulo, adrenalina” (“Segundos”, p. 53).

Em “Faltas” (p. 58), a metáfora volta a se ampliar como alegoria: o Boxe, entre as lutas, tem regras e limites claros, dentro dos quais “há que se responder / pelas faltas”. Essa constatação estabelece mais uma referência para compreender que lutas, que disputas cabem em seu domínio paralógico, associativo. O Boxe não é uma “luta livre”, ele é circunscrito a um espaço e a um tempo, é mediado por regras, é um “esporte de cavalheiros”, para ser bastante preciso e quase britânico. Só há Boxe quando há cavalheiros, quando há uma Corte e um juízo, quando se aceita que os fatos, os fatos da vida, envolvem as nuances do ganho, do acerto, do prêmio, mas também do erro, da impropriedade, da culpa, do dano, do dolo.

Caminhando para o seu término, o livro registra ainda uma espécie de painel histórico e impressionista, evocando personagens históricos e momentos de uma cronologia pessoalizada e que finalmente projeta os significados do Boxe sobre a ambiência brasileira, nos poemas “Brasil – 1913” (p. 68), “Goes Neto – 1919” (p. 69), “Club Canottiere Esperia” (p. 70), “Ditão – 1924” (p. 71), “Ginásio do Pacaembu – 1940”, “Boxe moderno – década de 50” (p. 74), “Época de ouro – década de 50”, quando reemerge para promover o encerramento com “Éder Jofre” (p. 77), “Servílio de Oliveira” (p. 78), “A obra – Éder Jofre” (p. 79) e “Poema para um pugilista” (82), no qual a alegoria  retorna (“O homem / traz um ringue / dentro de si”) e também o mito trágico que se expressa na obra de Jorge Elias: a do homem, a da humanidade que oscila entre cumprir seus destinos históricos – lutando as lutas verdadeiramente nobres – ou ceder às contingências da vida, aceitar a existência como hábitos e rotinas, no máximo exercícios, muitas vezes plenos e satisfatórios, mas ainda somente e apenas exercícios.

A impressão final que o livro deixa é de que ele dá continuidade ao processo, ao amadurecimento da poética de Jorge Elias. Ainda um exercício, ele aponta questões, revela elementos de estilo, apura uma sensibilidade. Nem todos os poemas alcançam a mesma potência de expressão, algo que talvez leve a alterações e revisões em eventuais futuras edições. Ao fim, e ao cabo, saímos do livro com o semblante entre o sério e o apreensivo, ruminando as imagens do Boxe e deixando-as como moldes, como espelhos singulares em que o leitor pode medir-se e assim, quem sabe, entender-se igualmente como um lutador.

 

Orlando Lopes é poeta, ativista cultural e professor do curso de Letras da Ufes. Publicou Hardcore Blues (1993) e Occidentia (2007). Mantém o blog poético Occidentia.

 

 

Categorias
106ª Leva - 09/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Quando Deus não está olhando

 Por Sérgio Tavares

 

bjonaparede

 

 

Penso que é papel do resenhista analisar um livro onde nem mesmo há literatura. Assim, chama atenção o fato de que, dois anos depois de lançado, “O beijo na parede”, do carioca, radicado em Porto Alegre, Jeferson Tenório, já se achar em sua terceira edição. A despeito da influência (negativa ou positiva) que tal informação carrega, a explicação está exatamente onde há literatura. Tenório resgata, em sua estreia no texto longo, um gênero soterrado nos anos 80: o romance social. Em meio à ditadura do eu, dos enredos autocentrados, autoficcionais, sua trama rebate no outro, no expediente dos desvalidos, daqueles que existem abaixo da linha de visão da soberba. Enquanto a grande maioria dos novos autores brasileiros interioriza seus passos, Tenório caminha mundo afora, pelas vielas do desamparo.

O comando da narrativa cabe a João, um menino de 11 anos “meio precoce”, que, embora puxe uma fieira de desgraças e de mortes, aprendeu que “chorar não resolve muita coisa”, pois, “de uma forma ou de outra, temos sempre que carregar alguma dor”. Depois de perder a mãe de maneira fulminante devido a um câncer desconhecido, tem de viver pelos caminhos tortuosos do pai alcoólatra, pela rotina suja dos bares, na qual a negligência e o desafeto impõem a ferocidade do dia que engole o próximo com fome e sem cerimônia.

Do Rio de Janeiro, então muda-se para Porto Alegre, morando de favor na casa de parentes. A rescindência da embriaguez do pai, no entanto, irrompe conflitos e não tarda a serem expulsos, migrando para um quarto alugado, um “muquifo terrível”, em seguida para uma casa velha. Ali é que, depois de voltar da escola, descobre o pai enforcado e que, a partir daquele instante, não teria “mais tempo para ter infância”.

Passa a contar com a própria sorte, driblando os apuros do abandono com pequenos atos de resistência, até parar num abrigo para crianças. Dessa parte em diante, Tenório filia seu personagem-narrador a uma realidade crua e desesperançosa, antes explorada, na literatura brasileira, pelos olhos de Pixote, de José Louzeiro; Querô, de Plínio Marcos; e Pedro Bala, de Jorge Amado, em “Capitães da areia”.

Diante da orfandade, João vai recompondo sua família com despojos sociais; criaturas solitárias, marginalizadas, cuja vida “é feita para passar sem perceber que já se está vivendo”. Vai morar num cortiço, onde é “adotado” pela prostituta Estela. Lá começa a interagir com o travesti Verônica, a senil dona Dinorah e seu Ramiro, com o qual mais se apega. Do tempo em que seus pais ainda eram vivos, protege o fantasma do amor da mãe e um exemplar de ‘Dom Quixote’, que servia de calço para uma mesa. Nessa saga em busca “do responsável pela fraqueza dos homens”, na qual a percepção por vezes ingênua de mundo ainda conserva um risco de esperança, o velho Ramiro faz o papel de um tipo amargurado de Sancho Pança. ”Deus não gosta dos fracos, João”, sentencia.

De fato, Tenório deixa muito implícito sob essa camada epidérmica, mais dura e fria tal o concreto da parede que beija o narrador, pois “não tem ninguém para amar”. Por detrás desta voz convincentemente infantil, há ferrões pontiagudos que vão cutucando o leitor para questões como o racismo nos estados do Sul, a crença em pequenas epifanias e o descaso do sistema público para com os menores abandonados. “O beijo na parede” concentra uma existência incapaz de produzir heróis, pois também não consegue criar vilões. Quando Deus não está olhando (e me permito também utilizar de metáfora), todos são seres invisíveis.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.