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96ª Leva - 10/2014 Destaques Olhares

Olhares

Nas tessituras do etéreo

Por Fabrício Brandão

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

Por entre as arestas dos dias, há este senhor que apazigua e exalta ânimos. Como num carrossel de cores vivas, são muitas as faces possíveis do misterioso ser que rege as entrelinhas do mundo. Os homens, por vezes, tentam arregimentar ciclos e detê-los nalgum canto da memória esparsa. Há que se reconhecer que a humanidade ainda desconhece tudo que o correr das horas inaugura. Com toda a sua imperiosa fidalguia, é o tempo o senhor daquilo que nos escapa entre os dedos.

O mundo, tal como o vemos, bem que poderia ser subserviente aos nossos caprichos e instintos mais primitivos. Mas não o é. Revela-se mesmo um aglomerado de dissonâncias tão típicas de um organismo que não mais sabe distinguir quais corpos estranhos invadiram-lhe as entranhas. E é bem assim que, mirando paisagens inventadas pelos sentidos, flertamos sobretudo com fantasias, delírios e algumas desejadas doses de amenidades.

Diante das observações postas acima, é possível perceber que encontramos artistas cujo trabalho revela um acentuado gosto por uma zona de intersecção entre o real e outras searas intangíveis aos olhos. Muito dessa sensação está presente na obra do fotógrafo argentino Tomás Casares. Nela, pulsa forte muito mais do que um desejo de apresentar os homens e seus lugares, mas principalmente a ideia de que a arte é capaz de servir como um instrumento de transcendência, através da qual o visível é tido como uma extensão do espírito humano.

É interessante notar como o efeito pretendido pelo criador torna seu trabalho dotado de uma singularidade tamanha. É dessa forma que Tomás nos apresenta o mundo através de suas imagens, fazendo-nos suspeitar que o cotidiano abriga uma viva poesia em seus interstícios. E tal conclusão não é tão simples de elaborar. Há que percebermos que, acima de tudo, estamos a contemplar uma densa e intricada poética dos mistérios, como se a nós fosse dada sempre a perspectiva de questionar convicções.

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

Pelos registros de Tomás Casares, a matéria das coisas e pessoas não é um mero objeto a ocupar lugar no espaço e no tempo. Dela, emanam sentimentos difusos, capazes de vislumbrar uma noção pretendida de unidade. A partir daí, o que o fotógrafo chama de expressão da verdade resulta da harmonização entre o visível e o invisível, todo um ambiente de sensações fortemente marcado por um caráter místico.

Há, por parte de Tomás, um interesse em conceber o homem como um agente ativo de um entendimento deveras sublime: a viagem ao seu interior. Segundo o artista, isso será possível quando tomarmos consciência de nosso processo de liberdade, algo fundamentalmente precedido por uma libertação espiritual. Agindo dessa forma, compreenderíamos melhor a relação entre as coisas, sobretudo as que estão situadas no hiato entre o visível e o invisível.

Quando a arte nos sugere seguir mistérios, suas epifanias não valerão a pena se tentarmos olhar tudo como um incansável fluxo de apreensões exclusivamente racionais. Há que captarmos a distinção crucial entre conhecer e compreender. Há que nos deixemos levar por um delicado e sensível caminho no qual a afirmação das certezas é o que menos importa.

 

 

Tomás Casares
Foto: Tomás Casares

 

 

* As fotografias de Tomás Casares são parte integrante da galeria e dos textos da 96ª Leva

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76ª Leva - 02/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Fernando Sorrentino

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

A lagoa de Cubelli*

 

É a sudoeste da planície de Buenos Aires que se situa a lagoa de Cubelli, familiarmente conhecida como “Laguna do Jacaré Bailarino”. Este nome popular é expressivo e interessante, mas – assim como o dr. Ludwig Boitus demonstrou – não corresponde à realidade.

Em primeiro lugar, “lagoa” e “laguna” são acidentes geográficos distintos. Em segundo, se bem que o jacaré caimã – Caiman yacare (Daudin), da família Alligatoridae – seja próprio da América, acontece que essa lagoa não é, efetivamente, o habitat de nenhuma espécie de jacaré.

Suas águas são extremamente salobras, e tanto sua fauna quanto a flora são típicas daquelas que se desenvolvem no mar, razão pela qual não se pode considerar anormal o fato de que essa lagoa conte com uma população de cerca de 130 crocodilos marinhos.

O “crocodilo marinho” ou Crocodilus porosus (Schneider) é o maior de todos os répteis vivos. Pode chegar a 7 metros de comprimento e pesar mais de uma tonelada. O dr. Boitus afirma ter visto, nas costas da Malásia, vários exemplares que superavam os 9 metros e, com efeito, ele tirou fotografias e trouxe-as com o objetivo de provar a existência de animais desta magnitude. Como eles foram, no entanto, fotografados em águas marinhas e sem pontos externos de referência, tornou-se impossível determinar com precisão se os crocodilos em questão tinham realmente a dimensão que lhes atribui o dr. Boitus. Seria um absurdo, naturalmente, duvidar da palavra de um pesquisador tão criterioso e com tão brilhante trajetória (apesar da linguagem um pouco barroca), mas o rigor científico exige a validação dos fatos segundo métodos inflexíveis, que, nesse caso específico, não foram colocados em prática.

Assim, acontece que os crocodilos da lagoa de Cubelli possuem exatamente todas as características taxonômicas dos que vivem nas águas perto da Índia, da China e da Malásia, razão pela qual, com toda a legitimidade, lhes caberia o taxativo nome de crocodilos marinhos ou Crocodili porosi. Eles apresentam, entretanto, algumas diferenças, que o dr. Boitus dividiu em características morfológicas e características etológicas.

Entre as primeiras, a mais importante (ou, melhor dizendo, a única) é o tamanho. Assim como o crocodilo marinho da Ásia alcança os 7 metros de comprimento, a espécie que encontramos na lagoa de Cubelli apenas atinge, no melhor dos casos, os 2 metros, medindo-se do começo da bocarra até a ponta do rabo.

Com respeito a sua etologia, este tipo de crocodilo, segundo Boitus, “tem uma queda pelos movimentos musicalmente harmônicos” (ou, mais simplesmente, é um “bailarino”, como é chamado pela gente do povoado de Cubelli). É sabido que os crocodilos, quando estão em terra, são tão inofensivos quanto um bando de pombas. Eles só podem caçar e matar dentro da água, que é o seu elemento vital. Apertando a presa entre as mandíbulas cheias de dentes e imprimindo a si mesmos um rápido movimento de rotação, fazem com que essa gire até a morte. Seus dentes não têm uma função mastigatória, são desenhados unicamente para aprisionar a vítima, que engolem inteira.

Se formos até as margens da lagoa de Cubelli e colocarmos em funcionamento um aparelho que toque música, de preferência a escolha recaindo sobre temas dançantes, adequados a um baile, em seguida veremos que – não digamos todos – quase todos os crocodilos sairão da água e, uma vez em terra, começarão a dançar ao compasso da melodia em questão.

Por essas razões anatômicas e comportamentais, esse sáurio recebeu o nome de Crocodilus pusillus saltator (Boitus).

Seus gostos são amplos e ecléticos, e não parecem distinguir entre músicas esteticamente valiosas e outras de méritos escassos. Recebem com igual alegria e boa disposição tanto as composições sinfônicas para balé quanto os ritmos vulgares.

Os crocodilos dançam de pé, apoiando-se apenas nas patas traseiras, de maneira que, verticalmente, atingem uma estatura média de um 1,70 centímetros. Para não arrastar o rabo pelo chão, eles o elevam a um ângulo reto, colocando-o quase paralelo ao corpo. Enquanto isso, as extremidades dianteiras (que bem poderíamos chamar de mãos) seguem o compasso com toda uma série de gestos simpáticos, e seus dentes amarelados mostram um enorme sorriso de otimismo e satisfação.

A algumas pessoas do povoado não atrai absolutamente a ideia de dançar com os crocodilos, mas muitas outras não compartilham dessa rejeição e o certo é que, todos os sábados, ao entardecer, essas últimas se vestem com suas melhores roupas e vão para as margens da lagoa. Nelas, o clube social e esportivo de Cubelli instalou tudo que é necessário para tornar inesquecíveis as reuniões. Os visitantes podem até mesmo jantar em um restaurante que se localiza a poucos metros da pista de dança.

Os braços de um crocodilo são curtos e não alcançam o corpo do parceiro ou parceira. Os cavalheiros e as damas que dançam, segundo o caso, com o crocodilo fêmea ou macho que o escolheu, apoia cada uma de suas mãos em um dos ombros do outro. Para realizar essa operação, convém esticar os braços ao máximo e manter uma certa distância. Como os crocodilos têm um focinho muito pronunciado, a pessoa que dança com eles deve ter a precaução de jogar o corpo para trás, mantendo-se o mais longe possível (se bem que pouco se tem notícia de episódios desagradáveis, tais como extirpação de nariz, esmagamento de globo ocular ou decapitação). E também não se deve esquecer de que, como entre os seus dentes podem ser encontrados restos de cadáveres, seu hálito deixa muito a desejar.

Entre os cubelianos corre uma lenda que diz que na pequena ilha situada no meio da lagoa moram o rei e a rainha dos crocodilos, de onde, segundo parece, eles jamais saíram. Comenta-se que esses exemplares já ultrapassaram os 2 séculos de vida e, talvez por causa da idade avançada, ou mesmo por mero capricho, jamais desejaram participar dos bailes promovidos pelo clube.

As reuniões não costumam passar da meia noite, porque, nessa hora, os crocodilos começam a ficar cansados e talvez mesmo a se aborrecer. Além do mais, é a hora da fome e, posto que o acesso ao restaurante lhes é vedado, devem voltar para a água em busca de comida.

Quando chega o momento em que não resta mais nenhum crocodilo em terra firme, as damas e cavalheiros retornam ao vilarejo bastante cansados, e um pouco tristes, mas com a esperança de que, quem sabe no próximo baile, ou em outro dia qualquer, mesmo que distante, o rei ou a rainha dos crocodilos, ou talvez mesmo ambos, simultaneamente, abandonem por algumas horas a ilhota central e participem da festa. É com essa expectativa que cada cavalheiro, ainda que não o demonstre, guarda a ilusão de que será escolhido como parceiro de dança da rainha dos crocodilos. O mesmo acontece com as damas, que sonham ser o par do rei.

* Tradução: Regina Drummond (regina-drummond@uol.com.br)

(Fernando Sorrentino nasceu em Buenos Aires. É professor de Língua e Literatura e tem publicados livros de contos, novelas, infanto-juvenis, ensaios e antologias. Colaborou com jornais e revistas diversos e atuou como tradutor de livros de ficção e entrevistas)

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Medianeras (Medianeras – Buenos Aires en la era del Amor Virtual). Argentina/Espanha/Alemanha. 2011.

 

“A Internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”.

Como não soar clichê num drama romântico em tempos de arrobas? Pergunte a Gustavo Taretto. Escrita e dirigida por este argentino estreante em longas-metragens, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, é o desdobramento de um curta idealizado pelo cineasta em 2005. Apesar do subtítulo provinciano e desnecessário, o filme é de uma universalidade singular. A temática não é o sentido do amor em si e tampouco o revés tecnológico, mas a solidão paralisante de jovens adultos que julgam já ter provado sua cota de desencontros e de ‘para sempre’ via chat ou sms. A mesma geração de amores delivery, velozes e ambulantes, que discam M para matar a fome de amar, vegetam aqui no jejum da sozinhez.

Martin (Javier Drolas) é um metódico e recluso web-designer, aficionado por games e compras virtuais. Sua verdadeira ligação com a vida real é Susú, cachorrinha herdada do relacionamento com a ex-namorada americana que voltou para sua pátria mãe. Mariana (Pilar López de Ayala) é uma arquiteta com fobia de elevadores. Ganha a vida como vitrinista, talvez por identificar-se com o silêncio e inércia dos manequins que produz, sobretudo desde que rompeu uma relação de quatro anos. Martin e Mariana moram na mesma rua, mas sequer se conhecem. Estão separados por suas respectivas medianeras, aquela parede lateral cega do edifício, inútil, destinada à publicidade ou que fica simplesmente esquecida, ‘como a sujeira que escondemos embaixo do tapete’.

O roteiro é altamente sagaz, humano e divertido e atinge seu ápice nas reflexões dos protagonistas sobre os relacionamentos e a vida. Momentos como quando Martin culpa a arquitetura por todos os seus infortúnios, compara um encontro a um lanche do Mc Donald’s ou faz uma análise nerd da atualidade (há algo mais desolador no século XXI que não ter nenhum e-mail na caixa de entrada?); e quando Mariana afirma que a busca de um amor é mais complexa que encontrar Wally, o enigmático personagem de camiseta listrada do ilustrador Martin Handford (‘se, mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo achar, como vou achar quem eu procuro se nem sei como é?’).

Tal qual seu hermano O Homem ao Lado (2009), a arquitetura aparece como um terceiro protagonista e elemento fundamental para a trama. Ambos os filmes exploram a diversidade arquitetônica de Buenos Aires para justificar todos nossos males, sejam eles sociais ou pessoais, as irregularidades estéticas e éticas da cidade e do ser humano. E estas pequenas aberturas feitas nas medianeras em busca de “un poquito del sol”, mais que fendas solares ou frestas de ventilação, servem como consolo – ainda que provisório – a nossa própria falta de planejamento emocional. E na prática portenha, em casos mais graves, motivo de disputas judiciais. Afinal, ‘o que se pode esperar de uma cidade que dá as costas para o seu rio?’, critica Martin em determinado ponto.

Reais ou virtuais, o fato é que as ventanas sempre serviram para nos aproximar de algo, seja dos boatos cotidianos do quarteirão, do universo paralelo de Bill Gates ou do chat mais próximo. E cá da janela, eu me pergunto: onde está mesmo Wally?

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)