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149ª Leva - 04/2022 Destaques Olhares

Olhares

Sobre o que transborda

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nas paisagens que vão por dentro, habita uma aurora de sensações. São cenários que movimentam paixões dispersas pela vida. Observações que brotam do que há de mais genuíno quando a viagem a ser feita é totalmente aquela que atravessa o painel das interioridades do ser. Nesse mergulhar fundo, a imersão traz vestígios das passagens por momentos dos mais diversos e faz com que a memória seja uma disseminadora de rastros afetivos.

É uma travessia em que o artista volta com um legado de capturas nas mãos. Como se não bastasse, sabe reverter isso a favor de sua criação. Difícil não levar em consideração os mergulhos que alguém como Drika Prates empreende com sua arte. São ilustrações que operam no continuum entre o dentro e o fora, tornando possível a coexistência entre tais dimensões. Durante a sua abissal incursão, não sentimos ali a contraposição entre as porções internas e externas do ser que a tudo observa com seus olhares atentos.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Drika é, antes de mais nada, aquela que no engenho de seu ofício transborda as pulsações interiores da condição humana. O resultado disso é a materialização das zonas de percepção mais oníricas e abstratas possíveis em favor de uma arte que se afigura poeticamente desperta. Assim, vão ganhando forma sentimentos, corpos e espaços diante do tão almejado ideal de verdade propalado por todos os cantos. Ao que parece, buscar a tal verdade das coisas seria mesmo uma luta vã e não é sobre essa procura que se apoia a arte de Drika. Nela, importa muito mais saber que as modelagens que constroem suas ilustrações são movidas pelo desejo pleno do existir, essa maquinação mental capaz de harmonizar os mais dignos contrastes da nossa experiência como seres tão contraditórios que somos.

Entre o afago e as durezas do caminho, as representações de mundo engendradas aqui vão além desse gesto que extravasa interiores e os põe ali, na linha de frente com o externo. E é certo que as dualidades do ser também estão na ordem do dia quando pensamos o trabalho de Drika. Mas talvez isso não roube tanto a cena quanto a capacidade sensível que a artista tem de ressignificar os corpos femininos segundo uma ótica alimentada pelos desígnios da delicadeza. Esse mesmo feminino é moldado como um imenso e variado panteão de libertações, através do qual o ideal de amor-próprio e o gesto afirmativo diante de um mundo que dizima mulheres em todos os sentidos se consolida como uma ferramenta crucial de resistência.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Atuando com design gráfico e ilustração, Drika Prates também se diz inspirada em primazia pelas formas da natureza. E não seria prematuro concluir que muitos de seus trabalhos artísticos contemplam essa fusão entre as humanidades e a natureza. Quando o assunto é falar de si num sentido de definição, a artista nos revela que não poderia ser tomada objetivamente ou de modo deveras óbvio. Prefere ser como um alguém que, assim como outras pessoas, é portadora de interesses múltiplos, humores e projetos. E aqui, pelo que sua arte sugere, tomamos a liberdade de incluir nesse rol também outra faceta para ela, a de pessoa sonhadora.

Com sensibilidade aguçada, um dos lemas da artista é deixar que a vida siga seu fluxo sem que se possa prever o resultado dos caminhos. Quiçá tal forma de pensar seja a chave para que, por meio dos profundos mergulhos de vida, sua arte ganhe um arcabouço estético que se prolongue no tempo. Quanto a nós, apreciadores dos trajetos aqui propostos, caberá a insondável tarefa de nos deixarmos tomar pelas alamedas revigoradas do inexplicável.

 

Ilustração: Drika Prates

 

* As ilustrações de Drika Prates são parte integrante da galeria e dos textos da 149ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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147ª Leva - 02/2022 Ciceroneando

Ciceroneando

Ilustração: Bianca Grassi

 

Temos presenciado dias conturbados em nosso planeta. Não bastasse o inimigo mortal e invisível que nos faz companhia desde o principiar de 2020, vamos colecionando tragédias cotidianamente, todas elas marcadas pela insana aptidão humana para a destruição em seus mais variados níveis. Assim, aniquila-se a natureza no mesmo compasso em que eliminamos os nossos iguais pelo gesto irracional da barbárie. O despertar de uma guerra nos relembra nossas mesquinharias mais comezinhas, truculento desejo de dominar o outro por razões esmaecidas. Questão que se impõe é como faremos para descontaminar o nosso caminhar sobre o mundo, agindo num movimento contrário à perspectiva de desolação que sempre teima em aparecer no horizonte quando as crises se mostram cíclicas e persistentes. Há espaço para a libertação das consciências e, assim, para o cultivo de alternativas otimistas? Por certo, a resposta está em nossas mãos, não necessariamente sob nosso pretenso e inteiriço controle. Quiçá os instrumentos da Arte possam nos guiar nessa tarefa longa de reconstrução e ressignificação da nossa história sobre a Terra. E estamos aqui a falar de Arte como potência criadora que não se aparta em momento algum da realidade, seus matizes políticos, econômicos e sociais. Portanto, autores e artistas não estão dissociados do debate maior sobre o seu tempo, da tentativa de compreensão dos fenômenos que afetam nossas humanidades de forma contundente e inalienável. Não se usa camisa de força para tal, o gesto nos pertence por natureza. Diante de um mundo que nos aplica doses constantes de assombro, é bom testemunharmos, por exemplo, o pensamento de um criador como Alex Simões, poeta e performer que é o nosso entrevistado da vez e cuja obra propõe um diálogo com os temas sensíveis de nossa atualidade. Numa linha semelhante, nos deparamos com as ilustrações de Bianca Grassi, as quais nos fazem companhia por todos os recantos de nossa nova edição. São de Kleber Lima, Clarissa Macedo, Elton Uliana, Manuella Bezerra de Melo e Priscila Branco as janelas poéticas que nos ofertam versos pungentes. Foi também pensando questões atinentes ao mundo que nos perturba que Guilherme Preger escolheu para sua análise o filme romeno “Má sorte no sexo ou pornô acidental”, do diretor Radu Jude. Não foi diferente com Larissa Mendes que, ao trazer à tona sua resenha sobre “Preto Sem Acúcar”, novo disco da banda OQuadro, reflete sobre as marcas raciais entranhadas em nossa sociedade, dentre outros temas. Em seu texto sobre “Os vivos (?) e os mortos”, emblemático livro de poemas de Fernando Monteiro, Sandro Ornellas expõe o delicado testemunho que a memória atroz da ditadura militar brasileira evidencia. Nos contos de Susana Fuentes, Adriano B. Espíndola Santos e Ianê Mello, o traçado sensível da vida insiste em se manifestar. É Vinicius de Oliveira quem nos apresenta “Levante”, livro do poeta Henrique Marques Samyn e que evoca a marcante história do povo negro no diapasão África-Brasil. É com grande satisfação que apresentamos aos nossos leitores a 147ª Leva da Diversos Afins. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Olhares

Olhares

A pulsação do intangível

 Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

O mundo e suas esferas possíveis. Fluxos do que vai por dentro e por fora de nossas perspectivas. Na confluência entre o duo interno/externo, sensações das mais abstratas assumem contornos de visibilidade pela materialização do gesto artístico. E ser artista, bem no meio do turbilhão nosso de cada dia, pode ser um ato de transformação de horizontes. É converter, por exemplo, o aborrecido em poesia.

Num certo sentido, o olhar do artista sobre a paisagem mundana revela opções que nos sugerem atravessamentos. Esse estar-se atravessado fala de como as complexidades humanas são capazes de afetar a visão de quem cria, pois é praticamente impossível não se levar em conta o quanto os nossos sentimentos e ímpetos orientam a dinâmica da vida que engendramos enquanto seres pensantes.

Observar o trabalho de Bianca Grassi é pensar também no quanto essas complexidades que se revelam na condição humana são eixos fundamentais a mover a Arte. Em suas ilustrações, a artista evoca sensações que dissolvem as formas convencionais de representação do humano. Em lugar de corpos e faces definidos num mar de expectativas tradicionais, vemos a matéria alongada dos seres, envoltos em proporções agigantadas, disformes, verdadeiro agregado de sintomas das perturbações que nos assomam na travessia dos dias sobre a Terra.

Mas o redimensionamento das formas proposto na arte de Bianca não parece ser uma mera escolha estética. Diz muito sobre como as experiências aqui vividas por todos nós mobilizam inquietudes, posto que estar no mundo é ato constante de alteração dos estados de existência, ou seja, é prover as mudanças do ser, de modo voluntário ou não.

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

O humano em Bianca Grassi é confrontado quando se mira no espelho. Nesse enfrentamento, irrompem espantos, medos, estranhamentos, dores e prazeres, fazendo-nos lembrar a todo instante que viver é um flerte incessante com a consequência dos caminhos escolhidos. Nesse trajeto, a ilustradora traz à baila o ímpeto da provocação, estímulo que ora nos desnorteia pelo desamparo de algumas imagens ora nos une pela sugestão de que não compreendemos a mínima parte do mistério que é o existir.

Autodidata, Bianca mescla diferentes técnicas como nanquim, carvão e aquarela, transpondo-as para o digital. Nesse ínterim, busca comunicar muito daquilo que está imerso no emaranhado cotidiano. Como ela mesma nos confessa, sua arte está voltada para reflexões sobre o indivíduo, as relações humanas e a sobrevivência do efêmero diante das dores do mundo. A artista também se dedica ao design e à literatura, tendo poemas e contos publicados em espaços e coletâneas digitais.

Na via que demanda a abordagem sobre as emoções humanas, as ilustrações de Bianca Grassi estão situadas num eixo marcantemente filosófico, posto que simbolizam incertezas do nosso caminhar, dúvidas que se manifestam sob a forma de indagações na miríade de sentimentos expostos. Nesse colossal painel de humanidades, imergimos nas profundezas, retirando dali vestígios do que outrora fomos, além de memórias desejosas de um porvir. Ao fim e ao cabo, somos o corpo de escrituras vivas, inserindo em nossa sina a marca portentosa da imprevisibilidade do ser.

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

* As ilustrações de Bianca Grassi são parte integrante da galeria e dos textos da 147ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.

 

 

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143ª Leva - 03/2021 Destaques Olhares

Olhares

Do tempo que não coagula

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

O mundo e seus sinais. Gestos por todas as direções apontam um pouco do que somos, esse misto de espanto e estranhamento no terreno desavisado das descobertas. O vento carrega tudo, desacomoda poeiras, certezas e segue seu curso de transformações. Somos esquina quando divisamos um rumo e outro das escolhas a serem sentidas e executadas. Somos substância fluida, tal como águas que apontam sempre para a mudança, ainda que esta se manifeste à revelia de nossos desejos mais profundos.

A ideia de se estar vivo vem como sopro que atravessa bem mais que o organismo que possuímos. O corpo, por si só, é expansão, morada que projeta a liquidez do sonho ante a visibilidade e concretude da matéria. Cada passo dado é sintoma da consciência, muitas vezes submersa em razões imprecisas. E o que pode a arte diante dos nossos lampejos e arroubos existenciais?

Tentar achar respostas parece não ser tarefa que esgote as possibilidades. É olhar para todas as direções e também para o que está em nossos arredores e perceber ali correspondências com o que pulsa dentro de nós. A arte se materializa a partir de um estado de atenção sobre as coisas, o mundo e seus fenômenos. É esse tipo de percepção que atravessa o trabalho de Marjorie Duarte, artista que ressignifica o caos interior a ponto de forjar a partir dele condições de produção.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Falar do caos que assoma alguém é também perceber que um novo sentido é dado às coisas e situações. Um turbilhão, quando não paralisa, conduz à aparição de outros rumos. E foi justamente esse tipo de movimento que norteou a trajetória artística de Marjorie. Sob o ponto de vista das tensões urbanas, o motor da ansiedade foi capaz de fazer com que, por exemplo, a artista desse azo à invenção de uma personagem muito cara em seus trabalhos, a menina-mulher Síndrome.

Um olhar detido em Síndrome parece nos revelar que sua materialização em imagens vem constituída por um conjunto de sensações que transbordam os desdobramentos do real. Ela é, então, a porta-voz de uma existência inquietante e crítica, mas também o reflexo da busca de uma ternura enevoada pelos desafios da vida prática. E a saída para as tensões da personagem é pensada por Marjorie através dos usos poéticos que a autora não abre mão de utilizar.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Em Marjorie Duarte, a imagem é vontade da palavra e vice-versa. Na interface entre desenhos, textos e colagens, a artista remonta a seu modo os fragmentos de um mundo acelerado, prenhe de verbos que saltam aos olhos pela urgência em comunicar. Seja na conjunção de frases ou na solidão das palavras, o imperativo de dizer algo sobre o ato espantado de existir é gênero de primeira necessidade para a ilustradora. E tal gesto se abriga na poesia dispersa da vida, condição de olhar a tudo com a avidez da descoberta.

Professora de Literatura e Artes no ensino fundamental, Marjorie também se dedica a ilustrar livros. Adepta do que chama de pensamento acelerado, que é esse estar perceptível ao instante, ela abraça a tudo com o ímpeto de agarrar o presente e aquilo mais que tal investida pode gerar. E deixar o agora se esvair pelos desvãos da memória parece uma perda incalculável para a criadora. Nessa dinâmica de uma atenção permanente aos sintomas do mundo, verdadeira recusa em dissipar o laço com a vida, o compromisso com a arte é exercício que revela um extremo teor de sensibilidade,  epifania com causa pungente que abriga as paisagens mais íntimas da artista.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

* As ilustrações de Marjorie Duarte são parte integrante da galeria e dos textos da 143ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Olhares

Olhares

Esses insondáveis olhos que nos miram

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A Arte não é apenas esse complexo de possibilidades, concretudes e experiências que se prestam ao território de uma já tão costumeira e reduzida noção de entretenimento. E talvez esse discurso visa reduzir o real impacto que o ofício artístico pode representar para quem se digna a produzir seus conteúdos. Ao lado disso, há a necessidade de percebermos que o artista é, para além de seus gestos humanamente transformadores e contemplativos, um alguém que vive do seu labor, um trabalhador que também oferta seus produtos e precisa se manter profissionalmente dentro de uma determinada lógica de sobrevivência.

Essa discussão toda acaba trazendo à tona o próprio valor que atribuímos aos bens culturais. E fica a questão: por qual razão ainda tomamos a Cultura como algo secundário numa sociedade que demanda sempre pautas urgentes? Indo mais além, por que a seara cultural não seria um gênero de primeira necessidade em nossas prateleiras pessoais? Talvez nos falte informação ou, melhor dizendo, educação suficiente para que consolidemos a Cultura num amplo nível de aceitação social.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Mas por que levantar todas essas questões num texto que se dedica a destinar olhares sobre uma artista em especial? A melhor resposta talvez seja considerar que, assim como poderia ocorrer com qualquer outro ramo de atividade profissional, as escolhas e o poder do chamamento pessoal influenciam e mudam rumos. Foi o que aconteceu com Ana Luiza Tavares, que, ao longo de anos consideráveis, viu-se dividida entre as feições de dentista e artista plástica. Ela confessa que, numa certa altura de sua vida, chegou a se afastar da arte por dilemas atinentes à subsistência financeira, chegando a colocar em xeque a própria vocação artística.

Para nossa satisfação e descoberta, o tempo, este senhor que também atenua fardos, foi capaz de apresentar a Ana Luiza caminhos de permanência pelas vias artísticas. Hoje, sua arte coexiste com a ainda trajetória de odontóloga, mas de modo mais firme, decisão que certamente redimensionou sua vida a patamares nítidos de realização pessoal.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A seu modo, os desenhos de Ana Luiza Tavares rendem especiais visitas a um universo feminino que sabe a territórios de delicadeza e força. Nesse ínterim, chama especial atenção o emprego das cores, pois estas representam um verdadeiro termômetro de sensações aplicadas às personagens que nos são apresentadas. Cada tom utilizado traduz a performance feminina diante dos mais distintos cenários mundanos, condição tal que pode refletir tanto serenidades quanto inquietudes.

Flertando com elementos poéticos, dos quais a síntese se destaca, Ana Luiza condensa imageticamente sentimentos que pulsam na intimidade humana. Dessa maneira, percebemos alguns de seus desenhos comunicando e reunindo, a um só tempo, temas como o silêncio e o recolhimento, gestos tão necessários em meio ao turbilhão contemporâneo a que somos submetidos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A artista, nascida em Salvador, vive no Rio de Janeiro há cinco anos. Desde muito pequena, testemunhou no seio de sua família a presença ativa da arte, pois sua mãe é ceramista e seu pai um geólogo aficionado por artes plásticas, literatura e música. Quando retomou seu ofício artístico, Ana viu as coisas acontecerem numa velocidade que nem supunha pudessem ocorrer. Conseguiu impulsionar sua carreira de ilustradora, passando a divulgar e comercializar suas obras tanto nas bandas virtuais quanto em espaços físicos no Rio.

Há o algo que se destaca na expressão facial das mulheres dispostas nos desenhos da artista. É como se cada gesto, cada olhar em particular, nos despertasse para contextos peculiares de contemplação e reflexão, sugerindo mergulhos ensimesmados e nem sempre leves de assunção. Aliás, dizer do que somos também denota um infindável complexo de narrativas marcadas por tensões de natureza múltipla. Seja na via de um clamor profundo ou na transmissão de um simples encantamento com a vida, as mulheres de Ana Luiza Tavares olham bem dentro nos nossos olhos, ofertando-nos possivelmente um banquete de estranhamentos e espantos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

* As ilustrações de Ana Luiza Tavares são parte integrante da galeria e dos textos da 135ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Olhares

Olhares

A reinvenção do humano em Canato

Por Fabrício Brandão

 

Pintura: Canato

 

Revisito os arquivos do tempo e chego até o ano de 2008. Na ocasião, pude me deparar, pela primeira vez, com as pinturas de Cláudio Canato, artista plástico paulista. Mas esse seria apenas um mero relato de uma descoberta não fosse o impacto que as obras do artista causaram em mim àquela época. Chamava atenção naquele momento o modo como o artista reproduzia as formas humanas, deixando entrever a naturalidade de gestos e expressões das figuras retratadas.

Foi, então, que promovemos na Leva 21 uma pequena exposição com alguns trabalhos de Canato. Era possível perceber ali que havia toda uma peculiar forma de se lidar com as construções figurativas do humano. E como o próprio artista sustenta, ele desenvolveu uma maneira própria de pensar a representação humana em suas pinturas, engendrando um modo de conceber pessoas como resultado direto de sua imaginação, ou seja, sem o uso de modelos como ponto de partida para a criação. O especial nessa atmosfera criativa é pensar que a obra de arte eclode a partir do âmago de quem a cria, dinamismo de epifanias interiores.

Canato não nega o mundo. Ainda que seus corpos e rostos sejam marcados pelo traço inaugural da descoberta, há uma comunhão com signos universais de nossa existência. Por não negligenciar aquilo que também somos enquanto espécie, o artista em questão ressignifica as experiências humanas a seu modo.

 

Pintura: Canato

 

A anatomia do corpo tem seu idioma específico no conjunto da obra desse paulistano. São contornos e formas que exalam tensões da natureza humana, revelando também contrastes entre a celebração do gozo das vivências e os embates questionadores da nossa jornada. Mas eis que o corpo, em sutis jogos de luz e sombra, é pensado pelo artista como algo sacralizado não por constituir matéria de perfeição idealizada dos homens, mas como o próprio retrato da dualidade e das oposições entre o físico e a aspiração espiritual. A despeito disso, estão os murais pintados por ele, bem como as obras que compõem tetos de algumas capelas em São Paulo.

Há uma diversidade de possibilidades nas frentes que o artista atua. São exemplo disso não apenas os murais e capelas já mencionados, mas também retratos, desenhos, séries e um olhar voltado para a literatura infantil, na qual Canato ilustra e redige textos de alguns livros. No que tange aos murais, há um em específico que vem se destacando como um dos trabalhos mais significativos do artista na atualidade. Trata-se de “El Quijote”, que foi pintado no Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo. A importância dessa obra certamente está no modo como, num ambiente escolar, a arte se insere de maneira natural na construção do saber, instigando a curiosidade dos alunos não apenas em torno do processo criativo, mas da temática abordada.

Mesmo tendo sido influenciado por componentes estéticos advindos, por exemplo, de movimentos como o Renascimento e o Barroco, Canato não abre mão de pavimentar seu próprio caminho no quesito criação. Para tanto, promove seus mergulhos pessoais nos temas pensados, retirando deles construções que advogam pelo exercício de sua individualidade artística. É de se considerar que rupturas com o passado não são obsessões do artista, tampouco constituem alguma espécie de peso. Com leveza e percebendo seus chamamentos interiores, Canato ressignifica o humano com aquilo que tem de melhor, sua assinatura.

 

Pintura: Canato

 

* As pinturas de Canato são parte integrante da galeria e dos textos da 133ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Olhares

Olhares

O enraizamento das formas em Bianca Lana

 Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Constantemente atravessados pela urgência exterior do mundo, somos atingidos pelo excesso das aparências. Quando definimos um objeto, tentamos primeiramente buscar referências anteriores dentro daquilo que habita o plano mental, algo determinado por uma tradição pretérita que avança no tempo. Muitas coisas, quando tomadas por um sentido de percepção material, remontam a significados construídos por elaborações já estabelecidas, delimitando ou até mesmo restringindo as possibilidades de interpretação em torno delas.

Sob o manto visível das composições figurativas, há muito mais do que uma mera acepção plástica dos temas representados. Entendendo a arte como uma ferramenta que desvela fronteiras, desconfiamos que a exterioridade não apenas de objetos, mas também de pessoas, funciona como uma via de acesso a uma outra dimensão, condição que abriga um conteúdo de caráter intangível por natureza.  Comportando-se como uma ponte entre dois mundos, o ambiente das formas aparentes prenuncia de algum modo o que está encerrado em seu interior.

Quando um artista percebe esse lugar como uma zona de transição, e não como algo fixo, intransponível e estanque, o resultado é impactante.  E o que mais chama atenção nesse momento de descoberta é entender que a visão do criador é capaz de superar determinismos do olhar. É um ir além do aspecto físico e, portanto, inicial das experiências. Movimento de se deixar invadir pela dimensão intrínseca de seres, coisas e lugares.

E assim o faz gente como a artista plástica Bianca Lana, que, apostando numa densa imersão nas mais variadas expressões humanas, faz dos seus trabalhos visuais algo pungente. Em suas linhas, cores e formas, Bianca ousa sondar territórios intimistas e que trazem em si uma minuciosa noção de profundidade do olhar. Sua arte está fundamentalmente voltada para a essência da condição humana.

 

Ilustração: Bianca Lana

Em seus desenhos, pinturas e ilustrações, predomina uma perspectiva de se conceber o que está além do ordenamento físico das coisas. É quando Bianca nos propõe um corte profundo na superfície que reveste a face dos homens. Fazendo uso desse viés, suas investidas assemelham-se a um momento de contemplação visceral, um desnudar das formas apontando para a revelação nem sempre sublime dos sentimentos.

Influenciada por nomes como Adara Sánchez, Agnes Cecile, Tonny Tavares e Nestor Jr., Bianca Lana prima pela utilização de aquarela, tinta acrílica e técnica de pontilhismo com nanquim. Em sua ainda breve trajetória, já integrou tanto exposições individuais quanto coletivas.

De modo confessional, Bianca sustenta que sua arte, além de evidenciar aspectos simbólicos, intenta representar um painel de angústias inerentes ao ser humano. Nesse vasto e complexo ambiente, seus mergulhos criativos estão direcionados para uma valorização das interioridades. E é com essa característica que lhe é peculiar que a jovem artista paulista faz do seu ofício um salto para o mistério, sobretudo se pudermos atestar que nossa existência é uma espécie de trajeto rumo ao desconhecido.

Aquilo que abrigamos na raiz de nossas individualidades costuma encerrar uma multiplicidade de sentidos. Todos eles podendo encontrar terreno fértil diante da atmosfera intangível que permeia nossas construções de mundo. Há muito por ser descoberto dentro de nós mesmos e é tão precioso quando um artista nos incita a tamanha constatação.

Ilustração: Bianca Lana

*As ilustrações de Bianca Lana fazem parte da galeria e dos textos da 117ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

 

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101ª Leva - 04/2015 Destaques Olhares

Olhares

Um estrangeiro e íntimo caos

Por Fabrício Brandão

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Se o mundo é tal como o vemos, então muito ou quase tudo pode ser reinventado com os ingredientes de cada olhar. Definir, com precisão, se uma quantidade infindável de coisas pode ser relativizada frente aos repertórios que as atravessam é humanamente impossível. Melhor mesmo é deixar que cada artista exponha sua marca nesse ambiente vasto e tresloucado ao qual chamamos de realidade.

Diante das possibilidades de se representar o mundo no qual habitamos por empréstimo, a concretude das coisas pode curiosamente estar bem harmonizada com a múltipla capacidade de abstração. É como se o caráter físico e, portanto, palpável da vida fosse apenas uma camada a revestir o intangível. Então, vem a pergunta: quantas fronteiras existem entre o vivido e o inventado?

A resposta fica por conta de cada um, se é que ela existe. No entanto, parece plenamente possível a um criador modelar a realidade de forma a obter dela entradas e saídas. Em se tratando dos desenhos de Victor Hugo de Azevedo Macêdo, ou simplesmente Victor H. Azevedo, os acessos lembram-nos que vislumbrar o real é fazer um pacto constante com a transformação.

Metamorfoseando a realidade em distintos recortes, Victor vai saciar sua sede na fonte do caos que simultaneamente ordena e embaralha o mundo. Abraçado a uma perspectiva de manipulação das formas, o artista consegue fazer da sua existência uma reprodução da inquietude. Nesse ínterim, a vida que o circunda mostra suas faces dispersas pelo nonsense, certa dose de ironia e por alguma acidez dos dias.

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

No plano do discurso, a arte do jovem potiguar também comunica pelo inconformismo, o que significa dizer que nem tudo o que o mundo oferece a Victor ele está disposto a aceitar sem que haja, no mínimo, algum filtro. Prova disso está no modo como ele posiciona a condição humana diante de temas como a solidão e os efeitos advindos da modernidade.

Quando os sentimentos que reproduzem seu tempo não são capazes de minar as barreiras aparentes, Victor flerta com o realismo fantástico. Entretanto, essa atitude não implica em fuga, mas numa constatação de que ao mundo ainda é possível a criação de outros tantos sentidos.

Nascido em Natal, Rio Grande do Norte, Victor H. Azevedo publicou vários zines, dentre os quais doze canções, fábrica de flores e O amor é simples. Além disso, também se dedica à poesia e aos quadrinhos.

Victor é porta-voz de uma manifestação que busca no externo a sua razão de ser. Com todas as nuances intrínsecas que se possa conceber, aquilo que está fora revela-se o elemento maior da criação, instância esta que só se materializa porque há olhos que se interessam por perscrutar o mundo, jamais negligenciá-lo. E, assim, contido em seu afluxo imensurável, o artista confessa: “cada traço e contorno é como uma braçada num lago”.

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

*Os desenhos de Victor H. Azevedo fazem parte da galeria e dos textos da 101ª Leva

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Olhares

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O destino das linhas

Por Fabrício Brandão

 

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

Pensar a vida como uma rota imprecisa, longe de perfeições ou viciosos determinismos. Seres, recantos, o concreto e o abstrato, tudo amalgamado por um sentido essencial. O substrato de uma existência flerta com um estrangeiro desejo de eternidade. O tempo estanca boa parte dos equívocos tão nossos. A arte liberta na medida em que expande nossa consciência, nossa apreensão do pertencimento a um universo de coisas passíveis de imersão e, porque não dizer, catarse.

Ante os mergulhos, a conclusão: a vida é verdadeiro labirinto. E a obra de gente como Alessandra Bufe Baruque nos comprova isso. É como se um gigantesco novelo, sem começo e fim, desenrolasse suas tramas e nos envolvesse sorrateiramente. É necessário tomarmos cada ponto desse tecido como parte de uma trajetória que pode muito bem representar a de qualquer mortal. Quais pistas, então, a artista nos propõe?

Tal qual o mitológico fio libertador de Ariadne, a arte de Alessandra Bufe vai construindo um caminho criativo cuja expressão maior reside na perspectiva de sugerir vias alternativas de apreensão dos sentimentos. Sua intenção não é a indicação de rotas de fuga, tampouco determinar soluções para dilemas ou enigmas, mas desfilar diante de nós as múltiplas e possíveis representações das epifanias humanas. À medida que avançamos nesse território, identificações podem surgir.

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

O novelo de Alessandra transborda por todas as frentes de sua obra. E é no uso especial das linhas que ele encontra morada, seja para introduzir acessos ou simplesmente continuá-los. Essa característica se expande através de gravuras em metal, desenhos a lápis, monotipia, pintura a dedo, xilogravuras, esculturas e, especialmente, na linóleogravura.

Conforme confessa a própria artista, há um claro encantamento seu pela forma das coisas. De nuvens a megaconstruções, tudo pode ser motivo de registro e concepção. Formada em Artes Plásticas e Desenho Industrial, ela desenvolve um trabalho que prima fundamentalmente pela liberdade de expressão. Assim, sem amarras predeterminadas, o resultado aponta para um convergente fluxo de intuição e observação.

No universo de perspectivas abrigadas em sua obra, Alessandra firmou a ponta do seu longevo fio num lugar inimaginável. Entre investidas e vislumbres, cada um de nós pode intentar algum caminho de volta.

Alessandra Bufe Baruque
Arte: Alessandra Bufe Baruque

* A arte de Alessandra Bufe é parte integrante da galeria e dos textos da 99ª Leva

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Olhares

Olhares

Sob tramas da alma

Por Fabrício Brandão

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Dizer do manto que recobre o universo feminino significa mergulhar em profundezas de mistério. Na medida em que tentamos desvendar sua complexidade, o sabor crescente do indecifrável acaba tomando corpo vigoroso diante de nossas percepções. E não funciona ter em conta a visão simplista e limitada de que tudo é acometido apenas por sinais de delicadeza e sensibilidade.

Definitivamente, a desgastada noção de que o feminino navega águas de fragilidade vem perdendo sua razão de ser entre nós. E não se trata também de ressaltarmos aspectos que apontam para uma mera afirmação de gênero. Pelo contrário. Significa levarmos em conta a genuína expressão que brota dos olhares particulares de mundo. Assim o faz Cristina Arruda quando nos propõe pungentes observações sobre as epifanias que brotam das mulheres.

Fazendo uso de curvas, traçados, contrastes entre o preto e o branco, além duma profusão de cores, Cristina nos convida a viajar por uma espiral dotada de contornos poéticos. E mencionamos poesia aqui pelo caráter sintético da apreensão dos sentimentos humanos. Trata-se de uma condução sem afetações ou contaminações imediatas e apressadas, ou seja, sem viciar o olhar em torno duma acalorada visão restrita de mundo. Segue-se um fluxo natural e deveras intuitivo de recortes existenciais sem que isso possa resultar num arroubo apoteótico.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Quiçá seja a simplicidade o que buscam os poetas em seu engenhoso ofício. Quiçá seja também essa condição a melhor forma de significar o trabalho de Cristina. E, como a própria artista nos confessa, há uma imersão diária nos cenários que compõem seus domínios, principalmente quando se trata de vislumbrar a mulher em sua interação com o ambiente externo.

Seja nos desenhos, munidos a giz, lápis de cor e nanquim, seja nas pinturas em aquarela e acrílica, essa mineira de Belo Horizonte ressignifica os espaços e os personagens do seu entorno físico e imaterial, dando margem também a uma apreensão mística da vida. Perfazendo mais de 15 anos de trajetória autodidata, Cristina Arruda apresenta em seu currículo as exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, além de outras de cunho coletivo.

Na edificação dos cenários e seus habitantes, a artista apropria-se de um tenro fio que sutilmente costura a vida. É como se tudo estivesse mesmo sustentado por um sentido de leveza. Caminhos de ida podem ser levados aos da volta com natural facilidade, ou o contrário também pode acontecer. Para a essência que nos abraça, as linhas e curvas de Cristina são um lembrete de que somos feitos pela substância inexata da alma.

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

 

* Os desenhos e pinturas de Cristina Arruda são parte integrante da galeria e dos textos da 97ª Leva