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95ª Leva - 09/2014 Destaques Olhares

Olhares

O idioma das sutilezas

 Por Fabrício Brandão

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

São mãos a percorrer rostos e gestos. Pequenos universos a abrigar também a intensidade natural das cores escolhidas. O resultado aponta para o surgimento de um traçado irreverente na observação da vida. Dada a multiplicidade de tons, a arte da mineira Rebeca Prado revela-se um misto de doçura e inquietude, quiçá um contraponto dentro de um jogo necessário de equilíbrios.

Eis que não nos basta mencionar a convergência entre sentimentos supostamente opostos. De fato, não. E o que Rebeca propõe reside num plano simultaneamente concreto e intangível. Palpável na medida em que nos incita a sermos personagens de suas representações de mundo. Imponderável quando os ambientes sugeridos fazem parte de uma ampla dimensão na qual a abstração pretende-se inteiramente livre.

Há sutileza nos temas propostos. No entanto, o convite da artista é para que façamos um uso muito mais reflexivo sobre tudo. Num rico painel que agrega níveis complexos de delicadeza, Rebeca incita-nos à provocação. Assim, pequenos fragmentos cotidianos e seus cenários perfazem arremates certeiros em nós. Seja pela pungência do elemento crítico, seja pela evocação de alguma serenidade, ilustrações e desenhos servem a um ideal vigoroso: não passamos impunes diante da beleza e do espanto da vida.

E como, por natureza, somos seres recorrentemente míopes, a acidez do tempo vem quebrantar os laços confortáveis. Ainda assim, os incômodos não conseguem superar os dotes de uma ternura reinante, verdadeira arma do olhar. Tanto nos postais quanto em boa parte de seus desenhos e ilustrações, Rebeca não abre mão de suas lúcidas leituras de mundo. Se a atitude crítica permanece vigilante, os recursos poéticos também assumem seu lugar. Nesse movimento, as tensões internas harmonizam-se a favor de um conceito orgânico em matéria de arte.

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

 Apesar de sempre ter gostado de desenhar, já passou pela cabeça de Rebeca a vontade de ser astronauta e bióloga. Hoje, sobretudo como ilustradora, quadrinista e professora de desenho, ela revela-se ávida por tudo o que o mundo é capaz de lhe proporcionar em termos de imagem. E verter isso em criações também deriva de influências das mais variadas possíveis, como o design gráfico, quadrinhos, arte urbana, animação e ilustração infantil.

O momento atual da artista contempla a feitura de tirinhas, divididas em duas séries, “Navio Dragão” e “Sutil ao Contrário”, ambas publicadas semanalmente em sua página. Vale ressaltar que, nesse território, o humor aguçado e inteligente pontua marcantemente as criações. Rebeca também confecciona diversos materiais gráficos para venda, como pôsteres, postais e quadrinhos, além de integrar o “Selo Maritaca”, de quadrinhos independentes.

A arte tem uma propriedade bastante especial de romper estruturas embrutecidas. Quando se afirma isso, podemos considerar que uma das facetas dela é a de viabilizar uma apreensão menos pesada de tudo que nos acomete. Sem perder a porção inquieta e incomodada da existência, carregamos conosco os dotes inalienáveis da fantasia. No curso dos mares da abstração, ir além é um imperativo. Expondo sua rota, Rebeca Prado nos empresta sua bússola.

 

Rebeca Prado

 

* Os desenhos, ilustrações, tirinhas e postais de Rebeca Prado são parte integrante da galeria e dos textos da 95ª Leva

 

 

 

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91ª Leva - 05/2014 Destaques Olhares

Olhares

Retrato do artista em virtuosa busca

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Marcantonio

 

Se indagado sobre as razões que movem seu ofício, um artista poderá ofertar como resposta toda a gama de sensações advindas dos seus percursos pessoais. Mais do que isso, usará dos dotes complexos do oceano da subjetividade para dar vazão ao que fundamentalmente alimenta seus caminhos de criador. Mas o que é, então, a arte se não a soma de todas as variáveis contidas no âmago de cada ser?

Sem didatismo, podemos evidenciar, sobretudo, uma espécie de revolução que parte de dentro para fora. E não se trata de um mero ato de expelir visões íntimas da existência, mas principalmente de externar ao mundo um componente possível de transformação. É, na verdade, um fluxo cujo dinamismo opera efeitos consideráveis sob o ponto de vista que harmoniza ação e pensamento. Assim, materializar em obras uma multiplicidade de sentimentos, implica também num ritual de inconformismo perene, especialmente marcado pela ruptura com a passividade estética.

Um artista motivado pelos cenários de seu tempo acaba por gerar um resultado fortemente efetivo quando a questão é retratar o mundo sobre o qual põe verdadeiramente os seus pés. Transitando pelo hiato de aproximações entre o vivido e o inventado, o criador apresenta suas versões para tudo aquilo que explode ao seu redor. Nessa esteira de sensações, trajetórias como as de Marcantonio servem como parâmetro valioso de constatação de que a vida ganha mais consistência ao afugentarmos verdades imutáveis. E não são poucas as argumentações que podemos utilizar para considerar tamanha epifania artística.

De forma substancial, há três eixos fundamentais que permeiam a sólida obra de Marcantonio. O primeiro deles reside no importante trabalho de observação de um fenômeno que assola indistintamente nossos estratos sociais: a violência urbana. Tomado pelos efeitos gerados por tragédias como as da chacina da Candelária e de Vigário Geral, ambas situadas no Rio de Janeiro, sua terra natal, o artista transpõe para suas telas as pungentes marcas assinaladas nas páginas dos noticiários. A série, intitulada “O avesso do jornal”, ousa tocar em feridas que compõe um delicado painel de nossa duradoura perplexidade social.

Ao passo que a linha do tempo desenrola seus ímpetos, Marcantonio se depara com a necessidade de buscar novos rumos para suas criações. É então que surge o segundo eixo importante em suas andanças, a série “O julgamento de Páris”. Marcada por elementos da mitologia grega, essa coletânea de telas intenta uma representação erótica do corpo feminino. Diga-se de passagem, é possível notar que tais trabalhos apontam também para uma aspiração libertária da mulher, conciliando vigorosamente força e delicadeza.

Arte: Marcantonio

O terceiro eixo é, segundo o que o próprio artista confessa, uma espécie de ápice de sua busca. Vivenciando o gosto de uma maturidade no nível da linguagem e da elaboração conceitual, Marcantonio traz à tona a série “Melancolia”, a qual explora essencialmente as perspectivas da liberdade de representação. Mesmo tendo atingido um sentido de unidade a partir desse conjunto de trabalhos, o artista rechaça qualquer condição de uniformização dos caminhos, deixando abertas as possibilidades de adesão às transformações futuras. Com isso, exalta o dinamismo sobre o qual se funda uma verdadeira obra de arte.

Na percepção constante de que nunca estamos inteiramente prontos, é que alongamos os dias pela terra. Quiçá o desvencilhar das facilidades sedutoras ofertadas no meio do caminho seja artifício a se ter na boa medida do equilíbrio. Ao que tudo indica, há quem nos dê indícios de tamanha lucidez. Negando a rapidez ilusória dos atalhos, é válido testemunhar as epifanias pretendidas a partir de um ser espantado como Marcantonio.

Arte: Marcantonio

 

 

* As telas de Marcantonio são parte integrante da galeria e dos textos da 91ª Leva.

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Olhares

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A virtude das tensões

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Vera Lluch

Levar a cabo as inquietudes do mundo. Ainda assim, perceber que a existência não é uma só e que outros cenários convivem paralelos bem diante dos olhos. Quiçá invisíveis, tais lugares serpenteiam sob certezas e outras tantas ilusões cotidianas. Não há nada melhor do que rasgar o manual da objetividade que tanto vicia nossos dias aqui no planeta azul. Ou seria melhor planeta água, no qual as esperanças se liquefazem tanto na dor quanto no prazer?

Em meio a tudo, é sempre bom poder falar na epifania de um artista. De como esse ser incomodado projeta esferas do pensamento, o tal subproduto da alma. No caso específico de Vera Lluch, é bom ter em conta que o caminho trilhado através da arte reflete não apenas um motivo crucial de expressão da vontade e do olhar, mas principalmente uma forma de entender a vida como sendo um corpo orgânico, amalgamado por sentimentos que habitam na morada secular dos contrastes humanos.

De modo hábil, Vera sabe conjugar o verbo de nossas interrogações diante do pathos mundano. De suas ilustrações, explodem certeiros alguns arremates da consciência. Da avalanche fragmentada que atravessa o relógio do tempo, a artista reúne os cacos de um mundo ainda pouco sabedor de suas reais contradições, tomado que está pelo desfoque das ideias.  O resultado disso fica por conta de um delicado jogo de embates entre matéria e espírito, parceiros inalienáveis do ponto de vista da natureza das coisas, mas que, simultaneamente, se atraem e se repelem no fosso monumental da pós-modernidade.

Ilustração: Vera Lluch

Os recortes humanos presentes na obra de Vera Lluch demonstram que a gênese de nossos estados do ser são a consequência mais pura das escolhas intuitivas. Desse modo, o curso interno das coisas, com toda sua necessária carga de abstração, molda o leito do rio da sensibilidade, sem negar fogo ao terreno da provocação e do espanto diante de tudo o que presenciamos no continuum do tempo.

Nascida no Peru, a artista cresceu dividida entre o Brasil e o Chile. Atualmente, vive e trabalha em Burlington, no Canadá. Diante de todo esse seu deslocamento territorial, ela encontrou na arte um motivo valioso para fundar seu próprio universo, transcendendo a mera noção de pertencimento geográfico.

Na mescla de desenhos, pinturas e colagens, Vera repensa o ato de existir. O efeito maior de seu trabalho talvez seja o de experimentar caminhos e deslocá-los a um ponto mais próximo do cume de nossas hesitações. Mesmo nos pontos de tensão, as ilustrações sugerem uma convivência com a porção lúdica das coisas. Revestidos de um olhar lúcido, os personagens da artista mergulham fundo no lago límpido, sedutor, porém imperfeito, da vida.

 

 

Ilustração: Vera Lluch

 

* As ilustrações de Vera Lluch são parte integrante galeria e dos textos da 87ª Leva.

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Destaques Olhares

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A inquietude poética de Julia Debasse

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Julia Debasse

 

Com quantos arroubos de consciência são feitos os traçados de um artista? Quiçá nove entre dez pessoas falarão da complexidade que é conceituar de modo redondo um determinado estado de espírito quando o tema é apreender a arte. E se tentarmos mirar um mundo que transborda ante nossos olhos, mais distantes ainda ficaremos de um mínimo entendimento sobre as coisas.

Que a arte encerre em si mesma, então, uma estrada autônoma, capaz de se reinventar a cada intervenção do olhar humano: eis o desejo que se funda e nos instiga os sentidos. Se o desafio é falar de um mundo povoado de cenários contrastantes, nos aproximamos do ponto de vista de gente como Julia Debasse.  Por ousar, de tal modo em sua lida com a pintura e desenhos, essa artista carioca nos dá a impressão de que cada investida sua é um convite a uma esfera insone da vida. Nela, concebe-se a existência como uma cadeia frenética de sinais, muitos deles apontando para uma visão menos suave sobre os ímpetos humanos.

Não é exagero tencionar que Julia abraça uma estética transgressora, sobretudo pelo fato de que seus traços e formas demonstram rejeitar qualquer espécie de encantamento gratuito. Para ela, importa uma visão mais pungente sobre temáticas que remontam ao melindroso universo das emoções. É, por exemplo, o caso de se perceber o amor com olhos desnudos e, portanto, desabitados de devaneios e ilusões. Desse modo, a artista propõe a revelação do que se pode chamar de a face crua das coisas, porção esta marcada pela companhia inseparável da lucidez.

Arte: Julia Debasse

Conduzida às artes plásticas por sua paixão pela música, Julia Debasse parece ter encontrado um norte vigoroso para consolidar suas múltiplas formas de retratar o mundo. Seja na pintura ou no desenho, uma inalienável inquietude faz com que olhares e sentidos da artista permaneçam despertos em torno duma atmosfera muito peculiar a quem vislumbra o todo sem dissimulações.

Utilizando-se de cenas íntimas e outras tantas advindas do universo externo e também ficcional, Julia semeia provocações e questionamentos para, em seguida, colher soluções poéticas. Diante da densidade dos dias, a artista opera conversões e instaura um ambiente também habitado pela simplicidade dos gestos e tons da vida. Para os desvãos humanos, não se promete redenção ou qualquer coisa que o valha, apenas o ato imperativo de seguir em frente sem cultuar em demasia um deus denominado futuro.

Arte: Julia Debasse

 

 

* A arte de Julia Debasse é parte integrante da galeria e dos textos da 85ª Leva.

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Olhares

Olhares

Fluxos virtuosos da liberdade

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Como num álbum de memórias, a vida se expande no alongar do tempo. Aquilo que chamamos de passado não necessariamente fica retido numa experimentação de outrora. Nesse deslocamento, recortes da existência parecem não se exaurir por si próprios, algo que reproduz a sensação de que os instantes, mesmo já consumados, ainda sugerem a presença ativa das coisas e seus inalienáveis sentimentos.

Diante desse painel a agregar estratos pormenorizados da alma humana, surge como testemunha a arte de Denise Scaramai. Suas ilustrações transitam, de modo sensível e delicado, por entre o ambiente das reminiscências.  Dos gestos aparentemente mais simples do cotidiano até aqueles mais complexos, seus personagens têm em comum a densa perspectiva da subjetividade. Ali, o caráter da liberdade surge bem delineado pelo exercício amplo da individualidade dos sujeitos retratados. É quando a consciência de se estar no mundo confere sentido à diversidade de situações vivenciadas por cada um.

Na profusão de cores e formas, Denise extrai um resultado poético para os cenários escolhidos, fazendo com que cada lampejo humano extrapole a dimensão física das situações. Nesse ponto, a artista redimensiona o ato de existir para esferas que sugerem o estreitar de laços entre o vivido e o imaginado. Aqui, a dualidade entre o concreto e o abstrato denota a harmonização de dimensões paralelas. Diga-se de passagem, o mundo, tal como o apreendemos em sua inteireza física, já não é mais capaz de comportar as projeções de toda ordem, tornando a via onírica um acesso deveras significativo.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Paulistana por nascimento, Denise Scaramai possui uma predileção por observar detidamente a manifestação das coisas, bem como suas formas e aspectos singulares. Confessa-se uma obstinada pela inatingível perfeição. Formada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, a artista mantém uma especial relação com a via digital, algo que contribuiu para a experimentação de novas possibilidades de criação.

Sem estar necessariamente ligada a um viés artístico específico, Denise professa a independência de suas formas. O conceito de autonomia presente em seus trabalhos permite à criadora reinventar modos de agir e sentir. Diante da passagem do tempo, pouco importa saber dos momentos consolidados ou até mesmo presos num átimo qualquer da existência. Fundamental mesmo é constatar que a vida é algo incapaz de ser domado.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

* As ilustrações de Denise Scaramai são parte integrante da galeria e dos textos da 83ª Leva.

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Olhares

Olhares

Uma Dama, Uma Damas

Por Carla Diacov

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Desde que a simplicidade se deu, Bárbara resenha, desenha, põe gente, passarinhos e medos pra voar no papel:

A primeira vez que Bárbara pegou numa folha, a folha tragou a Bárbara.

Era de cheirar dum tudo o que tocava.

Conhecia as coisas pelo tato que no tato da coisa, dizia, pequenininha, dizia, que no tato das coisas está a cor e o contorno em luz e sombras.

Tinha muita dó de apontar os lápis, achava que podia doer, não nos meninos, os lápis, mas nela. Podia doer fundo nela, ela a Bárbara. E desde sempre que é desde então, desde que a simplicidade se deu, Bárbara desenha, por conta daquela primeira vez em que a folha tocou nela e porque tudo, pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo, tem cheiro de cor e de mundo e de gente:

Aos dez anos já fazia gente e chamava URUBU aos pássaros que fazia. Vestia pessoas com corações, dava bolsinhas, sorvetes e bracinhos aos corações.

Entrou para a escola de desenhos aos treze anos e abandonou a escola de desenhos aos treze anos quando o professor mandou que desenhasse a Monalisa igualzinho a Monalisa do Leonardo. Onde já se viu? Igualar as coisas? Professor mandar?

Pisoteou a faculdade de artes visuais em 2004 pelos mesmos motivos, ora, onde já se viu?! Onde?!

Desenho: Bárbara Damas

Desenhou, seguiu desenhando e foi parar na faculdade de direito no mesmo período, onde, porque ninguém mandou, graduou-se. Nesse tempo torto, deu-se sua primeira exposição e Bárbara encontrou-se com seus traços. Foi em 2007, no SESC AMAPÁ, no evento “Aldeia SESC Povos da Floresta”.

No ano seguinte, convidada para ilustrar seu primeiro livro infantil, lançou-se no “Macapá – a capital do meio do mundo” pela Cortez editora. De lá, então desenha ali, resenha aqui. E aqui está: Penso que Bárbara Damas tem a arquitetura lúdica, os traços mais leves que conheço. É um estado. Pois que é de se estar debaixo duma árvore muito da chapeluda, verdíssima, quando se tocam os olhos nos traços de Bárbara. É de se estar, mas também pode-se estar a precisar dum lugar assim, sim, porque Bárbara é fornecedora. (Tenho pra mim, tenho para dar, que as linhas de Bárbara Damas elevam a qualquer estado de se estar.)

Há quem desenhe para expurgar, há quem desenhe para se ornamentar, há quem, há quem. Bárbara Damas, como se vê logo ao pingar vistas num de seus desenhos, Bárbara Damas desenha para que o mundo aconteça. O mundo e tudo o que há no mundo: pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo. É de se estar e Bárbara sempre estará, pondo tudo pra voar.

Quem disse que gente não é coração?

Desenho: Bárbara Damas

* Os desenhos de Bárbara Damas são parte integrante da galeria e dos textos da 79ª Leva.


(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)


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77ª Leva - 03/2013 Destaques Olhares

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TRAVESSIAS

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Thaís Arcangelo

Um instante partido no tempo e alguns passos rumo ao infinito. No meio do caminho, a sutileza das cores flagrando a vida, atenuando-lhe certo peso da alma. Existir, somados os seus imperativos, precisa se configurar um flerte com os tons sublimes que governam o espaço abstrato através do qual desfilamos nossos rompantes. Existir, nos desenhos e ilustrações de Thaís Arcangelo, é pacto de escutas, rompendo a redoma da grande noite que insiste em nos abraçar.

No limiar entre o real e o inventado, a artista funda territórios e instaura entre nós a percepção marcantemente poética sobre uma delicadeza que esquecemos nalgum ponto da jornada. Assim, viver torna-se um arremesso incerto, porém desejoso de uma transformação a mais humana possível. Ao nos revelar dimensões por vezes etéreas, Thaís desafia zonas de conforto, rejeitando-as e nos impelindo a reescrever nossas errantes trajetórias.

Ilustração: Thaís Arcangelo

Em seus trabalhos, a artista devota especial atenção a uma múltipla representação do universo feminino. A partir daí, surgem personas das mais variadas possíveis diante de nossos olhos, todas elas inscrevendo seu traçado numa tentativa serena de redenção. Nessa perspectiva, Thaís caminha para além da materialidade das coisas, erguendo um vasto e denso painel de sensações.

Se por um lado somos seres reconhecidamente duais por natureza, por outro, nos é dada a chance de revermos nosso velho e desgastado costume de repetir. E isso nos é lembrado a todo tempo nos cenários propostos por Thaís. Com sua ciranda de sentimentos pueris e ao mesmo tempo também maduros, a artista recria mundos no mundo, fazendo do atributo onírico de suas criações uma passagem permanente para o centro de nós mesmos. Nesse trajeto de autoconhecimento, talvez a única certeza que carregamos seja a da dúvida, essa sedutora senhora a nos acalentar insistentemente em todo tempo e lugar.

 

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

* As ilustrações de Thaís Arcangelo são parte integrante da galeria e dos textos da 77ª Leva.

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Olhares

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AS CARTAS AO MUNDO DE FAO CARREIRA

Por Fabrício Brandão

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

Pensar a expressão artística de Fao Carreira é trilhar uma via onde as representações da existência estão marcadas, acima de tudo, pela poesia.  De posse de tal condição, o artista inscreve na pele dos dias os laços que o atraem para o jogo das veleidades humanas, da presença sorrateira daquilo que nos seduz e, ao mesmo tempo, nos escapa volátil entre as mãos.

 

 

Arte: Fao Carreira

Indagar o que povoa a infância da criação, se a palavra ou a imagem, não nos parece relevante no caso desse paulista de Botucatu. Em Fao, as feições de desenhista, pintor e poeta harmonizam-se de modo a conferir à sua obra um caráter de unidade. Essa “contaminação” de uma arte pela outra opera a comunhão de linguagens distintas, cujo resultado possui um decidido teor filosófico. Nessa perspectiva, o porquê de se estar num mundo no qual os excessos nos saltam aos olhos parece instigante questão de ordem.

Cada desenho ou tela produzido por Fao Carreira é verdadeiro exercício de correspondência com o que explode lá fora. Seja em traçados, rostos ou profusão de cores, o artista remete ao mundo seus anseios e inquietações. A despeito disso, não é em vão o nome de batismo de seu blog. Suas missivas são direcionadas a todos nós como o registro mais puro do espanto que é estar vivo.

 

 

 

Arte: Fao Carreira

Da sua paixão pela literatura, Fao consolida um diálogo especial e denso com quem se debruça na contemplação de sua arte. Isolada ou conjuntamente, seus versos e imagens ousam sondar a fina camada que envolve o tecido das horas. Na passagem dos instantes, lacunas ganham corpo e nos relembram que o ato contínuo de respirar é pedra fundamental da criação. Por isso, um artista a relatar marcas do tempo. Por isso, somos cativos leitores do mistério que povoa suas cartas.

 

Arte: Fao Carreira

 

 

* As imagens de Fao Carreira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 73ª Leva.

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

UM MUNDO PARA CHAMAR DE MEU OU, QUEM QUEBRARÁ O SILÊNCIO?

Por Renata Azambuja

 

I

A mancha, a silhueta e a palavra.

 

Pintura: Sylvana Lobo

O desejo é começar pela primeira impressão que permaneceu, mesmo depois do segundo e terceiro olhares, deste conjunto de pinturas de Sylvana Lobo. A visão persistente de manchas coloridas, massas em preto/ silhuetas e palavras. Esses são fatos preponderantes da pintura da artista. Parece paradoxal, mas as manchas e massas funcionam, no contexto de sua pintura, como signos de visibilidade. Ajudam a contar a história que se segue; um universo cheio de alegorias.

Diferentemente do Informalismo, tendência que tratava a mancha como gesto espontâneo e improvisado, as manchas nessas pinturas não comparecem como fruto do acaso de um processo criativo. Podem ser, sim, como naquele movimento, resposta a um momento de crise. Não à maneira de uma crise mundial, como se manifestou então, ao final da Segunda Guerra Mundial, mas da ordem de uma crise na política das relações amorosas, como veremos mais à frente. Assim, não seria disparatado qualificarmos estas manchas como matéria, lançando mão dos dizeres de Argan, que as coloca como uma problemática com a qual a artista se depara, a “incerteza quanto ao próprio ser, a condição de estranhamento em que é posto a sociedade”¹.

Se ela for, então, um elemento problema com o qual se deve lidar, a mancha encontra o seu sentido mesmo: o de ser uma substância que macula algo. É o elemento imprevisto. Ou será que ela está no lugar de algo que não foi conscientemente construído?

A mancha, por ser esta matéria que ocupa lugar mostras de definição, é uma continuidade no tempo. O único indício de temporalidade é sua permanência de uma pintura a outra. Está presente em todas as cenas das pinturas, balizando a figura-silhueta. Se a mancha esconde uma revelação ao mesmo tempo em que se espraia, a silhueta delineia. Em cada pintura há uma imagem feminina.

Silhuetas parecidas com as dos retratos recortados, desenhados e pintados em papel preto de figuras em perfil, na corte francesa durante o reinado de Luis XV, no século XVIII, e que tornou-se hábito a ser cultivado entre as moças da época. A silhueta identifica a figura de origem pelo retrato que produziu; uma impressão na memória.

Pintura: Sylvana Lobo

Estando essas silhuetas postas em situ-ação, nos remetem às figuras do teatro de sombras. Se a mancha é presença que esconde, a sombra, como ausência de luz, reforça a ideia de que há algo que não quer se mostrar ou que age como duplo, um outro que está represado. A noção de obscuridade vinculada à “sombra” era algo a ser evitado e o nome “silhueta” substitui o nome “retrato de sombra”. O panorama, portanto, esconde mais do que apresenta e mesmo as cores não parecem contribuir para a mudança de cenário, pois continuam como manchas. São como nuvens escuras, densas, prontas para desaguar, sensação mais manifesta em Beije, coma e Não sou a mais bela. Estariam estas pinturas nos indicando a impossibilidade de comunicação? Seriam territórios de incomunicabilidade?

Como silhuetas que são, apontam para seres que conhecemos. As figuras solitárias das pinturas são imagens emblemáticas saídas dos contas de fadas e princesas; arquétipos de um determinado feminino, de acordo com Carl Jung e expressões de desejos recalcados, segundo Sigmund Freud. São brancas de neve, cinderelas e belas-adormecidas. Essas personagens foram construídas por Sylvana Lobo tendo em mente não as versões modernas, voltadas para as crianças, em que toda a narrativa, cheia de percalços, está a serviço de um final feliz, porém mais próximo dos contos populares, originados de tradições orais muito antigas onde a fantasia não precisa criar laços de comprometimento com uma realidade moralizante. Nessas narrativas, o texto nem sempre é aprazível e a morte, o canibalismo e o incesto, por exemplo, fazem parte recorrente das estórias que, diferente do que ocorre atualmente, tinham os adultos como público.

Karen Walker, artista norte-americana, usa a técnica de silhueta como papéis cortados, elaborando cenários em que personagens, negros escravos e brancos dominadores, se relacionam, em uma alusão a episódios ocorridos no Sul do país, antes da Guerra Civil Norte-Americana. Eles tomam parte em ações que definem social, política e historicamente. Diferenças a parte, as imagens em silhuetas nos trabalhos de Walker, como nos de Sylvana Lobo, têm o intuito de provocar o pensamento sobre o que significa a representação por imagens e como elas podem estimular uma nova formulação identitária e uma visão crítica sobre a própria realidade. “Fazer trabalhos de arte sobre raça se transforma em assunto íntimo acerca da identidade”².

Este espaço silencioso, configurado pela mancha e pela silhueta é compartilhado por palavras, frases e expressões. É como se existissem para afirmar ou por em cheque a situação vigente. Mas, ao mesmo tempo que se referem às imagens, as palavras estão lá como parte da estrutura visual, ou seja, providas de materialidade própria, o que destitui o papel de ser “as” portadoras de significado. Assim sendo, o texto escrito na tela, se transforma, conforme lemos em Pierre Francastel, em signo figurativo, também uma sentença visual que não coincide, segundo ele, com o que vemos e compreendemos.

As frases, ou pedaços delas, dão nomes aos trabalhos, confirmando a suposição de que elas, talvez, sejam fatores dominantes dessas equações visuais indicando caminhos para o entendimento das pinturas ou para a resolução da “problematicidade” que enfrenta o artista, citando novamente Argan. Algumas são frases curtas em tom afirmativo e imperativo: toque, beije, coma; outras expressas como um anúncio: precisa de um escovão e dois príncipes encantados; como perguntas: você se sente atraído por mim?; quanto vale uma vírgula? e, ainda, a título de conclusão: É melhor do que escutar eu te amo; não come (a); minha língua gorda não cabe no sapato e, não sou a mais bela. O que se apreende, afinal, é de que há um outro para quem a falas se dirige. O vedor-leitor aos lê-las, torna-se um co-partícipe?

“Escrever em primeira pessoa é uma facilidade, mas é também uma amputação”, é o que diz o protagonista do romance Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago. Distante do trabalho autobiográfico, em que o artista se coloca como o representante de outras histórias e das suas próprias, tal como é o caso de Cindy Sherman e de Sophie Calle, Sylvana Lobo fala de suas angústias e desconfortos com a expectativa de ter de se tornar uma “mulher de verdade”, como ela mesmo diz, por meio das mulheres da ficção.

II

O fio amarelo: moral da história?

Pintura: Sylvana Lobo

E o que dizer do fio amarelo que vemos em todas as pinturas? Será que se refere a algum principio moral que rege toda essa alegoria? Em Toque-o, a única pintura em que a silhueta feminina não está visível, vemos o fio amarelo enrolado ao fuso, que é agora a silhueta. Esta pintura parece ser uma espécie de matriz geradora. O objeto ocupando o lugar da moça; o fuso da história da Bela Adormecida. Fada, fatalidade, destino.

No conto de fadas, o fuso é o perigo. É o prenúncio de morte ou, pior ainda, do longo sono que é pausa para o encontro com o futuro, personificado pelo príncipe, o homem idealizado. Nas pinturas de Sylvana Lobo, o fio amarelo é sinal de alerta, é a consciência tornada objeto. Deposita-se sobre o sexo, sobre a boca, enrosca-se pelos pés, nos pulsos, transforma-se em coroa, como lembrança de um futuro que espantará o presente a ser passado a limpo, e circula o pescoço seguindo até os tornozelos de uma outra silhueta, reprodução dela própria.

O fio amarelo é a garantia de comunicabilidade nesse território de incertezas onde dormir pode significar deixar de lado o devir. Não dormir, para não acabar como personagem de uma parábola moderna. Como a que Louise Bourgeois escreveu: “Um homem e uma mulher viverem juntos. Uma noite ele não voltou do trabalho e ela o esperou. Ela ficou esperando e ela foi ficando menor, sempre menor. Mais tarde um vizinho passou por amizade e ali a encontrou na poltrona do tamanho de uma ervilha”³.

 

 

1- Argan, GC. Arte Moderna, SP: Cia das Letras, 1993, p. 542.

 

2- Disponível em The Art of Kara Walker. http:/ leran.walkerart.org/karawalker/Main/RepresentingRace. Acesso em 20/01/2009.

 

3-Louise Bourgeouis. Ela perdeu aquilo. Diário da artista, 1947.
20 de janeiro de 2009.

 

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

(Renata Azambuja é pesquisadora, curadora independente, crítica de arte e arte-educadora. É licenciada em Artes Plásticas pela UnB e mestre em Teoria e História da Arte Moderna e Contemporânea pelo City College of the City University of New York, onde defendeu a tese “Cildo Meireles: A Física do Espaço Social”)

 

Sobre a artista:

 

Sylvana Lobo é artista plástica e fotógrafa. Participou das coletivas MAB – Diálogos da Resistência – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2012 – Brasília/ DF); 18º Salão Anapolino de Arte (2012 – Anápolis/ GO); Prêmio de Arte Contemporânea do Iate Clube de Brasília – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2011 – Brasília/ DF); Semicírculo – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2010 – Brasília/ DF); 39º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba (2007 – Piracicaba/ SP); 7º Salão de Artes Visuais de Guarulhos (2007 – Guarulhos/ SP); 6º Salão de Artes Visuais – Museu de Arte Contemporânea de Jataí (2007 – Jataí/ GO); XXIX Concurso Novos Valores – Fundação Jaime Câmara (2006 – Goiânia/ GO); Vetores – Museu de Arte de Goiânia (2005). Participou das individuais O IBRAM e seus museus (2010 – Brasília/ DF); de cabelos longos, sentada na relva – Galeria da Faculdade de Artes Visuais – UFG (2009 – Goiânia/ GO); Foto Arte (2008 – Brasília/ DF); Madame Bovary sou eu (2008 – Brasília/ DF).