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153ª Leva - 01/2024 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Julia Sereno

 

Arte: Zô

 

teste

 

meu corpo faz perguntas o tempo todo
mesmo sabendo que as respostas estão escondidas
debaixo do tapete que meu coração esqueceu
na sala de espera.
a visita não veio mais uma vez

 

 

 

***

 

 

 

espelho

 

juntou todos os caquinhos

um
por
um

e com eles cortou o silêncio dos dias

que calados não faziam mais sentido

 

 

 

***

 

 

 

rota

 

suspiro de medo
e alívio

ou será apenas meu ar
comprimido
que escolhe
em silêncio
deixar meu peito doído

e levar um pouco
do tempo perdido

para onde eu consiga
respirar

 

 

 

***

 

 

 

ano-novo

 

fincou os pés molhados no passado.
levantou os braços dormentes de aperto.
abriu as mãos secas de carinho.
fechou os olhos cansados do ruído

 

 

 

***

 

 

 

meio

 

desloco-me e
atravesso

do avesso
retorno e
parto

mas não preciso
chegar a lugar nenhum

o entre-lugar é meu

 

 

 

***

 

 

 

ela

 

a dor escreve o texto
e logo se desespera

desalinhando os cabelos
descamando a pele

a dor exige ser lida, recitada,
engolida

e depois reescrita
pela autora do não

 

 

 

***

 

 

 

pressa

 

hoje a minha espera acordou inquieta.
saiu apressada sem se olhar no espelho.
até o café esqueceu de fazer.
queria encontrar as pistas antes do fim do dia.
mas elas estavam cansadas e não disseram nada.
seguiram caladas sem olhar para os lados.
pois o caminho de casa mudara outra vez

 

Julia Sereno é natural do Rio de Janeiro, mas vive em Lisboa desde 2020. Doutora em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Publicou o seu primeiro livro de poemas, “As Outras em Mim”, em 2022. 

 

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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Sereno

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Barro

 

O céu laranja empoeirado
traz o deserto que meus pés
ainda não conhecem
para meu inverno particular

A areia do Saara paira
e move
deixando uma cor diferente
na minha pele península

 

 

 

***

 

 

 

Mulher locomotiva enlouquece
e esquece e repete e comete
um crime sem arma ou morte
apenas um ato ou seria
um pacto
de sanidade
com a própria
liberdade

Ela escreve
a mulher

 

 

 

***

 

 

 

Palavras puras
não existem
só com as híbridas
escrevo
e recito
os segredos
que desencontro
no caminho

 

 

 

***

 

 

 

Despertar

 

vento frio na pele
respiro sem deixar
o medo amanhecer
junto ao meu
despertar repentino

não sei se este dia
será como um dia
qualquer ou como
o outro que deixei
sem terminar

aquele que passou
horas a fio
desencapado
doendo pela
ponta que esqueci
de cortar

 

 

 

***

 

 

 

Um mapa

 

Fui nascida em dezembro, abaixo daquela
linha imaginária que corta o mapa
desenhado nos livros
por quem?
Fui ensinada a reconhecer as fronteiras,
mas depois aprendi que as bordas
desaparecem e se desviam do rumo
para onde?
Fui crescendo no território sem limites
dos meus medos e sonhos
misturados na geografia
de qual país?
Ainda não sei.

 

 

 

***

 

 

 

A minha revolução
acontece em silêncio
dentro do coração

e meu texto
busca derreter
os gritos congelados

que se forem ouvidos…

sinfonia

 

 

 

***

 

 

 

Aqui moram…
uma verdade que arruma a casa
e nunca recebe visitas
um desejo que deixo escondido
e esqueço de vigiar
umas dores de criança pequena
uns sorrisos de mulher adulta
e alguns livros que nunca li

 

Julia Sereno nasceu em 1978, no Rio de Janeiro, mas atualmente mora em Lisboa. Mestre e doutoranda em Estudos de Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ, é professora e tradutora. Em 2022, publicou seu primeiro livro, “As Outras em Mim”.