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84ª Leva - 10/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Jussara Almstadter

O gosto pelas complexidades alimenta alguns feitos. Em se tratando de literatura, muito podemos mencionar a respeito. No entanto, é bastante significativo frisar que, na busca por um resultado estético e coerente com os mergulhos pessoais, cada autor se envereda por vias até mesmo surpreendentes. E não se está aqui a falar duma procura por coisas supremas ou meramente arrebatadoras, mas da forma como cada criador percebe a si e a seus iguais, tendo como pano de fundo a heterogeneidade do mundo. Nesse trajeto, podemos questionar a efetividade de fórmulas prontas, hermetismos e rigores excessivos. O tempo tem nos mostrado que aprendemos não somente com modelos consagrados, mas também com as transformações e aprimoramentos oriundos do ato constante de experimentar. Assim, exercitamos a capacidade de romper tabus e deixar de lado um exército de mitos que nos causam certa cegueira. Aprendemos, de fato, a partir do envolvimento prático com as múltiplas vozes e seus chamados a nos rodear os sentidos. Ler o mundo é algo mais colossal do que supomos, embora jamais se configure uma meta inalcançável. Há, por exemplo, todo um entendimento universal sobre a existência na mente de um criador que transpõe seus domínios através da leitura. Por causa desse fascínio, o desejo de seguir adiante não se sacia. Ao visar respostas para os enigmas que a vida lhe impõe, um autor talvez jamais encontre a saída. Enquanto isso, ocupa-se de se entregar ao fluxo incessante da memória e das projeções que supõe serem as principais aliadas de suas andanças particulares. Um pouco desse marcante espírito permeia a atual edição da Diversos Afins. Desde os poemas de Assis Freitas, Ehre, Alexandre Bonafim, Nuno Rau, Carolina Suriani Caetano e Luciano Bonfim, passando pelas narrativas de Gabriela Amorim, Antonio LaCarne e Geraldo Lima, a linha da vida segue seu difuso e incerto curso, exaltando descobertas, filhas do espanto. Nossa 84ª Leva ganha corpo com a intervenção dos signos presentes nas fotografias de Jussara Almstadter. Se a inquietude faz bem à arte, percebemos seu vigor quando entrevistamos o poeta mineiro L. Rafael Nolli. Em matéria de música, Larissa Mendes mostra porque o segundo disco de Marcelo Jeneci merece nossa especial atenção. O convite à leitura fica a cargo do escritor Hilton Valeriano, cujo texto suscita incursões pelo mais novo livro da poeta Rita Moutinho. Por aqui, há também espaço para a celebração em torno da memória musical de Tom Jobim, numa leitura para o documentário dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Que os caminhos aqui contidos possam lhe promover renovados percursos, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Assis Freitas

 

Foto: Jussara Almstadter

 

Sob a fina caligrafia de um blues

 

quem não se sabe dor
é matéria rara
se achegam os espinhos
das rosas do caminho
acodem os açoites
do limo de tanta noite

quem não se sabe dor
é matéria rara
assim se percebem olhos
no avesso das lâminas
como mancha, nódoa
quem vive cego em anelos

 

 

***

 

 

Suíte burlesca para um diálogo com a ausência

 

foste tu nesta distância de muitos quilômetros
a ilha, a quimera, o oásis, pasárgada dos dias
a cotovia desavisada que insinuou a primavera
foste tu que me impuseste silêncio e ausência
nesta seara de corpo que se move em frêmitos
no olho arredio que já se despediu das estrelas
foste tu, este eterno assovio em minhas retinas
a mão que agitou o delicado trovão da espera

 

 

***

 

 

Nenhum silêncio vaza do relâmpago

 

Tudo se perde neste ermo
Neste tecido de linguagem
Nada se fixa nas retinas
Nem o ar soprado do lábio

Espaço sem memória
Flecha solta em extravio
Até teu nome se apagou
Na tez da lâmina, por um fio

Tudo se perde neste ermo
O caminho da nuvem em líquen
A consagração do fogo e do cravo
Este turbilhão que emana do raio

p.s. “Sei que estou vivo
entre dois parênteses”

 

 

***

 

 

Sobre a tessitura do sonho e outros desalinhos

 

havia que tecer a palavra
ainda que fosse a última
e nela contivesse o sumo
a essência que foi estrada

havia que tecer a palavra
mesmo que fosse desatino
e nela contivesse o âmago
frio caos: único e palpável

 

 

***

 

 

Ária para voo de asa breve

 

mergulha o silêncio
em meus olhos
e liberta a alma
do pássaro que
se interroga
em minha mão

 

 

***

 

 

Berceuse de náufrago para refúgio de temporal

 

dos olhos quero a dobradura do pranto
o mar desavisado a banhar-me o canto

do peito perquiro naus e refúgio de vela
o feitiço de cordas rugindo em rebuliço

do coração nada posso intuir em prece
há o desvão de sílabas em passo célere

 

 

***

 

 

Improviso para lâminas, pedras e oboés

 

afio nas pedras minhas retinas
fio por fio a coser melancolias

e o fino tecido a que me alinho
flui na imensidão devagarinho

colho nos olhos rios de algaravia
do aturdido caminho sem utopia

 

 

(José de Assis Freitas Filho é poeta, escritor, sociólogo e mestre em Letras (UFBA), nasceu e mora na cidade de Feira de Santana-Ba). Em 1998, publicou o livro de contos O Mapa da Cidade, pela Coleção Flor de Mandacaru do MAC de Feira de Santana. Em 2009, lançou o livro de contos O Ulisses no supermercado como prêmio do concurso CDL de Literatura de Feira de Santana. Em 2012, publicou O ano que Fidel foi excomungado pela Editora Penalux. Lançou, em janeiro de 2013, o livro Poemas de urgência para súbitos desalinhos pela Editora Multifoco. Edita os blogs: Mil e um poemas e Árvore da poesia)