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152ª Leva - 02/2023 Destaques Olhares

Olhares

Entre enigmas e suas reconfigurações

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Magali Abreu

 

Sob o delicado manto das formas, há um universo embebido em mistérios que são fruto de nossas humanas idades. Nele, cabem as paisagens múltiplas que contemplam as porções interiores do ser, espaços constituintes do vivido e também do imaginado. Todo esse acervo é fonte de um manancial imagético capaz de retratar mundos no mundo, recortando possibilidades e sensações ao alcance do olhar que tem predileção pelos detalhes.

E eis que assim o faz Magali Abreu em sua travessia artística. Com um trabalho que ajunta os fragmentos sensíveis da existência, a fotógrafa nos oferta um panorama de alternativas cujas imagens simbolizam o gesto da recomposição da vida, processo este que não se descola da ideia de que o mundo pulsa intermitente entre os sentidos das dissoluções e reconstruções.

Ouso dizer que as fotografias de Magali ressignificam memórias em torno de pessoas e lugares. E na confluência entre a matéria tangível das coisas e a atmosfera das porções abstratas, forma-se um conjunto orgânico de sensações visuais que contêm afetos e também contemplam saberes e sabores particulares, desses que fazem sentido dentro da esfera líquida e secreta das imagens.

Daí que faz todo sentido se deixar guiar pelas imersões propostas pela artista, posto que ela nos atrai a um movimento que se assemelha também a um mosaico de representações. Mas para que isso se opere é preciso observar todo o véu poético que recobre as imagens da fotógrafa. É ele quem protagoniza os modos de exibição duma arte que encontra seu diferencial por não nos entregar facilmente os mapas de todos os percursos sugeridos.

 

Foto: Magali Abreu

 

Dito isso, cabe-nos o salto e os efeitos das descobertas para regiões mais profundas, zonas por onde circulam sentidos passíveis de espanto e/ou encantamento. Da mesma maneira, as fotografias de Magali Abreu parecem conter clamores em favor de uma nova ordenação para o humano, condição que retira do caos que nos acomete o fruto de eventuais libertações. Afinal, se o nosso olhar mais atento é capaz de redimensionar o modo como miramos o interno e o externo, também a arte poderia fazê-lo por intermédio de seus provocadores atributos.

Como a própria artista confessa, seu processo criativo é um se deixar levar pelos impulsos, fluxo por onde transcorrem naturalmente os estímulos dinamizadores de sua obra, a qual busca emocionar pessoas. Além disso, Magali assinala privilegiar o caráter subjetivo de seu trabalho, estabelecendo elos com suas porções íntimas, além de promover uma mescla entre o onírico e o real. Em sua trajetória, a fotógrafa baiana reúne exposições, premiações nacionais e internacionais, bem como menções honrosas.

A partir da aura enigmática que perpassa as fotografias de Magali Abreu, nos é dado perceber que a arte é fundamentalmente o encontro com a sugestão, considerando que um artista é aquele que nos conduz até certo ponto da jornada, pois o restante do percurso, muito provavelmente a sua maior parte, é feito por todo aquele que se permite mergulhar naquilo que se apresenta diante da sua visão. E é de se suspeitar que somente o mergulho não garanta a fruição da viagem, já que ninguém passa incólume pelas paragens artísticas, ainda mais quando estas desacomodam inquietudes.

 

Foto: Magali Abreu

 

* As fotografias de Magali Abreu são parte integrante da galeria e dos textos da 152ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Jussara Azevedo

 

“Céu ausente” é o terceiro livro de contos de Gustavo Rios, autor revelado em 2007 na coleção Rocinante, da 7Letras, onde publicou “O Amor é uma coisa feia”, e fez parte de um time de jovens autores, surgido na internet, com o interesse comum em narrativas curtas.

A coleção foi inspirada no selo “Cantadas Literárias”, da Brasiliense, e dava vazão a uma geração com vigor criativo, habituada aos computadores e ao universo dos blogs e revistas virtuais. Clarah Averbuck, Julián Fucks, Carola Saavedra, José Rezende Jr. e Veronica Stigger são alguns dos nomes que, ao lado de Rios, se destacavam neste cenário e continuam fazendo literatura até hoje.

Se uma canção do grupo punk rock paulistana Kleiderman batizaria o seu livro de estreia, o interesse de Gustavo Rio pela música não se resumiria a simples homenagens e citações textuais. Durante os anos de 2008 e 2009, junto com os escritores Wladimir Cazé, Lima Trindade e Sandro Ornellas, ele participou do coletivo C.O.R.T.E., realizando diversos “rockcitais” (algumas dessas apresentações estão disponíveis no YouTube) ao lado da Pastel de Miolos, banda icônica da cena punk e hardcore soteropolitana, e escritores convidados (Kátia Borges, Paulo Scott, Katherine Funke, Nelson Magalhães Filho e Leonardo Panço).

Em seguida, pela Mariposa Cartonera, publicou “Allen mora no térreo” (2015) e, “Rapsódia Bruta – poemas e outras brutalidades” (2016).

Sobre “Céu Ausente”, uma coletânea de 13 impactantes histórias onde Rios aborda temas como casamentos fracassados, solidão, delírios amorosos, medo e tédio, o crítico Maurício Melo Júnior, em uma resenha publicada recentemente no jornal Rascunho, disse: “Enfim, a literatura é a causa primordial de Gustavo Rios. Há denúncias? Sim. Aponta injustiças, também, mas não lamenta a condição inferior de quase todos seus personagens. Descreve a vida, e ponto. Sem beletrismos parnasianos fez literatura. Tudo é literatura em suas narrativas. E certamente aí está sua mais perfeita qualidade como escritor.”

 

Gustavo Rios / Foto: Solange Valladão

 

DA – O título do seu novo livro, “Céu ausente”, sugere uma perspectiva em que o destino humano está imune a soluções transcendentes para os seus problemas e impasses. A que se deve essa visão? Há nela alguma influência do pensamento de filósofos como Camus?

GUSTAVO RIOS – O título surgiu de algo mais simples: um poema de minha autoria. Ao final dele, escrevi “(…) a beleza passa longe / desse céu ausente / de gaivotas.

O estado de espírito do cara que escreveu o poema era bem semelhante ao do protagonista do conto que intitula o livro: um garoto de bairro tentando se firmar num mundo hostil. Esse cara amava os beatniks, andava lendo Bakunin e sonhava em cair fora num navio. No conto, ele conversa com o pai numa noite de outono, depois de ter levado uns socos na rua sem motivo. E entre cigarros sem filtro, divagações, um livro do Artaud e a janela do seu apartamento, ele percebe que não terá muitas chances.

E aí vem a beleza de sua observação, pois o título diz muito mais do que eu mesmo pensei. Ele vai além da cena do conto; da força contida nele. “Céu ausente” significa, sim, que em alguns momentos nada poderá nos salvar. Que estamos à mercê e que andamos imunes a quaisquer transcendências ou redenções. Por aí.

Gostaria apenas de frisar que todos os outros contos não possuem a mesma intenção. Nem o mesmo estilo. E que os protagonistas que aparecem ao longo das páginas passam longe do tal garoto de bairro. Isso seria maçante para mim e para o leitor.

Temos o filho pródigo, o marido entediado, mulheres que amam acima de tudo e casamentos fracassados; temos um homem que encontra o amor de sua vida num parque e James Brown tentando decifrar um pesadelo. Temos também um sujeito se descobrindo numa noite de chuva e um casal que se reencontra no Japão.

O livro é uma tentativa de enxergar a vida partindo de vários pontos. Com isso, cheguei aos treze textos. Cada um com seu universo, sua estrutura e suas mensagens involuntárias, pois não acho que a literatura deva ter esse tipo de obrigação.

Em resumo, posso afirmar que “Céu ausente” é um belo título e diz tudo isso aí que você bem pontuou. Mas não é o único mote para o conjunto que surgiu.

Quanto ao Camus, creio que suas ideias atravessaram o tempo. E por serem poderosas, contemplam e contaminam parte da literatura feita ainda hoje, a gente goste ou não.

Não foi diferente comigo. Sua filosofia pode ter vindo até mim de forma indireta ou enviesada, e está tudo bem. “O estrangeiro” me marcou profundamente, assim como “O muro”, do Sartre — e ambos meio que jogam no mesmo time, sendo o argelino um excelente goleiro. Contudo, não me recordo de ter ouvido a sua “voz” durante meu trabalho. Não conheço profundamente os seus textos, o que é um grande vacilo de minha parte.

 

DA – Quando você adota o título do conto para o livro, demonstra o quanto essa imagem é potente, ultrapassando em muito o verso do poema. São novos contextos e significados a partir desses deslocamentos. Penso que, para além das mudanças de estilo, temas e perspectivas das histórias, “Céu ausente” também confere responsabilidade (consciente ou não) às escolhas de suas personagens. Estou errada?

GUSTAVO RIOS – Está certa. Falei sobre algo parecido em outras entrevistas. Sobre os meus personagens se encontrarem em situações limite e tendo de fazer escolhas, incluindo a de desistir. Essa ideia do limite é uma das características em “Céu ausente”. Não a única.

Meus personagens podem optar por nada fazer, pois escolher nem sempre significa agir, ou podem desejar mudar a vida drasticamente. Colocar o ser humano cara a cara com situações extremas é o tipo de recurso que admiro na literatura. Para mim, boas histórias possuem esse atributo.

Fugir de casa usando os olhos do Borges recortados de uma foto, ou colocar uma armadura para encontrar seu grande amor numa manhã de sol? Ficar na praia dos primeiros encontros e aguardar seus ossos virarem pó sob o efeito do salitre, ou se entregar a alguém numa noite de luxúria com “o azul mais puro represado nos olhos”? São escolhas feitas por cada um. Conscientes ou não.

E para cada um, uma falta, uma ausência; até mesmo do céu, das tais gaivotas. Dessa falta vem o deslocamento. Desse movimento para fora, o tal deslocamento, surge a impossibilidade que pode se converter num tipo de liberdade ou numa prisão.

Ao perderem qualquer tipo de esperança, meus protagonistas fazem escolhas. Sempre pungentes e irrevogáveis. Coube a mim trabalhar arduamente a linguagem e mostrar isso ao leitor.

 

DA – Essa condição limite, que você alude com precisão, também se faz presente nos seus dois livros de contos anteriores, “O amor é uma coisa feia” e “Allen mora no térreo”. Neles, você equilibra o peso dramático com doses de humor e muita ironia. Já em “Céu ausente”, eu sinto que o acerto da balança se dá pelo lirismo, um olhar menos judicioso em relação às vidas ali apresentadas. Você sente uma evolução ou amadurecimento no seu modo de narrar?

GUSTAVO RIOS – Com certeza. Essa maturidade deriva de diversos fatores. Uns óbvios e outros nem tanto. Dos óbvios, listo o mergulho em novos autores. Além das vivências pessoais em geral. Dos nem tão óbvios, acho que, com o passar dos anos, eu perdi a fé na ideia de que escrever é um processo “mediúnico”.

É uma ideia engraçadinha, mas explicável: durante muito tempo, acreditei que a escrita era um processo totalmente baseado em inspiração, nada mais. Acreditava que qualquer tipo de intervenção nesse contato com o “plano astral” arrancaria a carga emocional e vital de meus textos.

Nada disso! A linguagem é o veículo, digamos. É com ela que devemos trabalhar. Tratá-la com dignidade. Entender que o leitor é um outro. Diria até um objetivo, pois queremos ser lidos — algo diferente disso é ser um mentiroso patológico ou um louco; não cola esse papo de escrever para si mesmo. Precisamos encantar essa pessoa sem nome nem rosto. Fazer que ele nos siga e se comova.

Ao acreditar nessa mediunidade, o temor era perder o “caráter intenso e sufocantemente humano” de minhas histórias, usando aqui uma ideia do britânico E. M. Forster quando fala sobre o romance. Entretanto, aprendi que devemos “sacrificar o papagaio” algumas vezes. Coisa que o Poe fez lá atrás, ao trocar o papagaio pelo corvo (imaginem!).

Essa busca, que passa pelo trabalho com a linguagem, não deve nos ferir, todavia. Não aceito qualquer coisa pra agradar essa figura mítica, necessária, cruel e silenciosa. Temos de ter um limite, um acordo. Meus contos têm de estar encharcados de vida. Não negocio nada menos. Fora disso, escreveria coisas e as enfiaria na gaveta, numa boa. É preciso acreditar num tipo de harmonia, manter a vitalidade do conto e da história que é o motivo único dele surgir.

“O amor é uma coisa feia”, por exemplo, é de 2007. É enxuto, franco e menos lírico. Mas foi o meu melhor na ocasião, nada mais. Já o “Allen mora no térreo” tende a ser mais longo. Corri alguns riscos na busca de uma voz lírica adequada. E, bem, nem sei se consegui o que desejei em todos os seus contos, sendo bem franco. Mesmo assim, amo os dois. Assim como o de poesia, “Rapsódia bruta: poemas e outras brutalidades” e as participações nas coletâneas – falo dos contos “Ernest”, presente na coletânea “Tempo bom”, e “A noivinha do Cabula”, da coletânea “As baianas”. Todos eles são etapas de minha busca. Que só está começando.

 

DA – Acredita na máxima “é fácil escrever difícil e vice-versa”?

GUSTAVO RIOS – Para um escritor, será sempre difícil, ainda que ele deseje facilidades. E não me entenda mal; não se trata de dramatizar a coisa toda. Quero apenas lembrar que, onde há intenção e certo grau de transcendência, há trabalho a ser feito. Dificuldade, portanto.

Todo escritor nasce vocacionado, está sujeito a epifanias e tem seu olhar mais aguçado para o que supostamente é banal. Se ele irá converter esse poder em ofício e se denominar escritor, é outra conversa. Para ele, a literatura deve ser resultado de sua intenção. Sem intenção, nada feito.

Sou filho dos quadrinhos, da coleção “Vaga Lume”, da televisão, dos beats, dos fanzines, da música e do cinema. E tudo isso me levou a buscar a literatura. Em algum momento, entendi que escrever era maior.

Parte dessa escolha foi enxergar o real alcance da minha vocação. Foi quando comecei a escrever poemas, textos, roteiros de HQ nunca publicados e bobagens para, em seguida, tentar vencer alguns cânones, numa tentativa de aprimoramento. Lembro agora de quatro: António Lobo Antunes, Faulkner, Joyce e Cervantes.

O primeiro é fabuloso; parece reinventar a literatura a seu modo. É denso e inigualável. O segundo não foi tão complicado quanto parecia. Precisei, sim, de concentração e de entrega. Levei tempo, mas o admiro demais pela força de sua obra.

O terceiro, Joyce, ainda hoje luto com empenho — no caso do “Ulysses”; os outros foram devidamente lidos e admirados —, mas tento encontrar um caminho para chegar ao real motivo que faz essa obra repercutir até hoje. Já Cervantes, consegui vencer suas mil e tantas páginas, da tradução do Sérgio Molina, sempre curtindo e tentando captar a essência.

E, bem, por que eu lhe falo isso, mesmo correndo o risco de parecer um boçal? Digo pelo fato de que eu desejo enxergar o que cada um deles realmente buscava. Quais eram as suas intenções e como foi que eles conseguiram.

Então, respondendo a sua pergunta, creio que escrever será sempre difícil, no sentido de ser trabalhoso e árduo. Mas não enxergo isso como flagelo.

 

DA – Outro ponto curioso está no uso que você faz do tempo e do espaço da narrativa. A maioria dos seus contos dispensa a intriga, o enredo mirabolante e um efeito surpresa, concentrando-se na carga dramática das situações limites que já falamos. Há momentos que me remetem ao teatro. Você aprecia o gênero? É leitor de dramaturgia?

GUSTAVO RIOS – Aprecio o gênero e já li algo dos grandes dramaturgos e poucos contemporâneos, como o Artaud, citado no conto que dá nome ao livro, o Nelson Rodrigues, fabulosamente obrigatório para escritores, tudo da Hilda Hilst e o Matei Visniec. Quanto ao tempo e ao espaço da narrativa, fiquei intrigado com sua observação. Pois não me passou pela cabeça que eu poderia estar me aproximando de qualquer técnica de dramaturgia, seja ela clássica ou mais arrojada. Achei curiosa sua observação, por não enxergar muito de teatro no que faço.

 

DA – Quanto à matéria-prima de seus contos, a maneira como você descreve a vida e o cotidiano pequeno burguês, evoca para mim muito de Nelson Rodrigues. Em sua opinião, o que mais mudou na vida privada brasileira do século 20 para cá?

GUSTAVO RIOS – Na essência, quase nada. Continuamos hipócritas, temerosos, crédulos, esperançosos e egoístas. Traímos, buscamos a felicidade e sonhamos com dias melhores. Parte de nós deseja a Revolução Bolchevique — contanto que não invadam nosso quintal num belo domingo de sol e “churras” —, enquanto a outra espera que Jesus resolva finalmente voltar e, num singelo movimento de mãos, arranque todo o mal desse mundo, menos o praticado por nós.

Em resumo: a vida privada é uma fonte sem fim para escritores. Pode ser para um enredo, uma cena, um personagem. E o Nelson sabia se aproveitar disso. Devo muito a ele, sem dúvida.

O ambiente familiar do menino Cipriano, do conto “O encontro”, foi fácil de construir. Assim como a angústia do esposo em “Margherita”: quantos homens e mulheres não passaram por aquilo, e “ainda, ainda, ainda…” seguem casados? “Céu ausente” é meu pai, obviamente reconstruído para o leitor, enquanto “Cadelinha” poderia ter sido algum vizinho meu. Por sua vez, “Chuva para dois” é um apanhado de amigas e mulheres que conheci. E “O menino dança” tenta falar sobre a morte do garoto João Pedro no ano de 2020, no Rio de Janeiro, o único conto baseado numa notícia.

A vida privada me interessa na medida em que, por ser um tanto secreta, permite que nosso verdadeiro sujeito venha à tona.

Quanto a nossa evolução, acho que do século passado para cá evoluímos. Mas não o suficiente para nos tornarmos seres isentos de brutais contradições. Como falei acima: somos seres humanos. Continuemos!

 

DA – Como foi a experiência de estrear pela Rocinante, coleção da Sete Letras onde passaram diversos autores hoje badalados como Carola Saavedra, Julián Fuks e Ana Paula Maia, dentre tantos?

GUSTAVO RIOS – Foi minha primeira relação com uma editora. Até então, eu publicava em sites, blogues e em fanzines. E foi uma experiência bacana, um aprendizado. Parte da postura citada na outra pergunta veio desse momento: entender a importância de se editar, de selecionar, do corte, dos tais sacrifícios. Tive uma liberdade imensa no resultado final. Mas era algo discutido e proposto. O “bater do martelo” era meu, incluindo a ideia da capa.

Além do mais, foi um salto; o que chamam “furar a bolha”. O livro saiu nacionalmente, tendo sido divulgado em diversos jornais. Algumas resenhas surgiram, resultando em convites para publicação de outros textos meus. A Rocinante foi um marco. Tanto para mim, quanto para vários escritores, incluindo os que você citou. Tenho certeza que eles concordariam.

 

Gustavo Rios / Foto: Solange Valladão

 

DA – Você (e uma boa parte desses autores) migrou dos blogues, onde reinava total liberdade criativa, para as páginas impressas. Como avalia o papel das redes sociais como incremento para a independência do pensamento artístico na contemporaneidade? A internet foi domesticada aos interesses do capital ou ainda possibilita a rebeldia?

GUSTAVO RIOS – De fato, havia uma grande liberdade ali. Porém, como antes eu publicara fanzines, essa liberdade já me era comum. A gente podia roubar citações do Nietzsche, fotos do Duchamp e do Dali, bem como poemas do Murilo Mendes e do Chacal. Ao lado colocávamos nossos escritos, tirávamos cópias e isso era vendido a um real na Praça da Piedade; ou menos que isso, não lembro. O que o blogue nos deu foi um alcance infinitamente maior.

Quanto às redes sociais, digo que elas são ferramentas importantes. E pelo mesmo motivo dos blogues: alcance para qualquer artista, não só os escritores. No aspecto da independência, creio que as redes ajudam bastante, apesar de serem espaço para todo tipo de baboseira. Mas são meras ferramentas. Nada mais. E assim devem ser tratadas, iguais ao papel, as máquinas Olivetti, os fotocopiadoras, as impressoras offset, o lápis e a caneta. Só acho que não devemos acreditar piamente que esses suportes não sofrem vigilância e censura.  Daí essa liberdade pode estar comprometida.

 

DA – E depois, com a Mariposa Cartonera, como foi? Você já conhecia a proposta do movimento cartonero antes do convite? Alinha-se com as causas verde e ambiental? Nutre algum tipo de filiação política?

GUSTAVO RIOS – Filiação política, sim. Nunca a partidária. Aprendi com os anarquistas. Meu conhecimento dos ideais “anarco” me ensinou sobre essa estrutura de poder que muda a cara, mas não a essência. Mesmo assim, não acho que votar nulo seja um caminho. Ainda…

Fui contrário ao antigo governo, uma canalhada sem tamanho. E tenho votado na esquerda há décadas, esperando que ela aja como tal, apesar das evidentes melhoras de uma maneira geral.

No movimento cartonero, cada livro é verdadeiramente único. Pequenas obras de arte. Não só pelo conceito, mas pelo resultado final. “Rapsódia bruta: poemas e outras brutalidades” e “Allen mora no térreo” possuem capas fantásticas. Uma nunca sendo igual à outra; e isso é incrível – fora a encadernação e a proposta. Fiquei realmente lisonjeado com a chance de publicar dessa forma.

Sobre a causa ambiental, obviamente me alinho com suas pautas, por entender que, sem nenhum tipo de atitude, teremos um futuro terrível em todos os aspectos. E gostaria de ser mais atuante nessa luta.

 

DA – Você sente que seu trabalho tem alguma marca geracional? Identifica-se com alguma vertente da literatura brasileira realizada hoje?

GUSTAVO RIOS – Gostaria muito de dizer que não carrego marca alguma, e isso seria o máximo. Caso fosse verdade, eu seria uma bela exceção, quiçá um gênio – dois ou três degraus acima do restante do mundo, olhando já para o futuro, ou pra um espaço além do tempo.

Os anos, os fatos, a política e a vida em si: como fugir desse poderoso conjunto? Como negar que produzo e me comporto sob, e não sobre, a força dos fatos da história que não para de nos surpreender em seus repetidos erros? Seria prepotente e falso.

Uma geração pode compartilhar angústias, mas a resposta sempre carrega algo de pessoal. Dessa forma, creio que eu possa ter algo comum com outros escritores; não vejo problemas nisso. Contudo, e francamente, não consigo identificar padrões de trabalho com algum grupo. Ao menos na forma, pois as temáticas tendem a se repetir, independente da geração.

Toco no assunto da temática porque suspeito que todas as histórias já foram contadas. Do amor. Das viagens. Das guerras. Porém, pela forma de dizer, eu posso dar uma resposta particular. E com isso pretendo cravar algo meu na literatura. Sei que essa marca também é resultado de influências, de outros antecedentes. Mas não estou inventando a roda. Estou tentando embelezá-la mais um pouco, quem sabe.

 

DA – No conto “O menino dança”, você faz de James Brown personagem. Já em “Caso você fique”, a música de Jimi Hendrix serve como exemplo para uma vida ideal. Em seus livros, as referências musicais são constantes e nada gratuitas. Qual a importância da música pop na sua formação de escritor?

GUSTAVO RIOS – Em 18 de maio de 2020, o garoto João Pedro foi morto numa operação policial no Complexo do Salgueiro, no Rio. Os familiares só encontraram o corpo 17 horas depois. Por essa época, George Floyd morria asfixiado por um policial que colocou o joelho em seu pescoço, em Minesotta. Certa noite, enquanto eu escutava as duas notícias na televisão, por acaso rolava numa playlist “My Thang”, do James Brown. Assim surgiu a ideia do conto “O menino dança”.

“Caso você fique”, escrito há mais de uma década, foi resultado do término de um relacionamento conturbado.  Ela havia acabado de sair de meu apartamento. Resolvi que “Spanish Castel Magic”, do Hendrix, ajudaria a melhorar o meu estado. Sentei e escrevi a primeira versão. Os vizinhos não gostaram daquilo às sete da manhã de um domingo.

“Japão” foi totalmente inspirado numa música chamada “Polaroid”, da banda baiana “A Flauta Vértebra” (por sinal, título de um poema do Maiakovski). Depois do primeiro rascunho, foi só arrumar. “The Day After” surgiu depois de ter assistido “Amacord”; escutei Nino Rota, que não é pop, durante as primeiras versões.

Em resumo: dentre outras fontes de inspiração, a música pop é uma das mais importantes para mim. Mas não só ela: já escrevi poemas ouvindo Piazzolla, já criei contos ao som do Ravel, e o meu primeiro livro tem como título o nome de uma música, “O amor é uma coisa feia”. Uma pancada “roquenrol” de poucos minutos.

 

DA – E como se deu sua descoberta da arte? Recebeu algum estímulo na infância?

GUSTAVO RIOS – Não sei te dizer, com franqueza. Eu acho realmente que escritores nascem com a vocação. E que a seguem, com maior ou menor intensidade. Ou as ignoram e seguem suas vidas. Plantando tomates ou vendendo seguro de vida. Quanto aos estímulos, poderia citar aqui as revistas em quadrinhos que ganhava sempre de meus pais. Além de um punhado de amigos de infância que adoravam desenhar super-heróis tentando salvar o mundo em ruínas.

 

DA – Pra finalizar, conte-nos quais são seus projetos futuros. Está trabalhando num novo livro?

GUSTAVO RIOS – Sempre tenho contos para arrumar, além do esboço de uma novela que vai levar bastante tempo para ficar pronta. Preciso rever, cortar, essas coisas. Enquanto isso, continuo trabalhando duro na divulgação de “Céu ausente”, que é, sem sombra de dúvida, o meu melhor livro. Até agora.

 

 

Jussara Azevedo é carioca, graduada pela Escola de Belas Artes da UFRJ e cursa mestrado em Letras na USP.

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

MAGLORE – V

 

 

2023 já está entre nós, mas considerando que o ano novo só começou oficialmente depois do Carnaval, ainda temos tempo de reverenciar os melhores álbuns do ano que passou. Indiscutivelmente o quinto álbum de estúdio da Maglore ocupa todas as listas do meu coração. E aqui faço uma mea culpa, pois confesso que por um desses lapsos diante da vastidão do universo musical e da distância geográfica, conheci a banda tardiamente —mais especificamente durante a pandemia, por indicação de um músico paulista e match do Inner Circle — através de Maglore Ao Vivo (2019). A energia do registro do show foi meu combustível por muitas e muitas faxinas e assepsias anti-Covid. Declaro aqui também que responsabilizo veementemente meus amigos (ouviram isso, Fabrício Brandão, Leila Andrade e Taiana Gomes?) por me esconderem por tanto tempo essa pérola baiana chamada Maglore.

Formada por Teago Oliveira (voz e guitarra), Lelo Brandão (guitarra e sintetizadores), Felipe Dieder (bateria) e Lucas Gonçalves (baixo), o grupo detém uma bela trajetória desde seu primeiro álbum, Veroz (2011). Ao longo de mais de uma década de carreira seus integrantes puderam amadurecer e arriscar-se, vide os elogiados trabalhos solos de Teago Oliveira, com Boa Sorte (2019) e Lucas Gonçalves, com Se Chover (2020) e Verona (2021). Lançado em agosto, V (2022) bebe da rica fonte do rock clássico e da MPB setentista e contemporânea. As 13 faixas passeiam por reflexões pós-pandêmicas, inseguranças e pautas universais, como o amor e suas variáveis e a inevitável passagem do tempo. Sobra espaço também para a crítica social do conturbado momento político que vivenciamos nos últimos quatro anos.

 

Maglore / Foto: divulgação

 

A dançante A Vida É Uma Aventura (a gente envelheceu, a gente superou/cada momento em que a vida foi mais dura), primeiro single liberado, abre o álbum em estilo cinematográfico fazendo jus ao seu título e dando a deixa para o soul tropical de Amor de Verão (quero o meu amor de verão/na próxima estação, no céu escuro/quero o meu amor de verão/na próxima estação, quebrando tudo), que traz aquela força típica que uma paixão arrebatadora nos dá. O refrão de Espírito Selvagem (eu sou assim há séculos atrás/ nos olhos do meu filho vejo o rosto do meu pai/não tenho guerra com ninguém/nem vendo solução/sou espírito selvagem sem buscar aprovação) tem um quê de hino de juventude e aborda a magia de ser livre. Ou como diz os versos do folk existencialista Transicional: “e não há certo/e não há errado/é sobre ser/tudo que se é”.

A balada Vira-Lata (vem e me mata/do jeito que eu sou vira-lata/eu vou te seguir) é releitura de um single de Lucas Gonçalves lançado em 2020 e ganha aqui um compasso mais rápido. Lembram da promessa de Amor de Verão? Pois ela se confirma em Outra Vez (planos e viagens, briga à beça, mil mensagens/coração a mil, sensação boa de enlouquecer…). Mas nem só de amor vive o álbum. Está aí o pop sessentista Talvez (talvez/eu te queira, mas depois/que cê for embora, vai saber/talvez/eu te telefone, assim/que você se desligar de mim) para comprovar, refletindo sobre aquelas relações em que só valorizamos o outro depois que o perdemos. Aliás, a nostálgica Amor Antigo, nos lembra justamente que “a história sempre tem um fim/o amor não”.

A faixa mais politizada do álbum sem dúvida é o rock Eles (eles não entendem o que são/não há beleza, é só tristeza e vício em destruição), que tem clipe oficial em vermelho-sangue. A ela faz companhia a psicodélica Maio, 1968, que, inspirada nos Beatles, faz um breve apanhado dos acontecimentos históricos dos últimos 50 anos. A antagônica Medianias — bela composição de Lucas Gonçalves, que assina um total de cinco canções do álbum — lembra Secos e Molhados, mantendo inclusive a contrariedade de seus versos. O pseudo-reggae Revés de Tudo (ao revés de tudo/sem nenhum segredo/cansados do mundo/e sobrevivendo) conta a história de ascensão e queda do “póbi” Reinaldo, personagem da canção, enquanto a bossa orquestral Para Gil e Donato — única parceria entre Teago e Lucas — finaliza o disco com todo o lirismo que seus ilustres destinatários merecem.

Com uma discografia que conta ainda com Vamos Pra Rua (2013), III (2015) e Todas As Bandeiras (2017), o quarteto baiano radicado em São Paulo firma-se como umas das bandas mais consistentes desta geração. Com letras poéticas e uma base sonora altamente eficaz, a Maglore é sem sombra de dúvidas uma das maiores bandas da atualidade. Isso mesmo, banda no sentido mais amplo que possa existir, sem complemento para rotulá-los em nichos específicos como pop, rock ou nova MPB. Lucas Gonçalves e Teago Oliveira destacam-se como excelentes compositores, não por acaso o último teve as canções Motor e Não Existe Saudade no Cosmos interpretadas pelos já saudosos Gal Costa e Erasmo Carlos. Espero que você não demore o tempo que eu levei para conhecê-los, pois definitivamente Maglore nos deixa legal.

 

 

Larissa Mendes é às vezes um clichê, mas deseja a todos um excelente 2023, repleto de boa música e diversos afins.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Marcelo Frazão

 

A arte de fotografar não se resume a clicar e registrar um momento de uma pessoa ou objeto. Todo e qualquer registro artístico envolve, além do olhar, percepção e sensibilidade. A técnica é importante, mas deve passar despercebida como em qualquer outra arte. Fotografar é uma arte solitária.

Profundo conhecedor do ofício, Edgard é doutor em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ, mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA, onde leciona na Graduação e Pós-Graduação e desenvolve pesquisas sobre a imagem. Participou de eventos culturais e expositivos no Brasil, Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Estados Unidos e Portugal, bem como de uma residência artística na Escola Superior de Artes Visuais da Ilha da Reunião (FR) em 2008. Entre 1994 e 2004, trabalhou como instrutor/professor de pintura na Oficina de Artes Visuais do Museu de Arte Moderna da Bahia.

Edgard Oliva é um fotógrafo que incorpora o aparelho fotográfico ao próprio corpo para revelar o oculto. A técnica não é percebida até o observador se dar conta que está envolvido e preso na fruição da imagem. Este é o mistério: saber definir toda uma paisagem que aprisiona num único click. É como olhar um pensamento. E isto é mágico. Fotografar não é apenas clicar. É inspiração. É a arte e a paixão de quem congela o tempo, deixando muito de si no registro da imagem.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – Qual seu primeiro contato com a fotografia?

EDGARD OLIVA – Desde a minha infância, adolescência. Meu pais gostavam e minha mãe era a fotógrafa da família desde quando meu avô a presenteou com uma câmera fotográfica nos anos 1940, por aí. Nos anos 1970, ela teve uma Kodak Instamatic e foi com esta câmera que eu iniciei os primeiros cliques na adolescência, entrando pela vida universitária, no final do anos 1970.

 

DA – Nos tempos de hoje, a fotografia ainda é possível como profissão?

EDGARD OLIVA – Sim. A fotografia digital proporcionou que muitos “novos” fotógrafos, e fotógrafas, tivessem a oportunidade de realizar com mais rapidez o aprendizado da fotografia. O autoaprendizado através dos tutoriais facilitou muito o interesse pela profissão de fotógrafo/a, além dos cursos particulares possíveis de serem realizados, pois o custo do material deixou de existir. Contudo, os equipamentos ficaram mais caros, mas o fator custo benefício compensa.

 

DA – Fotografia: analógica ou digital?

EDGARD OLIVA – Analógica para os apaixonados pela química, a fotografia arte, a imagem manual e mais racional, pensada e que não podemos “deletar”.

A digital para os apaixonados pela imagem, a imagem instantânea, a imagem eletrônica, mas que não perde seu valor estético conquanto imagem e arte, naturalmente. Contudo, penso que, tanto na categoria arte quanto no documentário e no jornalismo, todas as categorias se beneficiam muito bem da tecnologia atual.

 

DA – Qual o seu maior prazer em relação à fotografia?

EDGARD OLIVA – Alcançar na captura da imagem o que meu olhar consegue perceber e capturar a partir da luz não premeditada, pré-definida, mas a luz que se apresenta para o fotógrafo. São as melhores imagens, pois elas nos dão sensações diferentes, são emoções pós objeto iluminado e capturado pelo olhar mecânico/eletrônico do equipamento.

 

DA – Possui alguma mania quando fotografa?

EDGARD OLIVA –  Não, somente estar só e “escutar” o que a luz me ensina. A qualidade da luz/imagem é o mais importante.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – O que é imprescindível para se obter uma boa fotografia?

EDGARD OLIVA –  O imprescindível: sensações e emoções. Previsão do resultado, dominar a luz a partir do uso correto do equipamento.

 

DA – Como você avalia a leitura da imagem fotográfica hoje?

EDGARD OLIVA – Se você tem um grupo de aprendizes de fotografia é importante iniciar pela leitura de textos para que o texto te traga à imagem. A imagem, para nós humanos, não existe sem o texto porque, ela própria, a imagem, já é um texto. Se a lemos visualmente é porque ela nos proporcionou interpretá-la. Sendo assim, é importante compreender a imagem para que possamos lê-la corretamente. Ela, a imagem, é o que foi em um passado recente ou outrora existente como sujeito registrado como fotografia.

 

DA – Em relação ao ensino da fotografia, quais os principais desafios a se enfrentar?

EDGARD OLIVA – Educar o olhar, avaliar qual o equipamento a ser utilizado, entender por que eu quero me aproximar dessa tecnologia tão desejada pelo homem no passado, e somente lembrando que a imagem fixada em um suporte a partir da luz foi pensada por Aristóteles em 350 a. C. Por aí, vejamos, relatando esse início da produção imagética aos alunos ou a aprendizes individuais, o desejo em desfrutar desse poderoso invento aumenta. Nesse sentido, colocar o aluno no laboratório de fotografia e ele perceber, aprender como foi o início de todo o processo, a aluna ou aluno logo quer saber mais sobre o continuum da formação da imagem. Entretanto, seguir adiante na carreira, fica à luz de cada uma/um. Assim, o desafio está como fazer a pessoa se apaixonar e desejar mais.

 

DA – Qual deveria ser o foco de um fotógrafo iniciante para aprimorar seu trabalho?

EDGARD OLIVA – O próprio ser humano. As expressões, os ambientes que os representam, as identidades pessoais, a busca por uma luz própria. A luz é a assinatura de cada fotógrafo.

 

DA – Como você vê a produção acadêmica? Ela difere da fotografia do dia a dia?

EDGARD OLIVA – A fotografia acadêmica se fecha dentro de um reduto acadêmico e científico, teórico ou teórico-prático. É preciso ter muito cuidado para não perder o lado pessoal de identidade própria conquanto fotógrafo artista ou documental. A fotografia acadêmica é muito importante do ponto de vista da compreensão e interpretação das imagens. Por isso eu fui por este caminho, a universidade, como pesquisador e professor. Não bastava fotografar, mas entender melhor meu objeto a partir do meu olhar.

A fotografia autoral e independente da estrutura acadêmica proporciona uma outra experiência, a experiência do livre árbitro, de um poder de decisão imenso e importante para a carreira do fotógrafo. O processo dá-se como o voo da águia: é solitário, mas com o olhar preciso.

 

Edgard Oliva / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A imagem tornou-se banal com o advento dos celulares ou essa tecnologia foi um ganho?

EDGARD OLIVA – Ela banalizou. Contudo, ocorre hoje o que ocorreu quando, em 1888, o George Eastman criou a primeira câmera fotográfica em pequeno formato e, com isso, ele permitiu popularizar a fotografia ainda no século XIX. Incrível, mas ele fez isso numa época em que somente quem poderia pagar para um fotógrafo a reprodução de uma cena de família teria chances de ter uma imagem da nova tecnologia à época: a imagem mecânica, não mais a pintura como documento, a luz e a química se complementando através do sistema negativo positivo, elementos os quais ressignificavam os processos de obtenção da “nova imagem”. No presente, os equipamentos eletrônicos dominam nosso cotidiano. A câmera fotográfica digital miniatura, que não existe mais, substituída pelos aparelhos de telefone celulares. Com esse advento, a imagem sim, banalizou, mas a arte e o documental ganharam. A fidelidade ou a abstração da imagem adquiriram valor de Fine Art, valor monetário e cultural no sentido de possibilitar maior acessibilidade em todos os aspectos.

 

DA – Qual o maior inimigo da fotografia enquanto arte?

EDGARD OLIVA – Como eu disse anteriormente, a fotografia deve ser vista como imagem do cotidiano, aquela em que se registra o dia a dia da/do cidadã/cidadão (Facebook, Instagram e Twitter, etc.), a imagem para a imprensa ou a imagem dedicada à arte. São três níveis de imagens os quais devemos observá-las com cuidado. Elas nos revelam estratos do olhar e do modus operandi do sujeito que a produz. Não podemos nos dissociar mais desses três níveis de produção imagética. Nesse sentido, é preciso estar de olhos abertos para a fotografia arte porque ela nos coloca em outro patamar, nos tira de uma visualidade simples para uma visualidade interna, para uma reflexão da nossa própria existência e como percebemos a presença do outro no nosso contexto social.

 

DA – Existe uma fotografia baiana?

EDGARD OLIVA – Existe sim, e ela está impregnada em cada um que aqui na Bahia fotografa. Eu diria que mesmo para quem não é baiana/baiano, chegando na Bahia e tomando a nossa paisagem visível, em todos os sentidos, e realizando imagens para o documental ou para o viés artístico, é uma fotografia baiana, pois ela está impregnada de elementos nativos da Bahia. Então, eu acho que a fotografia ganha identidades a partir do local onde elas são capturadas, e não porque tal e tal fotógrafo ou fotógrafa utilizou do equipamento para isso. Há nomes em nosso estado sim, são genuinamente baianos que preservam a identidade cultural da Bahia, uma Bahia de múltiplas facetas, e isso nos garante uma particularidade.

 

DA – Qual considera o seu trabalho (ou trabalhos) mais icônico?

EDGARD OLIVA – Todos os trabalhos que eu pude realizar até o presente considero icônicos. Contudo, os registros sobre a estética dos presépios na Chapada Diamantina foram os registros mais importantes para minha carreira conquanto fotógrafo artista. Da orientação do olhar para a leitura a partir da semiótica da imagem e compreendê-la não somente como fotografia, mas como objeto de estudo para entender o homem e as história pessoais a partir do contexto de oralidade regional, foi muito importante. Os demais projetos que realizei, e que ainda realizo, estão dentro de uma perspectiva da subjetividade da imagem, a imagem conquanto paisagem interna, as paisagens que nos fazem sofrer ou repensar nosso passado e presente. São paisagens interiores transferidas de modo subjetivo para o olhar do espectador. Daí, necessitamos expô-las e abrir diálogos com o espectador para satisfazê-lo, compreender a partir de um olhar “estrangeiro”. É o olhar de fora para dentro, contrário à percepção do artista fotógrafo que olha de si para o exterior.

 

Presépio de Maria da Natividade Souza, Iramaia-BA, Brasil, 2002 / Foto: Edgard Oliva

 

DA – Existe algum tema que jamais abordaria no seu trabalho?

EDGARD OLIVA – Não, nenhum desde que seja possível realizá-lo e mostrar. Cada ideia pode se transformar em um projeto importante, mas nem todo projeto poderá se tornar importante.

 

DA – Um livro imprescindível para o fotógrafo.

EDGARD OLIVA – Bem, existem vários. Desde os de conteúdo técnico/tecnológico até os livros autorais que tratam da imagem fenomenológica, da fotografia conquanto documento, da fotografia arte, enfim, se você quer saber qual me orientaria melhor no aprendizado sobre como obter uma boa imagem, eu indicaria “A câmera” de Ansel Adams, assim como “O filme” e “O negativo” do mesmo autor, um renomado fotógrafo norte-americano que investiu muito na qualidade da imagem, a imagem em preto e branco e com todas as gamas de cinzas indo do preto total ao branco total, ou seja, luz e não luz. Mas, se você me pergunta sobre a imagem tecnológica e numa linha filosófica, eu indico o título “Filosofia da Caixa Preta” de Vilém Flusser. Mas, se se trata da imagem conceito, da imagem reflexiva, podemos ter autores como Gaston Bachelard, Henrri Bergson, Jacques Rancière, George Didi-Huberman, Boris Kossoy com uma abordagem fundamentada na história da fotografia e sua temporalidade, e o próprio Sebastião Salgado com o título “Da minha terra à terra”, entre outros, pois nos beneficiam com novas reflexões a partir das imagens, pontuando o que somos neste bioma terrestre.

 

DA – Qual o fotógrafo ou artista, vivo ou morto, gostaria de convidar para um bate-papo ou um café?

EDGARD OLIVA – Pensando bem, o Hiroshi Sugimoto. Na minha opinião, ele consegue nos mostrar o que não conseguimos perceber com nossa sensibilidade tão conturbada e modificada pela modernidade. São olhares sobre o contínuo do processo da existência, e sobre nós mesmos, para com o outro e a natureza das coisas presentes. A partir desse princípio, eu tomaria um café ou um chá com ele, mesmo sem falar nada da língua japonesa.

 

Marcelo Frazão é artista plástico, poeta e editor. Publicou Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2015). Ganhou o Premio APCA em parceria com Olga Savary. Atualmente trabalha como editor da Villa Olívia e ilustra para o Jornal Rascunho.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Catharina Azevedo

 

Ilustração: Drika Prates

 

O pedido

 

Ela começou a atravessar em um passo pequeno, amedrontado. Os olhos cinzentos e lacrimosos varavam a rua em uma súplica muda, procurando se deter no primeiro transeunte. Era tão velha que parecia parar a qualquer momento para dizer que havia sido testemunha da primeira pedra que colocaram na rua, quando a rua ainda era feita de pedras. Olhá-la era como ver algo capaz de tombar a qualquer momento; não, nem tombar, que haveria no tombo ainda uma violência que não combinaria com ela. Parecia mesmo era prestes a desvanecer, assumir as cores da noite antes de sumir lentamente, imperceptivelmente — ela estaria de mãos dadas com o passante que se deixasse alugar, um tipo mole demais para repeli-la: aqui (a voz trêmula), aqui era a antiga casa de um industrial, uma construção tão linda (os olhos lacrimosos), datava do período do Imperador. Não, acho que era colonial — e em um átimo, seu corpo feito de éter, um vento noturno, nada.

Do outro lado da rua, as meninas faziam ponto. Equilibravam-se em saltos imensos, desfilando os corpos repletos de lantejoulas pretas, rosas, douradas, coladas no busto ou nas saias curtas. Uma delas viu a velha e cutucou a colega com o cotovelo. Apontou para o outro lado com o queixo.

— Ó lá, alguém largou a vovó no Centro.

— Vai ver se perdeu — disse a outra moça. Não insistiu no assunto: um carro preto se aproximava, e por trás do vidro abaixado um homem musculoso fez uma gracinha. Ela se encostou no vidro, o antebraço roçando entre o do homem, as frases retardadas por um chiclete entre os dentes brancos.

A primeira moça continuou olhando. Chamava-se Daiane. Tinha outro nome, mas não importa. Tinha também uma pele branca emborrachada, como de lagartixa. Assim que chegou, disseram que era pele daquelas lá do interior mesmo, as tabaroas. Pois era mesmo do interior e possuía uma história difícil, acreditaria ser sofrida caso não fosse tão atordoada em relação aos seus próprios acontecimentos particulares — uma história dessas que empurra as mulheres pra zona, enfim. Mais do que loiros, os cabelos eram amarelos, tingidos da cor de gema de ovo, e naquele momento Daiane não acreditou que a mulher fosse atravessar a rua.

Porque, por estranho que fosse uma idosa no centro da cidade àquela hora da madrugada, caminhando seu passinho pequeno que ignorava que tudo ao redor estivesse um ermo; mais estranho ainda seria aquela velha prosseguir até o outro lado, visto que do outro lado havia a zona e mais nada. Entretanto ali estava ela, com seu passo de santa. Talvez fosse uma visão de santa.

Daiane se aproximou de outra moça.

— Tem algum velho aí hoje?

A mulher lhe lançou um olhar desconfiado.

— Que foi?

— A senhorinha tá vindo pra cá — Daiane apontou com o queixo outra vez. — Acho que está procurando o marido. Ou o filho.

— E eu com isso? Suma daqui, vá, você está me atrapalhando.

Daiane abriu caminho e voltou ao trabalho. Houve justiça no fato que, uma vez tendo ganhado a calçada, a velha procurasse seu braço para encaixar a própria mão e dizer, numa voz também tímida:

— Mocinha, onde que eu falo com o dono?

Ela deu um sorriso nervoso. Retesou o corpo. Outro carro se aproximava. Tentou afastar o braço com delicadeza, mas o aperto da velha pareceu se tornar, de repente de ferro.

— Preciso falar com o dono.

— Minha senhora, isso aqui é um puteiro.

E a velha respondeu:

— Eu sei.

Muitos pensamentos podiam ter tomado conta de Daiane ao escutar a afirmativa; prevaleceu, entretanto, o medo pelos clientes que perdia a cada segundo que demorava com a velha. Pior ainda se lhe associassem indelevelmente à figura encolhida da mulher — um dos homens nos carros que passavam já havia gritado uma piadinha obscena: é quanto com a vovó? Daiane prosseguia com seu riso nervoso, um riso que mascava o desconforto até que este se encolhesse e se disfarçasse.

Mas não houve jeito de se livrar da velha. Logo as outras moças se aproximaram sorrateiramente.

— A senhora está se sentindo bem?

— Estou, estou sim. Quero falar com o dono.

O “dono” era um homem negro do pescoço de touro que se chamava Cláudio. Se não era bom, também não era de todo ruim. O fato é que nenhuma das moças tinha vontade de chamar por ele — o que seria um sinal de desordem, e não havia, entre elas, nenhuma que quisesse admitir uma desordem. Desconheciam se Cláudio estava de bom humor ou não: a mesma mão capaz de matar um cliente violento, daqueles que obrigam coisas nojentas e substâncias; essa mesma mão poderia lhes marcar a pele caso se sentisse no direito. Especialmente os assuntos relacionados a dinheiro o transformavam em um bruto.

Foi, por fim, Soraia, uma das mais antigas, que resolveu explicar:

— Dona, aqui a gente não tem chefe, chefe é o cafetão.

— Mas é com ele que eu quero falar, mesmo.

E, porque nenhuma delas se moveu um centímetro sequer, a velha ajeitou o casaco de lã e avançou para a construção.

Uma luz vermelha brilhava ali dentro. Dois quartos tinham as portas fechadas; em um se entrevia uma cama de solteiro, encostada na parede, um espelho, uma cadeira e o que pareciam ser revistas pornográficas em uma cômoda. A velha avançou muito cândida pela sala até dar com um homem calvo, de uns cinquenta anos, que ria de um vídeo qualquer no celular.

Ele levou um solavanco. À sua frente, a velha toda tremia. Usava um casaquinho de lã com um único botão grande, fechado sobre o colo.

— Como posso ajudar a senhora? — perguntou, desconcertado, em uma incerteza entre enxotá-la ou apresentar-se mais polido.

— Estou procurando um homem — disse a velha muito claramente.

Atrás, as moças — cinco das quais não tinham medo de aborrecer Cláudio, ou sentiam que dinheiro algum daquela noite pagava serem testemunha dos acontecimentos — suspenderam a respiração.

A velha prosseguiu, como se aquilo se tratasse de uma entrevista de emprego:

— Me chamo Dita. De Benedita, mas todo mundo sempre chamou assim.

— Como que a senhora chegou aqui?

— De condução.

— E tá procurando homem pra que? — perguntou Cláudio, abobadamente.

— Pra fazer amor.

Restou o silêncio. Uma das moças começou então a rir — tentou esconder o riso entre as lantejoulas da roupa, mas este lhe ultrapassou a boca, transformando-se em uma gargalhada que contagiou as outras pouco a pouco. Dita continuava, entretanto, impassível.

— Meu marido morreu faz tempo, estou cansada de ficar sozinha. E, Deus que me perdoe, não era assim tão bom.

— O amor não era bom? — uma das prostitutas perguntou.

— Assim, assim. Mas Deus que dê paz a ele, era um homem justo. Nunca me faltou nada, não.

— Tô vendo que faltou — Soraia respondeu com malícia.

Cláudio fez uma cara feia — estava gostando cada vez menos daquela situação. Bateu as mãos, virando-se ríspido para as moças:

— Bora, circulando. Chega de corpo mole.

A seguir tornou à velha e acrescentou de mau humor:

— Aqui não tem homem nenhum, só mulher.

Esperava com aquilo — não sabia o que esperava. Era inimaginável que a velha fizesse o caminho de volta pelo bairro semi-abandonado àquela hora. Sequer sabiam como ela tinha sido capaz de chegar até ali.

Ficaram assim por um momento, Dita alisando a saia, aprumando o cabelo ralo penteado e perfumado. Estudou as moças uma por uma.

— E mulher? — perguntou, por fim.

Mulheres, haviam; impossível negar. Dita atravessou a todas com o olhar cinzento que lacrimejava. As moças deixaram de enxergar a velha, passaram a ver apenas um corpo nu.

Do centro do grupo, saiu Daiane. Pôs as mãos na cintura.

— A senhora trouxe dinheiro?

Dita agarrou uma bolsinha minúscula.

— Trouxe, tudo aqui.

— Olha que é caro.

Virando-se para Cláudio, acrescentou:

— Acho melhor ela ficar pra dormir, não quero me meter com caso de morte de velha nessa rua.

Tomou Dita pela mão e a levou ao quarto. As moças puderam ouvir a velha falar, antes que a porta se fechasse:

— Deus te abençoe, filha.

Catharina Azevedo é natural de Salvador, Bahia. Em 2020, publicou o conto No Intervalo, presente na antologia “Soteropolitanos” (org. Matheus Peleteiro, edição independente). Seu primeiro livro de poesias, “deixe o bando correr selvagem”, está em pré-venda pela Editora Mormaço.

 

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149ª Leva - 04/2022 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

ANDRÉ LISSONGER – CANÇÕES DEMO SESSIONS 2

 

 

Apesar de ter sido feito durante a terrível situação da pandemia, CANÇÕES Demo Sessions 2, novo trabalho do músico André Lissonger, passa longe de ser um álbum sombrio e tristonho. Ou mesmo uma reunião de anêmicas bravatas “roquenrol” contra o establishment que matou mais de meio milhão.

Com uma bela capa criada pelo próprio, também artista plástico, CANÇÕES Demo Sessions 2, lançado pelo bravíssimo selo Trinca de Selos no começo de 2022, é composto por um apanhado de músicas sensíveis, cativantes e melódicas que elevam ao extremo as composições nela inseridas. Cheio de efeitos que emprestam ao trabalho aquela característica classuda e etérea (scratches instigantes, loops certeiros, vozes dobradas e ruídos meio “outonais”), as 11 faixas do álbum sofrem influência de muitos gêneros, com destaque para o Trip Hop, oscilando numa boa entre os londrinos do Morcheeba e a moçada arrasa-quarteirão da portuária e multirracial Bristol (Tricky, Massive Attack, Portishead; só para ficar na turma dos anos noventa).

Valendo-se também da onda Lo-fi, com sua mistureba relaxante de hip hop, música eletrônica e jazz, André nos surpreende tendo como princípio o espírito “demo” da coisa; espírito que pressupõe arrojo, genuína disposição para experimentar e uma boa dose de liberdade nas escolhas em geral (a vinheta “Olha, Mas Não Mexa” é um exemplo, pela “incitação” a “Girl From Ipanema” de Anitta).

André Lissonger, figura tarimbada no panorama musical baiano, com participações em diversos projetos e bandas, se trancou em casa com seu “estúdio de bolso” (nada menos que o celular pessoal da artista com uns aplicativos geniais) e decidiu viajar. Viajar para dentro – apesar da pompa do release sobre “um olhar sob a tempestade do ‘status quo’ do consumismo e sua quintessência”, ainda defendo a tese do intimismo; mais pertinente, na moral. Da necessidade de criar arranjos para as belas composições de gente como o irrequieto Tony Lopes e do também artista gráfico Joniel Franco (sem falar no “poeta das coisas simples”, Mário Quintana), esse carioca-baiano conseguiu o que, para mim, tem jeitão de proeza: converter imperfeição (basicamente a ideia de um “demo” feito num celular) em música de indubitável qualidade.

 

André Lissonger / Foto: divulgação

 

Explico: hora ou outra, o ouvinte se depara com uma voz que parece desafinar, ou mesmo com letras aparentemente ingênuas e mal trabalhadas – noções para lá de equivocadas. Entretanto, e curiosamente, foi esse combo inusitado e inteligente que me chamou a atenção logo de cara. Lissonger me fisgou pela visão do todo, pelo talento na criação e na execução das músicas, pela consciência do resultado de seu labor (a voz que supostamente desafina tem um motivo, é fruto de uma escolha, de uma concepção) e pelo já citado incomum, fatores que me fizeram pensar a obra inicialmente em termos de experimentalismo.

As letras (ou poemas) se encaixam perfeitamente nos arranjos e vice-versa, numa simbiose merecedora de elogios – e que só o fazer musical proporciona. Temos o hermetismo poético em “Topázios”, passando pela extasiante “Flutuando Sonhos”, do Tony Lopes (“A rua ruge os seus barulhos / Acalenta saudades / Ela livre apenas ri / Com os olhos no Louvre / Sinuosas linhas / Sombras / Com um sol a se opor / A solidão / Quatro paredes / Portas e janelas / Abertas / Como o sorriso / Da Mona Lisa”).

Em “Leblon” percebemos a cadência charm com um piano, enquanto na adaptação musical do texto de Mário Quintana, “Canção do Primeiro do Ano”, a batidinha meio downtempo (considerando o conceito dos 120 bpm’s; aqui bateu 82, 83, de boa) segue abrindo caminho para a complexidade do baixo e para os efeitos de uma guitarrinha wah wah, não na maneira usada no rock e no blues, por exemplo: aqui, a guitarra surge como textura e reforço à atmosfera do som.

Dessa forma, ainda que o baiano-carioca (a ordem dos fatores não altera o produto) André Lissonger não tenha pensado em experimentalismos no decorrer de seu projeto (conceitos e abstrações que só nos levam a labirintos chatos e falsamente intelectuais; o lance é fazer boa música e pronto!), o resultado de seu trabalho me causou aquele tipo de sentimento em que a gente se vê diante de algo novo, mesmo conduzido por elementos já conhecidos – a ideia de um artista em seu estúdio (celular, no caso) criando novos sons sob o método conhecido como bricollage, ou bricolagem, me agradou bastante.

Assim, mesmo que minhas ideias sobre pandemia e experimentos musicais pareçam forçar um pouco a barra na tentativa de explicar CANÇÕES Demo Sessions 2 sugiro que você, querido leitor, escute o cara. E o conheça. Quem sabe você, assim como eu, acerte as contas com a história musical, já que Lissonger está por aí há décadas. Fazendo coisas que valem demais a pena.

Torço pela longevidade dele. E de sua boa música também.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Larissa Mendes

 

O guitarrista, compositor e vocalista da banda Flerte Flamingo, Leonardo Passovi, carrega a objetividade da juventude e a sabedoria de um ancião. O músico de Salvador recentemente trocou a Bahia pela capital paulista na companhia do baterista Igor Quadros, onde atualmente cursa Produção Fonográfica no Conservatório Musical Souza Lima. E como num desfazer de malas, Léo Passovi avalia as transições, assimila mudanças geográficas e estruturais da banda, analisa o mercado fonográfico e sua própria trajetória artística.

Formado no verão de 2015 em Salvador, “com a proposta sonora pautada na espontaneidade das canções compostas por seus integrantes”, o Flerte Flamingo faz um dos sons mais interessantes do atual cenário musical. A mistura de rock e samba com ritmos afro-brasileiros conquista pelo gingado e pelas letras espirituosas e cuidadosamente esculpidas. Hoje com 5 EPs na bagagem, Léo e sua trupe preparam-se para novas aventuras.

As influências musicais do compositor passam por Jorge Benjor, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Arctic Monkeys, Paul McCartney, The Beatles, Papooz, Summer Salt, Stevie Wonder, Kanye West e Peter, Paul & Mary. Além da banda, Léo flerta também com a literatura como colaborador da revista eletrônica Mormaço. “Culpa” esta atribuída ao leitor de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, H.P. Lovecraft, Agatha Christie, Julio Ribeiro, Machado de Assis e Stendhal, para citar alguns autores. Lembram das tais letras cuidadosamente esculpidas? Pois é.

Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Leonardo Passovi aborda os novos rumos da banda (ou do atual duo ao lado de Igor Quadros), suas aspirações artísticas e analisa até mesmo os 15 minutos de Warhol reduzidos a ínfimos 15 segundos de TikTok. Enquanto isso, o Flerte Flamingo prepara-se para o lançamento do EP Truques Velhos Para Cachorros Novos e acaba de divulgar duas novas canções em formato acústico, “Calma, Carolina” e “Ano Que Vem”, para o projeto Sala de Estar. Boa leitura!

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA O último EP do Flerte Flamingo, Outras Duas Músicas de Flerte Flamingo, foi lançado há mais de um ano. O que vocês fizeram nesse ínterim e quais os planos da banda para o segundo semestre de 2022?

LEONARDO PASSOVI – De lá pra cá, muita coisa aconteceu e muita coisa mudou. Nós saímos de Salvador e viemos pra São Paulo. É um processo de adaptação que requer uma boa dose de cautela, porque nós somos muito cuidadosos com o som da banda. Mas, neste meio tempo, canções foram gravadas e devem ser lançadas neste semestre. Sem dúvidas, há coisas por vir.

 

DA – Quais os fatores determinantes para a mudança para a capital paulista?

LEONARDO PASSOVI – Foi muito mais uma questão mercadológica. Estivemos aqui no ano passado e percebemos que, para além da parceria com o Selo Rockambole, há muito terreno a ser explorado e lugares para tocar. É uma terra que pulsa música de todos os lugares, muita gente se encontra aqui. A nossa leitura foi de que esse era o momento.

 

DA – Você acredita que, mesmo com a era digital, ainda é importante “sair da aldeia” para inserir-se no eixo musical concentrado entre Rio-São Paulo?

LEONARDO PASSOVI – Mesmo na era digital, algumas coisas nunca mudarão. O digital facilita em muitas formas, mas não se pode viver disso. A música ao vivo sempre vai se sobrepor. Pode-se ter o alcance cibernético que for, se não se traduzir em presença, de palco e de público, é telhado de vidro, castelo de cartas. O off-line sempre foi o nosso forte, botar 200, 300 pessoas num inferninho e fazer todo mundo dançar e cantar. Esse é o resultado mais prazeroso da nossa expressão musical: a conexão direta com a energia e o calor de quem gosta do som. Depois da pandemia, muita coisa ficou sucateada em Salvador, e em São Paulo há muito a ser explorado. Apenas há de se fazer as coisas com calma e equilíbrio pra que dê tudo certo.

 

DA – Por falar nisso, como vem sendo o processo de retorno aos palcos nesse período pós-pandêmico?

LEONARDO PASSOVI – O retorno aos palcos ainda não aconteceu de fato, porque a mudança pra São Paulo implicou também uma mudança na formação da banda.

 

DA – César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado) e Igor Quadros (bateria) não vieram para São Paulo com você? Aliás, a banda sofreu algumas alterações de integrantes desde sua formação, em 2015. Como você analisa essas transições e quais as influências musicais que cada um trouxe?

LEONARDO PASSOVI – Viemos para São Paulo eu e Igor. As mudanças na formação, de 2017 até 2021, todas tinham sido na bateria, tirando um período de 6 meses em que César esteve fora do país e foi temporariamente substituído. Desde 2019, quando Igor entrou, a formação vinha sendo essencialmente a mesma. Apenas no último trabalho lançado, que Igor estava na França e Gabriel Burgos gravou a bateria das canções. Nosso som, desde os primeiros EPs, teve uma identidade singular, que eu acredito que se manteve, na medida que evoluiu ao longo tempo, seja por ideias novas e melhores, seja por mais intimidade com os processos de produção, gravação e interação entre os músicos. Cada um dos que passaram pelo conjunto contribuiu com sua particularidade e individualidade para o todo, mas a espinha dorsal tem sua linearidade. Esse, na verdade, é o momento em que certamente essas mudanças serão mais sentidas. Estamos medindo bem a temperatura da água antes de entrar.

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA – Como é a tarefa de manter aceso o espírito da banda em meio a tantas mudanças?

LEONARDO PASSOVI – Enquanto há canções para serem colocadas na rua, o espírito se manterá vivo, não importa o que aconteça. Não é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto se imagina. Mas sem dúvidas é a música que faz tudo isso andar.

 

DA – Os EPs Postura e Água Fresca (2017) e Espero Que Você Entenda (2020), além de uma sonoridade que remete a uma certa nostalgia, possui a temática voltada para letras “baseadas em fatos reais”. O que inspira o Léo Passovi compositor?

LEONARDO PASSOVI – Do que nós temos até agora pra tirar como amostragem, realmente são sempre situações de relações humanas, relações amorosas, como 98% das músicas no mundo. Só que acaba sendo muito mais sobre como o eu lírico se sente do que contando uma história. Não tem tanto o viés narrativo quanto o viés confessional das emoções. É uma forma de canalizar o que se sente enquanto provoca uma ou outra franzida de sobrancelha em quem sabe o que está por trás daquilo.

 

DA – Por falar em “viés narrativo”, você é um dos colaboradores da revista eletrônica da Mormaço (editora independente de literatura contemporânea). Como surgiu o convite e qual sua relação com a literatura?

LEONARDO PASSOVI – Entrei na revista quando ela ainda estava muito no começo. Um grande amigo meu faz parte da editora da qual a revista faz parte, e me chamou. À época, eu devia ter escrito um ou dois contos na vida. Mas assumir o compromisso de escrever mensalmente deu um novo gás à expressão criativa. Na infância e adolescência, li menos do que gosto de admitir. Mas tenho tentado tirar o atraso. Sempre gostei de contar história e acessar emoções das pessoas através de fatos. A escrita possibilita uma escolha das palavras certas e definitivas com as quais essas emoções serão provocadas. Além de ter, quase sempre, um toque de terapêutico. Eu recomendo a praticamente todo mundo que pratique a escrita no dia a dia.

 

DA – Em que medida o Léo Passovi compositor se converge com o Léo Passovi escritor?

LEONARDO PASSOVI – Difícil é saber em que medida eles se separam. É o mesmo jeito coloquial, conversativo de se comunicar com quem consome o material, seja lendo ou ouvindo. Quase sempre focando no que a personagem em questão sentiu. Mas enquanto um é em prosa, o outro é cantado; enquanto um tem começo meio o fim, o outro faz uma miscelânea de sentimentos que aos poucos situam o ouvinte.

 

DA – Como é seu processo de composição? É um processo solitário como na escrita ou ao contrário, você prefere as parcerias musicais?

LEONARDO PASSOVI – Completamente solitário. Já fiz parcerias, mas meu ritmo é muito particular, não é muito consistente e o processo acaba sendo muito íntimo e individual. Eu costumo precisar me acostumar muito com a escolha de palavras + melodias antes de dividir. Preciso ter certeza que encontrei a melhor junção. Ainda preciso desencanar e desapegar um pouco de certas agruras do processo pra poder fazer em companhia de outras pessoas. Mas já aconteceu, tanto de escrever com outras pessoas, como de escrever canções diante de pessoas.

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA– Você tem vontade de lançar um projeto solo? Qual a característica do seu trabalho individual que não “caberia” na banda?

LEONARDO PASSOVI – Todo trabalho que eu faço musicalmente é pensando na banda. Muito pontual eu criar algo sem esse propósito. A não ser que seja por pura diversão. Mesmo as coisas que eu componho que não se encaixam com o momento da banda são com o propósito de virar o próximo momento da banda. Flerte Flamingo é o combustível das minhas criações musicais.

 

DA – Como você avalia esse processo de “tiktokzação” da música e a pressão de selos e gravadoras para que os artistas recorram à plataforma para viralizar seus singles?

LEONARDO PASSOVI – Preocupante. Intensifica o imediatismo para com os resultados, enlata um formato desgastante e desgastado. Obriga pessoas que normalmente não têm costume de se comunicar dessa forma a mendigar atenção de maneira patética. Toda a papagaiada das dancinhas, das trends, da ânsia por viralização faz mal a uma multidão e beneficia um ou outro sem nenhum tipo de critério. É um terreno ainda muito movediço, todos os envolvidos ainda estão tateando. Os responsáveis pela elaboração de estratégias que se voltam pra essas ferramentas tentam encontrar algum padrão, mas isso é muito ilusório, porque a qualquer momento algo completamente despropositado rouba a atenção de todos, virando a “nova fórmula”. Enquanto isso, o mundo da música, como parte do mundo do entretenimento, tenta se espremer por ali, suplicando que 15s de música sejam ouvidos, senão a atenção do usuário já foi embora. Ninguém faz 15 segundos de música. Uma canção tem um propósito, uma proposta estética, uma sequência de momentos de humores que empobrecem muito se o foco for criar 15 segundos viralizáveis. É muito triste ver um universo tão rico se submetendo a essas ferramentas por dificuldade de conseguir atenção e financiamento. Vendem isso como uma parte de ser empreendedor, mas na verdade aquilo é a tecnologia fazendo as pessoas literalmente dançarem pra conseguir um tostão de atenção, pelo pavor do esquecimento e pelo desespero pra alcançar alguma concepção de sucesso. Vez por outra, assopra algum vento contrário, algum eco de reação em nome da salubridade das pessoas e dos processos, que dá uma fagulha de esperança a quem percebe o mal que isso faz. Mas é tão inútil dizer que isso é passageiro quanto é dizer que é duradouro. A gente nunca sabe o que vem depois. Mas, nesse quesito específico, as perspectivas não são animadoras.

 

DA – É possível conceber a vida sem a arte? Qual sua maior “munição” enquanto artista?

LEONARDO PASSOVI – Nos últimos anos ficou bem claro que a arte é o forro interno que nos mantém sãos. Muito mais do que mero entretenimento, é a vida se olhando em espelhos. A arte joga luz sobre as coisas que a vida prática esfumaça. A função do artista é observar, apontar o dedo é falar “ói”, pra que as pessoas vejam o que elas não estavam prestando atenção. Mas o artista também é gente. Então tem hora que o artista simplesmente vai querer falar sobre como ele se sentiu. E isso toca a pessoa na medida em que ela sentiu aquilo também, ou apenas empatiza com uma forma convincente de expressão. A munição é a capacidade de observação e as experiências alucinantes que a vida propicia. As menores coisas podem virar as maiores presepadas. A beleza tá em saber retratar.

 

Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por conversas profundas, postura e água fresca.  

 

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145ª Leva - 05/2021 Drops da Sétima Arte

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

EU NUNCA ATRAVESSEI O RIO

 

Eu nunca atravessei o rio Almada. Estive sempre em sua margem brincando no raso enquanto meus irmãos se aventuravam mais fundo, onde meus pés não alcançavam. Um fundo ainda raso porque, embora maiores, eles eram, como eu, crianças. Mas podiam nadar e mergulhar por baixo das canoas. Penso que poderia, também, fazer aqueles mergulhos. Uma vez eu tentei, mas parecia tão larga aquela canoa. Não tive coragem.

Minhas brincadeiras eram naquela beirinha em que o cobre do rio ficava mais transparente, como se um pouco de mel tivesse sido dissolvido na água. Eu sentava sentindo o sol nas costas e a água fresca nas pernas.  Ali as piabas chegavam bem perto. Eu tentava cercá-las como quem pastoreia vacas no curral. Elas eram mais rápidas. Escapavam como as galinhas do quintal de minha avó, mas sem algazarra. Espantadas e silenciosas. Escorregavam pelos meus dedos como a água do rio talvez escorresse para o mar. Sim. Talvez. De meu raso eu não percebia a correnteza do meio do rio. O único movimento eram as ondas do mar no horizonte, onde o rio finalmente despejava suas águas castanhas no azul espumoso do oceano. Eu achava um mistério aquelas ondas que não terminavam na praia como acontecia na praia do Malhado. Que sabia eu, tão criança, sobre o movimento dos rios? O rio Almada não corria à porta da minha casa. Para mim ele estava parado. Eu não conhecia o rio Cachoeira do outro lado daquele grande ilhéu que era minha cidade. Sabia da ponte que atravessava para o Pontal, onde morava minha avó. Mas aquela era uma água vista de longe, de dentro de um carro. No Pontal, havia a praia salgada e os navios encalhados na areia. Nada que lembrasse um rio. O Almada, na porta da minha casa, era aquele rio que parava antes do mar. Imóvel. Para sempre.

Sentado no meu raso, descansei as mãos no fundo, espalmadas para cima como se, em posição de ioga, esperassem a energia do mundo penetrar por elas. Minha calma atraiu, enfim, algumas piabas. Uma nadou por sobre minha mão e, de surpresa, consegui agarrá-la. Que delicado o toque daquele corpo minúsculo e saltitante. Fiz das minhas mãos duas conchas que se fecharam suavemente em torno. Ela pulsava ali dentro como um coração. Gelado, escorregadio. Fazia cócegas. Eu me senti poderoso por conquistar aquela vida para mim. O peixinho não pertencia mais ao rio.

Era meu.

Quis mostrar para meus irmãos. Chamei os dois. Procurei entre as canoas. Não estavam mais na água. Já subiam o barranco para a nossa casa ali em frente, na vila militar. O almoço. Eu queria ficar com a minha piaba, mas eles, parados no meio do caminho, gritavam a ordem de subir. Não podiam ir sem mim. Eu não podia ficar.  Fui atrás, resignado. Era um dia de domingo. Eu sabia que poderia descer no meio da tarde. Eles voltariam para o futebol e mais mergulhos. Eu voltaria com meus carrinhos para a beira da água, para os peixes, para o meu peixe. Bastava guardar o meu tesouro em um lugar seguro, para que ninguém pegasse.

Não contei a ninguém do meu tesouro. O almoço foi lento. As conversas em volta da mesa. Eu quase não falei. Tinha um segredo. Qualquer palavra que dissesse poderia deixar escapar o peixe de minhas mãos em concha. Ele saltitava dentro de mim como uma alegria. Brincava na minha imaginação dando saltos de um lado a outro da água. Eu fazia túneis com as mãos, barreiras com as pernas… a piaba nadava veloz pelos labirintos do meu corpo, mais água do que peixe. Bastava esperar a tarde. Bastava guardar o segredo. O silêncio.

Mas aquela não seria uma tarde de domingo silenciosa. Antes de acabar o almoço, vieram gritos do rio. Alguém veio chamar meu pai. Um alvoroço se espalhou pela rua. Minha mãe nos proibiu de sair. Ela saiu. Meus irmãos cuidariam de mim. Ficamos a tarde inteira sozinhos vendo a televisão com seus chuviscos dissonantes. Era meu pai quem movia a antena até a imagem estabilizar. Da rua não vinha nenhuma notícia. Todos estavam na beira do rio. De casa não podíamos ver. O barranco. Dali, nossa visão do rio era a outra margem, onde havia um grupo de pessoas observando.

Alguém se afogou, meu irmão mais velho disse. Aquela frase instaurou uma realidade de medo em mim. Alguém tinha ido para a parte funda do rio e tinha se afogado. Eu sabia que aquilo podia acontecer. Minha mãe sempre nos prevenia para não nadar para o fundo, onde não dava pé. Podíamos nos afogar. Disso eu sabia. Eu não sabia exatamente o que era se afogar, mas não era algo bom. Eu sabia o que era fundo. Era onde meus irmãos nadavam quando brincavam nas canoas. Com a revelação, meu corpo tremeu. Meus irmãos podiam se afogar. Vocês já se afogaram? Eu perguntei preocupado. Eles riram de mim. Claro que não. Fiquei com raiva das risadas e da gozação, mas aliviado porque eles não se afogaram. Eu nunca tinha me afogado. Não ia nunca para o fundo. Voltei a pensar na minha piaba. Ela também não se afogava. Estava sempre no raso como eu.

Passamos toda tarde em espera. A noite chegou e minha mãe voltou. Eu procurei o medo em seus olhos, aquele de quando ela avisava do afogamento. Mal consegui ver. Ela nos disse que estava tudo bem, que nada tinha acontecido. Meu pai? Estava resolvendo alguma coisa de trabalho. O quê? É verdade que alguém se afogou? Não era assunto de criança. Nós devíamos fazer os deveres da escola. Meus irmãos não tinham feito. Eu já tinha pintado os desenhos do meu livro com o cuidado de não sair das linhas. Era preciso dormir para a escola cedo.

Eu já estava na cama quando ouvi a história toda entre os meus sonhos. Eram vozes de meu pai e mais alguém — minha mãe ouvia entre soluços. Depois, meus irmãos repetiram a história no quarto. Havia um menino no fim da rua, na primeira casa da vila. Já era grande… três pescadores… a rede se enroscou em alguma coisa no fundo do rio… a mão dele estava presa… os amigos tentaram salvar, mas não conseguiram… gritaram. Só à noite conseguiram tirar o menino de lá. Os peixes já estavam começando a comer. Meu irmão disse aquilo muito assustado. Eu quis acordar e perguntar como o menino estava.  As feridas doíam? Foi então que ele falou respondendo a pergunta que não fiz: morreu.

Eu nunca tinha imaginado que, se alguém se afogasse, morria. Morrer era ir para debaixo da terra. Mas o rio…? Fechei muito os olhos para não ver o menino dentro da água sendo comido pelos peixes. Não queria ver a cara dele faltando pedaço. Os olhos abertos. Em algum momento eu dormi e senti a água acobreada do rio me envolvendo. Cobrindo minhas pernas, avançando pela barriga, pelo peito, pelo pescoço. Eu estava completamente mergulhado — as piabas em volta. Abri a boca e a água entrou. Bebi muito, sem querer, sem poder resistir. A barriga ficou cheia. Eu pensei que era daquele jeito que a gente se afogava. Achei que ia morrer, mas tinha vontade de fazer xixi. E fiz.

Minha mãe não me deixou ir à escola naquele dia. Tinha acordado no meio da noite gritando e chorando. Era melhor ficar em casa. Ficamos sozinhos os dois. No meio da manhã a casa se encheu das mulheres da rua. Elas começaram a conversar sobre o afogado. Eu queria escutar as conversas, saber dos detalhes, mas minha me mandou brincar no quintal. Nada de ir para a rua.

Foi a primeira coisa que fiz. Desci o barranco e fui atrás da minha piaba. Por sorte, tinha deixado atrás de uma pedra. Mesmo com toda a confusão, eu tinha certeza de que ninguém tinha encontrado.

Ela estava lá.

Mas não estava saltitante como antes. Nem molhada. Estava seca e dura. Peguei com cuidado em minhas mãos e levei para a água. Ela afundou como uma pedra. Imóvel. O rio também não se movia naquele meu raso.

Não entrei na água naquele dia, nem depois. Ficamos proibidos de nadar no rio e, quando o ano acabou, nós nos mudamos. Saímos de Ilhéus e nunca mais.

Adulto, voltei à vila, ao rio, mas sempre passei apenas de carro. Nunca mais desci o barranco que, na verdade, era apenas uma descida muito curta.

O rio Almada. Ele vem do interior muito mais ao norte, mas deságua no oceano. Vira-se para a direita e percorre um longo caminho paralelo à praia. Ele resiste a entrar no mar, ele não quer morrer se misturando às águas claras e salgadas do atlântico. Na frente da minha casa, enfim, dobra-se para a esquerda, contorce o corpo desenhando uma interrogação de cabeça para baixo. É ali, em frente à casa da minha infância, que ele morre — todos os dias — murmurando seu porquê sem resposta.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019); Manual para composição de Vitrais (poesia, Selo João Ubaldo Ribeiro da Fundação Gregório de Mattos, 2019); Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) — vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; Arquivos de um corpo em viagem (poesia, Editora Mondrongo, 2015) e Cada dia sobre a terra (contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.

 

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Artistas como Tereza Sá nos fazem compreender que algumas almas expandem a vida imaginativa em várias nuances, porque desde muito cedo foram expostas ao máximo de realidade possível. Entendendo os atravessamentos dos que vieram antes, bem como a importância das referências que lhe foram apresentadas durante a infância, ela se declara resultado da força de gerações anteriores, em sua família. Mulher negra, professora, poeta e atriz, filha do professor e poeta Eléus Leonardo de Sá e de Tereza Soares de Sá, mãe de Èbano Bencos e de Luan Bencos, a entrevistada da Pequena sabatina ao artista é ilheense, Graduada em Letras/Espanhol e Pedagogia (UESC), Especialista em Leitura e Produção Textual e Educação e Relações Étnico-raciais (UESC), Mestranda em Ensino e Relações Étnico-raciais (UFSB). Atualmente, Tereza Sá faz parte da Cia Trapizonga de Teatro e do Coletivo Afro em Cena (UFSB), que trabalha na perspectiva do teatro negro, tendo o corpo negro também como protagonista da cena. Além disso, ela integra a Coletânea Literária e Fotográfica de mulheres: Profundanças 3. Seja com expressões faciais fortes, em performances marcantes; ou versos intrigantes, em poemas bastante atuais, Tereza Sá mostra que há mais para se ver e interpretar em suas expressões artísticas. Com uma carreira que inclui o concurso de poesia da Revista Brasília, que lhe rendeu o prêmio da categoria “destaque” e a publicação coletiva no livro Valores Literários do Brasil, Volume XV(1992), a artista conta à Diversos Afins sobre sua trajetória artística, suas experiência de vida e como tem pensado a arte no atual cenário pandêmico, no Brasil.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Mulher negra, ilheense, professora, poeta e atriz. Co-autora do Projeto “Mulher Negra: a força que se explica”, na Escola Municipal Themístocles Andrade, no Teotônio Vilela, em Ilhéus. Tereza Sá, a sua biografia em constantes transformações e atravessamentos, em alguma medida, se explica pela sua árvore genealógica? Quais influências, dos que a antecederam, você consegue identificar em seus percursos individuais e coletivos? Mais, quais as divergências e desconstruções?

TEREZA SÁ – Sim. Eu posso afirmar que a constituição do que eu sou é inteiramente atravessada pela força dos que me antecederam. Sempre me vi fortalecida pela referência individual e também coletiva de pessoas que muito contribuíram e contribuem para a formação da mulher que me constitui. Como criança negra, conheci desde muito cedo os percalços que o racismo nos coloca. Foram justamente essas referências que me encorajaram no processo de enfrentamento ao racismo, sexismo e tantos dilemas que envolvem o ser mulher negra. Sinto-me uma mulher múltipla, intensa, cheia de sonhos e projetos. Minha influência primeira acontece dentro de casa. Meu pai, intelectual negro, professor de Esperanto, sempre nos possibilitou contato com a cultura e a arte. Fomos expostos ainda crianças a ambientes onde o poético e o estético se estabeleciam, mesmo diante das dificuldades que a vida nos impunha. Cresci ouvindo meu pai tocando bandolim, recitando poesias, escrevendo artigos em jornais e participando de coletâneas poéticas. Minha mãe sempre precisa em cobrar, de nós, leituras.  Era certo que em algum momento eu enveredaria pelos caminhos das artes para além do lugar de expectadora. Essas referências iniciais foram decisivas para as minhas projeções, a curto e longo prazo, e com o passar do tempo foram somadas a novas experiências, novos contatos com pessoas, em sua maioria mulheres negras, que influenciaram e me encorajaram a seguir na composição das coisas que acredito. Certamente seria muito mais difícil para eu caminhar e crescer sem os diálogos que se estabeleceram, o exemplo e principalmente os ensinamentos dessas pessoas para que eu persistisse nos sonhos e na coragem de ser feliz. As divergências encontradas se deram mais precisamente no campo da raça e do gênero. Ainda que não fosse dito com palavras, desde a infância já esbarrava na imposição de um lugar para a mulher negra na sociedade e, por mais que meu ambiente familiar me desse suporte de superação, eu me vi por diversas vezes afetada por impedimentos do sistema de opressão e violência que me colocaram em condição de silenciamento e inércia, em diversas situações. A escrita literária foi uma delas. Por muito tempo me tranquei para o ato da escrita acreditando não ser esse meu lugar. Mas a minha trajetória é de lutas e a força da ancestralidade sempre me colocou no trilho da história, renovando as águas da minha existência. Tenho caminhado e seguido os passos de nossos antepassados que resistiram para que pudéssemos (re)existir e ocupar todos os espaços que nos foram negados. Os desafios são muitos e as redes de apoio estabelecidas entre as mulheres negras vêm fortalecendo nossa consciência ancestral, nos fazendo revisitar memórias, que nos encorajam a um constante movimento em busca de estabelecer nossas trajetórias enquanto mulheres negras.

 

DA – “Sinto-me uma mulher múltipla”, esta é uma afirmação sua sobre a composição contínua de sua identidade, no mundo. Outro dado importante de sua biografia é o fato de ter sido criada em ambientes onde o poético e o estético se comunicavam. Como é possível, em retrospecto, identificar os contornos estéticos construídos na e a partir de seus escritos? Quais as referências visuais e literárias ganham sentido e materialidade nas suas construções artísticas?

TEREZA SÁ – A palavra realmente se fez a força motriz no que me constituí. Minha memória remota aos sons impactantes, seja vinda dos provérbios proferidos por minha mãe, seja através das músicas que meus irmãos ouviam na “radiola”. Eu gostava de ouvir os discos de vinil lendo os encartes que acompanhavam as músicas. Lembro de um disco de Raimundo Fagner intitulado Eu canto (quem viver chorará) e, dentre todas que gostava, uma me chamava atenção e dizia: “Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta.” Eu deveria ter uns dez anos. Essa canção me consumia os instantes. Não sei se por conta da letra ou da interpretação do cantor. Só mais tarde tomei conhecimento de Cecília Meireles como poeta. E assim eu cresci consumida pela palavra cantada e reconhecendo também essa força na escrita. A minha consciência da escrita veio muito sutilmente e não era nada compulsório. Aconteceu ainda na infância, justamente nessa época em que era afetada por canções e bordões de minha mãe. Já na fase adulta eu compreendi que o que eu escrevia era poesia, mas uma poesia que não se atrelava a uma estética especifica. Meu pai, que era trovador, ao perceber que eu escrevia, passou a me orientar sobre a métrica da trova. Arrisquei os versos rimados dentro da métrica, mas confesso que sempre tive dificuldade com aquele processo matemático e, ao tentar encaixar pensamento/sentimento na métrica, sempre fracassava. Isso foi um dos fatores também que me travaram no processo do escrever, pois papai me dizia que a forma com que eu escrevia era coisa da modernidade e deixava transparecer que não era muito “elegante”. Mais adiante, aprendi sobre versos livres, poesia concreta, entre outras coisas da “modernidade” que me permitiram mais liberdade. E eu continuei a escrever da forma que os poemas me vinham e registrava. Apenas isso. Registrava, guardava e muitas vezes os revisitava, da mesma forma que revisitava os poemas de Cecilia Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira… Note que a literatura que eu consumia era majoritariamente masculina. Posso garantir que muito do que escrevi inicialmente (e muitas vezes atualmente) foi afetada por essa literatura. Atualmente reconheço a riqueza da escrita de mulheres, principalmente das escritoras negras e fico triste com o tempo em que essa literatura esteve tão distante do alcance de minhas mãos. Hoje sou afetada pela escrita de Mirian Alves, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, entre tantas que os Cadernos Negros me apresentaram.

O teatro me chegou paulatinamente e sei que seu prenúncio se deu na infância quando ainda na pré-escola eu decorava os versos para o dia das mães e outros eventos. Sentia prazer naquilo, mas não sabia que me acompanharia para a vida toda. Foi no Ensino Fundamental, nas atividades para as Feiras de Ciências que eu compreendi o quanto o palco me tornava imensa e que queria muito aquilo. Busquei cursos de teatro na cidade, que só fortaleceram a certeza de que representar era algo fundamental pra mim. Tive poucas experiências com teatro clássico.  As oportunidades me levaram às técnicas de Boal e ao teatro de rua. Poder atuar ao lado de Jorge Batista, Mônica Franco, Telma Sá, Rita Santana, Val Kakau, Tereza Damásio, Justino Viana, Ester Santana e João Marcelino, no Grupo Caras e Máscaras nos finais dos anos 80 em Ilhéus, foi algo imenso e revelou em mim a atriz. Nosso repertório textual era referendado pela música popular e a literatura brasileira, fortes dispositivos para nossa atuação enquanto teatro de/na rua, de direção coletiva. Os artistas da região foram grandes influenciadores na arte em que me propus navegar. Os grupos Macuco, de Buerarema, Arte em cena, de Itabuna, e os atores e atrizes, como Carlos Betão, Ramon Vane, Marcos Cristiano, Alba Cristina, Eva Lima, são figuras que introjetaram o gosto e a possibilidade de fazer teatro no Sul da Bahia e são as referências mais marcantes, pois reverberam até hoje em minhas construções artísticas.

 

DA – Interessante pensar que sua biografia transita por várias artes, como uma espécie de tessitura que desenha um conjunto muito singular. No fazer teatral, temos uma infinidade de formas de atuação e composição de cena, a performance é uma delas. O teatro de rua, digo a performance realizada na rua – encontra sempre o contingente, o inesperado, tal qual a vida. Como você descreveria a relação entre este espetáculo de rua, seu percurso de vida e a troca com o público espectador? Esta relação sempre foi a mesma sempre? Quais as variantes?

TEREZA SÁ – O teatro de rua foi um grande divisor de águas para mim e acredito que para todos os integrantes do Grupo Caras e Máscaras, pois vivíamos em um processo decisivo no que se refere à entrega de sermos atores/atrizes, mas nos deparávamos com a dificuldade de não termos diretor e, por estarmos frequentemente ausentes do palco, já não éramos convidades a atuar em espetáculos. Acreditamos por muito tempo que para um grupo existir de fato deveria contar com a presença de um diretor para desempenhar única e exclusivamente essa função. Só quando passamos a entender que o teatro poderia acontecer em espaço não convencional e que poderíamos dinamizá-lo em uma direção coletiva, foi que realizamos nosso sonho de atuar. Isso foi engrandecedor. Fizemos da rua nosso palco e essa relação se estabeleceu por muitos anos, movimentando a cidade e nossas vidas. Esse teatro foi para mim uma escola e o aprendizado se estende até hoje. Aprendi a reinventar-me sempre. No teatro de rua eu aprendi a perseguir sonhos, criar meu próprio jogo de cena, superar obstáculos. Sinto a vida como um verdadeiro espetáculo, no qual estamos constantemente performando as diversas versões de nós. Eu, por exemplo, tenho a sala de aula, o teatro, a poesia, entre tantos papéis sociais a desempenhar. A vida tem me surpreendido ultimamente com situações de desafios. Tenho vencido esses desafios como quem entra em cena naquele teatro de rua de outrora, na certeza de que nem todos que cruzam meus caminhos são meros transeuntes. Muitos aparecem justamente para formar a rede de apoio, idêntico como acontecia naquela época com o Caras e Máscaras, que sempre contava com uma plateia que colaborava com silêncios, risos, gargalhadas e até lágrimas. Ela aparecia em determinada praça ou rua porque sabia que nossa trupe estaria lá.  Erámos impelidos/as por esse encorajamento e sempre foi fortalecedor contar com o apoio de tanta gente boa naquela época em que fazer teatro sempre foi muito desafiador pra nós. Com isso eu acabei aprendendo a ser múltipla e a desempenhar papeis distintos que exigiriam de mim muita dedicação num mesmo tempo/espaço. Como no teatro, aprendi a ser intensa em todos eles. Lembro-me de um fato em minhas experiências teatrais em que eu, ainda em resguardo do parto do meu primeiro filho, já estava em cena ensaiando a peça “O fiscal e a Fateira”, sob a direção de Équio Reis. Em determinados momentos, parava para amamentar e retomava os ensaios. Isso porque eu nunca consegui fragmentar em mim a mãe, poeta, atriz e professora. Esses papeis sociais são a minha motricidade e um fortalece o outro. Tenho buscado intensidade em tudo o que me proponho e agora com uma certa dose de suavidade. A sala de aula sempre foi para mim espaço de reconstrução e de poéticas. As trocas que comumente estabeleço ali estão para além da grade curricular e, por conta disso, a professora exigiu mais permanência em cena. Aliás, a sala de aula consumiu a poeta e a atriz (na ordem apontada) desproporcionalmente. Sempre foi difícil viver de arte em nossa cidade. Sair em busca de novas possibilidades quando já se tem dois filhos era algo bem longe de minhas expectativas. Agarrei a carreira docente, mas de certa forma fui vivendo “tudo ao mesmo tempo agora”, como canta a banda Titãs. Assim, eu vivi intensamente a gravidez/maternidade imbricada na aprovação do vestibular e também na atuação como professora da educação Básica; a segunda graduação conectada ao Mestrado, este, por sua vez, integrado à participação no Coletivo de teatro negro Afro (en) Cena e paralelo à Cia Trapizonga de Teatro. Sem contar essas últimas atuações, concomitante com a participação como poeta no livro virtual Profundanças 3. Ufa! Parece que falta folego, né? Às vezes, falta. Mas “me recomponho/ feito rabo de lagartixa”, como afirma a cantora e compositora ilheense Eloah Monteiro. Minha trajetória é assim: pulsa num emaranhado de variantes que reforçam meu existir. São minhas escolhas e não deu para escolher uma em detrimento de outra. E assim, sigo intensa, sendo acolhida e fortalecia por uma rede de mulheres negras que me revigoram e seguram em minha mão o tempo todo para que eu tenha certeza de que a vida continua e o espetáculo não pode parar. Como diz Arlindo Cruz: “o show tem que continuar”.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Quando você diz que nunca conseguiu fragmentar em sua identidade a mãe, a poeta, a atriz e a professora, sinto que há uma integridade na expressão, que é corroborada pelos relatos que se seguem na sua narrativa. Você poderia falar um pouco dos atravessamentos que o ser “mulher” na contemporaneidade impõe? Partindo de suas experiências, desde o seu lócus social, conte um pouco para a Diversos Afins sobre estas intersecções que atravessam sua existência.

TEREZA SÁ – Historicamente, a condição do feminino sempre foi marcada sem o mínimo de dignidade humana, excluída de todo e qualquer processo político, sociocultural, em ambiente violento, predominantemente racista e machista. O espaço que lhe fora reservado foi o da marginalidade, amarga herança da dominação colonial que espoliou a condição dos colonizados de se colocarem como sujeitos e autores de pensamento e de conhecimento.  Mas as mulheres vêm assumindo uma postura de ruptura frente a essa imposição histórica que por tanto tempo nos colocou em condições de subalternidade. Estamos assumindo postura de enfretamento às desigualdades, reinventando nosso lugar histórico e criando a cada dia condições para garantir participação ativa em todas as esferas da sociedade. Isso tem exigido de nós muito enfrentamento no combate às desigualdades e resistência para garantir conquistas e validação de nossas escolhas. Mas não nos intimidamos, ao contrário, temos marcado fortemente nossas presenças em movimentos de diferentes lutas pelo fim de opressões e conquistas de direitos. Sabemos que toda a conjuntura de nossa sociedade se estruturou com base no patriarcado e consequentemente sustentou-se em ideologias heteronormativas, sexistas, racistas, profundamente segregacionistas. Mesmo com tantas lutas já conquistadas pelas mulheres, muitas desigualdades ainda precisam ser superadas, dentre elas a mais urgente é justamente a desigualdade racial. As mazelas da escravidão ainda nos atingem em cheio e a presença negra no movimento de mulheres é de grande importância, pois exige amplitudes nas lutas, traz para evidência a necessidade de combate às mais variadas formas de opressão, além de impulsionar a mobilização de uma sociedade mais equânime. Ser mulher negra nesse contexto demarca situação muito mais desafiadora, pois exige a defesa de território do ser mulher e negra, condições extremamente marginalizadas socialmente. Eu, como mulher negra, o tempo inteiro vivi os atravessamentos dessas marginalizações. Desde a infância até os dias atuais. E, como toda preta, aprendi desde muito cedo que nossa luta é muito mais complexa, fazendo com que estejamos em militância o tempo todo, em constante alerta para diariamente nos defendermos contra todo tipo de discriminação e assédio. Tenho me comprometido com lutas antirracistas em sala de aula e através do teatro. A minha poesia também se apresenta como uma forma de combate e tenho feito uso dela como dispositivo para contribuir nas reflexões das questões de gênero/raça, somando minha voz a de muitas mulheres em um grande movimento que marca a inserção de nossas presenças em espaços tidos no passado como inacessíveis para nós.

 

DA – Por falar em poesia, no poema Profundeza, você encerra da seguinte maneira: “Já não possuo superfície/Sou toda profundeza”. O fazer poético envolve inspiração, mas também técnica e processos variados. Conte-nos um pouco sobre seus processos criativos, suas inspirações semânticas e, caso queira, fale um pouco sobre este poema em específico.

TEREZA SÁ – Eu sempre percebi o fazer poético como um movimento antecipado de imagens, cores, sons, desvelo criativo, entre tantas subjetividades que podem ser tecidas por quem escreve. Antes de se consubstanciar-se em poema, a poesia já é movimento na essência do/a poeta e a sua corporificação é o resultado da cumplicidade entre o sentir e a decisão de externar. O processo de escrita é um poço profundo e secreto que nutre todos os atravessamentos e inquietações que povoam o existir. Já mencionei que não sigo uma linha técnica específica no processo de escrita, mas certamente quando a poesia em mim se apresenta, traz em sua configuração uma roupagem entrelaçada com linguagem literária e a carga emocional. De certa forma, percebo que embora não haja, até então, uma escolha consciente com determinada técnica literária, essa escrita é bastante influenciada pelas autoras e autores que leio. Por ter contato constante com vários textos poéticos, na condição de leitora e também de professora, sou afetada intimamente pelas diversas estéticas literárias dos/as autores/as que devoro. Isso certamente influencia em minhas subjetividades. Escrever é também aprendizado. Tenho aprendido muito nessa construção de aceitar-me como poeta. Sinto que a técnica vai se apresentando, mas não quero que ela represente limitação para minhas enunciações criativas. Quero seguir no registro de minhas inspirações, me comprometendo mais e mais na cumplicidade com o estético, me permitir ser atravessada pela palavra sem tantas cobranças. Escrevo por prazer, por impulso, mas noto também que em muitos discursos narrativos certas estruturas textuais aos poucos acabam se manifestando, sendo utilizadas porque cabem melhor em determinados poemas que em outros. Isso tem se apresentado naturalmente com a presença de metáforas, metonímias, sonoridade, sinestesia, que dão fluxo aos versos que arrisco. Ultimamente, tenho me dedicado mais a apropriação da palavra escrita, como registro de sentimentos, me permitido brincar mais com essas palavras num jogo de escolhas e adequação das mesmas na disposição do processo criativo que tem insistido em se apresentar.   Em Profundeza eu trago o caráter intimista de encorajamento e desprendimento da poética. Um poema em primeira pessoa, que traz um traço bem característico de minha escrita: muitas vezes uso a palavra com brevidade, como na capoeira regional, que ataca e defende em golpes precisos, que crescem, dilatam-se, destrincham-se, até se concluírem como um só fôlego, ou um trago.

 

DA – (…) Há lugares que se instalam e me adentram como ostra na pedra fi(n)cam mesmo quando não estou. Há lugares que em mim habitam e me povoam do que já sou. Em Pertença, você se refere à influência que a localização geográfica tem na (des)construção da identidade do seu eu poético. Como este processo de identificação se deu em sua biografia?

TEREZA SÁ – Na verdade, tudo é muito um processo de construção. Como falei, não dá para fragmentar a multiplicidade do que sou. O mesmo ocorre com o processo de escrita. Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas que têm interferido de forma ativa em minha construção identitária e consequentemente em meu processo criativo. Elas me fortalecem à medida que revelam pessoas e lugares que traçam os paralelos e meridianos que me constituem. Trazem-me os campos históricos da minha essência de mulher afrodescendente. É um rico processo de (re)afirmação que se completa com o sentimento de pertença que adentra as narrativas justamente porque me atravessa. Sinto que vivo um momento abundante, de águas cujos rios confluem e se completam. A força ancestral que determinados lugares e determinadas pessoas me transmitem, me conduz ao engajamento com essas forças que são/estão em mim, fortalecendo a memória coletiva que muitas vezes é ressignificada em minha inteireza.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas, isso antes da pandemia ou mesmo neste momento? Sabemos que o artista, o criador tem as experiências do cotidiano como respiros para a vida, de maneira geral, e memória criativa de forma específica para as artes. Como têm sido lidar com este momento tão delicado? Há alguma criação poética deste período, em seu repertório? E mais: criticamente, como você visualiza as dificuldades oriundas do momento pandêmico para a classe artística? 

TEREZA SÁ – Infelizmente, esse tempo pandêmico fez uma ruptura nessas andanças. As rotas foram interditadas, mas boa parte das trocas permaneceu e até se fortaleceu. Realmente é um momento de extrema delicadeza e não tínhamos proporção do quanto ele remexeria nossas vidas. Eu fui extremamente afetada por essa situação. Passei momentos difíceis, inclusive precisei de ajuda profissional para superar. É triste perceber que o momento de crise, incertezas e instabilidades em vários setores do país estão atrelados a falta de ação efetiva e seriedade política no enfretamento à Covid-19 por parte de nosso governante, em esfera federal. A classe artística foi bastante prejudicada, pois foi atingida em cheio por conta do isolamento social. As casas de espetáculos e os espaços ligados à cultura foram os primeiros a serem interditados, possivelmente serão os últimos a retomarem. Muitos trabalhos foram interrompidos, projetos adiados. Tem uma frase que é atribuída a Che Guevara, mas não sei se realmente é dele, que diz: “hay que endurecerse pero sin perder la ternura”. De certa forma, isso nos descreve, nessa catástrofe. Nós não perdemos a capacidade de sonhar. Fomos verdadeiramente golpeados pela pandemia e toda sua conjuntura nos deixou um tanto endurecidos/as diante de tanto caos. Mas percebi também que em certo momento foram acontecendo determinadas atitudes isoladas e, aos poucos, como onda, foi-se ampliando e contagiando o coletivo. A classe começou a se mobilizar para fazer atuar como dava. Todo mundo se virando, usando a internet a seu favor. Isso nos trouxe novas e desafiadoras possibilidades de fazer arte. Não retomamos o fôlego ainda, pois o processo se estende e não temos a real dimensão de como/quando tudo vai se resolver, mas os artistas se reinventaram nesse cenário, o que foi muito bom. Aprendemos muito com tudo isso, principalmente a não desistir. Sabemos que o auxílio emergencial contribuiu em alguns aspectos, mas faltam políticas públicas mais eficazes nesse setor. Eu sempre afirmo que produzo no caos. Sempre tive dificuldade em afirmar-me como poeta, principalmente por não ter uma disciplina rígida com a escrita. Não sou das que organiza tempo/ambiente. Geralmente, sou arrebatada pela poesia e me flagro criando em momentos inusitados de bastante ebulição de atividades. A pandemia me pegou em um momento de conclusão de escrita de mestrado, o que gerou em mim ansiedade descontrolada. Ainda assim produzi alguns poemas. Um deles, inclusive, foi postado como vídeo-poema na página do Profundanças: Influxo. Além disso, junto com um grupo de visionários, fomos contemplados com Edital emergencial do Calendário das Artes, que resultou no trabalho Corpos Negros Insurgentes. E mais, produzi outros vídeo-poemas para @amataode e Teatro Popular de Ilhéus, em 2020. Sigo viva sonhando com novos momentos de encontros, abraços e aplausos.

 

DA – Pensando neste momento delicado que requer de nós fortaleza e lucidez, mas também capacidade de olhar além de si, em direção ao outro, como você concebe o valor das palavras humanidade e futuro, na sua criação artística e, de forma mais ampla, no sentimento do mundo?  A arte pode ser motriz de mudanças necessárias neste e em outros cenários? Se sim, de que forma?

TEREZA SÁ – A arte tem nos dado respostas, “régua e compasso”, não apenas para esse momento, mas em todas as circunstâncias de crise tem oportunizado condições de superação tanto para quem produz, quanto para quem consome. Nessa situação atual, ela vem, sim, como motriz da vida e do sonho. Dessa forma, edifica e liberta a alma do artista e de quem aprecia e a valoriza. O momento delicado, como disse, fez com que a arte se reinventasse para se fazer chegar ao público, já que a aglomeração de afetos, talentos e aplausos está restrita. Mas o poder criativo não está. A humanidade experimentou o medo, a angústia e de fato a morte. Mas a arte vem como alternativa de vida, fazendo aflorar não apenas sensibilidade do artista, aumentando seu poder criador, mas ascende o sentido da esperança. Esperança no futuro para o público em geral. A arte afeta de forma demasiada. Leva a refletir, entretém, eleva… O amanhã se viu ameaçado, mas o presente se viu validado e isso é bom. A arte é motriz de mudanças quando ela mesma muda sua configuração para chegar ao público sem perder a forma e a estética, quando aborda temas atualizados aumentando perspectivas e dando vazão às neuroses que aumentaram muito nesses tempos. A arte alerta que o que se externa pela privação é uma essência que pode ser melhorada. A arte sinaliza que o belo pode florir e libertar mentes e corações. Não está fácil para ninguém, mas o artista consegue renascer das cinzas. Aliás, Mateus Aleluia nos afirma que “o amor há de renascer das cinzas”. Eu acredito nisso.

 

Elis Matos é doutoranda em Linguagens e Representações, mestra em Linguagens e Representações (2019), especialista em Gestão Cultural (2017), bacharela em Comunicação Social (2013), licenciada em Filosofia (2009), pela UESC. Com pesquisa voltada à guerrilha literária empreendida pela escrita de mulheres em obras produzidas colaborativamente, a partir da perspectiva da Análise de Discurso materialista. Pesquisadora, professora, produtora, feminista, antifascista, acredita na construção coletiva de um mundo justo e livre.