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100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Vinícius Rodrigues

 

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Foto: Gabriel Rastelli Quintão

O sabor dos anjos

Por trás da vitrine, o olhar e o doce. O sonho brilhava encoberto em açúcar, minúsculos cristais faiscantes sob a luz da vitrine. Abel, ainda pequeno, com os olhos na altura do doce, uns olhos arregalados para o recheio de goiabada que escorria, olhos de quem adivinha um sabor nunca experimentado. Do outro lado, além do sonho, o filho do padeiro, um pouco mais alto, um pouco mais velho. Eles se viram aquela vez e, por muitos anos, não se conheceram.

*

— Oi! Me vê aquele quindim ali?
— O maior?

A resposta foi um sorriso entre as bochechas gordinhas.

— Você eu não conheço.
— Meu pai é o dono.
— Ah! É verdade. Tinha um garoto aqui quando eu era criança.
— Eu.
— E…

O outro sorriu.

— Eu morava com minha mãe.

Abel sorriu um sorriso de compreensão. Agradeceu o doce e foi saindo.

— Meu nome é Amaro.

Abel se virou da porta interrogativo e apontou para o alto. Amaro fez um gesto conformado. Padaria Santo Amaro.

A padaria ficava numa esquina e o letreiro se repetia para cada uma das ruas. Letras vermelhas sobre um fundo amarelo claro. Há muito já não tinha a imagem do santo, de quem Abel tinha uma lembrança apenas vaga.

**

— Já pensou se fosse Santo Expedito?
— Ou São Basílio.
— Santo Antão.
— Sabia que tem um São Frutuoso?
— Nossa! Ia ser muito pior.
— Eu não gosto é do José.
— Eu também tenho José.

José Amaro e Abel José. Eles riram da coincidência e se reconheceram ainda mais como amigos.

— Uma prima me chama de Belzebu.
— Por quê?
— Bel, Zé, ela foi juntando e lembrou do danado. O apelido pegou.
— E você é assim endiabrado?

Riram. Amaro estendeu um doce para o novo amigo. Abel sequer perguntou do que se tratava. Colocou o doce inteiro na boca. Um gosto de amêndoas lhe invadiu a boca.

— Beijinho de freira.
— Humm!
— Gostou?
— Acho que comi o papel junto.
— Não é papel, não. É uma hóstia.

Amaro falou para o novo amigo do desejo de colocar novos doces para vender. Pensava em recuperar o ar de padaria portuguesa que tinha no tempo do avô. Estava experimentando receitas.

— Eu gostei. Vou querer experimentar todas.
— Vou querer que você experimente.

Quem acompanhasse a conversa dos dois jovens poderia perceber que havia ali um encontro.  Eles eram tão diferentes. Amaro era alto e magro, uma pele levemente morena, uma morenice mediterrânea, coberta por longos pelos negros. Abel era mais branco, uma brancura também mestiça, sem os avermelhados dos brancos do norte. Tinha os cabelos também muito pretos, mas não tinha pelos. Era gordinho. Braços e pernas roliços escapando das camisas e das bermudas. Amaro tentava disfarçar, mas quase sempre seu olhar escorregava para aquelas partes do amigo em que a carne forçava os tecidos das roupas. Tinha sido assim desde que o tinha visto saindo da padaria com um quindim. Abel tinha as pernas grossas sustentando uma bunda volumosa. As gorduras sem exageros doentios faziam curvas sinuosas e pareciam dançar quando ele andava. Amaro quis chamá-lo, retê-lo um pouco mais, mas não sabia como. Foi assim que gritou o próprio nome para o rapaz.

Depois daquele primeiro encontro, não viu a hora de ver o rapaz de novo. No dia seguinte, mesmo sem estar previsto, fez mais quindins. Escolheu de propósito formas maiores. Abel retornou, mas não quis o quindim. Preferiu uma tortinha de limão. Depois, no outro dia, quis um brigadeiro. No fim de uma semana, já tinha experimentado todos os doces da vitrine. Um por dia. Amaro percebeu seus olhos procurando alguma novidade. Lembrou-se do sonho.

— O recheio desse é de creme de baunilha.

Abel mordeu o doce num prazer genuíno. Logo depois, entretanto, o brilho nos olhos diminuiu. Não havia mais novidade. Ele comia o doce com avidez ainda, mas uma avidez tensa, de quem apenas se deixa levar.

— Você tem tempo?
— Hum?

Amaro foi para a cozinha. Uma rápida mistura: açúcar, manteiga, farinha de trigo, baunilha. Um forno quente, um pouco de conversa. Logo, os biscoitos ficaram prontos.

— O que é isso?
— Areias de Cascais.
— Bom!
— É o que há de mais simples em doces.
— Nunca tinha experimentado.

Amaro sabia. Abel gostava da novidade, sabores novos, mesmo que fossem simples.  Foi assim que ele começou a seduzir o amigo. A cada dia fazia um doce diferente. De simples biscoitos de natas a bocas de damas. Fez os mais diversos manjares, ambrosias, madalenas, pães-de-ló. Não faltaram os pastéis de Belém e outros doces de convento. Amaro seguia as receitas de um livro antigo do avô. Abel vinha todos os dias para experimentar a novidade. A cada dia, Amaro se mostrava mais próximo. Abel já não era um mero cliente. Era convidado para a cozinha onde podia ver os doces sendo feitos. Lambia as massas cruas das panelas, provava cada etapa até o doce estar pronto. Ele se perdia num labirinto de sabores às vezes tão iguais, mas sempre apresentados de maneira diferente. E enquanto o menino guloso se lambuzava nas delícias, Amaro se deliciava de ver as bochechas gordinhas, os braços roliços que pegava com as mãos cheias para mostrar ao amigo alguma panela fervente. Ele degustava o corpo do rapaz aos poucos, em esbarrões casuais, em gestos fraternos. As coxas de Abel eram tocadas na espontaneidade de uma piada. O corpo todo do jovem se debruçava sobre Amaro numa tentativa de alcançar um doce que lhe era negado. Eles viveram essa dança por semanas. Um encontro de desejos. Encontro? Assim pensava Amaro.

— Hoje à noite vou fazer papos de anjo.
— Hum. Eu gostei desses.
— Mas vou fazer diferente: papos de anjo na hóstia…
— Quer me ver fazendo?

Abel voltou à noite quando a padaria estava fechada. Amaro lhe abriu a porta dos fundos, apenas o suficiente para o rapaz passar roçando no outro. Amaro sentiu a bunda inteira do rapaz passar por seu corpo. Chegou a estremecer.

Abel perguntou dos doces, os papos de anjo de que já tinha gostado tanto.

—Antes você vai experimentar esse bolo dos anjos.

Era um bolo de claras, muito leve. A forma estava de ponta cabeça equilibrada no alto de uma garrafa.

— O que é isso?

Abel estava maravilhado.

— É um bolo tradicional americano. Tem de deixar esfriar assim, se não murcha. Tinha de aproveitar as claras, né.
— Podia ter engomado umas roupas.
— Da próxima vez traga suas camisas.
— Prefiro experimentar esse bolo.

Amaro desenformou o bolo. Era levíssimo. Abel comeu aos bocados.

— Parece mesmo comida dos anjos.

Falava de boca cheia. O bolo era tão leve que logo já tinha comido a metade. Enquanto isso, Amaro colocava a massa dos papos de anjo em hóstias, fechava-as como um pastel, besuntava de gemas e passava em açúcar.

— Agora experimenta os papos de anjo desse jeito.

Pegou um dos doces e ofereceu a Abel diretamente na boca. O rapaz mordeu o doce no meio. A Hóstia partida deixou escorrer o creme pelo braço de Amaro. Num gesto instintivo, o rapaz lambeu o braço do amigo. Junto com o doce, os pelos longos e negros do braço foram sugados. O suor se intrometeu no meio do doce. Uma mistura alegre e inusitada.

Amaro percebeu o maravilhamento do outro. Então, espremeu mais creme no braço e ofereceu. Abel hesitou. Antes, tinha lambido por reflexo, dominado pelo desejo do doce. Agora, sentia que não devia. Lamber um homem? Nunca tinha querido isso. Não gostava. Mas aquele gosto? O sal misturado ao açúcar e às gemas?  Ficou uns instantes parado olhando para o amigo. Entre eles, o doce. Amaro rasgou outro envelope de hóstia e espalhou mais creme. O braço estava todo lambuzado de papo de anjo.

Abel não resistiu. Dessa vez, talvez porque já não era um ato impensado, talvez porque sabia do passo além que dava, lambeu o braço devagar. Assim, o gosto lhe veio mais calmo, mais definitivo. Parecia que experimentava uma revelação. Depois daquilo, sentia que não se contentaria com nada menos.

Lambia o braço peludo do amigo. Lambia meticulosamente. Lambia o creme e lambia o braço sem creme. O doce e depois o sal. Abria a boca para sentir ambos na língua. Os olhos fechados. Deleitava-se.

Amaro extasiava de sentir aquela boca suave na própria pele. Sentia-se beijado. E, vendo na bochecha do outro um pouco de creme, não resistiu. Sentia que também tinha o direito de provar o doce e provar o outro. Avançou sua boca, primeiro no creme; depois, direto nos lábios de Abel. Não lambia. Beijava.

A reação foi susto e rejeição. Abel o empurrou com força quando a língua já lhe entrava pela boca a dentro. Não teve sabor, não teve prazer. Ele não saberia, depois, descrever o que sentiu. Não sentiu nada. Talvez, bem mais tarde, chegasse a compreender que era simplesmente isso: não gostou, não se sentiu atraído, não desejava. Aquela ausência de querer, para alguém que era movido pelo desejo de experimentar, era assustadora. Talvez porque fosse um homem? Talvez porque nunca tivesse pensado a respeito? Talvez porque fosse além do paladar e esse era o único sentido que importava para o rapaz. Abel fugiu.

Amaro se sentiu perdido. Até aquele momento achava que vivia um perfeito encontro de desejos; o seu pelo amigo, um desejo de pele e de amor; e o do amigo, um desejo talvez mais difuso, mas ainda assim um desejo por si. Ele acreditava nesse encontro, nesse ponto de chegada de dois caminhos. Só depois de ser empurrado com força — e Abel era forte—, é que se deu conta de que os desejos apenas se cruzavam e se atravessavam. Ele via a gula de Abel como um reflexo de seus desejos. Não era isso. Descobriu não um reflexo, mas uma refração. Um desvio, um trágico desencontro. Abel fugiu e ele ficou só em meio aos doces com nomes de anjo.

***

Abel saiu da padaria assustado. Pensou que talvez tivesse culpa pelo que tinha acontecido, mas repetia pra si mesmo: eu não imaginava, eu não imaginava. Dizia e não conseguia apagar as imagens do amigo tocando em seu braço, em sua perna. E no meio das imagens, os doces; tantos sabores delicadamente diferentes e iguais, como um contínuo crescente. Amaro tinha lhe seduzido com aquele desfile sem fim. Ele se deixava levar feliz, guiado pelo desejo de mais um novo sabor; e, então, o sal no braço do amigo, o suor nos pelos. Aquela incrível descoberta. Abel seguia pela rua meio tonto. Resolveu sentar numa escadinha de tijolos de uma casa abandonada. As mãos sujas de açúcar apoiadas no degrau descarnado. O açúcar, a gordura, o barro. Abel sentiu aquela textura. Olhou aquela nova mistura nas mãos. Um comando de aventura na cabeça. Será? Pensou uma última hesitação antes de lamber as pontas dos dedos.

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010),  “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010) e “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014).  Participou de várias antologias poéticas, além de figurar no volume “Anos 2000 – Coleção Roteiro da Poesia Brasileira” (Global Editora, 2009). Mantém o blog Café Molotov.  

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99ª Leva - 02/2015 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

RUSSO PASSAPUSSO – PARAÍSO DA MIRAGEM

 

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Viver jamais será algo linear e predeterminado. Não é demais pensar que nossa existência é semelhante a uma colcha de retalhos, na qual vamos juntando fragmentos de nossa passagem por esse estranho planeta chamado Terra. A própria construção ocidental da felicidade não passa de uma imagem desbotada, uma frágil quimera. E é bom que seja assim, pois desse modo o desafio de tocar os dias adiante pode contar com um componente a menos no quesito zona de conforto.

Mas por que falar de nossos vestígios e de duma volátil visão de felicidade? Talvez para manter a mente mais voltada aos sentimentos no modo espontâneo como eles se apresentam. Significa afugentar previsões, abandonar planos perfeitos, respirar e apenas seguir em frente, sem bússolas ou outros artefatos similares. A consequência imediata disso será, no mínimo, a de saborear uma experiência denominada de presente, esse estado de coisas que ainda permanece estranho a muitos mortais. No caso do cantor e compositor Russo Passapusso, os tais sinais do hoje fazem sentido e justificam a construção do seu primeiro disco solo.

Paraíso da Miragem é um instante particular na carreira do músico baiano. Acostumado às intensidades vocais, textuais e instrumentais de sua trajetória à frente de investidas como o BaianaSystem, Bemba Trio e o coletivo Ministéreo Público, Russo agora se volta para suas observações intimistas de mundo. Se por um lado há uma espécie de desaceleração do lado tradicionalmente efusivo do artista, dadas as peculiaridades de suas outras experiências musicais, por outro, emerge a feição daquele que discorre sobre a vida, o amor, as questões sociais do país e outros temas a partir de uma pessoalidade caracterizada por pungência e alguma serenidade.

O álbum é marcado por canções que mesclam letras precisas com arranjos multifacetados de brasilidade. De cara, faixas como Paraquedas, Flor de Plástico e Sem Sol são verdadeiros destaques do disco e representam com vigor o momento do artista. Reúnem pontos de delicadeza e um sentido poético e contemplativo diante da existência, aspectos que pontuam muito bem o caráter introspectivo do trabalho.

 

 

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Russo Passapusso / Foto: Fábio Bitão

Como de costume, o discurso é algo inalienável em Russo Passapusso. E isso se dá de modo especial no samba de Sangue do Brasil, através do qual os olhares estão voltados para emblemáticas mazelas de nosso país.  “Vai adiando a tristeza enquanto a morte não vem”, diz o canto de Matuto, outro ponto forte do disco. Nos apelos instrumentais de Areia, há uma valiosa sensação de flerte com os preciosos afrosambas de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Em matéria de produção, é possível perceber de que modo a atuação de parceiros como Curumin é determinante para o resultado da obra. Uma escuta atenta já confirma isso. Há um quê do mano paulista na concepção do álbum. Somam-se ao time de produtores os nomes de Lucas Martins e Zé Nigro. Contando também com as participações de gente do quilate de Edgar Scandurra, BNegão, Marcelo Jeneci e Anelis Assumpção, Paraíso da Miragem tem coerência e unidade, exaltando formas de se lidar com a imensa lista de sentimentos que fazem morada em nossas mentes e corações.

Russo Passapusso tem o que dizer e cantar. O saldo das escutas fica por conta de cada ouvido. Enquanto o fim não vem, que tal podermos arriscar que o paraíso não existe e que tudo é apenas uma questão de estado de espírito?

 

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Com quais arroubos se faz um poeta? Por mais que tentemos mensurar, a resposta é imprecisa. E é bom perceber que supostas definições para tal indagação não seguem uma orientação cartesiana das coisas. Mais ainda, é preciso que nos alimentemos da falta de explicação. Noves fora nada, o saldo da dúvida é muito mais atraente.

Quem escreve poesia não intenta clarificar verdades absolutas. Pelo contrário, semeia interrogações e alguns desassossegos. Não é um ser divino. Apenas olha o mundo com a sensação de que se não flutua em torno dele, mergulha fundo no oceano dos mistérios para depois constatar que é tão comum quanto qualquer mortal. Se o resultado dessa experiência implica em estranhamento ou encantamento, talvez consigamos ler tais marcas travestidas em versos.

Ler a obra de um autor não é suficiente. O ato da leitura demanda uma boa dose de envolvimento, quiçá cumplicidade. Quando se opera o despertar de um reconhecimento ou identificação, os indícios da aposta nos levam adiante. Ao percorrermos as veredas poéticas de Geraldo Lavigne de Lemos, uma miscelânea de sentimentos nos vem fazer companhia. Nada ali é gratuito. Cada verso advém de vertentes emblemáticas na trajetória do seu criador. Nesse ínterim, agigantam-se olhares especiais em torno da memória, duma visão crítica de mundo e, também, do amor.

Nascido em Itabuna, na Bahia, mas radicado na vizinha Ilhéus, Geraldo canta seu solo e sua gente como quem redimensiona laços de pertencimento. Com o passar do tempo, soube apurar sua percepção diante das complexidades da vida, tendo em vista que sua obra encerra um marcante componente filosófico. Publicou em jornais e revistas e integrou a coletânea Diálogos – Novo Panorama da Poesia Grapiúna (Ed. Via Litterarum/Editus – 2010 – 2ª edição). O livro À Espera do Verão (Ed. Mondrongo – 2011) marcou sua estreia solo. Recentemente, dois novos rebentos sedimentaram seus arremates criativos: Alguma Sinceridade e Amenidades, ambos lançados pela Editora Mondrongo em 2014.

Ainda sob o efeito de suas novas investidas literárias, Geraldo nos revela um pouco de si. Hoje, sua obra denota um alguém comprometido com a maturidade da escrita diante de temas nada simples de confrontarmos. Tudo isso, somado às manifestações presentes nessa entrevista, faz com que consideremos a importância das escutas em torno desse talentoso poeta.

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Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal

DA – “Alguma Sinceridade” é um livro no qual vislumbramos os efeitos da lucidez.  Nele, as indagações são maiores do que as certezas, todas elas flutuando sobre um oceano de constatações. Quais marcas assinalam esse trajeto poético?

GERALDO LAVIGNE – Estou sempre tentando acertar e, por isso, sempre pensando na coisa certa a fazer. Não quero que confunda esta postura com qualquer sentimento que se alinhe ao egocentrismo. Trata-se apenas de depurar as atitudes, fazer o bem. Acredito que são estas reflexões que ensejam os meus pensamentos expostos em “alguma sinceridade”. A tentativa de amadurecer e ampliar a compreensão. A tentativa de dialogar isto com o leitor; não para ensiná-lo, mas para refletir. Lógico que os mais variados sentimentos vêm à tona no itinerário da criação (que antecede o da escrita), desde os afáveis aos censuráveis. Exponho-os e exponho-me. Deste modo, as constatações que você aponta na pergunta são as certezas que acredito ter angariado, mesmo sabendo que maiores são as dúvidas. Os poemas apresentam a minha visão sobre o mundo e o homem, bem como sobre mim e minha cidade.

DA – Na medida de sua exposição, um poeta se revela. “Alguma sinceridade” parece trazer um Geraldo muito conectado com uma espécie de sentimento do mundo. O saldo dessa percepção lhe apresenta mais espantos ou contemplações?

GERALDO LAVIGNE – Cada conjuntura pode ter um saldo avaliado. Às vezes os dissabores são maiores, às vezes não. Cada dia que vivo, novas experiências renovam a minha percepção sobre o mundo e sobre o homem, modificam a minha visão ou confirmam os meus pensamentos. Quando comecei a escrever rotineiramente, há mais ou menos 10 anos, sem dúvida o saldo era de espanto. Hoje busco converter este saldo para contemplação. Isto tem acontecido de fato nos últimos tempos. 2014, por exemplo, foi um ano decisivo para aprender que há abrigo em qualquer tempestade. Dele sobreveio um extremo sentimento de gratidão. No mais, permaneço antenado para captar as informações que vagam em cada experiência que temos. Continuarão a surgir espantos e contemplações e eu espero poder continuar a transcrevê-los para o papel.

DA – No terreno do “Amenidades”, seus versos se voltam fundamentalmente para a memória afetiva. Esse, digamos assim, encontro consigo mesmo, serve como uma espécie de renovação do olhar?

GERALDO LAVIGNE – Sim. Em “amenidades” eu perenizei temas diletos. Reuni neste livro as pessoas que me iluminam, apresentei a ternura da minha infância, resgatei a memória de minha família e discorri sobre meu querido solo, Ilhéus, entre outros lugares. Os poemas de “amenidades” trazem o meu lado afetivo, até então não publicado. Daí, posso dizer com certeza que há nele minhas boas lembranças e o agraciado presente. Nele também há um certo descanso sobre as demais questões. Sabe aquele momento, deitado na rede da varanda, ao lado de quem ama? É assim.

DA – Em que medida as lembranças desse “Olimpo do afeto” são capazes de fazer frente às inquietudes do presente? Um poeta pode afugentar suas dores?

GERALDO LAVIGNE – O sopesamento de o que prevalecerá entre lembranças e inquietudes depende da valoração que atribuímos a elas em dado momento. Acredito que as boas lembranças sempre oportunizarão felicidade na angústia, seja durante a própria recordação, seja na esperança do que virá. Destarte, e levando em consideração que recordar é viver, não só um poeta, mas toda e qualquer pessoa pode afugentar as suas dores se permitir que as boas lembranças nutram a felicidade em seu coração.

DA – “Alguma Sinceridade” e “Amenidades” estão agregados num mesmo volume. Enquanto o primeiro livro observa o mundo com olhos desnudos e certa intranquilidade, o segundo exalta um percurso sereno diante da vida. Equilibrar tais distintos hemisférios pressupõe algum significado especial para você?

GERALDO LAVIGNE – Sim. Hoje os livros impressos em um mesmo caderno representam para mim a dualidade: saber que as alegrias não são irrestritas e que as tristezas não são eternas. Saber ainda que a alegria convive com a tristeza quando levamos em consideração a vida. Para além destas questões, saber que convivemos com erros e acertos e com um mundo benevolente e cruel. Compreender esta dinâmica me parece o caminho para estar bem consigo e com os outros. Ela também nos auxilia a fazer e a respeitar escolhas, a entender o mundo – mesmo com irresignação. Quando levei os originais para o editor, Gustavo Felicíssimo, eles estavam, como ainda estão, separados, e eu disse para ele que eram livros distintos. A conformação conjunta surgiu ao longo do processo editorial. Já a revelação deste sentido mais apurado sobre a dualidade me ocorreu quando ele já estava impresso.

DA – Você faz parte de uma geração que exercita com mais habitualidade o desengavetar dos escritos, seja em sites, blogs, revistas literárias ou em livros. Com que olhos você observa esse cenário?

GERALDO LAVIGNE – Eu enxergo a literatura como expressão e diálogo. Não expor os escritos é como calar frases pensadas em típicos casos que nos arrependemos de nada ter falado. Esta geração que você diz e da qual participo está mais à vontade com a divulgação. E, a partir daí, penso que a literatura parece possível para pessoas comuns como eu, e não apenas para os extraordinários. Além disso, a divulgação está mais acessível: a internet é uma porta constantemente aberta; novas editoras têm surgido no mercado e oportunizado a publicação de autores inéditos; revistas digitais, blogs e sites criaram espaços qualificados voltados para a literatura. Assim, entendo que o cenário atual de desengavetamento de originais resulta da confluência entre a maior liberdade pessoal dos autores e a disponibilidade de meios.

Geraldo Lavigne
Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal

DA – Um autor deve estar comprometido com sua verdade pessoal ou com as expectativas dos leitores?

GERALDO LAVIGNE – Ambos são importantes, porém deve estar antes comprometido com a verdade pessoal. A verdade pessoal traduz a identidade do autor. Já as expectativas dos leitores representam o que ele tem provocado nas pessoas. Parece-me que a partir dos reflexos da obra recente de determinado autor surgem tais expectativas. Elas podem servir como guias para trabalhos futuros. No entanto, o autor jamais deve negar o seu espírito, sob pena de se ver descaracterizado e possivelmente infeliz com a própria obra. Isto, claro, levando em consideração que literatura é forma de expressão. Se o autor omitir a verdade pessoal, ele será mero veículo, não voz.

DA – O poeta está preparado para compreender as complexidades mundanas?

GERALDO LAVIGNE – A complexidade do mundo tem aumentado dia a dia. A qualidade intersistêmica dos conhecimentos tem avançado em todas as áreas. Compreender tecnicamente algo demanda cada vez mais informação. Elas estão aí para quem quiser. Por outro lado, as relações humanas dependem muito da sensibilidade. E de sensibilidade, todos nós somos dotados. É possível compreender as questões mundanas, basta se permitir. Estar preparado é um quesito difícil para todos. Por isso digo que o importante é manter a mente aberta e o coração limpo, ser prudente, estar atento para as experiências, aprender o que for possível e guardar o que for verdadeiro.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

GERALDO LAVIGNE – A falta de realidade. Contarei isso em algumas frases. As pessoas convivem menos. As crianças brincam em ambientes virtuais, muitas vezes sem sair de casa. Elas também não conhecem os alimentos naturais ou as coisas simples da natureza. A ficção está presente no cotidiano. A pessoa é frustrada por não possuir características de personagens ou se decepciona quando o outro não as tem. Há um culto exacerbado da perfeição. A pressa é implacável. O futuro é uma sombra que as pessoas dizem se preocupar. Posso relatar aqui ainda um longo conjunto de exemplos, mas tudo se resumirá à falta de realidade. Precisamos reencontrar o ser humano.

DA – Qual a diferença do Geraldo de hoje para aquele de “À espera do verão”?

GERALDO LAVIGNE – Muitos fatos sobrevieram neste interregno. Tentei aproveitar as lições da experiência. Delas eu consegui alguma maturidade, pude me conhecer melhor e aprendi os valores da gratidão e do amor. Hoje consigo exercitar melhor os meus pensamentos e princípios. Sobre a produção literária, acredito que tenha acompanhado este amadurecimento. Os poemas estão mais fluidos e rítmicos. A linguagem melhorou. A mensagem está mais apurada com o que pretendo. Também houve uma participação acentuada de temas afetivos, sem dispensar a continuidade da temática existencialista e metafísica, nem tirar os olhos do homem e do mundo.

DA – Afinal, por que escrever?

GERALDO LAVIGNE – Literatura é linguagem e arte. A comunicação é a finalidade precípua da linguagem, enquanto a libertação, a da arte. Existem vários porquês nestes dois universos interseccionados. Há neles substrato em abundância, inclusive para os casos aquém das questões essenciais. O meu primeiro foi a necessidade premente de expressão. O seguinte foi a busca da compreensão. Vieram mais; uns eu abandonei, outros não. O império do pensamento lógico incentiva a procura pela verdade mediante o cotejamento da causa com a consequência. Por isso nos deparamos com dúvidas como a da presente interpelação. Afinal, é mesmo preciso algum porquê?

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98ª Leva - 01/2015 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

PASTEL DE MIOLOS – NOVAS IDEIAS VELHOS IDEAIS

 

The Weapons of Mystery

 

Não seria coerente falar em longevidade quando o assunto aqui é simplesmente um CD, ainda mais se tratando de uma banda de punk rock baiana surgida numa década em que, ao menos para mim, frequentador raso e esporádico da cena, parecia perder seus melhores representantes. A palavra longevidade, quando metida no contexto do que me proponho a fazer agora, poderia ser citada quando falamos de Stones – só para ficar no óbvio terrivelmente ululante. Ou seja: ao falar de rock and roll, e vincular tal palavra ou qualquer um de seus sinônimos a esta resenha, corro o risco de converter tudo em exagero e banalidade.

Mas antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que é exatamente nisso que pensava toda vez que tentei escrever (e reescrever) esta resenha: longevidade. Ao falar do mais novo lançamento da Pastel De Miolos, Novas Ideias, Velhos Ideais, é impossível não lembrar meu sentimento nas noites em que acompanhei a banda. Era uma sensação nova e incomum, coisa que de quem está acostumado a observar por hábito – situação reforçada pelo fato de que eu era uma espécie de câmera/roteirista de um documentário abortado; ou seja, eu tinha que absorver tudo ao meu redor.

Minha conclusão, talvez equivocada e muito simplória, foi a de que uma banda se faz com uma mistura de elementos que não são pra qualquer um: vocação artística, paixão, vontade de se expressar, amizades duradouras, muito trabalho e talento. Afinal são 19 anos ININTERRUPTOS e envolvidos numa rotina de ensaios, shows e tudo o mais inserido nesse contexto: plateias ruidosas, casas de show quase desconhecidas ou badaladas, bares, festivais independentes, sessões exaustivas de ensaio, tudo isso desembocando numa recente e merecida turnê por países do velho mundo. Tudo o que uma banda necessita para pensar seriamente num legado consistente e verdadeiro. Na tal longevidade. Como algo possível.

Em seu novo CD, mixado no Canadá e produzido por Jera Cravo, encontramos tudo aquilo que faz parte do que podemos chamar “grande disco”. E antes que algum de vocês perceba a existência de exageros de minha parte, aqui vai a defesa: o que a PDM nos apresenta em seu novo trabalho não é simplesmente uma obra impecável, tecnicamente falando (incluindo aí a parte gráfica do artista carioca Flávio Flock, que também já trabalhou para a Pitty, entre outros), cheia de qualidade e de “pegada”; não são simplesmente letras corrosivas com imenso poder de fogo e reflexão; nem a combinação certeira de guitarra, bateria e baixo: Novas Ideias, Velhos Ideais é o resultado de um trabalho que surge numa sequência de outros, feitos ao longo desses anos, que foram sendo aperfeiçoados em sua produção sem nunca dever nada em seus shows.

 

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Pastel de Miolos / Foto: Júnior Américo

 

Novas ideias, velhos ideais, a primeira faixa, dentro de sua simplicidade absurda, já nos mostra aonde a coisa pode chegar: a frase repetida, o peso – realçado pela presença do novo baixista, André, que trouxe à banda uma maior aproximação com outros estilos de rock and roll, um peso e uma coesão maior -, tudo, enfim, conspira pra uma grande festa, “como antigamente”. Em Desobediência Civil, cujo clipe presente na internet vale ser assistido, a gente pode pensar em cada momento de nossas vidas em que desistimos de agir com alguma coragem: poderia ser uma pedra arremessada ou simplesmente se recusar a votar em qualquer canalha cujo discurso hábil nos enche a paciência.

Na próxima, Insegurança Masculina, com a presença ilustre de Vital Cavalcante (da banda Jason), o que vale é bater de frente com os machos que escondem sua fragilidade doentia nas atitudes violentas que por vezes surgem nos noticiários. A Ilha traz em si uma série de questionamentos sobre para onde finalmente iremos algum dia (se é que isso será possível). E na faixa Sem Nome E Sem Razão a bola da vez é a destruição gradativa que presenciamos todos os dias ao nosso redor, em nome de um sonho equivocado de progresso. Vou Tentar, composição de Tony Lopes, cujo som desacelera um pouco para dar maior sonoridade a outra letra simples, o que vale é o olhar certeiro e sensível do compositor. Já em Hardcore a ordem é pogar, sem deixar de atentar para a mensagem evidente – afinal em todas as letras existe algo a ser captado. Porcos, em minha opinião, a melhor do disco, contém tudo que um punk rock deve ter: coragem, metáforas corrosivas, peso, veemência, inquietação e fúria. Logo depois Homem Ao Mar, com seu estilo surf music, também parece servir de base para outra daquelas mensagens nada subliminares que fazem de Alisson um compositor de respeito. Quarteto II é na verdade uma junção bem feliz de textos, dentre eles o do grande poeta Lupeu Lacerda, e em Quando A Vítima Se Transforma Em Algoz e A.E.P, sincera homenagem a uma banda paraibana, o que vale é enlouquecer. E admitir que a essa altura não se pode mais achar o caminho de volta. Homem Sério, que conta com a participação de Frango Kaos (Banda Galinha Preta), serve como uma crítica aos que de alguma forma entregaram completamente os pontos. Essa Porcaria Que Me Faz Feliz encerra o CD, como uma espécie de celebração aos que ainda hoje – apesar dos cabelos grisalhos e das barrigas proeminentes -, estouram os próprios tímpanos com aqueles clássicos sem ligar para o resto.

E aí talvez todo esse papo sobre longevidade finalmente não tenha feito sentido algum, apesar de saber que os anos serão generosos com Alisson, André e Wilson; e que a PDM cumprirá com raro louvor seu papel na cena rocker de qualquer lugar do mundo. Mas, sinceramente, pouco importa. A essa altura dos fatos, depois de ouvir o Novas Ideias, Velhos Ideais uma dezena de vezes, o que vale é celebrar. Com algumas cervejas honestas, ou uma dúzia de granadas nos bolsos.

 

 

 

Gustavo Rios é baiano e escritor.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

GERALDO LAVIGNE – Ameno e sincero

Por Jorge Elias Neto

 Alguma Sinceridade

ALGUMA SINCERIDADE

Qual a idade do poeta Geraldo Lavigne? Pergunta que fiz a Gustavo Felicíssimo ao receber esses dois livros que se embrincam.  Pergunto-me por quê? Talvez por achar necessário alguma intimidade com o autor para quem se aventura a escrever uma orelha de livro. Talvez pela surpresa da promessa.

A poesia atual, em sua vertente mais celebrada pelas mídias do eixo Rio-São Paulo, se embriaga com o concretismo paulistano. Uma poética que brinca com as palavras, poética da forma, poesia da desilusão, do nada, egoísta, despida do deslumbramento.

Já a poesia de Lavigne ―… ―, ele mesmo a define “com alguma sinceridade” ao nos dizer suas meias verdades, já não escondidas atrás de uma máscara. E vai dizendo que “é no âmago que reside a centelha”, na “seiva que corre o motivo do visgo”. Lembra-nos que vivificamos o mito de Sísifo e nos avisa sobre a falácia de quem joga o bilboquê de pedra neste “mito de democracia”. E é enorme a generosidade do poeta ao nos alertar da “tirania maior” – o que nos faz recordar de Montaigne quando disse do medo dos homens que leem sempre um único livro.

Mas o “eu lírico” se percebe diferente, pois ser afeito ao silêncio e a contemplação é ser um transgressor, ser anacrônico, neste Mundo multimidiático. O homem não se irmana na globalização e sim no reconhecimento de que o “normal é diferente”. Compreende leitor?

E que bela imagem, a do coração, palimpsesto de pedra, onde é preciso “muita água da rara fonte dos olhos” para apagar o já escrito. Vejam a seriedade de um poeta jovem que se propõe buscar a síntese, o esmero técnico, sem que para isso necessite prescindir do coração. Um “eu lírico” que mantém a esperança de na busca ilusória do poema definitivo, perpetuar um coração minúsculo onde seja possível se escrever “com diminutas palavras”. Que bela imagem poética!

E o que dizer da ironia em Lavigne ― algo raro e necessário no enfrentamento das verdades ― quando no poema “aturdido” nos diz que “quando a água do chuveiro afaga meu corpo, posso ver, através da densa cortina, a minha vida com você é um filme de Hitchcock”.

Sim, a vida também é feita de perdas, e como emociona – e este é o maior objetivo da poesia – o poeta ao nos dizer da dor, no poema “meu velho”: “Faltam poucos dias para quatro anos nesse tempo dos homens que meu coração não reconhece”. E, consciente diante do absurdo do nada ― “a morte te espreita vereda por vereda” ―, ensaia o renascimento, um retorno mal sucedido ao ventre da inocência, pois já se impregnou com a verdade e se encontra “cheio de dentes e fantasmas”. Ressurge mais forte dessa viagem pela introspecção por ter “o gérmen do verde que brota quando o céu desaba”. Após o processo necessário de desconstrução, entende o silêncio, ergue os braços, toca as nuvens e “conversa com os anjos”.

Já no lúdico poema “Ocaso” Lavigne se questiona: “será que cupins alados pousarão sobre o lastro que me sustenta?”. Mas rebate, agudo, “ talvez seja mais um poente, talvez o ocaso seja o acaso em mim”. E acaba por definir ser o poeta o “tutor das plumas solúveis, que pousou altivo no patronato das aves domesticadas” e atinge a perfeição ao reconhecer que “a gota d´água não se sustenta nas asas do pássaro silvestre”.

Por fim, o poeta desafia os “borbotões de vento” que nos desfolham e nos tombam, ensaiando a transcendência “desafiando a longevidade dos ciprestes milenares”.

Agora, só nos resta tratar das amenidades …

Amenidades

AMENIDADES

O poeta do ameno deixa aqui seus fragmentos luminosos.

Toda singularidade do olhar lançado sobre o cotidiano pessoal traduz seu povo e sua terra.

Poemas imagéticos, sem dúvida; poemas de uma lentidão contemplativa, de saber de sua insignificância relativa e da importância de prosseguir no sem sentido, pois, “perfeição na terra – não há exceto o amor”. Para o ser imperfeito e portador do “fardo da consciência” o amor é “semidivino porque tem um quê de pecado” no lado debaixo do Equador…

O “chegar e partir, são dois lados da mesma viagem” nos diz Bituca, e também o fez Lavigne, autêntico poeta Grapiúna (confesso aqui minha admiração por esse nome e seus poetas) ao apreciar o entardecer neste “paraíso dos anjos”.

Como disse Ildásio Tavares: “Nada penso. Estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte”. Não será também esta atitude de Geraldo Lavigne nessa Ilhéus onde o céu se abre imenso, idílico, onde o “carvão abraçava a lua. A lua fogo abrasava o céu”?

Dá vontade, poeta, de apreciar esta “primeira claridade da manhã, com sabor de fruta madura, café coado em pano e tapioca”. Ver “as gotas caírem qual sais de banho” e, por saber-se nada, caminhar descalço sobre os seixos na ilha da Pedra Furada. Pois Cipango fica logo ali, onde aportou o sonho, que persiste e “cresce ao redor” e, apesar “do Mundo”.

Sabe, Lavigne, já “bebi menino as águas frias da mata” e meu mundo “era tão curto e tão vasto”… “mas o tempo dissipa as palavras como a aura dissipa a fumaça da lenha”. E por isso, também, sinto saudades de Senô, pois desejo a benção com água de coco, para quem sabe, também tornar-me doce…

É isso, leitor, já que me foi dado o privilégio de recebê-lo, o convido a entrar. O poeta é generoso, lhe oferece duas portas – dois livros: um que diz do homem como objeto refletido e repisado; outro mais ameno e bucólico, impregnado de memórias e imagens da bela região grapiúna.

Jorge Elias Neto é poeta, médico, ensaísta e membro da Academia Capixaba de Letras. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Secult – 2013). Recentemente, lançou seu mais novo rebento poético, Glacial (Editora Patuá – 2014).

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Jorge Augusto da Maya

 

Ilustração Rebeca Prado

 

 

Postal

 

O
sol eletriza
o corpo
da negra-cidade

recarregando
baterias solares

que a gente daqui
porta:
orgânica e uterina

(africarnada
na alma da cidade)

qual
pilhas de energia
intestina

assim: se
a engrenagem do
dia arde
sua fisionomia

o sol
acende o
cio da cidade

– Em simetria: solamaresia

 

 

***

 

 

Em casa

 

cada dia se dizia menos
o silêncio foi comendo toda palavra
até que não sobrou mais nada
mesa vazia, afeto desfeito
sem tato, sob o mesmo teto
alegria desbotando no porta retratos
estante escorada na parede
tv dizendo o que ninguém mais escutava
aquela ferida aberta no meio da casa
como um buraco negro
uma vala q aberta no meio da sala
cabia qualquer palavra
– boa noite pai.
não havia mais nada

 

 

***

 

 

Open

 

Exit. Êxito. Exílio.
quanto mais digo
me afasto
do que persigo.

palavra por palavra
armo
poemas que hesito

por todas as portas
de entrada saiu
do lugar q não existo.

melhor calar agora,
que ficar
falando em círculos.

o que busco é algo
algum alguém
pra além deste q digo
depois do exit

 

 

***

 

 

Os verões do corpo

 

A madrugada côa,
em seus escuros, ecos de luzes
restos do dia.
…………….. dejetos do dia.

no breu minguante da madrugada,
vagalumiava clarões no pensamento:

A imagem dela se acendendo

Faz a febre,
de um sol aceso dentro do corpo,
com seus todos fogos

a noite escoando seu escuro
surrealiza tuas  pernas abertas na
neblina do sono

a noite, toda consumida
em seus infernos,

me enterra nas cinzas do sono.

 

Jorge Augusto da Maya publicou poemas no livro “Antilogia” e na antologia “Poesia quebrada de quebradas”. Tem poemas e textos publicados em jornais e revistas, entre eles, Germina Literatura, Revista Cronópios, Revista Diversos Afins, Jornal Bahia Notícias. Atualmente, é docente na Universidade Estadual da Bahia e editor na Organismo editora.

 

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95ª Leva - 09/2014 Gramofone

Gramofone

Por Daniela Galdino

 

ROZE – ACORDE

 

Capa Roze

 

 “quanto mais eu ando mais vejo estrada
mas se não caminho não sou é nada”
(Plantador, Geraldo Vandré e Hilton Acioli)

Acorde. Palavra ambígua, título do primeiro disco solo da cantadora baiana Roze. Acordar é de dentro, primeiramente. Acorda-se em explosão interior e o estopim ultrapassa o deslimite do corpo (em si). Mas acordar, sendo de dentro, pode dilatar a percepção e gerar um desacordo com tiras, pedaços, fragmentos do mundo. Não digo com o mundo inteiro porque hegemonismos transformam particularidade em totalidade… e bem sabemos que mundo é vastidão (melhor seria dizer nos plurais). De modo que acordar para o desacordo vem acompanhado da encenação, da construção de outros mundos possíveis. Roze, sendo artista, parece confirmar isso.

Lançado em 1979, Acorde impressiona pela avidez misturada com doçura. Segundo o estudioso baiano Telito Rodrigues, “Roze canta como se tivesse fome”. Procede. Roze, trazendo consigo as pulsações de Tucano (seu lugar de origem), é toda apetências. Ela canta no limite, espalha ecos poderosos e nos envolve: a fome é compartilhada. Em estado emergencial a artista se apresenta com ânsia de dizer. Somente o canto apazigua ou sacia a fome. Cantar, portanto, é crucial, condição de sobrevivência, mas também tem algo de cíclico – quanto mais é apaziguada a fome se refaz.

Oco, povoações, vasculhamentos interiores. Roze chega, toma assento e não vem sozinha. Está acompanhada por rezadeiras, andarilhas/os, marisqueiras, tropeiras/os, romeiras/os, lavradoras/es, índias/os, caboclas/os. Na visualidade que “Acorde” provoca está essa procissão desses seres que não tomam assento na santa ceia do progresso. Talvez seja por isso que o disco doa e instale vácuos, ao mesmo tempo em que desperta esperanças no meio do dia abrasante.

Ainda sobre “Acorde” é importante dizer que traz composições de Geraldo Vandré e Hilton Acioli, Candinho de Jesus, Jorge Alfredo e Antonio Risério, Luiz Gonzaga e Zé Dantas, Capenga e Patinhas, Carlos Pita. O resultado é um disco que pulsa dores e esperanças, exala cheiro de mato seco, poeira de estrada, traz desertos e anoitecimentos por dentro. Correntezas de rios que transportam sonhos não se sabe para aonde. E ouvimos, na íntegra, sem conseguir pular nenhuma das doze faixas. O disco talvez seja uma ampla narrativa de nós.

Prefiro não dizer que Roze teve uma carreira meteórica. De 1979 datam a sua intensa participação no álbum “Águas do São Francisco” (de Carlos Pita) e o disco solo “Acorde”. Em 1980 foi lançado o compacto duplo “Roze”, seguido do terceiro disco também intitulado “Roze” e datado de 1984. As décadas de 80 e 90 foram marcadas pelas participações na coletânea musical “Som Brasil” (organizada por Rolando Boldrin) e em discos de Gereba, Fábio Paes, João Bá, dentre outros. Depois disso ela continuou transitando por mostras musicais, cantorias, eventos de celebração das culturas populares.

Roze, nos tempos atuais, segue cantando com avidez e doçura (cantar é crucial). Não está desaparecida, nem invisível. Canta onde é impossível. Tem “a boca preta de tanto sonhar” (Acorde, Candinho de Jesus). Se há desconhecimento da sua obra, culpa dos hegemonismos que transformam particularidade em totalidade e impõem modos de “consumo” musical, alastram o mero entretenimento com prazo de validade. Então, por (im)pura desobediência precisamos ouvir o canto faminto de Roze.

Agradeço a Telito Miranda e Renailda Cazumbá pelas contribuições que geraram esse texto. As impressões que aqui se apresentam são dedicadas, antes de tudo, a Roze.

 

 

 

Acorde (1979). Ficha técnica:

 

Produtor fonográfico: Gravações Chantecler LTDA.
Diretor Artístico de Produção: Luiz Mocarzel
Assistente do Produção: Candinho
Arranjos de Cordas: Wilson Moura
Arranjos de Base: O Grupo
Estúdio: Gravodisc
Técnico de gravação e Mixagem: Elcio Alvores Filho
Corte: Adenilton
Capa/Direção de Arte: Sergio Grecu
Produção Gráfica: Antonio Luiz
Past-up: Trinkão
Fotos: Candinho

 

Daniela Galdino é Poeta, por vezes Performer. Professora de Literatura na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Nasceu nas brenhas sulbaianas (em Itabuna) e vem se espalhando pelo mundo. Mantém o blog Operária das Ruínas.

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92ª Leva - 06/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Tantas eras já atravessadas e o caminho das palavras continua a se  guiar pelos imperativos da liberdade. Podemos aqui falar em liberdade a abranger tanto o campo criativo quanto o editorial. No primeiro caso, a conjunção entre forma e conteúdo confere vigor a todo e qualquer escrito. Com relação ao outro, novas investidas são pensadas como estratégia de trazer ao lume do mundo vozes muitas vezes nunca dantes percebidas.

O fato é que editoras não funcionam sem que tenham em suas mãos algo valioso. De nada adiantaria todo um trabalho de garimpagem de escritos os mais diversos possíveis se os sujeitos que os representam não trazem a marca da qualidade em suas expressões. O tempo em que vivemos tem trazido alternativas significativas no que se refere a publicações de obras. Nesse ínterim, um ânimo renovado irrompe. Na contramão dos ditames puramente mercadológicos, os quais segregam muitas obras a espaços confinados ou as enquadram num círculo duvidoso de preferências, o papel das pequenas editoras tem proposto novas reflexões sobre o tema.  Através do uso de tiragens reduzidas e de ferramentas de comercialização e divulgação diferenciadas, tais empresas intentam não somente um lugar ao sol, mas também servirem como espaços de democratização de expressões.

Um dos exemplos vivos dessa nova aurora editorial é o da Mondrongo Livros. Sediada em Itabuna, no sul da Bahia, a editora tem como seu fiel condutor o escritor paulista Gustavo Felicíssimo. Há pouco mais de vinte anos, Gustavo, que é natural de Marília, escolheu as paragens baianas como seu novo espaço no mundo. Sempre foi um obstinado ativista cultural e durante muitos anos fomentou a recuperação de obras de relevantes nomes da poesia baiana, bem como colaborou com a divulgação de outras tantas vozes. Sem dúvida alguma, sua vivência de poeta e de apaixonado pela literatura é que faz dele um homem mais preparado para enfrentar as vias editoriais. Dentre suas obras, estão os livros Outros Silêncios (2011), Procura & Outros Poemas (2012), Blues Para Marília (2013), todos pela Mondrongo. Experimentando um outro momento em sua feição de editor e prestes a lançar seu mais novo rebento poético, Gustavo nos recebe para um diálogo cujo tema maior não poderia ser outro: a marca indelével da literatura.

 

Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim

 

DA – Num determinado ponto de sua trajetória com a literatura, eis que surge a Mondrongo Livros. A partir daí, sua feição de editor, já acostumado a projetos diversos, ganha um substancial impulso. Que tipo de necessidade marca a origem da editora?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A Mondrongo nasceu de uma imensa e profunda insatisfação que eu vivia com tudo o que me cercava profissionalmente há anos. Posso dizer que foi o Teatro Popular de Ilhéus, através do Romualdo Lisboa, que em 2011 livrou a minha alma de um infarto fulminante ao me convidar para o desafio de fundar a editora com o objetivo claro de fomentar a literatura no sul da Bahia. Agora a Mondrongo está em voo solo, desvinculada do grupo, e batendo suas asas para além das fronteiras sulbaianas, mas a gratidão é e sempre será imensurável. 

 

DA – Como está sendo o processo de expansão da editora? Há uma clara intenção de abrir espaços para autores de outros recantos do país?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Há uma assertiva atribuída a Tolstói, que diz mais ou menos o seguinte: se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia. Eu digo que para tornar a Mondrongo uma editora de relevo nacional, primeiramente ela precisa, além de tempo, ser importante para o local em que nasceu. Assim, após três anos de existência e já tendo consolidado uma posição de relevo na cultura sulbaiana, começamos a pensar na ocupação de um espaço estratégico na Bahia. Para tanto, criei a “Série Horizontes”, que vem, desde o final de 2013, publicando alguns dos principais poetas baianos da chamada “Geração Anos 2000”, como o João Filho, Henrique Wagner, Silvério Duque, Nívia Maria Vasconcelos, Patrice de Morais e Herculano Neto. Esse nosso empenho em prol de uma geração vem dando bons frutos, atraindo público satisfatório para os nossos eventos, e olhares interessados tanto das academias quanto do próprio meio literário, o que comprova o acerto das nossas escolhas. Até o final de 2014, somente nesta série, teremos 10 obras publicadas. Criei também a “Série Mondronguinho”, exclusivamente para a publicação de obras infantis e infanto-juvenis. Fruto de uma demanda natural, a Mondronguinho tem dado um retorno muito positivo e alargado os nossos horizontes, pois é uma seara nova para mim e com a qual venho aprendendo muito e consolidando parcerias estratégicas. Já em um plano mais amplo, mas nem por mais importante, trabalharei para tornar a Mondrongo uma referência nacional para o Haikai, essa forma poética tão importante, mas ao mesmo tempo tão marginalizada, publicando, inclusive, autores de relevância. Para isso tenho em desenvolvimento a edição das cinco primeiras obras que deverão ser lançadas até outubro deste ano. Enfim, a expansão está acontecendo de maneira natural. Ou seja: de acordo com o que avançamos no cumprimento das metas planejadas, outras metas vão se impondo naturalmente. 

 

DA – Na sua avaliação, quais características marcam a nova face da literatura baiana?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A face é sempre a mesma. Em “Oropa”, França e Bahia, como em qualquer lugar, a literatura é multifacetada. Não há características que a possam definir. O que existem são os bons e os maus escritores. Os primeiros são capazes de escrever obras que marcam nossas vidas; outros, mal conseguem preencher os espaços vazios na estante.

 

DA – Cada vez mais, as editoras independentes vêm ganhando espaço no Brasil. Uma das alternativas de atuação delas está no uso de tiragens reduzidas como estratégia de sobrevivência e também de reação ao mercado editorial vigente. De que modo você percebe esse processo?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Cada dia mais me parece que ser independente é, necessariamente, depender de todo mundo. Mas o que aqui se deve entender como “independente” é o fato de ser uma editora pequena, de poucos recursos financeiros, que valoriza o autor e tem um olhar diferente para projetos inusitados, muito embora, como qualquer empresa, necessite trabalhar com os pés no chão para não quebrar por conta do entusiasmo. O capitalismo nos deu tecnologias, possibilitando pequenas tiragens com boa qualidade, custo acessível e canais de venda via internet, possibilitando que nos distanciemos cada vez mais das livrarias convencionais, muitas vezes parecidas a cemitérios de livros. Deu-nos ainda, em certa medida, a condição de ignorar a mídia tradicional, que sempre nos quis ver com pires na mão. Parece-me que o caminho dessa “reação” passa por aí. 

 

DA – Desde 1993, você elegeu a Bahia como morada. E seu livro “Blues para Marília” é algo pungente na medida em que pontua a sua travessia como escritor até aqui.  Como você vislumbra esse seu exílio íntimo de poeta? 

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Minha ligação com a Bahia é algo muito especial, transcendental, diria. E Marília é a base da minha gênese. Em 1970, meu pai, que era Caixeiro viajante, esteve em Salvador a trabalho e trouxe consigo a minha mãe. Quando retornaram, ela estava grávida. Daí por diante, sempre que ele se lançava no mundo dizia: “Mulher, cuida bem do nosso baianinho”. E na volta, inevitavelmente, perguntava: “E aí, mulher, como está o nosso baianinho?”. Daí que para mim não há mistério algum ter vindo parar ocasionalmente a trabalho na Bahia, em 1993, e daqui não ter saído mais. A par disso, posso dizer, literalmente, com as palavras do Gilberto Gil, que a Bahia me deu régua e compasso, que aqui, graças a todas as influências, sobretudo culturais, fui forjando o homem que sou, o entendimento de mundo que tenho. Foi aqui que entendi que sem a literatura a minha vida não poderia mais acontecer. E o que me é mais caro: aqui nasceu a minha filha, esse ser que amo tanto e que me mostrou o quanto sou pequeno. É à margem do que sou que sei exatamente o que não fui.

Sobre Blues para Marília, penso que essa pungência atribuída à obra se deve pela inserção de um forte componente emocional, minhas mais alegres e dramáticas reminiscências. Com elas me fiz e me desfiz nos caminhos da vida. Foram dez anos de escrita, dez anos tentando entender as minhas agonias para traduzi-las em imagens, algo que somente a poesia, com sua potência verbal, pode dar conta.  Isso se o autor trouxer consigo uma profunda consciência literária e o respeito pela tradição. Somente assim é possível manter a poesia liberta, em pleno voo. O livro foi lançado em abril de 2013 e vendeu os 500 exemplares iniciais, o que me forçou a providenciar uma segunda edição ainda mais caprichada, disponível para aquisição.

 

DA – Criar é notadamente uma confissão de pertencimento?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Em todos os sentidos. E mais: é uma questão de identidade. Afinal, nossa escrita é o reflexo do que somos. Mas criar é também uma espécie de defesa, uma forma do ego repelir a angústia e a ansiedade, sublimando-os.

 

Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim

DA – A memória afetiva pode ser também um terreno melindroso para o poeta?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Se, como afirmo anteriormente, nossa escrita é um reflexo do que somos, logo a “memória afetiva” é parte da identidade do autor. É ela que repudia os contrários gerando tensão. Essa oposição gera a necessidade de se diluir a tensão, proporcionando a força motriz da criação. O Anthony Storr, em “A dinâmica da criação”, explica que uma pessoa criativa necessita de um mergulho incomum no seu interior para conter e fazer uso do que descobrir ali.

 

DA – Em “Procura e outros poemas”, você experimenta o gosto de uma maturidade literária. E há ali também uma, digamos assim, alusão ao uso responsável do verso livre. Diante dessa atmosfera, quais reflexões lhe parecem mais relevantes?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Embora transite por diversos gêneros literários, sempre fui conhecido, ou mais conhecido, como poeta. Talvez por isso a Mondrongo venha se firmando e merecendo atenção por conta dos projetos e publicações nessa área. Quanto a meus livros, o que posso dizer é que sempre tive a consciência de que um compêndio de poesia precisa ser formado por uma unidade, um aspecto qualquer que o perpasse como uma espécie de fio condutor, afinal, um livro do gênero não deve ser um ajuntamento aleatório de poemas, mas antes de tudo uma proposta conceitual, seja ela discursiva ou formal. Daí eu ter levado, em média, dez anos para aprontar cada um dos meus livros. Mas sejam em versos medidos ou não, me parece importante que os volumes de poesia reflitam essa proposta estética, muito embora não tenha muita esperança quanto a isso, pois os poetas, de um modo geral, historicamente interpretaram de maneira inadequada o modernismo, permitindo que a sua influência lhes prestasse, em verdade, um desserviço na medida em que se confundiu liberdade com permissividade e até mesmo vulgarismo. É como disse o Elliot: não existe verso livre para quem quer fazer um bom poema.

 

DA – No conjunto de sua obra, há uma busca consciente por uma unidade formal?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – O termo “formal” da pergunta parece vir revestido de um significante pejorativo, no entanto é necessário considerar que todo poema é uma unidade formal se levarmos em conta que não poderá ser considerado como tal se não conseguir amalgamar em seu bojo elementos como “imagem”, “melodia” e “ideia”. O problema é que termos como “forma”, “métrica” e “versificação” se transformaram em verdadeiros xingamentos para os poetas na modernidade. Só que não conheço nenhum bom poeta que não domine esses elementos fundamentais, até para quem se identifica mais, ou mais especificamente, com o chamado verso livre. Todavia, como afirmou Ildásio Tavares, esse é um processo dialético e o esvaziamento de um conduz à valorização do outro. À parte essas considerações, o importante é que, seja em verso livre ou concebido dentro de alguma forma, se faça poesia. No entanto, é necessário lembrar aqui um provérbio latino que diz fit orator, nascitur poeta.

 

DA – Você está prestes a lançar seu mais novo livro, “Desordem”. Com qual clamor estes versos surgem?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Mesmo não tendo nenhuma certeza quanto a isso, posso dizer que “Desordem” foi se construindo permanentemente assistido por um rigoroso discernimento crítico. Nele, através do uso da metalinguagem, estão contidas diversas das minhas reflexões sobre a poética e o fazer poesia, também há uma suma importante de reflexões sobre a morte, resumidas em um capítulo formado apenas por elegias, e, por fim, há um capítulo intermediário em que floresce muitas vezes o meu lado combativo em poemas de feições diversas, normalmente de características obscuras e até mesmo pessimistas.   

 

DA – Nesse universo de percepções que abriga o poeta e o homem, o quanto Gustavo Felicíssimo conhece Gustavo Felicíssimo?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A única maneira que tenho para responder à pergunta é com um antigo poema, intitulado Autorretrato.

 

Sou como o invisível céu
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;

sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo

a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta:

trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.

 
– 3 POEMAS INÉDITOS* –

 

À POSTERIDADE

 

Ocorreu-me de escrever
um poema à posteridade.
Um poema que assegure
a permanência do meu nome,
seja lá o que isso signifique.
Um poema tão claro e puro
quanto essa exclamação:
posteridade, vá se foder!

 

 

***

 

 

EU NASCI DECLARANDO GUERRA A VOCÊ

Para Cristiano Jutgla

 

Dane-se essa onda do politicamente correto,
essa mania de não poder desagradar nunca,
afinal, a existência não é mais que um incêndio.
Que importa restarem cinzas depois das chamas?*
Que importa a bondade dos liquidados?
Não procurar a verdade na imensidão da verdade,
senão na força falsa de um imbecil diplomado
é o mesmo que não se aplicar em traduzir
o que a vida mesma está sempre a nos dizer.
Não tecerei alvíssaras a mais pura mediocridade.
Não vencerei o tolo jogando o seu jogo.
Ele surge como se fosse o novo,
mas é o farol apagado no meio da imensidão.
Assim ele marcha: num cortejo fúnebre.
Assim se mantém: com muletas que não o sustentam.
Nenhuma filosofia o alimenta ou ampara.
Estúpido, que na estupidez se espelha,
eu nasci declarando guerra a você:
eu nasci odiando a tua mediocridade.

 

* O verso é de Mário Quintana

 

 

***

 

 

UMA FAGULHA

 

Essa corda que vibra
no poema é a vida
pois se nela um sopro insiste
se um fio de esperança
……..ainda resiste
é por que enquanto houver gente
haverá sempre o sonho
uma fantasia qualquer
que fará da poesia tão somente
…………….o sol na face
…………….o sorriso da criança
…………….o seio da amada
– e porque não –
um domingo de futebol
e a torcida na arquibancada.
É que enquanto houver no homem
a sede de afrontar a angústia
e a fome
……..implacável
………………….de viver
haverá por certo uma explosão
algo fazendo tinir
o cristal que nos move
e não deixa morrer a ilusão
de que a poesia
……..– para sempre –
……..continuará a ser
uma fagulha que inflama a existência.

 

 

* Os poemas acima fazem parte do livro Desordem, a sair pela Mondrongo em 2014.

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Vítor Nascimento Sá

 

Foto: Rosa De Luca

 

POÉTICA

 

I

 

Ser capaz de colher,
na árvore de Mallarmé,
um punhado de sementes,
transformá-las em estrelas negras
e compor uma constelação
sobre o céu branco do papel.

Entre o barulho e o
……………………….silêncio

Deixar o vento amalgamado
num móbile
……..da
………..sala
……….de
………….estar.

 

 

II

 

Nesta mesma escrivaninha,
um texto por encomenda:
angústia.

Prazo, quase findo,
lugar marcado,
papel em branco.

Um amigo, ao telefone,
questiona a validade,
a importância das
digitais sobre o teclado.

Mais uma gota de suor,
mais uma xícara de chá amargo,
mais litros e litros
de vazio até a escuridão entrar pela janela.

E, mais, uma vez,
adio a primeira linha
para o dia seguinte.

 

 

III

 

de pronto dilata-se
……..    minha ideia
e me faz maior
que o universo
então tudo se aquieta
……..    em mim
estrelas
……………..soar de sinos
……..    fundos mares
verbos de outras
terras
……………..virgens
são minha alma
sob o manto enviesado
a empreender mantras
tudo absolutamente tudo
em minha poesia

ou em mim
quiçá até o inexistente
o que equivale dizer
que é ela também o nada

para além do que se sente

minha poesia é um desmentido
……..    em jornais de folhas rotas
………………guardanapos nos bares da esquina

é quase tudo
inda
é muito

porque é arte de tudo dizer com o mínimo possível

é o limite entre os sons e os completamente silentes

para o resto ela é só uma porção de dúvida
diante da certeza dos que se pensam contentes

 

 

IV

 

Muito antes deste poema,
fui forçado a escrever o meu braço,
sustento de mãos, colegiado de dedos e sonos.

Muito antes deste poema
a saliva estava para teu corpo
assim como o rio está para o barco
ou para o cão a observar o seu curso.

Jamais entenderás a solidez
de minha primeira água.

Ainda não liquidada,
a energia devorou
meus dedos de escuridão,
abismo, ausência.

Foi esse então o primeiro facho.

 

(Natural de Maracás, Bahia, Vitor Nascimento Sá é gestor escolar, revisor e professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, licenciado em Letras pela UESB em Jequié e mestrando em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. É diretor e cofundador da Associação Grupo Concriz: Poetas, Recitadores e Afins. Tem textos publicados nas revistas Verbo21 (BA), Blecaute (PB), Correio das Artes (PB), Cronópios (SP) e Laboratório de Poéticas (SP). Participa da antologia Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (2011))