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115ª Leva - 09/2016 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

BAIANASYSTEM – DUAS CIDADES

 

 

Cidades são muito mais do que aglomerados de pessoas e espaços demarcados. Nelas, pululam vozes, pensamentos e manifestações conscientes de que há possibilidades diversas de representação em meio ao tecido social multifacetado. Afinal, cada recanto é porta-voz de peculiaridades por vezes ocultas diante de todo o aparato dos centros hegemônicos de poder, os quais insistem em cobrir com um manto de invisibilidade tudo o que contrarie suas agendas controladoras.

Quando as epifanias da periferia resistem, muitas alternativas podem surgir dessa atitude afirmativa. A melhor delas está no fato de que os apelos da cultura popular, tradicionalmente posta à margem por alguns, evidenciam a consolidação de espaços próprios, irradiando para outros centros a genuína pulsão de suas expressões. No eixo que aglutina pensamento, criação e atividade, a periferia das cidades agrega muito mais do que uma retrógrada noção de atraso sócio-econômico.

Sem dúvida, o contexto da arte é uma verdadeira mola propulsora no quesito de superação de certos anacronismos e distorções. O resultado é positivo na medida em que a periferia rejeita o discurso da vitimização e põe à mesa reflexões sobre a sua capacidade de pensar não somente as questões de seu entorno, mas também as de um contexto maior, o mundo.  É justamente esse tipo de sentimento que emana de trabalhos como os do BaianaSystem, verdadeiro agrupamento de criadores imbuídos de expressar seus modos de conceber a vida.

Para entender o trabalho dessa junção de músicos baianos é preciso sondar suas origens e influências. O ponto de partida vem da rua, da vivência com o movimento do sound system perpetrado nos bairros afastados de Salvador. Capitaneada pelo coletivo Ministéreo Público, a experiência consistia em levar àquelas localidades toda uma dinâmica de som de rua, com caixas potentes que reproduziam basicamente reggae e disco, ação fortemente derivada da cultura musical jamaicana.

É justamente desse poder sonoro, e também discursivo, o qual emana dos espaços públicos externos, que ganha corpo o projeto do BaianaSystem. Num misto de samba-reggae, salsa, bases eletrônicas, ijexá, Kuduru e pagode, dentre outros elementos, o grupo constrói sua identidade pluralizada tanto no plano musical quanto no plano das letras.

Segundo disco da banda, Duas Cidades foi um álbum que nasceu de um processo inverso de concepção, pois partiu das ruas e shows para o estúdio, num caminho que fugiu do fluxo natural das realizações fonográficas, trazendo dos ecos do público e do cotidiano uma consistente base para sua criação.

BaianaSystem / Foto: divulgação

Transitando por elementos vocais e percussivos, DJ’s, e marcado especialmente por uma virtuosa utilização da guitarra baiana, o disco carrega um sentimento caracterizado pela cartografia urbana das identidades, evocando em suas letras questões que refletem sobre aspectos críticos do modo pelo qual vivemos como sociedade.

Logo na abertura, deparamo-nos com a mensagem clara e direta de Jah Jah Revolta – Parte 2, canção que exalta as consequências naturais das ações semeadas no convívio com nossos iguais. Em Lucro (Descomprimindo), desponta um momento especial do disco, tempo de pensar o espaço urbano como um verdadeiro palco de nossas contradições, principalmente quando os avanços derivados da ferocidade capitalista interferem tanto na paisagem quanto no modo como os habitantes se percebem num contexto sociológico.

É na faixa Duas Cidades que o espírito representativo do disco se traduz com vigor. Diz em que cidade que você se encaixa? Cidade Alta/Cidade Baixa? é a pergunta que flutua por toda a canção carro-chefe do álbum, clamando por uma resposta que signifique o ato de assumir papéis por parte de quem divide os espaços físicos. Quiçá ela possa ser entendida também como um vivo jogo de expor idiossincrasias que ora apresentam diferenças gritantes, ora tendem a se aproximar de algum modo. De qualquer maneira, a luta pessoal dos indivíduos, guardadas as devidas divisões sociais, econômicas e culturais, é capaz de traçar uma cara para a referenciada metrópole.

Enquanto Playsom aposta em todo peso sonoro característico de uma ambiência jamaicana, Panela mostra, por sua vez, a atmosfera típica da gênese do carnaval da Bahia, enaltecendo a condução precisa da guitarra baiana, grande matriz do trio elétrico.

Como se não bastasse a potência vocal e interpretativa de Russo Passapusso, a guitarra baiana de Roberto Barreto, o baixo de SekoBass, a guitarra de Junix, a percussão de Japa System e as atuações dos DJ’s João Meirelles e Mahal Pitta, o novo álbum do BaianaSystem recebeu toda a atenta condução do talentoso Daniel Ganjaman, produtor que traz em sua bagagem trabalhos com artistas do quilate de Sabotage, Criolo, Planet Hemp e Emicida, dentre outros mais.

Duas Cidades é a consolidação de uma trajetória que, partindo das ruas, becos e vielas, amplifica a visibilidade necessária de frentes valiosas da cultura popular. No momento em que impulsiona recortes identitários e bem representativos de mundo, deixando de lado obviedades panfletárias, consegue seu resultado maior: fazer da música um instrumento de percepções que vão além do nosso umbigo. Por certo, ainda ouviremos falar muito dessa força sonora chamada BaianaSystem. É vida que segue, arte dançante que ecoa.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

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99ª Leva - 02/2015 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

RUSSO PASSAPUSSO – PARAÍSO DA MIRAGEM

 

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Viver jamais será algo linear e predeterminado. Não é demais pensar que nossa existência é semelhante a uma colcha de retalhos, na qual vamos juntando fragmentos de nossa passagem por esse estranho planeta chamado Terra. A própria construção ocidental da felicidade não passa de uma imagem desbotada, uma frágil quimera. E é bom que seja assim, pois desse modo o desafio de tocar os dias adiante pode contar com um componente a menos no quesito zona de conforto.

Mas por que falar de nossos vestígios e de duma volátil visão de felicidade? Talvez para manter a mente mais voltada aos sentimentos no modo espontâneo como eles se apresentam. Significa afugentar previsões, abandonar planos perfeitos, respirar e apenas seguir em frente, sem bússolas ou outros artefatos similares. A consequência imediata disso será, no mínimo, a de saborear uma experiência denominada de presente, esse estado de coisas que ainda permanece estranho a muitos mortais. No caso do cantor e compositor Russo Passapusso, os tais sinais do hoje fazem sentido e justificam a construção do seu primeiro disco solo.

Paraíso da Miragem é um instante particular na carreira do músico baiano. Acostumado às intensidades vocais, textuais e instrumentais de sua trajetória à frente de investidas como o BaianaSystem, Bemba Trio e o coletivo Ministéreo Público, Russo agora se volta para suas observações intimistas de mundo. Se por um lado há uma espécie de desaceleração do lado tradicionalmente efusivo do artista, dadas as peculiaridades de suas outras experiências musicais, por outro, emerge a feição daquele que discorre sobre a vida, o amor, as questões sociais do país e outros temas a partir de uma pessoalidade caracterizada por pungência e alguma serenidade.

O álbum é marcado por canções que mesclam letras precisas com arranjos multifacetados de brasilidade. De cara, faixas como Paraquedas, Flor de Plástico e Sem Sol são verdadeiros destaques do disco e representam com vigor o momento do artista. Reúnem pontos de delicadeza e um sentido poético e contemplativo diante da existência, aspectos que pontuam muito bem o caráter introspectivo do trabalho.

 

 

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Russo Passapusso / Foto: Fábio Bitão

Como de costume, o discurso é algo inalienável em Russo Passapusso. E isso se dá de modo especial no samba de Sangue do Brasil, através do qual os olhares estão voltados para emblemáticas mazelas de nosso país.  “Vai adiando a tristeza enquanto a morte não vem”, diz o canto de Matuto, outro ponto forte do disco. Nos apelos instrumentais de Areia, há uma valiosa sensação de flerte com os preciosos afrosambas de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Em matéria de produção, é possível perceber de que modo a atuação de parceiros como Curumin é determinante para o resultado da obra. Uma escuta atenta já confirma isso. Há um quê do mano paulista na concepção do álbum. Somam-se ao time de produtores os nomes de Lucas Martins e Zé Nigro. Contando também com as participações de gente do quilate de Edgar Scandurra, BNegão, Marcelo Jeneci e Anelis Assumpção, Paraíso da Miragem tem coerência e unidade, exaltando formas de se lidar com a imensa lista de sentimentos que fazem morada em nossas mentes e corações.

Russo Passapusso tem o que dizer e cantar. O saldo das escutas fica por conta de cada ouvido. Enquanto o fim não vem, que tal podermos arriscar que o paraíso não existe e que tudo é apenas uma questão de estado de espírito?