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95ª Leva - 09/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

Articulador cultural, doutor em Letras, professor universitário, editor e fundador das editoras alternativas Estrada e Tulle, co-fundador da revista Hera (1972-2005), criador das coleções literárias Olho D’Água (1982) e Bocapio (1991), além da revista de poesia Duas Águas, com Pablo Simpson (Campinas – SP, 1997), estudante de flauta doce, compositor (parceiros: o catarinense Márcio Pazin, além de Carol Pereyr e Tito Pereira, seus filhos) e, sobretudo, poeta, Roberval Pereyr, filho de Antônio Cardoso – BA (1953) que sempre esteve ligado a Feira de Santana, onde reside desde 1964, é autor de diversos livros, dentre eles As roupas do nu (1981), Ocidentais (1987), O súbito cenário (1996) Concerto de ilhas (1997), Saguão de mitos (1998), Amálgama – Nas praias do avesso e poesia anterior (2004), Acordes (2010), Mirantes (2012) – prêmio da Academia de Letras da Bahia (2011) e 2º Prêmio Brasília de Literatura (2013) – e 110 poemas (2013). Publicou, ainda, A unidade primordial da lírica moderna (teoria da literatura, já na 2ª edição). Tem no prelo o livro A mão no escuro (desenho artístico).

Nesta vasta lista de feitos, aponto, como mencionei acima, Roberval Pereyr principalmente como poeta. Não apenas pela quantidade de livros publicados ou pelas premiações, mas pela dedicação à palavra, à literatura. Na entrevista que aqui segue, onde arrisco algumas longas perguntas, o caráter de cuidador do verbo, da poesia como instância fundamental da vida e de alguém que não se desvincula da escrita como orientação do ser em nada do que realiza, fica nítido. Quando penso na obra de Roberval ou na sua figura em sala de aula, lembro com insistência da música de Milton Nascimento, com letra de Caetano Veloso, inspirada no conto rosiano A terceira margem do rio. Não aventuro fazer qualquer analogia direta com o teor – enigmático – da composição ou da narrativa. O que acho que penso quando reflito sobre essa lembrança evocada pela “simbólica” de Roberval é na musicalidade metafórica e densa, tanto da canção de Milton e Caetano quanto da obra de Guimarães Rosa como um todo. Nessa estrofe certeira da música A terceira margem do rio, “Asa da palavra / Asa parada agora / Casa da palavra / Onde o silêncio mora / Brasa da palavra / A hora clara, nosso pai”, a despeito de qualquer interpretação, salta de imediato aos ouvidos e ao coração um ritmo longilíneo, marcado por assonâncias, aliterações e rimas intrigantes. É a força, a gravidade e a influência da palavra – fora toda uma referenciação ao universo do conto rosiano – que emergem de uma possível “leitura musical” dessa peça. Na história que inspirou a canção, o protagonista, que parte para o ermo do rio, tem a palavra silenciada; o que fala são seus gestos, seu vagar pelas águas, sua busca pela terceira margem. Na narrativa rosiana, a exploração da palavra (símbolo/significante/significado) é levada às últimas consequências. E é nisso que penso quando leio Mirantes, por exemplo. É o impacto de uma construção literária imbuída de musicalidade soberana que em momento algum compromete o jogo semântico do texto ou a fluidez de um dado tema, nem se dilui em excesso ou se pretende hermética. Pelo contrário. A obra desse multi-autor revela uma solidez pouco encontrada, que equilibra vigor semântico/temático e cadência rítmica de modo preciso. Na poesia de Pereyr, há o momento do silêncio e o tempo do embate:

Duo

 

Tenho um mestre que não conheço
e que me guia sem saber.
Não sabe meu endereço,
não sei seu nome: pra quê?

Só sei que me guia, e bem
ou mal
me deixo reconduzir
aos mesmos vãos do real
em que me perco sem ir.

E ele, sem me dizer,
me diz que tudo está certo;
ao que eu, sem responder,
respondo: fique por perto,
mestre,
que estou perdido.
E ele, sem existir, me diz:
sim, meu filho, sim.
E tudo perde o sentido.

 

E em todo o andamento há uma poética de pura música:

 

GALOPE

 

Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos

(com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade).

Meus pensamentos são meus cavalos
Meus pensamentos são meus camelos

(sou sertanejo, nasci nos matos,
ando a cavalo para mim mesmo).

Meus sentimentos são meus desejos
em que me vejo perdido, e calo.

Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos

 

Música feita do extrato da poesia plena, assim como a obra ficcional de Rosa. É poesia que não se mede, e que vaza na asa da palavra.

 

Roberval Pereyr
Roberval Pereyr / Foto: Arquivo pessoal

 

CLARISSA MACEDO – Roberval, trilhando uma longa e feliz carreira literária, conte-nos como tudo isso começou, como a literatura surgiu na sua vida e nela fez morada.

ROBERVAL PEREYR – Comecei a escrever aos 14 anos, mais ou menos (poemas, narrativas, etc.). Mas, antes mesmo de começar a escrever, me sentia tomado pelo que depois vim a identificar em Drummond como o sentimento do mundo. Sempre escrevi por uma necessidade: inscrever no mundo da linguagem o que o mundo escreveu (ou escreve) em mim. E escrevo porque tenho o que Rollo May chama “a paixão da forma”. Entre os vários poemas que criei pela necessidade de dar forma a essa necessidade de escrever (cada um deles trazendo facetas diferentes em torno do assunto), um, que está em Mirantes e que se intitula “Silhueta”, é assim:

……………..Escrevo: o tédio me ameaça.
……………..O tédio a que não tomo
……………..sequer uma data.

……………..Escrever não salva
……………..mas desdobra em calma
……………..o sofrimento, instaura
……………..o silêncio
……………..onde enfim me enredo contra o horror da estrada.

……………..Escrever é meu credo:
……………..credo que consiste em não crer em nada.

 

Mas também escrevo pelo gosto da “Cantiga” (primeiro poema de Mirantes):

…………….Mares do avesso
…………….navego.
…………………….Perigoso, o ego
…………………….mil endereços me dá.

……………São falsos, eu sei, são falsos.
……………Mas é bom navegar.

 

Poderia continuar com a citação de muitos outros poemas que fiz na tentativa de traduzir a minha necessidade de escrever, e ainda assim não estaria satisfeito. Sei que se trata de uma necessidade, mas uma necessidade que não se deixa traduzir, jamais, de forma cabal e definitiva. A origem da criatividade (como, de resto, qualquer origem) perde-se no insondável, tem sua reserva de mistério. Mesmo que esse mistério, como queria Fernando Pessoa, não seja, ao final das contas, mistério algum. Mas dizer isso (ou ler isso) pode deixar-nos, paradoxalmente, ainda mais inquietos. Voltando à questão proposta, poderia simplesmente dizer: escrevo porque escrevo. E é tudo. E é só. E não é. O problema, assim, se repõe inteiro. Por isso, neste ponto sinto-me tentado a calar-me. A propósito, Fernando Pessoa, ele mesmo, é o tradutor exímio de um livro difícil e belíssimo, inspirado na sabedoria tibetana, intitulado A voz do silêncio. Quem está apto a escutá-la? Mais ainda: a dar-lhe uma (não)forma? Talvez os poetas e os grandes mestres orientais. Eu, não. Mas espero.

CLARISSA MACEDO – Partindo dessa necessidade mencionada acima, desse “escrevo porque escrevo”, que se alarga e se confunde em sua própria indefinição, o homem que não escreve – por falta de expressão melhor –, paradoxalmente, busca cada vez menos a epifania literária. Como você vê o escritor – esse ser que não sobrevive sem a escrita – na sociedade contemporânea? Há um lugar, ou um entre-lugar, para aquele que escreve?

ROBERVAL PEREYR – Em primeiro lugar, não acho que, necessariamente, “o homem que não escreve busca cada vez menos a epifania literária”. O leitor criativo, mesmo não sendo escritor, pode muito bem vivenciar, no seu envolvimento com o texto literário, momentos luminosos e reveladores. Quanto à pergunta que você faz, posso respondê-la dizendo que o lugar do escritor é, primeiramente, aquele que ele cria com (e na) sua própria linguagem. O escritor é um criador de mundos, que ele habita e que o habitam. No ato criativo, ele se encontra consigo mesmo, e esse encontro inclui o seu mundo e a humanidade. Esse mundo da obra (refiro-me a obras autênticas, escritas com engenho e arte, e por necessidade) se ergue estabelecendo tensões com o mundo de todos (ou de ninguém). Essas tensões se traduzem não raro como testemunho, recusa e denúncia. Portanto, é de se esperar que o mundo utilitário, agressivo e degradado dos mercados e dos consumismos (retratado e denunciado de muitas formas e em muitas dimensões nas obras literárias) retire dos álbuns o retrato do escritor e dos catálogos os títulos dos seus livros. Exceção feita, é claro, aos best-sellers, quase sempre dóceis e sempre lucrativos. Assim o escritor, em sua normalidade, vai precisar fazer outras coisas para sobreviver. Ser, por exemplo, professor, como eu. Mas, de uma forma ou de outra, sempre foi assim, e não acho, sinceramente, que as coisas possam mudar. E quando digo “as coisas”, quero dizer: a humanidade. Ao escritor cabe então levar em conta o que Octavio Paz denomina “as imensas minorias”. Felizmente, elas de fato existem e podem ser encontradas no mundo inteiro.

CLARISSA MACEDO – O homem que não escreve – por falta de expressão melhor – referido acima, seria esse grande público que não se interessa pelo literário e que vivencia o “mundo utilitário, agressivo e degradado dos mercados e dos consumismos”, do qual, de alguma maneira, ninguém está livre. Nesse sentido, grandes polêmicas têm cercado a literatura, como as acusações de preconceito racial dirigidas à obra de Monteiro Lobato e o rótulo de elitista direcionado a Machado de Assis. Por isso, seria necessário simplificar Machado e retirar Monteiro Lobato das livrarias. Tais investidas, por assim dizer, teriam o objetivo de democratizar a literatura. O que você pensa sobre isso?

ROBERVAL PEREYR – Em primeiro lugar, acho que tais investidas não poderiam jamais contribuir para democratizar nada, pois me parecem frágeis e autoritárias: ao que tudo indica, refletem uma postura daqueles que, em função de seus interesses e de suas ideologias, se acham no direito dizer como as coisas, as pessoas e as obras de arte devem ser, ou têm de ser. Todos nós, pelo fato mesmo de lidarmos com conceitos, tendemos a ser preconceituosos, isto é, a usar nossos conceitos de forma irrefletida e inadequada. Por isso mesmo penso que toda crítica, para ser libertadora e produzir conhecimento válido, tem de ser também autocrítica, no sentido de pensar a realidade pensando a si mesma, buscando permanentemente adequar-se às situações e indagações que o seu objeto suscita. Preciso lidar cuidadosamente com meus conceitos e meus preconceitos, sob pena de me transformar na primeira vítima deles.

Em segundo lugar, essas investidas parecem evidenciar uma ignorância básica sobre a arte (entre elas, a literatura): qualquer obra de arte que seja didatizada (para “facilitar” ou “simplificar” o que quer que seja), ou criada colocando em primeiro e único plano uma ideologia, tende a virar propaganda. Vira meio para, vira instrumento, unilateraliza-se. Ou seja, se transforma em tudo que a arte não é. A obra de arte, mesmo quando eventualmente incorpora uma limitação (da sua época, do seu autor, ou de ambos – o que, até certo ponto, é inevitável), existe para, sob certo sentido, tensionar com essa mesma limitação, ou com quaisquer outras. E isso se dá pelo fato de que toda autêntica criação artística é, constitutivamente, multidimensional, polifônica, plurifacetada, não porque suprima a ideologia (o que seria impossível e até indesejável), mas por multiplicar e entranhar em seu tecido as mais diversas visões, e em situação, isto é, de forma dramática. A obra que tiver, de fato, essa característica traz em sua própria “natureza/função” os sinais e as possibilidades da diferença. É o que podemos constatar, por exemplo, nesta passagem de um poema de Antonio Brasileiro, que de forma muito oportuna me vem agora à cabeça: “A verdade é uma só: são muitas./E estamos todos certos. E sem rumo.” Na obra de arte, as “verdades” do seu próprio autor, que porventura nela estejam explicitadas, oscilam, vacilam, e isso é suficiente para que o leitor (com suas verdades e limitações) possa se posicionar, mas ao mesmo tempo sentir a oscilação de suas próprias convicções, desde que seja um leitor sensível, aberto, flexível: desarmado em relação ao novo e ao outro, mesmo que com ele não se identifique. A propósito, a literatura é uma desarticuladora de identidades fixas, isto é, artificialmente constituídas, e o faz precisamente por encenar e fazer proliferar as visões de mundo e os móveis lugares de onde essas visões vão se evidenciando e se problematizando. Ou seja: no que se refere ao labor com as palavras, penso que a literatura é, no melhor sentido, a linguagem mais generosa e democrática que pode existir. Tolera inclusive a contradição, quando é fecunda, como a que se evidencia, por exemplo, na afirmação: para ser eu mesmo tenho que ser sempre outro (afinal, ainda hoje repetimos com Heráclito: ninguém desce duas vezes o mesmo rio). O que não significa, evidentemente, que o bode tenha que se transformar em carneiro. Feita a ressalva, podemos dizer que a singularização não exclui nem a mudança, nem a pluralidade. Indivíduo é aquele que se singulariza porque não se divide, porque está enraizado no todo, e o todo, no caso, é o que há de comum a todos. O todo é a mãe invisível que pare todas as singularidades. Assim, às diferenças de superfície, penso que devemos associar uma identidade básica, que, no meu entender, está aquém e além das ideologias, sob pena de transformarmos originalidade em intransigência, singularidade em identidade fixa, respeito à “Verdade” em fanatismo e cegueira. Ou de pregarmos a democracia com um discurso que traz a marca da intolerância para com a diferença em sua radicalidade. É muito comum a aceitação da diferença apenas dentro do enganoso círculo do mesmo. Para respeitarmos efetivamente a diferença, devemos ter, com Sartre, a coragem de aceitar que “o inferno são os outros”. Essa aceitação me parece ser um ponto de partida sincero que nos fará compreender até onde podemos ir no terreno do outro, que é, a um só tempo, fonte inesgotável de fascinação e repulsa, e não necessariamente uma instância da realidade a ser erradicada.

Diante de tudo isso, censurar, excluir, “simplificar” (que muitas vezes, além de uma intolerância em relação às inesgotáveis e necessárias possibilidades de lidar com as formas e os significados, implica ainda uma subestimação da capacidade do leitor) são verbos que não têm nenhum cabimento, embora reflitam posturas que estão na moda, e em larga escala, inclusive na academia. Arremato, então, com um breve poema de minha autoria, intitulado Nudez, aparentemente contraditório em relação a certas afirmações que acabo de fazer, e que por isso mesmo vem a calhar: “Não quero ser simples./Uma flor não é simples:/é uma flor. E não cede.”.

Roberval Pereyr
Roberval Pereyr / Foto: Arquivo pessoal

 

CLARISSA MACEDO – Além de escritor, como já foi dito, você é professor e também investe na produção cultural, organizando, por exemplo, parte da Feira do Livro de Feira de Santana. Como conciliar atividades que, ao mesmo tempo em que estão relacionadas, exigem tanto? Em que medida o poeta Roberval mergulha em cada uma delas? O que o outro, ou outros, essa “[…] fonte inesgotável de fascinação e repulsa” (aproveito essa fala de forma ressignificada), tem a dizer?

ROBERVAL PEREYR – Já disse em outras oportunidades que tudo que faço é como criador. Quando edito o livro de um amigo ou de um aluno, o que tenho feito ultimamente através da Tulle, editora alternativa sem fins lucrativos que criei e coordeno, sinto uma grande alegria. É a alegria de participar do surgimento de algo. Quando entro numa sala de aula, tenho sempre a sensação de que algo novo pode ou vai acontecer. E o que vai acontecer é o que Rollo May aponta como algo indispensável a todo ato criativo: o autêntico encontro. A minha participação voluntária na Feira do Livro – Festival Literário e Cultural de Feira de Santana, por exemplo, é também motivada pela expectativa de contribuir, ao lado de muitas outras pessoas, para que certas coisas significativas aconteçam em Feira de Santana, e que aconteçam como encontros desejados, porque criativos. E desejados não só por mim, mas por várias pessoas que organizam e/ou aguardam o evento.

A minha atuação como orientador no Mestrado (UEFS), para dar mais um exemplo, é também encarada como uma jornada criativa, que implica encontros, cumplicidades, achados, o que inclui, sem dúvida, incertezas, angústias, mas também momentos luminosos. Tudo, obviamente, com muito trabalho e envolvimento, e esperando, por parte do outro ou dos outros envolvidos, o mesmo grau de empenho e dedicação. Em tudo isso, é preciso frisar, fica implícita uma coisa: o que faço com empenho e criatividade é o que gosto de fazer. Somente dessa forma podemos nos aproximar do que Henry Miller afirma ter alcançado na maturidade e que expressou com esta frase exemplar: “Tudo que faço é por pura alegria”.

CLARISSA MACEDO – Falemos um pouco de Hera – importante revista que por mais de 30 anos divulgou literatura e artes plásticas. Como foi a experiência de estar na gênese dessa que foi/é, além de uma revista, um movimento artístico?

ROBERVAL PEREYR – Hera (1972–2005) foi uma grande experiência coletiva. Uma experiência que perdura, já que muitos daqueles que constituíram a base do movimento por ela protagonizado (a exemplo de Antonio Brasileiro, que foi o iniciador de tudo, Assis Freitas Filho, Iderval Miranda, Juraci Dórea, Luis Pimentel, Luiz Valverde, Nanja, Rubens Alves Pereira, Trazíbulo Henrique Pardos Casas, Washington Queiroz e Wilson Pereira de Jesus) continuam atuando. E são muitos os desdobramentos de sua atuação, sob a forma de livros, revistas, exercício da docência, encontros, oficinas, projetos de pesquisa, intervenções, dissertações, teses, artigos, etc. Disso tudo resultam novos desdobramentos, diretos e indiretos, cujas repercussões fogem, felizmente, ao nosso controle. Para mim, esse é o primeiro e o maior dos sentidos relacionados à Hera, isto é, ao movimento que ela gerou, para além mesmo da literatura.

Enquanto co-fundador da Revista Hera, que dirigi, sempre em parceria, em 17 dos seus 20 números, posso dizer que, sob certos aspectos, e a partir dos meus 18 anos, confundo a minha história com a dela. Acompanhei (muitas vezes, em companhia de Brasileiro, Wilson, Cremildo Souza, Gastão Correia, Washington, Wilson e Juraci) a preparação e a feitura de cada um de seus números (cerca de metade deles impressa em tipografia), em várias gráficas de Feira de Santana (somente 2 números foram impressos em Salvador). Além disso, fui o único a publicar em todos os números de Hera. Esses números foram reunidos e publicados em edição fac-similar, volume único, em 2010, pela Universidade Estadual de Feira de Santana, em parceria com a Fundação Pedro Calmon. Trata-se de um volume de mais de 700 páginas, que reúne quase mil obras de 100 autores diferentes, cerca de 50% deles neófitos, muitos ainda inéditos à época em que se candidataram a publicar na revista. E o que mais impressiona, sobretudo por ser uma revista que publicou – ao lado de poetas consagrados – muitos autores iniciantes, é a sua qualidade. Hera foi, efetivamente, uma revista geradora. Enquanto existiu, plantou e colheu. Aliás, continua colhendo. Para mim (e para meus companheiros) ter participado (e continuar participando) desta história, desde o início, tem um sentido muito especial.

CLARISSA MACEDO – Mirantes ficou entre os vinte finalistas do prêmio Portugal Telecom 2013, recebeu o Braskem Academia de Letras da Bahia, em 2011, e venceu na categoria Poesia do 2º Prêmio Brasília de Literatura. Um marco e tanto para qualquer escritor. O que essas premiações significam na sua carreira?

ROBERVAL PEREYR – Significam que minha obra aumenta suas chances de alcançar um número maior de leitores qualificados, num país de poucos leitores e num mundo em que os criadores, no campo da arte, com raras exceções, são escanteados pela lógica do consumismo desenfreado em função do lucro e invisibilizados pelos meios de comunicação a serviço dessa lógica. No lugar dos criadores, a bem sucedida legião da mesmice (que já cheguei a chamar de “mesmice dinâmica”) e da mediocridade. Aos membros dessa legião, basta apenas um atributo: algo que eles mesmos chamam de carisma. Mas voltemos aos prêmios e à minha obra: alcançar um número maior de leitores significa a possibilidade de multiplicar encontros com – e entre – aqueles que constituem “as imensas minorias” e que, como já disse, podem ser encontrados em todas as partes do mundo. Quando me refiro a encontros, estou querendo dizer que não me interessaria alcançar uma quantidade maior de leitores a qualquer custo, já que, a qualquer custo, quantidade subtrai qualidade. Seria colocar a vaidade e a estupidez (e – o que não é o caso – o dinheiro) acima, por exemplo, da indescritível alegria que significam os encontros que a arte (no caso, a poesia) pode proporcionar. “Uma coisa bela é uma alegria para sempre”, já disse um poeta. “Tudo que faço é por pura alegria”, disse Henry Miller, num importante ensaio em que ele afirma, ainda, que “a arte nada ensina a não ser a significação da vida”. Isso me interessa, e espero que para isso os prêmios atribuídos a Mirantes possam contribuir.

CLARISSA MACEDO – E de agora em diante? É possível pensar no futuro?

ROBERVAL PEREYR – Sei que sua pergunta não é propriamente filosófica. Minha resposta, no entanto, vai ser. Então digo que sim, é possível pensar no futuro. Mas futuro e passado são aqui e agora. Aliás, só por isso é possível pensar neles. Num vaivém, muitas vezes tortuoso, somos o que já fomos e o que ainda não somos: somos um projeto. Mas sempre no Presente, que, por sua vez, nos escapa incessantemente. “Ninguém se banha duas vezes do mesmo rio” (Heráclito). O desafio é, apesar de tudo (isto é, apesar do óbvio), manter-nos atentos, despertos, vivenciando com plenitude o aberto, a clareira – em estado poético. Hölderlin (que foi adotado por Heidegger) afirma: “…poeticamente o homem habita esta terra.” Acho que qualquer projeto só tem sentido se não nos rouba o presente, ou seja, se nos gratifica e nos ilumina, desde a sua gestação. Isso é possível, por exemplo, na criação e na recepção criativa da arte, tão necessária quando se trata de despertar. Acho que é nisso (e afins, a exemplo do zen budismo, que associo, entre outras coisas, ao ócio criativo) que vou mergulhar cada vez mais. O futuro ao Presente pertence. Carpe diem.

 

Clarissa Macedo é licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Está presente em diversas coletâneas. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog Essa coisa que é o eu.

 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

UM OLHAR SOBRE O JOGO DE SER EFÊMERO

Por Rafael Morais

 

Foto: Kenia Vartan

 

É muito interessante a relação entre o nome deste caderno, “Jogo de Cena”, com o tema que abordaremos em sua estreia: a Improvisação Teatral. Antes de tudo, pensei em um tema que estivesse presente em tudo que realizamos no teatro, assim como o próprio jogo, inerente à atividade teatral. A improvisação tem papel relevante em todos os meus processos criativos e de formação artística. Interage tanto com o ofício do ator, quanto com o do contador de histórias, palhaço e o teatro de rua, destaques estéticos do Teatro Griô, grupo do qual sou um dos fundadores e coordenador artístico.

A improvisação existe como elemento implícito em qualquer ato teatral, mesmo num teatro que pretende formalizar o seu resultado como uma criação acabada e previamente elaborada, que objetiva uma forma final (produto acabado) fechada ao improviso. Nestes casos, a improvisação deixa de existir apenas aparentemente, permanecendo submersa, pois a arte teatral por si só é improvisacional. O ato de improvisar no teatro, entretanto, não deve ser confundido com a atitude de realização com pouco ou nenhum preparo prévio.

Julgo importante frisar que a improvisação, além de ser inerente ao teatro, ela, justamente, origina o próprio teatro e tem se desenvolvido desde os primórdios do fazer teatral. Mas, em muitos momentos do percurso do teatro através dos tempos, a improvisação descreve um percurso dinâmico que vai desde a condição de primeiro e único recurso, tornando-se posteriormente a se constituir uma atividade subliminar, até chegar a ser um elemento autônomo de expressão, de forte relevo em determinadas manifestações teatrais.

A improvisação teatral, segundo Sandra Chacra, importante estudiosa do tema, não encontra um espaço privilegiado nos registros escritos do chamado teatro tradicional, sobretudo o de base literária, não sendo, portanto, as fontes históricas sobre a improvisação teatral, referências sustentadas em fundamento textual mais amplo. As formas e os meios de improvisar no teatro foram se desenvolvendo de forma subterrânea, juntamente com um fazer mais ligado ao teatro popular, desde as épocas primitivas, perdurando como manifestação até o presente. Desde as representações dionisíacas, precursoras da cena formal, além da estrutura ritual, comportavam uma série de expressões mimo-dramáticas improvisadas. “A Improvisação é a raiz, não somente da tragédia, como também da comédia”. (CHACRA, 1983, p. 24-25).

Desde a antiguidade, a improvisação existe como uma forma de transmissão a partir de aspectos ligados à oralidade, como elemento de destaque de determinadas formas de espetáculo muitas vezes originadas de experiências ligadas ao teatro mais popular. Não dá para realizar, neste artigo, um estudo panorâmico da improvisação teatral ao longo da história*, no entanto, gostaria de chamar atenção aqui para esse fio que segue subterraneamente através dos tempos, o que a aproxima muito de uma forma de sobrevivência e disseminação inerente à tradição oral, como foi o caso de sua presença tanto nos primórdios das farsas atelanas, que improvisavam com tipos determinados em que se pode reconhecer os progenitores das futuras máscaras italianas da commedia dell’arte, passando pelos saltimbancos, bufões, acrobatas, prestidigitadores, charlatães e outros, que representavam all’ improviso nas praças e feiras desde os primórdios da Idade Média. “Da mesma forma, a improvisação também está presente nas festas medievais, como a ‘Festa dos Reis’, o ‘Carnaval’, a ‘Festa dos Loucos’ e outras.” (CHACRA, 1983, p. 29).

Após o desaparecimento da commedia dell´arte, a improvisação continua a manter-se no decorrer do século XIX em espetáculos marcadamente populares como a pantomima, o circo, o teatro de variedades (music-hall, cabarés). O próprio Stanislavski, preocupado com uma representação mais sincera e verdadeira, propõe ao ator uma preparação através da improvisação. Meyerhold, por sua vez, integra o improviso no próprio espetáculo, seja para estabelecer traços estilísticos, seja para comunicar aspectos sócio políticos. Artaud, dentre seus objetivos, tem o de tornar o teatro uma “linguagem da improvisação” e chega a pensar num teatro cuja peça seja composta diretamente em cena. Gordon Craig e Jaques Copeau, entre outros, valorizam o espetáculo, a atuação, o jogo cênico, o gesto, a expressão corporal e vão beber na mesma fonte em que nasce o espírito da improvisação teatral.

De um modo geral, todos os encenadores do teatro moderno se valem da improvisação num grau maior ou menor, seja na preparação ou durante os espetáculos, como o chamado “Teatro Participação” **, e grupos como o Living Theater, Open Theater, Bread and Puppet, dentre outros, sem esquecer os brasileiros que recorrem à improvisação como linguagem de destaque, tais como Augusto Boal, com o “Teatro do Oprimido”, e José Celso Martinez Corrêa, com o “Te-ato”, os quais consideram que o fenômeno teatral nasce e se concentra quase exclusivamente na co-autoria ator-público.

Na prática por nós desenvolvida no Teatro Griô, por exemplo, a improvisação teatral integra tanto os ensaios quanto o momento da apresentação, através de estratégias diversas. A arte do improviso auxilia e dá suporte à criação cênica, apresentando possibilidades de interação com a plateia. Os elementos criados em meus processos criativos a partir da improvisação estão apoiados na própria prática de ator, professor de teatro e preparador de elenco, utilizando ainda experiência como especialista nas técnicas de palhaço e contador de histórias. Parte de inspirações diversas, como palavras, imagens, manipulação de objetos, jogos e estratégias de improvisação tanto para a criação do texto quanto da encenação.

A arte de narrar histórias, elemento-chave de nosso fazer teatral, tem, também, forte marca de improvisação. A própria relação com a oralidade confere à arte do cronista oral muita aproximação com elementos ligados à improvisação teatral. Não tenho como objetivo, no processo criativo de encenação de histórias, “decorar” a narrativa de maneira convencional, numa forma fechada, mas trabalhá-la como uma trama, um fio narrativo entrelaçado com fatos fundamentais, imagens, emoções, atmosferas, conflitos, desenlaces que se organizam de maneira a estabelecer o percurso narrativo desejado. De modo alusivo, o griot tradicional do contexto africano também assume a improvisação no tratamento dado a uma trama narrativa tradicional:

Uma narrativa tradicional possui sempre uma trama ou base imutável que não deve jamais ser modificada, mas, a partir da qual, pode-se acrescentar desenvolvimentos ou embelezamentos, segundo a inspiração ou a atenção dos ouvintes. (HAMPÂTÉ BÂ, 1982, p. 192).

Ao visualizar esta trama, com as muitas imagens que ela implica, o ator-griot*** improvisa o seu texto apoiado na cena da oralidade. Isso não quer dizer que ele irá inventar tudo na hora, ou que não tenha preparo prévio, mas, muito pelo contrário, o preparo para este tipo de desempenho é imprescindível. A improvisação, neste caso, além de ser elemento chave na concepção da cena, é também destaque no momento da encenação, uma vez que este ator estabelecerá um contato mais direto com a plateia, a qual em determinados momentos poderá até participar como co-criadora da cena, resultando, por conseguinte, em uma maior abertura para a realização de uma atuação improvisada.

Nesta experiência em que o ator contracena diretamente com a plateia, ele vai naturalmente ajustando sua atuação (texto, estratégias, ritmo etc.) em resposta aos espectadores e ao momento. Tem a liberdade de, no andamento da cena, caso ele mesmo julgue pertinente, simplesmente fazer como tinha planejado nos ensaios, ou adaptá-la, suprimir alguma parte, acrescentar outra, interromper em determinado ponto a narrativa e realizar um jogo de animação da plateia, para logo a seguir retomar a narrativa de onde havia parado.

As tramas, no contexto de meus processos criativos junto ao Teatro Griô, diferentemente das histórias simplesmente narradas, estimulam a criação de diversas estratégias de transposição da narrativa para a cena e criação de personagens, inclusive do próprio personagem narrador. Também permite ao ator-griot interagir diretamente com o público num ato de desvendamento de sua própria personalidade de forma poética, a partir da encenação dos mitos e contos populares e das narrativas criadas da sua própria memória, bem como dos jogos de interação com a plateia.

A improvisação acaba por alinhavar um tecido que sustenta o próprio jogo teatral, principalmente numa metodologia como a do Teatro Griô, que privilegia a cena do ator em comunhão com elementos técnicos e estéticos do palhaço, contador de histórias e teatro de rua, dentre os quais a improvisação é elemento-chave na composição cênica em todas as etapas do processo criativo.

Não é possível vivenciar o transitório jogo da cena teatral sem praticar a arte de improvisar. O ator sabe que é preciso re-viver a cada espetáculo, a cada encontro com o público, o jogo efêmero do teatro, onde, apesar da busca da repetição, daquilo que foi perseguido nos ensaios, é impossível se fechar ao novo. E, caso esta experiência se cristalizasse, numa forma fria e acabada, tornar-se-ia sem vida. Morreria o jogo. Deixaria de ser teatro.

 

Notas:

 

* Além de Chacra (1983), “Natureza e Sentido da Improvisação Teatral”, e da obra de Viola Spolin (1979), destacando-se o título “Improvisação Para o Teatro”, uma visão panorâmica do percurso da improvisação no teatro, pode ser vislumbrada, de forma implícita, ao analisar muitas obras sobre o teatro, como por exemplo, “O Parto de Godot” de Luis Fernando Ramos (1999), no capítulo 1, que aborda a história da rubrica, e o histórico sobre o non sense na história do teatro composto por Martin Esslin (1968), no seu “O Teatro do Absurdo”, capítulo 1: o absurdo do absurdo. Claro que, ao contrário de Chacra, os outros dois trabalhos dos autores citados não tratam explicitamente de improvisação teatral, mas, ao tratar da história da rubrica, ou do percurso do non sense, eles acabam permitindo agregar dados, de forma panorâmica num mesmo capítulo, a essa possível reconstituição de um fio imaginário de um percurso da tradição oral da improvisação teatral. Isso sem contar com a análise de obras específicas da História do Teatro.

 

** Notadamente o dos anos sessenta, realizado nos Estados Unidos, também conhecido, além de “Teatro Participação”, com os nomes de “teatro experimental”, “teatro em processo”, “teatro de contestação” ou “teatro improvisado”. Tratam-se na verdade de diferentes tipos de “participação”, na qual podem ser englobados, por terem todos, em comum, alguma participação “ativa” do espectador e ser a improvisação a base de seus trabalhos.

 

*** Utilizo o termo ator-griot, para designar o ator que cria um personagem narrador, inspirado poeticamente em narradores tradicionais do noroeste da África, denominados griots, que têm a função de alinhavar as narrativas encenadas, inclusive as narrativas criadas a partir da experiência de vida do próprio ator. A utilização do termo ator-griot foi de grande valia para facilitar a compreensão da especificidade de atitude deste ator, como concebido na pesquisa realizada por mim no âmbito do PPGAC – Programa de Pós-Graduação em Artes Cenicas – UFBA, e, para auxiliar no entendimento do que foi exposto no cotejamento com os procedimentos assumidos por tradicionais encenadores do teatro. Caso haja interesse numa maior compreensão do termo e, consequentemente, do processo criativo integrante da pesquisa, no qual se constituiu da criação e encenação de uma trama de narrativas inspiradas nos griots, pode-se consultar a Dissertação (citada nas referências ao fim deste artigo), onde foram tecidas determinadas especificidades a respeito do desempenho deste ator-griot.
 

 

REFERÊNCIAS:

 

CHACRA, Sandra. Natureza e Sentido da Improvisação Teatral. São Paulo: Perspectiva, 1983.

 

ESSLIN, Martin. O Teatro do Absurdo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.

 

HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. A Tradição Viva. In: KI-ZERBO, J. (org.). História Geral da África Vol. I. São Paulo: Ática/Unesco, 1982.

 

RAMOS, Luiz Fernando. O parto de Godot e outras encenações imaginárias: a rubrica como poética da cena. São Paulo: Hucitec, 1999.

 

SOUZA, Rafael Morais de. Na Teia de Ananse: um griot no teatro e sua trama de narrativas de matriz africana. Orientadora: Profª. Drª. Hebe Alves da Silva. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal da Bahia, Escola de Teatro, 2011.

 

SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. São Paulo: Perspectiva, 1979.

 

 

(Rafael Morais é ator, diretor e professor de Teatro. Mestre em Artes Cênicas – UFBA, é também Coordenador Artístico do Teatro Griô. Dirige os grupos artísticos residentes do Teatro Griô: “Akpalôs – Fazedores de histórias” e “Cia de Teatro Baobá”)

Contato: rafael@teatrogrio.com.br