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94ª Leva - 08/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

Brindemos ao poder de condensação e síntese do espírito poético que ronda o mundo. Saudemos essa capacidade de expansão pela qual as mais variadas formas de expressão artística perfazem seus caminhos mais genuínos. Ousamos levantar uma questão aqui: será a poesia a gênese de todos os campos da criação? Suponhamos que sim. E o que faremos com tal constatação? Levar a cabo a raiz motivacional de cada produto em matéria de arte. Tudo ficaria mais simples ao admitirmos a concepção há pouco proferida? Talvez. Discordâncias à parte, o fato é que não é pela ótica pura e simples da contemplação ou da leveza que iremos conduzir o entendimento, mas pelo caráter da inquietude que perpassa o ânimo poético. Com toda a sua carga de complexidades, estar no mundo nem sempre representa uma boa nova sob o ponto de vista do inventariar de temas. Talvez para evitar a suposta gratuidade do ofício, nalgum ponto imaginada, seja importante entendermos um criador como alguém que se esmera com cuidado e apuro na sua empreitada. Ao harmonizar certo método com os ímpetos intuitivos, o artista pode estar mais próximo de driblar percursos mais escorregadios. Desse modo, a criação de imagens e palavras apoia-se numa perspectiva na qual as coisas não transcorrem deliberadamente. Aos autores, cabe um discernimento crítico a respeito de tal condição, sobretudo para que a falsa ideia de uma obra reluzente não lhes embriague os sentidos e o despertar de outras investidas. No trabalho de pesquisa com a Diversos Afins, as revelações sobre esse íngreme caminho aparecem a todo o momento. Sem pretensões de delimitar classificações estéticas ou estilísticas, seguimos em frente no fomentar de novos encontros. É dessa maneira, com os apelos indescritíveis da poesia, que nos deparamos com as epifanias de gente como Myriam de Carvalho, Charles Marlon, Alessandra Cantero, Marina Tadeu e Simone Teodoro. No território da prosa, os contos de Munique Duarte, Pedro Reis e Anderson Fonseca reproduzem o delicado fio da seara ficcional. O entrevistado da vez é o cantor e compositor pernambucano Ricardo Chacon, que nos conta um pouco da sua trajetória, destacando a atmosfera do seu novo disco. Larissa Mendes fala dos efeitos que o primeiro álbum da Banda do Mar causou aos seus ouvidos. Num mergulho aprofundado no novo livro de poemas de Oleg Almeida, o escritor Marcelo Moraes Caetano constrói sua leitura crítica. “O Grande Hotel Budapeste”, filme de Wes Anderson, é o foco da resenha de Bolívar Landi. Pedro Reis comenta as suas impressões acerca de “Pequod”, romance de Vitor Ramil. Entrecortando as múltiplas vozes aqui presentes, as fotografias de Luciana Bignardi compõem um rico painel de observações de mundo. Seja bem-vindo a nossa 94ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BANDA DO MAR – BANDA DO MAR

 

Banda do Mar

 

2008: a música une o casal Fabrizio Moretti e Binki Shapiro ao hermano Rodrigo Amarante para formar o Little Joy, uma das “bandas de um álbum só” mais promissoras do universo musical da década.

2014: a música (re)úne o casal Marcelo Camelo e Mallu Magalhães ao baterista português Fred Ferreira para formar a Banda do Mar e lançar seu primeiro álbum, quiçá um dos mais fofos do ano.

Se, na ocasião, afirmei que o Little Joy “parecia perfeito para ser ouvido numa tarde ensolarada na estrada, rumo à praia ou à cachoeira mais próxima”, o mesmo reitero em relação à Banda do Mar.

Semelhanças e coincidências à parte, o grupo apresentou no final de agosto o primeiro registro do encontro, disponível na loja virtual do iTunes. O álbum físico será lançado em setembro pelo selo Zé Pereira (de Camelo) e distribuído pela Sony Music. O trio luso-brasileiro, que tem turnê agendada para os próximos meses nas principais capitais, acaba de lançar o videoclipe oficial da canção Mais Ninguém, cantada por Mallu e “dançada” por Fezinho Patatyy e toda trupe do mar, filmado numa grafitada Lisboa, onde Mallu e Camelo viveram por mais de um ano (para manter as comparações, o vídeo lembra vagamente a sátira brasileira de One Way Trigger, do The Strokes, banda de Moretti, no clipe com os bonecos de festa infantil).

 

Camelo, Fred e Mallu/Foto: Divulgação
Camelo, Fred e Mallu / Foto: divulgação

 

Camelo abre os trabalhos com a faixa Cidade Nova, onde brada “eu não deixo o tempo parar” e enfatiza a proposta de sua nova aventura musical: “eu só trago o mar de algum lugar comigo”. Mais Ninguém (preciso me fazer só/pra me fazer maior), um dos singles pré-divulgados antes do lançamento do álbum, juntamente com o pop-rock Hey Nana – que lembra muito um Camelo nos áureos tempos de Los Hermanos –, têm bateria marcante e suingue suficiente para tornarem-se hits. Se em Muitos Chocolates Mallu avisa que além do doce, precisa de cafuné e massagem no pé, na marchinha Mia, ela conta a história de outra manhosa gata de hábitos peculiares. O folk quase autobiográfico Me Sinto Ótima (cansei de carregar milhões de medos/das pessoas que me cercam e me pesam de agonia/eu já tenho lá os meus anseios, os meus receios/que eu perco com a luz do dia) e a destemida Seja Como For (não tenho medo de rato nem barata/meu bem, você pra mim é privilégio/sorte grande de uma vez na vida) nem lembram a menina tímida que cantava em inglês em 2008, por julgar mais sonoro.

É inegável que as melhores canções do álbum ficam a cargo das sempre inspiradas composições de Camelo, sobretudo nos versos das mansas Pode Ser (pode ser o seu tamanho/ou o jeito que você erra/no momento em que eu te ganho/ou no barco que te leva) e Dia Clarear (se você jurar eu posso até te acostumar/numa vida mais à toa/é só você querer que tudo pode acontecer/no amor de outra pessoa/base de um descanso milenar). Na libertária Faz Tempo, o compositor procura um lugar ‘na cidade ou no litoral’ e termina com um versinho em ritmo de Jovem Guarda. Solar, outro ponto alto do álbum, é uma daquelas canções-hino que se tem vontade de cantarolar na autoestrada, rumo à mesma praia do Little Joy. E a Banda do Mar(celo) despede-se literalmente com Vamo Embora, “que eu tenho meu encontro feito com um mar de pérola” e “o tempo que eu tenho é pra voar”.

Se os músicos não inovam esteticamente nas 12 faixas e soam como continuidade de Sou (2008) e Toque Dela (2011), de Camelo, e Pitanga (2011), de Mallu, ao menos eles trazem o seu melhor – e isso não é pouco. Fred Ferreira completa o trio cedendo toda a experiência percussiva e eletrônica dos coletivos Buraka Som Sistema e Ovelha Negra, num frutífero intercâmbio Brasil-Portugal. A capa do álbum é assinada pela fotógrafa Bruna Valença e traz um negativo vencido da modelo Camilla Baldin. Decididamente, a Banda do Mar não tem prazo de validade. É som que não morre na praia.

 

 

 

Larissa Mendes não sabe nadar, mas se amarra em surf music e Iemanjá.