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87ª Leva - 01/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Vera Lluch

A primeira Leva de 2014 assinala a reunião de novos personagens ao redor da mesa que partilha os feitos culturais. Como não poderia deixar de ser, a busca por outros atores que movem o surpreendente mundo das palavras e imagens é tarefa das mais complexas, porém jamais algo desanimadora. À medida que nos aproximamos de artistas e autores das mais variadas orientações, percebemos que as possibilidades de diálogos formam um rico painel de renovação. Nesse intervalo, pensamos caminhos, tentando promover um frequente exercício de escutas. Todo esse trajeto remonta a mergulhos necessários no microuniverso contido em cada voz que tenciona estar conosco desfrutando dos anseios comuns da arte. Sem as diferenças trazidas pelas peculiaridades de cada um, não seria possível vislumbrar um painel de diversidade pretendido desde sempre pela revista. É justamente através dos traços da individualidade que cada autor encontra morada no meio de nós. Sendo assim, é impensável tencionarmos qualquer espécie de avaliação preliminar das expressões que dê força a aspectos meramente objetivos. Pelo contrário, interessa-nos perceber o quão estimuladoras e sensíveis podem ser as criações, sobretudo que tipo de aproximação efetiva elas podem gerar junto aos leitores. Arte e palavra precisam muito mais do que uma couraça hermética e superficial a lhes adornar a face. Necessitam de alma, de algo que faça parte de um universo notadamente amplo de apreensões. Daí não ser nada fácil tentar definir o comportamento imprevisível da subjetividade.  Autores como Carina Castro, Ana Elisa Ribeiro, Danilo Gusmão, Fernanda Pacheco, Caio Carmacho e Beatriz Bajo, que por aqui desfilam agora seus versos, são a prova viva dessa jornada rumo a outras paragens literárias possíveis. Em meio a estes e outros verbos dispersos nesta edição, as ilustrações de Vera Lluch inundam com sua vastidão de cenários os espaços habitáveis pela sensibilidade. No terreno dos contos, Mariel Reis, Jorge Mendes e Larissa Mendes nos apresentam suas visões particulares de mundo. Numa entrevista, a cantora Selmma Carvalho fala sobre o seu novo disco e de como o tempo tem sido seu aliado na evolução da carreira. O escritor Sérgio Tavares apresenta suas impressões sobre “A condição indestrutível de ter sido”, primeiro romance de Helena Terra. O mais novo disco da banda carioca Tono roda em nosso Gramofone. Em mais uma de suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes percorre as vias da produção “Her”. O ano que se inicia reafirma os impulsos editoriais da Diversos Afins, cuja missão maior é a de promover encontros. Que você, caro leitor, possa trilhar conosco mais uma caminhada pelos ventos da arte e da literatura. Boas leituras!

 

Os Leveiros

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87ª Leva - 01/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Beatriz Bajo

 

Ilustração: Vera Lluch

 

INFINITIVOS

 

e se meu coração estiver na boca?

um beijo para assaltar o tempo perdido
na esquina canalha da navalha
desafiada
da rua sem saída

acordar a flor intacta e sonolenta
simulacro encantado no caule tortuoso
da árvore primitiva no sertão
úmido dos meus lábios sábios

a cor da arma de voo da libélula incrédula
é irresistivelmente a brancura infinita
das rendas tramadas nas fibras líquidas
âmagos imantados pelas intimidades luminares

 

 

***

 

 

TÊMPERA

 

ela roga entre escândalos dos sândalos
que exalam de seu rosário
raízes misericordiosas que se enovelem
por todos os segredos
tato intacto alma nua concreta pra ele
a cintilância que se curva ante o amante
todo despertar é fiança enfiando-se
na agulha do tempo desfeito de amor
aço da têmpera costurada
de esperas

 

 

***

 

 

LUX

 

um homem constrói sua mulher
pela beira de si, pilares
altares de singelezas
arquitetados de aleluias

por milênios dentro
dos momentos
acende colunas e
tonifica músculos
no peito aberto
para o sempre

inventa hélices
alianças
amálgamas

assim
eternamente
apalavrados
– no franco
caminho
de seus corpos –
despertam a linguagem
intraverbal
que os ultrapassa:

“nós
nos
vivemos”

 

Beatriz Bajo (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são domingos em nós (PR), publicado em 2012 pela Rubra Cartoneira Editorial, a face do fogo (SP) e : a palavra é (PR), os dois de 2010. Mantém o blogue Linda Graal e o Esquina Literária, de ensaios, resenhas e divulgações.