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101ª Leva - 04/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Vicente Franz Cecim

 

POEMAS CIRCULARES

 

Vicente Franz Cecim
Imagem: Vicente Franz Cecim

 

Noite de nutrições profundas

 

Para nutrir o Lodo,
tu não escreves      Tu

és o Livro

que se lança em todas as direções nas Regiões Escuras: Agora
oO Círculo
cintilante

que te envolve
E nos limites      da Esfera,
se te voltas para te ver Fonte
que se jorra,
vê:

o Outro,

Água que no Centro da Esfera ainda Lá és tu de novo, murmurando:
Tu
és o Livro,

que se lança: Chama

 

 

***

 

 

Celebração das fontes fatigadas

 
há Desesperos circulares, Tu sabes desesperos
como o do animal no Escuro escuro
Girando
contido no Centro que seu giro gera
E a cada giro, Pura
emissão de intensidade busca as margens para Além das margens

E a cada giro, o Não
Escrita de grades: a palavra Dor não é a palavra Sim
Mais um giro, e eis: a Queda
Luz fenecendo
o Centro que des
morona, des
falece em centro Oo
E se esmorece
o Desespero, e se
se apaga: Se sob a pele Negra olhos se ocultam,
na harpa de grades a pausa é breve e não há Música

pois foi escrito no Bosque Sem Ternuras, em nossa Face: Que os olhos que uma vez se
fechem outra vez se abram,

e eles se abrem,
Cílio sem paz se

acende o Desespero
e Testemunha: as Grades permanecem Lá

E se adormece para os Sonos dos Alívios? Sem
remédio Sem
remédio,

porque sonha Grades

ah, tudo oculta em sonhos a Catedral de cinzas
as Margens

o Círculo
e a chave perdida

Animal escuro,
te tornaste o próprio Centro escuro
Tece teus cílios de Hera sagrada
Cintila
nas noites Sonha
com a Alvura

Não sabes que Outro centroO
te Ilumina,

mais Escuro?
há Desesperos circulares, Tu sabes

 

 

***

 

 

Asa dos olhos

 
Quando um Lago
for lançado num Círculo

fora do tempo

por mãos vazias antes do gesto

Quem

estará na Margem
para receber, sem mãos,

as Doações do Centro adormecido

que Se amplia

despertado

em gratidões gratidões gratidões

em Cinzas Cinzas Cinzas

 

Vicente Franz Cecim é autor de Viagem a Andara oO livro invisível – Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista da Críticos de Arte/Apca, 1988. Edita seus livros no Brasil e em Portugal. Nasceu e vive na Amazônia, Brasil, Belém do Pará.

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Destaques Olhares

Olhares

PARA ALÉM DAS ÁGUAS

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Deixar que o tempo manifeste seus desígnios livremente, apontando direções a seguir. Intuir o curso das águas rumo ao mar que espelha a relativa eternidade das coisas. Um pouco de nossas infinitudes marca o pensamento, e navegar adiante é, sobremaneira, atracar o barco da esperança num cais onde impere a serenidade. O tão projetado porto seguro insiste em ser a grande metáfora da busca imprecisa que carregamos em vida. A partir disso, existir é tão somente uma questão de reter os sinais da odisseia que frequentemente empreendemos.

Há quem nos sirva de guia numa jornada que sabe ao desejo de chegada, e divide conosco o aportar em cada novo lugar como sendo uma experiência de profunda descoberta de si mesmo. São peregrinos como Mario Baratta, que, superando procelas, instauram em nós um sentido sublime para a existência.

Ilustração: Mario Baratta

Ao trilharmos uma rota comum à do artista, percebemos que o fluxo das coisas resiste às intempéries, fazendo com que outros cenários se mostrem com todo o vigor da simplicidade. Se o caminho da revelação é tortuoso por natureza, a arte de Mario subverte as limitações impostas e pretende reinvenções. É, então, que águas bravias sucumbem diante da beleza, esta senhora que apazigua os caminhos do mundo.

Natural de Belém, no Pará, Mario Baratta é íntimo do mistério das águas. Desde a mais tenra idade, acostumou-se a enxergar além das paragens físicas do Rio Amazonas, absorto que estava pela curiosidade de tentar entender a simbologia incontida das águas.

Ilustração: Mario Baratta

Assim, deixou-se conduzir pelos ensinamentos do pai, primeiro cicerone na sua lida com tintas e papéis.  Formou-se em arquitetura e, no meio do trajeto, apaixonou-se pelo ato de lecionar na área, missão da qual não mais se apartou. Entre os feitos de seu currículo, o artista considera como especiais as ilustrações criadas para livros infantis. Aquarelas inspiradas em barcos também são outro ponto importante de sua carreira.

Com uma temática que agrega a arquitetura, as cidades, os rios, o mar, os barcos (batizados por ele como arquiteturas flutuantes), pescadores, trabalhadores urbanos e pessoas, enfim, traços da simplicidade da vida, o artista é testemunha cabal de que tudo se traduz num dinamismo incessante.  Nele, percebemos que o muito de que se precisa para viver é estarmos atentos às manifestações singulares que nos cercam. Um sentido de liberdade está impregnado em sua obra, a tal ponto que partidas e chegadas da permanente viagem humana são faces duma mesma moeda. Parafraseando Milton Nascimento, a arte de Mario Baratta inventa um cais e sabe a vez de se lançar.

 

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

*As ilustrações de Mario Baratta são parte integrante da galeria e dos textos da 81ª Leva.