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108ª Leva - 02/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A todo o tempo, flertamos com histórias possíveis. São relatos impregnados do algo real, dum processar de cenários atravessados. Quiçá nosso antigo hábito remonte à memória, esse casulo de ressonâncias vividas e também inventadas. Haveria uma linha a dividir realidade e invenção? Ou será que ambas vertentes não estariam mescladas naturalmente? De todo modo, é muito difícil criar algo de caráter ficcional sem trazer à baila referências que nos constituem em vida. Seria então impossível um deslocamento absoluto daquilo que somos se o intuito é criar outra dimensão a ser apresentada? Quanto mais aprofundamos a questão, as interrogações parecem se multiplicar. Mas é salutar não ter respostas para tudo, principalmente quando o tema é conceber aquilo que se materializa pelo lume do nosso olhar. Quem cria naturalmente estabelece filtros de acordo com suas vivências. Pressupõe-se algo inalienável. Do contrário, pareceria estranho estar fora de tudo e, desse modo, aceitar uma presença criativa de algo que está além de nós e que, ao menos nos domínios mais plausíveis, não nos pertence como referência direta e tangível. E não está aqui a se falar na capacidade de transcendência, recurso de muitos criadores, mas da assunção de energias meramente geradas ao acaso. Talvez a melhor resposta esteja na manutenção da dúvida. Daí, cada autor fica responsável por conduzir métodos que nos ofertem resultados a serem apreciados em forma e conteúdo. E assim vai girando a roda viva das produções em matéria de arte e literatura. Repercutindo identificações e sugestões, desfilamos agora através dos versos de Cazzo Fontoura, Carol de Bonis, Leandro Rodrigues, Israel Azevedo e Lelita Oliveira Benoit. Apresentando suas impressões sobre o romance de estreia de Maurício de Almeida, “A instrução da noite”, Rafael Gallo edifica algumas atentas linhas. Clarissa Macedo entrevista o poeta piauiense Nathan Sousa. Recortes de vida entremeiam as narrativas de autores como Cinthia Kriemler, Thiago Mourão e Natalia Borges Polesso. Descortinando paisagens urbanas, o fotógrafo Ricardo Laf expõe um variado painel de seu trabalho. Ainda a descoberta do novo disco do poeta, cantor e compositor Sylvio Fraga. Em mais uma sugestão de leitura, Sérgio Tavares aponta para “Julho é um bom mês pra morrer”, livro de Reinaldo Azevedo. Na sua cinéfila resenha, Bolívar Landi escreve sobre a delicada temática presente no filme “O Quarto de Jack”. E assim ergue-se uma nova edição da Diversos Afins, com outros caminhos a serem atravessados. Seja bem-vindo à 108ª Leva, caro leitor!

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

O Quarto de Jack (Room). Canadá/Irlanda.2015.

 

Cartaz- O quarto de Jack

 

Algumas obras parecem ganhar vida própria e chegam a superar as intenções do artista, produzindo sentidos nem mesmo imaginados por seus criadores. Geralmente, quando isto ocorre, temos como resultado pequenas obras-primas. “O Quarto de Jack” pode enquadrar-se neste perfil. A situação apresentada pelo filme surge apenas como um pretexto para que se exponha todo um universo de percepções e sentimentos que permeiam o espírito dos homens. Ele assume, assim, uma linguagem metafórica, tornando-se uma peça em aberto cujo sentido não cabe mais nos limites de uma tela ou nas quatro paredes que conferem título à película. Ela alcançará uma linguagem universal que falará de uma forma íntima e evocará questionamentos e respostas particulares em cada espectador.

A produção começa de forma despretensiosa e, em pouco tempo, assume um clima claustrofóbico e sufocante que vai fluindo até que cada peça do quebra-cabeças venha a se encaixar lentamente. Tudo é feito com grande elegância na condução das câmeras e no enquadramento de cada mínimo objeto disposto em cena. Aos poucos, envolvemo-nos em uma intrigante trama até termos a dimensão do horror a que seus personagens estão submetidos. Contar um pouco da história certamente irá comprometer o caráter surpreendente do roteiro e os completamente desavisados irão aproveitar bem mais as nuances que o filme tem a oferecer. Os que já conhecem a sinopse da trama, contudo, podem seguir a leitura deste texto sem maiores problemas.

Brie Larson, vencedora do Oscar de melhor atriz por seu desempenho neste filme, interpreta uma jovem sequestrada aos 17 anos e vive, há sete, confinada em um minúsculo cativeiro que divide com seu filho de 5 anos. O garoto, representado por Jacob Tremblay, traz as mais tocantes cenas do filme. O exíguo quarto é o único mundo que ele conhece e, através do seu olhar, somos convidados a considerar que as limitações do espaço e das circunstâncias não são suficientes para eliminar a magia e beleza de cada coisa. Isto não serve, contudo, de artifício para apresentar uma visão romanceada dos acontecimentos. A realidade é mostrada em toda a sua crueza e complexidade, demonstrando que não há soluções simples para casos assim e marcas profundas estarão sempre expostas na vida dos personagens.

Brie Larson e Jacob Tremblay em cena de O quarto de Jack
Brie Larson e Jacob Tremblay em cena do filme “O quarto de Jack”/ Foto: divulgação

A obra é baseada no romance homônimo, lançado em 2010, pela irlandesa Emma Donoghue, também responsável pela adaptação do roteiro para o cinema e, embora este não seja fundamentado em fatos reais, inspira-se em casos similares amplamente noticiados pela mídia. Lenny Abrahamson, compatriota da escritora, realiza uma direção segura e consegue fazer um filme muito eficiente com um custo relativamente baixo para os padrões atuais da indústria cinematográfica. Tanto a autora quanto a direção receberam a indicação para o Oscar em 2016 e a produção concorreu à categoria principal de melhor filme.

A película traz questões caras ao nosso tempo como o isolamento, a construção de laços afetivos, o sentimento de inadequação, a busca pela essência e, em algum ponto, acabamos por nos identificar com os seus personagens. Enfim, deparamo-nos com sentimentos à flor da pele em uma das obras mais contundentes dos últimos anos.

 

 

 

 

Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.

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97ª Leva - 11/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Arte: Cristina Arruda

 

 

Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Relatos Selvagens (Relatos Selvajes). Argentina/Espanha. 2014.

 

Relatos Selvagens

 

O cinema argentino tem se mostrado cada vez mais robusto, presenteando os amantes do cinema com excelentes películas nos últimos anos. Filmes como O Segredo dos seus Olhos, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, O Filho da Noiva, Um Conto Chinês e Medianeras vêm contribuindo para firmar o interesse internacional pelo cinema latino-americano. No recém-lançado Relatos Selvagens (2014), nossos “hermanos”, mais uma vez, acertam a mão e constroem um filme pujante, que tem como grande qualidade o potencial de agradara diferentes tipos de público, dos mais exigentes aos que não buscam nada além de uma boa diversão no fim de semana.Temos, assim, uma exuberante tragicomédia apresentada em seis histórias que não têm nenhuma relação entre si, a não ser a demonstração da ira, intolerância e insanidade humana.

A primeira história já vale o filme: partimos de um encontro casual a bordo de um avião de passageiros que se segue à efusão de estapafúrdias coincidências e culmina em um desfecho surpreendente, que consegue ser tão hilário quanto macabro. Eis um humor de primeira, escrachado, criativo, passando a compor certamente uma das cenas memoráveis do cinema. Após assisti-lo, temos a certeza que fizemos um bom proveito do nosso tempo. Mas isto é apenas o começo, degustamos mais cinco contos urbanos que nos trazem situações cômicas que beiram ao absurdo, mas ao mesmo tempo trágicas, pois nos reconhecemos nelas, e, por mais improváveis que pareçam, sentimos que estão fortemente presentes em nossos dramas cotidianos e afetivos.

A obra percorre os mais inusitados temas, seja uma briga no trânsito, reduzindo os seus condutores a uma situação de selvageria animalesca, ou a burocracia pública que atropela o bom senso, desrespeita a dignidade humana e atenta contra a sanidade até mesmo do mais equilibrado dos cidadãos. A trama flerta, ainda, com o suspense ao explorar de forma precisa o dilema de uma garçonete dividida entre seus valores morais e o indomável instinto de vingança. Em seu episódio menos eloquente, mas não menos engraçado, a farsa para livrar um jovem da responsabilidade de um atropelamento revela, em tons de um cinismo escarnecido, a falência moral e a ganância sem limites do homem. O final se dá de forma frenética, em uma alucinada e angustiante festa de casamento ou, melhor dizendo, “descasamento”, que tira o fôlego e deixam atônitos, e com os olhares perplexos, os expectadores até o apagar das últimas luzes. Estas que poderiam ser chamadas de parábolas modernas trazem à tona sempre alguma mensagem subliminar de fundo moral que nos fazem indagar e refletir sobre a realidade em que vivemos.

 

Ricardo Darín em cena de Relatos Selvagens / Foto: Divulgação

 

A película é uma coprodução espanhola assinada pelos irmãos Augustin e Pedro Almodóvar, mestre do cinema espanhol que se encantou pela pulsante vitalidade da história. Tanto a direção como o roteiro são assinados por Damián Szifron, que, aos 39 anos, dirige o seu terceiro longa. Szifron tem se destacado também à frente de seriados de TV que são veiculados por toda a América Latina. A excelente trilha sonora fica ao encargo de Gustavo Santoalalla, responsável pela sonorização de filmes como Diários de Motocicleta, Amores Brutos e Babel, pelo qual foi premiado com o Oscar em 2005. Embora a imprensa dê grande destaque à participação do astro Ricardo Darín na trama, em uma atuação realmente brilhante como o técnico de implosões soterrado pelos descaminhos burocráticos, o elenco conta com muito mais do que a sua presença, desfilando em cada novo episódio uma constelação de excelentes atores latinos.

Relatos Selvagens foi escolhido para realizar a abertura do último Festival de Cannes e ainda da 38ª Mostra Internacional de São Paulo, evidenciando o seu prestígio no circuito internacional. Em seu país de origem, levou mais de três milhões de expectadores às salas de cinema, marca impressionante para os padrões nacionais. A película foi indicada pela Argentina para representá-la na disputa ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, possuindo, segundo a crítica especializada, grandes chances de levar a estatueta.

Esta preciosa obra de humor negro se destaca por seu apuro técnico e pelo excelente roteiro, elemento tão caro ao cinema e, por vezes, tão descuidado em nossas produções nacionais. Felizmente este quesito tem se mostrado um dos grandes diferenciais da filmografia argentina, que vem realizando trabalhos coesos, coerentes e dotados de uma enorme originalidade. Um filme para ser assistido com sorrisos soltos e largos, mas, muitas vezes, com o rosto contorcido pelo espanto.

 

 

Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.

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94ª Leva - 08/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

Brindemos ao poder de condensação e síntese do espírito poético que ronda o mundo. Saudemos essa capacidade de expansão pela qual as mais variadas formas de expressão artística perfazem seus caminhos mais genuínos. Ousamos levantar uma questão aqui: será a poesia a gênese de todos os campos da criação? Suponhamos que sim. E o que faremos com tal constatação? Levar a cabo a raiz motivacional de cada produto em matéria de arte. Tudo ficaria mais simples ao admitirmos a concepção há pouco proferida? Talvez. Discordâncias à parte, o fato é que não é pela ótica pura e simples da contemplação ou da leveza que iremos conduzir o entendimento, mas pelo caráter da inquietude que perpassa o ânimo poético. Com toda a sua carga de complexidades, estar no mundo nem sempre representa uma boa nova sob o ponto de vista do inventariar de temas. Talvez para evitar a suposta gratuidade do ofício, nalgum ponto imaginada, seja importante entendermos um criador como alguém que se esmera com cuidado e apuro na sua empreitada. Ao harmonizar certo método com os ímpetos intuitivos, o artista pode estar mais próximo de driblar percursos mais escorregadios. Desse modo, a criação de imagens e palavras apoia-se numa perspectiva na qual as coisas não transcorrem deliberadamente. Aos autores, cabe um discernimento crítico a respeito de tal condição, sobretudo para que a falsa ideia de uma obra reluzente não lhes embriague os sentidos e o despertar de outras investidas. No trabalho de pesquisa com a Diversos Afins, as revelações sobre esse íngreme caminho aparecem a todo o momento. Sem pretensões de delimitar classificações estéticas ou estilísticas, seguimos em frente no fomentar de novos encontros. É dessa maneira, com os apelos indescritíveis da poesia, que nos deparamos com as epifanias de gente como Myriam de Carvalho, Charles Marlon, Alessandra Cantero, Marina Tadeu e Simone Teodoro. No território da prosa, os contos de Munique Duarte, Pedro Reis e Anderson Fonseca reproduzem o delicado fio da seara ficcional. O entrevistado da vez é o cantor e compositor pernambucano Ricardo Chacon, que nos conta um pouco da sua trajetória, destacando a atmosfera do seu novo disco. Larissa Mendes fala dos efeitos que o primeiro álbum da Banda do Mar causou aos seus ouvidos. Num mergulho aprofundado no novo livro de poemas de Oleg Almeida, o escritor Marcelo Moraes Caetano constrói sua leitura crítica. “O Grande Hotel Budapeste”, filme de Wes Anderson, é o foco da resenha de Bolívar Landi. Pedro Reis comenta as suas impressões acerca de “Pequod”, romance de Vitor Ramil. Entrecortando as múltiplas vozes aqui presentes, as fotografias de Luciana Bignardi compõem um rico painel de observações de mundo. Seja bem-vindo a nossa 94ª Leva, caro leitor!

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94ª Leva - 08/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

O Grande Hotel Budapeste. EUA/Reino Unido/Alemanha. 2014.

 

Grand Budapest

 

Wes Anderson consolida em seu mais novo trabalho, O Grande Hotel Budapeste, o estilo virtuoso e inconfundível de sua direção. Percebemos em cada enquadramento e movimento de câmera, em todo figurino e ambientação o toque minimalista de sua presença. Ele não é apenas o diretor, mas arquiteto, maestro, mágico que materializa um mundo fantástico, ao mesmo tempo onírico e real, povoado por personagens fascinantes.

Anderson tem se revelado um excelente contador de histórias. Temos aqui uma história dentro da própria história, deliciosamente relatada pelo enigmático proprietário do Hotel Budapeste. Cria-se um tom de confidência que vai envolvendo os espectadores, cada vez mais atentos e ávidos por desvendar os misteriosos acontecimentos do decadente, e outrora glorioso, Hotel Budapeste e dos excêntricos indivíduos que fizeram parte de sua história.

O filme se passa no período entre as duas grandes Guerras em Zubrowka, uma fictícia república do leste europeu. Ralph Fiennes personifica, de forma impecável, Monsieur Gustave H., o extremamente zeloso gerente do Grande Hotel, responsável por cada mínimo detalhe em seu estabelecimento (neste aspecto, uma espécie de alter ego do próprio diretor). Toda a trama da película gira em torno de um misterioso assassinato e da atribulada disputa por uma vultosa herança.

A produção conta com um elenco admirável, confirmando o prestígio do diretor no meio artístico. Além de Fiennes, Tillda Swinton, Adrien Brody, Jude Law, Owen Wilson, Williem Dafoe, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Léa Seydoux, F. Murray Abraham, entre outros, compõem personagens inesquecíveis. Alguns em pequenas atuações, mas com um desempenho sempre marcante. Edward Norton e Bill Murray, que participaram da última incursão cinematográfica de Anderson, Moonrise Kingdom, aparecem aqui, expondo o apreço do diretor em estabelecer parceria com seus atores preferidos, o que se configura em mais um elemento de identidade de sua obra.

 

Ralph Fiennes e Tony Revolori - Foto - divulgação
Ralph Fiennes e Tony Revolori / Foto: divulgação

 

O instigante e bem elaborado roteiro, coassinado por Hugo Guinness e Wes Anderson, é livremente inspirado na obra do austríaco, de origem judaica, Stefan Zweig, que durante a 2ª Grande Guerra utilizou o Brasil como um dos seus locais de refúgio. O escritor, encantado com a beleza de nosso país e com a miscigenação de nosso povo, foi quem primeiro cunhou a expressão “Brasil, um País do Futuro” (1941). Zweig vem a falecer em Petrópolis (RJ), em 1942, vítima de uma profunda depressão que o levou, conjuntamente a sua esposa, ao suicídio. Os escritos de Zweig e a pompa do Grande Hotel acabam servindo como uma contundente metáfora da própria Europa entre guerras, “um mundo de requinte que estava à beira do desaparecimento”.

A trilha sonora original, composta por Alexandre Desplat, é outro aspecto que merece destaque. Ela se inspira em músicas folclóricas russas e óperas clássicas e se adequa muito bem à proposta do filme, conferindo ritmo e uma grande dinamicidade à película. O filme foi lançado no Festival de Berlim em 2014, onde Anderson foi agraciado com o grande prêmio do júri, o Urso de Prata, por sua direção. A obra vem sendo considerada por uma expressiva parcela da imprensa como um dos melhores filmes do ano, sendo apontada como um dos fortes concorrentes ao Oscar.

Este talvez seja o filme mais popular do diretor. O clima de mistério e o ritmo, bem mais ágil que o verificado em produções anteriores, contribuem para prender a atenção do espectador. Há cenas de perseguição, fuga e tiroteios… Tudo isso embalado por um humor refinado e criativo. As falas são perspicazes e o ambiente, embora fantasioso e exagerado, não tem a intenção de criar meras caricaturas, mas busca captar a dimensão humana sob um novo aspecto.

O estilo de Anderson, entretanto, não é um consenso de público e crítica, não que desmereçam a sua obra, nem poderiam, mas estranham a sua excentricidade e o excessivo esmero que confere à lapidação do seu trabalho. Contudo, não é apenas a história ou os personagens ou o ritmo da trama, mas sim a forma, a estética (alguns falam de simetria) o que encanta o diretor. Para Anderson ela é mais uma linguagem, com seus signos e significados próprios capazes de despertar sensações únicas aos que conseguem apreender a sua mensagem. Isto se traduz em uma forma nova de contar algo, em um enquadramento novo, em diferentes perspectivas… Esta coragem de arriscar e produzir algo que fuja do convencional já seria em si um grande mérito e justificaria que dispensássemos um pouco de nosso tempo para conferir o resultado. Mas a obra vai além, produzindo um conjunto coerente e harmonioso, extremamente saboroso para os sentidos.

 

 

Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Silvio Crisóstomo

O que dizer dos vestígios que deixamos em vida? Na profusão dos seres, cada acesso percorrido sugere um arremesso. A medida inexata das profundidades flerta constantemente com os mergulhos a que nos propomos. Assim, vamos tentando alguma pista sobre nós mesmos, quiçá um entendimento sobre o que reter da jornada errante. O expelir das palavras pode nos auxiliar nesse exercício de transitar pelos lugares todos. Talvez a capacidade de abstração seja a possível cura para alguns cruciais desfoques do olhar. Enquanto somos impelidos à busca, a leitura dos sinais aparece multifacetada em toda a sorte de trajetos. Ao mesmo tempo em que viver é se deparar com as manifestações ululantes daquilo que temos em conta como sendo o real, o emaranhado de nossa subjetividade enreda laços para o fugidio descompasso dos instantes. Então, nos é dado o abrigo do sonho, não como um refúgio premeditado, mas como vias de reinvenção da existência. Daí, encontrar artesãos da palavra que sabem o gosto que tal missão encerra. Na Leva que apresentamos agora, a entrevista com o escritor paraense Vicente Franz Cecim dá-nos um pouco da dimensão disso tudo. Tendo como cenário de sua obra a mítica Andara, Vicente descortina outras camadas dessa complexa e misteriosa experiência que é o estar-se vivo. Entre textos e seus múltiplos signos, somos levados pela exposição das fotografias de Silvio Crisóstomo, cujo trabalho confere um denso e especial olhar sobre a cidade de São Paulo. Os ventos poéticos de então sussurram marcantes sinais nas escrituras de Joelma Bittencourt, Heitor Brasileiro Filho, Eduardo Lacerda, Karinne Santiago, João Urubu e Sandrio Cândido. Enlaces do cotidiano, os quais nos marcam a ferro e fogo, estão presentes nos contos de Carla Diacov e Rodrigo Melo. Nesse terreno, ainda há espaço para a veia fabular do argentino Fernando Sorrentino. Num convite à leitura, a escritora Márcia Barbieri propõe um percurso pelo romance de estreia de Halley Margon. Larissa Mendes desfila impressões sobre o mais novo disco do cantor e compositor Otto. A produção americana Moonrise Kingdom é tema da resenha cinéfila de Bolívar Landi.  A 76ª Leva prenuncia seus novos mergulhos. Sejam bem-vindos, caros leitores!

 

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76ª Leva - 02/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi


Moonrise Kingdom. EUA. 2012.

 

O diretor norte-americano Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums” e “Viagem a Darjeeling”) é reconhecido por seu perfeccionismo formal e por exibir em seus filmes um mundo particular povoado por personagens excêntricos que quase sempre apresentam algum tipo de desajuste social ou afetivo. Ele está longe de ser uma unanimidade. Seus detratores condenam os exageros e as “afetações” de seus trabalhos, outros conseguem enxergar nele a genialidade de grandes mestres, como o do seu conterrâneo Woody Allen, que imprimem em sua obra uma marca própria, tornando-a inconfundível.

Moonrise Kingdom, o novo trabalho do diretor, traz todas as características recorrentes em suas criações, no entanto, este não é um filme fácil de ser rotulado ou enquadrado em um determinado gênero. Ele é conduzido em tom de fábula unindo realidade a acontecimentos fantásticos, tornando-se assim rico em simbolismos e metáforas cujos sentidos vão além do que é meramente apresentado na tela. Se fôssemos descrever a história, não encontraríamos nada assim tão surpreendente. Contudo, não está aí o ponto forte da produção, o que impressiona mesmo é a forma que a narrativa é contada. As situações simples parecem adquirir um maior relevo e todos os elementos cinematográficos encaixam-se perfeitamente como em uma harmoniosa sinfonia ou nos movimentos mágicos de um malabarista.

Não é à toa que Anderson faz uma referência aos instrumentos musicais na película, a todo momento sentimos a sua presença a reger uma enorme orquestra. Tudo conduz sinestesicamente o espectador a se envolver com a trama. Os dinâmicos movimentos de câmera parecem nos colocar no interior de cada acontecimento e os enquadramentos da tela fazem com que vejamos através dos olhos dos personagens. A envolvente trilha sonora tem o poder de nos transportar para outros mundos. O artifício da narração e da leitura utilizado pelo roteiro cria um clima de cumplicidade ímpar com a história e seus intérpretes. As cores (em tons pastéis), o apurado figurino do anos 60, as encenações teatrais, tudo contribui para que os amantes do cinema sintam prazer do início ao fim da exibição. Algo mágico, difícil de ser descrito, instala-se.

Kara Hayward e Jared Gilman / Foto: divulgação

A trama se passa no verão de 1965 em uma fictícia ilha (New Penzance) na costa da Nova Inglaterra. Ela irá mostrar a aventura de um garoto (Jared Gilman) e uma garota (Kara Hayward) de 12 anos que se enamoram e decidem fugir juntos. A partir daí, viajaremos também em uma jornada sobre as descobertas do amor, amizade, companheirismo e dos percalços que marcam a passagem da infância para a vida adulta no melhor estilo de grandes filmes como Conta comigo (1986), de Rob Reiner, protagonizado por pequenos astros do cinema e baseado em um conto de Stephen King.

Os personagens do pessimista universo adulto são interpretados por grandes nomes do cinema. Bruce Willis desempenha o papel do carente e solitário policial da ilha; Bill Murray e Frances McDormand (Fargo), pais da protagonista, representam um casal de advogados que se sentenciam a viver uma relação fracassada e, Edward Norton, um desencontrado professor de matemática, incorpora o chefe dos escoteiros no seu tempo livre.

Moonrise Kingdom foi esnobado pelo Oscar 2013, sendo indicado apenas à categoria de roteiro original, assinado por Anderson e Roman Coppola. É, contudo, uma obra não usual que necessita ser descoberta. Um filme milimetricamente pensado e perfeitamente lapidado como um brilhante que brinca e arrisca com as formas e a arte de fazer cinema. Tudo isto, no entanto, sem perder a delicadeza e explorando com grande propriedade as sutilezas do sentimento humano.

 

 

(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

Qual sopro contínuo e que move a vida, abrimos a janela das publicações para um novo ano. Diante disso, expectativas de outros tantos encontros se fazem reais. Flertar com o vindouro não é negligenciar o presente, mas sim buscar a extensão dos dias para que tudo possa confluir num projeto cada vez mais sólido e maduro. São 75 edições levadas pelo aprendizado e pela evolução, quesitos que nos fazem refletir o quanto trilhamos de efetivo em todo o tempo de existência da revista. De toda a bagagem incorporada até aqui, a mais importante decorre dos laços humanos que foram estabelecidos. Sem sombra de dúvida, estar aqui hoje é resultado direto de trocas, diálogos e interações firmadas por todas as frentes possíveis de um mundo que se desenha multiforme. E como é recompensador depararmo-nos, inclusive, com o diferente e o inusitado, lugares que muitas vezes removem a tão acostumada zona de conforto. A partir de perspectivas como esta, vamos revendo algumas práticas, consolidando outras, tudo para tentar alavancar e manter um modelo de qualidade que represente algo atraente aos leitores e visitantes. Tais perspectivas implicam em considerar que os caminhos estão abertos, pois seguir adiante se faz imperativo. Sendo assim, nada melhor do que abraçarmos novas e coerentes descobertas, como é o caso dos poetas Jorge Vicente, Daniela Delias, Gil T. Sousa, Alexandra Vieira de Almeida, Alvaro Posselt e Lílian Maial. Exalando seu modo poético de conceber mundos no mundo, Luiza Maciel Nogueira partilha conosco os signos de seus desenhos em meio à profusão de palavras presentes nesta recente Leva. Múltiplas visões da existência atravessam os contos de Natércia Pontes, Eleonora Marino Duarte e Bruna Mitrano. Há também o valioso diálogo com a fotógrafa Mercedes Lorenzo, entrevista que pontuou aspectos ligados à concepção da imagem, bem como reflexões sobre a arte em nosso tempo. Bolívar Landi ousou percorrer as rotas de Django Livre, novo e polêmico projeto do intrépido cineasta Quentin Tarantino. No gramofone, Larissa Mendes deixa girar as canções presentes no mais novo álbum da Orquestra Imperial. O mais recente livro de contos do escritor Rodrigo Novaes de Almeida é destaque do Aperitivo da Palavra. Esta, caros leitores, é apenas uma pequena demonstração de que palavras e imagens continuarão fazendo par constante por aqui. Que 2013 seja motivo frequente de saberes e sabores em torno da arte. Boas incursões a todos!

 

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75ª Leva - 01/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Django Livre (Django Unchained). EUA. 2013.

 

 

Django Livre (Django Unchained), a mais nova incursão cinematográfica do diretor Quentin Tarantino faz uma homenagem ao filmes Western spaghetti italianos, muito famosos nas décadas de 60 e 70. Além do nome do personagem principal e da música tema, contudo, a obra não apresenta muito em comum com o filme homônimo dirigido em 1966 por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero (que faz uma participação especial na trama). O Django original passa todo o filme arrastando um misterioso caixão movido pela necessidade de vingar o assassinato de sua mulher. Em sua versão, Tarantino recria toda a história, mas preserva o instinto de vingança do protagonista, aliás tema recorrente em sua obra.

A película é ambientada no sul dos Estados Unidos, dois anos antes da Guerra Civil americana. A mácula da escravidão serve como pano de fundo ideal para a violência apresentada no filme, que, por mais extremada que possa nos parecer, será ainda menos cruel que a que realmente ocorreu. Jamie Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por “Ray”, personifica Django, um escravo liberto pelo arguto Dr. King Schultz, um caçador de recompensas, brilhantemente interpretado por Christoph Waltz, austríaco vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes ao dar vida ao nazista Hans Landa de Bastardos Inglórios. Os dois irão formar uma dupla imbatível e partirão em um segundo momento da história em uma longa jornada para procura e resgate da esposa do herói. O filme conta ainda com nomes de peso no elenco, como Leonardo DiCaprio, no papel de um latifundiário escravagista, e de Samuel Lee Jackson, quase irreconhecível, encarnando extraordinariamente o velho lacaio negro de DiCaprio, racista e totalmente insensível às agruras sofridas por sua etnia.

Christoph Waltz e Jamie Foxx na pele dos protagonistas / Foto: divulgação

Esta versão Livre de Django traz todas as qualidades que consagraram o diretor e lhe conferem um estilo inconfundível, imitado por muitos seguidores. Uma direção ágil, movimentos de câmera não usuais e precisos, um texto afiado e irônico, a história que foge da linearidade comum e, óbvio,  sangue, muito sangue… Pulp Fiction – Tempos de Violência (1994), seu segundo longa, por exemplo, se tornou um marco para a sétima arte, introduzindo novos parâmetros que influenciam até hoje a linguagem do cinema.

Assim como em outras obras, Tarantino assina em Django Livre o roteiro original, extremamente inspirado e agraciado este ano com o Globo de Ouro. A trilha sonora, escolhida a dedo pelo próprio diretor, “para variar”, é uma preciosidade à parte e cai como uma luva ao filme. Temos a impressão que as cenas são construídas para se moldar a ela, tão grande é a sintonia. Há músicas clássicas do Western, além de algumas liberdades como James Brown, 2Pac, John Legend e o rapper Rick Ross. A obra concorre ao Oscar 2013 em 5 categorias: ator coadjuvante (Christoph Waltz), roteiro original, fotografia (deslumbrante), edição de som e melhor filme.

O filme foi alvo de inúmeras controvérsias. O diretor Spike Lee (ícone do cinema afro-americano) chegou a declarar que não assistiria ao filme por considerá-lo desrespeitoso à memória de seus ancestrais, outros o acusam de ser racista pelos termos depreciativos com que trata os negros. Polêmicas à parte, o Django de Tarantino se posiciona Livre, acima de qualquer convenção e purismo. Em muitas cenas, chega a ser mais eloquente contra os horrores da escravidão e da discriminação racial que muitos militantes extremistas que sobem ao púlpito para proferir discursos vazios.

Quentin Tarantino brinda mais uma vez seus admiradores com uma obra instigante, cheia de reviravoltas e diálogos sedutores que encantam e prendem o espectador em suas quase 3 horas de exibição. Confesso que fiquei meio com pena de Spike Lee por perder este grande filme.

 

 

(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)