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138ª Leva - 05/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Kátia Borges

 

Lima Trindade é rock, quadrinhos e literatura. Nascido em Brasília, viveu intensamente os anos oitenta no olho do furacão. Entre o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e Salvador, onde mora hoje, construiu uma bagagem sólida de referências, numa triangulação de afetos que transcende a ascendência carioca-baiana. Autor dos livros Supermercado da Solidão (LGE, 2005), Corações Blues e Serpentinas (Artepaubrasil, 2007), Todo Sol mais o espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005), Aceitaria Tudo (Mariposa Cartonera, 2015) e O retrato: um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (P55, 2014), lançou no ano passado As margens do paraíso (Editora Cepe), romance que apresenta ao leitor um Brasil que se alimentava de sonhos, talvez ingênuos, de grandeza. Nesta entrevista, conversamos sobre influências, paixões, mercado literário e a primeira incursão de Lima Trindade no universo dos quadrinhos, na lendária revista NTC, com um conto e um roteiro inéditos, que devem ser lançados em 2021.

 

Foto: Marcelo Frazão

 

DA – Quando o Lima Trindade que sonhava em ser desenhista descobriu a literatura como modo de expressão?

LIMA TRINDADE – A expressão literária chegou tarde. Talvez o grande estímulo tenha ocorrido quando assisti ao filme “Sociedade dos poetas mortos” aos 23 anos de idade. Eu me identifiquei muito com a personagem do Ethan Hawke, um cara extremamente tímido e que se sentia deslocado em ambientes formais. Todo aquele lance do “Carpe Diem”, a mistura de Horácio com os transcendentalistas americanos e a busca por uma existência autêntica fizeram minha cabeça. De vez em quando, rabiscava umas frases sem sentido nos intervalos das aulas da faculdade. Era uma coisa quase mediúnica. Eu não censurava nada. Apenas, deixava fluir. Não havia burilamento. Escrevia nas margens do papel timbrado, nas últimas folhas dos cadernos, no lado interno das capas. Escrevia e dava por acabado, sequer voltava a ler. Havia uma amiga na sala de aula, a Rosana Garutti, que adorava pegar meus cadernos e ler esses fragmentos. Dizia que achava bonito, que eu deveria escrever poemas ou letras de música. Aconteceu, então, de eu me deparar com o livro “Walt Whitman, a formação do poeta”, do Stefan Zweig. Eu fiquei fascinado com a descrição da maneira como o grande bardo norte-americano construiu e moldou sua vida por uma perspectiva puramente artística, tendo influenciado até o Wilde. Passei a estudar e exercitar versificação, trabalhando para dominar a forma e me sentir seguro para compor um poema inteiro. No começo dos anos 90, conheci os poetas Andrei Morais e Sandro Ornelas. Juntos, lançamos um folhetim poético chamado Huguy Rupi. O Andrei se desligou do projeto quando ainda imprimíamos os primeiros exemplares, rodados na gráfica do Correio Braziliense. Eu e Sandro percorríamos os bares da Asa Sul e Norte para vender e pagar o Huguy Rupi. Era uma grande aventura. Conhecemos os mais diversos poetas nessas andanças: do marginal beatnik ao parnasiano erudito. Infelizmente, a publicação só duraria dois números. Sandro, que tinha ido a Brasília para estudar, concluiu seu curso na universidade e retornou para sua casa em Salvador. Eu não quis tocar o jornal sozinho. Por volta de 1996, reuni uma quantidade significativa de poemas meus com o objetivo de montar um livro. Durante a preparação do original, reavaliei o material cuidadosamente, percebendo, com tristeza, que ele carecia de um acento particular, que sua publicação nada acrescentaria à história da literatura. Faltava-me originalidade. Eu me expressava literariamente, mas não com a potência que eu gostaria. Desse modo, desisti de escrever versos. Havia um amigo no trabalho que insistia muito para que eu escrevesse uma história de amor vivida por ele. Eu nunca experimentara a prosa de ficção, mas resolvi atender o seu pedido. Contudo, em vez de narrar a história que ele tanto desejava, enveredei por outro caminho e escrevi o conto “A meia-sola do sapato”, inspirado num episódio real de sua infância. Esse trabalho, que era meu primeiro no gênero, me valeu uma menção honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski em Porto Alegre. Deu-me também disposição para experimentar novas possibilidades de narrativas e pontos de vistas.

 

DA – Há um momento no qual essa vocação tenha ficado perfeitamente nítida para você? Uma espécie de marco, de ponto de virada.

LIMA TRINDADE – Sim. No dia do lançamento do “Todo Sol mais o Espírito Santo”, no Rio de Janeiro. Como todo ansioso, cheguei ao evento, que aconteceria no Centro Cultural dos Correios, algumas horas antes do previsto. Estava tudo muito bonito e organizado. Eu não tinha muito o que fazer. A não ser, esperar. Desse modo, resolvi dar uma volta. Chegando na Rio Branco, encontrei a Leonardo Da Vinci, que eu sempre ouvira os amigos falarem ser uma livraria fantástica e dona de um acervo de muita qualidade. Fiquei todo animado com a possibilidade de encontrar alguns títulos e autores que não achava em Salvador. Logo na entrada, tomei um susto. Vi o meu livro exposto em destaque. Ao lado, escritores como Truman Capote, Clarice Lispector, Reinaldo Arenas, Gabriel García-Márquez, Caio Fernando Abreu etc. Foi uma emoção sem igual. Ali, eu tive a consciência de estar verdadeiramente inserido no jogo. Até então, nos lançamentos em São Paulo e Brasília, eu me sentia como se estivesse anestesiado, como se nada daquilo fosse real.

 

DA – Como foi a adaptação do brasiliense, que orbitava o boom do rock BR, ao universo dominado pela cultura do axé?

LIMA TRINDADE – Não houve conflito. Sou filho de baiana e carioca. Meu pai e minha mãe se separaram relativamente cedo. Quando eu tinha quatro anos de idade, meu pai foi trabalhar em Manaus, por conta das oportunidades surgidas com a zona franca. Alguns anos depois, retornou, mas os dois não se entenderam e ele partiu novamente. Nós, meu pai e eu, só fomos desenvolver maior proximidade no começo de minha adolescência. O resultado disso é que passei boa parte da minha infância sendo criado por uma mãe, avó e tia baianas. Não sei distinguir o que é brasiliense e o que é baiano em mim. Sem falar que, em matéria de cultura, nunca fui purista. Eu mergulhei no rock de minha geração, mas, ao mesmo tempo, gostava de ouvir Caymmi e Noel Rosa. Ou Villa-Lobos. O que apreciava no rock dos anos 80 era justamente sua rebeldia, sua não aceitação das regras, sua inteligência. Vim para Salvador em 2002. Eu tinha muito preconceito em relação ao axé, botava É o Tcham e Olodum no mesmo saco, entende? Ficava irritado pelo fato de as rádios de Brasília não tocarem mais músicas de rock e cederem quase todo o espaço para o “axé”. Eu sabia que se tratava de grana, que o rock tinha sido uma moda do mesmo jeito que o axé era naquele momento, mas não me conformava. Somente morando na Bahia é que fui compreender o quanto a classificação “axé” era limitada, preguiçosa e excludente. Não dá para dizer que Gerônimo, Lazzo Matumbi, Ilê Ayê, Netinho, Chiclete com Banana e Harmonia do Samba são parte de um mesmo movimento, têm as mesmas identificações estéticas e interesses artísticos. É algo absurdo. Por outro lado, eu já conhecia e admirava a produção roqueira baiana quando ainda estava em Brasília. Foi uma alegria grande conhecer pessoalmente os músicos da Brincando de Deus e da Dead Billies, por exemplo. Salvador é uma cidade muito diversa, rica de possibilidades e encantamentos. Os amigos que fiz aqui estão longe dos estereótipos de baianidade propagados pela mídia. Viver em Salvador não foi uma decisão motivada por falta de perspectivas. Foi uma eleição, uma escolha.

 

DA – Um aspecto marcante de sua personalidade é a aproximação com o universo dos quadrinhos e do rock. Essas referências influenciam a sua produção literária?

LIMA TRINDADE – Totalmente. Os dois gêneros decodificaram o mundo para mim e nutriram minha capacidade criativa. Por causa deles, atravessei oceanos, vivi momentos únicos na história da humanidade e me senti menos solitário. Minha sensibilidade se cunhou muito a partir das histórias que li e músicas que ouvi. Pela escrita, eu “desenho”. Assim como trabalho os sons numa frase de um conto, estabeleço certos climas para cenas e, digamos, me deixo dominar por uma estilística roqueira, uma trilha sonora interna que dá ritmo e cadência ao texto e me embala.

 

DA – No caso específico dos quadrinhos, tem acompanhado a produção contemporânea brasileira e baiana?

LIMA TRINDADE – Eu tento. Porém, meu método de leitura é caótico, não obedece a nenhuma cronologia. Não me preocupo em estar atualizado com os lançamentos. Meu único compromisso é com a qualidade. Quando recebo dicas de um trabalho legal, seja pela mídia especializada ou por amigos, corro atrás. Tem gente que se satisfaz com quadrinhos bem desenhados e roteiros inconsistentes. Ou o contrário, grandes textos e traços ruins. Para mim, a coisa só funciona se os dois aspectos forem bons. No Brasil, sou fã da Laerte, do Allan Alex, André Dahmer, Davi Calil, Lourenço Mutarelli e Rafael Corrêa. O Marcelo D’Salete é obrigatório. Gosto muito do Wagner William também. Já entre os baianos, o Marcelo Lima, com os roteiros, mais o Dan Borges e a Lila Cruz, com a arte, são três nomes expressivos. Há ainda iniciativas de coletâneas muito legais feito a Máquina Zero, da Quadro a Quadro, que é uma editora baiana, e a Bang Bang, da Devir, de Sampa.

 

Foto: Marcelo Frazão

 

DA – Há alguma incursão nesse universo na gaveta ou na cabeça, em roteiros para HQ, por exemplo?

LIMA TRINDADE – Recebi um convite do Allan Alex para participar de um projeto superbonito, a revista NCT, uma singela homenagem a um gênero que abrigou diversos artistas nacionais de grande talento: os quadrinhos de terror. Quem tem mais de quarenta anos talvez se lembre das revistas Spektro, Pesadelo e Calafrio, que eram vendidas em bancas, e de nomes como Flavio Colin, Julio Shimamoto, Watson Portela, Rubens Cordeiro e Mozart Couto. Para a NCT, escrevi um conto exclusivo e preparei um roteiro de 6 páginas, que está nas mãos do Dan Borges. Se tudo der certo, em 2021 a revista estará em circulação.

 

DA – Vivemos hoje o que alguns classificam como um pandemônio, mescla da situação política, que nos lançou em um cenário de violência e insegurança institucional, e dos efeitos devastadores da pandemia do Covid-19. Nesse contexto, sendo um escritor brasileiro, brasiliense-baiano, como avalia as perspectivas do mercado literário, no que tange à criação, produção editorial e circulação de livros?

LIMA TRINDADE – O interesse por literatura e arte, seja ela qual for, nunca deixará de existir. É vital no ser humano. Não se trata em absoluto do impacto reflexivo que ela nos proporciona, o que não seria pouco, pois isso as ciências exatas também fazem, mas sua importância se dá numa espécie de refinamento de nossas emoções, na possibilidade de oferecer uma troca de experiências e nos conectarmos com nós mesmos e com os outros num nível mais profundo. Recordemos que a humanidade já passou por desafios ainda maiores que essa pandemia. E, fosse na quebra da bolsa dos EUA em 1929, num Japão destruído do pós-guerra ou a vida num regime ditatorial no Brasil em que, para piorar, havia um índice de inflação altíssimo, as pessoas não deixaram de adquirir e ler livros, ouvir músicas, participar de exposições ou espetáculos de dança. Penso que nessas situações limites a necessidade de aproximação com o universo artístico se torna ainda mais forte. No âmbito da criação, há quem acredite, inclusive, serem esses momentos mais férteis. Quanto ao mercado editorial em si, a produção e circulação de bens adaptar-se-ão às novas realidades, sejam elas quais forem. Pode ser que a mudança do suporte físico para o virtual, no caso da literatura, avance mais. Pode ser que o crescimento se dê mais apenas na forma de aquisição, os leitores comprando livros de papel pela internet. Ou, ainda, pode ser que as consequências não sejam tão amplas e tudo volte a ser exatamente como era antes.

 

DA – Seu livro mais recente, “As margens do paraíso”, debruça-se sobre um país literalmente em construção. Logicamente, há vários caminhos narrativos para contar a história de Brasília. O que o fez escolher um formato não exatamente linear?

LIMA TRINDADE – A história de Brasília se confunde com a história do Brasil e se confunde também com as histórias de todas as pessoas que viveram o período. No entanto, o livro foi escrito hoje e meu objetivo ao realizá-lo não foi o de suprir lacunas históricas ou fazer sociologia. O romance traz uma realidade completa que se fecha nela mesma e se presta a múltiplas leituras e interpretações. Quando lemos o Quixote ou Hamlet pouco importa o período “real” em que a personagem vive, mas, sim, a vivência de uma gama de emoções colocadas em cena por meio de uma linguagem igualmente viva. A linearidade ou a não-linearidade tem de atender à capacidade do autor expressar melhor os problemas, questões e temas escolhidos para trabalhar. No caso do As margens do paraíso, esse “em construção” já dá uma tônica da complexidade do caminho. A linearidade isolaria e simplificaria as vidas de Leda, Rubem e Zaqueu, personagens também “em construção”, coisa que eu não desejava. Eu não quis facilitar nada para quem lê. Acredito na inteligência de meus leitores e leitoras.

 

DA – Como se deu a opção por três pontos de vista, em processos individuais, na composição de seu romance?

LIMA TRINDADE – Ao escolher a margem como perspectiva, eu decidi não colocar as personagens à margem, entende? E não dava para problematizar o centro acreditando em limites únicos, restringindo o seu ser e estar no mundo numa única voz. Seria contraditório. Essa era uma história que, a meu ver, um único narrador a empobreceria. As sutilezas das diferenças e aproximações dos três narradores se perderiam, a visão do todo ficaria embaçada e não duvidaríamos se o que a personagem diz é uma manipulação ou se o fato narrado acontece “verdadeiramente”.

 

DA – “As margens do paraíso” é um dos poucos romances contemporâneos que abordam a construção da capital federal do ponto de vista dos candangos e dos primeiros habitantes de uma cidade planejada. O que, a seu ver, provoca o desinteresse temático por esses personagens tão característicos quanto interessantes e históricos?

LIMA TRINDADE – Não sei. É algo que nunca me ocorreu. Talvez não haja desinteresse. Talvez a razão resida no fato de a cidade ser extremamente jovem e seu passado recente pareça um presente sem enigma algum a ser decifrado por quem a vive hoje. Jorge Amado retratou uma Bahia em processo de transformação, a passagem do estágio agrário para a industrialização, que poucos se detiveram com idêntica acuidade. Ou será que uma parcela grande de escritores enfrentou o tema, porém sem despertar a mesma atenção do público e alcançar os mesmos resultados literários que Jorge? É possível que haja uma literatura submersa dos candangos e primeiros habitantes da capital federal e nós não saibamos.

 

Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Fernanda Fatureto

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

 

Ouro do Tempo

 

Reconhecer o ouro do tempo
Que não há mais saída para a mesmice do agora
Que as fábricas acordam de manhã
Do sonho torpe
Do dinheiro hábil
Que o homem não tem vez na roda da história
Que a natureza passa ao largo dos passos
Apressados
Cambiantes
Reticentes
Que o trabalho não alcança nunca um fim
Em si mesmo;
Apenas passa –  o tempo
E não se vê os olhos do poeta
………………………………..Na contramão de tudo o que for luz.

 

 

***

 

 

Escrivão

 

Minha demanda de amor
percorre a Guanabara inteira
à procura de um colo
uma prece
um sorrio meio largo
ao imaginar a surpresa
em me ver aqui – inteira –
a admirar seu raro talento

– usurpador de ofício.

 

 

***

 

 

Parto

 

 I

 

Estou em minha hora mais fértil

Já que não posso te amar,
faço em mim outros filhos
crias do meu sangue
assim como o teu.

Tens parte nessa teia.

No espólio final, ficará
com o bocado mais
hábil.

Eu permanecerei
com as palavras.

 

II

 

Sem mais,
retorno.
Ele tem cheiro de alvorada.

 

 

***

 

 

Brasília

 

50 anos em cinco.
Tempo do envelhecimento de uma alma.
Um corpo pesa.
A gota cai.
O sol nasce.

Enquanto você fica parado vendo a noite se aproximar
Estático
O silêncio da noite morna com grilos
Entregue a qualquer coisa que seja vida.

Esse fio fino do instante;

Impenetrável.

 

 

***

 

 

Escuta

 

Autoconsciência denominativa.
Fluxo verbal.
Paráfrase.
Ironia.

Verbete onomástico.
Réplicas de puro afeto.

 

 

Fernanda Fatureto é autora de Intimidade Inconfessável (Editora Patua, 2014). Os poemas aqui selecionados fazem parte do livro de estreia da autora, que também é Bacharel em Jornalismo pela Faculdade Casper Libero (SP).  Mineira, vive entre  trânsitos pela linguagem. 

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

RODRIGO BEZERRA – TEMPO ILUSÃO

 

 

 

Cultivar os arremates do tempo como se eles fossem fiéis companhias. Se cada instante encerra uma surpresa, o que seria de nós sem o sabor de certas revelações trazidas com o vento que circula entre nossos devaneios? Há um sentido avarandado na porção serena da vida. Isso traz calma, cor e luz para o sopro que alimenta nosso caminhar de mortais.

Como materializar um pouco toda esta sensação? Talvez abrindo as escutas para o disco de Rodrigo Bezerra. Apegando-nos de imediato ao nome de batismo do álbum, ficamos imaginando qual signo melhor acolhe o teor cronológico da existência. E não se está a falar aqui duma mera feição concreta das coisas, algo que busque elementos sequenciais de uma trajetória de vida qualquer. Pelo contrário, a ideia de Tempo Ilusão sugere uma perspectiva a mais imaterial possível, sobretudo pelo fato de o que presenciamos no fluxo cotidiano poder ser tão fugaz quanto uma lembrança perdida.

Deixando de lado as divagações, o ponto é que o ambiente sonoro criado por Rodrigo não deixa dúvidas quanto ao caráter sublime de suas canções. Para perceber isso, basta se deixar levar pela letra e música de Mais é menos, cujo jogo de oposições dos sentimentos acaba por flertar com o equilíbrio entre certas tensões que suportamos. Ao ouvirmos Circular, fica a impressão de que o dinamismo que conduz a existência torna tudo passível de renovação. Mesmo se insistirmos em revisitar começos, ainda assim somos impelidos a avançar rumo ao desconhecido e vislumbramos nisso algum sentido de libertação.

Na canção Esperar, reforçamos o ato impreciso de sempre aguardarmos que o intangível afague nossos ombros e retire a sobrecarga deles. Para quando o tempo com seus ardis nos oferte respostas, estaremos sempre a apostar que tudo se explica de algum modo. Se a jornada parece angustiante, o cenário pueril de A criança vem nos sussurrar que a liberdade é um recurso para quem não se deixa levar por questionamentos excessivos e inúteis.

 

Rodrigo Bezerra / Foto: Diego Bressani

 

Tempo Ilusão é um disco que enaltece a formação musical de Rodrigo Bezerra, principalmente no que se refere aos arranjos regados a violão e guitarra, instrumentos bem íntimos do artista. Além disso, a conjugação de outros aparatos como bateria, saxofone, trompete, flauta e flugenhorn traz uma pegada jazzística bastante interessante. Aliada à concepção do jazz, a brasilidade do álbum ganha corpo com elementos que derivam do samba.

Afora o time de músicos que emprestam vigor ao trabalho, reunindo nomes como Felipe Viegas, Renato Galvão, Bruno Patrício e Westonny Rodrigues, não há como ignorar também a bela participação vocal de Ana Reis na faixa Além de acordes, composição que enaltece o espírito do jazz presente ali.

Segundo trabalho solo de Rodrigo Bezerra, que foi o primeiro aluno formado pelo departamento de guitarra Elétrica da Escola de Música de Brasília, Tempo Ilusão apresenta uma proposta bem definida, que é a de harmonizar sentimentos que nos atingem indistintamente a todos rumo a um caminho sonoro marcado pela simplicidade. Sem pretensões e arroubos vazios, o artista deixa a impressão de que a estrada da música pode ser trilhada sem o tradicional peso da espetacularização das coisas. Na leveza das ações, um grande trabalho funda seu próprio território.

 


 

 

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80ª Leva - 06/2013 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

A COERENTE TRAJETÓRIA DO GRUPO CENA

Por Geraldo Lima

 

Grupo Cena na peça Bagatelas / Foto: Dalton Camargos

 

Embora muitos ainda vejam a Capital do País apenas como um cenário onde a política impera com seus jogos de poder e trapaças, uma produção artística expressiva e de boa qualidade ganha cada vez mais força por aqui.  Falo, nesse caso, da produção teatral, que é bem variada e consistente. Alguns grupos têm se mantido fiéis a um trabalho dramatúrgico que lhes dá uma imagem própria, destacando-os em meio à miríade de peças em cartaz.

O Grupo Cena, que tenho acompanhado com mais frequência, é um desses grupos cujo trabalho se destaca, tanto pelo profissionalismo quanto pela coerência em relação à escolha do repertório. Diferente de outros grupos, como é o caso do Teatro do Concreto, ele não tem como proposta a criação coletiva de texto teatral; até agora, o seu repertório teatral se restringiu à montagem de textos de autores estrangeiros, entre argentinos, franceses e norte-americanos. A proposta do grupo, pelo que tudo indica, é apresentar textos teatrais nunca encenados no país, e isso tem resultado, sem dúvida, na montagem de bons espetáculos.

O grupo, criado em 2005, em Brasília, tem como proposta de trabalho “a pesquisa de novas dramaturgias com foco no trabalho do ator”. Para quem acompanha a sua trajetória profissional, isso fica bem claro: os atores e atrizes são levados a representarem com sutileza e densidade, expondo, desse modo, a complexidade da alma humana. Os textos escolhidos, geralmente marcados por uma estética minimalista, sem muita pirotecnia, carregados de lirismo e força dramatúrgica, induzem a esse tipo de representação, na qual o ator ou a atriz, num tom quase naturalista, deixa vazar toda a dimensão humana da personagem. Nesse tipo de encenação, cada gesto, cada palavra, cada expressão facial é importante, obrigando a plateia a acompanhar, com a máxima atenção, a ação que se desenrola no palco.

Sob a direção de Guilherme Reis, também coordenador do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Brasília, o grupo, formado por experientes atores e atrizes brasilienses (Chico Sant’Anna, William Ferreira, João Antônio, Sérgio Fidalgo, Murillo Grossi, Carmem Moretzsohn, Adriana Lodi e Bidô Galvão), já levou aos palcos de Brasília e de outros estados brasileiros peças de reconhecido valor dramatúrgico.

De autores argentinos montaram “Dinossauros” e “Fronteiras”, ambas de Santiago Serrano (assisti à peça “Dinossauros” e sobre ela fiz uma resenha que será apresentada ao final desse texto), e “Varsóvia”, de  Patrícia Suárez.

Em 2010, levaram ao palco a peça “Heróis – O caminho do vento”, do francês Gerald Silbleyras. A história de três ex-combatentes de guerra (René/Gustavo/Fernando), que vivem num asilo para idosos, sob a rígida direção de uma freira, é caracterizada pelo tom dramático, irônico e lírico ao mesmo tempo. É comovente assistir ao cotidiano desses três indivíduos, já à espera da morte, mas que, em determinado momento, sob a ameaça de uma mudança na rotina do asilo, planejam uma fuga. “Heróis” é, como diz a sinopse da peça, “… uma experiência de amizade. Amigos são os heróis que ajudam a vencer batalhas da vida”.

Cena de Heróis / Foto: Divulgação

Em 2011, o grupo levou à cena a peça “Bagatelas”, da norte-americana Susan Glaspell. O texto da dramaturga norte-americana, escrito no início do século XX, surpreende e comove pela atualidade do tema (a violência contra a mulher) e pela simplicidade da trama, que é, ao mesmo tempo, capaz de revelar as sutilezas da alma feminina e o universo das mulheres no final do século XIX. Mostra, em suma, as diferenças de percepção da realidade entre mulheres e homens. O enredo da peça pode ser resumido desta forma: “Numa casa de fazenda do interior dos Estados Unidos, no início do século 20, ocorre um crime. Um promotor, um delegado e o fazendeiro vizinho são chamados a investigar. Eles levam suas esposas. Enquanto os homens procuram as pistas do assassinato, as mulheres ficam na cozinha, observando o cotidiano da casa, analisando, através das bagatelas, o que pode ter acontecido”. Através desse olhar minucioso, num ambiente que elas conhecem muito bem,  chegarão à solução do crime, ou melhor, às causas do crime. E o que elas farão com essa informação? É preciso assistir a essa peça maravilhosa para se entender a decisão tomada por essas mulheres. E aí está a grandeza da arte: a capacidade de nos fazer mergulhar nas profundezas da alma humana e de nos revelar os meandros das intricadas relações sociais.

A montagem mais recente do grupo, em 2013, trata-se do texto “Inventários – O que eu guardei pra você”, do dramaturgo francês Philippe Minyana. Mais uma vez confirma-se a preferência do grupo por textos curtos, minimalistas, mas de impacto pela densidade  do tema, da linguagem e da interpretação dos atores e das atrizes. Esse é um texto no qual a palavra e a memória têm uma grande importância. É através do jogo de se revelar, de se expor diante de uma plateia (trata-se, no caso, de um reality show), que a história se desenvolve. “Inventários é um jogo em que o apresentador leva as personagens a compartilhar suas vidas com o público, confessando suas dúvidas, ansiedades, angústias e momentos de felicidade.” Essa peça de Philippe Minyana fez grande sucesso na França, sendo transformada em série de televisão e documentário para o cinema. Talvez por abordar temas caros aos franceses, como a vivência da guerra, ela tenha repercutido tanto lá. Das montagens do grupo a que assisti até agora, essa foi a que menos me agradou. Quando parece que a ação vai sair do “monólogo construído pela memória” e as personagens vão começar a interagir entre si, num embate, a peça acaba. Talvez a culpa seja apenas minha, ao esperar sempre por um grand finale, e pode não ter sido essa intenção de Minyana. A história acaba quando acabam as revelações, ou quando o apresentador, em estilo histriônico, acha que já é tempo de encerrar o programa.

 “Dinossauros”, de Santiago Serrano, entrou em cartaz novamente no final de 2012, em Brasília, e pude então assistir à sua apresentação. O meu ponto de vista sobre o espetáculo está no texto apresentado em seguida.

 

 

UM TEXTO SIMPLES E COMOVENTE

 

A peça ‘Dinossauros’, do dramaturgo argentino Santiago Serrano, é de uma simplicidade total: apenas dois atores em cena, um cenário despojado, poucos objetos de cena (um banco de praça, um acordeon, uma sacola, uma garrafa de vinho, talheres), um único foco de luz (sugerindo a luz de um poste), pouca movimentação e diálogos marcados pelo coloquialismo, pelo tom bem natural. Um espetáculo que se sustenta, principalmente, na palavra e na atuação dos atores. Nesse caso, na belíssima atuação do ator Murilo Grossi e da atriz Carmem Moretzsohn, ambos de Brasília e do Grupo Cena. Vale ressaltar, aqui, a segura direção de Guilherme Reis, sem destoar do ritmo que o texto exige.

Cena de Dinossauros / Foto: Mila Petrillo

O que assistimos, em apenas uma hora de duração do espetáculo, é a vida acontecendo, no palco, com expressiva naturalidade: um homem e uma mulher se encontram em algum lugar da cidade, tarde da noite, e, a partir daí, vão se aproximando, dando cabo da solidão e do medo. Tudo isso se dá entre silêncios, risos, tentativas de fuga, de recuo e de reaproximação. O encontro entre dois, cada qual com suas cicatrizes e seus sonhos, vai se consolidando aos poucos, num transe lírico (quase dionisíaco num momento), na medida em que vão se desnudando, se revelando, se entregando. O que acontecerá depois, assim que o dia chegar, ninguém sabe: aos dois fica a certeza de que estão vivendo um momento intenso, que os arranca da solidão e do vazio. Se vai durar, impossível saber. Há a vontade de que dure, e isso já é um começo. Para os espectadores, como ponto de identificação, fica, talvez, a torcida para que continuem juntos, curando-se das suas feridas. Eis aí um texto simples na sua tessitura, mas de significado muito profundo.

Essa montagem da peça de Santiago Serrano, pelo Grupo Cena, já está em cartaz há bastante tempo e foi apresentada em vários locais do Brasil, sempre com muito sucesso.  Aqui em Brasília, voltou a ser encenada e ficou em cartaz, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura, Shopping Iguatemi–Lago Norte, até o dia 25 de novembro.  Para os que não tiveram a oportunidade de assistir a esse belo e comovente espetáculo teatral, fica a torcida para que ele volte a entrar em cartaz.

(Geraldo Lima é professor, escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, dentre eles Baque (contos, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro, Ponteio Edições).  É colunista dos sites O BULE e Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia, e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)