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141ª Leva - 01/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Bruna Mitrano

 

Desenho: Geometria da palavra

 

 

tem espinhos na língua.
o encontro é quando lambe o racho da minha sola.
até que o primeiro lapso nos levante às pressas –
ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.
nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.
é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?
sim, estaremos sempre sozinhos –
guardo nossos segredos com muitas mãos,
seu sangue seco nas minhas coxas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

você não sabe se enxugar,
eu disse rindo.
das suas pernas encharcadas brotavam poças escuras
que no corredor escuro
pareciam buracos –
eu não desviava,
espalhava seus abismos.
até que ficava insuportável te ver escorrer
e eu me agachava e lambia dos seus extremos até o pé,
a língua desmoronando em cada dobra,
enquanto você ardia por toda a dor do mundo.

e foi por ela,
foi por toda a dor do mundo
que chorei em seus pés
e supus as linhas do seu rosto quando minhas águas,
lágrimas, coriza, bichos,
tanto amor,
amornaram seus dedos.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

ainda falava em reparação
o nariz bicando a asa de frango frita
boca e mãos luzindo engorduradas –
meu bem, seu amor é patético ao meio dia.
e a cara amarela desde a manhã
se havia
um grito vinha da cozinha
geladeira velha
bebo água e a voz grave do vizinho me treme
outro copo quebrado
varro mal
esqueço e
ah esse calor terrível
deito no chão –
você acha que vai chover?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

choque
uns passos
segundo plano
acho que vi um milagre!
acho que vi!
as mãos estavam vazias
quando o homem louco
aos berros no meio da rua
esclareceu
o último gole
a raiva ainda alinhada –
é difícil, ele disse,
morrer.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

rasgava a camisa com os dentes
a raiva desnudada de pavor
e se deixava à beira –
como adestrar a mão convulsa?
o mijo morno entre as cobertas era como peitos grandes pietá
aninhava-se no turbilhão do que era
reconhecia
seu corpo
erguendo à boca a própria armadilha
e lembrava das frutas que nasceram podres
as que nasceriam pra sempre.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

deito, abro as pernas em pássaro e curvo a cervical pra, daqui, te ver. no centro, os lábios úmidos do animal todo boca devoram a sua imagem diminuída pela máxima distância suportada – sobre o corpo inerte, não obstante o grito esmurrar a película que encobre o peito, no golpe extático da pequena morte, dançam o líquido branco espesso e meus muitos coágulos – emaranham-se, escorrem. as mãos, não soltamos.

 

Bruna Mitrano vive na periferia do Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em Literatura pela UERJ, professora, escritora, desenhista e articuladora cultural. Publicou poemas, contos e desenhos em jornais, revistas e antologias no Brasil e no exterior. É autora do livro Não (Ed. Patuá, 2016).

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Bruna Mitrano

 

Foto: Luiz Bhering

 

sentei perto dos urubus
o homem que passava disse
eu tenho nojo de você
expliquei a ele que os urubus
procuram na carcaça
as partes moles e quentes
ele deu as costas xingando
e sacudindo as mãos
olhei pros urubus
eles também me olharam
complacentes com aqueles
olhos sem branco
o homem o seu corpo inquieto
era como o animal que
esperneia antes de morrer
sabíamos no entanto que ele
não morreria que ele estava
mais vivo que nós que não
temos mãos nem pedras
nas mãos pra atirar em quem
nos causa repulsa apenas
alguma intuição de encontrar
partes moles e quentes.

 

 

 

***

 

 

 

nasci com dentes podres
coisa de família
minha avó ficou banguela aos 26
os tios todos têm dentadura
criança diziam tão bonita mas assim
não vai arrumar namorado
eu não queria arrumar namorado
arrumei nove ossos quebrados
ossos fracos coisa de família
disseram bruna você parece que pode
partir ao meio a qualquer momento
eu quebrei muitas vezes
mas ninguém quis ver
que não quero namorados
e que meu mau hábito de
não escovar os dentes é por
que nunca paro de comer
porque o que sinto não é fome
é o sentimento da fome que talvez seja
coisa de família nunca entendi
o que é essa coisa de família.

 

 

 

***

 

 

 

vila kennedy, 2 de julho de 2019

 

*pra érica magni

 

na noite passada eu vi
um homem sem cabeça
não um ser mitológico
nem um desses zumbis de seriado
um homem que sangra
decapitado na vila kennedy
um homem de peito aberto
sem metáfora ou outra figura de linguagem
que emprestasse beleza (ainda que dessas
belezas terríveis) à imagem
do homem de coração arrancado
e enfiado na boca – a cabeça um ser
independente de
nervos
músculos
vértebras
apoiada sobre a barriga
como um porco à pururuca de desenho animado
a maçã perfeitamente encaixada
a maçã exageradamente vermelha
colhida no próprio corpo
estirado no asfalto
na noite passada eu vi
e ver pode ser pra sempre
o homem morto
com a cabeça solta
o peito aberto
e o coração entre dentes
as partes todas
remontadas
como numa instalação artística
na noite passada eu vi
e senti (o coração na boca)
uma dificuldade de respirar
que ignorei em respeito à mãe do morto
(ao coração arrancado da mãe do morto)
e a todos que conhecemos o terror
por dentro –
não foi na noite passada
que ela disse: olhando de longe
a favela parece até uma árvore de natal.

 

 

 

***

 

 

*com nick Drake

 

toda noite deus puxa meu cabelo
única parte não imersa
até arrancar a pele do rosto

não tenho mais espelhos

please give me a second face
a voz engasgada de nick

toda noite ouço a louca fugiu
e agarrou desconhecidos dizendo
olha minha garganta está fechada
e meus dentes foram colados

eu que não tenho mais dentes
como a minha avó
chupando ossos de galinha

please play me your second game

toda noite a menina grita o pai
lambeu o lóbulo da minha orelha

e a mãe lembra que é preciso
esquecer que a louca que o pai que
a mãe nunca lembrou
de acordar a menina pra escola

please tell me your second name

toda noite vem o homem
vestido de branco e
conto a ele do pintor
que disse não gosto de aquarela
é impossível domar a água

que foi o pintor com quem vivi
que foi o pintor que me bateu
num hotelzinho na angélica

please give me a second grace

toda noite vem o homem
vestido de branco e
digo a ele
é impossível domar a água

I just sit on the ground in your way

o homem vestido de branco
anota a minha doença num papel.

 

 

 

***

 

 

 

lembra quando eu subi na janela
fiquei de pé e chovia
eu quis que você tivesse medo
e me pegasse por trás como fazem os policiais com os suicidas da golden gate
mas você fez o santo de rabo de olho
a boca caiu o cabelo cobriu a testa
eu não entendo eu quis entender
o pau duro na minha bunda criança o que era aquilo
se era de eu ser diaba ou se eu acidentei
os pelos grossos e o hálito pesado do trabalho sujo
agora é a fila do mercado e o celular despertando
a parte que escapa
à rotina:
café com leite arroz tipo 1 sexo com o vizinho
segredos cimentados nas calçadas dos subúrbios –
o homem ainda estava com o rosto deitado nas minhas pernas
feto de pele velha ossos largos pelos brancos
quando eu disse eu não mais darei nomes aos meus filhos
e eles não mais serão escravos.

 

 

 

***

 

 

 

hoje limpei a casa
tirei traças das paredes e asas
de insetos do chão do quarto

R. não conseguiu dormir aqui
não foi por causa da sujeira
foi por causa do cachorro
e porque não tinha queijo
R. não vive sem queijo – anotar

a dona Neia disse que
pra conseguir dormir
é preciso pensar pra dentro
e pensar nas coisas do dia

como a mulher que vende café na estação
penso na mulher vendendo café
na chuva ela tem uma capa azul

penso nos restaurantes baratos
nos velhos tomando sopa
com a cara perto do prato

e nos homens na calçada
mastigando as sobras com uma lentidão que
nem parece fome parece elegância

penso que os homens mastigando lentamente
as sobras sabem
que amanhã os restaurantes estarão fechados
que a mulher venderá café na estação
e que é impossível viver sem queijo.

 

Bruna Mitrano (1985) nasceu e vive na periferia do Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em Literatura pela UERJ, poeta, desenhista e articuladora cultural. Tem textos publicados da Revista Pessoa, na revista Cult, na revista Palavra, no jornal Plástico Bolha, dentre outros. Participou de 17 antologias. Teve textos traduzidos para o inglês e o espanhol.  É autora do livro Não (Ed. Patuá, 2016).

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

E chegamos a 10 anos de publicações. Com 111 edições lançadas, a Diversos Afins está, no formato e conteúdo, já um tanto distante do seu embrião. Em 2006, quando vinha a público a primeira leva, a revista ainda apresentava uma estrutura incipiente, bastante artesanal. Por certo, não se imaginava tamanha longevidade, apenas existia uma investida puramente romântica bem digna de ímpetos iniciais. De lá para cá, não somente o tempo transcorreu assinalando percursos numéricos, mas serviu de impulso para inúmeras possibilidades de aprendizado e experimentação. O propósito nunca foi o de se portar como um veículo autorreferente, do tipo que vangloria os feitos de seus idealizadores. De fato, nascemos em plena era de efervescência dos blogs, verdadeiros cadernos eletrônicos de onde saíram importantes nomes do cenário literário e artístico em geral. Foi também possível testemunharmos o surgimento de portais e tantas outras revistas ligadas aos temas culturais. Alguns se mantiveram, outros, por razões das mais distintas, ficaram pelo caminho. Hoje, não temos dúvida de que a persistência foi nossa melhor aliada, pois sempre acreditamos que seguir adiante sempre fez sentido. E não foi em vão que escolhemos o lema “desengavetar expressões” para capitanear nossa trajetória até aqui. Sabíamos o que representava ser um veículo de comunicação num momento em que as perspectivas editoriais em relação à literatura, por exemplo, apresentavam um cenário de radicais mudanças. A Internet foi uma mola impulsionadora de todo um processo no qual criadores expuseram seus trabalhos de forma independente. E ter contato com muitas dessas expressões foi fundamental para a consolidação dos caminhos da nossa revista. Fez-se necessário estabelecer critérios próprios de seleção, pautados em aspectos de qualidade que não representavam juízos de valor. O mais importante de se completar 10 anos de jornada pelas vias culturais é certamente a ideia de se agregar pessoas. Perdemos a conta de quantos colaboradores deixaram suas marcas impressas em nossas páginas ao longo de todo esse tempo. Também não saberíamos mensurar o quão valiosa é a atenção dos leitores em relação ao nosso trabalho. Cada autor e artista que por aqui passam, com suas distintas vozes, reforçam o nosso desejo original pela diversidade. E assim vamos seguindo. A leva 111 pretende ser a primeira de uma série de cinco edições especiais que celebrarão nossa primeira década de vida. Para inaugurar o momento, destacamos os versos de poetas como Bruna Mitrano, Wesley Peres, L. Rafael Nolli, Micheliny Verunschk e Geraldo Lavigne. No território da prosa, contos de Márcia Denser, Anderson Fonseca e Maria Camargo Freire (heterônimo de Caio Russo). É Larissa Mendes quem rende escutas ao novo disco do rapper brasileiro Criolo. Sérgio Tavares realiza uma especial entrevista com o escritor Ronaldo Cagiano. As atenções cinéfilas de Guilherme Preger desta vez estão voltadas para “Big Jato”, filme do diretor pernambucano Claudio Assis. A volta do caderno de teatro é marcada pela sensível exposição da dramaturga Yara Camillo sobre a peça “Donantônia”, encenada pelo Núcleo Ás de Paus, do Paraná. São muito contundentes as linhas de Sérgio Tavares quando nos convidam à leitura do livro de estreia de Marcela Dantés. Conferindo um brilho especial a todas as expressões contidas na nossa leva atual, os desenhos de Luma Flôres visitam mundos que correm paralelos na experiência humana. Com imensas felicidade e gratidão, dedicamos a nossos leitores a continuidade dos nossos passos. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Bruna Mitrano

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

da janela, aparávamos a água com as palmas em concha – serpeava prata nos antebraços. duas vezes, ela juntou os dedos e fez como se lavasse as costas dum recém-nascido. abaixávamos as cabeças e víamos a chuva de onde deus a vê, umas linhas semiperfeitas a estrelar no chão. nossos ombros unidos, sua pele lisa e negra. no meu rosto, o vapor frio do seu sorriso sem palavras. não olhávamos pra trás – o quarto branco, a cama ao centro, os lençóis usados. não nos olhávamos. (eu esperava o sol, quando a morte me tocava).

 

 
***

 

 
já não alcançava seu sono
lembrava de quando podiam ser tristes juntos.
soubesse a hora de ir, calaria
e encolheria o corpo raquítico sob a coberta embolorada.
por outro extremo, lacunava-se em palavras rasas,
entregue, farta, extasiada –
que não pesasse ser pó, havendo mãos.

 

 
***

 

 
o ruído dos dedos esfregando a barba
os olhos inarticulados dos pesadelos diurnos
as luzes fragmentadas nas paredes exaustas de tantas
falas – era quando fingíamos ser livres
desconjunturando a barbárie
desses tempos inaudíveis.

 

 
***

 

 
o sangue no antebraço
que a luz baça faz preto
punho cerrado
uma lasca de vida agarrada como última –
nada importa se há dor.

 

 
***

 

 
o cobertor no chão
invólucro seguro que não se ousa enjeitar
abraça uma ausência morna
fora, o dedilhar contínuo de quem olhando a tela teme –
absurdos Morte muxoxa bate de leve o punho na perna direita –
o imponderável particular.

 

 

***

 

 

já não sabiam se temiam por si ou pelo outro. a cabeça de lado, o pelo na língua, os roxos na pele. aqueles homens apaixonados pelas coisas erradas, pelas pessoas erradas. estive muito tempo dentro dos dias, e não olhar pra trás era o mesmo que pedir não me deixa ir. mas há beleza no hálito doente, nas vicissitudes dos corpos, no rasgo imprevisto na carne, e não tão só, quando a espera é o grito imanente, irreversível.

Bruna Mitrano (1985) é favelada, professora da rede pública e mestre em Literatura Portuguesa (UERJ). Em 2010, esteve entre os vencedores do Prêmio Off-Flip, na categoria Conto. É autora fixa na revista Mallarmargens. Tem textos e desenhos publicados nos: Contemporary Brazilian Short Stories (Califórnia), Flanzine (Portugal), jornal Plástico Bolha, revista Germina, Zine Joia, blog da Confraria do Vento, blog da Editora Oito e Meio, Fórum Virtual de Literatura e Teatro, revista Tlön (Portugal), revista Diversos Afins etc. Participou das antologias “Algum vazio nesta paz fajuta” e “Clube da Leitura Vol. III”. Seu primeiro livro de poemas e desenhos – “Não” – será lançado em breve pela editora Patuá.

 

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75ª Leva - 01/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

Qual sopro contínuo e que move a vida, abrimos a janela das publicações para um novo ano. Diante disso, expectativas de outros tantos encontros se fazem reais. Flertar com o vindouro não é negligenciar o presente, mas sim buscar a extensão dos dias para que tudo possa confluir num projeto cada vez mais sólido e maduro. São 75 edições levadas pelo aprendizado e pela evolução, quesitos que nos fazem refletir o quanto trilhamos de efetivo em todo o tempo de existência da revista. De toda a bagagem incorporada até aqui, a mais importante decorre dos laços humanos que foram estabelecidos. Sem sombra de dúvida, estar aqui hoje é resultado direto de trocas, diálogos e interações firmadas por todas as frentes possíveis de um mundo que se desenha multiforme. E como é recompensador depararmo-nos, inclusive, com o diferente e o inusitado, lugares que muitas vezes removem a tão acostumada zona de conforto. A partir de perspectivas como esta, vamos revendo algumas práticas, consolidando outras, tudo para tentar alavancar e manter um modelo de qualidade que represente algo atraente aos leitores e visitantes. Tais perspectivas implicam em considerar que os caminhos estão abertos, pois seguir adiante se faz imperativo. Sendo assim, nada melhor do que abraçarmos novas e coerentes descobertas, como é o caso dos poetas Jorge Vicente, Daniela Delias, Gil T. Sousa, Alexandra Vieira de Almeida, Alvaro Posselt e Lílian Maial. Exalando seu modo poético de conceber mundos no mundo, Luiza Maciel Nogueira partilha conosco os signos de seus desenhos em meio à profusão de palavras presentes nesta recente Leva. Múltiplas visões da existência atravessam os contos de Natércia Pontes, Eleonora Marino Duarte e Bruna Mitrano. Há também o valioso diálogo com a fotógrafa Mercedes Lorenzo, entrevista que pontuou aspectos ligados à concepção da imagem, bem como reflexões sobre a arte em nosso tempo. Bolívar Landi ousou percorrer as rotas de Django Livre, novo e polêmico projeto do intrépido cineasta Quentin Tarantino. No gramofone, Larissa Mendes deixa girar as canções presentes no mais novo álbum da Orquestra Imperial. O mais recente livro de contos do escritor Rodrigo Novaes de Almeida é destaque do Aperitivo da Palavra. Esta, caros leitores, é apenas uma pequena demonstração de que palavras e imagens continuarão fazendo par constante por aqui. Que 2013 seja motivo frequente de saberes e sabores em torno da arte. Boas incursões a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa II

Bruna Mitrano

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

Numa noite dessas

 

Chovia forte. Eu voltava do trabalho e via a gente da rua muito agitada, os pontos de ônibus alagados e os homens disputando espaço na sarjeta. Esperei um tempo debaixo duma marquise. Uma mulher esbarrou em mim com o guarda-chuva e uma criança negociou um trocado. A chuva estiou logo. Caminhei pesado, os tênis encharcados, até a calçada e subi num ônibus velho.

O engarrafamento era longo e o cheiro nauseante. Numa parada, um menino sujo e magro pediu carona ao motorista. Dizia: estou doente, acho que tenho febre. O motorista acenou que sim, mas amarrou a cara ao vê-lo entrar. Os passageiros, que se apertavam, resmungaram: cracudo filho da puta.

Ainda estávamos no espaço de meio quilômetro em que o ônibus permaneceu por duas horas, quando o garoto vomitou um visgo amarelo. Ignoravam-no, todos. Não demorou para que ele tombasse próximo a mim. Teve convulsões. Repousei a mochila num pedaço de chão entre minhas pernas e me abaixei para segurar sua cabeça. Os espasmos chacoalharam a carne mole dos meus braços.

Os olhos grandes remelentos do garoto olhavam meus olhos como se implorassem por socorro ou perdão. Um senhor gritou que chamássemos os bombeiros. Alguém pegou o telefone, embora soubéssemos que ninguém chegaria rápido ali.

De repente, a calmaria. Os olhos grandes muito abertos. Minhas mãos coladas à cabeça do menino, afundadas em seus cabelos grossos de poeira e suor. À volta, o silêncio: o garoto estava morto.

O motorista precisou levar o corpo à delegacia. Dei alguns esclarecimentos à polícia. Depois, peguei um ônibus mais novo e um pouco mais caro. As ruas já estavam secas e o trânsito fluía bem. Em casa, joguei as roupas na máquina de lavar e o tênis na lixeira. Tomei um banho quente, fritei uns empanados e sentei à mesa, sozinha, sem tristeza nem pressa, desejando que aquela noite durasse um pouco mais. Eu estava viva.


***

 

 

.fim

 

bomba-relógio, 6:00, levanta, lava a cara duas vezes, envelheceu muito esse ano. banho porco, roupa pronta, engole o café com leite e pão, e sai pela metade. sol, gente, sustos, dorme, chega. gritos, é assim. a molecada espera na fila. sala de aula, arrastam cadeiras, o giz no quadro, formiga a gengiva. cinco tempos, morre com farofa ao meio dia. almoça naquela pensãozinha xexelenta mas, tem papel no banheiro. volta, a mesa grande, cadê os óculos? médias, faltas, tá na hora. anda torto, a pasta pesa e cai, no meio do corredor. revoada, os papéis escapando das mãos. gritos, é assim. bomba-relógio, falta pouco pro fim do dia, pouco pro fim do mês ($), pouco pro fim do ano. quanto pro fim da linha?, conta nos dedos.

(Bruna Mitrano (1985) é carioca suburbana, professora da rede pública, mestranda em literatura portuguesa, leitora compulsiva, desenhista frustrada, bipolar e torcedora do Bangu. Escreve na revista Mallarmargens. Tem textos publicados no Jornal Plástico Bolha, no Fórum Virtual de Literatura e Teatro, na revista Germina e em outros espaços na Internet)