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92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Carlos Barbarito

 

Foto: Luiz Navarro

 

Esto, y no otra cosa, debe ser la vida…

 

A Albert Camus

 

Esto, y no otra cosa, debe ser la vida.
Un vino agrio para saciar la sed,
un escaso alevino para poblar ríos y estanques.
Nada más. Por qué, entonces,
su obstinación en hablarnos
de las nupcias del viento con el mar y los ajenjos,
del árbol pequeño y aislado
como la más tierna y frágil de las imágenes,
del desacuerdo que sin embargo ilumina,
del canto de las cigarras
a mitad de camino entre el amor y la miseria.
En qué punto, entonces,
ahora se lo pregunto, la pánica divinidad,
el sólido corazón que se abre a la música,
la noche pura que se bebe,
la pasión que se encamina hacia las lágrimas,
los olores de la tierra y la sal,
el verano adormecido, el sereno o voraz decurso
hacia el pavor, el éxtasis, la ira, las uvas.

 

 

***

 

 

A la pregunta no responden…

 

A la pregunta no responden
aquellos que debieran responder
desde el fino apetito,
la conciencia calibrada
a un palmo por encima de la tierra.
Cómo decir blanco
sin quedar desnudo ante desconocidos,
cómo decir negro
sin lastimar lo que apenas admite roce.
En qué lengua hablar.
En qué medida esa lengua
alcanzará oquedades, jorobas, ardores.
Cómo entablar diálogo,
cómo inquirir acerca de pulsaciones
y destellos, la manera
en que el mundo se dispone
para que brote una flor
y en la flor se hagan el color y el perfume.
Hay todavía más. Y más.
Tal vez no alcance para contenerlo
cuanto hay a mano, lo ancho
y profundo, lo advertido
y lo ignorado, cuanto
vibra, fluye, se tensa, sube o se precipita.
A la pregunta, el aire fijo,
la llave de paso bloqueada.
Hacia la luz una polilla,
choca una y otra vez contra la lámpara;
a cada golpe el tiempo
hunde un poco más su aguja,
avanza a través de la carne
hacia el nervio central, la médula.

 

 

***

 

 

Intraducible, incluso para un demonio…

 

A Susana Wald y Ludwig Zeller

 

Intraducible, incluso para un demonio
y más allá del lento agotamiento
de las lámparas, único, permanece.
¿A qué flujo o reflujo,
entonces, encomendarlo
y hacia qué polo sonoro
o con sordina dirigir el magnetismo?
No saber, jamás, si razona
o desvaría, si expresa
una vía de lava, un encuentro de amor,
si anda bajo soles errantes,
bajo la tierra, sonámbulo,
si alcanza la orilla,
si se configura como nube o vértebra,
si habla de yescas,
rayos, traiciones, esquinas,
amparos, intemperies, escudos.

 

 

***

 

 

Tal vez toda la luz del mundo…

 

Tal vez toda la luz del mundo
sea sólo el reflejo de un sol entre nubes
contra el cristal oscuro de un cuarto vacío;
quizás el que, en busca de agua,
cava tras la orden del rabdomante
no guarda dentro de sí
más esperanza que aquella que se quita,
pliega su vestido sobre una silla,
y espera cada día la llegada del desconocido
en una casa plantada en el desierto.
¿Y la constante mudanza
de la piel y las plantas,
la hora en que a tientas la beso y la penetro,
el tosco florero vacío
ante la colmada vastedad de la muerte,
el vuelo de la polilla de cuarto en cuarto?
Ahora que la hija del sueño se consume
y un único pájaro canta
desde el borde de una larga rama inclinada,
quema la lágrima y el río
no se convierte en mar ni lo que hablo
en idioma exacto y puro.

 

 

***

 

 

Bebe agua ajetreada, descompuesta…

 

Bebe agua ajetreada, descompuesta
y el gusto es como una sensación
de un mal futuro, extenso y enceguecido.
Escucha: un sonido sin húmero
ni sustancia. Acaece un descolorido meteoro
donde debiera haber caos de muslos,
cavidades húmedas a un paso
de la gracia y del abismo.
Sosténganme – pide. Piel
de ofidio, frío
contra el que la vigilia se disemina
en actos repetidos, sin significado;
¿y el sueño? ¿Escena
que aguarda su idioma amplio,
su desnudo? En el centro
de cuanto ocupa la mirada,
un animal huele un poco
y luego, antes de que pueda gritar,
se convierte en aire.

 

 

***

 

 

Trakl

 

Antes que yo, en cólera y sangría.
Como yo, un ojo hacia los próximos ramajes
y el otro hacia las remotas estrellas.
Antes que yo, en dolor sin anestésico,
a la luz de lámparas agónicas,
cerca de los caballos, sus cuartillas y antebrazos.
Como yo, ante el entierro del sol,
el negro vuelo de los pájaros,
la hermana en otoño, el purpúreo sueño.
Después que yo, en cuanto pulse,
respire, pernocte, se despliegue como un mapa
o se contraiga como una santa,
en la flor de artificio, en la flor verdadera,
en el abrazo de los amantes,
en los insectos sobre la carroña.

 

 

O escritor Carlos Barbarito nasceu em Pergamino, Buenos Aires, Argentina. Dentre outros livros, publicou: Poesía quebrada (Mano de Obra, Buenos Aires, 1984), Caballos y otros poemas (Hojas de Sudestada, La Plata, 1990), El peso de los días (Ediciones Electrónicas Altamira, Buenos Aires, 1995), Puntos de fuga (Colectivo ZonAlta, Toluca, 2002), Cenizas del mediodía (Praxis, México D.F., 2010) e Paracelso (Excodra Editorial, 2013).

 

 

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89ª Leva - 03/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

A poesia argentina atual: um recorte de temas e autores

Por Luis Benítez

Tradução: Fabrício Brandão

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Longe das valorações realizadas pelos inevitáveis lobbies literários e editoriais, no panorama atual da poesia argentina se destacam trabalhos de autores que, dentro de um espaço de frequente introspecção e pesquisa, têm forjado obras maduras, dotadas de uma voz própria, facilmente distinguíveis no conjunto. Um fator comum a essas obras deriva não somente do resultado de anos de experiência com a linguagem, das possibilidades estilísticas com as quais o gênero contempla os autores, mas, fundamentalmente, do caminho de tentativa/erro a que têm recorrido os poetas que vamos assinalar. De pronto, esta generalidade envolve a muitos outros, hoje presentes e em plena atividade dentro do fenômeno que representa a poesia argentina contemporânea, mas obrigatoriamente devemos fazer um recorte, uma seleção desse conjunto, confiando que a obra de cada um dos integrantes desta breve seleção representa também as buscas estéticas de muitos outros, os quais ou alcançaram aquilo que se propuseram – uma obra consolidada – ou estão imersos na procura dessa obra, com valiosos resultados alcançados pelo caminho. Assim, esta seleção deve ser entendida como uma mostra de algumas realizações presentes, não como uma exclusão de outros poetas.

Dentro de uma perspectiva ampla, como fator comum entre os autores selecionados, destacamos que os caracteriza a busca de uma identidade que excede os limites do meramente subjetivo, pois, se proponham ou não tais poetas, um de seus feitos têm sido incorporar em seus versos aquilo que o poeta argentino Alberto Girri (1919-1991) chamava de “a voz da tribo”, com diversos matizes e recorrendo a diferentes recursos estilísticos; neste sentido, para vislumbrar as diferentes tonalidades de alguns dos melhores feitos da poesia argentina contemporânea, esta seleção deve ser lida como um inventário de pistas e indícios, presentes em cada poeta, que ajudam a compreender – lendo o todo como seções que se complementam, influem e modificam mutuamente – qual é o perfil atual do gênero na Argentina. Cada um destes autores poder ser situado dentro da grande tradição da poesia argentina – e isto não é um alarde canônico, estamos muito distantes de tal intenção – por mérito próprio, mas aquilo que definitivamente nos interessa é compreender de qual maneira têm contribuído a ela com sua produção, como sua obra se insere no contexto. Mais uma vez, apreciamos outro fator comum: são autores que têm dispensado ligações com este ou aquele movimento literário, vigentes em sua etapa de formação, optando por concretizar uma obra pessoal e mantendo tal postura desde os primórdios de seu trabalho com a língua até a atualidade. É bem verdade que, na Argentina, os movimentos literários perderam campo de ação e até desapareceram no final dos anos oitenta, uma consequência da pós-modernidade ter varrido, em geral, com as ideias vanguardistas tão caras à modernidade.  No entanto, salientamos que envolvendo nesta mostra autores de diversos estilos, trajetórias e idades, estes bem poderiam ter sofrido tais influências, mas não as tiveram, pelo menos de modo determinante.

Outro aspecto a considerar é que os autores em análise procedem, na sua maioria, de campos culturais da Argentina não restritos às proximidades de Buenos Aires, a capital, que concentra o poder literário e editorial em suas estreitas margens (algo, por outro lado, muito comum em outros países também). Habitualmente, as antologias poéticas, os artigos jornalísticos e as apresentações públicas da poesia argentina no plano internacional tendem a exibir obras e autores que repetidamente coincidem em possuir uma legitimação proporcionada pelos meios, a crítica universitária e os interesses editoriais, que os publicam em Buenos Aires, enquanto a maioria dos autores argentinos vivem e realizam suas pesquisas estéticas fora dos arredores da capital. Além do mais, devemos destacar que várias pesquisas estéticas das mais importantes e interessantes que se levam a cabo na Argentina não são impulsionadas por autores residentes e atuantes em Buenos Aires, mas em outras regiões do país.

Cremos que esta breve seleção, uma vez que inclui algumas dessas interessantes pesquisas estéticas as quais mencionamos acima, tem, por isso, um valor agregado. O limite do trabalho jornalístico-literário é o espaço. Em função disso, relacionamos cada autor com uma breve ficha bibliográfica e um comentário sobre os mesmos, que facilitarão ao leitor interessado sua pesquisa e melhor compreensão do fenômeno ao qual chamamos de poesia argentina atual, através de alguns de seus melhores representantes.

 

 

***

 

 

Concepción Bertone – Nasceu em Rosário, Província de Santa Fé, em 1947. Dotada de uma voz intensamente pessoal, a breve obra desta poeta acusa a melhor influência de Eugenio Montale, entre outros, finamente decantada. Bertone atinge uma grande perfeição formal e um notável equilíbrio entre ideia e emoção, que transmite ao leitor sem alardes e desnecessárias afetações.

 

Obras: “De la piel hacia adentro” (1973), “El vuelo inmóvil” (1983), “Citas” (1993), “Aria Da Capo” (2006), entre outras.

 

INVIERNO

La mujer de la bata gastada
barre las hojas de la vereda ajena
a la mirada que la desnuda. Barre
una llamarada de hojas de fresno
y enciende un fósforo
para que el fuego
la apague.

 

 

***

 

 

Jorge Boccanera – Nasceuem Bahía Blanca, Província de Buenos Aires, em 1952. É uma das figuras chave da atual poesia latinoamericana, graças a uma linguagem voltada para o inesperado, para uma mudança de direção surpreendente, aspectos conjugados sempre a uma alta precisão de sentido. Como poucos, Boccanera une os conteúdos sociais de sua obra com seus vastos conhecimentos literários. Uma voz original, que não deixa de lado o humor nem a ironia para estabelecer um contato muito direto com a sensibilidade do leitor.

 

Obras: “Los espantapájaros suicidas” (1974), “Noticias de una mujer cualquiera”, (1976), “Contraseña” (1976), “Poemas del tamaño de una naranja” (1979), “Música de fagot y piernas de Victoria” (1979), “Los ojos del pájaro quemado” (1980), “Polvo para morder” (1986), “Sordomuda” (1991), “Zona de Tolerancia” (1998), “Bestias en un hotel de paso” (2001), “Antología personal” (2001), “Poemas” (2002), “Servicios de insomnio” (2005), entre outras.

 

ESPEJITO DE MANO

Mírate bien, hoy eres
una cara de trapo al fondo del aljibe,
un perfil oxidado que ondea bajo el agua.
Te advertí, te lo dije,
el espejo, ese imbécil, compra muebles usados
y trabaja en el rostro con cuchillos sin filo.
Mírate bien, hoy somos
el ladrido del viento, te advertí, te lo dije,
es un sepulturero que cobra como artista.
Seguro ya te olió.
Su corazón helado
vende casas de polvo en los despeñaderos.
Mírate bien, hoy eres
un hospicio, un extraño,
reverso de una imagen que se repite y dice :
uno de los dos está muerto.

 

 

***

 

 

Leandro Calle – Nasceu em Zaraté, Província de Buenos Aires, em 1969. Poeta do elegíaco, desenvolveu até a atualidade uma obra breve, porém dotada de uma grande densidade, uma profundidade que nela cabem tanto as ressonâncias religiosas de seus primeiros poemas como também os matizes sociais e a preocupação metafísica. O poeta está voltado a alcançar a síntese expressiva e, nesse processo, consolidou uma obra muito valiosa com seu último livro, Blasfemo, no qual se intensificam seu apelo a imagens originais e o emprego da ironia como canal de expressão.

 

Obras: “Tatuaje de fauno” (1999), “Una luz desde el río” (2001), “Los Elementos” (2003), “pasar” (2004), “Almas del Boquerón” (2005), “Kindheit” (2006), “Noche extranjera” (2007), “Entonces” (2010) e “Blasfemo” (2013).

 

DESPEDIDA II

Tengo todas las certificaciones necesarias
para realizar el viaje.
Pasaporte al día
visa
traducción al correcto francés
de todos los documentos pertinentes.
La burocracia ha sido un ejercicio de paciencia.
De más está decir
que todo papel
todo sello
todo trámite
tiene un precio a pagar.
Sin embargo
nadie quiso examinar mi corazón
ni sellarlo, ni traducirlo.
Yo tampoco he querido.
Lo voy a pasar
de contrabando.

 

 

***

 

 

César Cantoni – Nasceuem  La Plata, Província de Buenos Aires, em 1951. O dizer poético de Cantoni está munido de um estilo depurado, polido, até chegar a uma espinha dorsal mais íntima e expressiva de cada verso, que lhe é tão característico. O poeta pode aludir e evadir – os dois métodos por excelência da poesia – nos temas abordados, sem necessidade de recorrer aos atrativos vãos de uma ambígua metáfora e nem apelar a um cenário rebuscado de pesquisa. Sua escolha é a palavra mais desnuda, direta, aquela que mantém seu efeito natural.

 

Obras: “Confluencias” (1978), “Los días habitados” (1982), “Linaje humano” (1984), “La experiencia concreta” (1990), “Continuidad de la noche” (1993), “Cuaderno de fin de siglo” (1996), “Triunfo de lo real” (2001), “La salud de los condenados” (2004), “Irlanda” (1998), “Intemperie y otros poemas” (2006), entre outras.

 

LO MÁS DIGNO DE NOSOTROS

Siempre pensé que los huesos, con su destello mineral
de piedra pulida por la lluvia, son lo más digno de nosotros:
sobreviven largamente a la putrefacción indecorosa de la carne
y no tienen la astucia ni la maldad del alma.

 

 

***

 

 

Leopoldo Castilla – Nasceu em Salta, em 1947. A obra de Leopoldo Castilla incrementa a realidade, ao se referir a temas universais por meio de uma linguagem direta, acrescentando significados e descobrindo a polissemia inerente a cada verso, realizada com maestria, que é a marca registrada de seus trabalhos.

 

Obras: “El espejo de fuego” (1968), “La lámpara en la lluvia” (1971), “Generación terrestre” (1974), “Versión de la materia” (1982), “Teorema natural” (1991), “Baniano” (1995), “El árbol de la copla” (1999), “Nunca” (2001), “Antología Poética” (2001), “Libro de Egipto” (2002), “Bambú” (2004), “Línea de Fuga” (2004), “El amanecido” (2005), entre outras.

 

ARRIEROS CHINOS

 

A Héctor Berenguer
Siglos van que no llegan
que la misma polvareda y una misma hora los persigue,
en Laos, camino a Natha,
lejos de este mundo,
desencadenados del jardín mudo de la edad media
y de la voluntad del emperador,
libres por la sierra
arriando rumbo a la antigua China.

Ahí van, el presente inmortal, airado,
en el penacho de plumas
que corona las mulas;
enarbolando un bastón, y en la punta del bastón
un papagayo,
flor carnicera de los resucitados.

Fuera de la historia, pasa la historia,
invicta, viuda, prodigiosa.

 

 

***

 

 

Rodolfo Godino – Nasceu em 1936,em São Francisco, Província de Córdoba. Dotado de um estilo depuradíssimo, o trabalho de Godino oferece uma alta perfeição formal, pontuada por uma sutileza de sentido que deriva de uma profunda reflexão estética.

 

Obras: “El visitante” (1961), “Una posibilidad, un reino” (1964),”La mirada presente” (1972), “Homenajes” (1976), “Gran cerco de sombras” (1982), “A la memoria imparcial” (1995), “Centón” (1997), “Elegías breves” (1999), “Ver a través” (2001), “Estado de reverencia” (2002),”Tríptico” (2003),”Lengua diferente” (2005) e “Diario” (2008), entre outras.

 

DICTADO POR LA MAÑANA

Todo el proceso, incluido el resplandor
siguiendo a la mano adiestrada
-la mente se excluye y trata de apartar
a la razón, de limpiar el camino-,
duró hoy quince minutos.
Ahora cubriré lo aparecido
y esperaré sin instrucciones
el trabar de los huesos,
que hilos carnales los envuelvan.
A veces nace sin ojos, sin pies:
quizás escuché mal o era
demasiado pronto,
demasiado temprano.

 

 

***

 

 

Esteban Moore – Nasceu em Lobos, Província de Buenos Aires, em 1952. Um dos poetas mais originais das últimas gerações, Moore oferta uma visão polifônica, na qual história, sensibilidade, estética e referência literária se conjugam para contemplar um trabalho formal de ampla ressonância no leitor.

 

Obras: “La noche en llamas” (1982), “Providencia terrenal” (1983), “Con Bogey en Casablanca” (1987), “Poemas 1982-1987” (1988), “Tiempos que van” (1994), “Instantáneas de fin de siglo” (1999), “Partes Mínimas” (1999), “Partes Mínimas y otros poemas” (2003), “Antología poética” (2004), entre outras.

 

“IN THE MAIN OF LIGHT” 8

 

en un escenario dispuesto por la luz/ -las rocas extienden
en sombras alargadas su inmensa redondez/ -en el aire al
zumbido en vuelo de los insectos/ -el escape de un motor
señala con el agobiado paladeo de furiosas erres flotantes
dilatadas en una nube ácida de combustible quemado/ -el
ritmo de la sierra mecánica/ la tala de  los árboles

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Alejandro Schmidt – Nasceu em Villa María, Província de Córdoba, em 1955. Sua obra é uma das mais extensas e interessantes da Argentina, assim como uma das mais complexas e relevantes das últimas gerações. A poética de Schmidt é uma poética da insatisfação, algo que o leva a se aprofundar e buscar sempre uma superação do quer foi feito antes, como se nunca fosse o bastante percorrer os territórios indizíveis da poesia.  Sua obra poética é uma das mais prolíficas do país.

 

Obras: “Clave menor” (1983), “Serie Americana” (1988), “Dormida, muerta o hechizada” (1993), “El diablo entre las rosas” (1996), “En un puño oscuro” (1998), “El patronato” (2000), “Silencio al fondo” (2000), “Esquina del universo” (2001), “Oscuras ramas” (2003), “La vida milagrosa” (2005), “Nace tu lámpara” (2012), “Mi metafísica” (2012), “Romper la vida – Antología Existencial” (2013), “La impropiedad” (2013), entre outras.

 

ESTA LLUVIA

 

deja que pase lejos
y en tus ojos
como un aire total
la rosa del agua
así sabré que
la lluvia
atravesó tu casa

árboles de la poesía
calles de la poesía

un día estuvo la lluvia entre nosotros.

 

 

***

 

 

Santiago Sylvester – Nasceu na Província de Salta, em 1942. Sua poesia é eminentemente uma poesia de ideias, conceitual, o que não compromete a grandeza lírica alcançada pelo poeta no refinamento de suas obras. Autor temático, explora profundamente os núcleos de significado que aborda em seus trabalhos, com uma relevante depuração expressiva.

 

Obras: “En Estos días” (1963), “El aire y su camino” (1966), “Esa frágil corona” (1971), “Palabra intencional” (1974), “La realidad provisoria” (1977), “Libro de viaje” (1982), “Perro de laboratorio” (1986 e 2008), “Entreacto” (1990), “Escenarios” (1993), “Café Bretaña” (1994),  “Antología poética” (1996), “Número impar” (1998), “El punto más lejano” (1999), “Calles” (2004), “El reloj biológico” (2007), entre outras.

 

(…)

EN esta esquina se habla solo: solo
y a gritos como
si hablar fuera otra cosa: y lo es.
Lo difícil
es darle sentido a todo esto: aquí
no se habla de otra cosa.
Un chico
todavía pulcro, con acento del norte, me pregunta si el barrio
está cerca: simplemente el barrio, sin saber a dónde va
con su helado en la mano: recién llegado
a esta esquina en la que se habla solo: y
es fácil adivinarle el futuro: el futuro no existe, pero
lo va exhibiendo su cara indefensa, su pregunta abstracta.
No existe
pero es fácil: lo difícil
es saber dónde está el barrio
y que tenga sentido hablar en esta esquina.

(Königsberg)

 

 

***

 

 

Alberto Szpunberg – Nasceu em 1940, em Buenos Aires. Dono de um estilo coloquial, Szpunberg aborda as vertentes sociais de sua obra a partir de uma perspectiva humanista, munindo seu discurso de uma avassaladora energia expressiva. É um dos poetas fundamentais da geração dos anos 60.

 

Obras: “Poemas de la mano mayor” (1962), “Juego limpio” (1963), “El che amor” (1965), “Su fuego en la tibieza” (1983), “Apuntes” (1986), “Luces que a lo lejos” (1993), “La encendida calma” (2002), “Notas al pie de nada ni de nadie” (2007), “El libro de Judith” (2008), “La academia de Piatock” (2010), “Traslados” (2012), “Como sólo la muerte es pasajera” (2013).

 

III

 

Todas las mañanas tomás mate en la cocina de tu casa,
pero desde hace unos días encendés el fuego, tu pequeño fuego, en medio del mar.
Donde sea, las gaviotas chillan como si el ancla temblara en el barro más profundo.
A lo mejor hoy es el día, nunca se sabe, pero llueve como si lo fuera.

 

 

***

 

 

Susana Szwarc – Nasceu em Quitilipi, Província del Chaco, em 1954. Dotada de uma linguagem despojada – graças a um intenso trabalho que lhe permitiu dominar os aspectos da alusão e elusão – a breve, porém substancial, obra de Szwarc se destaca entre as melhores produções do gênero na Argentina.

 

Obras:  “En lo separado” (1988), “Bailen las estepas” (1999), “Bárbara dice” (2004), entre outras.

 

SITUACIONES

 

En otro continente
nos sueño proletarios.
Me invitás (antes de que amanezca).

—No: el cansancio.
—Sí: el deseo.

Flaquea la fuerza de trabajo.
Nos dormimos
disueltos.

 

 

***

 

 

Fernando Toledo – Nascido na Província de Mendoza, em 1974, Toledo emprega uma linguagem falsamente simples para expor um desenvolvimento de sentidos que irá se multiplicar até o verso final, desenhando um atroz e fascinante universo, sua própria versão da condição humana.

 

Obras: “Hotel Alejamiento” (1998), “Diapasón” (2002), “Secuencia del caos” (2006), “Viajero inmóvil” (2009) e “Mortal en la noche” (2013).

 

PERO AVANZO

 

La diferencia entre lo que no sé
Y lo que aúlla detrás de la puerta
O se cuela en la entreabierta pregunta
Que la luz formula está en la palabra
Así el silencio se viste de un cuerpo
Que no consigo abrazar Nadie espera
Y los papeles raspan su vacío
Según las reglas que impone la noche
Pero avanzo Quizás para perderme
O porque quedan resquicios de blanco
Y yo necesito encender un fuego
Para el invierno de estas viejas letras
Quizá para dejar que todo huya
Y un verso destruya lo que he callado.

 

 

***

 

 

Rubén Valle – Nasceu na Próvíncia de Mendoza, em 1966. A poesia de Valle possui uma naturalidade que esconde o minucioso trabalho de lapidação que o fez alcançar tal linguagem, o qual surge fluido e rico de sentidos, com uma marcante capacidade de comunicação.  Para o leitor, fica fácil elaborar uma tradução dos códigos e imagens de Valle de modo pessoal.

 

Obras:  “Museo flúo” (1996), “Los peligros del agua bendita” (1999), “Jirafas sostienen el cielo” (2003), “Placebos” (2004), “Tupé” (2010).

 

ÚLTIMOS AUXILIOS

 

Caíste
Te fusiló el pincel
de Goya
Sangraste por la herida
                 del ojo ajeno
mientras adentro
te crecían alas
Alas como las del sueño
Ahora que sos una silla rota
sobre tu mesa hay un libro
que respira que late

Tu sangre lo está
escribiendo

 

 

***

 

 

Paulina Vinderman – Nasceu em Buenos Aires, em 1944. Vinderman é uma das maiores poetas argentinas graças ao seu magistral manejo da língua e sua reconhecida capacidade de percorrer os recantos da condição humana com imagens definidas e diretas.

 

Obras: “Los espejos y los puentes” (1978), “La otra ciudad” (1980), “La mirada de los héroes” (1982), “La balada de Cordelia” (1984), “Rojo junio” (1984), “Escalera de incendio” (1984), “Bulgaria” (1998), “El muelle” (2003), “Cónsul honoraria, antología poética” (2003), “Transparencias” (2005), entre outras.

 

 EL PASADO ES UN PAÍS EXTRANJERO…

 

El pasado es un país extranjero, donde no sé nombrar
mi desajuste con el mundo ni los árboles frondosos
de las riberas de los ríos secretos (secretos-ríos),
que corren hacia la eternidad llamada mar.

No, no hablaré del porvenir: es un cuarto oscuro
donde sólo puedo votar por la muerte. Sus afiches
son bellos, pero irritantes de tan verosímiles.

“¿Y el presente?”

Ah, María, el presente es una piedra azul, opaca, libre,
cubierta de polvo, que me recuerda al poema
balbuceado anoche en mi libreta, que deshilaché después,
sin fiebre y sin
compasión

Luis Benítez nasceu em Buenos Aires (1956). Recebeu numerosos reconhecimentos nacionais e internacionais por sua obra poética e narrativa. Seus 36 livros de poesia, ensaio, novela e teatro foram publicados na Argentina, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, México, Romênia, Suécia, Venezuela e Uruguai. Seus últimos livros publicados foram: “Les Imaginations” (Éditions L’Harmattan, Paris, 2013), “Short Poetic Anthology” (Ed. Littoral Press, Inglaterra, 2013), Manhattan Song. Cinci Poeme Occdidentale” (Ed. Ars Longa Editura, Romênia, 2013), entre outros.

 

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76ª Leva - 02/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Fernando Sorrentino

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

 

A lagoa de Cubelli*

 

É a sudoeste da planície de Buenos Aires que se situa a lagoa de Cubelli, familiarmente conhecida como “Laguna do Jacaré Bailarino”. Este nome popular é expressivo e interessante, mas – assim como o dr. Ludwig Boitus demonstrou – não corresponde à realidade.

Em primeiro lugar, “lagoa” e “laguna” são acidentes geográficos distintos. Em segundo, se bem que o jacaré caimã – Caiman yacare (Daudin), da família Alligatoridae – seja próprio da América, acontece que essa lagoa não é, efetivamente, o habitat de nenhuma espécie de jacaré.

Suas águas são extremamente salobras, e tanto sua fauna quanto a flora são típicas daquelas que se desenvolvem no mar, razão pela qual não se pode considerar anormal o fato de que essa lagoa conte com uma população de cerca de 130 crocodilos marinhos.

O “crocodilo marinho” ou Crocodilus porosus (Schneider) é o maior de todos os répteis vivos. Pode chegar a 7 metros de comprimento e pesar mais de uma tonelada. O dr. Boitus afirma ter visto, nas costas da Malásia, vários exemplares que superavam os 9 metros e, com efeito, ele tirou fotografias e trouxe-as com o objetivo de provar a existência de animais desta magnitude. Como eles foram, no entanto, fotografados em águas marinhas e sem pontos externos de referência, tornou-se impossível determinar com precisão se os crocodilos em questão tinham realmente a dimensão que lhes atribui o dr. Boitus. Seria um absurdo, naturalmente, duvidar da palavra de um pesquisador tão criterioso e com tão brilhante trajetória (apesar da linguagem um pouco barroca), mas o rigor científico exige a validação dos fatos segundo métodos inflexíveis, que, nesse caso específico, não foram colocados em prática.

Assim, acontece que os crocodilos da lagoa de Cubelli possuem exatamente todas as características taxonômicas dos que vivem nas águas perto da Índia, da China e da Malásia, razão pela qual, com toda a legitimidade, lhes caberia o taxativo nome de crocodilos marinhos ou Crocodili porosi. Eles apresentam, entretanto, algumas diferenças, que o dr. Boitus dividiu em características morfológicas e características etológicas.

Entre as primeiras, a mais importante (ou, melhor dizendo, a única) é o tamanho. Assim como o crocodilo marinho da Ásia alcança os 7 metros de comprimento, a espécie que encontramos na lagoa de Cubelli apenas atinge, no melhor dos casos, os 2 metros, medindo-se do começo da bocarra até a ponta do rabo.

Com respeito a sua etologia, este tipo de crocodilo, segundo Boitus, “tem uma queda pelos movimentos musicalmente harmônicos” (ou, mais simplesmente, é um “bailarino”, como é chamado pela gente do povoado de Cubelli). É sabido que os crocodilos, quando estão em terra, são tão inofensivos quanto um bando de pombas. Eles só podem caçar e matar dentro da água, que é o seu elemento vital. Apertando a presa entre as mandíbulas cheias de dentes e imprimindo a si mesmos um rápido movimento de rotação, fazem com que essa gire até a morte. Seus dentes não têm uma função mastigatória, são desenhados unicamente para aprisionar a vítima, que engolem inteira.

Se formos até as margens da lagoa de Cubelli e colocarmos em funcionamento um aparelho que toque música, de preferência a escolha recaindo sobre temas dançantes, adequados a um baile, em seguida veremos que – não digamos todos – quase todos os crocodilos sairão da água e, uma vez em terra, começarão a dançar ao compasso da melodia em questão.

Por essas razões anatômicas e comportamentais, esse sáurio recebeu o nome de Crocodilus pusillus saltator (Boitus).

Seus gostos são amplos e ecléticos, e não parecem distinguir entre músicas esteticamente valiosas e outras de méritos escassos. Recebem com igual alegria e boa disposição tanto as composições sinfônicas para balé quanto os ritmos vulgares.

Os crocodilos dançam de pé, apoiando-se apenas nas patas traseiras, de maneira que, verticalmente, atingem uma estatura média de um 1,70 centímetros. Para não arrastar o rabo pelo chão, eles o elevam a um ângulo reto, colocando-o quase paralelo ao corpo. Enquanto isso, as extremidades dianteiras (que bem poderíamos chamar de mãos) seguem o compasso com toda uma série de gestos simpáticos, e seus dentes amarelados mostram um enorme sorriso de otimismo e satisfação.

A algumas pessoas do povoado não atrai absolutamente a ideia de dançar com os crocodilos, mas muitas outras não compartilham dessa rejeição e o certo é que, todos os sábados, ao entardecer, essas últimas se vestem com suas melhores roupas e vão para as margens da lagoa. Nelas, o clube social e esportivo de Cubelli instalou tudo que é necessário para tornar inesquecíveis as reuniões. Os visitantes podem até mesmo jantar em um restaurante que se localiza a poucos metros da pista de dança.

Os braços de um crocodilo são curtos e não alcançam o corpo do parceiro ou parceira. Os cavalheiros e as damas que dançam, segundo o caso, com o crocodilo fêmea ou macho que o escolheu, apoia cada uma de suas mãos em um dos ombros do outro. Para realizar essa operação, convém esticar os braços ao máximo e manter uma certa distância. Como os crocodilos têm um focinho muito pronunciado, a pessoa que dança com eles deve ter a precaução de jogar o corpo para trás, mantendo-se o mais longe possível (se bem que pouco se tem notícia de episódios desagradáveis, tais como extirpação de nariz, esmagamento de globo ocular ou decapitação). E também não se deve esquecer de que, como entre os seus dentes podem ser encontrados restos de cadáveres, seu hálito deixa muito a desejar.

Entre os cubelianos corre uma lenda que diz que na pequena ilha situada no meio da lagoa moram o rei e a rainha dos crocodilos, de onde, segundo parece, eles jamais saíram. Comenta-se que esses exemplares já ultrapassaram os 2 séculos de vida e, talvez por causa da idade avançada, ou mesmo por mero capricho, jamais desejaram participar dos bailes promovidos pelo clube.

As reuniões não costumam passar da meia noite, porque, nessa hora, os crocodilos começam a ficar cansados e talvez mesmo a se aborrecer. Além do mais, é a hora da fome e, posto que o acesso ao restaurante lhes é vedado, devem voltar para a água em busca de comida.

Quando chega o momento em que não resta mais nenhum crocodilo em terra firme, as damas e cavalheiros retornam ao vilarejo bastante cansados, e um pouco tristes, mas com a esperança de que, quem sabe no próximo baile, ou em outro dia qualquer, mesmo que distante, o rei ou a rainha dos crocodilos, ou talvez mesmo ambos, simultaneamente, abandonem por algumas horas a ilhota central e participem da festa. É com essa expectativa que cada cavalheiro, ainda que não o demonstre, guarda a ilusão de que será escolhido como parceiro de dança da rainha dos crocodilos. O mesmo acontece com as damas, que sonham ser o par do rei.

* Tradução: Regina Drummond (regina-drummond@uol.com.br)

(Fernando Sorrentino nasceu em Buenos Aires. É professor de Língua e Literatura e tem publicados livros de contos, novelas, infanto-juvenis, ensaios e antologias. Colaborou com jornais e revistas diversos e atuou como tradutor de livros de ficção e entrevistas)

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Medianeras (Medianeras – Buenos Aires en la era del Amor Virtual). Argentina/Espanha/Alemanha. 2011.

 

“A Internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”.

Como não soar clichê num drama romântico em tempos de arrobas? Pergunte a Gustavo Taretto. Escrita e dirigida por este argentino estreante em longas-metragens, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, é o desdobramento de um curta idealizado pelo cineasta em 2005. Apesar do subtítulo provinciano e desnecessário, o filme é de uma universalidade singular. A temática não é o sentido do amor em si e tampouco o revés tecnológico, mas a solidão paralisante de jovens adultos que julgam já ter provado sua cota de desencontros e de ‘para sempre’ via chat ou sms. A mesma geração de amores delivery, velozes e ambulantes, que discam M para matar a fome de amar, vegetam aqui no jejum da sozinhez.

Martin (Javier Drolas) é um metódico e recluso web-designer, aficionado por games e compras virtuais. Sua verdadeira ligação com a vida real é Susú, cachorrinha herdada do relacionamento com a ex-namorada americana que voltou para sua pátria mãe. Mariana (Pilar López de Ayala) é uma arquiteta com fobia de elevadores. Ganha a vida como vitrinista, talvez por identificar-se com o silêncio e inércia dos manequins que produz, sobretudo desde que rompeu uma relação de quatro anos. Martin e Mariana moram na mesma rua, mas sequer se conhecem. Estão separados por suas respectivas medianeras, aquela parede lateral cega do edifício, inútil, destinada à publicidade ou que fica simplesmente esquecida, ‘como a sujeira que escondemos embaixo do tapete’.

O roteiro é altamente sagaz, humano e divertido e atinge seu ápice nas reflexões dos protagonistas sobre os relacionamentos e a vida. Momentos como quando Martin culpa a arquitetura por todos os seus infortúnios, compara um encontro a um lanche do Mc Donald’s ou faz uma análise nerd da atualidade (há algo mais desolador no século XXI que não ter nenhum e-mail na caixa de entrada?); e quando Mariana afirma que a busca de um amor é mais complexa que encontrar Wally, o enigmático personagem de camiseta listrada do ilustrador Martin Handford (‘se, mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo achar, como vou achar quem eu procuro se nem sei como é?’).

Tal qual seu hermano O Homem ao Lado (2009), a arquitetura aparece como um terceiro protagonista e elemento fundamental para a trama. Ambos os filmes exploram a diversidade arquitetônica de Buenos Aires para justificar todos nossos males, sejam eles sociais ou pessoais, as irregularidades estéticas e éticas da cidade e do ser humano. E estas pequenas aberturas feitas nas medianeras em busca de “un poquito del sol”, mais que fendas solares ou frestas de ventilação, servem como consolo – ainda que provisório – a nossa própria falta de planejamento emocional. E na prática portenha, em casos mais graves, motivo de disputas judiciais. Afinal, ‘o que se pode esperar de uma cidade que dá as costas para o seu rio?’, critica Martin em determinado ponto.

Reais ou virtuais, o fato é que as ventanas sempre serviram para nos aproximar de algo, seja dos boatos cotidianos do quarteirão, do universo paralelo de Bill Gates ou do chat mais próximo. E cá da janela, eu me pergunto: onde está mesmo Wally?

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)