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88ª Leva - 02/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Ozias Filho

 

Caminhar com o tempo, e não ao largo dele. Sentir o vento investir em nossos rostos suas rajadas sem rumo. Entender tudo o que nos cerca com um sentimento de dinamismo e alguma ponta de mistério. Entre passados inalteráveis e futuros projetados, melhor ficarmos com o que agora explode diante de nossos olhos vacilantes. Fora do presente, tudo são instantes em suspensão, emoldurados no coágulo de eras internas. O tempo que nos rege é inquilino assaz de nossos silêncios, um sorrateiro habitante das entranhas que nos são caras e indomáveis. O novo, falseando a mutabilidade das coisas, usa máscaras para sair às ruas. Acaso existirá o ainda não-dito? Sempre fomos os mesmos por mais sedutoras que possam parecer as transformações mundanas? Perguntar ou responder mais? E quanto ao exercício das escutas, o que fazer? Ao passo que nos achamos pretensamente munidos de certezas, percebemos o quão frágil é nossa espinha dorsal. Subliminarmente e em doses terapêuticas, vamos provando o gosto indefinido de tudo aquilo que não temos domínio aparente. Será o invisível que nos impele? Ante tamanhas indagações, é preferível viver em suspensão, supondo ritmos próprios e não profetizando auroras. Assim, testemunhando o curso imprevisível da existência, compartilhamos da mesma substância que impregna a arte do fotógrafo Ozias Filho, cujas imagens curvam-se diante do ritual indomável das horas. Nessa mesma trajetória de mistérios, as janelas poéticas de Tadeu Renato, Ana Peluso, Caco Pontes e Vagner Muniz convergem em densidade. Revivendo uma porção fundamental do legado do cineasta Eduardo Coutinho, a jornalista Claudia Rangel fala sobre o documentário Jogo de Cena. Numa aproximação com a ótica de Jorge Luis Borges, o escritor Anderson Fonseca caminha filosoficamente pelas complexas apreensões do nome de Deus. A entrevista com a escritora Ana Peluso traça painéis em torno do intricado mundo das palavras. Cenários difusos de vida compõem as estruturas narrativas dos contos de Isabela Penov, Alberto Pucheu e Sérgio Tavares. O poeta Gustavo Felicíssimo discorre sobre a crônica em consonância com a obra de José Saramago. Os olhos apaixonadamente cinéfilos de Larissa Mendes voltam suas atenções para a odisseia familiar do longa Nebraska. Somos todos ouvidos ao mais novo álbum da banda mineira Graveola e o Lixo Polifônico. Assim, o contar do tempo nos fala de 88 Levas vividas. E, a cada edição que surge, permanece a sensação de que olhamos tudo como se fosse a primeira vez. Que você, caro leitor, também possa desfrutar de tal perspectiva!

 

Os Leveiros

 

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética II

Caco Pontes

 

Foto: Ozias Filho

 

Clarividência virtual

 

lê-se tarot pelo skype
baixa entidade via download
..cura vírus na força do pensamento
trazacurtidapostadaemsetesegundos
faz amarração no perfil da celebridade
….(de qualquer lugar do mundo)

 

 

***

 

 

se é sina
elucubrar
a sintaxe
é o máximo
que´se possa´
alcançar

(desafiando a gramática
uma vez necessário)

 

 

***

 

 

De repente
notou
a pintura
que seria
o céu
não fossem
tantos
pensamentos

 

 

***

 

 

ascender às alturas
e vez por outra
visitar os grotões

 

 

***

 

 

Para que tanta polícia, meu Deus, pergunta minha alma.
Porém meu juízo
não pergunta nada.

 

 

***

 

 

amor
não dá
assim
sem
com
paixão

 

 

***

 

 

romance pós-moderno
(ou amandhum vitae)

pra se envolver
nos tempos atuaes
é tudo uma questão
de gênero

antes trans
do que poli
saturados

 

 

***

 

 

oceanos de distância
pelas diferenças
– trocando torpedos
no mesmo ambiente –
teleguiados carregados
em mensagens
de texto

 

 

***

 

 

Não precisa fiador

poesia
é o aluguel da vida

e quando tiver cansado
da especulação imobiliária

basta se tornar proprietário
de uma obra
literária

 

 

***

 

 

o maior inimigo
mora do lado
(de dentro)

 

Caco Pontes é poeta e multiartista. Integrante do Coletivo Poesia Maloqueirista, autor de diversos livretos artesanais e dos livros “O incrível acordo entre o silêncio & o alter ego” e “Sensacionalíssimo”, além de ter textos traduzidos para espanhol e catalão. Recentemente fez curadoria e mediação do evento de abertura da Mostra Tuiteratura, no Sesc Santo Amaro, e do ciclo Epivanias. Pesquisa a palavra nas performances oral, corporal, visual, sonora e musical.