Para Priscila Faccini, viragem do meu ponto sem volta
[…]
é muito diferente de cadeiras, não, o sofá é a expressão, a encarnação mesma da solidão, no sofá, deitada sob sua superfície sendo eu mesma o sofá, o que eu posso ser, o que eu posso fazer, eu me concentro, eu me concentro no ponto fixo da parede e deixo que a ausência tome conta de mim como se eu fosse eu mesma um tipo muito particular de necrotério de mim mesma, uma cidade subterrânea de tudo aquilo que não fui e não chegarei a ser. E ali, bem ali no sofá, nesse lugar, nessa terra, nesse plano, nessa superfície de que é feita para o pensar e do pensar, o que eu podia fazer, o que eu podia verdadeiramente fazer? Eu podia me perder, me perder um instante, me desmanchar um tantinho que fosse, eu podia seguir ali deitada e continuar deitada, fazer parte da atmosfera, me condensar no pequeno vento que vinha da fresta de uma janela aberta num dos lugares da casa, essa casa, essa mesma casa, a casa de todos os dias, a casa que antes não tinha asfalto mas agora tem, uma casa asfaltada há muito tempo
[…]
mas deitada no sofá, olhando esse ponto fixo, talvez uma mosca, talvez um qualquer coisa, talvez eu mesma, olhando esse ponto, me permanecendo nele, dançando ao redor dele, gritando em rituais da qual sou a única inventora na separação dele como parte dele mesmo, o que vem, o que vem de um lugar que eu não sei mas que existe em mim, vem um tipo de instinto, um tipo de cheiro, um tipo de radar performático que me faz perceber e notar o que eu sou sem ter de fato sido mas ainda por restar, mas quando estou sendo isso me dói, isso me dói sobremaneira nas articulações
[…]
isso me dói também no próprio estase de me encontrar completamente extática sobre o sofá, o sofá me dói um pouco, posso dizer que o sofá também me dói um pouco, posso dizer assim e só, no entanto, há um problema, há um problema maior que me demanda no sofá, pois o sofá é o lugar em que eu posso não estar, em que eu posso escapar, num pequeno buraco da parede, para o lado de lá do real, plainando num vaporoso continente de espera em vias de balbuciar um algo ainda
[…]
mas confesso, a simplicidade da cadeira me faz navegar no naufrágio de não saber me manter sentada, só deitada, amarrada ao mastro o canto da sereia me fascina de morbidez adolescente, por isso serei sempre a criança perdida no mercado sem mão que lhe conduza os sentidos, uma tautológica menina numa extensa sessão de enlatados, circulando entre gôndolas num repetitivo pendular desde o medo sufocante, perdi muito, perdi o que não deveria ter perdido, o que não poderia, perdi o fundamento do perder, mas algo se passa sem que eu saiba, um anonimato de rosto escondido, um deixar-se descer até ao fundo sem roteiro de mapa no retorno, como um mergulhador das superfícies estriadas, um rasgo no tecido do lembrar, uma farpa de memória a sustentar meu imenso edifício de lamentos, tenho vocação para carpideira, conheço a marcenaria da lágrima desde o abaulado da gota, esculpo as paredes do choro no burilar que me faz faiscar, como um enxame de vaga-lumes noturnos, o cobre da minha desesperança
[…]
mas há um algo, há aquilo que se passa e que chamo de dor porque a criatividade de nominalista sempre me fez tamanha falta, denomino dor o momento exato em que ela se interrompe, o clima de alívio é sintetizado nesse hesitar cinzento de que logo volte, de que logo as ruínas se ergam nos confins de um pouco de lama presa na sola, de que minha banalidade não atravesse o odor de café no insólito da manhã vindoura, aí eu me preocupo, me inicio na escuta do que em mim há de estanque, o que há de destituído em ídolos a não ser no vazio do templo, sou a barragem de mim mesma, o empecilho sem caminho sedimentado, a imobilidade na pedagogia das pedras
Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética Contemporânea, Teoria Literária e História da Arte.
Para Marceli Andressa Becker– minha terna “Beck”, neta da filha que não tive.
Do beiral a menina se escora na janela do décimo primeiro andar, amanhecidas desde a madrugada as pernas, dobradas sobre joelhos de sereia, como a escultura de proa num navio vertical em concreto armado, hora ou outra a ouvir nas barbatanas o trinar do elevador, chegando e saindo do andar, submergindo nas escotilhas opacas, acima, abaixo, apreende lições sonoras de mergulho.
Não nasce o dia sem uma lasca de falta trágica.
Lançar-se desde o alto ao lago de asfalto morno, desde a respiração refez incontáveis vezes o salto aquático, fecha os olhos feito Tirésias e vê-se com braços e pernas de nadadora experiente perfurando a atmosfera. Um mínimo oráculo do destino estatístico, daria no jornal numa das páginas subalternas, talvez nem nelas, em algum site lado B desses que trabalhara na época do namoro com Roberto.
Vem serpentino, de um dos tantos e tantos apartamentos sem face, aquele gesto de café recém-feito lhe acolhendo pelo olfato, como o pai quando chegava do serviço lhe dando um pequenino piparote na ponta da narina.
Não é bem o café café, esse café, é outro café, outro odor do fundo recordado, ternura feita em novelo de lã, ternura de sopro cálido sob as costas da orelha amante, ternura na espuma da quietude magra. Escondida sob indiferença urbana, como seu par de meias lilás embaixo da coberta cinza, o lírico que lhe apalpa as miúdas pestanas pisca sorrisos de querer vez outra ainda hoje.
Silvia Szymanowisky, 13 de março de 2010
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Tratado sobre a velhice
Dos últimos anos para cá fiquei obcecada por imaginar aterros. É velhice, sei disso e não precisa avisar.
Penso naqueles mineiros, não os nascidos em Minas, claro. Homens e mulheres descendo diariamente para colher carvão. É isso que vejo diante de mim.
A velhice é uma doença, menos grave que a da juventude, mas é.
Jamais me chame de idosa, isso não aceito porque estou na idade de não aceitar nem o aceitar. Quando a menina me disse querendo ser caridosa: “mas a senhora não é velha, é idosa”, dei-lhe várias bengaladas na cabeça.
Gastei quase quatro idades daquela garota para que me chame de idosa? E esse ideograma chinês feito por um bêbado igualmente chinês na minha cara? Tente apagar essas rugas todas então, minha filha.
Não, não é isso, inveja por já ter consumido quatro idades, é por olhar a moça e pensar que somos tão parecidas, se tivesse mais quatro idades dessas guardadas na poupança faria o mesmo que fiz, pouco, muito pouco.
Talvez começasse a beber chá antes e mais nada.
Ranzinza? Claro que sou, estou no direito consuetudinário de sê-lo, amargada pelo excesso de chá de tília tomado ao longo de duas décadas!
E os homens e mulheres descendo diariamente nas minas. Logo estarei lá pra baixo sem saber subir.
Preparada para morte? Só os velhos mais idiotas dizem isso, tomando 25 comprimidos diferentes se souberem que no Camboja há uma epidemia de gripe.
Esses velhos preparados, prontos, são os mais histéricos quanto à morte, tanto medo que já levam uma lápide no lugar da cara.
Que os jovens são idiotas, todos, sem exceção, é sabido, mas dizer que velhos são sábios, oráculos que acumularam experiência, isso sim é idiotice das brabas.
Não tenho gatos, não sou nenhuma velha clássica de filme ruim. Tenho plantas porque são mudas no meu idioma, ainda bem, a presença de algo humano me dá urticárias.
Ora, para quem escrevo então? Escrevo para as paredes, e um pouco para que as dores de minhas juntas fiquem quietas lendo.
Aterros, minas de carvão, bueiros e buracos.
Medo da morte? Não tenho. Meu medo é que lá, sabe-se onde, não tenha chá.
E comecei há anos a aprender o silêncio, assim, quando não voltar de lá, ao menos irei sabendo a língua deles.
Clara de Almeida Corbin , 05 de setembro de 2003
Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética, História da Arte e Teoria da Imagem. Nas horas vagas, passa seu tempo esculpindo ausências.
Silvia Szymanowisky nasceu em Frutal do Campo, num verão qualquer, perdido amarelado do céu sob terra roxa de viço. Tem 67 anos de idade e reside na capital paulista, desde sua viuvez, há 22 anos. Este é seu primeiro texto publicado.
Clara de Almeida Corbin nasceu numa cidade feia, feia mesmo, de dar dó, quase mais feia que enfeite de natal feito em plástico reciclado: Primeiro de Maio. Professora de filosofia aposentada que não conta a própria idade tem uns anos. Sabe fazer chá e gosta de ser velha porque a juventude é tonta – não há exceções, é um fato ontológico, diriam os filósofos, igualmente tontos.
6h07 e o calor da manhã sorri irônico da tarde que virá tostada numa frigideira de asfalto.
Essa completa ausência de brisa fotografa o que poderia ser um álbum familiar da década de 30, pai sentado, mãe empertigada com a mão sobre o ombro do patriarca, três filhos em pé ao redor aguardando nervosos o estrondo e o cheiro de pólvora da câmera primitiva que lascará uma parte de suas almas infantis, exatamente como confidenciou o tio Sérgio entre sussurros no almoço passado, quando soube do retrato parental.
ental.
6h22, daqui três minutos o Sr. Maurício do pet-shop destrancará a porta da frente e sairá para comprar o pão matinal.
Não, ele não se atrasa, é neurótico como eu, o hábito funciona, é a batida sintomática de uma estaca, a parte final do longa metragem em que o casal acaba junto, mas se separam assim que termina os 96 minutos de filme, tenho certeza.
6h26, é provável que o Sr. Maurício do pet-shop tenha tido um enfarte enquanto descia as escadas, talvez esteja agora mesmo agonizando numa tentativa ridícula de chamar a esposa que só acorda às 10h04 por conta dos 6 mg de rivotril.
Posso ver daqui aquela mão estufada, dedos cilíndricos usando os últimos minutos de uma medíocre existência para abrir a maçaneta do portão da garagem e o suor faz deslizar, deslizar, e os nervos frágeis não permitem que a mão feche, segure, mantenha.
Quem sabe não está arrependido, “por que não cortei a gordura da picanha?” “por que a cerveja todo dia e não só nos finais de semana?” “arroz na banha de porco”.
Foi tarde, é sempre tarde para soltar a mordaça do cotidiano, gritar o próprio nome não escolhido nunca.
6h40 e é o tédio.
Não, Baudelaire e seus párias não sabem o que é o tédio, só conheceram a melancolia. O tédio foi anunciado no XIX, mas demorou 153 anos para ser parido.
A maioria é preguiçosa e só.
Nem melancólica, nem entediada.
Tédio? É preguiça fermentada, envelhecida em barril de carvalho, ausência de ausências, o verdadeiro contentamento imóvel, homens
6h45, olha lá, é o Sr. Maurício do pet-shop, atrasado para o pão matinal. Hoje o dia começou incomum, fora de esquadro.
Esse tom sépia da tua pele não engana, são os ventrículos pedindo ajuda, a icterícia do fígado estampada no andar desritmado.
feito pedras por debaixo de lagos pausados.
7h00, não foi hoje, mas tudo bem.
Eu aguardo.
Caio Russo é escritor, melômano, estranho como as imagens num desenho de Alfred Kubin. Autor dos livros “Delicado desespero de beija-flor em voo” (Chiado, 2015), “Vaga queda” (Benfazeja, 2016).
O livro Vaga queda de Caio Russo se apresenta como uma fusão de gêneros. O próprio subtítulo: peça para piano de afogados op.27 sugere um objeto musical, o que de certa forma é o gênero que mais se adequa ao texto, já que a sonoridade e o ritmo são os pontos mais altos do livro. Como poderíamos classificá-lo? Um romance? Um poema? Uma epopeia? Uma prosa poética? Não cheguei a uma conclusão precisa e definitiva, me parece um romance que suga a estrutura, o imagético e a linguagem do poema, porém sem desprezar a essencialidade do prosaico. Por trás da melodia, existe uma grande narrativa, encontramos pequenos tratados sobre morte, vida, loucura, tempo e identidade.
O texto flui tanto no ritmo quanto na estrutura como um corpo líquido. Caio inventa durante o percurso uma originalíssima partitura e uma nova coreografia. De repente, percebemos uma leveza trágica na duplicidade dos loucos e na dureza dos manicômios: “o hospício de mim era um xadrez sem peças, tabuleiro ou parceiro a arquitetura de um labirinto sem paredes”.
O livro também discute a questão de gênero: José Laura ou Laura José? Em um mundo em que homens e mulheres estão constantemente em cabo de guerra, nada mais pertinente que essa con-fusão de identidades. Aqui, o que mais importa são a estranheza e o estrangeirismo que habita todo corpo consciente do absurdo da natureza humana independente do seu sexo: “a escuridão tamanha que não divisava paredes, eu era o único muro intangível entre Eu, e o quarto, e Eu…”.
Outro questionamento importante é sobre a arquitetura da escrita, sobre as picuinhas literárias, sobre as nomenclaturas que camuflam a verdade do texto: “pensei que podia escrever um livro/autobiográfico/autoficção que é moda pelo que sei/eu e Francis e podia matar alguém e colocar/mais um personagem escritor e parecia vaga…”.
Vaga queda: peça para piano de afogados op. 27 é um texto imprescindível para os homens que apreciam uma sinfonia do holocausto.
Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.
E chegamos a 10 anos de publicações. Com 111 edições lançadas, a Diversos Afins está, no formato e conteúdo, já um tanto distante do seu embrião. Em 2006, quando vinha a público a primeira leva, a revista ainda apresentava uma estrutura incipiente, bastante artesanal. Por certo, não se imaginava tamanha longevidade, apenas existia uma investida puramente romântica bem digna de ímpetos iniciais. De lá para cá, não somente o tempo transcorreu assinalando percursos numéricos, mas serviu de impulso para inúmeras possibilidades de aprendizado e experimentação. O propósito nunca foi o de se portar como um veículo autorreferente, do tipo que vangloria os feitos de seus idealizadores. De fato, nascemos em plena era de efervescência dos blogs, verdadeiros cadernos eletrônicos de onde saíram importantes nomes do cenário literário e artístico em geral. Foi também possível testemunharmos o surgimento de portais e tantas outras revistas ligadas aos temas culturais. Alguns se mantiveram, outros, por razões das mais distintas, ficaram pelo caminho. Hoje, não temos dúvida de que a persistência foi nossa melhor aliada, pois sempre acreditamos que seguir adiante sempre fez sentido. E não foi em vão que escolhemos o lema “desengavetar expressões” para capitanear nossa trajetória até aqui. Sabíamos o que representava ser um veículo de comunicação num momento em que as perspectivas editoriais em relação à literatura, por exemplo, apresentavam um cenário de radicais mudanças. A Internet foi uma mola impulsionadora de todo um processo no qual criadores expuseram seus trabalhos de forma independente. E ter contato com muitas dessas expressões foi fundamental para a consolidação dos caminhos da nossa revista. Fez-se necessário estabelecer critérios próprios de seleção, pautados em aspectos de qualidade que não representavam juízos de valor. O mais importante de se completar 10 anos de jornada pelas vias culturais é certamente a ideia de se agregar pessoas. Perdemos a conta de quantos colaboradores deixaram suas marcas impressas em nossas páginas ao longo de todo esse tempo. Também não saberíamos mensurar o quão valiosa é a atenção dos leitores em relação ao nosso trabalho. Cada autor e artista que por aqui passam, com suas distintas vozes, reforçam o nosso desejo original pela diversidade. E assim vamos seguindo. A leva 111 pretende ser a primeira de uma série de cinco edições especiais que celebrarão nossa primeira década de vida. Para inaugurar o momento, destacamos os versos de poetas como Bruna Mitrano, Wesley Peres, L. Rafael Nolli, Micheliny Verunschk e Geraldo Lavigne. No território da prosa, contos de Márcia Denser, Anderson Fonseca e Maria Camargo Freire (heterônimo de Caio Russo). É Larissa Mendes quem rende escutas ao novo disco do rapper brasileiro Criolo. Sérgio Tavares realiza uma especial entrevista com o escritor Ronaldo Cagiano. As atenções cinéfilas de Guilherme Preger desta vez estão voltadas para “Big Jato”, filme do diretor pernambucano Claudio Assis. A volta do caderno de teatro é marcada pela sensível exposição da dramaturga Yara Camillo sobre a peça “Donantônia”, encenada pelo Núcleo Ás de Paus, do Paraná. São muito contundentes as linhas de Sérgio Tavares quando nos convidam à leitura do livro de estreia de Marcela Dantés. Conferindo um brilho especial a todas as expressões contidas na nossa leva atual, os desenhos de Luma Flôres visitam mundos que correm paralelos na experiência humana. Com imensas felicidade e gratidão, dedicamos a nossos leitores a continuidade dos nossos passos. Boas leituras a todos!
Foi a única vez que amei meu pai por detrás dos acordos sociais, do afeto obrigatório que irradia não do progenitor propriamente dito, mas na perversa escola de costumes sincrônicos que denominamos família por medo de alcunha pior; meu pai foi um bronco, crescido em sítio andava pela cidade nauseado pelo fascínio arredio de animal silvestre, se deixássemos correria em quatro patas por aí, se entocaria em uma viela arisco dos odores em cinza-chumbo espargidos pela rua; enriqueceu na vida de comerciante, mamãe deu-se até ao luxo de tornar-se alcóolatra com whisky, e ele continuou amarfanhado sob o casulo do terno que o repelia simplesmente pela alfaiataria de bom gosto, pinguim no deserto citadino, envergonhava-me dele; era de esquerda, lutava pelas minorias, contra o sentimento elitista que aflorava vez ou outra inopinadamente, mas na formatura lá estava ele, aquele homem que não diferenciava Rembrandt de Tintoretto, em sua tacanha mente esses nomes não soariam apenas estrangeiros, soariam intransponíveis, inaudíveis em comas de sutilezas desconcertantes; nem fingir sabia, mamãe ao menos escondia as origens em seda, em vestidos drapeados de alta-costura, papai comia de colher quando em casa; acordei conturbada por uma ressaca dessas que atravessarão o dia sem pestanejar, havia comemorado na noite anterior minha primeira exposição solo em galeria de arte, a única dissonância noturna era meu pai, pedaço de cerca-viva ali parado entre as telas, ondulando entre as brisas de um “Olá” ou um “Como vai?” em que respondia num farfalhar rupestre verde-oliva, roufenho, na orla entre palavras e ruídos indistintos; sobre a mesa um pequeno bilhete: “Eu te adimiro muito filha, seus desenhos lembram o sítio quando eu era pequeno, o pão da vó, as botas do vô que você não conheceu, eu te adimiro e te amo”, aquele “i” inteiramente inconveniente berrava, no lugar da mudez costumeira havia a interferência de uma tulipa nascida sóbria, lisa, envolta na graciosidade do próprio rubor, um tronco exposto, lisonjeiro, inefável, a xilogravura da face de papai impressa naquele “i” de sobrancelhas arqueadas, elevadas em busca da cabeça calva, na espera de um pingo de choro abscondido, naquele qualquer momento, amei papai.
São Paulo,11 de abril de 2013.
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Tricô
Deito-me no mole solo oco na espera de que o opaco entardecer assopre as brilhantes velas dessa opressora luz diuturna, carregando-as para lá dos meridianos sem nome, nas beiradas de um precipício por se fazer, externo chão agora sóbrio na sisudez supostamente sempiterna, oculta na lisura do planalto a delgada vala tímida, semente de abismo vindouro, também sinto saudades da choupana ao pé da montanha que nunca tive, angustia meu corpo a nostalgia dos lugares que nunca estive, também sofro por paixões, rasgo o verbo em brigas homéricas com namorados, maridos, amantes furtivos que não me conhecem, às vezes basta um bom dia do padeiro para termos três filhos e um deles está de recuperação em matemática e por isso nada de jogos no computador; sou solitária e tenho de consolo os gatos que afago, o enfiar dos dedos nos ternos pêlos, pouso olhar sem pressa nos novelos trançados com poeiras que a brisa da noite trouxe, sou alérgica e por isso meus felinos são fogos-fátuos que eu pinto enquanto me balanço calma na cadeira que ainda terei um dia, de um vime lustroso que fará inveja nos olhos de minhas amigas, ficarão famintas, feéricas para fazer parte da minha família órfã, mas eu só permitirei que elas se sentem na sala ou, no máximo, na cozinha, nunca o quarto, lá meus segredos, as intimidades de minha vida proscrita em santidades exalam dos cantos, por mais que se guarde, alguma perversão de mesmidade corriqueira pode aflorar e flutuar em faces inocentes, depois terei de colher os espantos que elas soltarão espontaneamente, ali pausadas como espantalhos; saio para o jardim adornar com carinhos silenciosos as hortênsias juntinhas em favos de um anil amigável, ainda não tenho o terreno, o solo arado nem a disposição necessária; hoje o café da tarde será em Paris, quem sabe não encontre meu Sartre que tenha usado tampão na infância enredado na própria náusea de seu chá de hibisco morno, não é meu chá favorito, prefiro o de tília que nunca tomei, mas lembro-me de sua infusão levemente embriagante, de seu odor macio que sorvi enquanto lia Proust, não conheço Paris, nem quero; os únicos seres fascinantes que encontrei perambulantes por estradas de terra batida foram os que nasceram quase-abortados, que levam no pescoço a brandura frouxa de quem não sabe para onde olha, saíram espremidos para o mundo, no respirar nota-se que falta um dedo de fôlego, ainda que não tenham problemas respiratórios, queria cruzar com gente assim algum dia; o carteiro tomou-me por confidente, acho que por conta desse ar de anciã púbere, as rugas dobradas umas sob as outras por debaixo de minha pele lisa, adoentada de um rubor saudável, confessou-me que traiu a mulher com o vizinho já idoso que sofria de catarata, achava que ele tinha um espiar charmoso, um jeito elegante de ver todo mundo pela metade, meio invisível como somos mesmo, iceberg de vísceras às escuras, ele contaria se pudesse, mas tem jeito de solteirão, o cachorro dele precisou fazer uma cirurgia às pressas, não sabia que hérnia dava até em bicho, ficou nem quinze segundos, entregou a encomenda e não disse nem “oi”; pouso a caneta cuidadosa na caixinha, essa inimiga que me atormenta, que me torce os tendões e mói um tanto da minha loucura em pigmento escondido, depois de escrever fico um pouco translúcida, fantasmática, mas hoje acabou a tinta e o último caderno eu rasguei ontem, faz frio em Portugal.
Lisboa, 07 de setembro de 1998.
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Estilhaços
Pendulo, desde antes da infância se perder póstuma numa parede de cal seco, pela posse de objetos quebrados, frágeis, seja um relógio sem ponteiros, um alfinete amassado descartado logo pela costureira na prova da próxima cliente, sentia na palma da menina muda que eu era a atmosfera lúcida das coisas falidas, o halo daquelas rebarbas do tecido, aquelas linhas inúteis que não ligariam mais nada, a liberdade do que deixou de cansar-se, o ócio daqueles fios viravam em minha mesa arabescos marroquinos desse lado do Atlântico, uma vez trouxe para casa quatro cacos de copo, a aba de porcelana que fora de uma xícara, dois isqueiros acabados e um gato morto, o que me rendeu várias cintadas e o primeiro berro de “Menina, você é louca” de minha mãe, depois ela descobriu minha coleção de bitucas, tampas, canetas sem tinta, jornais rasgados em que as notícias ou propagandas ficaram ilegíveis (eu tinha critérios), ouvi do quarto “Rogério, é mais sério do que pensávamos, mas deve ter tratamento” num timbre tão indiferente que se pudesse eu teria reunido à minha coleção de destroços; passei a acumular seres imateriais, andava horas pela cidade coletando falas desgastadas, contornos de desvalidos estirados ali na praça da Sé, teve até um olhar fosco de um senhor alto que se sustentava pelo hábito de andar previsivelmente por ruas asfaltadas de certezas num cinza inóspito, outro dia há pouco colhi a elegância no desfilar de uma prostituta em fim de noite, voltava para casa mas mantinha os trejeitos infecundos miscigenados nos tons da maquiagem que se equilibrava indolente entre o vulgar e o borrado; acho que para comemorar minha cura milagrosa fomos em família ao circo, na época ainda havia leões, olor de estrume de animais repisado por desconhecidos envoltos em pipoca amanteigada, o palhaço no centro do picadeiro era hilário para todos que não fossem eu, meu riso viera cindido, um pequeno abscesso interno feito de frustrações com fraco efeito fora, o truque consistia em jogar uma azeitona para o alto e fingir que se engasgara, enquanto o público se acabava de gargalhar a brincadeira ia dando certo no esôfago do coitado, estertorou sufocado, embrulhado nos sons do próprio trabalho, agricultor soterrado em seu celeiro de amareladas sojas, foi se esvaindo o riso até que a tragédia consumada engoliu todos os lapsos de pilhéria, naquele instante pulei em risos, saltei no picadeiro levantando ao redor de mim uma poeira fina de tão agastada, raptei o rosto retorcido por debaixo da massa de pó branco, também o nariz de um vermelho vivo, enfiava no bolso enquanto os outros artistas vinham atropelados socorrer o cadáver; ainda hoje rio inaudível ao disparatar para mim mesma a imagem de que em algum cemitério pode ter nascido, transgredindo garganta, caixão e terra, uma vistosa videira.
Madrid, 22 de fevereiro de 1995.
Maria Camargo Freire é artista plástica, tem 63 anos e mora atualmente em São Paulo. Conjugou em sua obra o barroco de Caravaggio, a sinuosidade de Giacometti e o neo-expressionismo de Bacon; lacera-se em pequenos cortes de vida por respirar em excesso o bálsamo dos dias cinéreos. Escritora diletante, pretende esboçar um romance em prosas poéticas: suas “Telas de uma exposição”. Heterônimo de Caio Russo, escritor, historiador e pesquisador em Estética, Arte Moderna e Teoria da Literatura. Hedonista estóico, cínico peripatético que preza pela sutileza do sofrimento sentado. Tem por prazer fumar embaixo d’água.
Mais uma etapa de encontros consolida-se na Diversos Afins. Nossa missão editorial ganha corpo na medida em que conseguimos expandir as fronteiras do diálogo. Atrair pessoas e fazê-las expressarem as suas epifanias pessoais é algo relevante. Cada colaborador que se une ao nosso projeto ajuda a compor um vasto e incessante mosaico de sensações. Nada é linear. Se somos seres distintos, carregando uma determinada marca de individualidade, é porque no somatório das ações não damos crédito à conformidade das coisas. A concordância plena não passa de um devaneio sem forças para seguir adiante. É na multiplicidade do pensamento que tudo ganha mais vigoroso sentido. Quão fabulosa é a literatura na medida em que consegue fazer desfilar tantas mentes de características diferentes. Ao fim, o que cada autor vem apresentar aqui na revista é a sua capacidade única de vislumbrar a existência. Por vezes, quantos de nós não explicitamos o desejo de construir uma obra semelhante a de alguém? No entanto, essa vontade, movida por um sentimento de identificação, mais uma vez reafirma o poder da diferenciação entre as pessoas. Definitivamente, nenhum criador é igual ao outro. Daí, a grandeza da arte sob os seus mais variados aspectos. Hoje, com a participação valiosa de escritores e artistas, completamos 106 investidas à frente da revista. Importa saber que há o eco singular da voz de poetas do quilate de Rita Medusa, Airton Souza, Roberta Tostes Daniel, Ana Peluso e André Rosa. Vale a pena contemplar as sutilezas humanas expostas no trabalho da fotógrafa Sinisia Coni. É recompensador ouvirmos o que tem a dizer o nosso entrevistado de então, o experiente músico Sabará, baterista, professor e verdadeiro símbolo da cultura baiana há mais de meio século. No quesito prosa, Vanessa Maranha, Caio Russo, Aden Leonardo e Geraldo Lima vêm fazer do mundo um observatório de ideias e outros tantos contextos. É Guilherme Preger quem nos chama atenção para a elaboração do filme “Táxi Teerã”, nova produção do diretor iraniano Jafar Panahi. Larissa Mendes destaca a marca das sonoridades de “Júpiter”, mais recente disco do cantor e compositor SILVA. “O beijo na parede”, romance de Jeferson Tenório, é cuidadosamente sondado pelo olhar apurado de Sérgio Tavares. No âmago de cada imagem ou palavra que compõe a nossa mais nova Leva, a vida assume contornos próprios. A vocês, caros leitores, ofertamos mais um experimentar de sensações. Boas leituras!
Sonolenta a cabeça em cadência. Tocas aqueles tecidos turquesa. Toga da matriarca. Tempo teve que desejaste a imobilidade desse superego que bolo de fubá tão bem fazia. Tua vontade era um tanto mais volátil, que fosse dar uma volta por uma semana até a raiva do “Você não vai filha, nem pensar” passar. Folga de filha. Férias da família. Pobre pequena, das Fúrias nada vem que não seja fulminante.
Murmuras: mamãe.
“Se você ficar de mentirinhas vai ver só, venho puxar teu pé de madrugada depois que morrer, ah se venho, faço questão, moleca”. Ria um riso dúbio, danado de delicado. Sabia ser tácita, tênue, torpe e tenra como tu que dela tascou os traços por atavismo. Não consegues derramar lágrimas. Levanta em ti uma confusão, balbúrdia como se de uma ora para outra passaste a sentir em mandarim. Tua mãe ali tensa, num sono nada tranquilo, parecia o ideograma de um rio em coma. Também os trapezistas ao redor, artistas dos sentimentos, como equilibravam bem tormentos, lágrimas caiam num choro compassado, conivente com a morte, morto, consonante ao ambiente. E tu esturricada como tundra gelada.
– Gente, que menina estranha, nem chorando está…
– Meu Deus, perdeu a mãe e parece que nada aconteceu…
– Sempre foi problema essa menina, precisava ver…
– Lembro que dava um trabalho para a mãe dela, nossa…
– Morreu de desgosto…
– Morreu de tanto passar nervoso…
– Infarte, nova como era?
Murmuras: mamãe.
Deslizas por entre as difamações ditas entre dentes. Aproxima-te do caixão e confessas ao ouvido de tua mãe o segredo. Sorri e segue em solilóquio com tua confidente, aquela que cobrirá teus pés noite afora.
Murmuras: mamãe.
***
Releitura de Caravaggio: Narciso em plástico
Ana: esburacas a terra seca ainda que sem unhas
Frio lá fora, sobretudo no imo de ti; espelhavas como uma patinadora sob o lago de vidro; encantavas, teu observar espalhavas em teus esporádicos anseios; trepidavas o olvido de quando embrenhavas nas nódoas de teus rastros náuticos. Quem defronte o espelho? Quem és senão tu no vácuo de ti? Quem formula essas perguntas? Quem senão a agrilhoada consciência de si, encarcerada numa das tantas salas de tua íntima morada…
Enluarado teu dia é de uma noite imperturbável; num átimo tua face escorrega do congelado espelho, no lugar a vala translúcida da ausência de ti; emoldurada uma diáfana porta ao nada; eras inteiramente nariz, quem organizava tua face senão esse imenso olfato físico, adunco, herança em caídas moedas de um bolso judeu…
Rapinar transbordavas tua arguta inteligência, teu narigão, esse quem impunha tua presença, caneta que assinava o espaço por onde passavas; Lírio da paz, dependurado níveo em teu rosto angular, depois da cirurgia tomou-lhe o lugar essa desenxabida margarida; tiritas a cavar na face um oco de cartilagem, eras inteiramente nariz…
Narciso foste num livre índigo agreste, hoje ninfeia a boiar no estranho licor especular, não afundas, não afundas em ti, soterrada de ficares fora d’água; impressa na tua cara dois ofídicos buracos em catálogos comprados.
Eras nariz.
Toda nariz: respiravas hélio acima das nebulosas: de ora em diante carbono fluente nos escapes dos autos…
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Zoom
Fulgura Ibirapuera no verão: sob verde acobertam asfaltado esgoto: menino lambe prazer absorto em sorvete: favor compensatório do pai no poro: embaixo do músculo fraturada infância: engole difícil: lodoso escuro esôfago.
Caio Russo é escritor, autor do livro “Delicado desespero de beija-flor em voo” (Chiado, 2015), pesquisador na área de Estética, História da Arte, Nova Música do século XX e Rugas em Rostos de Velhas. Tece seu tricô numa cadeira de balanço embaixo d’água. É iminente afogado ao longo do tempo em pausa.
Cantar porque o mistério existe. Assim pode ser também representada a sina de um criador. Quanto mais simples as suas vestes, alijadas do fogo da vaidade inútil, mais próxima e quiçá autêntica será a sua epifania. O sentido de verdade também pode ser tomado como uma expressão honesta daquilo que se sente, algo que, materializado sob a forma de um texto, imagem ou som, ganha autonomia para fundar mundos no mundo. O autor cria personas e as atira aos quatro ventos, sugerindo-nos que também façamos o mesmo a partir do que engendra a nossa imprevisível percepção das coisas. É gozosa a possibilidade de sermos outros, rompendo amarras sedimentadas pela rotina. É fora de série a ideia de que a arte nos propõe um exercício contínuo de libertação. Nesse movimento, consumir a obra de um determinado autor é, possivelmente, amalgamar-se a ele. Essa espécie de pangeia humana, outrora ligada por sentimentos entrelaçados, passa a alimentar uma multiplicidade de expressões que harmonizam tanto o individual quanto o coletivo. Assim, os caminhos da liberdade não significam imposição nem tampouco a pronta concordância com o todo sugerido, mas a mais pura perspectiva de nos edificarmos enquanto sujeitos conscientes e condutores de nossas míopes trajetórias. Tudo isso para dizer que o mistério existe e que por ele somos atraídos pelas razões das mais imponderáveis. Mesmo tendo inclinações prévias a algum tipo de abordagem ou vertente criativa, a sensação é outra quando somos tomados de surpresa por alguma obra. Do mesmo modo, viver à cata disso desavisadamente por ser um bom indicativo. Sinal de que nos desarmamos um pouco para permitir que um outro alguém seja escutado. Como parte dessa despojada atitude, deixamos o canto sensível de poetas como Luciana Marinho, Guilherme Gontijo, Marilia Kubota, Stefanni Marion e Nuno Rau ecoar suas singularidades. No trajeto entre o visível e o invisível, as fotografias do argentino Tomás Casares instauram uma sublime acepção para a existência. Para falar um pouco sobre sua lida com as vias literárias, o escritor Anderson Fonseca responde a uma pequena sabatina de ideias. No Gramofone de Larissa Mendes, toca o mais novo disco da cantora e compositora Tiê. A leitura atenta de Sérgio Tavares nos convida a um deleite sobre o mais novo romance de Marcia Barbieri. Há difusas perspectivas de olhar o mundo nos contos de Marina Ruivo, Vássia Silveira e Caio Russo. O texto de Mayrant Gallo exalta a importância do escritor Patrick Modiano, recentemente agraciado como o Prêmio Nobel de Literatura. O mais novo filme do diretor Jim Jamursch é o centro das anotações de Guilherme Preger. Cá estamos, caro leitor, a sugerir um caminho que consolida sua etapa de número 96. Seja bem-vindo!
Para Pedro, que das baforadas de seu cachimbo tantas vezes aqueceu minha enregelada existência
Deixei-me deitar na irregular sarjeta dos muitos pés. Deleitava-me dissipar vagarosamente no delicado ar citadino. Punha-me a devanear sobre os incontáveis dedos que me pus a passar. Incontáveis delgados e cilíndricos enleados pelas mãos de tantos e tantos formatos. Tessituras, marcas e cicatrizes. Eu que estive em tantos e tão diversos lugares, a auscultar o mundo. A provar buquês de timbres tão variegados na boca impregnados. Caminhei nas mãos da jovem. Soerguia-me como troféu pueril. Empertigava-se toda. Esticava as costas. Balançava os cabelos e punha-se a desenhar arabescos no espaço tendo-me por pincel — Não sabia que você fumava, Luciana … Não? Comecei faz pouco tempo, gosto do cheiro desde criança, mas não tinha idade, e tem meus pais também, sabe como é… Em seus lábios punha-me fazendo bico. Tragava-me enojada pelo gosto. Soltava-me pelas narinas maravilhada com as formas que a parte de mim transubstanciada em seus pulmões tomava. Olhava ao redor na expectativa de me apresentar para um amigo, ou despertar a curiosidade de um andarilho qualquer. Evolava teto acima em cinzas graduados, densos e assimétricos. Ali ficava eu a pairar nas lembranças. A preencher os sulcos da face envelhecida. Companheiro inestimável nas noites de solidão. Dedos experientes a me afagar em seus secos lábios. Era-me também parte de si. Um dedo. Dedo de se fumar — Onde minha velha há de estar? Foi e me deixou aqui. Penso que deveria era ter dado um sopapo naquele padreco: até que a morte os separe o quê, deixa disso. Não está essa minha velha chata a ralhar em todos os cômodos mesmo depois de morta? Seu cheiro não está por toda parte? Ora essa, há mais dela aqui estando morta do que eu aqui, vivo estando. Pousado ficava no cinzeiro outrora de ambos. Ali acolhido crispava. Chamuscava no algodão. Dava-lhe relevo. Argamassa em tela, levemente ia passando. Marcando. Escurecendo — Não mãe, por favor, foi sem querer. Para mãe, para, por favor, para, não faz isso pelo amor de deus, dói muito. E lá ia eu vincando, marcando, abrindo caminho em braço alheio. Creio que nesses lábios não tocarei. Não hei de ser tragado, a não ser em seu corpo.
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Campinas
Beatriz: viva por uma cidade inteira
Acordou cedo sem nem bem ter dormido. Prolongava a noite no arroxeado de suas pálpebras carregadas. Lavou o rosto com a pressa de quem pouco tem a fazer e por isso adianta-se à espera do compromisso que não vem. Ouvia ele na escada os passos da novidade. Parecia poder tocá-la por detrás da porta. Não era nada. Ele só morava em Campinas. Lugar difícil. Metrópole que guarda nostalgia do interior solapado sob o acre cheiro de urina da praça da matriz. Ainda pior. Cidade rápida quanto mais parada é. Desprovida de estrelas para se observar. Campina que se suicidou em asfalto escaldante. Escapamento sufocante. Íris lacrimejante da manhã ainda a desabrochar. Lépido, jogou o casaco em seu corpo esguio. Nem bem escovara os dentes. Sabia que tinha todo tempo. Entretanto, o fluxo das ruas atulhadas de gente desprovida de gente falava-lhe o contrário. Seguiu os passos de um rapaz. Entrou inopinadamente no velório. Não conhecia o defunto. Nem aquelas pessoas iguais, todas de preto por respeito. Curioso, olhou de esguelha. Despreocupadamente, observou o produto daquela embalagem de madeira. Um velho. Acho que já passado do prazo de validade. Bigodes curtos. Acinzentados tal qual a rala cabeleira. Fios espalhados na morena cabeça. Nariz mal entalhado. Lasca de toco cortado sem cuidado. Grossas mãos inchadas da enxada soada em grama seca. Queria fugir aquele terno do peito do homem. Creio que se fosse dado como à Sansão um último fôlego ao senhor imóvel, teria ele rasgado aquela pompa ao meio. Colocado para correr aquelas lombrigas que jamais tomaram leite de vaca. Só da caixa. Todos esses parentes estranhos. Próximos distantes. Ecos de seu sangue repisado. Teria ele chamado as galinhas. Porcos. Cavalos. Vacas. Insetos variegados. Tão mais gente que essa gente. Desinteressados. Tristes por não mais compartilharem o silêncio desse matuto. Nada de herança. Fazenda. Divisão de bens enquanto o presunto ainda nem endureceu. Queimaria as rosas do caixão com seu cigarro de palha. Enchê-lo-ia de capim molhado de sereno. Sem ter o que fazer, seguiu Azazel no tédio alarmante da eternidade sem lembrança. Pensava ele: — Mataram a morte.
Caio Russo estuda História na Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Campus de Assis. Atualmente pesquisa História da Arte e Estética, com enfoque em Nova Música do Século XX e o conceito de Feio na Teoria Estética de Theodor W. Adorno. Dedica-se à prosa, com predileção pelo conto. Escafandrista de nascença, põe-se a relatar sobre os microscópicos animais, objetos e resíduos, que decantam do fundo do lago, a pairar no vidro do capacete um instante antes de nunca mais serem vistos nas turvas águas dos dias. Escreve para não afogar-se em si mesmo.