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115ª Leva - 09/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Latejos vermelhos das rochas: o delicado e selvagem exercício do desvio

Por Carla Carbatti

 

 

O que buscamos num livro é a maneira pela qual ele faz passar alguma coisa que escapa aos códigos
G. Deleuze

 

Segundo Lucrécio, os átomos se movem para baixo através do vazio e pelo seu próprio peso. Em nenhum lugar ou tempo fixo eles se desviam e se chocam com outros átomos formando novos corpos, novos mundos. Não fosse isso eles cairiam nas profundezas do vazio como gotículas de chuva e não haveria nada. Em outras palavras, tudo que vive é uma desviação.

Também a linguagem, para Blanchot, só é possível no movimento de desvio. Diz o autor que ali onde tudo é indeciso (e onde não o é?), não se pode viver mais do que em um perpétuo desvio, pois ater-se a algo suporia que há algo determinado a que se ater. Seria retirar da vida sua imanência e condená-la a uma finalidade. Essa é nossa fragilidade e potência: a vida, força infinita, não se significa, não se explica, vive-se.  É preciso, então, dizer, que a escrita viva é aquela que desliza, declina e se desloca.

Katyuscia Carvalho, no seu maravilhoso poemário Vermelho Rupestre (Ed. Patuá), já na capa, numa epígrafe, inicia sua incapturável dança com a vida: “preciso ouvir alto quando falas com essa tua voz rente às estrelas”. A voz, foz, a vida roça com o brilho fascinante desse astro morto, retumba, faz a curva e escapa. Entrar no seu livro é uma espécie de tateamento em uma caverna de Lascaux, onde o grito vermelho das rochas se desprega como que “escapado da fogueira”, “desgarrado do corpo”.  Caverna que é o símbolo da origem, do nascimento, do útero. Mas, vejam bem, como em Clarice Lispector, seu texto está “ferido de vida breve”. A caverna, como lugar de re-nascimento, não seria mais do que um potencializador do “instante já”, “um calafrio na pedra” que propaga não a palavra original, mas suas infinitas reverberações. Corpo-corpus-copulamento: os latejos das rochas produzem signos vermelhos que transbordam a margem linguagem no delicado e selvagem exercício de tocar a vida. Vida amorosa, vida política, portanto, vida indomável. É possível que, o amor e a política, sejam as duas linhas de forças mais potentes da sua escrita. Não o Amor ou a Política, Instituições, mas amor e política criação de uma nova cartografia para a vida: ”habito o corpo de outra terra mas sinto o pulso e o peso do meu continente e recito uma encantação clandestina.” Seu texto em momento algum é fundação, ainda que dialogue com as vozes ancestrais das índias, dos índios, com o nome materno, com os tambores negros, com as “raízes do céu”, seu movimento mais poético, mais político e amoroso é o desvio, “sons de buraco”, “fissura no vento”, “pedras caindo”, “tanger de chuva”, linhas de fugas traçadas, em vermelho rupestre, disparos de novos problemas para errar em outras rotas,  vibrações do verso que estremece e abre novas vias: passagens de vida.

“(…) Eu que me amparo em madeira que range”

Vermelho Rupestre é esse lugar de desorientação e encontro. Um ângulo mínimo de formação de um torvelinho: uma turbulência, “uma dança extraviada”. A agitação mesma naquilo que não se assenta, que sedenta, não sedia, experimenta as forças incolonizáveis das palavras, como “um pássaro insano abrindo fissuras na carne do céu”.

 

Carla Carbatti é mineira, das montanhas, do mar, nômade. Doutoranda em Estudos da Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Poeteira com todos os átomos, possui moléculas poéticas ligadas à Subversa, Zunái, Germina, Alagunas, Mallarmagens, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Contratiempo, etc., à Antologia RelevO 5 anos, ao ESCRIPTONITA: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi e agrupadas no livro autoral “Na Cadência do Caos”, editado pela Urutau.

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98ª Leva - 01/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

É tempo de continuar os caminhos. Levar adiante a primeira investida editorial do ano traz consigo um sentido de renovação de ânimos. Abertas estão as escutas para que outras tantas vozes consolidem por aqui o ideal essencial de diversidade. E assim o maior desejo que rege os instantes é o de promover encontros em torno da arte. Poder harmonizar as energias que atravessam textos e imagens favorecendo um mosaico vivo de expressões múltiplas. Erguer uma edição da revista representa agregar individualidades rumo a um norte coletivo que não se dilui pelo caráter da heterogeneidade. Por mais que cada colaborador traga sua carga pessoal e distinta, algo torna o resultado final curiosamente dotado de um equilíbrio. Nunca houve uma espinha dorsal premeditada quando a intenção era a de solidificar uma determinada leva. Autores e artistas se aproximam ou são convidados e, a partir disso, a convergência de atuações segue fluxos de naturalidade como se um único e permanente tema se apresentasse: a busca pela qualidade. Cada criador que por aqui desfila seus verbos e imagens cristaliza a identidade da revista. Hoje, é tempo de percebermos o que nos dizem as vozes poéticas de Carla Carbatti, Roberto Dutra Jr., Neuzamaria Kerner, Alexandre Guarnieri e Mariana Fernandes. Oportunidade de percorrer as densas linhas dos contos de Márcia Denser, Jorge Mendes e Lia Beltrão. Lermos o que o escritor Rafael Mendes tem a dizer sobre seu engajamento literário numa entrevista capitaneada por Sérgio Tavares. Por seu curso, Igor Fagundes resenha o novo livro de poemas de Alexandre Guarnieri. A conturbada trama do filme “Garota Exemplar” encontra respaldo nas anotações de Larissa Mendes.  O escritor Gustavo Rios fala de suas impressões sobre o mais novo disco da banda de punk rock Pastel de Miolos. Os recentes lançamentos poéticos de Geraldo Lavigne recebem a leitura atenta de Jorge Elias Neto. Entremeando os trajetos da nova edição, as fotografias de Pedro Alles remontam às nossas complexas paisagens humanas. 2015 pede passagem trazendo junto uma vasta gama de perspectivas. E os caminhos apenas estão no seu início. Seja bem-vindo à 98ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carla Carbatti

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

tremulações do azul

 
os carros e os pensamentos passam
tão ilógicos
agora demoro o corpo numa canção do Miles
all blues
bebo água viva
………………………………para fluir
………sua presença
escorre pelos órgãos
pelas avenidas
os carros e os pensamentos passam
na contramão
dobrar a esquina exige uma força extraordinária
sentir o tempo, fibra por fibra, muscular a solidão
mas eu pertenço a uma geografia frágil
às modulações de calor dos seus braços
às nuvens, aos orgasmos,
………………………………………….ao húmus, aos ismos
a todas as viscosidades e inconsistências da carne
não defino, não explico,
compartilho
o outro não é meu objeto
aquilo que digo e domino
ao contrário
o outro é o que me expande
que faz outros mundos possíveis
kind of blues
têm tons que só existem nos seus olhos:
love: agitation: tremulações do azul

 

 

***

 

 

bailarina

 

antes que eu ponha meu exército intelectual
para invadir e sitiar um texto
antes mesmo de capturar e enclausurar o sentido
o próprio texto me envolve
num exercício respiratório e rítmico
como se soltasse pássaros nas minhas artérias
como se elas
as palavras
fossem música

 

 

***

 

 

diário do silêncio: a palavra

 
[ ]: penso na primeira vez que alguém disse: palavra. o silêncio seco do seu sopro sussurrando a solidão. o cheiro vermelho do nascimento. havia um abismo pintado sobre um mapa. um espaço infinito aberto pela curva. aos poucos, os pássaros e as crianças ocuparam as praças, as esquinas e uma mulher montada num cavalo negro estilhaçou a vidraça: ¡palavra!:
inventa-me este lugar, esta distância. cria-me o mundo a partir deste vazio: [ ]

 

 

***

 

 

diário do silêncio: a jardinheira

 

… então o rio. a solidão fluindo no mês de junho, em tudo. eu sei, escrever é isso, este infinito diálogo íntimo. talvez, entre uma sílaba e um desconforto, pudesse sentir suas mãos narrando o silêncio no meu corpo. as digitais desenhando nuvens no mapa da existência. o amor é uma tênue penumbra presente na película da palavra. inventou o rio e noite que molham meus olhos. por onde andávamos antes das margens e o medo indicarem o caminho? agora passam aves e frases no descampado do pensamento. dilatam o tempo, os objetos, os lugares. eu construo janela para estender o olhar e as viagens. é verdade que somos só uma tremura na entranha de deus? noite alta, vejo o vento esvoaçar a saia da madrugada. um relâmpago fugaz fulminar o verso. cato as fuligens vermelhas e deixo as azuis para os vermes. as águas da chuva iniciam seu percurso pela memória do rio.
eu remo rimo regresso, rego as raízes das plantas

 

 

***

 

 

unreal letter

 

escrever a palavra cansada
o amor em cartas registradas
nos abismos da pele

trago na boca
borboletas e vermes – selados em saliva
numa caligrafia de haver reticências
cartão-postal
rascunho de poesia
viagem pro Nepal
disco do Pixinguinha

tome nota: [nasce um pedaço de eternidade]:

é preciso catar parafusos em noites de chuva
e nem me venha com sombrinha!

 

sou qualquer, carla, como tantas Carlas que há, filhas de Marias. nasci onde brilham as estrelas de Três Pontas e jorram luz até BH. disse amor e atravessei o Atlântico.  hoje habito um Campus Stellae. amo, amo demais duas menininhas de olhos acastanhados, mais brilhantes que o sol. nos feriados solto pipas e escrevo com todos os átomos. nos dias de feira faço um mapa losing steps das heterotopias de Clarice, pra isso que chamam de tese, mas eu chamo mesmo é de saltar no abismo com um verbo infinitivo nos lábios …