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144ª Leva - 04/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Carla Diacov

 

Foto: Lu Brito

 

x
sobreviventes deitados trocam
figurinhas repetidas
experiências amorosas repetidas
de bruços trocam
feito meninos que tocam trocar
sorrisos enigmáticos repetidos
trocam até cascalhos repetidos
balançam os calcanhares no ar repetido e trocam
viram as barriguinhas para o céu
trocam o curso das nuvens repetidas
trocam andorinhas repetidas
repetem TROCO NÃO TROCO TROCO
trocam as pernas de lugar
trocam o lugar de estado
os joelhos com os joelhos dos joelhos mais jovens
o de joelhos tortos repetidos
trocam hálitos repetidos
trocam ar
sobreviventes trocam tudo
apontam calor nós nos cabelos
trocam fluidos inevitáveis repetidos
furos de guerras ecoadas
trocam repetida a terra de lugar
dormem com raízes parecidas a joelhos
sobreviventes dormem repetidos
de repetidas mãos dadas a sonhar
incertas repetições mais
exatos epílogos mais

 

 

 

***

 

 

 

:
não me sinto tão
bem nunca me senti tão capada
não tenho a memória de estar
vibrante “As they say on my own Cape Cod”
sinto que deveria ter me dedicado ao
arco e flecha como dediquei o pescoço
à leitura de teorias UFO
acordo com essa pança cheia de melancolia
olho minha mãe me olhando
minha cachorrinha me olha olhando minha mãe triste
já fui pega olhando uma lata
de molho de tomates no lugar errado
o rapaz me pegou pela mão perguntou meu nome
perdida mora por perto está sozinha
entre ervilhas eu disse
o molho entre ervilhas
comprei caqui mole e bistecas de porco
comprei a serralheria dos ouvidos açougueiros
nunca me senti tão amputada
o caminho me levou até minha mãe
minha cachorrinha olhando minha mãe triste me olhando morta
acho que seu pai tinha isso que você tem
e isso veio da conversa com a psiquiatra
isso não tinha CID e eu tenho pensamentos mágicos
trocamos a cidade a psiquiatra
me sinto bem pior
agora que sei ser vibrante com a não compreensão
do tigre CONVIVER
sei e posso e alcanço falar sobre minhas deficiências
sobre meus distúrbios
e isso assusta muito quem não me vê babando
errando as pernas letras assusta não conhecer
devo ser mesmo esse caqui mole olhando
a lata errada nos mercados
carla
ninguém fala moléstia no poema
carla é só uma lata fora do lugar
carla
“As they say on my own Cape Cod”
a vida é bonita e cheia de coelhos com trevos entre os dentes
o rapaz mais famoso da minha estante
me puxa pelos cabelos
perdida mora por perto está sozinha
uma lata errada
“a loucura é portátil”

é claro que a lata não é errada
carla e a lata
“As they say on my own Cape Cod…
partners in prosperity.”

 

 

 

***

 

 

 

x
o sobrevivente estende as mãos à estátua
o ritmo dos joelhos
o pão ainda cru
obscenidades
algumas razões
quinas duns pensamentos
mas chora
o sobrevivente estende as mãos à estátua
mas chora
o sobrevivente teme o caminho da lágrima na mão embrutecida
chora toda a sede da goela
mas estende as mãos
mas contorna
um ponto além do contorno duro
contorna
imita
estende a biografia do nariz
o sobrevivente afia a moela e cisca o assoalho
ESTOU PERTO ESTOU BEM PERTO
o sobrevivente e algumas razões
o pão ainda cru
mas pão

 

 

 

***

 

 

 

:
estender a asa norte e
sair feito uma garça rodada
eriçar a última pluma e sair
feito uma pavoa mentecapta
esticar as unhas e sair feito
um galo tarado espichar o sal
e sair feito um flamingo excessivo
arrepiar o bigode e sair
da moita em espasmos apaixonantes
o pescoço é o pêndulo da coisa penada
abraça um queixo meu peito pombo
bica uma pena que me coça a chaga da coisa penada

mania ave
de quantos bigodes precisa uma mulher para sair?

 

 

 

***

 

 

 

:
tenho uma memória inquieta
tenho um pescoço de criança
conforto em lã com cheiro de avô
lavanda
canela com leite morno
nada mau
diriam
para uma casa abandonada
nada mau
dizem
nada nada mau
comenta quem acabará por morder meu pescocinho mofo

 

 

 

***

 

 

 

:
no inverno
vou jogar meu pescoço para trás
largar um pensamento horrível no cúmulo
de uma pedra sob o sol
faço por você
mostro um pedacinho da minha arquitetura
por você
para que você não fique com a impressão
e sim com a certeza:
não sei lidar com meu próprio sumiço
com a destruição
palmo a palmo
daquilo que em nós dois
soma estações tectônicas com
flores daninhas entre os desencaixes

 

Carla Diacov [@diacovcarla] nasceu em São Bernardo do Campo em 1975. Lançou os livros “Amanhã alguém morre no samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais gentil do mundo gentil” (Edições Macondo, 2016), “Ninguém vai poder dizer que eu não disse” (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017) e “A munição compro depois” (Cozinha Experimental, 2018). Os poemas aqui apresentados estão no próximo livro de Carla Diacov, : “pescoço x sobreviventes”, que sairá pela Garupa. 

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Carla Diacov

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

TOMAR A SOPA DA QUARENTENA

 

dentro da música que
conta aquela vez
encontrar encontrar algum
espaço para a quarentena da
calma – prorrogo vossa estúpida santidade –

 

 

 

***

 

 

 

quem sabe o tempo
disso tudo um jovem muito
mau costureiro quem sabe
o dia em que
suavemente
a emenda perceba a outra
para
além do confisco lacrimoso

sonho com um casaco feito
dessas penas

 

 

 

***

 

 

 

vai passar

 

continuarei a odiar continuarei
a trombar o coração nas quinas
dos móveis que se mistificam
da primeira letra do seu
nome

 

 

 

***

 

 

 

sola circular

 

que lugar é o lugar
de frente para a janela você pensa
outra janela à parte o lugar
será diagnosticado em tempo é
o lugar é acreditar a noite molhada à
janela esmigalhar entre os dedos enrugados
um perdido de grande amor
dormir cheirando os dedos é o lugar

 

 

 

***

 

 

 

solavanco

 

rendem-se os calcanhares ao
isolamento agora o projeto é
a sombra a obediência é dançar o
contra das outras vezes em que
nas pontas dos pés estava a partitura
do solavanco

 

 

 

***

 

 

 

um silêncio e meio
a duração do perfil da pomba
três pombas e um quarto
a
duração da sombra
nove sombras e um meio silêncio
peso e altura da espera
cor e resistência da minha janela

 

 

 

***

 

 

 

empilhar luas

 

a flecha ideal de quando
um antigo amor está e está a dizer
você
você é a flecha e a boca não
é
você é você o tempo
da flecha rente
à língua a flecha original e o vaticinado
furo

 

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Escreveu Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), bater bater no yuri (livro on-line pela Enfermaria 6, 2017), A Munição Compro Depois (Cozinha Experimental, 2018), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (Casa Mãe, Portugal, 2017/Edições Macondo, 2020).

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Carla Diacov

 

Ilustração: Sadrie

 

Ecos no bueiro

 

você acena com a cabeça e eu penso – essa mulher que acena com a cabeça – e você continua a andar. quando nos tocamos. um, dois beijinhos nas bochechas (somam quatro ou são mesmo os dois mesmos?) e concordamos em estar entre cafezinhos, com uma mesinha a nos separar. você me olha e eu imagino – essa mulher que me olha, acena com a cabeça. ela que está para dizer alguma gravidade – e você não diz, você olha, toma um, dois, três mil cafés sem açúcar. você que sabe minha desajeitada mania de dizer coisas quando estou aflita, digo coisas que meu buffoon interno diria – neste momento praticamos uma nova categoria de meditação em dupla. acenar com a cabeça, olhar, olhar, olhar, queimar a língua e olhar – você pende a cabeça para o outro lado, suspira e faz um sinal positivo quase imperceptível. me sinto bem, porque fui aprovada pelo sinal. ainda que somente eu tenha percebido o sinal. ainda que o sinal não seja, porque posso muito bem ter inventado o sinal. me conheço bem para saber que inventei o sinal, que não havia nada de positivo no leve deslocamento do queixo, coisa que você faz, mania tua. nos levantamos e nos despedimos. um, dois, três mil beijinhos nas bochechas (somam quatro ou são mesmo os três mil mesmos?). nos separamos pela última vez. como testemunhas, meu buffoon quase externo e sua frase, ecos dos beijinhos no bueiro, a calçada em desnível e o organismo excitado de quem toma muito café apenas para não dizer nada junto de uma amiga que, só em mexer o queixo, coloca aspas em tudo do mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Que pode a mulher que pode

 

Você pode se esquecer de um dia especial. Você vai se esquecer daquele dia. Aquele dia estará para longe de ti. Um outro dia vai tomar aquele lugar. Mas ainda não chegou o dia que vem. Você vai se esquecer do dia especial quando o dia chegar. O dia que tomará o lugar daquele dia em que te disseram uma besteira cafona sobre bater com uma flor. Mas o dia que vem, como uma flor que é como uma raquete e que é como um sapato que é como um punho fechado que é como uma vassoura que é como um tijolo que é como uma panela quando é como bater com uma flor, ainda não chegou. E você pode esquecer.

Também pode esperar.

 

 

 

***

 

 

 

Uva e Azeitona e Tempo

 

Numa ocasião, meu pai me falou sobre um tipo de uva. Não me lembro do tipo de uva e nem das coisas que eram especiais nesse tipo de uva. Me lembro do meu pai. Me lembro que ele se sentia feliz em me dizer da uva. Me lembro das risadas dele, porque algo que não me lembro da uva, talvez o vinho dela. O tempo do meu pai me dizendo a uva era o meu tempo de amar a voz e os gestos do meu pai. Então havia ali algo mais que dois tempos. Era o Tempo Meu Pai, era o Meu Amor Pai Tempo, era o Nosso Tempo Humor. Talvez até o Saudade Pai Amanhã Não Tem Mais Tempo. Havia também a caminhada pelo mercado municipal de Londrina. Meu pai caminhava num tempo lindo e eu tentava acompanhar. Era preciso mais de duas pernas para caminhar junto de tanto amor. Era rápido e lento e rebobinado, às vezes. Então os pastéis. Comer e ouvir e saber e rebobinar, às vezes.

Numa outra ocasião, meu pai me falou sobre a azeitona preta.

Não me lembro a cor e nem o que da azeitona existia.

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. “Amanhã Alguém Morre no Samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil”, (Macondo Edições, Juiz de fora, 2016), “Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse” (Douda Correria, 2016), “bater bater no yuri” (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A Menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), “A Munição Compro Depois” (a sair pela Cozinha Experimental, 2018).

 

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Carla Diacov

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

signo dar

troco os santos e os vasos e os espelhos de lugar: signo obsoleto. se não troco me aqueço em demasia ao secar os cabelos. não topo com minha cara e santa efigênia no mesmo caminho dos dias das horas pelos dias. trocaria as horas dentro dos dias trocaria o minuto por um segundo: signo mó. trocar os lugares pelas imagens. iemanjá espelho são francisco a carranca oca que ganhei de um amor que já não. trocar em acordo com o peso que a coisa perde e ganha. o peso: signo da propensão ao ato: trocar. troco um beijo por um pedaço de pizza trocada no momento do encaixe anterior à entrega. troco um olho do entregador por uma palavra espelhada. troco santos hábitos por cerveja gelada. troco signos troco idade troco as capas das almofadas os nomes dos gatos. troco o dragão de são jorge pelo espelho de ontem da noite de ontem. a lua: signo de troca. troca: signo vaso trincado.

***

congelo a cara e o corpo da cara diante da árvore da primavera. me paraliso me petrifico. em sempre foi a dificuldade em encarar a beleza crua cruel colorida cheirosa bem vestida galanteadora. sinto frio nos dentes diante da árvore: signo descascado vivo. cruel demais.  corre a seiva abusada nas minhas veias. medo e mitificação. seguro não subir o olhar até a copa não é seguro. crianças me olham passarinhos com olhos idosos e carteiros. todos eles trilham meu medo sou achincalhada pelos olhos. penso em agulhas alfinetes espetos lanças. a primavera me gela. sabe meu rosto nas todas espessuras desse horror e desse horror perfumado me esgano a descer a escadaria das flores. a escadaria das flores e estou frita para seguir resistindo ao mundo: signo em monet sob influências da camisola da época em questão. questão: o signo mais comum: doador universal.

***

o signo da onça ocorre em trocas cada vez que um homem diz o mato. porque é mancha sobre mancha a onça não diz o homem. limpa os bigodes no mato mata um roedor para o filhote come o couro tritura os ossos. é o signo mar. pendure uma onça diante do mar. leve nos olhos e pendure a figura diante do mar. é o signo onça. no nada de mar dita a onça em tudo de onça todo o mundo com lua onde o mar. porque é cratera ante cratera o homem faz abismos entre o banheiro e a varanda. entender não dura: o signo da onça ocorre em trocas cada vez que um homem se diz.

***

amo. amo até no desrespeito. até no desleixe até no despeito até no desespero. eu amo. e assim será o que sei ser até que sempre. porque vou morrer amando. me entrego ao cascalho. amo lascas da rua. amo até a vez que não é minha. não parece. mas eu amo. amo por não querer acabar e amo por querer tanto de mar e de fim. amo e tenho medo de cair do mundo. e odeio. porque é signo par. é estranho e eu amo me machuca mas eu amo. e odeio. porque é signo par nunca vou deixar de amar. até morrer até matar até derramar até engasgar até esganar. amo passarinho morto e o vivo. sobretudo o morto: porque as formigas que eu tanto amo.

***

a tarde carrega a noite na lomba da palavra mais corcunda. a manhã nasce no pôr dos olhos da mulher atrás do lençol no varal. seus filhos múltiplos de amanhã: o signo da lua e do adubo. suas plantas todas e suas unhas sua boca e seu dedal. a tarde lambuza as pernas da mulher atrás da máquina de costura. o sol cauteriza seus furos seus dedos suas plantas toalhas panos de prato lençóis. no mandiocal uma preá come sua cria morta. a névoa cresce pelos raios dos olhos da bichinha dolorosa. a mulher: signo do lençol. a alvorada desce os dedos na página 2: dia bom para anoitecer o fumo no peito esposo: signo d’água. a mesma tarde carrega a manhã na lomba da mulher. a noite nasce do pôr os pratos debaixo do alimento: signo de dois gumes.

***

um casebre sem rio pela janela não tem signo. o homem corta a madeira pensando longe e longe é onde fica o rio. as formigas não respeitam mais a evolução nas redondezas. um rio faria tudo ser como abunda as redondezas de um casebre com rio: lá no alasca: signo dúbio e mantenedor do que se passa na cabeça de quem vê o vidro que falta à janela única. o homem esconde uma faca entre as pernas. faca bem próxima ao pênis. afiada feito o pênis: signo de três gumes. uma formiga passa rente carrega um pedaço do tudo: signo ímpar e provedor da vertigem que sentiria o homem. derrubaria o homem sobre a faca: signo movediço. seu duplo come e bebe além da conta num casebre inundado no alasca. a vida segue o leito daquilo que um dia foi caminho foi fadário de brocardos capados. o vidro que falta: signo da mulher que um dia. um dia: signo da vida dúbia.

***

o lume do inseto noturno: signo par com o signo vítreo. limpamos o aquário três vezes por mês. meu ajudante limpa peixe por peixe até que o brilho: signo cruzado com o signo vítreo. meu ajudante limpa meus dentes com a língua até que o desrespeito. até que o desleixe seja calcado por mim para que meu ajudante. assim é assim será não tento e nem ele tenta me enganar. limpamos o aquário: signo usual. peixe por peixe: signo sujeito na frase: em lá as escamas. o lume nas ondas de lua cheia. limpo limpamos como é limpo o mar imundo de gentes nele. cruzamos espécies durante a limpeza do fundo: signo derivado do signo oriundo: é mar não é mar. reparamos o mundo aquário peixe por peixe. o lume do inseto nada. porque o amor: signo dessa luminosa psicose.

***

sei que existe um desconhecido signo. maternal e inquieto. espera a convocação que se dará pelas cordas dos sinos. sob esse signo nascemos envelhecemos morremos sobrevivemos. com a óbvia exceção: caramujos e poetas. está para chegar o dia em que uma onda de mornura elétrica levantará todos os fios de todos os cabelos das criaturas sob o signo desconhecido. não sei se é astrológico. se é matemático ou escatológico. sei que o dia está chegando. dia maternal e inquieto feito o próprio signo. o dia em que caramujos e poetas herdam o planeta. sutilmente. temos motivos para a preocupação: signo das mutações.

***

como se constrói um muro sem letras. o homem faz o muro e alguém coloca letras. o homem destrói o muro e faz outro. alguém coloca letras: signos solares. anos se vão e o homem faz outro muro para cobrir o muro com letras. alguém coloca letras e números no muro do muro do homem: signo da inconstância sob a distância da evolução. anos de amor e luz sem letras: signo do buraco sem fim. o muro é comportado e alguém coloca ovos sobre os tijolos do cume. o homem tem um rifle e mata ovo e mata ovo e mata ovo. alguém coloca alvará: signo dependente: o homem vive e morre sem pinto algum entre numerados muros letrados. fim: signo de derrubar muros.

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Formada em teatro. Seu livro de estreia, Amanhã Alguém Morre no Samba, foi publicado em Portugal pela Douda Correria em 2015. Ainda esse ano, publicará Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse, também pela Douda Correria, e a metáfora mais gentil do mundo gentil, pelas Edições Macondo.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Após nove anos de trajetória, percebemos que os caminhos culturais são definitivamente recompensadores. E o mais relevante disso tudo está representado nos encontros que aqui ocorreram. Nem de longe foram poucos e estão dispersos por todas as frentes da revista. Aos poucos, poetas, fotógrafos, contistas, artistas plásticos, músicos e outras tantas vozes foram nos ajudando a compreender melhor o significado de tocar adiante um projeto editorial. Agregar pessoas em torno de um objetivo comum é algo bem mais valioso do que um mero inventário numérico de feitos expostos. Não está na quantidade de palavras e imagens o impacto maior, mas sim na intensidade com a qual nossos sentidos são surpreendidos pelos arremates dos criadores. Durante toda a nossa jornada, as janelas poéticas têm sido importantes veículos de divulgação de autores das mais diferentes estéticas e estilos. No que se refere à prosa, há também uma imensa gama de contistas que, com suas visões de mundo, constroem múltiplos modos de se erguer histórias. Um dos cadernos mais valiosos do nosso trabalho é o de entrevistas, pois ali se insere um amplo espectro de escutas, fomentado pelo diálogo com criadores dos mais variados campos artísticos. E todas as conversas servem notadamente para compreendermos os elementos motivadores do trabalho de cada autor. No quesito resenhas, a adesão de colaboradores se multiplica vigorosamente nos campos do cinema, música, teatro e literatura. Num propósito de harmonizar textos e imagens, o papel de artistas plásticos e fotógrafos é fundamental para a completude de um projeto que pretende ser também visual. E, para que os caminhos continuem, outros encontros são necessários. Por agora, as veredas da poesia trazem versos de Susanna Busato, Ricardo Paião, Carla Diacov, Matheus José Mineiro, Camila Charry Noriega e Michelle Mendonça. Numa entrevista conduzida por Sérgio Tavares, a escritora Nara Vidal faz importantes considerações a cerca do ofício literário. O escritor Anderson Fonseca destaca importantes obras de Franz Kafka, Pascal Bruckner e Augusto Monterroso. Quando o assunto é construir narrativas, presenciamos as instigantes linhas de Rodrigo Melo, Priscila Lira e João Bosco. Dando seguimento às suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes convida-nos a assistir o filme húngaro Deus Branco. No terreno da música, acolhemos o esmerado texto de Graccho Braz Peixoto sobre o mais novo disco do cantor e compositor Mário Montaut. Dialogando com as expressões de agora, a fotógrafa Ana Pérola Pacheco expõe imagens marcantes de seu trabalho com a luz. Assim, uma outra edição surge, plena em descobertas e gratidão. Eis a 102ª Leva!

Os Leveiros

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102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Carla Diacov

 

Carla Diacov
Arte: Carla Diacov

 

ela anda com as solas das
mãos para fora
vermelha
anda como quem pede
e se dormir andando
e se espirrar andando
ela dorme como quem peca
vermelha
e se um caco de vaso a segurar pelas mãos?
e se um rouxinol a atropela?
e se lhe resolve pesar o vermelho no coração?

 

 

 

***

 

 

 

a leviandade por ser presença
fica
teu vulto evolui e se encrespa a ser novo vulto através das pontas dos meus dedos
há já algum resíduo
na inocência e na violência é minha
a pressa
envelheço me ajoelho tiro a sorte na posição dos dias
você vem?
na inocência e na acedência
a leviandade
você vem fica
há o resíduo penando no fundo do poço
você vem?
há um pássaro em repouso
se você não chega
como tudo que vibra por baixo do gesto
respira voa é violenta inda cisca
há uma ave que eu não
há alguns metros que eu não
há uma esferográfica e há um século e meio sobre
a mesa se você chegar antes

 

 

***

 

 

o raio é posto, parada e rio
não chegam os olhos ao nó da garganta
quando de lado a vida
o corte é trilha carcomida e zarolha
inda me sobra te dizer assim:
venha comigo, deixe o cavalo ao meio, de nada adianta, deixe o cavalo comigo.

 

 

 

***

 

 

 

Anatomia Forense

era pra eu ser mulher de morar, mas sou amável.
era pra eu ser deparável.
mas sou odiável.
sou serial e sou adjetiva demais. era pra eu seu de morar, mas sou oxidável.

 

 

 

***

 

 

 

pela combustão

 

o vento enche a minha cara dos fios dos meus cabelos
tento outra posição
porém o vento
me agacho
junto ao tronco da palmeira

carco fogo nas velas
o céu da boca não orna com a boca que não souber o que é uma boa fogueira
eu por exemplo ou falsidade envernizada
sou essa capela em chamas
à beira-mar
desejo redes e só sei queimar

 

 

* Os poemas integram o livro AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA pela Douda Correria (Portugal/ Abril, 2015)

 

Carla Diacov (1975), São Bernardo do Campo – SP. Publicou “Fazer a Loca” (e-book) pelo selo Ellenismos. Tem poemas na Coyote número 25 (Kan Editora com distribuição pela Iluminuras).Integra a coletânea 70 POEMAS PARA ADORNO, Editora Nova Delphi (Portugal).Em Abril de 2015 lançou AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA, livro de poesias pela Douda Correria (Portugal).Tem participações no site Cronópios, nas Revistas Germina Literatura, Zunái, Mallarmargens, Usina, Diversos Afins, Ellenismos, Cruviana, Musa Rara e integra o Escritoras Suicidas. 

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Luiz Navarro

Um tempo que gira sem parar. E cada instante desfrutado tem a capacidade de se manter perene quando as experiências vividas são assimiladas com certa dose de leveza. Mesmo sabendo que frequentemente somos tomados por visões que nos desafiam, ainda assim cabe perceber tudo com serenidade. São bons combates aqueles que travamos na busca pelas palavras. São dignos combates os que mantemos na construção de imagens que representam o mundo em que vivemos. Nos últimos anos, autores e artistas variados fizeram da nossa revista um espaço de convergência de sentimentos de mundo. É como se precisássemos de suas vozes para atestarmos que todos estamos amalgamados pelas mesmas razões. E quando a revelação vem, entendemos que a arte é, sobretudo, uma forma de ultrapassarmos as barreiras dos mistérios. Talvez por isso o ato de criar seja um duradouro processo de reconhecimento não somente daquilo que vislumbramos alcançar, mas também do que nunca dissemos conscientemente a nós mesmos. Há um casamento de particularidades do ponto de vista de quem cria e quem recepciona as obras produzidas. Nesse movimento de dupla via, o grande efeito é supor o que o outro não pensou. É transpor barreiras de interpretação até mesmo como se uma nova obra surgisse a partir do que originalmente nos foi apresentado. Enquanto a tradição nos dá referências, a intuição, somada a nossas revoluções internas, redimensiona nossas percepções sobre as coisas. Assim, vamos tecendo um longo e imprevisível caminho de descobertas, cuja marca maior está sustentada no desejo de conceber a arte como um verdadeiro movimento de autoconhecimento.  Hoje, ao celebrarmos oito anos da Diversos Afins, sentimos que permanece bem vivo o propósito de fazer da revista um território efetivo de aproximações. Seguindo esse fluxo, novos criadores fazem da 92ª Leva seu habitat natural. Gente como o amazonense Luiz Navarro, que com suas fotografias põe em evidência as faces ignoradas de um mundo. Dentro das janelas poéticas aqui apresentadas, vigoram os versos de Regina Azevedo, Paulo Sérgio Lima, Carla Diacov, Inês Monguilhott e Carlos Barbarito. Compartilhando as marcas de sua vivência literária, o editor e poeta Gustavo Felicíssimo é o nosso entrevistado de então. No Aperitivo da Palavra, o livro de Lima Trindade é objeto da leitura sensível e atenta de Sérgio Tavares. O escritor Geraldo Lima celebra o teatro de Ariano Suassuna. Com sua devoção à sétima arte, Larissa Mendes nos conduz até o mais novo filme do diretor espanhol David Trueba. Nos ambientes da prosa, Andréia Carvalho, Lima Trindade e Márcia Barbieri desfilam as densas narrativas de seus contos ante nossos sentidos. Das paragens goianas, o rock lisérgico da banda Boogarins exibe seus acordes em nosso Gramofone. Aos nossos leitores e colaboradores de todas as eras, dedicamos mais uma especial edição. Boas leituras!

 

Os Leveiros

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Carla Diacov

 

Foto: Luiz Navarro

 

desarranjos

 

para Marcelo Novaes e para Ana Ehre.

 

1.
embeba-te dum canto do quarto
em lá
louco de tua sombra
listas
objetos para a tua despedida
um limão partido
para que não lhe seque a boca
uma chinela só
para que um dos teus pés fique à procura
um rumo de poeira traseira
para que possas subir
seguir à esquerda
então à direita
para que possas passar a orbitar outras horas que não esta
só agora que agora é então
portanto
só então
feche os olhos e a boca
respire mais uns segundo
e mais um e mais um
inspire como que vomitando tudo o que te enfiaram goela abaixo como definição de coisa
que
agora
agora que é então
tu sabes bem
não são
ah, Marcelo! as coisas que finalmente não são.

 

2.
corte
ou fure
um pedacinho do teu dedo
ó
o teu dedo
a pequeníssima dor
em ondas
em pequeníssimas ondas
ó
corte ou fure ou
destampe a ponta do teu dedo
com ele
o dedo sangrento
toque o contorno do teu rosto refletido no puxador da gaveta
sabes bem que nesta gaveta
estão
as cartas que não mandaste
ó
as cartas
dentro destas
os cheiros de tudo o que …
é de lembrar?
é de saber desses cheiros, não?
não!
não tome as cartas nas mãos
sequer abra a gaveta
poderíamos com a crueldade neste segundo?
há uma luz no rabo dum inseto que se diz musical
há um verso repetindo a tua cabeça
há um nó desarranjado dos outros nós na embarcação:
enterra-te neste.
onde o sangue fez garças no teu rosto
deverá nascer um espaço para as memórias do novo chão.

 

3.
beatifico um broche que tenho
um par de botas ao estilo cowboy
há dia de não me saber
caso eu não use o broche
se já estou longe de casa
sinto que estou muito mais
longe

desembestada
grito COMO PUDE?
……..COMO LARGAR MEU ORÁCULO SEM MIM?
agora sabes que também o tenho como oráculo
e ainda logo
e dizer
AINDA LONGE
ainda
AINDA LONGE E SEM MEU ORÁCULO DA SORTE
sorte
benção
proteção
escudo
dado
agora tenho de entrar num elevador
entro de costas
como manda o bom e velho costume que acabo de inventar
no caso da ausência do broche
a entrança em elevadores
somente pelas costas

ando desejando viajar
até onde não possa mais a  excursão do toque
daí que penso em não levar o broche comigo.

 

4.
parei de contar estrelas
no dia em que parei de contar aos outros
que contava estrelas
que já havia um catálogo iniciando-se
que em minha metodologia
gostava de fazer uso de medalhas como
irmandade
loucura
xarope, quilograma e medalha
parei de contar as estrelas
não paro de contar mentiras
(ossos das imagens que ainda)
sou imprudente demais, Ana.
e atravesso a nado o mar da miopia.

 

5.
já podes fazer tuas próprias meias!

o homem sentado diante do abajur azulado
sente tanto o frio lhe agarrando pelos pés
e nada faz
além de sentir
olha a fiação do telefone
o caminho no rodapé
força a memória
a cor antiga
o tempo em que a tia Sandra ensinou
CEBOLA? OU CÊ PICA MIUDINHO
OU NEM PICA!
que frio
o restolho da quentura escapando pelos pés
e nada faz
olha pela janela central
a vizinha a desenrolar um imenso cartaz

já podes fazer tuas próprias meias!

e nada faz
além de sentir:

 

6.
há o alcance
há uma coisa ou um vagão onde se chegar
há a tua e a minha vontade

nalgum lugarejo que não este e nem aquele
a aproximação

se eu fosse de cascas
iria pelada
para sentir no sumo
no suco do que sou
a agonia

se eu fosse de cera
eu não iria

se eu fosse você
eu pediria
COMA-ME E LEVA-ME CONTIGO
PELO TEU LADO DE DENTRO
EM LÁ
VOMITA-ME

se você fosse eu
você perguntaria
LÁ ONDE?

daí que há também a transpiração
e a transpiração dos objetos.

e então?
should we?
há essa chance ainda. agora.
agora que é então.

 

7.
uma corda
uma pequena corda
e levantar-se pela manhã
pela noite
deitar-se
e uma corda
de ter junto
a dizer
poder dizer
com a corda em punho
dizer de monstros
desorganismos
alergias
e de cadeiras que não se encaixam ao mundo

há um desenho
(iria pelada se eu fosse de cascas)
há um desenho
no fundo do fundo
daquela mesma gaveta que não
nele
no desenho
uma corda puxa uma baleia morta e a amarra na pontinha da tua barba puta.
então tua necessária cadeira
desencaixada do mundo inteiro.
e eu te amo.
e nem te amo tanto, mas amo.
e tua barba é puta.

 

8.
pois é.
há o alcance.
há uma coisa ou um vagão onde se fazer.
está nos novíssimos catálogos de ser
coisa e deus.
coisa de ninguém.
coisas devolvidas pelo mar.
gaguejante.
crente.
engolidas e depois arrancadas de suas apropriações.
irremediavelmente.
arruinadas de suas cores.
pois é
é jamais.
regurgitar.
uma oração
um par de luvas de orar.
deus!
coisa!
que jamais seja também a violência inevitável e de afetuoso traço
nas coisas que.
caneta
caneca
caçarola e corrente.
cada pedido de cada coisa.
porque coisa pede, ora.

 

 

sou Carla Diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci em São Bernardo do Campo e moro em Itanhaém e brinquei na praça-dos-meninos em S.B.C.. morei em Londrina e ela em mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de fôrma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. babando. agora dei de bulir com as plásticas também. e elas comigo. sei que vou. sei que volto. sei de mim, parada, medindo os dedos, os meus e os dos outros.

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Uma orquestração de coisas rege todos os instantes. E tudo vai se moldando aos dias, erguendo cenários, tingindo com tons difusos cada lugar que se acredita possível. Mas a força maior talvez esteja naquilo que não conseguimos vislumbrar de imediato, ao que corre paralelo à passagem meramente visível do tempo e das situações. Enxergar nos ambientes menos usuais não é privilégio apenas de quem produz arte sob suas mais variadas formas. O leitor de diversos suportes possui a capacidade de intentar janelas de observação e, com isso, interagir com as obras. Não se trata de um comportamento apenas passivo, como quem olha e internaliza sentidos, mas sim o de alguém que efetivamente pode ser ator do processo. Em lugar de guardar o produto de seus olhares nos recônditos mais íntimos de sua individualidade, o amante das artes também se torna um criador na medida em que desenvolve mecanismos próprios de interpretação e, quiçá, certa dose de intervenção. No entanto, a obra é aberta, mas não escancarada, já disse alguém. O receptor tem a faculdade de redimensionar palavras ou imagens segundo, bem sabemos, suas expectativas e repertório pessoais. Por outro lado, é também interessante perceber o quanto de cumplicidade se opera entre criadores e leitores quando do ambiente de aproximações gerados pela leitura. E é comungando desse pensamento que as aparições poéticas de autores como Virgínia do Carmo, Demetrios Galvão, Stefanni Marion, Fabiana Turci e Ronaldo Cagiano geram espaços de um especial compartilhar lírico.  Assim também o é com os contos de Andréia Carvalho, Jacques Fux e Yara Camillo, todos eles a trafegar intensamente pelas vias de nossas humanas idades. O escritor Sérgio Tavares nos convida à leitura do belo e denso “Carta a D.”, romance de André Gorz. Nosso sabatinado da vez é o poeta Heitor Brasileiro Filho, que além de falar sobre seu novo livro, reflete sobre valiosas questões do universo literário. As escutas de Larissa Mendes apontam para o disco de estreia de Clarice Falcão. No caderno de teatro, Augusto Cavalcanti presta um singelo tributo ao dramaturgo Nelson Rodrigues. O filme dinamarquês “A Caça” é tema das percepções de Guilherme Preger. Entre os verbos desta edição, reinam delicados e sublimes os desenhos de Bárbara Damas, devidamente apresentados pelos olhares de Carla Diacov. É a você, caro leitor, a quem destinamos esses novos percursos. Boas leituras!

 

Os Leveiros

 

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79ª Leva - 05/2013 Destaques Olhares

Olhares

Uma Dama, Uma Damas

Por Carla Diacov

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Desde que a simplicidade se deu, Bárbara resenha, desenha, põe gente, passarinhos e medos pra voar no papel:

A primeira vez que Bárbara pegou numa folha, a folha tragou a Bárbara.

Era de cheirar dum tudo o que tocava.

Conhecia as coisas pelo tato que no tato da coisa, dizia, pequenininha, dizia, que no tato das coisas está a cor e o contorno em luz e sombras.

Tinha muita dó de apontar os lápis, achava que podia doer, não nos meninos, os lápis, mas nela. Podia doer fundo nela, ela a Bárbara. E desde sempre que é desde então, desde que a simplicidade se deu, Bárbara desenha, por conta daquela primeira vez em que a folha tocou nela e porque tudo, pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo, tem cheiro de cor e de mundo e de gente:

Aos dez anos já fazia gente e chamava URUBU aos pássaros que fazia. Vestia pessoas com corações, dava bolsinhas, sorvetes e bracinhos aos corações.

Entrou para a escola de desenhos aos treze anos e abandonou a escola de desenhos aos treze anos quando o professor mandou que desenhasse a Monalisa igualzinho a Monalisa do Leonardo. Onde já se viu? Igualar as coisas? Professor mandar?

Pisoteou a faculdade de artes visuais em 2004 pelos mesmos motivos, ora, onde já se viu?! Onde?!

Desenho: Bárbara Damas

Desenhou, seguiu desenhando e foi parar na faculdade de direito no mesmo período, onde, porque ninguém mandou, graduou-se. Nesse tempo torto, deu-se sua primeira exposição e Bárbara encontrou-se com seus traços. Foi em 2007, no SESC AMAPÁ, no evento “Aldeia SESC Povos da Floresta”.

No ano seguinte, convidada para ilustrar seu primeiro livro infantil, lançou-se no “Macapá – a capital do meio do mundo” pela Cortez editora. De lá, então desenha ali, resenha aqui. E aqui está: Penso que Bárbara Damas tem a arquitetura lúdica, os traços mais leves que conheço. É um estado. Pois que é de se estar debaixo duma árvore muito da chapeluda, verdíssima, quando se tocam os olhos nos traços de Bárbara. É de se estar, mas também pode-se estar a precisar dum lugar assim, sim, porque Bárbara é fornecedora. (Tenho pra mim, tenho para dar, que as linhas de Bárbara Damas elevam a qualquer estado de se estar.)

Há quem desenhe para expurgar, há quem desenhe para se ornamentar, há quem, há quem. Bárbara Damas, como se vê logo ao pingar vistas num de seus desenhos, Bárbara Damas desenha para que o mundo aconteça. O mundo e tudo o que há no mundo: pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo. É de se estar e Bárbara sempre estará, pondo tudo pra voar.

Quem disse que gente não é coração?

Desenho: Bárbara Damas

* Os desenhos de Bárbara Damas são parte integrante da galeria e dos textos da 79ª Leva.


(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)