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113ª Leva - 07/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

SÔBOLAS FRONTEIRAS

Por Carlos Trigueiro

 

Nilto Maciel
Nilto Maciel / Foto: arquivo pessoal

Em 15.04.2014, o carteiro que entrega a correspondência do prédio onde moro no Rio de Janeiro (entre o Jardim Botânico e a Lagoa Rodrigo de Freitas), deixou na portaria, dentre envelopes, jornalecos, convites e contas, embalagem proveniente de Fortaleza (CE), identificada como livro remetido por Nilto Maciel, autor que eu sabia também pesquisador, crítico, memorialista, editor, poeta, ensaísta e ficcionista talhado, penso, no seu ambíguo fazer literário: percepção evanescente do mundo ao redor e questionamento fixo sobre a própria existência.

O porteiro do prédio costuma entregar a correspondência dos moradores pela hora da Ave-Maria (expressão varrida pelo tsunami da tecnologia). Coincide com o meu retorno da caminhada diária à borda da Lagoa Rodrigo de Freitas, após suar por quatro, cinco, seis quilômetros conforme disposição interior e reação às paisagens e segurança exterior. Sim, também poderia dizer “sôbolas paisagens” – já que “sôbolas” é expressão arcaica, quinhentista/seiscentista, e significava “sobre as” como aparece em textos camonianos.

Tão logo cheguei a casa e abri a correspondência, estava lá o último livro publicado por Nilto Maciel: “Sôbolas manhãs” (Editora Bestiário, Porto Alegre/RS, 2014, 260 páginas). A dedicatória, surpreendente para mim, não veio manuscrita na primeira ou segunda página como em seus outros livros que me presenteou, mas impressa num papelote: “A Carlos Trigueiro presenteio este exemplar de ‘Sôbolas manhãs’. Tenho dúvida de ter ou não mencionado seu nome em algum dos artigos. Não pude organizar índice onomástico. Se quiser ler ou dispuser de tempo, ficarei muito grato. Tenho certeza de ter escrito um livro de boas ideias ou, pelo menos, com o melhor dos intuitos: o de divulgar os escritores brasileiros avessos ao ‘jornalismo de resultado’, à crítica tendenciosa e aos vendedores de pedras falsas. Fortaleza, 27/3/2014.”.

Ao ler o raro título do livro e sapear capa, cores, índice e quarta de capa, logo constatei uma coletânea variadíssima, dividida em quatro partes, abrangendo crônicas, memórias, registros de viagens, artigos, críticas, e no dizer do autor: “algumas considerações, nada científicas ou acadêmicas, a respeito da gênese (no indivíduo) da escrita literária, do processo criativo e da constatação de que a minha agonia – nada tem de fantástica ou sobrenatural. Porque tudo é feito de barro e servirá a outras construções ou simplesmente será levado ao lixo ou ao cemitério do esquecimento.”.

Nem a orelha do livro, com dados biográficos do autor (nascido em 30.01.1945, no sopé da Serra de Baturité), mencionando devaneios revolucionários de adolescente, nem seus muitos prêmios literários nacionais e estaduais, nem o conteúdo dos respectivos livros agraciados, dentre outros, “Tempos de mula preta”, “Os luzeiros do mundo”, “Punhalzinho cravado de ódio”, “A última noite de Helena”, “Pescoço de girafa na poeira”, “Vasto abismo”, nem mesmo “O cabra que virou bode”, transposto para a tela (vídeo) por Clébio Ribeiro em 1993, retratariam a personalidade incrédula de Nilto Maciel, mormente nos últimos tempos, do que suas próprias palavras transcritas no parágrafo anterior.

Outros comentários de Nilto Maciel também poderiam retratar seu estado de espírito nos últimos anos. Na página 112 de “Sôbolas manhãs”, por exemplo, ele registra que, ao publicar o primeiro capítulo de “De meu sol nado”, respondeu a amigos escritores que lhe aconselhavam cuidados, isso e aquilo sobre suas citações a respeito de gênios da Literatura mundial. Daí que a certa altura dos comentários, solta bem ao seu jeito: “Tenho lido gênios e medíocres também. A vida não pode ser feita só de alturas. É preciso chafurdar na lama também. Ser porco alguma vez.”.

Em verdade, nos idos 28 de janeiro de 2013, datado por ele mesmo na página 113 de “Sôbolas manhãs”, Nilto andava às voltas com a sua coletânea de artigos de mais de trinta anos e título estranhíssimo: “Gregotins de desaprendiz.” Na ocasião, registra não conseguir ler tudo o que os numerosos amigos escritores lhe enviam (diz ter 53 livros para ler), embora vivesse exclusivamente para a Literatura, e também confessa seu comportamento suicida: “ler e escrever sem parar, beber e fumar (já parei), viver em cidade grande, dirigir carro, comer em restaurante, ver televisão, etc.”.  Era assim que respirava, sofria e vivia a sua agonia literária, além de repugnar: “as editoras não investem em literatura, a mídia não dá a mínima importância ao livro…”.

Conheci Nilto Maciel em 1976, quando (aqui peço licença poética) se juntou a outros escritores “entre caminhos e palavras, diversos e afins”, e participou da invenção e publicação da revista literária “O Saco”, ousadia sem par naqueles tempos tupiniquins militarizados. E “O Saco”, esteticamente, parecia ou era mesmo não mais que uma espécie de envelope, na verdade um saco de papel encorpado, onde cabiam páginas soltas (ou quase) contendo textos literários de diversos autores brasileiros, cearenses ou não. Surpresa nacional: “O Saco” vazou sôbolas fronteiras do Ceará e inundou o Brasil.

Por acaso (ou os fantasmas que visitam os escritores me sopraram) dei de cara com a publicação dependurada numa tradicional banca de jornal chamada “Boa Sorte” no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, na esquina das ruas Aurelino Leal com Gustavo Sampaio. Na época, morador das redondezas e antigo conhecido do jornaleiro, pedi para ver e manusear a novidade. Acabei comprando, lendo e matutando sobre “O Saco”, pois, mesmo não sendo cearense, assunto com o Ceará no meio é como ainda costumo dizer e registrar: saí do Ceará em 09.12.1956, mas o Ceará nunca saiu de mim.

Naqueles anos, eu costumava viajar muito a trabalho por nosso continental País. E calhou de, em fins de 1976, ir à Fortaleza, onde procurei a turma empreendedora de “O SACO”. Encontrei, dentre outros sonhadores, o Nilto Maciel (que me confirmou não se lembrar disso). À noitinha, num bar pelas bandas da praia do Meirelles, ou seria da Iracema ou, talvez, do Náutico — Deus saberá, diria Saramago — enfileiramos muitas cervejas regadas a conversas literárias e no idioma exaltado que a fantasia impõe aos escritores marginais. No avançar da noite, da camaradagem e conversa fiada, afiada e desfiada sobre “O Saco” (que se extinguiria em 1977), tudo entre copos, gostos, desgostos, tira-gostos e mulheres praieiras, adquiri uma tela do pintor primitivista cearense Chico Silva (sua marca registrada: briga de galos coloridos, datada de 1975) que ainda mantenho na parede do refúgio doméstico onde costumo escrever, ler e matutar.

Muito mais tarde, por volta de 1994, reencontrei Nilto Maciel (ele também nunca me confirmou isso) em Brasília, no lançamento do meu livro de contos “O Clube dos feios & outras histórias extraordinárias”, no bar CARPE DIEM que se prestava àquele tipo de evento e reunia gente de toda arte, parte e sotaque: autores, leitores, jornalistas, editores, músicos, políticos, estudantes, curiosos, servidores públicos, caçadores de autógrafos, mulheres rueiras amadoras ou profissionais. Na época, tirei pequenas férias e vim ao Brasil especialmente para o lançamento do livro no Rio de Janeiro e em Brasília, pois havia anos trabalhava no Exterior.

Depois disso, e porque a vida e o mundo dançam sem ritmo, passo, fronteira e tratos combinados, e muito menos com papel-passado, ficamos, Nilto Maciel e eu, anos e anos sem trocar palavra, mesmo tendo retornado definitivamente ao País em 1996. Porém, como disse antes, “saí do Ceará em 9.12.1956, mas o Ceará nunca saiu de mim”, e, aos poucos, tomei ou retomei contato, via publicações na internet, com alguns escritores cearenses em atividade (Raymundo Netto, Jorge Pieiro, Pedro Salgueiro, Soares Feitosa e outros).

Entrevista com o escritor cearense Nilto Maciel Foto: Marcos Campos, em 31/01/2009
Nilto Maciel / Foto: arquivo pessoal

Creio que por volta de 2010/2011 através de cruzamentos de blogs e revistas virtuais, reencontrei Nilto Maciel. E foi assim que conheci o blog “Literatura sem Fronteiras” — editado por ele — e a publicar textos de sua autoria ou de autores amigos cujas obras passavam por seu ríspido critério. Trocamos muitos e-mails, livros, informações e ideias de projetos literários até que Maciel se encorajou a publicar alguns textos de minha lavra no excelente “Literatura sem Fronteiras”.

Presenteou-me vários de seus ótimos livros, dentre outros: Contos Reunidos, Volume I e Volume II, Quintal dos Dias, Gregotins de desaprendiz, Como me tornei Imortal, Menos vivi do que fiei palavras, Os Guerreiros de Monte-Mor e o já citado Sôbolas Manhãs. Sobre alguns desses livros escrevi minhas impressões e que ele publicaria em seu blog.

Convém registrar sua predileção por colecionar e juntar manuscritos, bilhetes, cartas e afins de autores de todo gênero e de toda parte, a tal ponto que dizia ter milhares de documentos encaixotados. A propósito, narrou que, certa vez, Soares Feitosa o convidara para captar composições ficcionais de vários autores para o seu prestigioso JORNAL DE POESIA. Pois bem, Nilto Maciel enviou-lhe 500 obras! Pode-se imaginar o espanto de Soares Feitosa…

E como eu disse antes, o mundo e a vida dançam sem ritmo e passo combinados… Pois bem, Nilto Maciel convidou-me para uma conferência que iria proferir em 08.11.2011 sobre o tema “Epistolário hoje: e-mails, blogs”, nada menos do que na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Claro que compareci ao evento e ouvi sua palestra (abordada no seu último livro “Sôbolas Manhãs”). Acadêmicos o receberam e Nilto Maciel saiu-se muito bem principalmente com a experiência adquirida no seu blog “Literatura sem Fronteiras”. Creio que até saiu um pouco do seu estilo áspero e provocou risos na plateia lendo pormenores e dados de seu blog. Houve bom e interessado público. À saída, entre outros seus amigos escritores, cumprimentei-o e trocamos abraços. Inutilmente, tentei lembrar-lhe do nosso primeiro encontro em 1976, mas ele me confessou quase ao pé do ouvido a penúria em que se encontrava a sua memória (fato que registrou na página 120 de “Sôbolas Manhãs”).

Nos anos de 2012, 2013 e início de 2014 trocamos muitos e-mails. E por mensagem de 18.04.2014, convidou-me para participar do seu próximo projeto literário – um livro só de entrevistas com escritores. Respondi-lhe que aceitava o convite, mas pedi-lhe um prazo para iniciarmos a entrevista, pois eu estava terminando de escrever um romance.

Em 19.04.2014, respondeu-me por e-mail dizendo-se agradecido com a minha concordância em participar do seu livro de entrevistas, e, como era próprio dele, aproveitou para criticar um de nossos amigos escritores que se recusara a colaborar em seu novo projeto. Na mesma mensagem me antecipou como seria o teor da entrevista. Aquele e-mail foi nosso último contato, já que dez dias depois, em 29.04.2014, aos 69 anos, em casa, sozinho, Nilto Maciel atravessou a fronteira final deste mundo. Recebi a triste e inesperada notícia por e-mails de amigos escritores cearenses, além de ler pela internet o resumo da fatalidade no jornal O Povo, de Fortaleza.

Numa singela homenagem ao escritor Nilto Maciel, neste conjunto de edições comemorativas pela passagem do 10º Aniversário da prestigiosa Revista “DIVERSOS AFINS”, na qual também colaborou, transcrevo abaixo o seu “PERFIL NÃO CONVENCIONAL” de autor, redigido e rememorado por ele próprio na abertura do livro memorialista “QUINTAL DOS DIAS”, e que, penso, resume convicções presentes no seu espírito:

                     “PERFIL NÃO CONVENCIONAL”

“VENHO DA SERRA, do verde do Ceará, mas meus pais e avós vieram do sertão seco. Do tempo do trabuco, da injustiça, da perseguição, de Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. Não esqueci isso. Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é a obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal. Ninguém me conhece, ninguém me lê. Sou marginal da literatura. Há muito deixei de sonhar com glórias e famas. Tudo isso é passageiro. O que é bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galardões, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances.”.

Sou Carlos Trigueiro, amazonense dos igarapés, igapós e tucumãs; paraense do Ver-o-Peso, açaí e  muçuãs; cearense dos areais, coqueirais,  do mar de esmeralda e dos ciriguelas nos quintais; carioca do Rio Comprido, bloco do Bafo da Onça, dos bondes com reboque e do chope à beira-mar; castelhano das ruelas e dos “bocadilhos” de Madri e, claro, dos “cochinillos”  de Toledo; romano da “Via Appia”, da “Via Veneto”, do café “ristretto” e dos vinhos a granel ; chinês de Macau, provador de chás e aprendiz de “Tai-Chi-Chuan à beira do Rio das Pérolas; americano do meio oeste, curtidor do frio polar e das cafeterias de Chicago; enfim, brasileiro batizado, leitor atabalhoado e aprendiz de escritor ultrapassado.

 

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101ª Leva - 04/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

Há pouco entramos num marco centenário de publicações. Agora, seguir adiante é manter acesa uma chama que sabe a sonho e alguma espécie de teimosia. Tem quem prefira classificar como resistência, mas pensar assim implica um pouco em firmar a ideia de que se está lutando contra uma força qualquer. Não seria esse o propósito de trilhar caminhos na seara cultural. É fato que algumas adversidades se agigantam no meio da jornada. No entanto, elas servem para nos mostrar que o jogo das oposições se estabelece muito mais por uma necessidade de se firmar posições e ideias, construindo diálogos e debatendo uma vasta gama de assuntos. Ao mesmo tempo em que se busca externar pontos de vista pautados nas mais diversas formas de expressão, poder fomentar o pensamento significa também estar aberto à mudança. É entender que, como organismos vivos racionais, estamos sujeitos a toda sorte de interferências e sugestões que nalgum ponto da trajetória são capazes de nos indicar vias substanciais de transformação. Em outras palavras, lidar com forças humanas é constatar a vulnerabilidade das certezas. Ao fim de tudo, é bom concluirmos que ninguém detém a patente da verdade. E o que faremos com tal arremate? De fato, são infinitas as possibilidades, mas cada pessoa configura as leituras seguindo uma ótica que mescla razão e sensibilidade. Precisamos da arte para romper a dureza dos dias quando nos percebemos seres aborrecidos pela rotina mecanizada. Necessitamos da arte enquanto prova inconteste de que estamos vivos e prenhes de saber e sabor. Somos arte na ruptura, na desconstrução e na inconformidade. Somos, enfim. Os acessos da Diversos Afins anseiam pela comunhão de signos advindos das mais distintas correntes de expressão. Assim, vamos buscando a expansão de um ideal de multiplicidade de rostos e vozes, todos eles com o que há de melhor: o vigor de sua individualidade. Vejamos, pois, que, diante de um mundo atravessado pelo caos do pensamento e da ação, há espaço para os olhares marcantes de gente como Victor H. Azevedo, jovem artista movido fundamentalmente pela atuação das forças que circundam seu caminho sensível. Na linha que agrega percepções inquietas sobre a existência, é oportuno frisar a conversa que tivemos com o escritor Dênisson Padilha Filho, autor que vem construindo uma obra valiosa na prosa contemporânea brasileira. Nos recortes poéticos de então, abrimos alas para as epifanias de Vicente Franz Cecim, Catarina Santiago, Leonora Rosado, Vander Vieira e Paola D’Agostino. Noutro ponto da edição, Larissa Mendes empresta seus olhos para toda a beleza e força presentes no documentário “O Sal da Terra”, filme sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. Há também o provocador percurso de Sérgio Tavares nas impressões sobre o mais novo romance de Carlos Trigueiro. Dispersa nos contos de Fernando Marques, Tadeu Sarmento e Diego Moraes, a vida mostra suas muitas faces. O olhar poético de Daniela Galdino confere ao mais novo disco do cantor e compositor Lirinha um lugar de destaque. “Diário de um ladrão”, romance de Jean Genet, é alvo dos esmerados apontamentos de Rafael Peres. Com estes e outros trânsitos possíveis, caro leitor, ofertamos a você uma 101ª Leva!

Os Leveiros

 

 

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101ª Leva - 04/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Um ultraje contra o Brasil, esse país de gente honesta

Por Sérgio Tavares

 

 

 

‘Mierdamorfose’ (7 Letras/172 pgs.), de Carlos Trigueiro, é um acinte. Uma bazófia, o apregoamento doidivanas de um despropério num país, que é de senso comum, foi instituído o politicamente correto, a caretice, o bon ton.

Como pode um cidadão, que se lê na orelha pós-graduado na Universidade de Roma, homem do mundo e autor de obras literárias de vulto, insinuar que, no Brasil, incorra o expediente da desonestidade, da corrupção, do toma lá dá cá, do jeitinho, do dólar na cueca?

Uma temeridade, um absurdo!

Só para registro, vamos ao livro: depois de despertar subitamente de ‘sonhos indecifráveis’, o professor universitário Anastácio Penaforte se percebe metamorfoseado. Tudo se inicia com um estremecimento incontrolável, seguido de uma ‘sensação de vislumbre generalizado’, que evolui para uma espécie de sexto sentido e, por fim, para a instalação de uma ‘fenomenal consciência’.

Tal processo insólito, que muito se assemelha ao sofrido por Gregor Samsa na novela ‘A metamorfose’, do tcheco Franz Kafka, não o transforma num inseto monstruoso, mas desencadeia anormalidades físicas, como uma descoloração do seu cabelo para um tom arruivado, o comprometimento da fala numa insuspeita língua presa e o soltamento de ‘uma coisa escura e pastosa da pele’, que torna a água do banho lamacenta e fétida.

Sentindo-se, então, ‘uma pessoa limpíssima, cristalina, decente, proba, digna, boa, honrada, íntegra’, Anastácio Penaforte passa a semear radicalmente a honestidade, tanto contra os desvios particulares quanto os públicos.

Seu périplo em defesa dos preceitos morais tem início pela faculdade onde leciona Literatura Comparada. Adentra, sem cerimônia, o gabinete do diretor e confessa suas infrações escoradas na autoridade de professor, entre os quais beneficiar alunas com a garantia de levá-las para cama e a fraude na autoria de um livro. O docente superior fica pasmo, credita o testemunho a um surto mental, e endossa um afastamento temporário.

Ato contínuo, o professor encaminha-se a uma delegacia próxima e, diante de um inspetor de polícia, averba uma ‘declaração espontânea de supostos delitos’, acusando-se de ter usado celular em locais proibidos, comprado produtos piratas, fumado maconha, desrespeitado a faixa de pedestre, apostado no jogo de bicho, perseguido alunos gays, mentido para escapar do serviço militar e cabulado reuniões de condomínio, dentre outros.

O próximo passo é uma consulta com o doutor Rubião (n. do resenhista: curioso esse nome) que não encontra nenhum mal patológico, associando tais mudanças a um fator fantástico, em especial a impossibilidade de pronunciar a sílaba ‘po’, trocando-a pelo som do antigo ‘ph’, a exemplo de ‘phoder público’. É inclusive conduzido ao checkup de uma fonoaudióloga, contudo a causa da anomalia permanece em mistério.

Ora, até este ponto o livro transcorre sem problemas. A gravidade dá corda adiante. Durante o testemunho na delegacia, Anastácio Penaforte anuncia o interesse de articular, junto ao Senado Federal, a implantação da ‘Comissão Nacional da Radical Honestidade’, e, veja só estimado leitor, a iniciativa provoca calafrios, desarranjos, desmaios, febre, preocupações nos assessores e no próprio senador Justo Varejão Raposo Neto.

O que estaria dando a entender o autor com isso? Passaria pela sua cabeça desconfiar da lisura, da incorrupção, da retidão, da probidade do parlamento brasileiro? Será que possa cogitar que haja desvios na conduta modelar de nossos políticos?

O caso é que por praticar, com seu discurso, ‘um gravíssimo crime político contra a segurança nacional’, como assinalado pelo senador Varejão, o professor Anastácio Penaforte é retido em prisão preventiva. Mas, no confinamento, se desdobra um desatino ainda maior. O preso leva uma vida de marajá, com direito a jornais de escolha, livros e outras regalias que, obviamente, não condizem com a realidade, só aceitas na mais delirante ficção.

Não se pode negar, todavia, que a remessa de leitura do condenado seja composta por obras imprescindíveis. Assim como a narrativa esteja amarrada por um domínio técnico preciso, a todo momento dialogando com a literatura, que a torna irresistível da primeira à última página. No entanto, isso não invalida o caráter ultrajante de ‘Mierdamorfose’ contra o Brasil, esse país de gente honesta e exemplo mundial de educação, saúde e segurança.

Dito isso, não me resta outra opção senão a de cobrar às autoridades a detenção preventiva do autor Carlos Trigueiro, da mesma forma que Machado de Assis, Lima Barreto e Mario de Andrade deveriam ter sido detidos em suas épocas.

N. do editor.: Dominado pelos vapores intoxicantes que exalam as páginas deste livro, o resenhista compôs o texto munido da mais fina ironia.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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73ª Leva - 11/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Fao Carreira

É recompensador perceber que a unanimidade não combina com o universo da arte e da literatura. Reconhecer isso significa elevar a multiplicidade de expressões a uma potência deveras indefinida. Nesse ínterim, cabe falar de formas distintas, ou melhor, vozes distintas a compor um vasto painel cênico. E certamente a contemporaneidade nos trouxe mais desafios do que algo consolidado. O que construímos hoje é parte ativa de um discurso que parece longe de soar definitivo. Desconfiemos, pois, de qualquer tentativa de universalizar verdades, não perdendo de vista o bonde da história bem como as referências necessárias propostas por ele. Como conceber as criações ante nosso tempo? Ser vanguardista é ainda uma missão necessária e palpável? De qualquer modo, essas são apenas algumas das muitas indagações que podem flutuar por sobre nossas sôfregas trajetórias. Embora uma curiosa e delicada sensação de liberdade possa impregnar os instantes do hoje, criar sempre será um processo complexo e que requer um vigoroso mergulho nos signos do mundo. No girar da ciranda dos feitos, não há como deixar passar certas leituras e apreensões. É quando a voz de gente como Nuno Rau, Vera Lúcia de Oliveira, Cícero Galeno Lopes, Valéria Tarelho e Hilton Valeriano nos recorda da matéria sensível e densa de que somos feitos. Através de sua prosa, Carlos Trigueiro, Tere Tavares e Nilto Maciel redimensionam sentidos para a vida. Em nossa pequena sabatina, a escritora Marilia Arnaud fala sobre seu primeiro romance, Suíte de Silêncios, e revela alguns de seus percursos íntimos pelas letras. Num trajeto que sabe a memórias e reflexões, Yara Camillo promove sua estreia no caderno de teatro. O poeta e editor Gustavo Felicíssimo nos conduz por entre as tramas sensíveis de Rascunhos do Absurdo, livro de poemas de Jorge Elias Neto. O olhar apurado de Larissa Mendes sonda o legado do cineasta Rogério Sganzerla. Em nosso Gramofone, paira toda a suavidade de Presente, disco da cantora e pianista Delia Fischer. Ante as manifestações aqui presentes, reina intensa e harmônica a exposição de desenhos e pinturas de Fao Carreira. Por tudo isso e, principalmente, pelo desejo firme de continuidade, a Diversos Afins celebra uma nova e gratificante Leva.

 

Os Leveiros

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Carlos Trigueiro

 

Arte: Fao Carreira

 

 

MOCHILAS FABULOSAS

 

Nesses tempos pós-modernos em que os objetos enxergam, detectam, espionam, memorizam, calculam, filmam, tocam, sentem, reproduzem e falam o que bem entendem sem limitações de lugar, distância, fuso horário ou emoções, ocorreu o seguinte diálogo:

Mochila Surrada: “Nossa, que cara feia, aconteceu alguma coisa?”

Mochila Nova: “Não aguento mais esse burro que me carrega! O animal só falta meter a casa inteira aqui dentro. Estou me estufando toda pra acomodar dois celulares, carteira cheia de documentos e pouco dinheiro, cartões de visitas que não acontecem, santinhos de amigos candidatos a isso e aquilo, maço de cigarros, fósforos, vela pro santo, minidicionário com a nova ortografia, moedas soltas, esferográfica sem carga, papel pro baseado, par de head-phones, caderno de espiral, jornal de anteontem… Arre! E quatro livros virgens que não são lidos nunca, três porta-retratos de namoradas antigas, lanterna sem pilha, talão de cheques, volantes de loteria, proposta de financeira pra financiar a moto sonhada, marmita vazia, par de tênis e boné sobressalentes, estojo com escova de dentes e tubo de pasta, fita dental, bermuda pra consertar, miniguarda-chuva mofado, cotonetes, cortador de unhas, raquete de tênis com o cabo pra fora, canivete… Ufa! Camisinhas no invólucro, calção de banho, camiseta de grife falsificada, lata de refrigerante diet a consumir, embalagem de seis iogurtes com cereais, dois halteres surrupiados da Academia, figa pra cortar mau-olhado, relógio de pulso parado, chaves de casa, saco de amendoim, comprimidos de Viagra, frasco com cristais de gengibre… Arre! Ufa! E assim essa besta vai a toda parte, não liga se estou tomando chuva ou pegando sol, vai esbarrando nas pessoas e em outras mochilas na rua, no ônibus, no metrô, e eu levando pancada, sendo empurrada, e ninguém pede desculpa… Arre! Pior é que essa besta não me dá a mínima, nem me olha, claro, estou nas suas costas… Pra mim chega! Hoje mesmo, na hora do rush do metrô, vou abrir a minha costura do fundo e deixar cair no chão toda essa porcaria que carrego dia e noite, e noite e dia…”

Mochila Surrada: “Calma! Precisas ter paciência com essa nova geração. O animal que te carrega ainda está em formação. Já passei por tudo isso que me contaste. Mas hoje, vês como estou magrinha? A besta que me carrega entendeu que o mundo dá muitas voltas e há outras prioridades na vida. Então, foi largando tudo que não servia de imediato, e agora só me deixou com essa protuberância que sobressai bem aqui no meio!”

Mochila Nova: “Mas eu estou nas últimas… Aqui dentro não cabe nem mais um palito! Sim, vi que estás magrinha e só tens essa protuberância bem aí no meio… Afinal o que carregas agora?”

Mochila Surrada: “Na verdade, com o passar do tempo, a besta que me carrega começou a beber, largou emprego, amigos e namoradas, e então se afeiçoou a mim, dia e noite, noite e dia, morre de ciúmes e me isolou de tudo e de todos… Bem, resumindo, estou grávida de seis meses!”

 

 

***

 

 

 O BESOURO E A LAGARTA

 

Na linguagem dos insetos, um besouro cascudo, com asas a mil por hora, equilibrou-se no ar e, provocante, disse a uma lagarta que sanfonava o corpo, devagar, quase parando, no tronco do marmeleiro:

“Oi! Lagarta! Olha pra mim! Vês como sou resistente, esperto, rápido e voo para onde quero?! E tu, pobre lagarta, és molenga, tens o corpo flácido e te arrastas lentamente. Aliás, acho que não sabes nem mesmo se vais ou vens. Quanto a mim, o zumbido das minhas asas é exaltado mundo afora por escritores, poetas, cineastas e outros artistas. Sou citado até na Bíblia! Deus quando criou o mundo me deu uma nobre missão…”             

E a lagarta que sanfonava o corpo pelo tronco do marmeleiro, ao ouvir a provocação do besouro respondeu:

“É verdade o que dizes, mas só parcialmente, pois esqueces que a principal diferença entre nós dois está na natureza da nossa missão. Tu és aquilo que chamam de produto final e acabado, tuas serventias ou missões, como queiras, são eficientes, porém limitadas, enquanto eu, lagarta molenga, sou um dos bichos escolhidos pelo Criador – que valorizou ao máximo a minha lentidão, para a mais preciosa das missões…”

O besouro ouvindo aquilo se enfureceu:

“Como te atreves, lagarta pegajosa? Por acaso tens missão mais nobre que a minha? Maior nobreza do que o zumbido que produzo com a velocidade das minhas asas? Velocidade essa que também serve de inspiração para as fábricas de aeronaves e de tantos outros instrumentos? Ora, lagarta, eu não imaginava que fosses tão presunçosa! Então me diz logo o que há de precioso na tua lentidão?”            

Ao que a lagarta replicou com expressão calma, mas definitiva, fazendo o besouro zumbir e fugir:

“Bem, como eu já disse antes, tu és, na Natureza, um ser final e acabado. Enquanto eu, carrego no meu corpo lento e sanfonado uma preciosidade, pois um dia serei borboleta sedosa e dourada, ou azul, ou prateada, ou estilizada, enfim, carrego a síntese perene do Universo, ou seja: trans-for-ma-ções!”

(Carlos Trigueiro nasceu em Manaus e foi alfabetizado pela Mãe aos 3 anos em folhas de jornal estendidas pelo chão. Viveu “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu em Manaus, Santarém e Belém, onde soube de canoas, igapós, socós, jaraquis, caboclas, pororoca, açaí, tacacá, maniçoba e do Círio de Nazaré. Viveu no Ceará dos 8 aos 12 anos, onde aprendeu de mar, dunas, falésias, jangadas, seriguela, agreste, sertão, arigós, e romarias a Canindé. Aos 13 foi pro Rio de Janeiro, onde assimilou morros, carnaval, mulatas, Copacabana, bondes, jogo do bicho, macumba, Maracanã, trens suburbanos, serviço militar, “a vida como ela é” do Nelson Rodrigues. Ainda menor, trabalhou para custear os estudos. Depois, viu outros Brasis por terra, mar e ar. Estudou na FGV e na Universidade de Roma. Trabalhou na Espanha, Itália, China e Estados Unidos. Quando crescer tentará ser escritor)