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153ª Leva - 01/2024 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Motel Destino. Brasil. 2024.

 

 

Nono longa-metragem ficcional do diretor cearense Karim Aïnouz, Motel Destino fez sua estreia no Festival de Cannes de 2024, sendo aclamado pelo público, porém sem prêmios. É estrelado pelo veterano ator Fábio Assunção, e pelos jovens atores Iago Xavier e Nataly Rocha.

Heraldo (Iago Xavier) é um jovem de 21 anos, morador de uma cidade no litoral do Ceará, que faz negócios escusos para uma misteriosa gangue que serve a uma pintora local. Apesar de sua atividade ilícita, Heraldo sonha mesmo em juntar dinheiro para ir morar em São Paulo e procurar por seu desaparecido pai. Porém, por causa de uma mal sucedida tarefa, o jovem é obrigado a se esconder num motel na periferia da cidade e permanece lá trabalhando clandestinamente. Então conhece Daianna (Nataly Rocha), que é a gerente do lugar e casada com Elias (Fábio Assunção), o dono do estabelecimento.

Elias, a princípio, acolhe bem o rapaz, que ajuda na manutenção do estabelecimento, porém, como era de se esperar, Heraldo e Daianna se envolvem amorosamente, de maneira furtiva. Assim, à clandestinidade do trabalho do rapaz se soma a clandestinidade erótica do encontro com Daianna.

 

“Motel Destino” / Foto: divulgação

 

Motel Destino, assim como Praia do Futuro (2014), é um filme de cores contrastantes e luz forte, ensolarado. Em Praia do Futuro, a luz solar e o clima quente do litoral nordestino contrastam com o frio e o cinza de Berlim, onde metade da história se passa. Em Motel Destino, não há essa oposição. A distinção neste filme se dá entre a liberdade do corpo e o confinamento do espaço, que não é só físico, mas também o da precariedade da existência, um confinamento social.

O filme está cheio de reminiscências, tanto da vida nordestina, que vai do sotaque da fala, aos modos corporais e às formas de convivência locais, mas sobretudo de reminiscências (ou seriam referências?) de seus filmes anteriores, particularmente de uma de suas primeiras obras, O Céu de Suely (2006). Assim, embora em Praia do Futuro reapareçam o verde do mar, as hélices das usinas eólicas, as dunas e as falésias das praias, em O Céu de Suely há mais similaridades de enredo, como citações cinematográficas, algumas mais evidentes, outras mais sutis.

Tanto Suely (Hermila Guedes), do filme de 2006, quanto Heraldo, protagonistas de vida precária, querem emigrar do Nordeste (particularmente do Ceará) para São Paulo como fugitivos da existência sem futuro.  As praias cearenses podem ser do futuro, mas o destino do precariado não. Ambos buscam reencontrar pessoas que perderam: Suely, o pai de seu filho e Heraldo, seu próprio pai, para então poderem seguir em frente. Suely vende seu corpo numa rifa, Heraldo de certa maneira também vende o seu num trabalho subalterno e clandestino. Mas diferentemente daquela, que não encontra prazer em seu ato, Heraldo busca em Daianna uma alegria erótica genuína.

Já o nome dessa personagem, vivida por Nataly Rocha, é uma sutil referência à canção que abre O Céu de Suely, uma versão do clássico do grupo Bread, cantada pela cantora Diana. E, curiosamente, Motel Destino termina precisamente tal como se inicia esse filme anterior, dando a entender que a obra cinematográfica de Karim teria fechado um ciclo. Ora, ambas as cenas musicais, filmadas em super-8, são passagens utópicas de um destino mais feliz.

Esses filmes citados se passam no Ceará, terra natal do diretor. Como mencionado, o cinema de Karim é feito de reminiscências, onde se destaca e resplandece a luz solar desse Estado Nordestino, que abre aos personagens uma vida intensa, porém sem futuro, quando a fuga parece ser a melhor opção. No caso do jovem Heraldo, o motel é primeiramente o lugar onde ele é vítima de um logro. Depois, já trabalhando lá, torna-se um lugar de refúgio. Finalmente, torna-se junto a Daianna um recôndito lugar para a existência libidinal e amorosa, entre os gemidos obscenos dos demais frequentadores. Esses gemidos, que se sobressaem do cenário de luzes fosforescentes, perdem sua característica obscena para se tornarem o fundo sonoro dos encontros do casal. Mas, há também a figura tanto cordial quanto amedrontadora de Elias, para compor o triângulo amoroso desse roteiro.

 

“Motel Destino” / Foto: divulgação

 

Elias, vivido em grande participação por Fábio Assunção, é o dono do estabelecimento e marido de Daianna. Sua recepção de Heraldo é inicialmente cordial. Mas tal cordialidade aparente é ambígua como no mito cordial do brasileiro, tanto econômica quanto emocionalmente. Heraldo é a rigor um trabalhador barato para Elias, pois consegue fazer pequenas obras sem cobrar, ou seja, através de trabalho não remunerado. O fato de ser um foragido o coloca numa posição ainda mais precária. Mas Heraldo não é tanto um rival amoroso para Elias, quanto também é um objeto sexual, já que a “macheza” encenada de Elias esconde uma dissimulada homoafetividade.

Como em outras obras, o sexo tem como pano de fundo a violência. Os filmes de Karim procuram fazer uma mediação entre as promessas tropicais da liberdade erótica do corpo e as necessidades de sobrevivência que quase sempre tomam um rumo violento. Esteticamente, há uma composição entre o contraste das cores e dos filtros, acentuadas em Motel Destino pelo ambiente ao mesmo tempo libertino e clichê, e a excitação da música que, nesta e em obras anteriores, assume os timbres extáticos das festas eletrônicas.

O filme, portanto, não é o retrato de nenhuma brasilidade nordestina profunda e sim a construção de um imaginário mais rico de nuances que desafia a monocultura estética, política, ideológica e amorosa que tomou conta do país, com a recente emergência ressentida dos movimentos de extrema-direita.  Este desafio fica claro numa das últimas falas de Heraldo, após um momento paradigmático que traz a reminiscência de uma cena de antiga novela televisiva de Jorge Amado.  Retoma-se, em outra chave, mais afetiva, um tema típico da cultura brasileira, a relação entre o clima tropical, com sua exuberância natural, e o transe dos corpos, que inclui também a violência. Trata-se de fazer emergir no cinema de película (com a qual o filme foi gravado) o cromatismo das luzes abundantes e o vigor das formas eróticas do corpo para o enfrentamento da precariedade da existência. Neste filme, em particular, do choque entre o estreito das condições sociais e o excesso da libido saltam as faíscas de mundos possíveis, mais plenos.

 

 

Guilherme Preger é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog Resenha Cibernética e faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Um escritor e a força de sua obra. Nada melhor do que a conjunção desses dois componentes para conferir sentido a qualquer tentativa de desferir linhas a respeito de um criador. E não há dúvida de que o motor da leitura é a gênese de todo o processo criativo, bem sabemos. No caso de Anderson Fonseca, o que ousamos denominar por propriedade narrativa vem dotado dessa noção primeira de que um autor, em matéria de escrita, é parte integrante e viva daquilo que lê. Mas eis que isso não basta e, no caso específico de Anderson, um aspecto chama atenção em especial: o domínio sobre a condução das histórias.

Como todo percurso autoral impõe sabermos de suas epifanias, nada melhor do que abordarmos alguma essência que perfaz obras. Com o vigor de quem cria mundos paralelos, reforçando dimensões possíveis do humano, Anderson Fonseca estreia em livro com os arremates densos de “Notas de Pensamentos Incomuns”. Naquele instante, fica claro para quem lê que o território complexo e instigante do realismo fantástico irá marcar a trajetória do autor com pungência. Nesse primeiro momento, além de vislumbrar dimensões paralelas ao mundo tangível, Anderson mergulha de cabeça na vastidão de mistérios que nos atravessam. Mais tarde, a capacidade inventiva e o controle sobre as estratégias narrativas vêm somar esforços e, ainda com o encantamento proporcionado pelos ímpetos do fantástico, surge “Sr. Bergier & Outras Histórias”, livro cujo tom confessional e quiçá epistolar envolve o leitor e o conduz como testemunha dos acontecimentos minuciosamente relatados.

Hoje, o momento que marca essa entrevista feita com Anderson aponta para uma outra faceta importante do escritor, qual seja a de não passar impune sobre os imperativos de seu tempo. E ele o faz, impregnado de lucidez e sensibilidade, quando oferta ao mundo seu mais novo rebento, “O que eu disse ao General”. Os contos presentes ali encerram uma atmosfera de resistência e poesia, através da qual a voz do autor se insurge contra a tirania universal, que não se restringe àquela associada a determinados personagens da história do mundo, confinados a contextos geopolíticos, mas sobretudo aos pequenos grandes delitos do cotidiano que protagonizamos. Diante desse rico painel de constatações, esse carioca que hoje reside em Brejo Santo (Ceará), expõe um pouco de si numa conversa regada fundamentalmente aos sabores proporcionados pela Literatura.

 

Anderson Fonseca
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – “O que eu disse ao General” é uma obra que, fazendo alusão a figuras e situações históricas, rompe barreiras e se situa num plano bastante amplo, capaz de dialogar com práticas cotidianas tão nossas. Diria que o livro pode ser também entendido como um levante contra a tirania sob as suas mais variadas formas?

ANDERSON FONSECA – Eu diria que sim. Mas a questão central em relação à tirania é a opressão do Estado sobre o indivíduo. O indivíduo, ao abrir mão de seu poder e doá-lo a outro, permite que este, seja quem ele for, oprima sua liberdade, seu desejo, seu erotismo. Quando o Estado decide e age em vista de reforçar essa liberdade (o erótico, a fruição do corpo movente no espaço), estabelece-se uma harmonia. Quando não, surge a opressão do poder e a morte. A realização do indivíduo está associada intimamente à Vida em sua plenitude Erótica. Os conflitos que assisto pela TV são uma negação do erótico, da afirmação da vida.

DA – A frágil liberdade que gozamos, sobretudo numa era de abundante informação, faz parte de um ciclo transitório ou dificilmente seremos livres para conjugar pensamento e ação?

ANDERSON FONSECA – Enquanto o homem tiver certeza, ele será escravo de qualquer ideologia, sofisma, dogma. É necessário, para que haja uma liberdade efetiva, de forma pragmática e não conceitual, que a dúvida se torne um exercício do pensamento. Para ser mais claro, o homem é escravo de suas certezas, porque estar certo de algo é mais confortável ao espírito. Entretanto, quando a incerteza emerge no pensamento, o homem com todas as suas forças, temendo a verdade, ergue contra este terrível “monstro” as mais fortes muralhas dogmáticas, as quais são reforçadas com novos dogmas. Não ter certeza, contudo, seria a plena liberdade, pois a incerteza em sua essência abarca qualquer afirmação autoconsistente, ela não rejeita e não invalida, apenas desconfia. Entretanto, para que a dúvida se torne pragmática, a mudança deve partir da educação presente nos sistemas de ensino, deve partir de sua principal base, o professor. O mestre, hoje presente nas escolas, ou defende sua fé religiosa, ou seu ateísmo, e ambos levam como fundamento de suas certezas os livros sagrados ou a ciência. O mestre, antes, deveria exercer a dúvida para que o aluno escolha seu caminho e, em sua jornada, respeite outros caminhos. Hoje, além da religião e ateísmo, em que seus defensores tomam como referência livros de autores cujas culturas e visões são reféns do tempo, surgem os fiéis da mídia. Vejo muitos crentes da internet e que a usam como meio de propagação do ódio, intolerância, preconceito contra a diferença. Eles não têm dúvida. Não tenho fé e nem por isso não tenho paz de espírito. Meu pensamento é uma porta aberta para outros pensamentos. Busco exercer a dúvida como uma forma de abertura para outras percepções. E, enquanto houver crentes a defenderem com armas seus dogmas, haverá guerras e massacres. Enfim,acho que a dúvida é chave para a tolerância e a liberdade.

DA – O cenário de tensões presente em “O que eu disse ao General” vem também revestido por um manto poético.  Nessa perspectiva, o exercício da subjetividade entra em cena e conduz as narrativas num contraponto às situações extremas ali relatadas.  O que dizer desse tão vigoroso recurso?

ANDERSON FONSECA –Escrevi essa obra mergulhado em um insondável silêncio, durante a noite,para ouvir apenas as palavras que sussurrariam em minha mente. A poesia, segundo Bachelard, “é um olhar silencioso que suprime o mundo para fazer calar seus ruídos”. A guerra é um ruído em nossa realidade, a melhor forma de entendê-lo é silenciando sua voz para que as imagens sobressaiam. Se o ruído fosse permitido a invadir as letras, as palavras não se fariam ouvir. Bachelard ainda escreve que a poesia “deixa vivo, sob as imagens, o silêncio atento”. O silêncio emergiu no instante em que, vendo as imagens da guerra, não poderia ser narrado como era diante dos olhos, mas de outro modo, como um símbolo do homem, de sua decadência moral, metafísica e política.

Eu poderia ter escolhido outra forma, mas essa forma não corresponderia à necessidade que a minha alma buscava.A linguagem escolhida é um reflexo dos conflitos internos que eu sofria naquele momento. Essa mesma linguagem não é somente um reflexo, mas a expressão máxima de meu espírito. Eu deveria dizer daquele modo, porque de outro, estaria me traindo.

DA – De algum modo, escrever é um ato de redenção?

ANDERSON FONSECA – Sinto certa repulsa com palavras cujo significado é teológico. A palavra redenção inevitavelmente me remete ao mito messiânico da religião judaico-cristã. Quando termos como esse são aplicados à Literatura, fico apreensivo. Não consigo ver a Literatura com uma ótica teológica e evito termos que carreguem esse sentido. Creio que o escrever não é a expressão do pensamento, mas seu construtor. Acho equivocada aquela frase do Descartes: “penso, logo existo”. Descartes não faria tal afirmação se não fosse pela linguagem, ou seja, a linguagem constitui o pensamento, o elabora. Em seu lugar, eu diria: “escrevo/falo, logo existo”. Portanto, no instante em que me debruço sobre o papel, pego a caneta (não tenho o costume de escrever primeiro no computador) e traço a primeira frase, estou aprimorando meu pensamento, estou o construindo.

DA – Em “Sr. Bergier & Outras Histórias” você transita pelo instigante e complexo território do realismo fantástico. Que desafios engendram essa sua vertente criativa? 

ANDERSON FONSECA –Creio que o realismo fantástico não seja tão fácil para trabalhar, porque é preciso distorcer a realidade para revelar sua natureza oculta. Penso em Murilo Rubião, que obsessivamente revisava seus contos até a exaustão, penso em Ivan Bunin, outro obsessivo pela revisão de suas obras, e Buzzati, mais um obsessivo. Nunca me sinto satisfeito com o texto, e confesso que me sinto mais feliz enquanto estou escrevendo, mas, depois que o conto é publicado, fico melancólico e frustrado, pois passo a pensar que poderia estar melhor, e aí começo a revisar. O maior desafio é encontrar o argumento adequado para a ideia, e nem sempre é fácil. Depois se inicia a luta com a palavra até o ajuste final. É claro, tudo feito com bastante humor. Lembro que Flaubert escreveu: “eis o que a prosa tem de diabólico, ela nunca está terminada”. Flaubert foi outro autor obsessivo na tentativa de conciliar o significado que a palavra carrega a uma forma proporcionada pela literatura. Acho que é a luta de todo autor.

DA – Essa, digamos assim, angústia criativa é capaz de impactar radicalmente as suas convicções de autor?

ANDERSON FONSECA –Sobre esta questão colocada, eu diria que se trata da história de uma ideia. A ideia que tenho para um conto não surge do nada, mas contém em si uma história, ou seja, uma relação com outras ideias apanhadas de diversas leituras, essa história que a ideia carrega consigo, que a estrutura, eu não posso negar, mas admiti-la. O que acontece comigo é que esta ideia será reformulada, assumirá um novo sentido em outro contexto (forma). Nesse sentido, eu reinvento a cadeia de ideias que construíram esta última, quando atribuo a ela um novo formato, o qual é a narrativa em que ela se reflete. A dúvida, portanto, de se estou sendo original ou não, não me preocupa. Acho importante o diálogo de uma obra com outra, até porque a própria história em si é uma sucessão de ideias.

Quando se escolhe ser escritor, trazemos conosco a glória e a miséria. Depois de sermos escritores, apenas o texto carrega nossa glória e felicidade, tudo demais se torna miserável. Tornamo-nos miseráveis financeiramente, no amor, na amizade, na vida e na saúde. A certeza que temos é que a obra viverá. Eis a condição que assumimos: sacrificamos as demais coisas (efêmeras)pela perenidade da palavra, e então nos tornamos miseráveis. É como um deus que assume a forma humana, despindo-se de sua glória para sofrer as vicissitudes do tempo. Ele se torna miserável para que sua palavra dure pelos séculos vindouros. Não há glória em ser escritor, a glória pertence ao texto.Por isso, a humildade diante do Mundo e do Verbo, o qual veneramos.

Anderson Fonseca
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Partindo da ideia de que tudo sempre esteve no mundo, o que confere mais propriedade à obra de um autor?

ANDERSON FONSECA –Se tudo sempre esteve no mundo, se tudo é eterno, se a existência é simultânea ao espaço e ao tempo, o que resta ao autor?As imagens, porque elas surgiram quando o homem surgiu, pois são o fruto de uma relação sujeito/matéria. Lembro-me de uma parábola do profeta/poeta Jeremias. Um dia, Jeremias desceu as escadas da casa e viu o jarro de um vaso quebrado. O oleiro pegou o vaso quebrado, trabalhou o barro, e reconstruiu o vaso. O vaso já estava ali (a forma), assim como o barro (a matéria); foi necessária, contudo, a visão (ideia) de um artista para (re)modelar o barro e dar-lhe a forma imaginada. A matéria preexiste, mas o artista a destrói (destrói seu signo), refaz (atribui-lhe outro significado) e doa-lhe a forma que lhe “parece bem aos olhos” (Jeremias 18:4).

Se tudo já existe, se a matéria sempre existiu, a propriedade do autor encontra-se no modo como ele trabalha as imagens, como ele atribui a elas um conteúdo, uma relação de sentido. Este molde é um reflexo do sujeito criador, do indivíduo.

DA – O modo como você articula as imagens é fundamental na percepção de um livro como “Sr. Bergier &Outras Histórias”, algo que promove aproximações com a linguagem cinematográfica. A sétima arte é um universo de referências que lhe atrai conscientemente?

ANDERSON FONSECA –Não, sou atraído mais pelas histórias em quadrinhos como as da editora Vertigo e DC Comics. O que me atrai nelas é a ciência vista como uma fantasia humana. Além disso, o enquadramento e a sequência de ação e diálogo me chamam bastante a atenção. Nos últimos meses, por exemplo, tenho lido Planetary e O Inescrito, duas revistas esplêndidas.

DA – O quanto a sua feição de educador reflete no seu olhar sobre a literatura? Você busca pontos de convergência?

ANDERSON FONSECA –Ser um educador é um imenso desafio.Diariamente, nos confrontamos com realidades mais absurdas que a ficção, realidades que nos põem a indagar sobre a estupidez humana, como também sobre sua graça e beleza. Estou em confronto com a realidade a todo instante. Minha literatura é uma forma de devolver o soco que recebo. Quando estou em sala de aula, além de ensinar a língua e sua poética, busco apresentar o campo de batalha que é a vida. Saio com a vontade de socar o mundo, e aí a palavra carrega em sua força o soco devolvido. Meus alunos sentem a mesma vontade, mas é através da escrita que eles, como boxeadores, nocauteiam o mundo que os aflige.

DA – Somos um país de potenciais leitores subestimados?

ANDERSON FONSECA –Somos um país de leitores e autores subestimados. Vivemos ainda a velha frase de Lautréamont: só os poetas leem poetas. Só escritores brasileiros leem escritores brasileiros, ou só os escritores brasileiros se leem. Esta frase necessita sofrer drásticas mudanças, porque ainda hoje, embora se veja uma grande produção de livros de autores nacionais, não existe projeto de distribuição desses livros para atingir os leitores brasileiros, de forma a disputar de igual para igual com autores estrangeiros. Percebo a juventude brasileira cultuar estes autores estrangeiros, e menosprezar alguns autores nacionais (nem todos, há quem escape). Isso precisa mudar.

DA – Na sua opinião, de que forma podemos alterar esse cenário?

ANDERSON FONSECA –Não sei como alterar esse cenário, sinceramente. Trata-se de algo enraizado em nossa cultura. Talvez devêssemos começar pela educação, atualizando os professores a respeito dos autores brasileiros da geração 00 até os mais recentes. O professor é o canal certo para atingir leitores jovens e famintos de obras boas, mas se eles não estiverem atualizados e propensos a conhecer o cenário atual, os alunos muito menos estarão.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

ANDERSON FONSECA –A questão “pós-modernidade” é ambígua.Quando a ouço, sinto-me lançado contra a frase de Rimbaud: “é preciso ser absolutamente moderno”. Ter uma posição a respeito da pós-modernidade deixa-me estranho, pois não sei claramente o que é. Mas quando se fala em mercantilização da arte, penso isso ser necessário, porque a arte é uma forma de mercadoria. Nessa ótica, o livro é um produto que deve ser vendido. Entretanto, o artista não pode se despersonalizar e se tornar ele uma mercadoria, isso leva a uma descaracterização de si mesmo, de sua obra e arte. Não endosso, portanto,  que escritores que hoje assumem uma postura diante de sua obra e arte, amanhã, depois da fama, mudem essa postura.  A crítica deve desvincular-se um pouco do jornalismo que, em geral, direciona o discurso a favor de certas obras de duvidoso mérito. O artista deve abandonar a República, porque ela não o quer dentro de seus muros.

DA – “Notas de Pensamentos Incomuns” marca sua estreia em livro. Depois disso, vieram os outros dois que mencionamos anteriormente por aqui. Diante desses percursos, quem é hoje Anderson Fonseca e quais marcas traz consigo?

ANDERSON FONSECA –Sou um homem mais paciente  graças à palavra.  E graças à literatura conservo alguns sonhos, mas percebi, ao olhar para o mundo, que todo bem só existe em sua relação com o mal e, diante disso, não há utopia, tenho que aceitar a realidade como ela é.Valorizo, hoje, a simplicidade, a beleza e a elegância das palavras e das coisas. O universo é deslumbrante e fico pasmo ao olhá-lo.  Desde o momento em que passei a olhar o universo com os olhos do poeta, deixei o medo para trás e comecei a ter esperança.

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88ª Leva - 02/2014 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

DEUS, O NOME

Por Anderson Fonseca

 

Seria o tempo a sucessão de um mesmo nome? Será a história a diacronia semântica de um único nome?   Segundo a Bíblia, sim. Este livro é a transformação de um mesmo e único nome, Deus, que se revela em cada verso, cada estrofe, cada personagem, como se todos os elementos que constituem a narrativa fossem um aspecto desse nome, e a história fosse a sucessão do nome em diferentes circunstâncias.

Logo, a história na Bíblia é o desenvolvimento de um único nome, e o tempo, a sucessão desse nome que se repete indefinidamente, e os personagens, a sua sombra. Isso leva-nos a pensar que o nome Deus é a realidade subjacente do qual tudo é apenas um reflexo. A literatura seria, portanto – tomando-se a Bíblia como modelo –, o desenvolvimento semântico de um único nome. O nome Deus repete-se e se transforma em literatura, e a literatura é, quanto a esse nome, a historicidade da palavra. O nome sucede-se no tempo, ou o tempo é a sucessão desse nome no pensamento.

No livro de Êxodo, cap. 3, 14, Moisés indaga a Deus seu nome, e Ele responde: “Eu Sou O Que Sou”. Mas o nome ainda não é o Nome, pois lhe falta uma letra que entregaria sua natureza real. O Ser apenas disse a Moisés o que Ele é, não lhe revelou quem, e sim, o quê. Eis outro aspecto do nome, cujo significado é desvelar a natureza do ser nomeado. Entretanto, a narrativa bíblica nos apresenta outro olhar, o nome não leva à compreensão da essência, porque em qualquer substantivo falta-lhe uma letra, cuja função é trazer à luz a natureza do ser nomeado. Deus não disse Seu Nome, apenas substantivou o que Ele em si é, o É. Ser em si o que é, ou Ser em si o É, revela-nos sua atemporalidade. O nome de qualquer ser é atemporal, a temporalidade surge quando o nome é envolvido pela circunstância. Ser o ser, ser o É, não está em quando, porque o Ser-É-em-si, é um nome ao qual não há tempo. O tempo do nome é sua transformação circunstancial segundo outra voz. Aí, o Ser-é tornar-se o Ser-será, o Ser-foi, o Ser-seria.

A palavra Ser é verbo, mas também é substantivo, porque nomeia; e, segundo a gramática, é um substantivo abstrato na forma infinitiva. O infinitivo aponta a atemporalidade do nome, se este nome é conjugado pela relação voz/circunstância, torna-se sou, és, é, somos, sois, sereis, e etc. O Nome em si é extemporâneo, mas através da relação com outro nome (de um substantivo com outro substantivo) surge a sucessividade e o Nome passa a sofrer a presença do tempo. Deus é enquanto Nome, contudo a repetição do Seu Nome é a razão da sucessão. Portanto, o tempo seria a sucessão de um mesmo Nome no pensamento. Se Deus é, Ele é hoje, ontem e amanhã; a presença do é, atesta que o tempo é uma ilusão, sua experiência só o é real, devido a relação estabelecida com o conceito que se repete, até por que a repetição de uma mesma ideia admite a negação da relação anterior e o surgimento em seu lugar de uma nova. A literatura é a sucessão desse Nome, e a sucessão do Nome é a causa da narrativa. Conforme a Bíblia, a narrativa seria a repetição de um mesmo nome em diferentes relações estabelecidas com ele. Chega a um limiar em que não se sabe se o Nome transformou-se ao longo da narrativa (história) ou se a narrativa é a transformação contínua desse Nome. Quando se lê a Bíblia, está lendo-se a narração de um nome que se transforma ao longo dos séculos.  A Literatura é, portanto, a narrativa de um Nome.

Contudo Moisés não conheceu o Nome de Deus, faltava-lhe uma letra e, devido a isso, o Nome se transformou na história, transformou-se semanticamente. A narrativa seria a busca de encontrar a letra que falta ao Nome. A ausência dessa letra levou a atribuição de outros nomes (qualidades) como modo de completar o Nome. Assim, Deus passou a ser chamado de Justo, Santo, Amoroso, Verdade, etc. Essas qualidades que em si são antropomorfismos nascem da necessidade do homem compreender a Deus, porque dEle o homem só tem por conhecimento um Nome incompleto.

Moisés esperava de Deus saber seu Nome, mas Deus não lhe disse, apenas falou-lhe o que Ele é. Quem sabe Moisés planejasse com a descoberta do Nome dominar o deus que lhe apareceu. Mas ao ouvi-lo, reconheceu a impossibilidade de tal façanha, porque seu conhecimento limita-se a uma palavra, cujo sentido encontra-se na falta. Por mais que buscasse, jamais descobriria quem é através do nome que foi lhe dado, pois ao nome faltava-lhe uma letra. Cabe ao homem, agora, preencher o vazio deixado ao Nome com outros nomes, cuja função principal é qualificar (acidentar) para ser racionalizável.  O Nome será interpretado pelo homem por meio da racionalização de Seu vazio. A interpretação fundamenta-se na falta que há no Nome, porque no momento em que é interpretado, o Nome está sujeito a abstrações, i.e., ao receber características que não lhe pertencem para torná-Lo entendível. A Literatura, logo, é a letra que falta.

A letra que falta é a razão do Nome ser na narrativa, e a narrativa, a sucessão desse Nome, e, enquanto narrativa, o Nome existe. Portanto, Deus existe como narrativa de si mesmo.

 

Jorge Luis Borges / Foto: divulgação

 

Jorge Luis Borges escreveu no poema Uma Bússola:

 

Todas as coisas são palavras lidas
Na língua em que Algo ou Alguém, noite e dia,
Escreve essa infinita algaravia
Que é a história do mundo.

 

Jorge Luis Borges em toda sua obra parece buscar o Nome, porque o Nome seria em si a própria obra. O livro Ficções é o desenvolvimento desse Nome, um Nome que se repete, e que se converte em história. Nos contos A Biblioteca de Babel, A morte e a bússola, Três versões para Judas, e O Fim, Borges trabalha as versões desse Nome; ele faz uma releitura.

Em A morte e a bússola, uma série de assassinatos marca a busca pela reconstituição do Nome Secreto. A primeira morte, a do personagem Yarmolinsky denuncia o labirinto, porque até seu assassino contém no nome a metáfora do labirinto, Scharlach. Ou seja, a vítima começa com Y e termina com y, e o assassino com Sch, e termina com ch, fechando um círculo. O nome Deus em hebraico YHVH seria outra imagem do círculo, cujo significado oculto é eternidade ou a repetição infinita da mesma série de eventos. Nessa metáfora, Deus seria a história circular, a repetição de um Nome infinitamente até que os elementos desse nome tornem-se uma extensão dele, i.e., uma narrativa. O narrador escreve: “a tese de que Deus tem um nome oculto, no qual está compendiado seu nono atributo, a eternidade – isto é, o conhecimento imediato de todas as coisas que serão, que são e que foram no universo.”

Em Três versões de Judas, o narrador diz: “a traição de Judas não foi casual; foi um evento predeterminado que tem seu lugar misterioso na economia redenção.” Em outra passagem, escreve: … “que infinito castigo seria o seu, por ter descoberto e divulgado o horrível nome de Deus?” Os trechos confirmam a tese de que Jorge Luis Borges, assim como eu, e como qualquer cabalista, vê a história como uma sucessão de eventos ou desdobramentos de um mesmo Nome. No conto O Fim, o narrador afirma: “a planície está por dizer alguma coisa, nunca o diz ou talvez o diga infinitamente e não a compreendemos, ou a compreendemos, mas é intraduzível como uma música”.

No poema O Golem, Jorge Luis Borges escreve:

 

Se (como o grego no Crátilo di-lo)
Da coisa o nome é sua ideia pura,
Nos sons de rosa a rosa é e perdura
E todo o Nilo, na palavra Nilo.

E, feito de consoantes e vogais,
Nome terrível há de haver, que a essência
Cifre de Deus e que a Onipotência
Guarde em letras e sílabas cabais.

(…)

Gradualmente (como nós) viu-se ele
Aprisionado na rede sonora
Do Antes, Depois, Ontem, Enquanto, Agora,
Direita, Esquerda, Eu, Tu, Outro, Aqueles.

 

O Golem é o simulacro do Nome, assim como a história, uma infinita repetição das letras que o compõem num espaço circular – o labirinto.

A obra borgiana, tal como a Bíblia, é um desdobramento do Nome Deus, nome que se torna o próprio tempo, e que através da história afirma sua Eternidade. O tempo se nega e se afirma no círculo que é a repetição infinita desse nome YHVH.

 

Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará.

 

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84ª Leva - 10/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Luciano Bonfim

 

Foto: Jussara Almstadter

2 / 6

Vento varre verões
Sol soçobra. Sobra
Céu cinza: chuva!

 

 

***

 

 

3 / 9

Pelo pasto persiste
Renitente relva renhida
Vereda: verdoso verbete

 

 

***

 

 

4 / 12

Pardais pairam paralelos
Flores flagram flerte
Borboletas buscam benesses

 

 

***

 

 

5 / 15

Andorinha: abnegada ave,
Corta céu / certeira
Verão vem vindo

 

 

***

 

 

6 / 18

Você veio voluptuosa
Capciosa canção candente
Instável ideograma: id

 

 

***

 

 

10 / 30

Sentimento: sonolenta sentinela
[Viceja visceral visgo]
Avante, avarento: Amor!

 

 

***

 

 

11 / 33

Amor: aleatório almanaque
Sublime sensação. Surto.
Errática exímia emoção

 

 

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12 / 36

Paz: passamos perto?
Guerra: grave grosseria –
Deveras dói demais

 

 

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19 / 57

Palavra: préstimo perspicaz
Célebre corsária contumaz
Aquém, além… Acossa

 

 

(Luciano Bonfim nasceu em Crateús (CE) e vive em Sobral (CE). É professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). São de sua autoria os livros: “Dançando com sapatos que incomodam” (2002); “Beber água é tomar banho por dentro” (2006) ; “Móbiles – hestórias e considerações” (2007) e “Aliterar Versos 20/60 + alguns instantâneos” (2013). Integra o Grupo Permanência Provisória de Teatro)




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80ª Leva - 06/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Assis Lima, de cântico e de corte

Por Marcos Pasche

 

 

Por vezes nos deparamos com uma assertiva a dizer que certos autores, ao desenvolverem sua bibliografia, estão escrevendo e reescrevendo sempre o mesmo livro. Alargando um pouco mais a ideia, muito me chama a atenção a hipótese de certos autores nordestinos formarem uma família antropoliterária, os quais traçam e trançam na mesma renda a inesgotável e árida epopeia da vida e da morte agrestes.

Vou omitir, por falta de lembrança ou de conhecimento, nomes importantes, mas penso que tal família tenha seu precursor em Augusto dos Anjos, sendo configurada por Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ronaldo Correia de Brito e Daniel Mazza. Não se pode negligenciar as miríades de poetas cordelistas e cantadores espalhados pelas feiras e empalhados nas prateleiras do menoscabo da “alta cultura”.

Tais autores irmanam-se ao tomarem mutuamente os procedimentos formais e os temas constantes da obra de seus entes, sem que isso nos cause, admiravelmente, a sensação de previsibilidade ou mau epigonismo. Todos eles desautorizam a visão pitoresca do espaço sertanejo, encravam a caatinga em seus parágrafos e estrofes, tornando-a metáfora de espaços e tempos de todos os lugares e épocas, sejam as ágoras mitológicas da Grécia, sejam os bíblicos e empoeirados caminhos da Palestina. São eles xilos ou litogravadores da palavra, visto lançarem-se de encontro ao hiperbólico mosaico da linguagem para dele extrair ou nele imprimir, à mão de faca, a palavra certa e seca. Sublimadores da brutalidade, valem-se de mão de vaqueiro, que por um instante é capaz de domar a vida: domadores do discurso, penduram a encharcada escrita à cerca e ao sol para que se lhe retire toda a gordura, até que sobre apenas o substantivo couro. Alunos dos seixos, concebem a partir do vento quente e da areia seca, pois tanto o sopro como o barro têm uma saúde incoerente para esta gênese.

Assis Lima pertence à linhagem desses escritores, umbilicalmente ligados ao sertão e espiritualmente dados ao mundo. Nascido no Crato, interior do Ceará, Assis, médico de profissão, fixou residência na urbaníssima São Paulo. Nela desenvolveu o notável estudo Conto popular e comunidade narrativa, que a um só tempo registra e abraça a vocação do povo nordestino para a oralidade, a qual, de tão bem aprendida com os gregos, tornou-se invenção patrimonial sua. Como poeta, Assis presentificou os aspectos mais representativos de sua genealogia artística em Poemas arcanos, livro repleto de evocações locais e translocais, todas enoveladas em cantigas, “incelenças”, lendas e evangelhos.

E para perpetuar o movimento contínuo de ressurreição de sua família autoral e assinalar seu fio particular, Assis Lima dá ao primeiro texto do seu Marco misterioso o aqui infiltrado título de “Água”, com o qual diz não e sim à sua sina – “O deserto esteve fincado dentro de mim” (…) // “Que me cubra o nevoeiro!”. Essa peleja, típica do homem em apreço e repulsa pela matéria de que se constitui, tem presença cativa em diversas passagens do livro, e em textos como “Caleidoscópio” ganham a feição de arena onde duelam ser e transcender: “As pedras, uma extensão de mim. / E dentro das nuvens, a extensão de todas as pedras”.

Assis Lima / Foto: Divulgação

Assis Lima é a assinatura literária de Francisco Assis de Sousa Lima (com o nome civil ele registrou sua tese acadêmica). Há nessa heteronímia o amálgama de símbolos próprios da literatura que o autor desenvolve e da casta à qual pertence. Francisco (de) Assis é nome de um dos mais expressivos personagens bíblicos, ao passo que “sousa” – registram os dicionários portugueses – é um tipo de pombo aguerrido, não por acaso tomado como imagem de brasões familiares. No Brasil, Sousa é uma cidade do sertão paraibano. Já então se vê o anelo do local e do universal, ao qual se liga a fusão da figura do santo e do bicho guerreiro, ambos imagens diletas da cultura nordestina. “Lima” é uma fruta cítrica, ácida, cortante, e mais ainda o é a lâmina com que o autor decepou sua identidade em consonância com o corte literário: os Poemas arcanos, da primeira para a segunda edição, foram reduzidos a quase metade, e este Marco misterioso já vem ao mundo com uma seção amputada, visto ser e não ser pertencente ao conjunto do que agora se publica. E não nos esqueçamos: o Rio São Francisco encrava-se gigantesco no solo e na sola do Nordeste, cercado de seco por todos os lados, cortando-o de ponta a ponta.

Mas a coisa não se fia por aqui: dentro deste volume a escrita se mostra mais muscular quanto mais se depura da carne das palavras, como se fosse (e é) possível enrijecer-se de ossos. É o que se observa no finamente geométrico engenho de “Ângelo Monteiro”, ou no obsessivamente talhado “Sem título”, capado até no nome:

………………………………………………………..Pelo verso
………………………………………………………..e avesso
………………………………………………………..em teu colo
………………………………………………………..me teço.

………………………………………………………..Por teu vinho
………………………………………………………..e chama
………………………………………………………..minha sede
………………………………………………………..clama.

………………………………………………………..Em teu seio
………………………………………………………..redoma
………………………………………………………..me rendo
………………………………………………………..genoma.

 

Essa poética busca uma dicção quite em seus desacordos, e o poeta desgarra-se do parentesco a fim de tanger os próprios passos e o próprio canto. Por isso o leitor verá também um feito marcante do livro no caudaloso “Via Sacra pela morte do filho”. Trata-se de um poema de alta voltagem dramática, construído a partir do arranjo das vozes do pai consternado e do coro que se encarrega de verbalizar o roteiro fúnebre: “Prepara-te, corpo / que chegou teu dia, / recebe esta roupa, / vai em boa companhia”.

E dentro do rio turvado de lágrimas brotam as teimosas águas de “Vida de violeiro”, poema nordestiníssimo por suas cores e sons. O ritmo cantante da redondilha heptassilábica embola na malha do texto a evocação de cantadores lendários, como Cego Aderaldo e Zé Limeira, quando toda a embolada ganha o tom de uma ciranda, viva porque cantada: “‘Quem não canta neste mundo / no outro fica engasgado, / pois o nosso mundo é este, / que o outro, é do outro lado, / por isso cante com a alma / que a vida lhe deu de agrado / para alegrar quem não canta / e alegrar quem está calado!’”.

Foi o poeta-violeiro quem mandou. Que a sua leitura seja, portanto, a rima a unir poesia, alma, corpo e alegria.

 

 

(Marcos Pasche nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. Cursa doutorado e leciona Literatura Brasileira na UFRJ. É crítico literário, autor de “De pedra e de carne: artigos sobre autores vivos e outros nem tanto”. Neste momento, pede aos acidentais leitores que não deixem de assistir ao documentário “Garapa”, de José Padilha)   

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Wender Montenegro

 

Foto: Rosa De Luca

 

ABSTRATO EM LUZ E MEDO

 

O medo é a alma dizendo onde dói
pássaro conduzindo léguas
sob asas feridas.

É grito de Munch sangrando a moldura
expressão da face à beira-morte
quando um anjo anuncia o delírio.

É o temor do cântaro ao desuso
jardins plenos de sede e gerânios
cardumes de espectros
pescando crendices nos rios da noite.

Há mel e fé na colmeia do medo
e os anjos terríveis de Rilke
pintam de ferrugem cada luz e riso;
semeiam gerânios sobre cada grito.

 

 

 

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MEA CULPA OU PROFISSÃO DE FÉ

 

Ao poeta Francisco Carvalho

 

Semear poeiras e andrajos de esperas
dissecar os ossos das metáforas
acender espantalhos no amarelo das espigas.

Decantar o silêncio que sustenta o cais
ostentar um colar de metonímias
despir a voz da louca, cuja febre anuncia
um evangelho apócrifo.

Caminhar sob pedras como por milagre
ouvir a foz rouca dos rios da infância
borrifar no azul as flores do arco-íris.

Pintar um verão vazio de andorinhas
se encharcar de sol e devaneios
hastear um lenço sujo de saudade
ajustar os ponteiros na cópula dos pardais.

 

 

 

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INVENTÁRIO

 

O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.

Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.

E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão
de berço.

 

 

 

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TEMPO DESCARRILHADO

 

Ao poeta Mário Gomes

 

Esses olhos que a terra não deseja
hão de comer a vastidão da terra
plantar no solo o sêmen de seus rastros
cravar na pedra o seu punhal de febre,
sonho pleno de pedra.
As algemas de sangue, solidão e medo;
o luminoso terror noturno…
Há tragédia em cada ato
no tempo descarrilhado
e um gosto de eternidade.

 

 

(Wender Montenegro, natural de Trairi/CE, é professor de História e poeta. Tem poemas publicados nas revistas TRIPLOV, Blecaute, dEsEnrEdoS e em outros espaços literários. É autor de Arestas, 2008, pela All Print editora/SP, com o qual foi indicado para o Prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria Poesia)