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134ª Leva - 01/2020 Ciceroneando

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Foto: Hermes Polycarpo

 

134 edições percorridas. Poderia ser apenas mero índice numérico, não fosse o conteúdo abrigado em tantas levas publicadas na revista. E não é apenas o gesto de colecionar textos e imagens aquilo que nos define no plano editorial. É muito mais que isso. É, por exemplo, saber que temas variados se entrecruzaram, que encontros pela e para a palavra se deram de modo substancial, sustentando todo um ideal de diversidade desejado por nós desde sempre. Cria do ambiente eletrônico, a Diversos Afins seguiu expandindo seus horizontes. Em meio ao oceânico universo da internet, a disponibilidade de acesso aos conteúdos gerou sempre mais encontros e aproximações. Ainda que experimentemos, enquanto sociedade, a crescente enxurrada de informações presentes em nossa rotina de conexão permanente aos dispositivos comunicacionais de toda ordem, somos capazes de selecionar o que desejamos consumir no amplo espectro cultural. Mesmo que o cardápio de oportunidades seja gigantesco, as predileções acabam por nortear os mergulhos pessoais de leitores e apreciadores dos temas ligados à Literatura e à Arte em geral. Talvez não seja um exagero afirmar que há espaço para todo tipo de expressão, bem como uma recepção disposta a acompanhar a multiplicidade de criadores imersos na pangeia contemporânea. Afortunados estamos quando nos é possível saborear e internalizar toda a sorte de obras que comunicam a experiência humana. Nesse momento, a arte parece revelar a face daquilo que somos, pensamos e reproduzimos no convívio com nossos iguais. Seguindo essa trilha, os diferentes modos de conceber a realidade, e também o que a transcende, são férteis instrumentos de criação. Vejamos, pois, quantos mundos estão dispostos nas narrativas de autores como Giovana Damaceno, Caio Russo, Tiago Chaves e Berg Morazzi, que passam por nós com seus pungentes contos. Difícil determinar. Mas eis que também o terreno condensado e catártico da poesia vem nos ofertar agora as aparições de Angel Cabeza, André Luiz Pinto, Maria Fernanda Elias Maglio, Romério Rômulo e Fernanda Nali. Vigoram entre nós as marcas complexas de nossas humanidades na entrevista do escritor Itamar Vieira Junior, que, além de falar um pouco sobre as repercussões de seu novo livro, transita lucidamente sobre questões de nosso tempo. São de Sérgio Tavares as impressões sobre o mais recente livro de Dênisson Padilha Filho, a reunião de contos intitulada “Um chevette girando no meio da tarde”. Certamente, os olhares sensíveis de Maurício Pinheiro para o álbum de estreia da cantora e compositora Livia Nery são algo arrebatadores. Daí ser quase impossível não ficarmos curiosos em pelo menos sondar as canções de “Estranha Melodia”. Imbuído por suas sempre impactantes descobertas cinéfilas, Guilherme Preger nos apresenta as delicadas tramas do filme russo “Uma Mulher Alta”. Todo o percurso empreendido até aqui conta com as sutilezas que marcam as fotografias de Hermes Polycarpo, dispostas nos mais diferentes recantos de nossa edição. A atual Leva é uma pequena amostra do que pretendemos materializar nesse recém-nascido 2020. Permitam-se seguir conosco, cara leitora, caro leitor!

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133ª Leva - 05/2019 Ciceroneando

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Pintura: Canato

 

Aos poucos, mais um ano se despede de nossos domínios. Sem dúvida alguma, é outro ciclo de realizações que completamos no transcurso histórico da revista. É impagável manter a chama acesa, ter vontade permanente de seguir com um projeto editorial dessa monta. Acima de tudo, é incomensurável o retorno que emana como resultado das ações todas. O ânimo se renova cada vez que percebemos o interesse das pessoas em alimentar nosso caminho com colaborações que são fruto de suas vivências e mergulhos no fértil terreno da Arte. E aqui decompomos o termo para abarcar as expressões literárias, cinematográficas, musicais, teatrais, a fotografia, a pintura, as ilustrações e desenhos dos mais variados participantes. Enfim, inúmeras são as possibilidades de atuação no contexto da Diversos Afins. Ao mesmo tempo, notamos que se forma um movimento espontâneo de pessoas em torno do projeto, dinâmica tal que move encontros nos campos da palavra e da imagem. Realizar é preciso. Coisas precisam ser ditas. O pensamento necessita da amplitude dos horizontes. A Arte é instrumento de comunicação. Mais ainda, é território de expansão das nossas humanidades, da consciência do nosso lugar no mundo. Ela também é ferramenta de partilha social em plena contemporaneidade, era que vem apresentando tensões em escala global, seja no aspecto geopolítico, seja no quesito ideológico, para não dizer em outros muitos mais. Cada autor que aqui desfila suas criações é, em última instância, alguém a dividir conosco (editores e leitores) saberes e sabores desse complexo denominado existência. Para além dos instintos mais básicos, de que realmente temos fome? Arriscamos em considerar que temos fome de poesia, dessa a que aludem os versos de gente como Alex Simões, Clarissa Macedo, André Rosa, Bárbara Bittencourt e Pedro Vale. Desejamos também os sinais da perplexidade presentes nos contos de Viviane de Santana Paulo e Rodrigo Melo. Agora somos contemplados com a reinvenção do humano abordada nas pinturas de Canato e que estão dispostas pelas vias da nossa nova edição. É Helena Terra quem nos mostra suas reflexões sobre o livro de estreia da poeta Priscila Pasko, Como se mata uma ilha. Com sua verve analítica sempre atenta, Guilherme Preger fala a respeito do instigante filme sul-coreano Parasita. Numa entrevista, a escritora Lelita Oliveira Benoit expressa reflexões sobre seu novo livro, bem como areja ideias em torno de sua trajetória e outros afins literários. Vinicius de Oliveira discute aspectos do romance Rio Negro, 50, obra de Nei Lopes que traz à tona abordagens históricas sobre a questão racial brasileira.   Apresentando suas observações sobre a peça Nastácia, que é baseada na obra de Dostoiévski, Vivian Pizzinga adentra as vias da seara teatral. Com sua pesquisa musical sempre ativa, Pérola Mathias desfila entre nós as suas sensações para o disco Na Base do Cabula, do cantor e compositor Roberto Mendes. A julgar pelo acervo aqui apresentado, há um conjunto de partilhas disponíveis. E é com grande prazer que anunciamos que ele faz parte de nossa 133ª Leva. Boas leituras e mergulhos!

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132ª Leva - 04/2019 Ciceroneando

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Foto: Luiz Bhering

 

Numa recompensadora jornada que sabe a encontros, leituras e expressões da palavra e da imagem, a Diversos Afins completa 13 anos de existência. Poderia ser um mero marco temporal e numérico, não fosse o impacto grandioso que o conteúdo veiculado em nossas páginas e cadernos produziu. Todo esse conjunto de realizações virou realidade a partir da extensa colaboração de autores e artistas das mais variadas vertentes. Desde a sua fundação, em 2006, a revista vem experimentando cenários múltiplos de potência criativa. Com o decorrer do tempo, inúmeras vozes ajudaram a consolidar um projeto que sempre visou divulgar expressões culturais que tivessem como marca fundamental o transitar sensível pelos enlaces de nossas humanidades. Daí, as descobertas, revelações e surpresas foram se manifestando ao longo do caminho, trazendo até nossas levas o gosto perene do aprendizado. O ideal de diversidade pretendido e alcançado é um dos pontos de êxito da revista e, a cada edição que surge, a certeza de que contemplamos vozes peculiares e singulares vai se consolidando. Estar em permanente contato com criadores e suas produções renova a perspectiva do aprendizado com o engenho editorial, pois nos faz prestar especial atenção para todo um universo não apenas de obras, mas, principalmente, de construção e representação de subjetividades. Por trás do artista ou escritor, há o sujeito, com suas experiências, repertórios de vida, modos de pensar, idiossincrasias, sua bagagem identitária e, o que é melhor, sua verdade pessoal, esta última forjada pelo ato impreciso de existir. A identidade editorial da revista contempla também o exercício da resistência na medida em que viabiliza espaços para novos autores e para aqueles que margeiam o chamado mainstream. E falar do exercício de uma resistência implica também em assinalar a presença de vozes minoritárias marcadas tradicionalmente por pressões de apagamento e exclusão, as quais veem na literatura e nas artes uma ferramenta inalienável de sobrevivência das suas subjetividades. Aliás, o próprio ímpeto de tocar a Diversos Afins adiante pode ser tomado como um ato de resistência na medida em que territórios humanos visitados desacomodam expectativas desbotadas. Assim, cada leva aqui delineada serve de impulso para celebrar os encontros servidos a palavras e imagens, gente que se aproxima e nos ajuda a pavimentar as veredas culturais. Pensando nas aproximações humanas do presente, é, por exemplo, o caso da escritora Rita Santana, poeta cuja entrevista revela a potência feminina de uma criadora em estado constante de poesia e enfrentamentos diante dos desafios do viver. Tomados por ventos provocadores dos sentidos, vemos também agora circular entre nós os versos de Alberto Bresciani, Bruna Mitrano, Stefano Calgaro, André Merez e Mell Renault. Relatando sua experiência à frente do Projeto Profundanças, a poeta e performer Daniela Galdino faz um breve balanço do coletivo que privilegia a produção artístico-literária de mulheres das mais distintas regiões do Brasil. Mantendo uma pertinente assiduidade de questionamentos que transitam entre o social e o político, Guilherme Preger discorre sobre o instigante filme brasileiro No Coração do Mundo. No conto inédito de Sérgio Tavares, o denso e provocativo retrato de uma nação e seus equívocos. W.J. Solha comenta o impacto do livro de contos Espantos para uso diário, de Mário Baggio. Na prosa de Ana Blue, corre solta a ironia que recobre nossos movimentos cotidianos. No caderno de música, Wilfredo Lessa Jr. se depara com o resultado de suas escutas para Jesus Is King, novo e emblemático disco do rapper Kanye West. É Geraldo Lima quem nos conduz pelas incursões narrativas contidas no mais novo livro de Lima Trindade, o romance As margens do paraíso. E coroados estão todos os recantos da nossa edição de aniversário com as fotografias de Luiz Bhering, artista que percebe sentido em cada território sobre o qual seu olhar repousa. Dedicada a todos os nossos colaboradores e leitores das nossas mais distintas eras, eis a 132ª Leva!

 

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131ª Leva - 03/2019 Ciceroneando

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Desenho: Felipe Stefani

 

A resistência através da Arte é uma demanda de nosso tempo. E tal frase pode até não trazer nada de novo no transcurso da história contemporânea, mas o fato é que a necessidade de se ressaltar a sobrevivência de nossas vozes e identidades diante de um mundo que ressuscita ideais fascistas é imperiosa. Indo mais a fundo, devemos assinalar que é a preservação das múltiplas subjetividades que transitam em nosso meio quem está em jogo. Sem dúvida alguma, o conjunto de subjetividades que mais precisa de nossa atenção é aquele pertencente aos grupos tradicionalmente postos à margem do processo social, econômico, político e cultural. Então, como calar as vozes que vêm das periferias urbanas? Como alijar os artistas integrantes de minorias reconhecidamente vulneráveis da partilha das oportunidades? Como não reconhecer, em mecanismos de pensamento e ação, as distintas faces que contribuem para fundar nossa nação? São perguntas que nos fazem companhia de modo constante. É impossível ignorar as mais distintas forças que compõem nosso quadro social. Nesse trajeto reflexivo, fica cada vez mais difícil crer numa existência artística cuja produção esteja dissociada daquilo que se vive e experimenta enquanto sujeito. Uma obra construída, por exemplo, em bases identitárias tem demonstrado estar intimamente relacionada à vivência íntima do seu criador. São sujeitos a reverberar suas origens, saberes e sabores, crenças e idiossincrasias como elementos impulsionadores de suas obras. Num mundo onde parecemos habitar em bolhas, o engajamento artístico que se mostra atento às questões coletivas ainda é capaz de nos tocar. Tal constatação se faz presente quando percebemos a expressão de um autor como Alberto Bresciani, que, numa entrevista, demonstra todo seu envolvimento com temas que, para além de sua produção literária, implicam na percepção da alteridade. Em nossa edição atual, vemos Guilherme Preger, ao nos ofertar sua leitura para o filme “Dor e Glória”, transitar pela marca autobiográfica do diretor espanhol Pedro Almodóvar. São de Raquel Almeida, Isabela Sancho, Wilton Cardoso, Pedro Moreira e Sofia Ferrés os poemas que atravessam nosso mais novo caminho editorial. Vivian Pizzinga, num texto eivado de reflexões, vem nos dar seu testemunho sobre os impactos causados pelo espetáculo teatral “Dinamarca”, do grupo pernambucano Magiluth. Por sua vez, Pérola Mathias traz à tona suas escutas para “Vox Populi”, o mais recente disco da Nomade Orquestra. Marcas profundas de nossas humanas idades aparecem registradas nos contos de Viviane de Santana, Héber Sales e Marithê Azevedo. É Lima Trindade quem discorre sobre “Por assim dizer”, o mais novo livro de contos de Yara Camillo. Em meio a todos os recantos da nossa 131ª Leva, somos agraciados com a exposição dos desenhos de Felipe Stefani. Assim, queridos leitores, construímos mais uma ponte para ressignificarmos a vida através das vias da Arte. Sejam bem-vindos aos novos mergulhos!

 

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130ª Leva - 02/2019 Ciceroneando

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Foto: Almir Bindilatti

 

Enquanto o mundo explode, nem tudo que nos circunda vem cravado de boas novas. Hoje, ao padecermos em meio à confusão de nossas mazelas políticas, parecemos sem rumo e, mesmo que tentemos modular vistas grossas a esse estado de coisas, ele nos acomete intensamente. A inexistência de um projeto que nos contemple enquanto nação é alarmante, principalmente por sermos, teimosamente, um país que flerta com desigualdades sociais e econômicas abissais. Não menos importante é pensarmos o modo como a cultura vem sendo tratada aqui por estas bandas de proporções continentais. É sofrível ver artistas e autores das mais variadas vertentes serem alvo de campanhas irracionalmente negativas. São movimentos de contraposição que sequer aprofundam tentativas sérias de debate e, portanto, mostram-se incapazes de fomentar argumentações razoáveis e respeitosas no território necessário das ideias. O que testemunhamos com assustadora frequência é a redução das discussões ao patamar mais raso possível, dimensão crítica que não se apoia em recursos minimamente inteligíveis. Assim, quando os antagonismos afloram, ficamos órfãos de um debate que esteja suportado pelos alicerces históricos, teóricos e também práticos que atravessam nossa sociedade em seus mais complexos matizes. Ante a tal estado de coisas, uma pergunta paira: é possível fazer arte que seja totalmente alheia aos imperativos de nosso tempo? Por certo, as opiniões a respeito de tal questionamento restarão divididas. No entanto, é salutar ver com bons olhos o engajamento de um artista com tudo aquilo que compõe o painel da sociedade na qual está inserido. Muitos desses artífices encontrarão na realidade a correspondência imediata com anseios de natureza pessoal e coletiva, os quais perpassam pautas e dilemas vivenciados num determinado contexto histórico. Desse modo, testemunho e denúncia podem ser importantes aliados de um trabalho autoral que intenta repensar as estruturas de uma dada sociedade. No caso do Brasil, material para isso é o que não falta. Ademais, não há dúvida de que seguiremos resistindo pelas trincheiras da arte. Agora, quem engrossa conosco o coro da sobrevivência pelas vias culturais são os poetas Priscila Merizzio, Denise Pereira, Tiago Rabelo, Inês Campos e Valeska Brinkmann. Numa conversa que remonta a marcas identitárias e suas invisibilidades, Sérgio Tavares entrevista a escritora Deborah Dornellas, diálogo estimulado também pelo livro de estreia da autora em questão. É Wilfredo Lessa Jr. quem nos apresenta o novo disco do duo inglês Chemical Brothers. Em sua resenha, Krishnamurti Góes dos Anjos destaca suas impressões sobre “Extemporâneo”, livro do poeta Delalves Costa. Tendo como foco o filme iraniano “3 Faces”, Guilherme Preger oferta-nos as suas atentas análises. Pelos cadernos de prosa, desfilam as narrativas de Mariza Lourenço, Luan Bonini, Samantha Abreu e Lorraine Ramos. Contemplando os percursos aqui presentes, as fotografias de Almir Bindilatti compõem vigorosamente a multiplicidade de expressões da nova edição. Eis a nossa 130ª Leva. Boas leituras!

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129ª Leva - 01/2019 Ciceroneando

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Ilustração: Joana Velozo

 

Um ano se inicia. Com ele, sempre depositamos esperanças de mudanças em relação ao movimento das coisas que buscamos. Parece haver a ideia permanente de que outra contagem temporal, por si só, é capaz de encerrar a renovação. Desse modo, pensamos teimosamente que um ano nascente demanda a intenção da novidade. 2019 pode ser muito mais do que índice cronológico de um estado de coisas e situações. Compartimenta um tempo de vivências que ganha significativa importância na medida em que estas remetem ao pensamento humano. No caso específico de um projeto como o da Diversos Afins, as expectativas são movidas pela dinâmica que aflora entre palavras, ideias e imagens. Assim, o ano agora por desbravar não significará muita coisa se não pudermos, através dos comandos da Arte e da Literatura, fomentar expressões daqueles que pensam muito além de seu entorno. O compromisso com o mundo e suas mais variadas questões é algo que perpassa naturalmente as manifestações de muitos criadores. Estes últimos são vetores de um fluxo comunicativo que requer uma lúcida e aguçada observação sobre a vida, delineando temáticas que ultrapassam as fronteiras da mera contemplação estética. Há quem tencione que o fazer artístico deva guardar uma necessária correlação com o tempo no qual se vive, representando tal ato uma incessante vigília sobre o curso da história humana. Nessa mesma linha, evoca-se a noção de que somos todos seres políticos por natureza e, portanto, passíveis da assunção do comportamento crítico dentro do imenso painel que é o exercício democrático do livre pensar. O curioso é perceber aqui que até mesmo quem se recusa a se caracterizar como sendo alguém político já pratica uma espécie de política, mesmo que na via da negação. Discussões à parte, as veredas literárias, por exemplo, são um importante instrumento de exposição de opiniões advindas do universo sócio-político. Além disso, posicionar-se pode ser muito mais do que encampar uma determinada ideologia, ou seja, significa também deixar mais consistente o caldo da participação na sociedade, ainda que surjam correntes antagônicas de ação, o que nos “protegeria” das garras nocivas do pensamento único. Quando a arte movimenta essas nuances do múltiplo que se abrigam em nós, somos convocados ao debate e à reflexão. Movidos pela pluralidade, nosso caminho editorial de então encontra respaldo na expressão poética de Ricardo Escudeiro, Wanda Monteiro, Luísa Gadelha, Elizabeth Hazin e Tito Leite. Somos também embalados pelos contos de Kátia Borges, Zuca Sardan e Floriano Martins. É Geraldo Lima quem nos apresenta o mais novo livro de Claudio Parreira, o romance “A lua é um grande queijo suspenso no céu”. Guilherme Preger analisa as delicadas tramas do filme japonês “Assuntos de família”. No texto de Pérola Mathias, toda a inventividade presente em “Contraduzindo”, disco de Tuzé de Abreu. Elis Matos entrevista a poeta, fotógrafa e performer Ana Mendes. A pesquisadora Maria Lúcia Lepecki celebra a memória do escritor português António Vera. O rock da banda Game Over Riverside é alvo de Emanuel Moreno Pinho e suas impressões sobre o disco “Empty”. Durante toda a edição, somos atravessados pelo impacto das ilustrações de Joana Velozo. Adentrando seu novo ciclo de atuações, a Diversos Afins apresenta a 129ª Leva. Seja muito bem-vindo(a), caro leitor(a)!

 

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127ª Leva - 05/2018 Ciceroneando

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Ilustração: Ana Matsusaki

 

São tempos duros estes em que vivemos. Era de discordâncias que perpassam de forma avassaladora o espectro político do país. Diante da instabilidade instaurada pela guerra de narrativas midiáticas, é preciso que tentemos buscar algum resquício de bom senso e lucidez. A fissura que nos abala enquanto nação tem raízes bastante profundas, muitas delas fruto de um pensamento anacrônico que insiste em nos empurrar abismo adentro. Assim, nossa descrença em melhoras faz sempre aniversário. Ano a ano repetimos os modelos de enfrentamento das questões, exaltando os problemas e deixando de refletir sobre soluções efetivas. Esquecemos de confrontar ideias e, em seu lugar, privilegiamos conflitos desarrazoados e por vezes distantes de qualquer equilíbrio. Se a pauta que aborda temas como educação, segurança, economia e o social já se encontra absorvida por tensões extremas e bem distantes de um entendimento harmônico, que dirá o tocante à cultura. E quando artistas são reduzidos a uma classe de desocupados ou aproveitadores de programas de fomento público, sentimos que algo grave nos ronda. Tal classificação odiosa atribuída aos trabalhadores da cultura mais parece uma profunda ignorância sobre o papel que estes exercem efetivamente no front artístico do que qualquer outra coisa. Some-se a tal perspectiva o fato de que tentam insistentemente relegar a cultura a uma condição secundária, como se esta não fosse algo prioritário para o desenvolvimento de um país e das pessoas que dele fazem parte. Através de sua obra, um autor pode refletir sobre seu tempo, colocá-lo em discussão para que outras pessoas também exercitem seu senso crítico a respeito do que está sendo sugerido ou mostrado. Mais uma vez, toda essa formação crítica voltada para o consumo da arte não pode vir dissociada de um embasamento propiciado pela educação. Não somente criadores, mas também os destinatários de suas obras, necessitam compreender em que tipo de sociedade estão inseridos. A fruição da arte enquanto reprodutora de uma alienação político-social pode representar um território morto para a expansão do debate sobre quem realmente somos. É preciso ficarmos atentos para que o antigo costume de relativizar as coisas não assuma o controle dos rumos. Diante disso, espera-se do artista que não oculte a sua verdadeira face quando provocado a vislumbrar os sintomas do seu tempo. Num cenário em que tentam mitigar vozes através de intenções claramente autoritárias, produzir arte é  um legítimo ato de existência. Hoje, uma nova leva da Diversos Afins surge em meio ao conturbado ambiente em que vivemos. Ainda assim, resistimos em manter acesa a tão necessária chama da liberdade de expressão. E não recuaremos. Por tudo isso, tocamos a nau trazendo à lume os poemas de Sara F. Costa, Marcelo Benini, Matheus Arcaro, Julia Bac e Vítor Teves. É instigante ver a lúcida entrevista concedida pelo escritor Bruno Ribeiro a Sérgio Tavares, conversa que evoca reflexões críticas especiais sobre o fazer literário.   No caderno de teatro, Vivian Pizzinga propõe densos mergulhos no espetáculo “Aqui jaz Henry”. O poeta e performer Alex Simões adentra as searas íntimas de “Espaço Visceral”, novo livro da também poeta e performer Daniela Galdino. Nos contos de Dheyne de Souza e Silvana Guimarães, pulsam vidas à mostra. É Guilherme Preger quem nos convida a ver o filme “Benzinho”, produção brasileira que aborda delicados percursos em torno da família. Nas linhas de Daniel Russel Ribas, leituras possíveis para “Retas oblíquas”, novo livro da poeta Roberta Lahmeyer. Por aqui, há também a importância de se falar em “Um Corpo no Mundo”, disco de estreia de Luedji Luna e que revela uma consciência identitária a resistir às investidas cruéis do silenciamento. Nossa atual edição é percorrida pela exposição das ilustrações de Ana Matsusaki, artista plástica paulista. Resistiremos pela arte a qualquer ameaça que nos tire a possibilidade de pensarmos e sermos. Eis a nossa 127ª Leva!

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126ª Leva - 04/2018 Ciceroneando

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Foto: María Tudela

 

Há uma era em que colhemos os frutos daquilo que semeamos outrora. Tempo que serve de reflexão também para entendermos como o caminho foi trilhado até então. É pensar sobre os propósitos todos, os encontros surgidos, bem como as vozes que um dia aqui manifestaram suas expressões. Olhamos para trás com devoção aos que nos ajudaram em nossa persistente trajetória editorial a tornar a Diversos Afins um projeto vivo e robusto. Miramos o futuro, certos de que ele é algo em construção na tessitura do presente que agora podemos testemunhar como sendo concreto. 126 levas depois, o sonho permanece, com o gosto da descoberta, com as surpresas do meio da jornada. São 12 anos de um envolvimento diário com os destinos da revista, tentando sempre manter ativos e perenes os horizontes da continuidade. E seguimos nas trincheiras da independência, creditando à arte e seus atores o atributo de principal força que movimenta os caminhos todos. Quando a revista iniciou, em 2006, não poderíamos imaginar que tal longevidade poderia se insinuar, mesmo que a porção do sonho representasse sempre algum desejo de infinitude.  Nada melhor do que vivenciar todas as etapas para se ter certeza dos acertos obtidos. Na roda viva que agrega encontros, trazendo para perto de nós colaboradores de toda ordem, os discursos vão constituindo um rico painel de falas que exprimem a dinâmica dos sentimentos. Mas o que dizer dessa rica cartografia do humano a partir da disseminação de tantas e diferentes vozes? Eis o resultado que se instaurou até aqui como sendo o algo mais recompensador de nossos esforços. Com o tempo, autores e artistas foram expondo muito mais do que suas obras, ou seja, passaram também a evidenciar rostos, traços íntimos e pistas sobre suas epifanias identitárias. A Revista Diversos Afins orgulha-se de ser hoje esse palco que harmoniza criações e ímpetos humanos, um ambiente que fomenta relações na defesa incondicional da arte. Imbuídos desse ideal, celebramos agora o instante com os poemas de Matheus Guménin, Rita Santana, Meire Viana, Natasha Lins e Mercedes Roffé. Sérgio Tavares brinda-nos com uma entrevista feita com o escritor Mário Rodrigues. Durante toda a edição, somos marcados pelos ritos silentes trazidos pelas imagens da fotógrafa espanhola María Tudela. Na via da sétima arte, Guilherme Preger dedica suas atenções ao filme brasileiro “Arábia”. Os contos de Rodrigo Melo, Jorge Mendes, Marcus Vinícius Rodrigues, Floriano Martins e Zuca Sardan demarcam territórios de vida. Pérola Mathias rende escutas ao disco “microarquiteturas”, de Rafael Macedo & Pulando o Vitrô. Para apresentar seu mais novo livro, o poeta Jorge Elias Neto professa os caminhos de sua criação. Louvando sempre aqueles que somam conosco, comemoramos o momento deveras especial com você, cara leitora, caro leitor. Boas leituras e nosso muito obrigado!

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125ª Leva - 03/2018 Ciceroneando

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Ilustração: Sadrie

 

É sempre tempo de novas colheitas aqui na Diversos Afins. E o momento atual não renega tal condição. A continuação dos caminhos depende sempre da possibilidade dos encontros em torno das investidas culturais levadas a cabo pelas mais distintas vozes que aqui buscam pouso. Ao longo do tempo, autores e artistas inauguraram suas participações na revista e tal dinâmico fluxo, para nossa melhor recompensa, ainda persiste em se dar. Cada expressão que a nós se soma vem imbuída de mostrar ao mundo a inteireza de suas manifestações. Quando isso se dá, vemos se cumprir todo um ideal que temos em vista de propagar as mais distintas criações num mesmo ambiente de diálogos possíveis. O que torna ainda mais rico o propósito de diversidade é o fato de testemunharmos diferentes formas de pensar o mundo. Eis a grande recompensa de quem labuta num território editorial como o nosso, esse mesmo que se afigura complexo e colossal dentro do universo conhecido como ciberespaço. E para encontrar criadores relevantes e suas obras, nada melhor do que fomentar a pesquisa e as conexões com valiosos interlocutores culturais. E assim vamos seguindo, construindo edições em bases autorais sólidas feitas por pessoas comprometidas em colaborar com o panorama literário e artístico do nosso tempo. Por falar em arte conectada às demandas do presente, nossa mais nova leva traz uma entrevista especial com a banda OQuadro, grupo baiano que, ao longo de seus pouco mais de 20 anos de trajetória, foi capaz de construir um trabalho diferenciado pelas vias do rap. Nos nossos cadernos de poesia, contamos com os versos de Carolina Spyer, Leonardo Bachiega, Ana Paula Olivier, Geraldo Lavigne de Lemos e Renata Ferreira. É Marcelo Labes quem nos apresenta “Contações”, novo livro do poeta Tiago D. Oliveira. Na seara cinéfila, Guilherme Preger escolhe cuidadosamente o filme japonês “Esplendor” para ser o centro de suas análises. A peça “Rose” nos é mostrada em detalhes pelas anotações de Vivian Pizzinga. Nos espaços de prosa, Carla Diacov e Caio Russo desfiam suas densas narrativas. Saulo Dourado fala sobre a riqueza contida no disco ao vivo do grupo de samba de roda Esmola Cantada. O romance “Felicidade”, mais recente livro de Wellington de Melo, é alvo das palavras de Gustavo Rios. Em meio a todos os recantos de nossa nova edição, estão também as ilustrações de Sadrie, artista que narra mundos através de seus trabalhos. Eis a nossa 125ª Leva. Boas leituras!

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124ª Leva - 02/2018 Ciceroneando

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Foto: Tati Motta

 

Afinal, de que é feita uma nação? De um mero aglomerado de pessoas marcadas pelos laços comuns e historicamente institucionalizados pela ocupação de um mesmo território geopolítico? Ou seria pela reunião de interesses difusos pautados por uma exposição das diferenças? Num país de proporções continentais como o Brasil, talvez seja árdua tarefa vislumbrar tudo como se fosse o resultado direto de uma uniformização de pensamento. E de fato esta última, para nosso bem, não deve existir. Pensando a partir do viés cultural, por exemplo, somos levados a concordar que a pluralidade de expressões é quem dá as cartas. Basta notarmos a multiplicidade de manifestações que, alocadas em seus espaços regionais, exprimem a força individual e personalizada dos mais distintos grupos sociais. Há razões históricas para isso, bem sabemos, mas a valorização das tradições de cada povo pode também dialogar com as mudanças trazidas por eventos como a globalização. Há, evidentemente, críticas a processos como este, mas, por outro lado, é saudável pensar no modo como determinadas culturas podem expandir suas epifanias além das fronteiras demarcadas usualmente. O saldo é deveras positivo quando tomamos contato com a arte de pessoas e coletivos dos mais profundos rincões do país. E há uma sensação semelhante de permanente descoberta quando, através de um projeto como a Diversos Afins, podemos conhecer os mais variados atores que, com a verdade de sua arte, ofertam sempre algo de relevante para nossos olhares. A marca principal disso é justamente o reconhecimento da diferença, da capacidade que cada autor ou artista tem de revelar o potencial de suas singularidades. Partindo dessa premissa, o presente nos leva ao encontro de poetas como Flavio Caamaña, Isabela Rossi, Luiz Frazon, Flávia Péret e Verónica Aranda. É ponto de destaque dos nossos caminhos a entrevista feita por Elis Matos com a escritora JeisiEkê de Lundu, artista multifacetada que nos expõe a força e a beleza de seu pensamento. Vivian Pizzinga promove mergulhos pessoais na provocativa peça “Insetos”. No caderno de música, temos a estreia de Pérola Mathias num texto sobre o primeiro disco do grupo de hip hop pernambucano Arrete, inteiramente formado por mulheres. São de Daguito Rodrigues, Carla Kinzo e Fernando Rocha os contos que por aqui povoam os espaços em prosa. O “Exercício da Distração”, mais recente livro de poemas de Kátia Borges, é tema das leituras de Saulo Dourado.  Em seus percursos pela sétima arte, Guilherme Preger nos brinda com olhares para o documentário francês “Visages, Villages”, que traz a parceria entre a cineasta Agnes Varda e o fotógrafo JR. Cada recanto desta nova edição é contemplado com uma exposição fotográfica da mineira Tati Motta, artista que enxerga no mundo detalhes que nos escapam teimosamente. Eis a nossa 124ª Leva. Boas leituras!

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