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79ª Leva - 05/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Uma orquestração de coisas rege todos os instantes. E tudo vai se moldando aos dias, erguendo cenários, tingindo com tons difusos cada lugar que se acredita possível. Mas a força maior talvez esteja naquilo que não conseguimos vislumbrar de imediato, ao que corre paralelo à passagem meramente visível do tempo e das situações. Enxergar nos ambientes menos usuais não é privilégio apenas de quem produz arte sob suas mais variadas formas. O leitor de diversos suportes possui a capacidade de intentar janelas de observação e, com isso, interagir com as obras. Não se trata de um comportamento apenas passivo, como quem olha e internaliza sentidos, mas sim o de alguém que efetivamente pode ser ator do processo. Em lugar de guardar o produto de seus olhares nos recônditos mais íntimos de sua individualidade, o amante das artes também se torna um criador na medida em que desenvolve mecanismos próprios de interpretação e, quiçá, certa dose de intervenção. No entanto, a obra é aberta, mas não escancarada, já disse alguém. O receptor tem a faculdade de redimensionar palavras ou imagens segundo, bem sabemos, suas expectativas e repertório pessoais. Por outro lado, é também interessante perceber o quanto de cumplicidade se opera entre criadores e leitores quando do ambiente de aproximações gerados pela leitura. E é comungando desse pensamento que as aparições poéticas de autores como Virgínia do Carmo, Demetrios Galvão, Stefanni Marion, Fabiana Turci e Ronaldo Cagiano geram espaços de um especial compartilhar lírico.  Assim também o é com os contos de Andréia Carvalho, Jacques Fux e Yara Camillo, todos eles a trafegar intensamente pelas vias de nossas humanas idades. O escritor Sérgio Tavares nos convida à leitura do belo e denso “Carta a D.”, romance de André Gorz. Nosso sabatinado da vez é o poeta Heitor Brasileiro Filho, que além de falar sobre seu novo livro, reflete sobre valiosas questões do universo literário. As escutas de Larissa Mendes apontam para o disco de estreia de Clarice Falcão. No caderno de teatro, Augusto Cavalcanti presta um singelo tributo ao dramaturgo Nelson Rodrigues. O filme dinamarquês “A Caça” é tema das percepções de Guilherme Preger. Entre os verbos desta edição, reinam delicados e sublimes os desenhos de Bárbara Damas, devidamente apresentados pelos olhares de Carla Diacov. É a você, caro leitor, a quem destinamos esses novos percursos. Boas leituras!

 

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78ª Leva - 04/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

O eternal movimento das águas nos conclama a desabitar as zonas de conforto. A impermanência, sugestão maior desse fluxo, é uma das crias mais valiosas do tempo, um avanço sorrateiro pelas trincheiras da toda poderosa senhora incerteza. De modo imponente, essa majestosa companheira parece muito mais afugentar corações e mentes do que qualquer outra coisa. Teimosamente, escritores e artistas cumprem o ritual das indagações, trazendo à baila dimensões possíveis para a ciranda da vida. Expressar-se, por si só, já pode se prestar a um indício de rompimento com o conformismo. E isso apenas não basta. Indo além, é preciso atirar verbos ao vento, submeter as imagens ao crivo dos olhares, extrair da abstração das horas o sumo das linguagens. Quando tentamos erguer uma edição da revista, é sempre desafiador refletir sobre os caminhos que nos impulsionam. Perceber, por exemplo, a grande metáfora que nos motiva a transcorrer sobre o ciclo das águas, agora, é um deixar-se guiar pelo convite de uma artista como Rosa De Luca, que, com suas fotografias, provoca em nós uma apreensão dos deslocamentos os quais a existência não se cansa de nos apresentar. É essa liquidez de sentimentos dispersos que também nos leva a abraçar a verve poética de pessoas como Rita Santana, Tristan Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá. Seguindo a corrente dos signos, entrevistamos o escritor e jornalista Sérgio Tavares, que dividiu conosco um pouco da sua trajetória literária, sobretudo no que se refere ao seu novo livro, ”Queda da própria altura”, obra que se presta a um digno mergulho de cunho intimista. No ato de construir histórias, Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Rossi demarcam, através de seus contos, universos peculiares para os desatinos humanos. A memória do poeta cearense Francisco Carvalho é celebrada no texto de Clarissa Macedo. O instigante “Dentro da Casa”, filme do diretor francês François Ozon, ganha espaço na resenha de Larissa Mendes. Das paragens mineiras para o nosso caderno musical, vem o belo trabalho de Luiza Brina e O Liquidificador. Numa alusão ao curso interminável das águas, deixamos fluir uma nova Leva, com toda a vontade de que os caminhos materializem cada vez mais o ideal de continuidade.

 

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77ª Leva - 03/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

Em que medida a porção do sonho funda a matéria de que somos feitos? Onde o vigor da abstração quando necessitamos de um mergulho mais profundo rumo a nós mesmos? Refletir sobre o quanto estamos enraizados pelas nossas questões mais delicadas é algo desafiador ao ser humano. As motivações para se trilhar a jornada são intermináveis e, por isso, continuar é imperativo. Nesse trajeto, as revelações nem sempre são as melhores. Seja no confronto com a dor ou a beleza, o ato de criar teima em procurar abrigo de modo, algumas vezes, desavisado. A arte, enquanto instrumento de transformação, registra as marcas de nossa passagem pelo mundo. É como se houvesse uma necessidade curiosa de também fazer ecoar aquilo que guardamos a sete chaves. Inquietação, espanto, busca, vaidade, regozijo, melancolia e efusão aparecem como alguns dos mais prováveis ingredientes duma humana mistura guiada ora por lucidez, ora pela mais crônica cegueira. E isso apenas explica em parte certos propósitos da criação. O interessante mesmo é quando somos levados pela fluidez sugerida pelas mais diferentes mentes, cada uma delas compondo uma ordenação própria e feita de lugares que frequentemente relutamos em visitar. Assim, saborear tais caminhos é um se deixar levar, permitindo que o efeito duma provocação se faça cativo. A cada um é dado saber o quanto o chamado importa num processo que traz à tona espelhamentos ou negações. Imbuídos um pouco desse espírito, perfazemos 77 edições com a revista. Em meio a nossa trajetória, nos acostumamos a tatear as paredes do indizível, embora entre palavras e imagens possam aparentemente brotar significados que se explicam pela força que lhes é peculiar. É muito pouco tentar definir, por exemplo, o que se encerra nas epifanias contidas na arte de gente como Thaís Arcangelo, nossa expositora da vez. Nela, lidamos com o momento de harmonizar realidade e fantasia, o vivido e o inventado, tudo exalando uma aura de delicadeza a partir do prisma especialmente feminino. Também é tempo de acolhermos as investidas dos poetas Jorge de Souza Araújo, Ana Pérola, Alberto Boco, Raquel Gaio e Nestor Lampros. Compondo as janelas poéticas, a escritora Viviane de Santana Paulo traduz alguns poemas do autor alemão Dirk von Petersdorff.  A partir de um conto de Myriam Campello, o escritor Héber Sales reflete sobre alguns caminhos da criação. Larissa Mendes percorre duas frentes: o filme “Hitchcock” e o disco de estreia do cantor e compositor capixaba SILVA. Falando sobre literatura e de toda uma especial relação com os livros, o escritor e editor Eduardo Lacerda é o entrevistado da vez. Há, ainda, a presença marcante das imagens contidas nos contos de Sérgio Tavares, Maria Lindgren e Pedro Reis. Um novo coletivo de expressões está em rota, caro leitor. Boas incursões!

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Ciceroneando

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Foto: Silvio Crisóstomo

O que dizer dos vestígios que deixamos em vida? Na profusão dos seres, cada acesso percorrido sugere um arremesso. A medida inexata das profundidades flerta constantemente com os mergulhos a que nos propomos. Assim, vamos tentando alguma pista sobre nós mesmos, quiçá um entendimento sobre o que reter da jornada errante. O expelir das palavras pode nos auxiliar nesse exercício de transitar pelos lugares todos. Talvez a capacidade de abstração seja a possível cura para alguns cruciais desfoques do olhar. Enquanto somos impelidos à busca, a leitura dos sinais aparece multifacetada em toda a sorte de trajetos. Ao mesmo tempo em que viver é se deparar com as manifestações ululantes daquilo que temos em conta como sendo o real, o emaranhado de nossa subjetividade enreda laços para o fugidio descompasso dos instantes. Então, nos é dado o abrigo do sonho, não como um refúgio premeditado, mas como vias de reinvenção da existência. Daí, encontrar artesãos da palavra que sabem o gosto que tal missão encerra. Na Leva que apresentamos agora, a entrevista com o escritor paraense Vicente Franz Cecim dá-nos um pouco da dimensão disso tudo. Tendo como cenário de sua obra a mítica Andara, Vicente descortina outras camadas dessa complexa e misteriosa experiência que é o estar-se vivo. Entre textos e seus múltiplos signos, somos levados pela exposição das fotografias de Silvio Crisóstomo, cujo trabalho confere um denso e especial olhar sobre a cidade de São Paulo. Os ventos poéticos de então sussurram marcantes sinais nas escrituras de Joelma Bittencourt, Heitor Brasileiro Filho, Eduardo Lacerda, Karinne Santiago, João Urubu e Sandrio Cândido. Enlaces do cotidiano, os quais nos marcam a ferro e fogo, estão presentes nos contos de Carla Diacov e Rodrigo Melo. Nesse terreno, ainda há espaço para a veia fabular do argentino Fernando Sorrentino. Num convite à leitura, a escritora Márcia Barbieri propõe um percurso pelo romance de estreia de Halley Margon. Larissa Mendes desfila impressões sobre o mais novo disco do cantor e compositor Otto. A produção americana Moonrise Kingdom é tema da resenha cinéfila de Bolívar Landi.  A 76ª Leva prenuncia seus novos mergulhos. Sejam bem-vindos, caros leitores!

 

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75ª Leva - 01/2013 Ciceroneando

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Desenho: Luiza Maciel Nogueira

Qual sopro contínuo e que move a vida, abrimos a janela das publicações para um novo ano. Diante disso, expectativas de outros tantos encontros se fazem reais. Flertar com o vindouro não é negligenciar o presente, mas sim buscar a extensão dos dias para que tudo possa confluir num projeto cada vez mais sólido e maduro. São 75 edições levadas pelo aprendizado e pela evolução, quesitos que nos fazem refletir o quanto trilhamos de efetivo em todo o tempo de existência da revista. De toda a bagagem incorporada até aqui, a mais importante decorre dos laços humanos que foram estabelecidos. Sem sombra de dúvida, estar aqui hoje é resultado direto de trocas, diálogos e interações firmadas por todas as frentes possíveis de um mundo que se desenha multiforme. E como é recompensador depararmo-nos, inclusive, com o diferente e o inusitado, lugares que muitas vezes removem a tão acostumada zona de conforto. A partir de perspectivas como esta, vamos revendo algumas práticas, consolidando outras, tudo para tentar alavancar e manter um modelo de qualidade que represente algo atraente aos leitores e visitantes. Tais perspectivas implicam em considerar que os caminhos estão abertos, pois seguir adiante se faz imperativo. Sendo assim, nada melhor do que abraçarmos novas e coerentes descobertas, como é o caso dos poetas Jorge Vicente, Daniela Delias, Gil T. Sousa, Alexandra Vieira de Almeida, Alvaro Posselt e Lílian Maial. Exalando seu modo poético de conceber mundos no mundo, Luiza Maciel Nogueira partilha conosco os signos de seus desenhos em meio à profusão de palavras presentes nesta recente Leva. Múltiplas visões da existência atravessam os contos de Natércia Pontes, Eleonora Marino Duarte e Bruna Mitrano. Há também o valioso diálogo com a fotógrafa Mercedes Lorenzo, entrevista que pontuou aspectos ligados à concepção da imagem, bem como reflexões sobre a arte em nosso tempo. Bolívar Landi ousou percorrer as rotas de Django Livre, novo e polêmico projeto do intrépido cineasta Quentin Tarantino. No gramofone, Larissa Mendes deixa girar as canções presentes no mais novo álbum da Orquestra Imperial. O mais recente livro de contos do escritor Rodrigo Novaes de Almeida é destaque do Aperitivo da Palavra. Esta, caros leitores, é apenas uma pequena demonstração de que palavras e imagens continuarão fazendo par constante por aqui. Que 2013 seja motivo frequente de saberes e sabores em torno da arte. Boas incursões a todos!

 

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74ª Leva - 12/2012 Ciceroneando

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Foto: Catharina Suleiman

VI

Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E porisso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e porisso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

(Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

***

Mais um ano se prepara para desferir seus últimos golpes. Em seu derradeiro canto, quiçá traga até nós o gosto pelo saber e sabor das coisas fugidias. Não pelo curioso prazer de sermos tentados pelo efêmero que nos espreita permanentemente, mas sim pela ideia através da qual somos impelidos a acreditar que a única coisa que existe de fato é o presente. Já que nos são caros os efeitos da passagem do tempo, convém evitar desperdícios e marcar o solo do mundo com a marca indelével de nossas epifanias. Por isso, necessitamos enxergar além do óbvio. Por isso, urge seguir adiante mesmo com os equívocos que nos assolam os sentidos. Se ainda assim a devastação for sombra constante, é porque uma suposta normalidade nos conduz à margem de precipícios edificantes. Quem serão os arautos das novidades amanhecidas entre nós? Talvez todos aqueles que ousem perpetrar os caminhos pouco convencionais da existência. Qual um balançar de águas que nunca mais tornarão a ser as mesmas, viver pode representar a revelação de notícias pouco confortáveis e, por assim dizer, incompatíveis com nossas minicertezas. E como é bom não brigarmos pela patente da razão. Quem sabe os poetas, muitas vezes tidos como delirantes e loucos, possam nos servir de guia nessa delicada jornada rumo ao centro de nós mesmos. Onde a nostalgia do futuro a nos sorrir em toda sua tirania? A arte, então, vai prolongando nossa espécie, fazendo-nos tatear cada vez mais as paredes pelas quais imaginamos algum resquício de liberdade. Que sejamos, pois, perpetuados pelos ecos incontidos nos versos de gente como Nina Rizzi, Marcelo de Novaes, Helena Terra Camargo, Dheyne de Souza e Marcus Groza. Entre palavras e outros tantos destinos por aqui lançados, há espaço inconteste para os sensíveis registros fotográficos de Catharina Suleiman. Noutro ponto, interpelamos o escritor André de Leones numa conversa sobre suas travessias literárias. No Jogo de Cena, Geraldo Lima promove incursões no teatro de Arthur Miller. Outros enlaces de vida nos são contados por Mariza Lourenço, Rodrigo Novaes de Almeida e Nelson Alexandre. A escritora Adriana Zapparoli nos convida à leitura de Nagasakipanema, livro de poemas do uruguaio Victor Sosa. O olhar atento de Larissa Mendes atravessa a delicada temática de Amor, novo filme de Michael Haneke. Sob a agulha de nosso Gramofone, gira a sonoridade da banda mineira Transmissor. Fecha-se mais um ciclo na Diversos Afins e o gosto por novas descobertas se agiganta. Que 2013 revele-nos, como versificava Hilda Hilst, o escondido das gentes!

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Ciceroneando

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Arte: Fao Carreira

É recompensador perceber que a unanimidade não combina com o universo da arte e da literatura. Reconhecer isso significa elevar a multiplicidade de expressões a uma potência deveras indefinida. Nesse ínterim, cabe falar de formas distintas, ou melhor, vozes distintas a compor um vasto painel cênico. E certamente a contemporaneidade nos trouxe mais desafios do que algo consolidado. O que construímos hoje é parte ativa de um discurso que parece longe de soar definitivo. Desconfiemos, pois, de qualquer tentativa de universalizar verdades, não perdendo de vista o bonde da história bem como as referências necessárias propostas por ele. Como conceber as criações ante nosso tempo? Ser vanguardista é ainda uma missão necessária e palpável? De qualquer modo, essas são apenas algumas das muitas indagações que podem flutuar por sobre nossas sôfregas trajetórias. Embora uma curiosa e delicada sensação de liberdade possa impregnar os instantes do hoje, criar sempre será um processo complexo e que requer um vigoroso mergulho nos signos do mundo. No girar da ciranda dos feitos, não há como deixar passar certas leituras e apreensões. É quando a voz de gente como Nuno Rau, Vera Lúcia de Oliveira, Cícero Galeno Lopes, Valéria Tarelho e Hilton Valeriano nos recorda da matéria sensível e densa de que somos feitos. Através de sua prosa, Carlos Trigueiro, Tere Tavares e Nilto Maciel redimensionam sentidos para a vida. Em nossa pequena sabatina, a escritora Marilia Arnaud fala sobre seu primeiro romance, Suíte de Silêncios, e revela alguns de seus percursos íntimos pelas letras. Num trajeto que sabe a memórias e reflexões, Yara Camillo promove sua estreia no caderno de teatro. O poeta e editor Gustavo Felicíssimo nos conduz por entre as tramas sensíveis de Rascunhos do Absurdo, livro de poemas de Jorge Elias Neto. O olhar apurado de Larissa Mendes sonda o legado do cineasta Rogério Sganzerla. Em nosso Gramofone, paira toda a suavidade de Presente, disco da cantora e pianista Delia Fischer. Ante as manifestações aqui presentes, reina intensa e harmônica a exposição de desenhos e pinturas de Fao Carreira. Por tudo isso e, principalmente, pelo desejo firme de continuidade, a Diversos Afins celebra uma nova e gratificante Leva.

 

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71ª Leva - 09/2012 Ciceroneando

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Pintura: Sylvana Lobo

Imprimir ritmo ao tempo, extraindo dele a noção de liquidez necessária às palavras e imagens elaboradas pelo olhar. Eis um ponto de convergência impulsionador dos percursos da arte como um todo. Pensar assim é fazer com que o substrato das coisas sirva de norte para as criações como um todo. Aquele que escreve, por exemplo, leva a cabo um processo particular de buscas tanto pessoais quanto coletivas. Diante disso, a questão é pensar sobre a importância de se fazer convergir tais universos, colocando em eventos paralelos a perspectiva da alteridade. Indo mais a fundo, é atraente imaginar que a arte evoca um desafio permanente de externar os papéis do ser e do não-ser. Nossa ambiguidade sugere uma inquietação permanente frente a tais estados de atuação no mundo, mobilizando-nos ao nível de um sadio inconformismo. Então, como pensar um motor que move o pensamento artístico sem sentir correndo nas veias a fluidez do estranhamento? De certo, parece impossível conviver com a criação apenas no aspecto da estética ou de uma mera representação do real. Mesmo o gosto pelos mistérios que nos atravessam não serve como pretexto para uma profusão de elaborações sem sentido. É como nos diz nosso entrevistado da vez, o poeta José Geraldo Neres: como inventarmos a roda sem beber na tradição? Nesta conversa, o escritor pontua aspectos que fazem parte de uma concepção bastante especial do ato de criar, qual seja o fato de entender a obra que está por nascer como sendo um grande deserto a se cruzar, sabendo-se a todo instante passível à queda. Aqui, um ato de cair que pode significar um mergulho noutra dimensão útil da consciência. Há, por sinal, incursões dessa natureza nos versos de autores como Mariana Ianelli, Jorge Elias Neto, Ian Lucena, Bruno Gaudêncio, José Carlos Souza, Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo. Entre as linhas tecidas pelas mais distintas expressões de agora, temos o arremate sensível da pintura de Sylvana Lobo a integrar os espaços. E quem nos guia pelos olhares em torno da artista plástica é Renata Azambuja. Seguindo em frente, o lado existencialista das palavras impera nos contos de Marcia Barbieri, Fábio de Souza e Frederico Latrão. O escritor W. J. Solha prenuncia o novo, e ainda inédito, “O Autor da Novela”, romance do paraibano Tarcísio Pereira. Nosso gramofone reproduz a qualidade do novo disco do saxofonista Leo Gandelman. A paixão de Larissa Mendes pela sétima arte traz à tona reflexões sobre o longa francês “Intocáveis”. No terreno da arte, caro leitor, há sempre muito por trilhar. A 71ª Leva mantém aceso o desejo desse pacto.

 

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69ª Leva - 07/2012 Ciceroneando

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Desenho: Rui Cavaleiro

Seis anos nos separam dos primeiros passos dados por aqui. Nossa primeira infância revelava, mesmo que timidamente, um desejo de alcançar e fomentar espaços em torno das palavras e imagens. Erguer cada edição sempre foi algo visto por nós como uma tarefa deveras especial, agregando expectativas e uma salutar ansiedade pelo modo como o coletivo de expressões mensais pudesse vir a ganhar corpo e alma. Com o passar do tempo, aprendemos que os passos editoriais, por mais que sejam minuciosa e previamente arquitetados, acabam por revelar gratas conformações ao jogo dinâmico do presente. É recompensador saber que existe sempre uma vastidão de leituras há serem feitas, todas elas atraídas pela jornada que conseguimos construir até então. Congregar manifestações dos mais diversos tipos de colaboradores nunca deixou de ser nosso lema maior. Para que tudo isso ocorresse sem gerar uma falsa ideia de incorporação aleatória de expressões, nosso perfil editorial sempre norteou as escolhas com critérios coerentes de seleção, pontuando aspectos que julgamos vitais em termos de publicação. Durante todos os anos de existência da revista, as trocas humanas foram o mote de nossas ações, permitindo-nos não apenas conhecer um pouco mais das obras de inúmeros criadores, mas também perceber neles uma necessária fonte de aprendizado. Os instantes passaram e o melhor de tudo é saber que solidificamos um caminho no qual atraímos, sobretudo, o respeito e a adesão de muita gente verdadeiramente interessada nos feitos culturais. Completar mais um ano de realizações significa louvar o nome de cada pessoa que, sem exceção alguma, por aqui um dia passou. Mais do que celebrar um rito novo de passagem, interessa-nos reafirmar a missão, chamando atenção para aquilo que hoje implica na continuação dos caminhos. E seguimos, contemplando agora os traços marcantes dos desenhos do artista português Rui Cavaleiro, muito bem apresentados por Hilton Valeriano. Nas veredas da poesia, deparamo-nos com Mercedes Lorenzo, Clarissa Macedo, Marra Signoreli, Raquel Gaio e Helena Barbagelata. É deveras especial perceber que gente como a poetisa Daniela Galdino, nossa entrevistada de agora, sabe dotar a vida de uma inquietude criativa vigorosa. Larissa Mendes, com suas precisas escolhas cinematográficas, aponta atrativos em torno do filme “God Bless America”. Intensos percursos da existência resvalam dos contos de José Geraldo Neres, Roberta Simoni e Teofilo Tostes Daniel. O personagem Sinvaldo Júnior, espécie de heterônimo do escritor Rogers Silva, revisita parte significativa da obra de Álvares de Azevedo. A atriz Ivana Luckesi testemunha sobre a sua vivência na arte de contar histórias. A Leva de agora é erguida e dedicada a todos os nossos leitores e colaboradores, em especial a Neuzamaria Kerner, Héber Sales e Valéria Freitas, importantes precursores de nossas andanças editoriais.

 

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67ª Leva - 05/2012 Ciceroneando Outras Levas

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Desenho: Felipe Stefani

 

Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas.  Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços.  O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!

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