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79ª Leva - 05/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

A Caça (Jagten). Dinamarca. 2012.

 

 

Em seu Teses sobre o conto, o escritor Ricardo Piglia definiu o conto como a arte de contar pelo menos duas histórias. Há uma principal, narrada em primeiro plano, mas haveria sempre também uma segunda, narrada nos interstícios da primeira, qual uma história secreta. A arte do conto, para o escritor argentino, é a de narrar uma história enquanto se contar outra.

Esta estratégia narrativa de duas histórias funciona igualmente para a arte cinematográfica. Foi o mestre Hitchcock quem formulou o efeito McGuffin: o McGuffin é o argumento central em torno de qual gira a narrativa cinematográfica e pelo qual os personagens perseguem, mas que no final não representa nenhuma importância fundamental. O McGuffin não passa de um pretexto para que a ação cênica se desencadeie. Praticamente todos os filmes de Hitchcock seguem esta lógica, mas o caso mais exemplar é o de 39 Degraus: um segredo sussurrado ao protagonista no início do filme permanece obscuro durante toda a narrativa, composta das mais vertiginosas peripécias persecutórias, sem que ao final tal segredo seja revelado. Na verdade, ele foi esquecido devido à sua desimportância para o desenlace: era apenas um mero pretexto para que a ação acontecesse e o mocinho pudesse encontrar a mocinha…

Não foi Hitchcock quem inventou o efeito McGuffin, ele faz parte da própria técnica cinematográfica. Não é este o caso do recente filme A Caça (Jagten), de Thomas Vinterberg? Lucas, um professor de escola primária, é acusado injustamente de assédio sexual da menina Klara, de 5 anos, filha de seu melhor amigo e aluna da escola de uma pequena cidade no interior da Dinamarca. Com esta acusação, toda sua vida pessoal e carreira desabam tragicamente.

Aqui o fundamental é mostrar como a acusação é evidenciada pelo diretor como injusta, inequivocamente: a menina Klara desenvolve por seu professor um forte afeto. Num tempo livre de suas aulas, ela recorta um pequeno coração e o embrulha num envelope em forma de presente e, num gesto muito sutil, coloca-o no bolso do paletó de Lucas enquanto rapidamente o beija afetuosamente. Percebendo a situação, o professor lhe devolve o presente dizendo que ela deveria destiná-lo a um de seus coleguinhas de classe. Nessa mesma noite, decepcionada, a menina conta à Mestre da escola uma história ambígua na qual ela menciona que o professor teria lhe mostrado a sua “vara”, expressão que a menina aprendeu de seu irmão mais velho quando este estava assistindo pornografia na internet. O desenlace é inevitável: entre a palavra do professor e a palavra da menina, toda a escola, os colegas, a namorada e a cidade inteira dão crédito à história de Klara e, então, a vida de Lucas (vivido pelo ator Mads Mikkelsen, cujo desempenho extraordinário lhe valeu o prêmio de melhor ator em Cannes, 2012) torna-se um inferno. E este inferno assume a forma de um abismo descendente, por mais que a menina, posteriormente, desminta sua história como uma “bobagem”.

O lugar onde se desenvolve a trama é crucial nesse filme: uma pequena comunidade dinamarquesa cuja principal atividade de lazer é a caça de grandes animais como cervos e alces. No início do filme, homens tomam banhos nus num lago gelado e depois saem cantando para beberem juntos. Vinterberg nos mostra a caça, prática de onde tira o título do filme, como a atividade que dá sentido à vida da comunidade: a caça de grandes animais é a prática que irmana os habitantes e os une socialmente, incluindo o protagonista professor.

 

 

Aparentemente, A Caça é mais um filme que discute a questão contemporânea da histeria social da pedofilia: mais de 100 anos após a psicanálise defender que cada criança tem sexualidade própria, nada parece tão grave quanto o assédio ou o abuso sexual de crianças, que aos olhos sociais são portadores de uma imagem idealizada de ingenuidade, e tanto mais idealizada quanto maior a sensação de perda de inocência contraposta ao cinismo vivenciado pelos adultos da sociedade capitalista contemporânea. Nesse aspecto, a caracterização da pequena personagem Klara é extremamente pertinente: com seus 5 anos, ela vive a experiência precoce da descoberta do erotismo ao se apaixonar platonicamente por seu professor.  Sua mentira, causada por uma precisa “decepção amorosa”, é um expediente que prefigura a mulher que ela se tornará. E nisso, não devemos incluir também sua capacidade de reconhecer seu erro, como uma maturidade essencialmente adulta que se antecipa a de seu pai (mas não a de sua mãe…)?

Mas talvez a histeria social causada pelo possível caso de pedofilia seja o McGuffin do filme: na avançada Dinamarca, num vilarejo onde os problemas sociais parecem resolvidos, a prática anacrônica, mas legalizada, da caça de grandes animais permanece como uma espécie de “inconsciente” coletivo. Toda a estrutura do roteiro organiza-se na transformação do predador em presa.  Tal como seus amigos, Lucas é um bom caçador, mas encontra-se numa situação de fragilidade: recém-separado, disputa a guarda do filho adolescente com sua ex-mulher, e perdeu também seu posto de professor do secundário, tendo que se contentar com um trabalho numa escola primária. Assim, ele é um alvo fácil e a frágil acusação de que é vítima torna-se a chave para sua rápida mudança de status, de viril caçador para o de uma vítima indefesa e passiva (sua incapacidade de reagir ao receber as acusações está no limite entre a civilidade e a apatia). Por sua vez, com absoluta facilidade, todo o vilarejo muda de atitude em relação a um de seus estimados cidadãos e a perseguição com agressividade crescente a Lucas torna-se uma verdadeira caçada humana…

É como se aqui tivéssemos uma versão dinamarquesa de um dos temas caros ao mestre Hitchcock: o do “Homem errado”. O Homem errado é a versão existencialista do McGuffin: não importa o crime concreto de que ele é acusado, mas sim o fato de que na visão católica do pecado original, partilhada pelo mestre britânico, todos já são culpados “a priori” na sociedade, bastando um fato menor e casual para que um inocente seja eleito e a culpa social possa ser expiada. Assim, no filme dinamarquês, a má consciência em relação à caça expia-se numa reação de histeria anti-pedófila. Algumas passagens do filme reforçam essa ideia: o pequeno cão de estimação do protagonista é morto tal como um animal de caça e o próprio personagem é vítima de violência física desmedida. E o final do filme, que prossegue após o clímax e a pacificação do vilarejo, parece indicar justamente tal propósito, ao mostrar o ritual onde um adolescente de 16 anos recebe finalmente sua permissão de caça e ganha um rifle de presente: crianças podem ser indefesas e puras, mas sabem matar grandes animais…

Thomas Vinterberg é um dos fundadores do movimento Dogma junto com Lars Von Trier e A Caça é seu oitavo longa. Estão presentes nessa sua última obra algumas das características técnicas que marcaram o movimento: a presença da câmera digital levada à mão, acompanhando de perto a presença corpórea dos atores, com sua inconstância visual, e o uso predominante de luz natural. Tudo conduzido com uma grande mestria, como se tais recursos, outrora vanguardistas, tivessem se incorporado a uma linguagem comum cinematográfica contemporânea e o que era maneirismo estético pode ser visto agora em sua destreza quase clássica, emprestando notável realismo e verdade à narrativa.

O diretor dinamarquês acerta ao recusar fazer uma análise moralista do tema, seja em relação à pedofilia, seja em seu julgamento sobre a validade da legalização da caça de grandes animais. Interessa-se, antes, em mostrar as tensões e contradições de uma sociedade avançada, no alto de sua condição liberal de primeiro mundo, mas que ao mesmo tempo parece conviver com uma atividade que exige insensibilidade e isenção em relação à covardia. A tese das duas histórias de Piglia, ou do McGuffin do velho Hitchie, pode funcionar afinal como um desmascaro das relações hipócritas subliminares sociais que se justificam em torno de meros pretextos ideológicos. Ao sair do cinema, após assistir este filme, um casal comenta um com o outro: “ficamos sem saber se ele [o protagonista] era realmente culpado. O diretor não deixa isso claro”. Ou, em outras palavras, é preciso sempre encontrar uma boa presa para arcar com as nossas culpas…

 

 

(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de Capoeiragem (ed.7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro)

 

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78ª Leva - 04/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Dentro da Casa (Dans la Maison). França. 2012.

 

 

“A vida sem histórias não vale nada”.

 

A famosa “espiadinha” na vida alheia nunca foi exclusividade dos controversos reality shows contemporâneos. Desde Hitchcock e sua Janela Indiscreta (1954), o cinema, as séries e as telenovelas nos entretêm com voyeurismo e invasão de privacidade. Aliás, numa análise superficial, toda produção audiovisual poderia ser encarada como a observação voyeurista de determinada situação ou acontecimento. Devaneios à parte, que atire o primeiro binóculo quem nunca sentiu curiosidade em saber o que se passa entre as cortinas do prédio em frente. Baseado na peça El Chico de la Última Fila, do dramaturgo espanhol Juan Moyarga, e dirigido pelo parisiense François Ozon, Dentro da Casa utiliza o tema e suas variantes como um pretexto instigante para refletir sobre o sistema educacional, a literatura, a ética, o poder e os desdobramentos da psique humana. Em determinado plano, o longa-metragem presta um belo tributo estético ao clássico hitchcockiano e reafirma que detrás de toda vidraça há uma história que merece ser contada.

Germain (Fabrice Luchini) é um professor de literatura desiludido com a falta de empenho e habilidade narrativa dos alunos do ensino médio da escola Gustave Flaubert. Sua esposa Jeanne (Kristin Scott Thomas) compartilha da mesma amargura diante da possibilidade do fechamento da galeria de arte que gerencia. Juntos, reencontram um sopro de motivação profissional (e questionam o próprio casamento) quando o enigmático Claude García (Ernst Umhauer), um aluno de 16 anos, surpreende o docente com redações enfim articuladas que descrevem “a vida de uma família normal”, experiências de suas visitas à casa de seu colega de classe Raphael Artole (Bastien Ughetto).

 

Fabrice Luchini e Ernst Umhauer em plano que homenageia Janela Indiscreta/ Foto: divulgação

 

O problema é que tais escritos possuem um conteúdo deveras voyeurista, no qual Claude satiriza a classe média francesa espreitando de maneira obsessiva o cotidiano de Rapha-filho, Rapha-pai (Denis Ménochet) e da mãe Esther (Emmanuelle Seigner, mulher do diretor Roman Polanski), aparentemente seu objeto de desejo. Entusiasmado com o talento e escrita peculiar do aluno, Germain, que compartilha todos os textos com a esposa – e inclusive coloca em risco sua reputação profissional como mestre –, incentiva sua produção literária extraclasse, indicando autores, emprestando-lhe obras e exercitando elementos que compõem uma boa ficção. Completamente fascinados pelo “(continua…)” com que cada “capítulo” do texto é finalizado, e, ao mesmo tempo, temerosos pelo desfecho trágico para que a(s) história(s) aponta(m), o casal – e o próprio espectador – partilham da dúvida do que de fato é real e o que é fruto da imaginação do jovem aspirante a escritor.

Exibido durante o Festival do Rio 2012 e premiado com a Concha de Ouro de Melhor Filme e de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de San Sebastián, a película, muito popular na Europa, passou despercebida a boa parte do público brasileiro. O que é uma pena, pois Dentro da Casa tece uma trama cotidiana inusitada, com protagonistas complexos que flertam com o suspense tragicômico. Repleto de simbolismos e referências artísticas, o bom uso da metalinguagem e a edição sinuosa – a narrativa de Claude adquire um filmete dentro da trama, onde o próprio Germain participa e intervém na construção da história – discutem o papel do educador e da arte, explorando a relação professor/aluno e a engenhosa lapidação literária, além de tecer uma crítica velada aos programas de TV que devassam a vida privada (vale lembrar que a França é o país que mais consome este segmento da programação). Com mais de uma dúzia de filmes no currículo – entre eles o musical 8 Mulheres (2002), Swimming Pool – À Beira da Piscina (2003) e PoticheEsposa Trofeu (2010) –, e mantendo a média de um longa por ano, François Ozon firma-se como um dos grandes cineastas franceses da atualidade. A propósito, Jeune et Jolie, seu próximo projeto, estreia em maio no Festival de Cannes 2013.

“(continua…)”.

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

Hitchcock. EUA. 2012.

 

 

 

‘Estilo é o plágio de si mesmo’.
(Alfred Hitchcock)

Considerado pelo American Film Institute como o melhor thriller de todos os tempos, Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, é um marco não só para o cinema por ter matado sua protagonista na primeira meia hora de filme e por proibir que as pessoas entrassem na sala com a sessão já iniciada como para a própria carreira do cineasta, que, nesta altura, já era um sexagenário com mais de 40 filmes no currículo. O que talvez o grande público desconheça é que a Paramount Studios vetou o projeto e Hitch o bancou de forma independente, hipotecando sua casa para arcar com a adaptação para o cinema do livro Psycho, de Robert Bloch, o qual classificou como “diabolicamente divertido”. Baseado em fatos reais, o enredo e o personagem Norman Bates são inspirados em Ed Gein, assassino que dissecava suas vítimas e construía objetos com partes do corpo humano, no interior americano, no fim dos anos 50.

Mais de meio século depois, chega às telas Hitchcock, primeiro trabalho de ficção do londrino Sacha Gervasi, que aborda os bastidores do filme e a relação de Sir Alfred (interpretado por um caricato Anthony Hopkins) com a esposa Alma Reville (Helen Mirren). Baseado no livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose (Ed. Intrínseca), de Stephen Rebello, talvez o maior trunfo do filme esteja em não se levar demasiado a sério nem assumir um caráter de cinebiografia, diferente, por exemplo, do tenso The Girl (2012), que aborda os escândalos envolvendo Alfie e a atriz Tippi Hedren enquanto rodavam Os Pássaros (1963) e Marnie – Confissões de uma Ladra (1964). Aliás, com maior ou menor intensidade, Hitchcock costumava apaixonar-se platônica e doentiamente por suas blondie girls.

Como de praxe na época, o roteiro de Psicose (assinado por Joe Stefano) precisou da aprovação do departamento de censura cinematográfica, o que, aliás, rende uma boa sequência na trama, principalmente quando Hitchcock é questionado quanto à nudez no assassinato no chuveiro (‘ela não estará nua, usará uma touca de banho’) e pela filmagem de um vaso sanitário aberto, fato inédito até então. O filme transita desde o casting de atores, curiosidades do set até sua exibição e consagração. Revela ainda a mágoa do cineasta com Hollywood (Hitchcock nunca foi premiado com um Oscar, apenas homenageado com o prêmio memorial Irving G. Thalberg, pelo conjunto da obra, em 1979), seus transtornos alimentares e crises emocionais. Aliás, durante seus devaneios, Hitch chega a dialogar com o serial-killer Ed Gein (Michael Wincott).

Helen Mirren e Anthony Hopkins em cena de Hitchcock - Foto: divulgação

Paralelo ao making of, o filme explora a máxima “por trás de todo grande homem há uma grande mulher”. Assim sendo, detrás do egocêntrico mestre do suspense havia Alma Reville, sua companheira por toda a vida e peça ativa em todas suas produções, seja como consultora, revisora ou montadora. Inclusive a trilha sonora da cena do chuveiro composta por Bernard Herrmann foi insistência sua. A ideia de Hitchcock é que a sequência de golpes fosse muda. Alma suportava, ainda, os flertes do marido com jovens atrizes e sofria com o ciúme provocado por sua aproximação com o escritor Whitfield Cook (Danny Huston). Aliás, há que se destacar a inspirada interpretação de Helen Mirren como a espirituosa e decidida Alma e o elenco estrelar do longa, que conta com Scarlett Johansson como Janet Leigh/Marion Crane e James D’Arcy interpretando Anthony Perkins/Norman Bates, além de Jessica Biel, Toni Collette e Ralph Macchio (o eterno Daniel San, de Karatê Kid). Sente-se, porém, a ausência na trama – tanto em sua figura familiar quanto profissional – de Pat Hitchcock, filha do casal e atriz em Psicose.

A verdade é que a “franquia psicótica” rende frutos até hoje, a exemplo da série Bates Motel, do Canal A&E, que foca na adolescência de Norman e estreou sua primeira temporada dia 18 de março nos EUA. Ainda que muito inferiores ao original e dirigidas por três cineastas distintos, não esqueçamos das continuações Psicose II (1983), Psicose III (dirigida pelo próprio ator Anthony Perkins, em 1986) e Psicose IV – O Começo (1990), além do (desnecessário) remake para o clássico, do cineasta Gus Van Sant (1998) e do documentário The Psycho Legacy (2010). Mesmo apresentando algumas falhas e divergências em relação ao livro que o originou e um Anthony Hopkins um pouco aquém da expectativa gerada, Hitchcock (talvez até mesmo o título esteja equivocado) possui seus méritos, seja por introduzir ao público Alma Reville ou simplesmente homenagear criador e criatura. Trata-se de um bom pretexto para (re)conhecer o cineasta inglês e suas vastas obras-primas e/ou para debruçar-se sobre a mente do perturbado Norman Bates, um dos personagens mais complexos e intrigantes que o cinema já conheceu.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi


Moonrise Kingdom. EUA. 2012.

 

O diretor norte-americano Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums” e “Viagem a Darjeeling”) é reconhecido por seu perfeccionismo formal e por exibir em seus filmes um mundo particular povoado por personagens excêntricos que quase sempre apresentam algum tipo de desajuste social ou afetivo. Ele está longe de ser uma unanimidade. Seus detratores condenam os exageros e as “afetações” de seus trabalhos, outros conseguem enxergar nele a genialidade de grandes mestres, como o do seu conterrâneo Woody Allen, que imprimem em sua obra uma marca própria, tornando-a inconfundível.

Moonrise Kingdom, o novo trabalho do diretor, traz todas as características recorrentes em suas criações, no entanto, este não é um filme fácil de ser rotulado ou enquadrado em um determinado gênero. Ele é conduzido em tom de fábula unindo realidade a acontecimentos fantásticos, tornando-se assim rico em simbolismos e metáforas cujos sentidos vão além do que é meramente apresentado na tela. Se fôssemos descrever a história, não encontraríamos nada assim tão surpreendente. Contudo, não está aí o ponto forte da produção, o que impressiona mesmo é a forma que a narrativa é contada. As situações simples parecem adquirir um maior relevo e todos os elementos cinematográficos encaixam-se perfeitamente como em uma harmoniosa sinfonia ou nos movimentos mágicos de um malabarista.

Não é à toa que Anderson faz uma referência aos instrumentos musicais na película, a todo momento sentimos a sua presença a reger uma enorme orquestra. Tudo conduz sinestesicamente o espectador a se envolver com a trama. Os dinâmicos movimentos de câmera parecem nos colocar no interior de cada acontecimento e os enquadramentos da tela fazem com que vejamos através dos olhos dos personagens. A envolvente trilha sonora tem o poder de nos transportar para outros mundos. O artifício da narração e da leitura utilizado pelo roteiro cria um clima de cumplicidade ímpar com a história e seus intérpretes. As cores (em tons pastéis), o apurado figurino do anos 60, as encenações teatrais, tudo contribui para que os amantes do cinema sintam prazer do início ao fim da exibição. Algo mágico, difícil de ser descrito, instala-se.

Kara Hayward e Jared Gilman / Foto: divulgação

A trama se passa no verão de 1965 em uma fictícia ilha (New Penzance) na costa da Nova Inglaterra. Ela irá mostrar a aventura de um garoto (Jared Gilman) e uma garota (Kara Hayward) de 12 anos que se enamoram e decidem fugir juntos. A partir daí, viajaremos também em uma jornada sobre as descobertas do amor, amizade, companheirismo e dos percalços que marcam a passagem da infância para a vida adulta no melhor estilo de grandes filmes como Conta comigo (1986), de Rob Reiner, protagonizado por pequenos astros do cinema e baseado em um conto de Stephen King.

Os personagens do pessimista universo adulto são interpretados por grandes nomes do cinema. Bruce Willis desempenha o papel do carente e solitário policial da ilha; Bill Murray e Frances McDormand (Fargo), pais da protagonista, representam um casal de advogados que se sentenciam a viver uma relação fracassada e, Edward Norton, um desencontrado professor de matemática, incorpora o chefe dos escoteiros no seu tempo livre.

Moonrise Kingdom foi esnobado pelo Oscar 2013, sendo indicado apenas à categoria de roteiro original, assinado por Anderson e Roman Coppola. É, contudo, uma obra não usual que necessita ser descoberta. Um filme milimetricamente pensado e perfeitamente lapidado como um brilhante que brinca e arrisca com as formas e a arte de fazer cinema. Tudo isto, no entanto, sem perder a delicadeza e explorando com grande propriedade as sutilezas do sentimento humano.

 

 

(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Django Livre (Django Unchained). EUA. 2013.

 

 

Django Livre (Django Unchained), a mais nova incursão cinematográfica do diretor Quentin Tarantino faz uma homenagem ao filmes Western spaghetti italianos, muito famosos nas décadas de 60 e 70. Além do nome do personagem principal e da música tema, contudo, a obra não apresenta muito em comum com o filme homônimo dirigido em 1966 por Sergio Corbucci e estrelado por Franco Nero (que faz uma participação especial na trama). O Django original passa todo o filme arrastando um misterioso caixão movido pela necessidade de vingar o assassinato de sua mulher. Em sua versão, Tarantino recria toda a história, mas preserva o instinto de vingança do protagonista, aliás tema recorrente em sua obra.

A película é ambientada no sul dos Estados Unidos, dois anos antes da Guerra Civil americana. A mácula da escravidão serve como pano de fundo ideal para a violência apresentada no filme, que, por mais extremada que possa nos parecer, será ainda menos cruel que a que realmente ocorreu. Jamie Foxx, vencedor do Oscar de melhor ator por “Ray”, personifica Django, um escravo liberto pelo arguto Dr. King Schultz, um caçador de recompensas, brilhantemente interpretado por Christoph Waltz, austríaco vencedor do prêmio de melhor ator em Cannes ao dar vida ao nazista Hans Landa de Bastardos Inglórios. Os dois irão formar uma dupla imbatível e partirão em um segundo momento da história em uma longa jornada para procura e resgate da esposa do herói. O filme conta ainda com nomes de peso no elenco, como Leonardo DiCaprio, no papel de um latifundiário escravagista, e de Samuel Lee Jackson, quase irreconhecível, encarnando extraordinariamente o velho lacaio negro de DiCaprio, racista e totalmente insensível às agruras sofridas por sua etnia.

Christoph Waltz e Jamie Foxx na pele dos protagonistas / Foto: divulgação

Esta versão Livre de Django traz todas as qualidades que consagraram o diretor e lhe conferem um estilo inconfundível, imitado por muitos seguidores. Uma direção ágil, movimentos de câmera não usuais e precisos, um texto afiado e irônico, a história que foge da linearidade comum e, óbvio,  sangue, muito sangue… Pulp Fiction – Tempos de Violência (1994), seu segundo longa, por exemplo, se tornou um marco para a sétima arte, introduzindo novos parâmetros que influenciam até hoje a linguagem do cinema.

Assim como em outras obras, Tarantino assina em Django Livre o roteiro original, extremamente inspirado e agraciado este ano com o Globo de Ouro. A trilha sonora, escolhida a dedo pelo próprio diretor, “para variar”, é uma preciosidade à parte e cai como uma luva ao filme. Temos a impressão que as cenas são construídas para se moldar a ela, tão grande é a sintonia. Há músicas clássicas do Western, além de algumas liberdades como James Brown, 2Pac, John Legend e o rapper Rick Ross. A obra concorre ao Oscar 2013 em 5 categorias: ator coadjuvante (Christoph Waltz), roteiro original, fotografia (deslumbrante), edição de som e melhor filme.

O filme foi alvo de inúmeras controvérsias. O diretor Spike Lee (ícone do cinema afro-americano) chegou a declarar que não assistiria ao filme por considerá-lo desrespeitoso à memória de seus ancestrais, outros o acusam de ser racista pelos termos depreciativos com que trata os negros. Polêmicas à parte, o Django de Tarantino se posiciona Livre, acima de qualquer convenção e purismo. Em muitas cenas, chega a ser mais eloquente contra os horrores da escravidão e da discriminação racial que muitos militantes extremistas que sobem ao púlpito para proferir discursos vazios.

Quentin Tarantino brinda mais uma vez seus admiradores com uma obra instigante, cheia de reviravoltas e diálogos sedutores que encantam e prendem o espectador em suas quase 3 horas de exibição. Confesso que fiquei meio com pena de Spike Lee por perder este grande filme.

 

 

(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Amor (Amour). Áustria/França/Alemanha. 2012.

 

 

 

“- É bela.
– O quê?
– A vida. Tanto tempo. A vida longa”.

 

Os passos juntos já não são os “da dança sob a Ponte d’Avignon”, são de suporte para atividades básicas como sentar em uma poltrona ou levantar do vaso sanitário. O auxílio para despir a roupa, não mais erótico e sim de amparo. O desjejum na cama, outrora sinônimo de romantismo, é hoje uma necessidade. O vigor do sentimento mais sublime que pode existir é tão feroz quanto à degradação da matéria e da memória. Ambientado em Paris, Amor, longa-metragem mais recente do cineasta austríaco-alemão Michael Haneke e vencedor da Palma de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cannes 2012 é um retrato seco e dilacerante (de 125 minutos) da inevitável passagem do tempo.

Anne (Emmanuelle Riva, da nouvelle vague Hiroshima Mon Amour, de 1959) e Georges (Jean-Louis Trintignant, afastado há quase 15 anos das telas) são octogenários ex-professores de música erudita. A única filha, Eva (Isabelle Huppert, que volta a trabalhar com o diretor 11 anos após A Pianista), também instrumentista, vive com o marido em Londres. Após um procedimento cirúrgico, Anne sofre um AVC e tem o lado direito de seu corpo paralisado. Diante da decadência gradual provocada pelas sequelas da cirurgia, a idosa diz ao marido que não vê mais nenhuma razão para continuar vivendo. O que se observa, a partir disso, é um constante esforço do casal Laurent em aceitar o sofrimento da perda iminente à base de muita paciência, elegância e de todo o amor sugerido pelo título da película.

Aliás, mais que o amor, é o comprometimento com a dignidade o verdadeiro sujeito do filme. Compassivo e realista, Haneke traz uma abordagem rigorosa para a velhice, sem, contudo, tornar-se piegas ou alarmista. Nunca veremos Anne na assepsia de um leito hospitalar, por exemplo, já que praticamente todo o longa se passa dentro do amplo apartamento do casal. Repleto de simbolismos e elementos oníricos, Amor celebra vida e morte, sacrifício e piedade, sanidade e demência, além de tecer uma crítica velada à terceirização de cuidados em clínicas e asilos. Haneke  contempla-nos ainda com sopros de ternura e humor, principalmente quando Anne aprende a locomover-se em uma cadeira de rodas motorizada ou quando uma verborrágica e inconveniente Eva discorre friamente sobre o mercado financeiro enquanto sua mãe, confusa, balbucia palavras desconexas. E a filha tem o disparate de protestar ao pai: Ela só diz bobagem!”.

Protagonizado por dois lendários atores do cinema francês em densas interpretações e eleito como o Melhor Filme Europeu do ano pela Academia Europeia de Cinema (conquistou também os prêmios de melhor atriz, ator e diretor), Amor é o representante da Áustria como pré-candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2013 e acaba de ser indicado na mesma categoria ao Globo de Ouro. Tal qual em Caché (2005) e A Fita Branca (2009), Haneke prossegue seu cinema cadenciado, polêmico e violento mesmo que a violência aqui assuma outro viés , capaz de colocar a plateia numa desconfortável posição de “voyeur apocalíptico”. Ainda que menos impactante que seus outros premiados filmes, é impossível sair incólume do cinema, justamente pela simplicidade e crueza emanada pelo Amor hanekeano. Afinal, de uma forma ou outra, o amor quase sempre provoca dor.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. Brasil. 2010.


 

“(…) Mas só viveu de fato quem conheceu luz e sombras”.

É inquestionável que O Bandido da Luz Vermelha (1968), primeiro longa-metragem de Rogério Sganzerla, então um jovem crítico de cinema de 22 anos, tornou-se um manifesto do denominado cinema marginal. O filme – baseado na história de João Acácio Pereira da Costa, lendário assaltante de mansões paulistanas que usava um lenço para cobrir o rosto e uma lanterna de bocal vermelho – revela todo o experimentalismo, estrutura díssona e estética radical que romperam o tradicionalismo narrativo da época, ignorando censura e mercado e conquistando público e crítica. Endossado por nomes como Ozualdo Candeias, Andréa Tonacci, Júlio Bressane e João Silvério Trevisan, os marginais foram grandes entusiastas da ironia e da subversão da linguagem cinematográfica brasileira. Pressionado pela ditadura militar, o movimento teve seu fim em meados da década de 70, com vários cineastas exilados na Europa. Sganzerla faleceu em 2004, vítima de um tumor cerebral, mas deixou como legado o que seria o roteiro original de uma continuação deste clássico: Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, adaptado anos depois pela atriz Helena Ignez (viúva do cineasta e sua eterna musa) e transformado quase em projeto familiar, produzido e protagonizado pelas filhas do casal.

Jorge Prado – uma das identidades do Bandido da Luz Vermelha – ou simplesmente Luz (Ney Matogrosso) é um prisioneiro de si mesmo. Condenado a 300 anos de cadeia e recluso há 30, o “malandro forçado pelas circunstâncias” viu sua pena gradativamente reduzida (e suas regalias atendidas) de acordo com os crimes não-resolvidos que assumia ser autor. Os mais atentos logo questionarão: como pode Luz estar preso se ele morre eletrocutado no filme de 68? Ao que o próprio detento protesta enquanto assiste a cena: “– Não foi assim que eu ensaiei pra morrer!”. Jorge Bronze (André Guerreiro Lopes), codinome Tudo-ou-Nada, é filho de Luz, fruto de seu relacionamento com Olga (Sandra Corveloni), uma das muitas mulheres que realizam suas fantasias sexuais em visitas íntimas na prisão. Tudo-ou-Nada ingressou na marginalidade ainda moleque, cometendo pequenos furtos antes mesmo de saber sua filiação famosa. Após a revelação da mãe, torna-se uma espécie de sucessor de Luz Vermelha (ou de Michel Poiccard, em referência ao personagem de Acossado, de Goddard), tanto na indumentária criminal quanto ideológica, cujo lema é “ouro ou euro”.

Ney Matogrosso na pele do Luz Vermelha

Vale salientar que em nenhum momento Ney Matogrosso fica intimidado pela sombra de Paulo Vilaça (o bandido original): o cantor está magnífico e totalmente entregue no papel de um Luz Vermelha enjaulado e amargo, que se exercita com aparelhos improvisados, lê Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, recita Kant em espanhol, declama com veemência profundas reflexões sobre a prisão e a vida, e faz uma performance de seu próprio Sangue Latino. O longa (que à primeira vista pode ser confundido com título de terror) conta ainda com rápidas participações de Bruna Lombardi, Maria Luísa Mendonça, Simone Spoladore, Paulo Goulart, Sérgio Mamberti, Arrigo Barnabé, José Mojica Marins, Thunderbird e Criolo. A própria Helena Ignez está no elenco como Madame Zero, uma antiga confidente de Luz, assim como sua filha Djin Sganzerla, que interpreta Jane, personagem homônima e semelhante (inclusive fisicamente) ao de Helena no primeiro filme. As “Janes” são namoradas, respectivamente, de bandido-pai e bandido-filho e protagonizam a mesma cena a bordo de um Galaxie conversível em direção à praia.

Menos que uma sequência e mais que um remake (além da inserção de cenas do original, estrutura, planos e mesmo determinados diálogos se mantêm idênticos), Luz nas Trevas é um tributo a criador e criatura. Montado em 2010, o filme participou de alguns festivais e sofreu vários cortes até chegar a sua versão definitiva, lançada oficialmente sem muito alarde somente este ano. Dirigido por Helena Ignez em parceria com Ícaro C. Martins, a película revisita e reverencia um artista e sua principal obra que – mais de 40 anos depois – continua moderna e transgressora. Mantendo o discurso político do filme referencial, através de locuções radiofônicas sensacionalistas (com narrações também de Helena, Ney Latorraca e Gilcivan Carvalho) e de uma coletânea de frases de efeito (várias delas em letreiros luminosos), Luz nas Trevas permanece criticando a mídia e a polícia, o sistema carcerário (“numa penitenciária ninguém se penitencia de nada”) e a justiça brasileira (“os grandes espertalhões do Brasil não vão pra cadeia”). Definitivamente o cinema-herança do catarinense Sganzerla segue vivo, contestador e atemporal. Se há luz nas trevas [da prisão], por que não haveria originalidade na aparente mesmice?

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

Elefante Branco (Elefante Blanco). Argentina. 2012.

 

 

 

‘Sonho em morrer por eles. Ajuda-me a viver para eles’.
(Pe. Carlos Mugica)

Como bradaram os Titãs, no final da década de 80, em uma de suas músicas mais emblemáticas do álbum Õ Blésq Blom: ‘miséria é miséria em qualquer canto’. Ainda que tal problema atinja dimensões universais, o cinema lírico-realista do portenho Pablo Trapero – um dos diretores sul-americanos mais renomados no exterior – explora o tema de um modo peculiar. Em Elefante Branco, seu sétimo longa-metragem, ele desconstrói o que poderia se tornar mais um abrasileirado favela-movie para questionar o papel do estado, das milícias e principalmente da igreja no conturbado ambiente das periferias. Há uma humanização simbólica por parte dos sacerdotes: eles vestem jeans, falam palavrão, bebem e fumam. E isso não só os aproxima dos habitantes da favela onde pregam como conquista a simpatia dos espectadores. A película dialoga com a floresta e o subúrbio, a brutalidade e o altruísmo, a caridade e a (in)justiça. Sim, riquezas são diferenças.

Sobrevivente de um massacre, enquanto estava em missão na selva amazônica, o padre belga Nicolás (Jeremie Renier) foi resgatado por Julián (Ricardo Darín) para ser seu sucessor no trabalho religioso-social da Villa 31, uma das maiores favelas dos arredores de Buenos Aires, onde vivem mais de 30 mil pessoas. Ali, Julián comanda uma paróquia e, com o apoio da assistente social Luciana (Martina Gusman, esposa do cineasta e atriz de quase todos seus filmes), supervisiona a construção de casas populares no terreno onde seria instalado o maior hospital da América Latina – projeto idealizado pelo socialista Alfredo Palacios, em 1937, e inacabado durante diversos governos – ou seja, o elefante branco que dá título ao filme. Mediadores entre traficantes, moradores e policiais, os três voluntários dividem o hospital abandonado com cerca de 300 famílias e o utilizam como QG para administrar seus projetos sociais, conflitos internos e dramas pessoais, sobretudo quanto à contribuição real de seus esforços e à vocação celibatária.

O sucessor de Carancho (2010) – denúncia sobre a máfia dos seguros de automóveis na Argentina, também protagonizado por Martina Gusman e pelo sempre intenso Darín, que empresta mais uma vez todo seu talento e carisma ao roteiro de Trapero (novamente em parceria com Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre) – tece, simultaneamente, uma crítica social, política e religiosa acerca do processo de favelização e da violência gerada pelo narcotráfico. Se no filme anterior os personagens eram parasitas uns dos outros com o intuito de enriquecer, aqui eles doam seu tempo e sua própria vida unicamente na tentativa de salvar o próximo. Mesmo que a situação seja dura, fica subtendida a mensagem esperançosa de fé, seja de forma prática ou espiritual.

Com uma temática visceral, porém de muito apuro estético, o filme abusa dos planos-sequência desde cenas prosaicas até as mais violentas, conferindo um caráter coadjuvante e quase documental à trama. Exibido no Brasil de forma inédita durante o Festival do Rio 2012 (27 de setembro a 11 de outubro), Elefante Branco é inspirado e dedicado ao Padre Carlos Mugica, mártir ligado ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo (MSTMU) – espécie de ‘socialismo religioso’ originário na Argentina nos anos 60 – assassinado em 11 de maio de 1974. Em escala local e contemporânea, estendamos a homenagem a todas as vítimas do massacre do Pinheirinho e aos desabrigados das comunidades de São Paulo, atingidos por mais de 30 misteriosos incêndios. É, a morte não causa mais espanto.

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

 

Por Larissa Mendes

 

Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim (Late Bloomers). França/Bélgica/Reino Unido. 2011.

 

 

“Não somos bebês enrugados!”.

No livro Homem Comum, o escritor Philip Roth afirma que ‘a velhice é uma batalha em que não há chance de vitória’. Diante de tal prenúncio, nos questionamos de modo cada vez mais recorrente se o aumento da expectativa de vida e a segmentação do mercado consumidor na terceira idade são suficientes para que estejamos de fato preparados para o envelhecimento. O cinema também se deu conta de tal filão e o enredo que poderia facilmente cair na dramática armadilha Mal de Alzheimer, ganha um novo sopro de inspiração na comédia agridoce Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim (traduzido em alguns países como 3 Vezes 20 Anos). Os Bloomers que dão título ao segundo longa-metragem de Julie Gavras são Adam (William Hurt), consagrado arquiteto que revolucionou o sistema de aeroportos há 3 décadas e hoje atua como sócio de um modesto escritório de design, e sua esposa Mary (Isabella Rossellini), professora aposentada em busca de trabalhos voluntários que preencham seu dia-a-dia. Casados há 30 anos e com 3 filhos adultos, Adam e Mary passaram mais da metade de suas vidas juntos, o que hoje, diante de tantas divergências, já não parece fazer tanto sentido, desencadeando assim uma crise conjugal que afeta seus respectivos afazeres, seus familiares e amigos próximos.

Ambientado na Inglaterra, quase nada caricato e muito cativante, Late Bloomers (trocadilho, suponho eu, com a expressão baby boomer) faz uma bela reflexão sobre o amor e a vida de forma atemporal. Aliás, de modo bastante autoral, Julie Gavras (sim, filha do cultuado cineasta grego Costa-Gavras, hoje com quase 80 anos) parece ter o dom de transformar assuntos delicados em substantiva delicadeza. Se em A Culpa é do Fidel (2006) Julie apontava para a revolução socialista sob uma ótica infantil, em seu segundo longa ela se vale da outra extremidade da vida justamente para não transformar a “melhor” idade (afinal, melhor pra quem?) em discurso de experiência e sabedoria. Não que o roteiro da cineasta em parceria com Olivier Dazat e David H. Pickering escape ileso de alguns lugares-comuns próprios da idade, como as síndromes de Peter Pan e do ninho vazio, mas, se o faz, compensa na dose de humor e ironia, caracterizada, sobretudo, pela inversão de papéis de seus personagens. Enquanto Adam resiste até mesmo em participar de um projeto para a construção de asilos de luxo, a personagem de Isabella Rossellini aceita com um pouco mais de naturalidade o fato de envelhecer – o que seria bastante doloroso para uma mulher considerada ícone de beleza –, desistindo da clichê hidroginástica e adaptando sua casa com um telefone de teclas enormes, barras de apoio no banheiro e mesmo com uma cama hospitalar de controle remoto. A tradição e moralismo, quem diria, ficam por conta da reação dos filhos diante da provável separação dos pais sexagenários. Vale destacar também o papel de Charlotte (Joanna Lumley) na trama, como amiga de Mary e líder das Panteras Grises, exercendo uma função essencial na epifania dos protagonistas.

Com diálogos refinados, belas sequências – sobretudo a cena inicial e final – e ancorados por uma dupla de atores de qualidade e renome (com destaque para o charme e elegância da filha de Ingrid Bergman e Roberto Rossellini), que baseados, ironicamente, apenas em sua experiência, talvez já valesse o ingresso, Late Bloomers traça um retrato bastante franco e desmistificado sobre a velhice. O filme adverte ainda que nem mesmo o amor pode deter a individualidade, a passagem do tempo e a iminência da morte. Vida longa à Julie Gavras e ao seu cinema de livre [e sensível] faixa etária, que finalizará sua trilogia autobiográfica de protagonistas femininas de várias gerações com The Chocolate War (título provisório da película), sobre o papel de uma mulher na faixa dos 40 anos (idade da cineasta) na sociedade contemporânea.

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

God Bless America. EUA. 2011.

 

 

“Por que ter uma civilização se não queremos ser civilizados?”

 

Programas sensacionalistas, fofocas sobre o mundo das celebridades, reality shows de todas as espécies. Quem nunca sentiu sua inteligência subestimada pela TV aberta (e por que não, a cabo), com vergonha alheia da exploração consensual numa tarde de domingo (ou num dia qualquer), exceto os que desligaram o televisor e foram ler o tal livro sugerido pela campanha da MTV? A banalização da liberdade de expressão reduzida aos meros 15 minutos de fama, de Andy Warhol, e demais lixo midiático é tema de God Bless America, filme de humor-negro escrito e dirigido pelo comediante e ator Bobcat Goldthwait (o Zed, de Loucademia de Polícia). Trata-se de uma crítica feroz e politicamente incorreta justamente ao culto do politicamente incorreto, através de um filme tipicamente americano, em sua linguagem e formato.

Frank Murdoch (Joel Murray) é um cinquentão divorciado, aterrorizado pela imbecilidade humana. As paredes de sua casa em Syracuse são tão finas (não por acaso, tem o número de 5773 ½), que ouve todos os estúpidos comentários de seus vizinhos. Após perder o emprego e ser diagnosticado com um tumor cerebral letal, extremamente deprimido, Frank pensa em suicídio. É interrompido de tal pensamento enquanto assiste um reality show estrelado por Chloe (Maddie Hanson), adolescente rica e mimada que fica inconsolável por ter sido presenteada pelos pais com o modelo errado do Cadillac que queria. Inconformado com tamanha futilidade e temendo que sua filha Ava (Mackenzie Brooke Smith) cresça da mesma forma, Frank decide matar Chloe. Roxy Harmon (Tara Lynne Barr), testemunha ocular do crime e colega da garota morta, aprova sua atitude e juntos, tornam-se parceiros de crime, viajando pelo país exterminando sub-celebridades [de]formadoras de opinião e demais anônimos sem ética contrários as suas convicções. Ou seja, a famosa “escória da sociedade”.

Misto de Um Dia de Fúria (1993) com Beleza Americana (1999), God Bless America satiriza e critica severamente a indústria do entretenimento e o “american way of life”, bem como o consumismo e a superficialidade sócio-cultural em escala mundial. Como enfatiza Frank num excelente diálogo travado com um colega de trabalho: “Já ninguém diz nada. Apenas regurgitam o que assistem na TV, ouvem no rádio ou veem na internet”. Esquerdista, violento e avesso a sutilezas, God Bless America tem a seu favor as inúmeras cenas de carnificina e a verborragia dos carismáticos matadores, sobretudo em suas divertidas análises sobre Diablo Cody, Alice Cooper e demais personagens da cultura pop americana. Aliás, o contraponto entre o entusiasmo da cativante Roxy e a aparente apatia de Frank torna a dupla de anti-heróis ainda mais inusitada. É memorável a cena em que Roxy – com uma pistola em punho – afirma ser contra o armamento da população, justificando que assim “qualquer idiota teria uma arma”. Destaque ainda para a excelente trilha sonora, principalmente nas cenas de morte. Não esqueçamos, contudo, que a grande discussão do filme é a inversão de valores da sociedade contemporânea e não uma reles apologia à violência como solução imediata ao processo de emburrecimento de uma ou várias nações. A propósito, God Bless Brazil.

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)