O Futuro (The Future). Alemanha/Estados Unidos. 2011.
“(…) – a espera é o que se faz dela”.
(J.P. Cuenca, A Última Madrugada)
“Quanto tempo será que demora um mês pra passar?”. O verso da banda carioca Biquini Cavadão parece ilustrar com precisão O Futuro, segundo longa-metragem da escritora, artista plástica, videomaker, atriz e cineasta norte-americana Miranda July. O quanto um momento de espera – seja ela qual for – e a relatividade do tempo são capazes de provocar sentimentos diversos, que beiram da impaciência à angústia? O quanto um hiato, ainda que “terceirizado”, pode desencadear a ruína de uma relação de amor? Seria a tal maldição do stand-by, a iminência do fim para a pausa do que quer que seja?
Sophie (Miranda July) e Jason (Hamish Linklater, de The New Adventures of Old Christine) estão juntos há 4 anos e dividem um pequeno apartamento em Los Angeles. Ela, professora de dança para crianças; ele, técnico de suporte em internet. Um dia eles encontram um gato de rua, que sofreu uma fratura na pata (não por acaso, o batizam de Patinha) e decidem adotá-lo. Entretanto, Patinha tem uma sobrevida de no máximo um semestre (porém, se bem cuidado poderá viver até 5 anos) e precisará ficar 1 mês no abrigo até que possa recuperar-se e ir para casa. Quando tais notícias são dadas pela veterinária, o casal entra em colapso por se dar conta da responsabilidade que estão assumindo e resolvem, assim, utilizar seus 30 dias restantes “de liberdade plena” para dar um sentido às suas vidas. Jason abandona os computadores e passa a vender árvores para a associação Tree by Tree, numa tentativa de salvar o planeta do aquecimento global, enquantoSophie sai da academia em que trabalha para produzir vídeos de dança bizarros que possam bombar no youtube.
Ainda que muito mais experimental que seu precursor, o gracioso Eu, Você e Todos Nós (2005),é possível observar certa conexão entre os filmes. Enquanto o primeiro aborda o colorido das relações e transita entre vários personagens, o elenco enxuto de O Futuro parece prever seu desbotar. Inclusive o diálogo final de Eu, Você e Todos Nós pode ser compreendido como uma espécie de pretexto para o argumento deste último:
– O que você está fazendo?
– Passando o tempo.
Surreal e provocador, O Futuro promete dividir paladares. Repleto de elementos performáticos e fantásticos, reflete toda a excentricidade artística de Miranda July, bem como a constante melancolia e descompasso de seus personagens perante o mundo. Como se não bastasse, Patinha, ele mesmo, o gato coxo (manipulado como um fantoche, o expectador vê apenas suas patas dianteiras) ser o narrador ocasional da história (com uma voz infantil cedida pela própria diretora), relatando impressões de sua vida e de seus donos, o personagem Jason “tem poderes” de parar o tempo e tecer uma longa conversa com a lua. A velada “crise dos 30”, a ansiedade demandada por uma espera, o papel da internet na sociedade moderna e a própria superficialidade do ser humano são questões que permeiam o filme, num misto criativo de estranheza, vazio e solidão. Tragados pelo presente – enquanto aguardamos o emprego ideal, o amor eterno ou mesmo o gato ficar curado –, vivemos em suspenso para um futuro que eventualmente nem existirá.
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)
Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto (Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo). Argentina. 2011.
“A vida é um bolo de merda e cada dia há que se comer um pedaço”.
(Alberto Laiseca)
Quem jamais proferiu a melancólica frase “ah, se eu tivesse 20 anos com a cabeça que tenho hoje…” (salvo os que mal saíram de tal faixa etária), que atire a primeira pílula da juventude. A oportunidade de voltar ao passado para reparar um erro ou meramente para se dar bem paira no subconsciente do homem desde que este usa a desculpa de comprar cigarros. Com enredo inspirado no diabólico poema Fausto, de Goethe, e baseado em um conto inédito do escritor Alberto Laiseca, que faz as honras de narrador da película, Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto traça um retrato amargo, porém franco, das frustrações, da mediocridade e da insignificância do ser humano.
Ernesto Zambrana (Emilio Disi) é um corretor de imóveis de 63 anos, que leva uma vidinha pacata em Olavarría, província de Buenos Aires. Com a nítida impressão de que é um fracassado e nunca teve boas oportunidades na vida, um dia, enquanto almoça com a mulher Rosa (Emma Rivera) em um restaurante simplório, é abordado por um homem misterioso e sem nome (interpretado por Eusebio Poncela), que lhe propõe o seguinte acordo: Ernesto pode voltar no tempo e passar 10 anos em qualquer época de sua vida e, quando retornar a 2011, receberá uma recompensa de 1 milhão de dólares. Para sua mulher, entretanto, não se passarão mais que 5 minutos, tempo que justifica a frase-título do filme. O que se vê a partir daí é uma realidade paralela, com um Ernestito desculpando-se com a mãe enferma, implantando o (até então inédito) formato reality show no Canal 3, em Olavarría, tentando impedir o atentado às Torres Gêmeas, plagiando antecipadamente Imagine, de John Lennon, entre tantas outras passagens jocosas e mal-sucedidas.
Se a temática ‘viagem no tempo’ já foi explorada com exaustão pelo cinema e o próprio título possa parecer repetitivo, o filme ganha em seu argumento e estrutura, a começar pelos poderes conferidos ao anônimo imortal (ou seria ele o demônio?): contrariando o matemático Gauss, ele foi atingido duas vezes por um raio, que o fez morrer e reviver, no Marrocos – lugar onde, segundo o narrador, qualquer coisa impossível pode acontecer. Outro diferencial é a narrativa fragmentada, com inserções do próprio Laiseca justificando algumas passagens do conto/filme. A propósito, o carismático escritor é uma enciclopédia de frases de efeito[-riso]. É interessante observar também que uma tartaruga – animal de estimação de Ernesto – pontua a passagem dos anos, como que advertindo que o tempo tem um caráter de efemeridade relativa.
Com roteiro e direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat, os mesmos cineastas de O Homem Ao Lado (2009), Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto é uma comédia non-sense da qual os hermanos parecem ter se tornado especialistas. Abordando a trinca tempo-vida-morte de forma crua e com certo humor negro, é um filme leve e divertido, porém altamente reflexivo, principalmente porque subverte o tom existencial pela pura fatalidade. Queridos, vou comprar pipoca e já volto.
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)
Saber adentrar com maestria as searas do tempo pode significar um atributo deveras valioso a um autor. Na dinâmica das experiências vividas, a capacidade de reter instantes significativos em matéria de criação e depois lhes emprestar sentido, seja em palavras ou imagens, é tarefa especial. É então que o binômio saber e sabor, com a sua magnitude peculiar, perfaz a incerta estrada da criação para depois consolidar uma obra que se pretende autêntica e consistente. Ao pensar numa característica como esta, logo entendemos porque a trajetória de um alguém como W. J. Solha traduz perfeitamente tudo o que foi dito anteriormente. Esse paulista, radicado na Paraíba há alguns bons anos, lapida, a cada passo dado, uma condição diferenciada frente ao universo da arte. Verdadeiro multimídia, Solha assumiu papéis diversos no palco da vida, notadamente dentro das feições de escritor, artista plástico e ator de teatro e cinema. Em cada um deles, soube extrair do tempo os instrumentos necessários ao seu caminho.
No campo da escrita, o traço de W. J. Solha é inconfundível, sendo que a referência a aspectos importantes do percurso vivo de nossas humanas idades pode ser imediatamente reconhecida por quem se permite percorrer os olhos sobre suas letras. O autor de livros emblemáticos como Israel Rêmora (Romance), A Canga (Romance), História Universal da Angústia (Contos) e Relato de Prócula (Romance), dentre outros, agora nos oferta Marco do Mundo, obra que integra uma trilogia poética iniciada a partir de Trigal com Corvos. Assim como seu antecessor, Marco do Mundo se utiliza da perspectiva do poema longo, concatenando de modo preciso e envolvente uma estrutura de versos dotados de complexidade. A ideia do poeta face à angústia da criação é, sem dúvida alguma, o grande trunfo do livro. Some-se a esse aspecto o vigoroso painel de acontecimentos ligados à história da humanidade e que ajudam, sobremaneira, a erigir uma babel de alicerces poéticos bastante sólidos. Na conversa que agora segue, Solha fala sobre seu novo rebento literário, a opção por uma certa independência editorial, o porquê de ter deixado a pintura, além de alguns outros assuntos que permeiam suas andanças pelo terreno cultural.
DA – Logo em seu princípio, “Marco do Mundo” prepara o leitor para uma verdadeira incursão na complexa tarefa do fazer poético. A sensação ali é de que o escritor, antes de parir seus versos, se depara com um fosso abismal de proporções gigantescas, qual seja o mistério da criação em carne viva. Quem escreve é, de fato, um atormentado?
W. J. SOLHA – Criar, para mim, é um tormento. Renoir dizia que somente pintaria enquanto isso lhe trouxesse alegria. Feliz dele. Sofri tanto com os pincéis, que acabei por abandoná-los. Deixei de fazer teatro pelo mesmo motivo. E sofri como o diabo para interpretar meus papéis em O Som ao Redor – de Kléber Mendonça Filho – que está fazendo bela carreira no exterior, desde a estreia no começo de fevereiro, no festival de Roterdã, e sofri do mesmo modo no Era uma Vez Verônica, de Marcelo Gomes, ambos rodados no Recife. Não sei se dói mais assumir outra alma, como ator, ou criar uma nova, escrevendo. Porque é aquilo que diz Fernando Pessoa: Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. A diferença é que a literatura, a poesia, exige isolamento. Com a vantagem de que você é responsável apenas por você mesmo, quanto ao resultado que irá alcançar. No cinema, não: tem-se que pensar coletivamente. Atrás da câmera que faz um close seu, há quarenta pessoas trabalhando. No filme de Marcelo ainda havia um agravante: o apartamento de meu personagem ficava na Conselheiro Aguiar, a segunda rua depois da avenida Boa Viagem, com um trânsito enorme. E cada vez que eu e Hermila Guedes tínhamos uma cena em casa, o Detran parava o tráfego lá fora, pense no que significa isso. E o ator não só se arrisca, como arrisca a obra de alguém que é maior que ele, naquele momento: o diretor. Mas você percebeu bem: quando resolvi escrever o Marco do Mundo senti o salto que teria de dar. Tenho um quadro meu, antigo, em que se vê uma paisagem enorme, com um despenhadeiro altíssimo, e, lá em cima, inebriado pela beleza do que vê, um menino dá um salto, completamente nu, no imenso vazio.
DA – Aos poucos, “Marco do Mundo” vai edificando cada andar de uma tresloucada Babel, aglutinado uma profusão de seres das mais distintas eras. Como tecer a trama dos versos face a tais provocantes humanas idades?
W.J. SOLHA – Eu ainda não tinha a ideia de fazer um poema longo tipo marco, na linha de cordelistas como Ataíde e o Leandro Gomes de Barros, quando vi, mentalmente, a cena em que um contêiner se aproxima de uma torre em construção, trazido por um guindaste, e dele sai para ela, a fim de lhe ser um dos andares, uma noturna e esfuziantemente iluminada Quinta Avenida, de Nova Iorque, com todo seu trânsito e arranha-céus, ao som do clarinete da Rhapsody in Blue, do Gershwin. A essa imagem espontânea seguiram-se outras, como a de outro contêiner chegando, este trazendo uma manada de baios “sob uma nuvem que a bombardeia de raios”, outro vindo com o Arthur Bispo do Rosário e suas centenas de obras de arte, ele no Manto da Apresentação que criou para seu encontro com Deus, “que lá vem, Deus, apesar dos ateus, com tutti quanti angeli et archangeli”. Aí foi inevitável fazer vir com Arthur o Poeta do Absurdo, Zé Limeira, e me atrever a uns versos na linha dele. Na verdade, só a fascinação que tenho pela poesia do Limeira (ou dos que a criaram com seu nome) poderia me deflagrar a grande libertação poética que é o Marco do Mundo, como ele acabou se tornando uma espécie de repto aceito para superar os cordelistas, embora sem me servir do cordel, na loucura criativa que foram suas próprias babéis, publicadas em 1915 e 16 – o Marco do Meio do Mundo e Como Derribei o Marco do Meio do Mundo. Evidentemente, isso acarretou uma desenfreada farra de rimas de todos os tipos imagináveis, dentro de um ritmo alucinatório, com a intenção de induzir o leitor a acompanhar tudo como num filme – sem interrupções.
W. J. Solha - arquivo pessoal
DA – Dentro do percurso escolhido por você, é interessante pensar na noção de poema saga, fundada desde “Trigal com Corvos”. De que modo esse raciocínio consolida o propósito da trilogia?
W. J. SOLHA – A ideia é que em Trigal com Corvos centrei o mundo em mim. O poema longo foi gerado por minha angústia ante a obra a ser feita e que não me saía, de modo algum, satisfatória. O Marco do Mundo é uma visão da História que ocorre mesmo com a minha ausência. E agora estou trabalhando no Homem, daí o Ecce Homo, que é um título provisório. No entanto, assim como o Marco do Mundo não começou com a ideia que dominou depois, nele, não fiz o Trigal já pensando em três poemas longos formando um complexo poético. Como também não fiz as partes que compõem minha História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005) pensando numa coletânea. Tinha feito meus romanceamentos do Édipo e do Hamlet, um conto longo sobre o Rei Saul, outro sobre o menino Parsifal, e percebi, de repente, que estava trabalhando apenas com grandes angustiados. Daí a lembrança da História Universal da Infâmia do Borges e o título que enfeixou tudo.
DA – Algo serviu de modelo para “Marco do Mundo”?
W. J. SOLHA – Sempre tive fascínio pelo making of de um grande filme, pela análise como a que Ernest Jones faz do Hamlet, ou da criação de O Corvo, feita pelo próprio Poe, ou das traduções deste poema, feita por Ivo Barroso. Daí que resolvi que faria parte do Marco do Mundo a própria criação do Marco – fictícia, é claro – com o Poeta aparecendo como seu próprio personagem, que não sou eu, declarando sua poética e a luta para superar os cordelistas autores de marcos anteriores, luta que faz parte, aliás, das características dos marcos.
Muitos disseram que o Marco do Mundo é inanalisável – Ivo Barroso, Ruy Espinheira, Nilto Maciel – pelo que adianto a informação de que fiz o poema longo motivado pelo surrealismo que sempre existiu, independentemente de Breton-Dali, como no caso de nossos cordelistas Ataíde e Leandro Gomes de Barros com seus marcos, de Bosch e Brueghel com seus quadros no século XV, de Apuleio com seu Asno de Ouro no século II, e todas as religiões e/ou mitologias, em que Mercúrio voa, Moisés abre o Mar Vermelho, Jesus anda sobre as águas e multiplica pães e peixes, ressuscita os mortos, enquanto em nossas matas pululam sacis, curupiras e mulas sem cabeça. Jung dizia que as artes, religiões e sonhos provêm da mesma região de nossas mentes. Acredito nisso.
DA – Seus dois últimos livros são fruto de uma postura editorial independente, através da qual você mesmo driblou possíveis amarras e bancou a publicação de ambos. Foi melhor assim?
W. J. SOLHA – O que você acha? Estou pagando para escrever. Desde meu romance Relato de Prócula – que só saiu pela editora A Girafa quando me comprometi a comprar, dela, 500 exemplares, isso vem acontecendo. Ganhara a bolsa da Funarte com ele, para produzi-lo, ganhei, depois, um dos prêmios da UBE-Rio, mas nada disso adiantou. O fato é que W. J. Solha somente é ator de cinema, somente foi artista plástico, somente foi dramaturgo, somente é poeta… Porque existe um prosaico Waldemar José Solha, que trabalhou no Banco do Brasil por 28 anos para – como um mecenas – sustentá-lo.
DA – Dada a confissão que você fez agora, o que mais o impele a prosseguir?
W. J. SOLHA – A certeza de que o mecenas – o bancário aposentado Waldemar José Solha – sabe o que está fazendo, ou a Paraíba não teria, até hoje, seu primeiro longa-metragem, nem a UFPB teria um painel de 7,20 m de largura, composto de 36 telas – homenageando Shakespeare, nem o teatro de João Pessoa teria tido, entre os anos 86 e 90, nenhum espetáculo com texto e direção de W. J. Solha. O que pode não ser grande coisa, mas era o que havia para ocupar um vazio enorme enquanto não chegava Luiz Carlos Vasconcelos pra escrever e dirigir “O Vau de Sarapalha”, que repercutiu Brasil afora e nas estranjas.
DA – O cinema tem feito parte especial de sua vida há muito tempo. Muito do que você escreve tem, por sinal, um forte apelo imagético. Que balanço você faz dessa sua íntima relação com a sétima arte?
W. J. SOLHA – Hemingway dizia que frequentava os museus para aprender a escrever. Realmente, como me dediquei à pintura desde menino, a imagem tem sempre uma forte presença em tudo o que escrevo. Muitos, muitos de meus versos provêm de fotos de quadros ou simplesmente de fotos, pois tenho muitos livros sobre Arte e Fotografia. Mas a dinâmica de meus poemas e romances derivam do cinema, sim. Eisenstein dá o texto de Leonardo com o projeto de um quadro sobre o dilúvio (que faz parte do Marco do Mundo) como nada mais nada menos do que um roteiro cinematográfico. Claro, pois a pintura, ao contrário do que se supõe, não é estática. Se você não dá ao espectador o chamado “caminho do ôlho”, ele vai se perder na “leitura”. A vivência do cinema dá ao poeta e ao romancista uma aprendizagem nova: a de panorâmicas, zooms, cortes, closes, slow-motions. Usei a câmera lenta até no teatro. Em minha peça A Bátalha de OL contra o Gígante FERR, ante o problema de uma cena de duelo com espadas enormes, medievais, portanto perigosas, fiz a coisa toda como uma vagarosa dança que culmina com a morte de FERR. As cenas do Marco do Mundo – há uma fuzilaria dela, no poema – são todas como que de cinema. Deu-me muito trabalho, por sinal, o trecho em que chega à torre a cena de E o Vento Levou, em que Scarlet O’Hara vai à estação de estrada de ferro de Atlanta, atrás de socorro médico para a cunhada, e dá com aquela multidão de agonizantes e feridos da Guerra da Secessão.
DA – Há alguma razão em especial para você ter deixado de se dedicar à pintura?
W. J. SOLHA – Há duas: desde adolescente, vejo a rejeição que se faz ao figurativismo, que sempre me foi muito caro. Em 89, pintei meu painel A Ceia, no Sindicato dos Bancários, de cuja diretoria eu fazia parte, com Marx ,o lugar de Cristo, dizendo Um de vós me trairá, provocando aquela comoção leonardesca nos “discípulos” Mao, Allende, Che, Stálin, Trótski, Lênin, Fidel, Ho Chi Minh e Gorbatchev. Pois bem: lembro-me disso porque alguém, ao me ver pintando a tela de 3 metros e 60 de largo, mostrou-me uma reportagem da Folha de São Paulo dando conta de que uma exposição das obras de Lucian Freud – figurativista – estava com uma fila de virar quarteirão, em torno do Moma de Nova Iorque. Foi o último espasmo de “minha época”, que se esvaía entre meus dedos. Claro, fui a uma mostra de esculturas de Rodin no Recife, mas aquilo já encarado como coisa do passado, como uma sinfonia de Brahms. A outra razão foi essa angústia de que falamos no começo da entrevista. Passei seis meses trabalhando numa tela de dois metros e tanto de altura, em que atualizava o Jardim das Delícias, de Bosch. Passei nove meses fazendo um painel de sete metros e vinte de largura, que está na reitoria da UFPB, homenageando Shakespeare, mas… a insatisfação sempre enorme, sufocante. Van Eyck escrevia sempre, abaixo da assinatura, nas telas dele: “Faço o que posso”. Eu também fazia. Mas não era o suficiente. Aí, em 2004, fiz uma exposição com cerca de duzentos quadros e, sozinho no salão imenso, entre aquele mundo de esforço inútil, tomei a decisão: “Não pinto mais”.
DA – Voltando a “Marco do Mundo”, é possível perceber que o poeta, diante de um mundo eivado de informações, busca lapidar ao máximo o que pode lhe servir de instrumento criativo. Chama atenção nesse momento uma certa obsessão pela perfeição, pelo algo supremo. Para um escritor, de modo geral, tentar erguer uma obra monumental não constitui tarefa árdua demais e quiçá algo desnecessária?
W. J. SOLHA – Árdua, sim. Desnecessária, de modo algum. Pelo contrário, somos carentes de obras monumentais. Em todos os campos. E de perfeição em pequenas coisas, também. Foi o que Ariano Suassuna fez com o grandioso romance A Pedra do Reino e com a comédia nordestina Auto da Compadecida. A Itália se orgulha da Sistina, da Divina Comédia, como do Ladrões de Bicicletas e Amarcord. A busca da perfeição me incomoda, sim, mas porque é preciso ser gênio para consegui-la: trabalho, só, não resolve. E, evidentemente, de gênio não tenho nada. Por isso deixei de fazer teatro e de pintar. Continuo com a literatura porque é onde me sinto menos limitado. Havia jurado, também, não mais me meter em cinema. Houve insistência para que fizesse os testes para os filmes do Kleber e do Marcelo, já tive o alívio de ver que O Som ao Redor está se dando muito bem no exterior, apesar de minha presença. Sofro o suspense de como vai se sair o Era uma vez Verônica… e trabalho na terceira parte da trilogia de poemas longos. Como estou mandando de graça o Marco do Mundo a quem se interessar por ele, pelo menos ninguém poderá reclamar que perdeu dinheiro com o que escrevi.
W. J. Solha - arquivo pessoal
DA- A certa altura de “Marco do Mundo”, o poeta manipula o tempo, atravessa-lhe as entranhas para ver fluir o incorrigível espírito humano. Você acredita que o imediatismo é nosso equívoco maior?
W. J. SOLHA – Tenho a maior admiração pelos repentistas paraibanos. Oliveira de Panelas é assombroso, nisso. Em cima do ponteio da viola faz um discurso rimado em que menciona as flores do vestido de uma senhora presente, os olhos verdes de fulana de tal, também ali, ousando servir-se até do martelo agalopado, que são estrofes em dez versos com dez sílabas cada, todos acentuados na terceira, sexta e décima sílabas, com rimas obrigatórias do primeiro com o quarto e quinto versos, do segundo com o terceiro, do sexto com o sétimo, e do oitavo com o nono. Pense na cabeça desse cara enquanto ao mesmo tempo procura graça e beleza na composição. E isso tudo é … efêmero. Quem viu, viu, quem não viu… – rime você. Os autores de novelas de TV também têm de ser imediatistas, pois a crítica que recebem vem do IBOPE. Já os impressionistas foram, todos, mestres do vapt-vupt, mas Cèzanne dizia querer a arte dos museus. E a conseguiu, o que é juntar a fome com a vontade de comer. O perigoso é o imediatismo que vive embarcando em “ondas”. Portinari sai do Brasil acadêmico, volta da França cubista. O Cícero Dias, daqui do Recife, chagallizando. O que acredito é naquilo que você SENTE que tem de fazer. Meus dois últimos romances – Relato de Prócula e Arkáditch – foram os primeiros, suponho, a abordar a classe média urbana, nordestina, contemporânea. E o que me levou a participar dos dois longas pernambucanos – O Som ao Redor e Era uma vez Verônica, de Kleber Mendonça e Marcelo Gomes – foi justamente o fato de que foram os dois primeiros filmes a tomar o mesmo tema: classe média urbana nordestina, contemporânea. Há, em todas as gerações, tônicas dominantes. Como os ciclos do cacau e da cana de açúcar. A arte tem de se sintonizar ao seu espaço e ao seu tempo, para deixar, deles e neles, a sua marca d´água. Ou não terá feito nada.
DA – Com que olhos você acompanha a produção literária na contemporaneidade? Costuma manter um diálogo aproximado com novos autores?
W. J. SOLHA – Vivo alguma dificuldade para encontrar tempo suficiente para acompanhar o que se faz no Brasil e no mundo. Escrevo praticamente o dia todo, com a urgência a que a idade me obriga, pois não tenho a menor ideia de quanto tempo, ainda, disponho, com tanto que ainda tenho para dizer. Além do mais, escreve-se muito na Paraíba. Leio muita coisa inédita. Há pouco escrevi textos para orelhas e quartas capas de três autores premiados em concurso do Estado. Há um excelente romance de Tarcísio Pereira, O Autor da Novela, que obteve Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte há dois anos, ainda sem editor. Também li os originais de um bom livro de Marilia Arnaud, contista que se aventurou com sucesso no romance. Tirei um atraso, recentemente, comprando um lote de obras do Affonso Romano de Sant´Anna, a quem admiro muito. Fiz a quarta capa, também, há pouco tempo, de um belo romance do Carlos Trigueiro – Libido aos Pedaços – que saiu pela Record. Fiz uma resenha alentada do último romance do Esdras do Nascimento, A Rainha do Calçadão. Li os originais de um romance de primeira, do Hugo Almeida, mineiro lá de São Paulo, com título ainda provisório. Acabo de ler o maravilhoso O Corvo e suas traduções, do Ivo Barroso. Fiz uma entusiástica resenha da recente coletânea de poemas de Ruy Espinheira Filho, que saiu pela Global, etc, etc. Além do mais, meu modo de escrever exige muita pesquisa, e é no que dedico mais tempo, além da escrita propriamente dita.
DA – O mundo está mesmo dividido entre os que leem e os que não leem? Não acha que, nesse aspecto, subestimamos em demasia potencialidades humanas de apreensão da realidade?
W. J. SOLHA – Nunca dividi o mundo assim. Vivi oito anos no alto sertão paraibano, quatro dos quais como chefe da Carteira de Crédito Agrícola, quando tive a oportunidade de conhecer de perto matutos altamente “intiligentes”. Fiz, inclusive, uma comédia – Curicaca – a partir de vinte livros de José Cavalcanti, em que o grande personagem era, sempre, o cabra tremendamente esperto, como o João Grilo do Auto da Compadecida. Por outro lado, conheci muita gente culta, lá e em toda parte, que não criava absolutamente nada e era um eterno enrolado. Eu mesmo adoro deixar de lado minha face “intelectual”, de “escritor”, pra representar, quando me entrego completamente ao instinto. Jamais fiz escola de arte dramática e não lamento isso. Melhor ainda é que nunca fiz papel de nenhum “intelectual”, de “escritor”. Meu trabalho mais marcante no cinema, até agora, tinha sido o de um velho camponês embrutecido pela miséria – em A Canga, um curta de Marcus Vilar, baseado num trecho de minha novela homônima. Agora, aí está O Som ao Redor, o primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, bombando em Roterdã, Nova Iorque, São Francisco, já com presença em mais vinte e tantos festivais internacionais, incluindo o de Washington, Londres e Jerusalém, em que faço um velho ricaço afoito, em cujo apartamento não se vê nenhum livro. Acho ótimo sair de mim. Deixar, pelo menos temporariamente, de ser o que sou. Qual foi o livro que o Lula já leu, mesmo?
DA – Afinal, por que escrever?
W. J. SOLHA – Veja bem: trabalhei a maior parte de meu primeiro poema longo – Trigal com Corvos, lançado em 2004 – quando ainda era obrigado a meus expedientes no Banco do Brasil. Incluídas aí, também, várias retomadas, desistências ou trabalhos em outras áreas, o livro me tomou doze anos. Para o Marco do Mundo -aposentado – precisei de apenas quase quatro, incluídas aventuras no cinema e retoques finais em meus romances Relato de Prócula e Arkáditch. O que acontece, então, na fatura de um Trigal, na de um Marco? Você produz uma leitura que consome por volta de uma hora de um bom leitor. Uma leitura que custou a seu autor anos de esforço, uma concentração enorme de camadas e camadas e camadas de escrita. O resultado é que nunca me sinto à vontade quando alguém diz que quer me conhecer pessoalmente, porque nessa hora em que a pessoa estará comigo não terá absolutamente nada do que ela encontrou nesta ou naquela obra. Sou um sujeito sem carisma, sem nada de especial. E isso, evidentemente, vale também para a relação que tenho com meu livro pronto: reduzi a montanha de pedra bruta que foi esse eu-no-tempo, a um quilate ou dez de diamante ou de ouro. A enorme quantidade gestou uma minúscula qualidade que passa não só a me dar sentido à existência, como a me fornecer… respostas com a profundidade máxima, com a beleza máxima que me foi possível alcançar, a respeito de mim mesmo, pois, como dizia o oráculo de Delfos, Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo.
* Quem se interessar pela leitura de Marco do Mundo, poderá receber gratuitamente, pelo correio, um exemplar do livro. Basta entrar em contato com o autor, fornecendo nome e endereço, através do e-mail wjsolha@superig.com.br
Medianeras (Medianeras – Buenos Aires en la era del Amor Virtual). Argentina/Espanha/Alemanha. 2011.
“A Internet me aproximou do mundo, mas me distanciou da vida”.
Como não soar clichê num drama romântico em tempos de arrobas? Pergunte a Gustavo Taretto. Escrita e dirigida por este argentino estreante em longas-metragens, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, é o desdobramento de um curta idealizado pelo cineasta em 2005. Apesar do subtítulo provinciano e desnecessário, o filme é de uma universalidade singular. A temática não é o sentido do amor em si e tampouco o revés tecnológico, mas a solidão paralisante de jovens adultos que julgam já ter provado sua cota de desencontros e de ‘para sempre’ via chat ou sms. A mesma geração de amores delivery, velozes e ambulantes, que discam M para matar a fome de amar, vegetam aqui no jejum da sozinhez.
Martin (Javier Drolas) é um metódico e recluso web-designer, aficionado por games e compras virtuais. Sua verdadeira ligação com a vida real é Susú, cachorrinha herdada do relacionamento com a ex-namorada americana que voltou para sua pátria mãe. Mariana (Pilar López de Ayala) é uma arquiteta com fobia de elevadores. Ganha a vida como vitrinista, talvez por identificar-se com o silêncio e inércia dos manequins que produz, sobretudo desde que rompeu uma relação de quatro anos. Martin e Mariana moram na mesma rua, mas sequer se conhecem. Estão separados por suas respectivas medianeras, aquela parede lateral cega do edifício, inútil, destinada à publicidade ou que fica simplesmente esquecida, ‘como a sujeira que escondemos embaixo do tapete’.
O roteiro é altamente sagaz, humano e divertido e atinge seu ápice nas reflexões dos protagonistas sobre os relacionamentos e a vida. Momentos como quando Martin culpa a arquitetura por todos os seus infortúnios, compara um encontro a um lanche do Mc Donald’s ou faz uma análise nerd da atualidade (há algo mais desolador no século XXI que não ter nenhum e-mail na caixa de entrada?); e quando Mariana afirma que a busca de um amor é mais complexa que encontrar Wally, o enigmático personagem de camiseta listrada do ilustrador Martin Handford (‘se, mesmo sabendo quem eu procuro, não consigo achar, como vou achar quem eu procuro se nem sei como é?’).
Tal qual seu hermanoO Homem ao Lado (2009), a arquitetura aparece como um terceiro protagonista e elemento fundamental para a trama. Ambos os filmes exploram a diversidade arquitetônica de Buenos Aires para justificar todos nossos males, sejam eles sociais ou pessoais, as irregularidades estéticas e éticas da cidade e do ser humano. E estas pequenas aberturas feitas nas medianeras em busca de “un poquito del sol”, mais que fendas solares ou frestas de ventilação, servem como consolo – ainda que provisório – a nossa própria falta de planejamento emocional. E na prática portenha, em casos mais graves, motivo de disputas judiciais. Afinal, ‘o que se pode esperar de uma cidade que dá as costas para o seu rio?’, critica Martin em determinado ponto.
Reais ou virtuais, o fato é que as ventanas sempre serviram para nos aproximar de algo, seja dos boatos cotidianos do quarteirão, do universo paralelo de Bill Gates ou do chat mais próximo. E cá da janela, eu me pergunto: onde está mesmo Wally?
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)