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141ª Leva - 01/2021 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Cinthia Kriemler

 

Desenho: Geometria da palavra

 

O SÊMEN DO RINOCERONTE BRANCO

 

Março de 2018. Quênia.

 

Eutanásia. O último rinoceronte branco do norte está morto. Sudan, 45 anos, se torna parte das espécies e subespécies dizimadas pelo único predador que mata por ignorância, por lucro. E sempre por prazer. Um macho de sorte — mesmo que sorte seja uma palavra estranha de significado. Não foi abatido como caça. Sobreviveu. Capturado aos 10 meses de idade, foi enviado para um zoológico. Por 36 anos agradou humanos. Morre, agora, num santuário. E santuário também é uma palavra de significado incomum. Um cativeiro cercado por boas intenções. Uma fração da história que deveria ter sido. De um jeito ou de outro, Sudan foi uma vida desvirtuada. Deturpada em seu roteiro original. Fecha os olhos cercado pelos soldados que o protegem, pelos cuidadores e pelos pesquisadores que o observam há quase uma década. E quando o seu corpo de dois mil e trezentos quilos — tomado por uma infecção generalizada — segue para o descanso da morte, ainda ostenta, intocado, o cobiçado chifre que fez dele um alvo por toda a sua vida. Sudan é o último macho dos rinocerontes brancos do norte. Mas o seu sêmen congelado ainda é esperança de rebentos. Multiplicados, alimentarão a lenta e difícil tentativa de reverter a extinção da subespécie. Se os caçadores não se reproduzirem como pragas, se a cobiça não caminhar mais rápido do que a ciência, se todos os obstáculos forem superados, talvez seja possível repovoar a savana.

Não há lágrimas pelos rinocerontes brancos do norte. São apenas bichos.

 

Abril de 2014. Chibok, Nigéria.

 

Negras. Virgens. Crianças. 276 meninas sequestradas de uma escola em Chibok por fundamentalistas islâmicos do Boko Haram. Em nome do fanatismo, da dominação e do ódio, essa trindade depravada. Afastadas de suas famílias, impedidas de suas crenças, privadas de qualquer dignidade. Pasto fresco para as bestas que justificam atrocidades em nome de um deus falsificado, omisso, cúmplice. Caças impotentes.

47 fugas. 117 libertações em trocas árduas com o governo. Mas 112 meninas de Chibok nunca mais são vistas. Para elas, não há a proteção do santuário. Só o cativeiro. E as curras que não cessam. E a parição de bebês indesejados que crescem ao lado de seus reprodutores selvagens, influenciados pela bestialidade de crenças pervertidas. 112 meninas-matrizes, como as cadelas acorrentadas que cruzam e cruzam sem descanso até a morte por infecção, por inanição ou por maus-tratos.

Não serão resgatadas. Não têm nome ou foto nos jornais. São apenas meninas negras da África. Descarte.

 

Fevereiro de 2018. Dapchi, Nigéria.

 

Não bastaram. O sequestro das 276 meninas de Chibok. Os casamentos forçados. A destruição das identidades. O aniquilamento dos alicerces psicológicos, religiosos e morais. As crianças geradas por espermas sem nome. Mais 110 são raptadas em Dapchi. Meninas. Em plena luz do dia. Porque a luz do dia parece ter se tornado uma sentinela inútil e impotente. Em igualdade perversa, as meninas nigerianas de Dapchi são como as meninas de Chibok. E como os rinocerontes brancos do Quênia. Indefesas. Caçadas. Afastadas de suas histórias originais. Exiladas. Cativas. Desenraizadas. Vítimas da mesma ganância. Neles, o que se cobiça são os chifres. Nelas, os úteros.

No mundo, tudo permanece silêncio. São apenas estatísticas ruins do Terceiro Mundo.

 

2 de setembro de 2015. Costa da Turquia.

 

Aylan Kurdi não vence o mar. Como poderia? [… as águas são rotas de braços frios / que adormecem bebês / meninas, bebês meninos / para entregá-los, purificados / a um Criador envergonhado]. Aylan Kurdi é só um menino de três anos. Sírio. Como a maioria dos refugiados que fogem das guerras pelo poder. Aylan Kurdi é mais uma criança afogada numa praia da Turquia. Vira notícia porque a turca Nilüfer Demir e sua câmera estão em vigília na areia trágica. Ah, os fotógrafos! Esses seres despudorados que denunciam com suas lentes o que os olhares frágeis das pessoas frágeis preferem não ver. Ver é inquietação. Por isso, talvez, o mundo não tenha chorado por Galip, 5 anos, irmão de Aylan. O corpo dele não chegou à praia. Não foi fotografado.

Não ver é a alienação desejada.

Aylan e Galip saíram de casa para morrer no mar. Sem entender por que deixaram para trás o seu país. Crianças não entendem as guerras. Não deveriam, igualmente, fazer parte delas. Nem deveriam ser arrancadas das suas referências para serem jogadas no cativeiro do exílio.

Aylan e Galip fazem parte da cegueira cômoda. Afinal, são apenas meninos sírios.

 

20 de setembro de 2019. Morro do Alemão, Brasil.

 

Morro do Alemão. Ou qualquer outro morro. Desde que seja morro. Ágatha Vitória cai. 8 anos. Tiro nas costas. De fuzil. Coisa de covarde fardado. Mais uma — e já foram tantas. Crianças como ela, meninas como ela. Feitas de sorrisos, de brincadeiras, de fantasias. A de Mulher Maravilha invocando o sonho de um mundo de justiça e de mulheres guerreiras. E o pesadelo da realidade se contrapondo. Ceifando, ceifando, ceifando.

Crianças. Já nem se trata de quantas. Ágathas, Guilhermes, Alanas, Kayos, Larissas, Adrielles. Já nem se trata de onde. Nova Holanda, Borel, Alemão, Guarabu. Faz tempo que essa conta está perdida. E perdido é o que tudo está. Bala. Homem. Consciência. Futuro.

 

Outubro | Novembro | Dezembro de 2019. Em todos os grotões de pobreza.

 

Caixões brancos encaixados uns sobre os outros empilham-se em tédio cínico. Aguardam os hóspedes perpétuos que se deitarão entre suas paredes finas. E o cheiro do sangue que, mesmo lavado, se entranhará nas suas fibras fracas como uma droga perigosa, viciante, nauseante. Meninas. Meninos. De algum morro, de alguma comunidade, de algum bairro pobre. De qualquer lugar esquecido ou desprezado pela tal gente de bem.

Há também covas rasas. Esperando os que não podem pagar pela mísera decência de um caixão vagabundo. São bocas indigentes essas covas arreganhadas em espera curta. Sabem que logo será saciada a sua fome ávida. Mais tarde, corpos pequenos preencherão as suas entranhas. Perfurados por balas perdidas. Vítimas dos predadores que somos: os que abatem, os que aprisionam, os que empurram para a morte, os que perseguem até a extinção. Como os caçadores do Quênia, os estupradores da Nigéria, o ditador da Síria. Como os homens e mulheres de farda que atiram pelas costas.

Podemos fechar os olhos. Mais uma vez. Essa é a nossa expertise. Podemos desligar a TV, tampar os ouvidos, cobrir a cabeça. Podemos nos mudar para Paris. Ou para a Finlândia. Quando voltarmos, tudo estará terminado. E olharemos para o genocídio de meninas e meninos pobres com toda a piedade hipócrita que nos foi ensinada pelos nossos pais e pelas nossas igrejas. E nos sentaremos com um copo de cerveja, de vinho ou de uísque entre amigos que também terão acabado de voltar de Berlim ou de Barcelona. E discutiremos planos para reverter a extinção.

Em nossos planos, só uma falha. Não temos o sêmen do rinoceronte branco.

 

Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É autora, pela Editora Patuá, de: O sêmen do rinoceronte branco (Contos, 2020) – finalista do Prêmio Guarulhos 2020 na categoria Escritor do Ano; Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019);  Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015), semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017) e participa de antologias de contos e de poesia. Tem textos e poemas publicados em diversas revistas eletrônicas.

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A todo o tempo, flertamos com histórias possíveis. São relatos impregnados do algo real, dum processar de cenários atravessados. Quiçá nosso antigo hábito remonte à memória, esse casulo de ressonâncias vividas e também inventadas. Haveria uma linha a dividir realidade e invenção? Ou será que ambas vertentes não estariam mescladas naturalmente? De todo modo, é muito difícil criar algo de caráter ficcional sem trazer à baila referências que nos constituem em vida. Seria então impossível um deslocamento absoluto daquilo que somos se o intuito é criar outra dimensão a ser apresentada? Quanto mais aprofundamos a questão, as interrogações parecem se multiplicar. Mas é salutar não ter respostas para tudo, principalmente quando o tema é conceber aquilo que se materializa pelo lume do nosso olhar. Quem cria naturalmente estabelece filtros de acordo com suas vivências. Pressupõe-se algo inalienável. Do contrário, pareceria estranho estar fora de tudo e, desse modo, aceitar uma presença criativa de algo que está além de nós e que, ao menos nos domínios mais plausíveis, não nos pertence como referência direta e tangível. E não está aqui a se falar na capacidade de transcendência, recurso de muitos criadores, mas da assunção de energias meramente geradas ao acaso. Talvez a melhor resposta esteja na manutenção da dúvida. Daí, cada autor fica responsável por conduzir métodos que nos ofertem resultados a serem apreciados em forma e conteúdo. E assim vai girando a roda viva das produções em matéria de arte e literatura. Repercutindo identificações e sugestões, desfilamos agora através dos versos de Cazzo Fontoura, Carol de Bonis, Leandro Rodrigues, Israel Azevedo e Lelita Oliveira Benoit. Apresentando suas impressões sobre o romance de estreia de Maurício de Almeida, “A instrução da noite”, Rafael Gallo edifica algumas atentas linhas. Clarissa Macedo entrevista o poeta piauiense Nathan Sousa. Recortes de vida entremeiam as narrativas de autores como Cinthia Kriemler, Thiago Mourão e Natalia Borges Polesso. Descortinando paisagens urbanas, o fotógrafo Ricardo Laf expõe um variado painel de seu trabalho. Ainda a descoberta do novo disco do poeta, cantor e compositor Sylvio Fraga. Em mais uma sugestão de leitura, Sérgio Tavares aponta para “Julho é um bom mês pra morrer”, livro de Reinaldo Azevedo. Na sua cinéfila resenha, Bolívar Landi escreve sobre a delicada temática presente no filme “O Quarto de Jack”. E assim ergue-se uma nova edição da Diversos Afins, com outros caminhos a serem atravessados. Seja bem-vindo à 108ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

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108ª Leva - 02/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Cinthia Kriemler

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

Vigília

 

A velha sentada na varanda suspensa de madeira não mexe mais os olhos para ver o que acontece no chão, cinco metros abaixo. Ela não respira. Para não sentir o cheiro da podridão que vai além das fezes dos animais e do mijo dos bêbados e da porra dos homens que trepam com as prostitutas no beco e das línguas que envenenam histórias nos ouvidos fracos e do tabaco vagabundo dos operários. Ela não está morta. Mas é como se estivesse. E talvez esteja. Não da morte que deita no caixão e põe nas narinas algodões para aparar os fluidos fétidos do corpo. Ela morreu de inexistência. Do dia após dia em que ganhar nunca foi opção. Ela perdeu. Tudo. Os dentes da boca infectada; os cabelos brancos fracos e finos que os anos trouxeram antes ainda da velhice; o tesão que aliviou tantas noites cansadas de dias de trabalho insano; os filhos que não vingaram na barriga por causa da fome e das doenças; o companheiro que foi embora deixando para ela uma cria doente que mal vingou e quatro tíquetes de refeição que recebeu em pagamento por um serviço de pedreiro. Além dessa cria, que depois virou anjinho, ainda ficou para trás uma solidão que também tinha fome. A única que ela conseguiu nutrir até que os farelos se acabaram.

Inerte na varanda. É assim que ela vive. Na cabeça, um pano encardido para esconder a calvície. E um vestido preto que não é de luto, mas da sobra dos sacos de caridade da igreja. Um dos olhos já quase não se abre; e o outro não se importa. Ela não sente nada. Nem alívio. Ao lado, um prato de comida que alguém traz quando pode. Vazio. E uma caneca de água pela metade. Ela sempre come tudo. E bebe aos goles. Deixa que mãos estranhas a banhem numa bacia de água fria, a vistam com o mesmo vestido preto, envolvam a sua cabeça no mesmo pano encardido, e a levem de volta à cadeira na varanda. Ela come e bebe porque quer ficar forte para continuar a vigília. E se esquecer de tudo o que fede e grita cinco metros abaixo. Quer se aprumar para caminhar com a morte quando ela chegar. Na direção do céu que só existe bem longe. Lá, ela vai rever a cria, o pai funileiro, a mãe costureira. Gente que a saudade desassossegada nunca deixou partir do pensamento. E vai ganhar vestido novo. Todo branco. E uma tiara brilhante para prender os cabelos pretos, longos, cheios. Essas coisas que só Deus dá. No céu.

***

 

 

Na escuridão não existe cor-de-rosa

 

Quando eu era pequena, eu queria ser bruxa. Bruxas não usam cor-de-rosa. Nem são loiras. Eu não conheço bruxas loiras. Só conheço fadas. Castelos. Sonhos. Varinha de condão. Sapatos número 35 — vá lá, 36 nos dias de calor! —; manequim 34. Gestos delicados. Passos de gata no cio. Ou de gazela, ou de garça. Esses bichos dissimulados. Cabelos loiros. Loiro Ultraclaro 90. Koleston. Nem cachos, nem ondas. Liso europeu. Fadas são europeias. Olhos azuis bem claros. Da cor do mar de Aruba. Que não é na Europa. O mar das bruxas não é azul. É escuro. De tempestades e naufrágios. Mar Negro. Afunda cinco navios de uma vez. Carrega tudo para as águas de baixo. Embaixo d’água não tem fada. Fadas não podem molhar o cabelo. As bruxas podem. Bruxas têm cabelos de anêmona. E se grudam nas rochas do fundo do mar. E afundam navios. Cinco de uma vez.  Para brincar de contar os corpos inchados dos afogados e os pedaços de barcos e lemes e adriças e quilhas e estais e gaiutas e birutas. Birutas são as fadas. Mornas como as correntes do Golfo. Bruxas são geladas. Como as correntes de Humboldt. Cheias de plânctons, de peixes. Ou quentes pela chegada afrodisíaca de El Niño. Eu queria ser bruxa. Quando era pequena. Vassoura, caldeirão, poções de magia, chapéu de ponta. A carruagem das fadas não é segura. Ela rola no precipício. No precipício das bruxas. Onde moram as cobras, os lagartos, os sapos que nunca viram príncipes. E os corvos, essas criaturas dadas às carnes mortas. Que só comem quando sentem fome. Que limpam a sujeira que não fazem. Limpam, limpam, limpam. Para que as fadas pisem terra sem restos. Para que as fadas não cheirem a podridão da morte. Mas as fadas insistem em preferir os passarinhos. E os dias de sol. E os meninos e meninas com juízo. E os homens bonitos. E o pagamento em euros. Ou libras. Cotação em alta. E tudo cor-de-rosa. As unhas, as bochechas, o pôr do sol, a vulva, a moldura do espelho. Bruxas não gostam de luz. Nem de reflexos. Por causa das verrugas que têm no nariz. Que afastam os meninos e meninas cheios de juízo. E os homens bonitos. Bruxas só gostam da noite. Entranhada dos sons das criaturas invisíveis. E da igualdade mais estranha. Na escuridão não existe cor-de-rosa. Nem fadas. Porque as fadas dormem com as galinhas para ter a pele mais bonita. Eu queria ser bruxa. Desde pequena. E de tanto gritar para a boca da noite, ela me respondeu: Your wish is my command!

 

 

***

 

Bonecas

 

Sentada na beira da cama, inexpressiva, ela deixa que ele vista seu corpo com o vestido azul brilhante. O batom vermelho e os cabelos arrumados como os de uma boneca importada são detalhes que ele ajeita com meticulosidade assustadora. Com as mãos trêmulas, ele prossegue, tirando do bolso da camisa um par de brincos pingentes. São caros e já foram usados. Ela não é a primeira. Longe disso. É de meninas como ela que ele sobrevive faz tempo. Muito tempo. Meninas compradas por algum dinheiro, meninas que ninguém quer. Ele quer. Com a obscenidade dos monstros.

Não sente culpa. São elas as culpadas. Os demônios que o fazem desejar e obter. São elas, e seus olhos ainda sem história, e seus corpos ainda sem forma, que o atraem para o pecado. Por isso ele as odeia. Criaturas malignas. Feitas para lançar no inferno homens como ele, que não resistem à pureza.

É um vício caro. Porque ele não repete nenhuma delas. Uma vez tocadas, não servem mais. Mas de onde vem uma, vêm todas. Histórias e histórias que se repetem nas ruas e nas periferias miseráveis. Todos os dias. Meninas oferecidas por pais e parentes em troca de pouco dinheiro. Ou espalhadas por avenidas e portas de cinemas, de teatros, de igrejas, em bandos barulhentos. Ninguém sabe delas. Ninguém quer saber. Ele quer.

Geralmente, o cafetão as entrega num quarto de motel. Mas acontece de ele mesmo ir buscá-las, quando os instintos se descontrolam em urgência. As roupas, no entanto, ele faz questão de escolher. Cada vestido, cada sapato, cada colar ou brinco. Os batons e a maquilagem dos olhos são baratos. Comprados sempre em lojas diferentes, mas com a mesma desculpa: presentes para a esposa. Como se a dele usasse batom barato, maquilagem barata. Como se a dele não fosse tratada a coisas caras. Como se a dele se prestasse às imundícies que ele comete nos motéis. A cadela de luxo que não quer lhe dar filhos. Ela jura que não pode, mas ele sabe que é mentira. Logo ele não é pai. Ele que quer tanto as suas próprias crianças para ninar e pôr para dormir. Para serem só suas.

Faltam apenas as sandálias. Mas ela continua sentada na beira da cama. Esperando. Indefesa como todos os impotentes. Pensando que nas ruas estaria dormindo no chão duro, sem ter o que comer. Que estaria fugindo do cafetão que bate em todas as meninas como ela. Que estaria com frio. Apenas por isso, e por tudo isso, ela acredita que tem sorte de ter sido escolhida. E olha a boneca bonita e sorridente que ele lhe deu. A boneca que é mais cara do que ela. Mais limpa. Mais feliz.

Ele a toca. E ela pensa que talvez seja melhor dormir na rua, com fome, sobre o chão duro forrado com pedaços de papelão das caixas de supermercado, agarrando-se às outras meninas para não sentir frio. Mas também pensa em tudo o que mais quer: a boneca. Tão bonita, tão limpa, tão feliz.

Então, ela se lembra do pequeno presente que as meninas mais velhas lhe deram. Confere, cuidadosamente, sob a língua desacostumada, o aço da gilete. Ele se ajoelha para lhe calçar as sandálias douradas, de salto alto. Assim, os dois na mesma altura, ele lhe parece apenas o que é: um bicho pronto a dar o bote. Um bicho que agora esguicha sangue no vestido azul.

Lentamente, ela começa a tirar aquela roupa suja, mas sempre olhando para ele. Para as mãos que pararam de tocá-la e que agora tentam estancar o sangue que jorra do pescoço. Para os olhos que se desesperam, esbugalhados. Para o corpo que se contorce grotescamente. E os sons da besta em agonia estranhamente a alegram.

Ela não chora. Não pode. A boneca bonita, toda suja de sangue, precisa dela. Coitadinha.

 

 

***

 

 

Bomba suja

Sujos, mortos, frios. Sobre a lama misturada ao sangue, quatro corpos de crianças. Não. Cinco, que vejo agora mais um que se esparrama aos pedaços. Nos rostos, uma paz estranha que não tem em gente grande quando morre. Morreram sem saber, sem pressentir, sem querer, sem poder, sem valer para nenhuma estatística mundial ou para a grande mídia. Morreram de estilhaço, de explosão, de insensatez. Da contabilidade da guerra, que nunca fecha.

E, contudo, estão serenos na morte. Como a dizer que o deus que se chama Alá, Emanuel, Buda, Krishna ou Coisa Nenhuma está com eles. Será? Não esteve. E, se esteve, é fraco esse deus que não vê, não impede, não ergue a mão pesada sobre os poderosos gestores das carnificinas, nem estende a mão-escudo aos homens de boa vontade.

São anjos deitados em fila. Apenas dormindo. Um deles parece sorrir. E talvez seja isso mesmo. Ri de nós que sobramos neste lugar de desconsolos. Ri dos nossos protestos caseiros, das nossas teses distanciadas, dos nossos fracos vômitos de repúdio.

Seriam adultos bonitos, posso ver daqui. Quatro deles. A menina — única em meio aos corpos — cresceria mãe. Essa profissão macabra que engendra e alimenta humanos para depois vê-los cair, cadáveres, sobre a lama remexida pelas bombas sujas. Os três ao seu lado, eu os diria homem santo, agricultor e soldado. Dou-lhes profissão para não os imaginar mendigando pão ou carregando água em vasilhas sobre as cabeças infantes. Disso, já me fartei.

O homem santo ensinará aos outros que ter virtudes neste mundo garante apenas o próximo. O agricultor contará aos outros que não conhece o gosto do alimento que produz. O soldado mostrará a eles que a blindagem antiminas do moderno Al-Zarar que conduz é a única fé que o satisfaz.

Para a quinta criança não tenho profissão. Nem palpite. É um menino — conta alguém que o reconhece não sei como. E permanece lá, multiplicado pela lama ensanguentada. Sem rosto sereno, sem rosto algum. Apenas um futuro estilhaçado em pedaços de carne imolada. Ele me lembra o cordeiro em sacrifício, morto em honra do deus que se zanga e vira as costas e se esquece de ser mais pai que senhor.

Sigo a trilha abjeta daquele corpo de criança explodido pela bomba suja e ensurdeço meus ouvidos aos lamentos das mulheres que choram em ódio e incompreensão. Elas não me interessam. São, como tudo o que ainda resta vivo, revolta inútil.

Quero vasculhar o barro fétido. E buscar os olhos da criança enterrada na lama vermelha. Só eles me mostrarão se a dor se leva para o outro lado.

***

 

 

Arremate

Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humanidade. Adeus, cão. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais fácil.

O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam o pó vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.

 

Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É contista. Queria ser poeta. Autora dos livros: Na escuridão não existe cor-de-rosa (2015); Sob os escombros (2014); Do todo que me cerca (2012), todos pela Editora Patuá. E de Para enfim me deitar na minha alma (2010), projeto aprovado pelo FAC-DF. Na Amazon Brasil, mantêm os e-books Atos e omissões e Contações. Está em diversas antologias de contos, em algumas poucas de poemas. Escreve todo dia 16 para a Revista SAMIZDAT.