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147ª Leva - 02/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Clarissa Macedo

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Rejeição

 

Teu olhar ginecológico
habita o meu aquário
de usuras e medos.

Profissional, asséptico e vidrado
o deslocar dos teus olhos
ofende o meu útero,
cansado da espera.

Enquanto me curo da tua ausência
da tua face clínica e distante,
que jamais arranca o chamado do meu apelo,
bordo a falsa flor,
laureada de armadilha,
clandestina
como a agulha que não soube usar
e que espetei na casa mais alta do teu coração.

 

 

 

***

 

 

 

Surpresa

 

Não fui a garota que todos esperavam
[porque a mim nada foi creditado]
— “Será igual ao pai”, diziam
[aquele que me foi(-se) tirado].
Não fui a boa menina,
mas uma paisagem caricaturada:
por fora, o avesso, a penúria, uma linguagem muda
por dentro, um cacto de selênio e violência.

(Uma poesia autoafirmativa como esta não pode valer a pena).

Uma menina, inesperada;
uma mulher, horizonte irrecuperável.

 

 

 

***

 

 

 

Endereço

 

Minha casa é uma ilha
Um mar que secou há tanto
Onde os pássaros bebem a bile dos meus sonhos.

 

 

 

***

 

 

 

Cenáculo

 

para Lílian Almeida

 

Ao pé das Oliveiras,
um alaúde queimava
e ele via as cordas.

Sob a árvore do deserto,
uma lágrima de pudor
e a fuga ao coração do incerto.

Judas, o mais amado,
sem prata, um sopro,
um engano à mercê
do medo –
do Senhor, um olho.

 

 

 

***

 

 

 

Perpétuo

 

Uma encosta
um leme de celas
que sobrevive
à interrupção do tempo.

Um salário de medos
veste a carapaça,
tigre de oito metros.

No infinito,
um relógio esquivo permanece.
Na intermitência,
o cortejo dos solos que deixaram
dos deuses que temeram.

 

 

 

***

 

 

 

Espículo

 

Onde eu estava?
Quem era quando, desavisada,
olhava de longe o percurso dos anos?

Todos sabem da morte,
e dizem dela com intimidade.

Hoje eu a topo de frente,
como um cão olha a tarde
como um pássaro que, sísmico,
pousa nas remotas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Do abrupto

 

Molhar as plantas
Comprar sabão
Depenar as frutas
Saudar os óculos
Amarrar sapatos
Limpar os poros
Minha mãe é morta.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, agente cultural, pesquisadora e professora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas”, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia; traduzido ao espanhol), “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” e “A casa mais alta do teu coração” (Prêmio Biblioteca Digital do Paraná). É a idealizadora do “Encontro de Autoras Baianas” e do “Sarau Cartografias”.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

Neste ano em que a pandemia instaurou uma nova operacionalização da existência, a leitura e a escrita tornaram-se ferramentas de possível manutenção da sanidade. Publicado em março, o livro As solas dos pés de meu avô, de Tiago D. Oliveira, vem construindo um percurso de alegria para um escritor cujo zelo com a palavra é notório. Para mapear alguns trajetos, entre o Tejo, o Tororó, o Paraguaçu e outras paisagens, sondei linhas de acesso ao livro mencionado, além de projetos em movimento e futuros, a conquista do Selo João Ubaldo Ribeiro e a sensação que o isolamento social impôs à face literária do autor.

Celebradas pela posição de finalista do Oceanos, um dos marcadores do campo literário atual, As solas… possibilitam uma pausa para a territorialização dos fios invisíveis cibernéticos e um chamado à memória-ancestralidade na figura de um avô desencarnado que enseja uma profunda contemplação do mundo. A memória, essa construção imprecisa de sensações e acontecimentos, exige um afastamento da imposição do agora para a passagem de um outro instante, um instante passado. Em As solas…, além do que pude desvelar no prefácio do volume, interessa-me, neste momento, a cisão que a obra provoca ao abordar um lócus que transcende as cibermalhas, pois a elas resiste: o espaço fora dos centros. Nesse aspecto, são dois os móbiles de insurgência que me intrigam, modulados, por sua vez, através da fratura do tempo e da abertura ao exterior da tela, desencadeando uma narrativa poética que ilustra uma saga a partir dos pés, da ancestralidade e do amor.

Guy Debord afirma que a espetacularização comporta uma mediação de imagens e aparências. As redes sociais, o apego à digitalização de tudo e a própria internet contêm o fetichismo do espetacularizado que reveste, no contemporâneo, todas as zonas do humano. A urdidura do digital, como interfere na condição humana e quais as formas de vivenciar o toque na tela que nos toca são questões que se impõem. A literatura é um terreno aberto para isso, um domínio de resistência onde o digital é sangrado e desvelado. Por isso, ler Tiago D. Oliveira, hoje, em que a pandemia permanece muito por conta de notícias inverídicas a respeito do vírus que a move, parece-me necessário. Desde Distraído, passando por Contações, até o livro mais recente, a qualidade estética, as referências textuais (Tiago é um leitor voraz) e a reterritorialização conformam uma obra cuja matriz é a da beleza.

Abaixo, segue a conversa que tive com o autor. Desde já, agradeço a Tiago D. Oliveira, por ter cedido um pouco de seu tempo para nós, e ao editorial da Diversos Afins pelo crédito do espaço. Abraços e boa leitura.

 

Tiago D, Oliveira / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Em As solas dos pés de meu avô, difícil não notar a figura de um patriarca a marcar o percurso narrativo-poético. Há um movimento catártico e/ou de expurgação (independentemente se factual ou mais propriamente ficcional)?

TIAGO D. OLIVEIRA – O primeiro pensamento sobre a escrita desses poemas foi na direção de um resgate. Ele nasceu de uma necessidade, a de tentar entender o muito além dos deslocamentos dos corpos, o que fica quando não há mais a chance de um abraço. Eu, que já havia me distanciado geograficamente, pois vivia em Portugal na época, agora via a distância girar em seu próprio eixo como faz tão naturalmente a natureza. A distância não seria só material e seguiria o rio de nossas existências para outro lugar. Coloquei para fora o primeiro e segundo poema da sequência que se tornaria um livro bem depois. Inicialmente não havia uma vontade de livro. O que existia era a necessidade de colocar na mesa as minhas armas para gerir o desconhecido que me limitava, já que não podia largar o emprego em Lisboa nem tinha condições financeiras para voltar ao Brasil e beijar a testa de meu avô. Escreveria. Os poemas foram nascendo deste momento, mas só escrevi o terceiro quando já estava no Brasil, alguns poucos anos depois. Os versos foram ganhando especulações, leituras, rememorações, recriações, tatuagem que se desenhava em minha carne ao passo em que as geografias do afeto afloravam em mim paulatinamente. O sentimento de saudade em Portugal é uma experiência muito especial e única, aqui no Brasil ele se tornou mais pesado quando caminhei na terra com os pés descalços. Refletir sobre o método catártico que Freud aponta e no fim concluir que estes versos são uma voz que procura o equilíbrio saudável a partir da linguagem, uma voz que busca substituir o sentimento da impossibilidade do ato por um movimento realizado pela linguagem, pela escrita em si, foi o que entendi nesse caminho. Aqui o patriarca exerce a continuação de sua caminhada impondo à morte a vitalidade da escrita a partir de quem ficou. E já não há ficção nem realidade, tudo é transpassado continuamente pelos revérberos e arrepios que acontecem após cada leitura destes versos, destes caminhos, em cada leitor.

 

DA – Como você estava em Portugal, mais precisamente em Lisboa, a distância do Brasil, e, logo, de seu avô, funcionou como parte do processo de construção do livro. Além disso, como foi experienciar a terra de Fernando Pessoa também na condição de escritor – e brasileiro? A cisão, ao menos em parte, com a pátria, sob o signo do estrangeiro, o corte tátil com a geografia da Bahia: tudo isso impactou sua literatura de algum modo?

TIAGO D. OLIVEIRA – Andar pelas ruas de Lisboa produz um sentimento familiar, é a mesma sensação da folha em branco diante de mim. A cidade oferece uma intimidade maior com os versos que lia na UNL ou no meu quarto. A sensação que tinha era a de viver constantemente no trânsito das leituras, só que tocando, caminhando sobre as palavras, os versos. Um amigo de infância, que também morava em Lisboa na época, teve a sorte de morar ao lado de uma das casas em que viveu Fernando Pessoa e nunca percebeu aquela sorte, o que mudou quando fui visitá-lo pela primeira vez e depois disso aquela imagem não saiu mais de minha cabeça. Outros episódios como esse foram somados durante os anos, mas o que ainda é forte no emaranhado das imagens de minhas lembranças é o desenho afetivo que a cidade constrói em nós. As ruas, a arquitetura, o movimento da carris durante o dia, o tejo, tudo figura como a construção de uma literatura em face de sua realização a qualquer momento. E assim aconteceu um convite para participar de uma antologia de poemas, depois de contos e lá estava eu usando a cidade para recriar a própria cidade, pois era esse o sentimento quando escrevia sobre minhas impressões ao mergulhar cada vez mais na cultura do lugar, era um brasileiro vivendo em outra cultura e reproduzindo aquelas influências a partir de uma escrita em constante transformação. Penso que a minha poesia começou a entender que a transformação é a melhor linguagem exatamente nesse momento. O corte com a minha Bahia começava a se desfazer ali, diante da saudade a escrita, já envolvida pela cultura lusitana, pelos poetas todos, acontecia como instrumento funcional para re/criar, re/viver. Comecei a pensar e sentir novamente a minha terra, agora de uma maneira muito mais profunda e real, depois que percebi que por mais que viajasse, a natureza de meu olhar, mesmo estrangeiro, carregaria sempre o Brasil, a Bahia em mim. O impacto sempre foi o de elevação, sempre olhei e senti assim, para frente.

 

DA – Muito produtiva a relação reterritorializada com os espaços Portugal-Brasil e que, aliás, é bastante cortejada pela crítica lusófona. Interessante mencionar, nesse aspecto, o prêmio Oceanos, de literaturas de língua portuguesa, em que você é finalista este ano com As solas dos pés de meu avô. Como tem sido essa experiência?

TIAGO D. OLIVEIRA – Bacana você tocar nesse ponto, pois há aqui um lugar imenso de afeto, de reencontro. Ao passo que caminho pelas solas de meu avô nesse livro, conecto-me também com Portugal e percebo a cada dia que somos, nesta minha perspectiva, uma só experiência, a poesia. Estou vivendo um momento muito especial com o reconhecimento do meu trabalho, que geralmente é muito solitário e sem pretensão alguma. Há anos longe de Portugal, mas toda vez que escuto aquele sotaque, sinto como se tivesse retornado ontem para o Brasil, que o tempo não passou. A possibilidade do prêmio me fez acessar novamente um velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma. O conforto é que somos todos filhos de uma mesma língua, mesmo com inúmeros mecanismos internos de reconfigurações constantes, somos todos saídos de uma mesma boca. Mas o coração anda apertado com essa reconexão com um tempo muito feliz de além mar. Um lugar re/encontrado. A parte funcional de todo esse movimento chegado com a indicação de finalista para o Prêmio Oceanos 2020 é que a alegria é imensa, servir de exemplo para outros meninos de periferia, como eu fui, é uma chance de fazer algo bom, motivador. Mas o que fica depois do vento ainda é a página em branco e eu confesso sem medo que essa é a imutável realidade de quem escreve, é o chão de todo autor, é a certeira paz que me recebe de volta. Que bom! Mesmo sabendo da natureza passageira dos prêmios, confesso que é bom sentir as mensagens das pessoas, o carinho, o brilho nos olhos. Penso que As solas dos pés de meu avô ainda vão me levar para lugares diversos.

 

DA – O “velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma” remete à fragmentação tão incensada do indivíduo contemporâneo. Isso interfere noutros trabalhos, a exemplo de projetos anteriores ou mesmo inéditos? Ou o “chão de todo autor”, a página em branco, resvala em mistérios diferentes a cada livro? Consegue identificar tais aspectos na própria obra?

TIAGO D. OLIVEIRA – Essa fragmentação é realmente um traço contemporâneo que compõe o olhar de quem escreve. As nossas horas são invadidas por diversos tempos e espaços e muitas vezes já nem notamos, acostumados com o ritmo normal da vida imediata. Mas há a palavra escrita, a literatura. Assim são os dias, entre a memória e o tato. Penso que quanto mais o tempo passa, mais aumenta essa nossa busca por um pertencimento que se faz na fragmentação. E agora digo pensando também nas vidas criadas no papel. O meu trabalho está mergulhado nessas águas, a do Tejo e a do Dique. Estou inteiramente atravessado por essa chance do sentir, do criar, do referenciar, assim aconteceu com um livro que escrevi, Contações, que bebe de um lugar que não existe mais, de criaturas reimaginadas e grafadas como partes de um mural construído para essa ideia de pertencimento. Personagens inventados, rememorados, todos abraçados por essa fragmentação, cada um representa um lugar perdido de geografias e eras distintas. Quando escrevo, junto todas as naturezas sob a minha, paulatinamente a preencher a folha em branco com palavras. O chão que piso é feito de possibilidades, a cada livro que realizo pertenço um pouco mais a essa multiplicidade e ao mesmo tempo, sendo todos eles, fragmento-me um pouco mais. Talvez seja essa a ideia de modernidade que merecemos, a que não conseguiremos tão cedo nos livrar. Quando escrevi As solas dos pés de meu avô, novamente não consegui fugir dessa fragmentação que me faz. Lá estão o sertão profundo, a urbe e um outro país distante. Lá estão o avô, o pai e o neto. Três tempos e espaços distintos que são acessados pelo corpo da fragmentação intuído pelo sangue do autor, que escreve justamente por conseguir pertencer, mesmo sem nunca ter vivido. Estou a escrever um novo livro sobre Saveiros, o que me corre pelas mãos são as águas novamente, não as do Tejo nem as do Dique, mas as do Paraguaçu. Novamente escrevo com o sentimento de pertencimento, mesmo sem nunca ter vivido, o que me faz alcançar essa atmosfera de um recôncavo histórico que abastecia a capital é a fragmentação que me acolhe enquanto pesquisa, enquanto ato de talhar o verso. Os mistérios costurados na derme da escrita de cada livro são consequências de um caminho em que pertencer e não pertencer são faces de uma mesma moeda. O jogo da escrita possibilita também essa imagem. Agora olho para a janela e o silêncio da noite me faz ouvir o barulho do relógio, lembro de Pessoa diante do mundo e a heteronímia de sua criação. Lembro também de Drummond, em a Máquina do mundo, quando o poeta nega aquela imagem e vai embora. Sigo em posse dessa herança e gozo agora do silêncio que antecede o sono. Fim. Amanhã já não sei, pode ser tudo diferente.

 

Tiago D. Oliveira / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Acima, você traça um pequeno tratado sobre os desdobramentos do ato de escrever, além de citar um livro inédito, Saveiros. Muitos autores, em meio à pandemia em curso, têm alegado que a escrita funciona como salvação. Como tem sido para você? Muitos projetos novos? Saveiros nasceu com a quarentena?

TIAGO D. OLIVEIRA – Com a pandemia vieram muitas mudanças rapidamente, tivemos que aceitar e transformar o que nos foi imposto com tanta força. A única realidade que não sofreu foi a leitura, a escrita. Aliás, finalmente havia tempo para a leitura, para a organização de algum projeto de escrita. E assim, mesmo continuando a dar aulas via internet, de alguma forma ficamos mais disponíveis para o sol se pondo, para o barulho do vento entrando em casa. Há tempos venho acumulando leituras sobre os saveiros para um futuro, o que nunca acontecia por causa da implacável falta de tempo, e nesses meses consegui ler muito do que desejava, dissertações, artigos, livros, reportagens, o que alimentou mais ainda a minha vontade de conviver com todo aquele universo. Então eu tinha tempo e uma vontade de escrever que só crescia. Iniciei os versos mesmo sem ter colocado nada no papel. Os poemas começaram a ser escritos em mim enquanto a liberdade reinventava um livro como rio para que aqueles saveiros, que criava como versos em minha cabeça, pudessem navegar novamente. Escrevo com os dias atravessando as palavras, tudo o que sei é medido por versos que repito biblicamente e tento aceitar o que não posso mudar e tomar o que me cabe. Os saveiros são mais uma ferramenta de resistência ao duro tempo que vivemos, assim como os acordes do violão, as contas amarradas na ponta do lápis, as lives ou as receitas de pão. A quarentena trouxe-me uma chance de desacelerar, mas também me possibilitou a construção de um projeto que vai muito mais além da minha condição de isolamento.

 

DA – Você ganhou este ano o Selo João Ubaldo Ribeiro. Pode comentar um pouco sobre?

TIAGO D. OLIVEIRA – Recebi uma ligação da rádio educadora me pedindo para falar sobre o selo João Ubaldo, que meu inédito, Soprando o vento, tinha sido contemplado neste ano de 2020. Fiquei muito feliz e acabou passando um pequeno filme em minha cabeça. Quando comecei a escrever poesia tinha a idade perfeita para sonhar, sem o coração calejado por alguns movimentos naturais da vida. Acho que aquele menino de Sete de Abril vibrou dentro de mim com a notícia. Ganhar um prêmio em minha cidade sempre foi uma imagem distante, mas algo brilhava ainda em mim e depois que a ficha caiu entendi que sou a melhor propaganda de que é possível nascer na periferia, sonhar com um mundo distante e um dia realizar. Esse prêmio do Selo João Ubaldo Ribeiro representa para mim uma semente plantada em tantos corações, tantos meninos e meninas de periferia que vão  perceber  que com leitura, estudo, fé, tudo acontece. Sigo acreditando na poesia e nas pessoas.

 

DA – Gostaria de deixar alguma mensagem para as suas leitoras e leitores?

TIAGO D. OLIVEIRA – Queria deixar aqui a alegria que sinto quando abro um livro.  A paz que me toma quando termino de escrever algum projeto, quando os poemas estão dialogando. Queria deixar aqui a minha fé em um mundo feito por pessoas que acreditam nos livros, que se encantam com as pequenas alegrias. Queria dizer que a escrita se tornou uma maneira de entendimento e localização do mundo, cada livro escrito é um universo que re/descubro e aceito caminhar. Queria agradecer por uma troca tão agradável que foi essa entrevista. Estar aqui é acreditar na palavra, é seguir. Leiam. Leiam. A leitura é a grande riqueza nos dias.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), mestra, doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora e pesquisadora. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e os livros Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; traduzido ao espanhol) e O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (Ofícios Terrestres, 2019).

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vanessa Teodoro Trajano

 

Desenho: Fernanda Bienhachewski

 

Mulher em partes

 

Eu não sou inteira
Sou feita de partes
Não todas juntas
Nem apartadas
Apenas somadas
Uma a uma.

Há partes minhas
Por aí soltas
E, quando eu as
encontrar
Perderei outras.

Partes, quantas partes?
Fazei de mim tudo
Que cada parte queira
Qualquer coisa
Menos inteira.

 

Mujer en partes

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

No soy entera
estoy hecha de partes
no todas juntas
ni lejanas
solamente sumadas
una a una.

Hay partes mías
por ahí sueltas
Y, cuándo yo las
encuentre
perderé otras.

¿Partes, cuántas partes?
haz de mi todo
lo que cada parte quiera
cualquier cosa
menos entera.

 

 

***

 

 

Puteiro

 

No puteiro da D. Eudóxia
é sempre meia noite
oportuna transição
entre os que nasceram tarde
e morreram ontem
sobretudo anteontem

Lá reside a mulher fatal
vermelho nos pés
vermelho no corpo
vermelho na alma
alma propositalmente fatalista
na mão um cigarro
na outra a bebida
a boca vermelha, ferida

Sugere o poema e o giz:
se te entrego minhas forças
sou louca, não trouxa
melhor ser infeliz
vestir verdade
sem roupa

Mas os dentes,
afiados na infantaria,
avisam:
cuidado com o sorriso
que ambientou desgraças
dele não se morre
por ele se mata.

 

Prostíbulo

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

En el prostíbulo de D. Eudóxia
es siempre media noche
oportuna transición
entre los que nacieron tarde
y murieron ayer
sobre todo anteayer

Allí reside la mujer fatal
rojo en los pies
rojo en el cuerpo
rojo en el alma
alma intencionalmente fatalista
en la mano un cigarrillo
en la otra la bebida
la boca roja, herida

Sugiere el poema y el lápiz:
si te entrego mis fuerzas
soy loca, no tonta
mejor ser infeliz
vestir la verdad
sin ropa

Pero los dientes,
afilados en la infantería,
advierten:
cuidado con la sonrisa
que alardeó desgracias
de él no se muere
por él se mata.

 

 

***

 

 

Etimologia de prostíbulo

 

Se ser meretriz ou leviana
É roubar o corpo e o bolso
De muitos homens
E não amá-los noutro amor
Que não for o da gana
Peço então que somente me chamem
Por esse nome que diz
Que uma mulher só pode ser feliz
Quando pela pura vaidade
Muitos corações ela engana.

 

Etimología de prostíbulo

 

Traducción: Clarissa Macedo
Revisión: Irina Henríquez

 

Si ser prostituta o frívola
Es robar el cuerpo y el bolsillo
De muchos hombres
Y no amarlos en un amor
Que no sea el de la gana
Pido entonces que sólo me llamen
Por ese nombre que dice
Que una mujer sólo puede ser feliz
Cuando por pura vanidad
Muchos corazones engaña.

 

Vanessa Teodoro Trajano é natural de Teresina-Piauí e atualmente reside em em Brasília-DF. Além de escritora, é professora de língua portuguesa com mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Piauí. Participou do projeto Arte da Palavra promovido pelo SESC em 2017, em que viajou por diversas cidades do Brasil como palestrante e oficineira, e do 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas na Colômbia em 2018. Possui ao total 10 publicações, entre antologias e obras individuais, as quais se destacam: Mulheres Incomuns (2012, contos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, romance). Ela não é mulher pra casar (2019) é o seu quarto livro.

 

Vanessa Teodoro Trajano es de Teresina-Piauí y actualmente vive en Brasília-DF. Alem de escritora, es profesora de lengua portuguesa con maestría en Estudios Literarios por la Universidad Federal del Piauí. Ha participado del proyecto Arte de la Palabra promovido por el SESC en 2017, viajando por diversas ciudades de Brasil como maestrante y tallerista, e del 25ª Encuentro Internacional de Mujeres Poetas en Colombia en 2018. Tiene, al total, 10 publicaciones, entre antologías y obras individuales, a ejemplo de Mulheres Incomuns (2012, cuentos), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015, novela). Ela não é mulher pra casar (2019) es su cuarto libro.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É impossível não carregar os sintomas do mundo. A frase, dita assim num arremedo inicial das ideias, não é algo leviana na medida em que todos nós, de algum modo, estamos amalgamados ao que se chama de vida real. E pronunciar a palavra mundo, como um complexo e vasto território de apreensões da experiência humana, pode aclarar a compreensão dos fenômenos que dizem respeito ao coletivo. Nesse sentido, enxergar-se como sujeito é jamais negar a afetação dos temas engendrados no tecido social, na contraposição de ideias e sentimentos com os demais semelhantes, no conflito que emana das relações entre as mais distintas correntes do pensar.

Não basta a mera constatação de que somos seres políticos por natureza, pois é necessário dar o passo adiante. Reconhecer-se político é mover as forças que vão do pensamento à ação, catalisar revoluções internas e pessoais no sentido de que estas estejam a serviço de uma manifestação de implicações práticas no conjunto da sociedade. No mister da Literatura, por exemplo, a palavra é epifania, gozo, partilha e comunhão de ideais que segue ao encontro de um Leitor, por vezes desconhecido, quiçá ensimesmado nas suas convicções íntimas, mas que pode ser convidado a reagir diante daquilo que lhe é apresentado. Obviamente, no jogo das naturais tensões entre emissão e recepção, há que se considerar a aparição plausível de uma plataforma crítica que pode apresentar consequências imprevistas originalmente. E a virtude de todo esse processo de enfrentamento pode também estar na faísca da provocação e da dúvida.

Falar de uma consciência aguçada de mundo é falar de uma escritora como Clarissa Macedo, poeta investida no percurso lúcido da vida. Na confluência de sensações, a autora é porta-voz de um olhar que se nega a fazer concessões diante do avanço atual e permanente da barbárie que intenta nos devassar. Seu livro mais recente, o instigante “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” (Ed. Ofícios Terrestres, 2019), é tributário de um painel de sentimentos que se afiguram revestidos de uma expressão política e filosófica capaz de posicionar os versos na condição de pujante interpelação do mundo.

Clarissa, que também é revisora, pesquisadora e doutora em Literatura e Cultura, faz de sua poesia um instrumento de ação, demandando de seus leitores uma atitude jamais passiva quando o tema é pensar as questões que afetam sobejamente nossas humanidades. E não há, no ofício da poeta, verso algum que corra solto, dizendo algo por dizer, sem a correspondência com uma habilidade de manejar tanto os domínios formais da palavra quanto as ideias e sensações em curso. Dito isso, não é demais considerar que a autora é uma das importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, qualificação que também pode ser aferida pela leitura das suas outras obras: a plaquete “O trem vermelho que partiu das cinzas” (Ed. Pedra Palavra, 2014) e o livro “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7Letras, 2014), que obteve o Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, tendo, em 2019, sua 3ª reimpressão pela Penalux, além de ser traduzido ao espanhol por Verónica Aranda (editorial Polibea, Madrid, 2017).

Atenta às indagações que lhe foram ofertadas, Clarissa Macedo concedeu gentilmente uma entrevista para a Diversos Afins. No transcurso da conversa, a obra da poeta esteve em evidência, demarcando de modo especial a visão de mundo dotada de uma dicção intelectual que harmoniza inteligência e sensibilidade, ferramentas indispensáveis inclusive na reflexão sobre alguns dilemas da contemporaneidade.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ana Reis

 

DA – Não é possível falar do seu novo livro sem primeiro ressaltar essa verdadeira cartografia dos afetos que foi construída ao longo de sua trajetória, sobretudo em cima dos laços estabelecidos através da grande rede. Some-se a isso o fato de você também dedicar a obra a expoentes da resistência feminina e negra, tais como Carolina Maria de Jesus e Elza Soares. O que dizer desse conjunto inicial de sentimentos?

CLARISSA MACEDO – Michel Maffesoli fala que é preciso voltarmos ao coração. Ideia esta, acredito, alojada sob uma episteme que demanda à humanidade reinventar-se, através do amor, para existir. Eu compartilho desta noção. A literatura é meu modo de estar e me reconhecer no mundo; sempre foi assim e o é cada vez mais. Nesta existência por meio do literário tenho colhido mais alegrias do que qualquer outra coisa. Nesse sentido, minha palavra, que em “O nome do mapa…” é empregada, sobretudo, como artefato bélico contra os desmandos destes tempos, abre-se à celebração do amor. Todas as pessoas que ali estão mencionadas contribuíram de distintas maneiras para a feitura do volume e, assim, para minha existência. Não podia deixar de levá-las comigo, de agradecer pelas contribuições afetuosas. Esse conjunto de poemas foi tecido a partir do gesto da inquietação que anseia por uma mudança efetiva, que caminha pela sobriedade e que acredita na capacidade da consciência como forma de revolução. Por isso Carolina, símbolo de resistência e amor à escrita; Elza, maga da música de todos os tempos; e Irina Henríquez, poeta e cineasta da Colômbia, país irmão com o qual temos muito que aprender – vozes negras e indígenas que precisam ser lidas, ouvidas, respeitadas. Então, apesar dos tempos de angústia que o livro aborda, o chão dele é arado pelo movimento do afeto. É necessário guerrear com flores nas mãos.

 

DA – É emblemática sua última frase sobre guerrear com flores nas mãos, ainda mais no estado de coisas atual em que vivemos. Diante de um país e mundo cada vez mais distópicos, o que representa a sua assunção de praticar uma literatura marginal?

CLARISSA MACEDO – A literatura é, por si só, marginal. Por isso cumprir este caminho como tenho feito – estudando, pensando e optando por uma carreira profissional (a de revisora) que está ligada à palavra – requer coragem. Escrever é contornar o mundo com uma faca que grafa sentidos e dissidências; às vezes dói, quase sempre sangra, pois na Terra o capitalismo domina todas as esferas: social, econômica, afetiva, política. Coisa mais esquisita é a expressão “capital humano”, que me recorda Antonio Candido quando este diz que “O capitalismo é o senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro. Dizer que tempo é dinheiro é uma brutalidade. Tempo é o tecido de nossas vidas”. Acessar a literatura é manejar a descoberta, a separação entre Tânatos e Cronos, é celebrar a vida em sua dimensão mais profunda, a dimensão humana, rejeitando o projeto perverso de capitalizar a humanidade. “O nome do mapa…” é, nesses termos, o resultado de minha obsessão em cartografar a palavra poética como resistência à necropolítica – algo totalmente descentrado. Mas quem se importa? Como este livro escrito por uma mulher baiana com cheiro de fábrica pode incomodar o deus mercado? Eu poderia falar sobre o meio editorial e tantas outras coisas, mas só digo que se meu livro puder oferecer a alguém uma alternativa ao “capital humano”, algum tipo de devassamento de fronteiras, tudo valerá a pena.

 

DA – Fazendo alusão ao sentimento que atravessa um poema como “Desconhecida”, a constatação do tempo com status de aflição é verdadeiro desabafo. Acredita na ruptura de nossa inércia estrutural a ponto de podermos mudar as coisas?

CLARISSA MACEDO – No poema, “as utopias acabaram em nome da televisão”, entrecruzadas pelo desencantamento, anunciado por Weber como resultado do avanço do capital para todas as relações – e destaco a esfera religiosa institucionalizada, que seria responsável, a princípio, pela perpetuação da espiritualidade. No sistema regido pelo financeiro, o sagrado, o sonho, o rito, a poesia, em seu sentido mais pleno, não têm lugar. Esvaziar estas categorias é roubar do ser humano a sua identidade, deixando-o à mercê do consumo da matéria como forma de preenchimento, forma esta incompleta e desabitada e, por isso mesmo, mantenedora do sistema, pois se nunca encontra verdade e razão, nunca se satisfaz, comprando e comprando para aliviar uma dor que nem sabe que sente. Ruir com toda essa arquitetura bem projetada é um desafio sem precedentes, sobretudo quando vemos partidos de extrema-direita, defensores do ultracapital, ressurgirem, ganhando espaço no mundo. Por outro lado, isto é reflexo de um maquinário que se sabe prestes a ruir, já que o planeta não poderá seguir caso a exploração continue do modo como está. Para que possamos sobreviver, precisaremos nos reinventar, e para isto a humanidade é qualificada. É frustrante que não mudemos pelas razões certas, por uma ética ecológica e do amor. Mas, talvez, a sobrevivência nos ensine, além de sua própria função básica, a sermos mais solidárixs.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ana Reis

 

DA – Em seu livro “O Amanhã não está à venda”, o escritor e líder indígena Ailton Krenak nos lança uma importante provocação, fazendo-nos questionar a nós mesmos se somos realmente uma humanidade diante dos maus tratos impostos à natureza e da ampliação atroz das desigualdades sociais. Acredita que estamos experimentando um largo processo de desumanização em escala global?

CLARISSA MACEDO – Desde sempre nos desumanizamos (ou nos humanizamos?) através da barbárie. Entretanto, com a noção de propriedade, que se estende à mulher, ao outro e à natureza como objetos manejáveis e subservientes, que perdem o status de ser, o processo de desumanizar-se foi intensificado. E são estas noções/práticas que fundamentam o imperialismo e o capital. Portanto, o que vivemos hoje é um processo há muito iniciado, mas potencializado agora porque quanto mais se aprimoram a tecnologia e as ciências mais estas escapam de uma bioética para serem empregadas em nome da dominação. Os povos indígenas vivenciam isso desde que suas terras foram invadidas por navegadores. Hodiernamente, tudo isso espanta porque, após duas severas Guerras Mundiais e tantas outras de independência, além da criação dos Direitos Humanos, dentre outras questões, supôs-se que havíamos aprendido algo; enquanto não descobrirmos a verdadeira matriz do hibridismo cultural, vendido como cosmopolita, mas que, ao fim e ao cabo, serve para a manutenção da colonização (mental, e por isso simbólica e factual ao mesmo tempo), e nos centrarmos numa visão de mundo ecocrítica, geopoética, inclusiva, caminharemos rumo à devastação, ao desumanizado porque extinto.

 

DA – Estarmos imersos hoje num contexto de pandemia expôs mais ainda nosso fracasso civilizatório?

CLARISSA MACEDO – O que direi agora soará como contrassenso se comparado às respostas anteriores: não posso admitir que fracassamos, ao menos não totalmente. A pandemia tem exposto, sim, especialmente no caso “Brazil”, uma feição genocida que parecia irremeável pós-Constituição Cidadã de 1988 e tantos outros avanços globais significativos. Mas cá estamos, sob um governo preocupado com a abertura de shoppings centers (templo-ícone do capital) em detrimento da preservação da vida. Mesmo assim, creio ser possível sacarmos uma lição valiosa disso tudo – e para tanto temos a arte, que, além de grande manifesto sobre esta era (seja no viés político mais imediato, seja na pungência que debilita o humano, seja, ainda, como reino-refúgio), propicia a criação de dimensões imaginárias que podem instituir uma nova cidadania. Permita-me trazer à baila um pequeno poema de “O nome do mapa…”:

Prece

Na vida,
aprendi os salmos perdidos;

são eles que me pegam
quando o continente
cobre os meus olhos
de deserto.

E a literatura é, também, isso, uma acolhida quando o inóspito parece ser o único plano sondável.

 

DA – Em que nível você carrega em si o atributo do otimismo?

CLARISSA MACEDO – Deleuze alerta que migramos da sociedade disciplinar para uma de controle. E, apesar de a engrenagem do capital ser uma obra-prima do ponto de vista propagandista e como sistema de dominação, o pan-óptico não transita imune. Há, nesse aspecto, uma reação, um retorno ao sagrado, ao simbólico, a um estado de poesia, ou seja, uma rejeição ao numerário como forma predominante da existência, delineando a urgência de um reencantamento. Concepções como o veganismo e a crescente de religiões, em linhas gerais, de matriz panteísta demonstram uma demanda pelo telúrico, o seio original de tudo o que pulsa no planeta. Reencantar-se entrecruza, desse modo, a natureza, a arte e a reapropriação do tempo, não mais a serviço do acúmulo monetário e exploração. A vida, em sua definição concreta e inteira, passa a ser prioridade. O reencantamento é esperança: “Às vezes, / fabricamos finais do mundo / sonhando com o próximo passo.”.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ingridy Lima

 

DA – Qual a diferença da Clarissa de “Na pata do cavalo há sete abismos” para a Clarissa de “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição”? 

CLARISSA MACEDO – Toda a diferença (risos) – embora eu mantenha certa identidade de escrita. “Na pata do cavalo…” me parece um livro político; não apenas na acepção de que toda literatura é, em si, um ato político-revolucionário, mas pela abordagem de temas como a dureza vivida na minha infância – e na de tantas pessoas -, o preconceito e o abandono das instituições. E nisto ambas produções comungam. Contudo, estas discussões no livro anterior estão sob a pele de uma metáfora mais incisiva e sob o signo da palavra em uma cariz mais velada. Hoje, sou capaz de reconhecer estes traços, incompreensíveis à época de feitura – uma composição na qual eclodiram várias centelhas que há muito se resguardavam em meu peito. Agora sou outra poeta. Em “O nome do mapa…” optei (inconscientemente, talvez, do ponto de vista estético) por um discurso mais direto, mas não menos imagético, e por um debate imediatamente político. Desde o golpe de 2016, coroado pelo machismo consentido nas instalações governamentais, passando pela ocupação da extrema-direita e desembocando numa ferida quase que total das estruturas democráticas nacionais, tenho sido atravessada pela indignação. E este foi o motor da poética dos mapas. Mesmo nos poemas mais líricos e amenos, por assim dizer, é o traje da tentativa de escape e sobrevivência que me veste. A condição da classe economicamente desfavorecida no Brasil, minha origem, está devassada no livro. Vou costurando os impostos abusivos, a fome, as injustiças, a derrocada da democracia… até chegar ao ímpeto de recontar a história brasileira – é necessário voltar ao início para entender os entre-meios. Admiro autorias que se diferenciam em cada obra mas mantêm uma unidade poético-vocal. Isto é algo que almejo obstinadamente ao construir um trabalho. O próximo livro de poemas que estou tecendo apresenta uma voz completamente distinta da presente nos anteriores.

 

DA – Seria insuportável conceber a realidade sem a Arte? 

CLARISSA MACEDO – Primeiro, é necessário pensar no que “aparta” a realidade da ficção. Muitxs autorxs versaram sobre o tema. Umberto Eco, dentre outros, questiona o que diferencia o universo ficcional (artístico) da verdade histórica. Isto me conduz a refletir sobre o conceito de verdade. Nietzsche me toma pela mão em sua “Segunda consideração intempestiva” para questionar a história e sua definição ao longo do tempo. São diversos pontos de diálogo e indagação. Marcia Tiburi, no prefácio de “O nome do mapa…”, escreveu: “Eu vou me permitir dar livremente esse nome simples e conhecido ao sentimento que emana dos poemas de Clarissa: Luz. Alguma coisa em nós pede essa luz, a luz da poesia como um voo de vagalume no meio do breu.” (Grifos meus). Para mim, não só a poesia, mas toda a arte constitui algo que redimensiona e potencializa o que chamamos de realidade – este fio tênue entre a dita razão e a dita loucura -, guiando-nos com um facho em meio à desesperança. A física quântica indica que o tempo e o espaço como timidamente conhecemos são mais expansivos e enigmáticos. O ponto, para não me alongar, é: estamos longe de saber o que são, ao certo, realidade e ficção. O que sei, contudo, é que a arte, enquanto aparato estético-narrativo…, por fomentar um suprafactual e por dar significado à vida e à história de maneira ampla e surpreendente, torna a existência mais sensível e instigante. Seria insuportável um tipo de realidade sem arte porque esta confunde-se com a própria vida.

 

DA – Afinal, por que escrever?

CLARISSA MACEDO – Afinal, por que viver?

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Clarissa Macedo

 

Pintura: Canato

 

Desconhecida

 

As utopias acabaram
em nome da televisão,
um erro feito
pelo preço do petróleo

Eu te amo, tu me amas
e o verbo já não pode mar

Em nome de Cristo
muitas guerras foram dadas
em nome da dívida
uma tristeza no tronco do país.

Todos os mestres morreram
e na tua carne se desenha
traços que inauguram um título
baralho aberto no avesso da palavra,
asa feita de corpo e de coragem

O mundo agora
cruza um lago sem memória
e em alguns anos
estaremos mais pobres
mais burros
mais tristes
na alma e no prato (    )

Cresce um rasgo
em massa e sem história
na palavra-passe chamada pátria –
essa nódoa, essa traça
esse vazio imenso do nome
no mito de um tempo chamado aflição.

 

 

 

***

 

 

 

Faísca 

 

Ontem havia esperança
toda a esperança do mundo.
Hoje sou um estilhaço
um catálogo de dúvidas
e desejo.

Os pássaros não voam mais
e o dia que nasce
é o luto ordinário, grave,
posto sobre a mesa.

A boca diz o que o coração fala
e a dor é antiga:
chega, se instala
abre ocos na aorta, devagar,
para o aprendizado –
………………………………………do enigma

……………………………………….. da sutura
……………………………………………………..da ferida
……………………………………………………………………..da beleza.

Os fracassos… saúdam uns aos outros;
o que fica é o peso
a humilhação calcada nos olhos.

Digam que perdi:
que faltei às classes de empreendedorismo
e visitei às de angústia e miséria;
que não vou ao shopping
que rasguei os papéis e os comi.

Digam que perdi tudo:
a fé, o sonho, o dinheiro que não sobra

mas amo como se fosse eu o país
essa cavidade aberta
exposta, sangrando até a morte.

 

 

 

***

 

 

 

Versículo

 

1º Evangelho do Capital, 1, 1º. não derramarás coca-cola
em vão: / tomarás todo o néctar da garrafa não-reciclável;
/ não catarás os meninos e suas tampilhas, / ao risco de
ser apedrejado / ante a primeira vitrine; / patrocínio do
produto cuja etiqueta cobre o líquido do tiro perfurado.

 

 

 

***

 

 

 

Carnê

 

logo cedo a caminho do trabalho
olho a lista de coisas pregada na geladeira de 10 prestações
……………………………………………………………………………..[que não foram pagas
a mesma que congela ovos e óvulos da casa
a mesma que assiste na tv a cidadã que reza,
corta e mata em nome da moral etc. e tal
e que aparece no outdoor da cidade – esse espelho de
………………………………………………………………………….[simulacros;
geladeira que congela, escorre,
que não refresca a água da casa onde vive quem uiva sem
[presas a lista de coisas e a violência no coração seco do mundo

 

 

 

***

 

 

 

Arado

 

Nesta contrição feita de nuvem
o seixo que a conforma
é um sortilégio de canções
um sem fim que aflora
e deita à fera
um fio de água
que dos olhos brota

; assim entra no limbo
deixando fora as contas,
o salário baixo, a feira pobre
e até mesmo a nação
– esta que dói
por sangrar o cofre
deixando a nu os que plantam
e não colhem.

 

 

 

***

 

 

 

Rito

 

Sou uma tripa de pedras
que se escoam na ciclovia
das aves a morder o tempo
e seu desvão de tic-tacs

uma esfinge que choraminga
sem oráculo e sem os cactos
que não dormem;

tudo o que vive
é esta parede sem reboco
que observa, vigilante,
a goteira da sala
e se confunde com meu choro
a tomar as unhas, os canos
o cimento da massa;

quatro cantos
e os signos do calvário.

 

 

 

***

 

 

 

Certidão

 

Se pudesse
arrancaria meus nomes
um a um
para desbaratar
a lápide que me cobriu
na vida.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), licenciada em Letras Vernáculas, mestra em Literatura e doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. É autora da plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra – 2014) e do livro Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras – Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia – 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017 – 3ª reimpressão, 2019), ambos de poesia. Entende a literatura como ferramenta para um mundo melhor.

 

 

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113ª Leva - 07/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Clarissa Macedo

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Alguma coisa de fé

 

Eu não tenho religião
(senão a poesia que me leva aos céus)
mas tremo com os sinos
que uivam badaladas
em todo dorso de tarde.

Eu não tenho religião
embora acolha a pompa dos templos
na solidão de algum dilema.

Eu, que não tenho religião,
me sacralizo
com os guizos do tempo
e me purifico
com a ausência de um deus feito de homem.

 

 
***

 

 
Oásis

 

O deserto é uma janela aberta:
o que escapa de seus camelos,
forjados n’água de vapor e sal,
é o calcanhar de todos os desejos.

Nas areias feitas de mistério
conta-se de terras que jamais fui.
Lá, os fantasmas de meu rio seco.

 

 
***

 

 
Aceno

 

Lâmina afiada
dobrada no peito

Fenda aberta
onde escapam
deuses

Lua que derrama
um deserto
de agulhas

Chamas que queimam
estrelas

Tudo reunido:
a dor do adeus.

 

 
***

 

 
Aborto

 

As redes lançadas não trouxeram peixes
Tragaram luzes e pomos abandonados.

Os peixes que não vieram estão mortos
Como o poema que acaba de nascer.

 

 
***

 

 
Fenda

 

Há tempo o menino ficou lá fora.
Espera, espreita a barra da porta,
mas já não pode passar.

Todos os longos anos de preparo –
escola, dentista, boxe –
e a busca pelos jogos de montar,
pelo seio roído da mãe que já foi.

Uma vida de busca e solidão,
a passagem do peito fechada:

só o túmulo aberto da infância.

 

 
***

 

 

Irmandade

 

Qual a cor do teu drama?
Quantos lares saem de teus cabelos?

Com quantos homens se reparte
o último fio de desespero?

Em tempos de paixão e fome
os credos são maiores que as roupas
os voos maiores que as asas.

 

Clarissa Macedo, doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e fora do país, integrando diversas coletâneas, revistas, blogues e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas” e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014).

 

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108ª Leva - 02/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A todo o tempo, flertamos com histórias possíveis. São relatos impregnados do algo real, dum processar de cenários atravessados. Quiçá nosso antigo hábito remonte à memória, esse casulo de ressonâncias vividas e também inventadas. Haveria uma linha a dividir realidade e invenção? Ou será que ambas vertentes não estariam mescladas naturalmente? De todo modo, é muito difícil criar algo de caráter ficcional sem trazer à baila referências que nos constituem em vida. Seria então impossível um deslocamento absoluto daquilo que somos se o intuito é criar outra dimensão a ser apresentada? Quanto mais aprofundamos a questão, as interrogações parecem se multiplicar. Mas é salutar não ter respostas para tudo, principalmente quando o tema é conceber aquilo que se materializa pelo lume do nosso olhar. Quem cria naturalmente estabelece filtros de acordo com suas vivências. Pressupõe-se algo inalienável. Do contrário, pareceria estranho estar fora de tudo e, desse modo, aceitar uma presença criativa de algo que está além de nós e que, ao menos nos domínios mais plausíveis, não nos pertence como referência direta e tangível. E não está aqui a se falar na capacidade de transcendência, recurso de muitos criadores, mas da assunção de energias meramente geradas ao acaso. Talvez a melhor resposta esteja na manutenção da dúvida. Daí, cada autor fica responsável por conduzir métodos que nos ofertem resultados a serem apreciados em forma e conteúdo. E assim vai girando a roda viva das produções em matéria de arte e literatura. Repercutindo identificações e sugestões, desfilamos agora através dos versos de Cazzo Fontoura, Carol de Bonis, Leandro Rodrigues, Israel Azevedo e Lelita Oliveira Benoit. Apresentando suas impressões sobre o romance de estreia de Maurício de Almeida, “A instrução da noite”, Rafael Gallo edifica algumas atentas linhas. Clarissa Macedo entrevista o poeta piauiense Nathan Sousa. Recortes de vida entremeiam as narrativas de autores como Cinthia Kriemler, Thiago Mourão e Natalia Borges Polesso. Descortinando paisagens urbanas, o fotógrafo Ricardo Laf expõe um variado painel de seu trabalho. Ainda a descoberta do novo disco do poeta, cantor e compositor Sylvio Fraga. Em mais uma sugestão de leitura, Sérgio Tavares aponta para “Julho é um bom mês pra morrer”, livro de Reinaldo Azevedo. Na sua cinéfila resenha, Bolívar Landi escreve sobre a delicada temática presente no filme “O Quarto de Jack”. E assim ergue-se uma nova edição da Diversos Afins, com outros caminhos a serem atravessados. Seja bem-vindo à 108ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

Nathan Sousa (Teresina, 1973), é poeta, escritor, professor, tecnólogo em Marketing e letrista. E poeta, mais que qualquer outra coisa, já que é da costura lírica de seu verbo de onde nascem poesia, prosa e música – esta, aliás, que já lhe rendeu mais de 30 composições gravadas em parceria, dentre outros, com o maestro Beetholven Cunha, e que já foram interpretadas em Portugal e na Inglaterra. Radicado em São Gonçalo do Piauí, ele é autor dos livros O percurso das horas (Edições do Autor, 2012), No limiar do absurdo (LiteraCidade, 2013), Sobre a Transcendência do Silêncio (Prêmio LiteraCidade 2013), Um esboço de nudez (Penalux, 2014), Mosteiros (Penalux, 2015) e um romance: Nenhum Aceno Será Esquecido (Penalux, 2015). Mais que títulos exuberantes, que já revelam um pouco do perfume que exala de suas linhas, os livros do autor referido são fortes e bem regados; pois ele tem o cuidado que a palavra exige para os que dela bebem. É Ivan Junqueira quem nos alerta: “Não sou eu que escrevo o meu poema: / ele é que se escreve e que se pensa, / como um polvo a distender-se, lento, / no fundo das águas, entre anêmonas / que nos abismos do mar despencam.”. E é esta a sensação que desabrocha durante a leitura de um livro como Mosteiros, por exemplo: uma autonomia, porque, depois de sentirmos, instância primeira que se despe durante a contemplação de um artefato artístico, mesmo com os protestos da arte conceitual, notamos a palavra erguida de sua própria matéria, sem aquele zelo excessivo que deixa o verso raquítico e o poema sem corpo de tão insosso. O que se desvela é uma literatura sem arestas, mas proeminente de golpes e pétalas:

 

Destilado

 

não mais poderia aquela imagem
flagrar o espanto em que meus olhos
armou suas persianas de água.
e agora que correr é um exercício
de luz e córnea (um desentranhar
de sonho e acervo) aparo as gotas
de meu precipício para destilar
a sede de outras intempéries,
burladas entre o vermelho e o lenço.

 

A identidade de sua escrita é a beleza, em seu sentido mais vivo e carnal; é o lírico destilado, fecundado, cheio de imagens que pescam o leitor de um só arranque.

Integrando 20 antologias e sendo vencedor de 23 prêmios literários, dentre eles o Assis Brasil 2013, o II Prêmio de Literatura da Universidade Federal do Espírito Santo, o Prêmio Machado de Assis 2015, da Confraria Brasil-Portugal, e o Prêmio José de Alencar 2015, da União Brasileira de Escritores – UBE, Nathan tem poemas publicados em algumas das principais revistas de literatura do Brasil, é membro da Academia de Letras do Médio Parnaíba e membro-correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG. Seus livros estão em 36 bibliotecas espalhadas por 12 países. Mosteiros está na lista do projeto de tradução da Universidade de Santiago, no Chile.

Mais que um vasto currículo para um escritor que vem publicando há pouco tempo, Nathan Sousa é poeta. E sua obra sussurra plenitudes e coerências, com o espírito daqueles que elegem a literatura como o percurso das horas.

nathan
Nathan Souza / Foto: arquivo pessoal

                                     

DA – Nathan, iniciando por uma pergunta clichê: como começou isso de escrever literatura?

NATHAN SOUSA – Fiquei realmente encantado com a literatura ainda na adolescência, com os livros de uma tia (Tia Nileide). Depois, aos 14 anos, em Teresina, eu conheci a Biblioteca Desembargador Cronwell de Carvalho e fiquei encantado com todo aquele universo. Acabei me tornando, e digo sem modéstia, um leitor compulsivo. Mas, decidir escrever, alimentando a ideia de um dia ter um livro publicado, isso só me ocorreu em 2010, quando eu já tinha 36 anos.

DA – De onde parte o que você escreve?

NATHAN SOUSA – Parte da combinação entre a minha experiência de vida (meu contato com o mundo real, minhas perspectivas, meus anseios, minhas perdas e ganhos), o acúmulo verbal que eu consegui ao longo de todos esses anos dedicados aos encantos da literatura, somando-se a isso o olhar automatizador que sempre me perseguiu e que está sempre muito afeito ao meu processo de maturidade. Este ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.

DA – A literatura é, por excelência, criadora de uma zona discursiva marginal, que trabalha com sentidos mais amplos e imaginários. Como você mencionou, somado a isso, a criação e a própria literatura são um “ímpeto pelo dizer que nós não sabemos mensurar, nem dizer para onde vai.”. Em que medida é possível “utilizar” a literatura? O que ela vale numa sociedade como a que vivemos?

NATHAN SOUSA – Há um “modo continuum” na natureza humana que direciona nossas ações para a satisfação das necessidades em seus avançados graus. Mas, pegando de empréstimo um termo do genial João Cabral de Melo Neto “isso ainda diz pouco.”. A literatura serve, antes de tudo, para nos fazer compreender melhor essa complexidade desenfreada de relações a que chamamos de sociedade. Impulsiona o homem para o mergulho na subjetividade e, de lá, abre seu campo de visão. Há centenas ou talvez milhares de livros, por exemplo, a respeito do sul dos EUA. No entanto, quando o leitor se depara com os romances de Faulkner, passa a ter uma compreensão maior desse amálgama de vidas, de relações econômicas, enfim…. do conjunto que formou aquela região.

DA – E você acha que ela á apontada como “difícil”, “cansativa” por um público por ser um mergulho tão intenso na subjetividade? Por perfurar mais que acolher?

NATHAN SOUSA – Literatura é, antes de tudo, uma devoção. É subir ladeiras sem se importar com as dores. E esse ato, para os verdadeiros escritores e poetas, traz sensações que passam despercebidas, tendo em vista que a leitura e escrita sempre serão atos da mais pura existência. Depois é que vêm a mídia, os holofotes, os prêmios, as badalações… mas se não vierem, a devoção continuará a mesma.

DA – O que significa, em seu íntimo, chegar aos lugares por onde a literatura tem te levado?

NATHAN SOUSA – Significa um reencontro. Sim, eu me reencontro de forma consciente nos momentos de experiências de leitura, de releitura, quando vou aos saraus, quando sou homenageado, quando lanço livros, quando falo, incansavelmente, de literatura, desta necessidade inexplicável de ler, de escrever, de revelar e se deixar levar pelos mistérios que a própria literatura arrasta consigo.

 

DA – O que é para Nathan Sousa ser premiado pela UBE e finalista do Jabuti?

NATHAN SOUSA – Os prêmios ajudam, principalmente, a divulgar a obra. Sabemos que a literatura não recebe um tratamento caloroso aqui no Brasil. Ser premiado, e em romance, pela UBE, seguido de estar entre os finalistas (em poesia) do mais destacado prêmio das nossas letras, o Jabuti, é afirmar que tudo o que eu fiz até aqui, em matéria de arte literária, valeu a pena. Já valeria sem os prêmios. Dá-me também a sensação de que as minhas escolhas (mergulhar nos clássicos e me refrescar com o que há de mais significativo na produção contemporânea) estão me levando para onde eu verdadeiramente quero, ou seja, para aprender a escrever melhor, sempre melhor.

 

DA – E além de escrever melhor, até onde você quer ir com/na literatura?

NATHAN SOUSA – Até onde minhas últimas forças puderem me permitir pensar, debater, ler e escrever, mergulhar nesse universo. Eu não conseguiria fazer outra coisa na vida. Portanto, ainda penso no mundo, na minha razão de viver, no sentido dessa caminhada, como uma grande biblioteca. Sou, assumidamente, borgiano, nesse aspecto. Ainda tenho muitas aspirações como poeta e escritor (a de continuar buscando novas experiências de linguagem com a poesia; a de escrever um grande romance (uma grande novela), a de ler muito, mas muito mais).

Nathan Sousa
Nathan Sousa / Foto: arquivo pessoal

DA – Você fala sobre escrever um grande romance. O romancista e o poeta se encontram em algum momento?

NATHAN SOUSA – Sim, a todo momento. Eu costumo dizer que o que enriquece a minha poesia é a suposta afinação com a prosa de ficção e vice-versa (risos).

DA – Você saberia definir sua obra? Elegeria algum tema central?

NATHAN SOUSA – Certa vez, Garcia Márquez disse que todo escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. Ele disse que o dele era o livro da solidão. Seguindo essa concepção do mestre do realismo mágico, eu diria que a minha escrita tem enveredado pela estrada da transcendência e do silêncio. Não sei definir com clareza a minha literatura, mas sei muito bem que eu realizo o ato de escrever para alargar a minha identidade, e não somente para me reconhecer existencialmente.

DA – Conte-nos sobre sua experiência como mais novo membro da Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA.  

NATHAN SOUSA – Fui indicado à Academia Luminescência Brasileira – ALUBRA, por dois membros de lá. A instituição tem sede em Araraquara-SP. As academias são clube e não seleção, como quer a maioria. Eu sou membro e atual secretário geral da Academia de Letras do Médio Parnaíba. Entrei aos 39, mais para representar o orgulho de minha mãe, que faleceu um mês antes da minha posse, no começo de 2013. Pelo menos no meu caso, a academia me aproximou de outros escritores e poetas de uma forma mais intensa e harmoniosa. Eu ainda acredito que muito pode e deve ser feio por essas instituições, principalmente no que diz respeito à divulgação da literatura de seus membros e da comunidade que cada uma delas representa. Ainda não vimos isso, mas eu não me sentiria bem em negar o convite e ficar do lado de cá, resmungando. Ainda sou membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni-MG.

Eu digo sempre o seguinte: Assis Brasil, O G Rêgo de Carvalho, H Dobal e Da Costa e Silva, quatro dos mais destacados nomes da literatura piauiense, fazem e faziam parte da Academia Piauiense de Letras. Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado faziam parte da ABL. Por que, então, eu me recusaria a ser membro de uma instituição literária que deseja ter meu humilde nome entre os seus?

DA – A respeito disso, é interessante pontuar a postura de alguns escritores que alegam não sentirem desejo de publicação, mas publicam, ou afirmam sua obra como irrelevante, embora aceitem convites para eventos literários. Como você vê este tipo de postura? Como é a sua relação com a “fama literária”?

NATHAN SOUSA – Com relação aos que se posicionam dessa maneira, a meu ver, querem conservar uma posição de elegância pela ausência, pela despretensão, por uma simplicidade que é típica dos que querem ser lembrados, mas não querem ser vistos. Tenho convivido com certa projeção literária em tempo muito curto de carreira, não nego. Eu tenho procurado aproveitar essa projeção para tentar realizar dupla função: promover a minha escrita/despertar o gosto pela leitura e a coragem para publicar. Tenho me deparado, ao longo dos últimos três anos, com poetas de boa qualidade, enclausurados na redoma do receio. Eu digo a que vim no meu primeiro poema (Combate, vide O percurso das horas – 2012): “Escrever poemas / é como rasgar a camisa / mostrar o peito / se armar com uma faca cega / olhar no olho do mundo / e autorizar: / pode vir”.

DA – Rasgar a camisa exige coragem. E além de coragem, como uma espécie de mensagem, o que mais você gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins? (desde já registro o meu muito obrigada pela sua disposição em responder essas perguntas).

NATHAN SOUSA – Eu agradeço imensamente por essa entrevista tão rica e tão amigável, o que não poderia ser diferente, em se tratando de uma entrevistadora/poeta com a sua competência e afinação com as palavras, e gostaria de dizer aos leitores da Diversos Afins que intensifiquem cada vez mais o gosto pela leitura. Ninguém sairá perdendo com isso.

Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014) e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).

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104ª Leva - 07/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

São chegados 104 caminhos de arte e literatura. Sem dúvida, uma marca temporal dispersa em ações e encontros. Lidando com palavras e imagens, descobrimos pessoas, verdadeiros universos de saberes e sabores. Cada voz tem seu modo próprio de nos mostrar que o mundo é um lugar sempre novo e que, para tanto, depende do ponto de vista adotado. Seguir adiante é cultuar as diferenças, permitindo que cada autor mostre o seu modo de estar no mundo. Num trabalho que intercruza existências, é possível perceber como até mesmo pensamentos diametralmente opostos são parte necessária das reflexões sobre um tudo. Estar vivo faz parte do jogo dos estranhamentos.  Em cada autor presente nesta edição, uma centelha destes sentimentos todos paira voluptuosa. É o homem no homem, refletindo arroubos e raras certezas. Entrecruzando mundos, a fotógrafa Valéria Simões expõe aqui um lastro considerável de seu ofício com a luz. Suas fotografias estão diluídas diante de textos que flertam com o insondável. Vêm se juntar a tal energia os contos de gente como Vivian Pizzinga, Roberto Dutra Jr e Mário Sérgio Baggio. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger nos aponta sete considerações sobre o mais novo filme de Jean Luc Godard, “Adeus à Linguagem”. Maurício de Almeida nos conduz pelas vias do primeiro romance de Rafael Gallo. Hoje, as esferas da poesia estão tomadas pelos versos de Elizabeth Hazin, Kleber Lima, Clarissa Macedo, Edson Valente, Cristina Arruda e Adriana Aneli. Em matéria de música, as escutas de Larissa Mendes chamam nossa atenção para o mais novo disco da banda norte-americana Beirut. Numa entrevista, o escritor Thiago Mourão fala sobre seu mais recente livro e outros temas ligados ao ofício literário. Pelas linhas de Sérgio Tavares, estão marcadas reflexões sobre o novo livro de contos de Antônio Mariano. E assim tudo conduz a um renovado ambiente de aparições, caros leitores. Sejam bem-vindos a tais possibilidades!

Os Leveiros

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104ª Leva - 07/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Clarissa Macedo

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

SETE ABISMOS

 

A alma relincha
na estrebaria.

Macho de cavalo
que galopa trovas
do pensamento,
engole as águas
de pasto e de feno.

Há terror nos ventos
do cavalo magoado,
que perdido rompe,
alado, as trincheiras
e cai como anjo
de tormento.

Há éguas rondando
pratos de esquecimento.

Há rodas e correias
na carruagem violenta.

Naquela crina
de ferraduras negras
um cavalo
de patas ralas:

Os sete abismos da vida.

 

 
***

 

 

DA INVENÇÃO DA VIDA

 
Do mar que se inventa
emerge uma rocha.

Do que se inventou fora disso
há rumores de um tempo
há cavalos de água
que nunca pude galopar
heróis de alga
que nunca me salvaram.

 

 
***

 

 

FÁBULA

 
No teu aprisco imenso
sempre houve uma ovelha
pequena, cinzenta, desajeitada

aquela que frente ao cajado,
ao latido do cão também imenso,
fugia e não se guiava

aquela que diante do espelho d’água
não cria na imagem que se revelava
nem na eternidade de que ouvia

aquela que nua, de lã cortada,
sussurrava cantos às irmãs.

Uma ovelha: tal qual tantos bodes.

 

 

 
***

 

 

 
SEGREDO

 
Pouco sente o ruído das sombras
ou a linguagem dos pássaros.

A língua é matéria adiada
assim como a morte
é a queda dos que divagam

o velho magro adotado
penetra na mesma terra
em que heróis choraram.

Segue a vida: sutil perenidade
mesmo timbre, mesmo lamento.

E o firmamento que nos cobre
não ouve a língua das sombras
ou o ruído da morte.

 

 
***

 

 

UMBILICAL

 
As casas que me habitaram
nunca disseram adeus.

No meu corpo de desenganos
cada madeira, cada farpa.

Entre o menino que se foi
e o homem que não chegara,
impõe-se cada cômodo…
alguns sonhos, ambas fraquezas.

Às vezes penso que quem
me pariu não foi a mãe ida,
mas o concreto com frestas
que iluminou planos de pipas,
minha última barba.

A casa que agora me vive
é um cubículo, um palácio
de pedras agras.

 

 

 

***

 

 

CONCERTO PARA CAVALOS

 
Despidos de crinas que não se reconhecem
Cravados de marcas de ferro
Fugidos pela palha que nega o que desejam
Mortos pelas pirâmides que migraram
Surdos pela sinfonia que não se nomeia
Loucos de manadas de dragões que cospem estrelas
Vivos pelas correntes que berram astros
… assim são os cavalos do concerto do meu coração
crianças que preparam o primeiro verso,
feras que não se sujeitam.

 

 

***

 

 
LANCINANTE

 
Guardados os tentáculos
o que aflora no orvalho
são os males indivisíveis,
cicatrizes não costuradas.

O que tumultua a partida
é o horário errado, um
relógio de ponteiros gastos.

Lançadas as sombras no lixo
guarda-se para a próxima coragem
um depois que não virá.

 

Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Os poemas aqui publicados fazem parte do mais novo livro da autora, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).