Do lastro da imaginação, emanam cenários, personagens, espectros emblemáticos de nossa condição sobre a Terra. Divisamos o que foi e o que será em tênues fronteiras de percepção. Cada um sabe de si no complexo desafio de apreender os caminhos da arte. Interpretar é, antes de tudo, viver o que está sendo ofertado aos nossos olhos e sentidos difusos. É banhar-se em águas que já não são as mesmas de quem criou. É trazer a si mesmo para um território antes estrangeiro. Ao cruzar os acessos, traduzir-se como protagonista de enredos por vezes inusitados. Ler é aceitar convites, embora nem sempre tal ato represente um sinal de concordância com o que nos é proposto. E também as recusas e negativas podem encerrar alguma espécie de reinvenção. No hiato que constitui a alteridade, cruzamos bem mais do que desertos. Ali, podemos também estabelecer aproximações como quando alguém nos sugere trilhar veredas nunca antes forjadas de alguma coragem. E o termo coragem vem dotado de um ato de se permitir experimentar o que está situado além de domínios certeiros e controláveis. Diante desse ponto específico e à medida que caminhamos, parecemos buscar algo que seja capaz de proporcionar algum arrebatamento em termos de originalidade e emoção. Sob a ótica do receptor, indagamos se a visão autêntica das coisas não estaria na percepção de quem lê ou observa os produtos artísticos. Caberia tão somente ao criador o ímpeto do novo? A questão só não se perderá embalada por algum vento aleatório caso alguém ouse também a aceitar que, sob a pele de um leitor, habitam camadas passíveis de criação autônoma. Assim sendo, vamos cruzando novas zonas de vivência no que tange à articulação de conteúdos. Para saber se poderemos de fato manipulá-los conforme nossa conveniência, só a fluidez dos enredos será capaz de atestar. Acima de tudo, esse caráter, digamos assim, libertário funda instâncias potencialmente criativas, redimensionando os tradicionais papéis de criadores e receptores. E a arte com seu movimento constante de signos nos revela entendimentos sobre nós mesmos, desses muitas vezes revestidos de instigantes descobertas. É tal como ocorre com as narrativas de Mariel Reis, Helena Terra e Yara Camillo, a nos mostrarem cenários alternativos de vida. Num caminho sedimentado em sutilezas, a arte da ilustradora e desenhista mineira Rebeca Prado abre passagem por todos os recantos dessa nova edição. Num trabalho de refinada pesquisa musical, a escritora Daniela Galdino chama atenção para o disco “Acorde”, registro precioso da cantora baiana Roze. Entre versos e destinos, os poetas Patrícia Porto, Willian Delarte, Lourença Bella, Jorge Augusto da Maya e Cleberton Santos. Numa entrevista que promove reflexões sobre o fazer literário, o poeta Roberval Pereyr é o centro dos questionamentos de Clarissa Macedo. O mais novo livro de contos de Anderson Fonseca é tema das apreciações de Sérgio Tavares. A inusitada produção “Boyhood”, novo filme do diretor Richard Linklater, aparece marcada pelas percepções de Larissa Mendes. O poeta Gustavo Felicíssimo recorda seu último encontro com o saudoso escritor João Ubaldo Ribeiro. Atingimos 95 levas, certos de que você, caro leitor, é nosso principal protagonista. Boas leituras!
Articulador cultural, doutor em Letras, professor universitário, editor e fundador das editoras alternativas Estrada e Tulle, co-fundador da revista Hera (1972-2005), criador das coleções literárias Olho D’Água (1982) e Bocapio (1991), além da revista de poesia Duas Águas, com Pablo Simpson (Campinas – SP, 1997), estudante de flauta doce, compositor (parceiros: o catarinense Márcio Pazin, além de Carol Pereyr e Tito Pereira, seus filhos) e, sobretudo, poeta, Roberval Pereyr, filho de Antônio Cardoso – BA (1953) que sempre esteve ligado a Feira de Santana, onde reside desde 1964, é autor de diversos livros, dentre eles As roupas do nu (1981), Ocidentais (1987), O súbito cenário (1996) Concerto de ilhas (1997), Saguão de mitos (1998), Amálgama – Nas praias do avesso e poesia anterior (2004), Acordes (2010), Mirantes (2012) – prêmio da Academia de Letras da Bahia (2011) e 2º Prêmio Brasília de Literatura (2013) – e 110 poemas (2013). Publicou, ainda, A unidade primordial da lírica moderna (teoria da literatura, já na 2ª edição). Tem no prelo o livro A mão no escuro (desenho artístico).
Nesta vasta lista de feitos, aponto, como mencionei acima, Roberval Pereyr principalmente como poeta. Não apenas pela quantidade de livros publicados ou pelas premiações, mas pela dedicação à palavra, à literatura. Na entrevista que aqui segue, onde arrisco algumas longas perguntas, o caráter de cuidador do verbo, da poesia como instância fundamental da vida e de alguém que não se desvincula da escrita como orientação do ser em nada do que realiza, fica nítido. Quando penso na obra de Roberval ou na sua figura em sala de aula, lembro com insistência da música de Milton Nascimento, com letra de Caetano Veloso, inspirada no conto rosiano A terceira margem do rio. Não aventuro fazer qualquer analogia direta com o teor – enigmático – da composição ou da narrativa. O que acho que penso quando reflito sobre essa lembrança evocada pela “simbólica” de Roberval é na musicalidade metafórica e densa, tanto da canção de Milton e Caetano quanto da obra de Guimarães Rosa como um todo. Nessa estrofe certeira da música A terceira margem do rio, “Asa da palavra / Asa parada agora / Casa da palavra / Onde o silêncio mora / Brasa da palavra / A hora clara, nosso pai”, a despeito de qualquer interpretação, salta de imediato aos ouvidos e ao coração um ritmo longilíneo, marcado por assonâncias, aliterações e rimas intrigantes. É a força, a gravidade e a influência da palavra – fora toda uma referenciação ao universo do conto rosiano – que emergem de uma possível “leitura musical” dessa peça. Na história que inspirou a canção, o protagonista, que parte para o ermo do rio, tem a palavra silenciada; o que fala são seus gestos, seu vagar pelas águas, sua busca pela terceira margem. Na narrativa rosiana, a exploração da palavra (símbolo/significante/significado) é levada às últimas consequências. E é nisso que penso quando leio Mirantes, por exemplo. É o impacto de uma construção literária imbuída de musicalidade soberana que em momento algum compromete o jogo semântico do texto ou a fluidez de um dado tema, nem se dilui em excesso ou se pretende hermética. Pelo contrário. A obra desse multi-autor revela uma solidez pouco encontrada, que equilibra vigor semântico/temático e cadência rítmica de modo preciso. Na poesia de Pereyr, há o momento do silêncio e o tempo do embate:
Duo
Tenho um mestre que não conheço
e que me guia sem saber.
Não sabe meu endereço,
não sei seu nome: pra quê?
Só sei que me guia, e bem
ou mal
me deixo reconduzir
aos mesmos vãos do real
em que me perco sem ir.
E ele, sem me dizer,
me diz que tudo está certo;
ao que eu, sem responder,
respondo: fique por perto,
mestre,
que estou perdido.
E ele, sem existir, me diz:
sim, meu filho, sim.
E tudo perde o sentido.
E em todo o andamento há uma poética de pura música:
GALOPE
Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos
(com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade).
Meus pensamentos são meus cavalos
Meus pensamentos são meus camelos
(sou sertanejo, nasci nos matos,
ando a cavalo para mim mesmo).
Meus sentimentos são meus desejos
em que me vejo perdido, e calo.
Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos
Música feita do extrato da poesia plena, assim como a obra ficcional de Rosa. É poesia que não se mede, e que vaza na asa da palavra.
Roberval Pereyr / Foto: Arquivo pessoal
CLARISSA MACEDO –Roberval, trilhando uma longa e feliz carreira literária, conte-nos como tudo isso começou, como a literatura surgiu na sua vida e nela fez morada.
ROBERVAL PEREYR – Comecei a escrever aos 14 anos, mais ou menos (poemas, narrativas, etc.). Mas, antes mesmo de começar a escrever, me sentia tomado pelo que depois vim a identificar em Drummond como o sentimento do mundo. Sempre escrevi por uma necessidade: inscrever no mundo da linguagem o que o mundo escreveu (ou escreve) em mim. E escrevo porque tenho o que Rollo May chama “a paixão da forma”. Entre os vários poemas que criei pela necessidade de dar forma a essa necessidade de escrever (cada um deles trazendo facetas diferentes em torno do assunto), um, que está em Mirantes e que se intitula “Silhueta”, é assim:
……………..Escrevo: o tédio me ameaça. ……………..O tédio a que não tomo ……………..sequer uma data.
……………..Escrever não salva ……………..mas desdobra em calma ……………..o sofrimento, instaura ……………..o silêncio ……………..onde enfim me enredo contra o horror da estrada.
……………..Escrever é meu credo: ……………..credo que consiste em não crer em nada.
Mas também escrevo pelo gosto da “Cantiga” (primeiro poema de Mirantes):
…………….Mares do avesso …………….navego. …………………….Perigoso, o ego …………………….mil endereços me dá.
……………São falsos, eu sei, são falsos. ……………Mas é bom navegar.
Poderia continuar com a citação de muitos outros poemas que fiz na tentativa de traduzir a minha necessidade de escrever, e ainda assim não estaria satisfeito. Sei que se trata de uma necessidade, mas uma necessidade que não se deixa traduzir, jamais, de forma cabal e definitiva. A origem da criatividade (como, de resto, qualquer origem) perde-se no insondável, tem sua reserva de mistério. Mesmo que esse mistério, como queria Fernando Pessoa, não seja, ao final das contas, mistério algum. Mas dizer isso (ou ler isso) pode deixar-nos, paradoxalmente, ainda mais inquietos. Voltando à questão proposta, poderia simplesmente dizer: escrevo porque escrevo. E é tudo. E é só. E não é. O problema, assim, se repõe inteiro. Por isso, neste ponto sinto-me tentado a calar-me. A propósito, Fernando Pessoa, ele mesmo, é o tradutor exímio de um livro difícil e belíssimo, inspirado na sabedoria tibetana, intitulado A voz do silêncio. Quem está apto a escutá-la? Mais ainda: a dar-lhe uma (não)forma? Talvez os poetas e os grandes mestres orientais. Eu, não. Mas espero.
CLARISSA MACEDO– Partindo dessa necessidade mencionada acima, desse “escrevo porque escrevo”, que se alarga e se confunde em sua própria indefinição, o homem que não escreve – por falta de expressão melhor –, paradoxalmente, busca cada vez menos a epifania literária. Como você vê o escritor – esse ser que não sobrevive sem a escrita – na sociedade contemporânea? Há um lugar, ou um entre-lugar, para aquele que escreve?
ROBERVAL PEREYR – Em primeiro lugar, não acho que, necessariamente, “o homem que não escreve busca cada vez menos a epifania literária”. O leitor criativo, mesmo não sendo escritor, pode muito bem vivenciar, no seu envolvimento com o texto literário, momentos luminosos e reveladores. Quanto à pergunta que você faz, posso respondê-la dizendo que o lugar do escritor é, primeiramente, aquele que ele cria com (e na) sua própria linguagem. O escritor é um criador de mundos, que ele habita e que o habitam. No ato criativo, ele se encontra consigo mesmo, e esse encontro inclui o seu mundo e a humanidade. Esse mundo da obra (refiro-me a obras autênticas, escritas com engenho e arte, e por necessidade) se ergue estabelecendo tensões com o mundo de todos (ou de ninguém). Essas tensões se traduzem não raro como testemunho, recusa e denúncia. Portanto, é de se esperar que o mundo utilitário, agressivo e degradado dos mercados e dos consumismos (retratado e denunciado de muitas formas e em muitas dimensões nas obras literárias) retire dos álbuns o retrato do escritor e dos catálogos os títulos dos seus livros. Exceção feita, é claro, aos best-sellers, quase sempre dóceis e sempre lucrativos. Assim o escritor, em sua normalidade, vai precisar fazer outras coisas para sobreviver. Ser, por exemplo, professor, como eu. Mas, de uma forma ou de outra, sempre foi assim, e não acho, sinceramente, que as coisas possam mudar. E quando digo “as coisas”, quero dizer: a humanidade. Ao escritor cabe então levar em conta o que Octavio Paz denomina “as imensas minorias”. Felizmente, elas de fato existem e podem ser encontradas no mundo inteiro.
CLARISSA MACEDO –O homem que não escreve – por falta de expressão melhor – referido acima, seria esse grande público que não se interessa pelo literário e que vivencia o “mundo utilitário, agressivo e degradado dos mercados e dos consumismos”, do qual, de alguma maneira, ninguém está livre. Nesse sentido, grandes polêmicas têm cercado a literatura, como as acusações de preconceito racial dirigidas à obra de Monteiro Lobato e o rótulo de elitista direcionado a Machado de Assis. Por isso, seria necessário simplificar Machado e retirar Monteiro Lobato das livrarias. Tais investidas, por assim dizer, teriam o objetivo de democratizar a literatura. O que você pensa sobre isso?
ROBERVAL PEREYR – Em primeiro lugar, acho que tais investidas não poderiam jamais contribuir para democratizar nada, pois me parecem frágeis e autoritárias: ao que tudo indica, refletem uma postura daqueles que, em função de seus interesses e de suas ideologias, se acham no direito dizer como as coisas, as pessoas e as obras de arte devem ser, ou têm de ser. Todos nós, pelo fato mesmo de lidarmos com conceitos, tendemos a ser preconceituosos, isto é, a usar nossos conceitos de forma irrefletida e inadequada. Por isso mesmo penso que toda crítica, para ser libertadora e produzir conhecimento válido, tem de ser também autocrítica, no sentido de pensar a realidade pensando a si mesma, buscando permanentemente adequar-se às situações e indagações que o seu objeto suscita. Preciso lidar cuidadosamente com meus conceitos e meus preconceitos, sob pena de me transformar na primeira vítima deles.
Em segundo lugar, essas investidas parecem evidenciar uma ignorância básica sobre a arte (entre elas, a literatura): qualquer obra de arte que seja didatizada (para “facilitar” ou “simplificar” o que quer que seja), ou criada colocando em primeiro e único plano uma ideologia, tende a virar propaganda. Vira meio para, vira instrumento, unilateraliza-se. Ou seja, se transforma em tudo que a arte não é. A obra de arte, mesmo quando eventualmente incorpora uma limitação (da sua época, do seu autor, ou de ambos – o que, até certo ponto, é inevitável), existe para, sob certo sentido, tensionar com essa mesma limitação, ou com quaisquer outras. E isso se dá pelo fato de que toda autêntica criação artística é, constitutivamente, multidimensional, polifônica, plurifacetada, não porque suprima a ideologia (o que seria impossível e até indesejável), mas por multiplicar e entranhar em seu tecido as mais diversas visões, e em situação, isto é, de forma dramática. A obra que tiver, de fato, essa característica traz em sua própria “natureza/função” os sinais e as possibilidades da diferença. É o que podemos constatar, por exemplo, nesta passagem de um poema de Antonio Brasileiro, que de forma muito oportuna me vem agora à cabeça: “A verdade é uma só: são muitas./E estamos todos certos. E sem rumo.” Na obra de arte, as “verdades” do seu próprio autor, que porventura nela estejam explicitadas, oscilam, vacilam, e isso é suficiente para que o leitor (com suas verdades e limitações) possa se posicionar, mas ao mesmo tempo sentir a oscilação de suas próprias convicções, desde que seja um leitor sensível, aberto, flexível: desarmado em relação ao novo e ao outro, mesmo que com ele não se identifique. A propósito, a literatura é uma desarticuladora de identidades fixas, isto é, artificialmente constituídas, e o faz precisamente por encenar e fazer proliferar as visões de mundo e os móveis lugares de onde essas visões vão se evidenciando e se problematizando. Ou seja: no que se refere ao labor com as palavras, penso que a literatura é, no melhor sentido, a linguagem mais generosa e democrática que pode existir. Tolera inclusive a contradição, quando é fecunda, como a que se evidencia, por exemplo, na afirmação: para ser eu mesmo tenho que ser sempre outro (afinal, ainda hoje repetimos com Heráclito: ninguém desce duas vezes o mesmo rio). O que não significa, evidentemente, que o bode tenha que se transformar em carneiro. Feita a ressalva, podemos dizer que a singularização não exclui nem a mudança, nem a pluralidade. Indivíduo é aquele que se singulariza porque não se divide, porque está enraizado no todo, e o todo, no caso, é o que há de comum a todos. O todo é a mãe invisível que pare todas as singularidades. Assim, às diferenças de superfície, penso que devemos associar uma identidade básica, que, no meu entender, está aquém e além das ideologias, sob pena de transformarmos originalidade em intransigência, singularidade em identidade fixa, respeito à “Verdade” em fanatismo e cegueira. Ou de pregarmos a democracia com um discurso que traz a marca da intolerância para com a diferença em sua radicalidade. É muito comum a aceitação da diferença apenas dentro do enganoso círculo do mesmo. Para respeitarmos efetivamente a diferença, devemos ter, com Sartre, a coragem de aceitar que “o inferno são os outros”. Essa aceitação me parece ser um ponto de partida sincero que nos fará compreender até onde podemos ir no terreno do outro, que é, a um só tempo, fonte inesgotável de fascinação e repulsa, e não necessariamente uma instância da realidade a ser erradicada.
Diante de tudo isso, censurar, excluir, “simplificar” (que muitas vezes, além de uma intolerância em relação às inesgotáveis e necessárias possibilidades de lidar com as formas e os significados, implica ainda uma subestimação da capacidade do leitor) são verbos que não têm nenhum cabimento, embora reflitam posturas que estão na moda, e em larga escala, inclusive na academia. Arremato, então, com um breve poema de minha autoria, intitulado Nudez, aparentemente contraditório em relação a certas afirmações que acabo de fazer, e que por isso mesmo vem a calhar: “Não quero ser simples./Uma flor não é simples:/é uma flor. E não cede.”.
Roberval Pereyr / Foto: Arquivo pessoal
CLARISSA MACEDO – Além de escritor, como já foi dito, você é professor e também investe na produção cultural, organizando, por exemplo, parte da Feira do Livro de Feira de Santana. Como conciliar atividades que, ao mesmo tempo em que estão relacionadas, exigem tanto? Em que medida o poeta Roberval mergulha em cada uma delas? O que o outro, ou outros, essa “[…] fonte inesgotável de fascinação e repulsa” (aproveito essa fala de forma ressignificada), tem a dizer?
ROBERVAL PEREYR – Já disse em outras oportunidades que tudo que faço é como criador. Quando edito o livro de um amigo ou de um aluno, o que tenho feito ultimamente através da Tulle, editora alternativa sem fins lucrativos que criei e coordeno, sinto uma grande alegria. É a alegria de participar do surgimento de algo. Quando entro numa sala de aula, tenho sempre a sensação de que algo novo pode ou vai acontecer. E o que vai acontecer é o que Rollo May aponta como algo indispensável a todo ato criativo: o autêntico encontro. A minha participação voluntária na Feira do Livro – Festival Literário e Cultural de Feira de Santana, por exemplo, é também motivada pela expectativa de contribuir, ao lado de muitas outras pessoas, para que certas coisas significativas aconteçam em Feira de Santana, e que aconteçam como encontros desejados, porque criativos. E desejados não só por mim, mas por várias pessoas que organizam e/ou aguardam o evento.
A minha atuação como orientador no Mestrado (UEFS), para dar mais um exemplo, é também encarada como uma jornada criativa, que implica encontros, cumplicidades, achados, o que inclui, sem dúvida, incertezas, angústias, mas também momentos luminosos. Tudo, obviamente, com muito trabalho e envolvimento, e esperando, por parte do outro ou dos outros envolvidos, o mesmo grau de empenho e dedicação. Em tudo isso, é preciso frisar, fica implícita uma coisa: o que faço com empenho e criatividade é o que gosto de fazer. Somente dessa forma podemos nos aproximar do que Henry Miller afirma ter alcançado na maturidade e que expressou com esta frase exemplar: “Tudo que faço é por pura alegria”.
CLARISSA MACEDO –Falemos um pouco de Hera – importante revista que por mais de 30 anos divulgou literatura e artes plásticas. Como foi a experiência de estar na gênese dessa que foi/é, além de uma revista, um movimento artístico?
ROBERVAL PEREYR – Hera (1972–2005) foi uma grande experiência coletiva. Uma experiência que perdura, já que muitos daqueles que constituíram a base do movimento por ela protagonizado (a exemplo de Antonio Brasileiro, que foi o iniciador de tudo, Assis Freitas Filho, Iderval Miranda, Juraci Dórea, Luis Pimentel, Luiz Valverde, Nanja, Rubens Alves Pereira, Trazíbulo Henrique Pardos Casas, Washington Queiroz e Wilson Pereira de Jesus) continuam atuando. E são muitos os desdobramentos de sua atuação, sob a forma de livros, revistas, exercício da docência, encontros, oficinas, projetos de pesquisa, intervenções, dissertações, teses, artigos, etc. Disso tudo resultam novos desdobramentos, diretos e indiretos, cujas repercussões fogem, felizmente, ao nosso controle. Para mim, esse é o primeiro e o maior dos sentidos relacionados à Hera, isto é, ao movimento que ela gerou, para além mesmo da literatura.
Enquanto co-fundador da Revista Hera, que dirigi, sempre em parceria, em 17 dos seus 20 números, posso dizer que, sob certos aspectos, e a partir dos meus 18 anos, confundo a minha história com a dela. Acompanhei (muitas vezes, em companhia de Brasileiro, Wilson, Cremildo Souza, Gastão Correia, Washington, Wilson e Juraci) a preparação e a feitura de cada um de seus números (cerca de metade deles impressa em tipografia), em várias gráficas de Feira de Santana (somente 2 números foram impressos em Salvador). Além disso, fui o único a publicar em todos os números de Hera. Esses números foram reunidos e publicados em edição fac-similar, volume único, em 2010, pela Universidade Estadual de Feira de Santana, em parceria com a Fundação Pedro Calmon. Trata-se de um volume de mais de 700 páginas, que reúne quase mil obras de 100 autores diferentes, cerca de 50% deles neófitos, muitos ainda inéditos à época em que se candidataram a publicar na revista. E o que mais impressiona, sobretudo por ser uma revista que publicou – ao lado de poetas consagrados – muitos autores iniciantes, é a sua qualidade. Hera foi, efetivamente, uma revista geradora. Enquanto existiu, plantou e colheu. Aliás, continua colhendo. Para mim (e para meus companheiros) ter participado (e continuar participando) desta história, desde o início, tem um sentido muito especial.
CLARISSA MACEDO –O Mirantes ficou entre os vinte finalistas do prêmio Portugal Telecom 2013, recebeu o Braskem Academia de Letras da Bahia, em 2011, e venceu na categoria Poesia do 2º Prêmio Brasília de Literatura. Um marco e tanto para qualquer escritor. O que essas premiações significam na sua carreira?
ROBERVAL PEREYR – Significam que minha obra aumenta suas chances de alcançar um número maior de leitores qualificados, num país de poucos leitores e num mundo em que os criadores, no campo da arte, com raras exceções, são escanteados pela lógica do consumismo desenfreado em função do lucro e invisibilizados pelos meios de comunicação a serviço dessa lógica. No lugar dos criadores, a bem sucedida legião da mesmice (que já cheguei a chamar de “mesmice dinâmica”) e da mediocridade. Aos membros dessa legião, basta apenas um atributo: algo que eles mesmos chamam de carisma. Mas voltemos aos prêmios e à minha obra: alcançar um número maior de leitores significa a possibilidade de multiplicar encontros com – e entre – aqueles que constituem “as imensas minorias” e que, como já disse, podem ser encontrados em todas as partes do mundo. Quando me refiro a encontros, estou querendo dizer que não me interessaria alcançar uma quantidade maior de leitores a qualquer custo, já que, a qualquer custo, quantidade subtrai qualidade. Seria colocar a vaidade e a estupidez (e – o que não é o caso – o dinheiro) acima, por exemplo, da indescritível alegria que significam os encontros que a arte (no caso, a poesia) pode proporcionar. “Uma coisa bela é uma alegria para sempre”, já disse um poeta. “Tudo que faço é por pura alegria”, disse Henry Miller, num importante ensaio em que ele afirma, ainda, que “a arte nada ensina a não ser a significação da vida”. Isso me interessa, e espero que para isso os prêmios atribuídos a Mirantes possam contribuir.
CLARISSA MACEDO – E de agora em diante? É possível pensar no futuro?
ROBERVAL PEREYR – Sei que sua pergunta não é propriamente filosófica. Minha resposta, no entanto, vai ser. Então digo que sim, é possível pensar no futuro. Mas futuro e passado são aqui e agora. Aliás, só por isso é possível pensar neles. Num vaivém, muitas vezes tortuoso, somos o que já fomos e o que ainda não somos: somos um projeto. Mas sempre no Presente, que, por sua vez, nos escapa incessantemente. “Ninguém se banha duas vezes do mesmo rio” (Heráclito). O desafio é, apesar de tudo (isto é, apesar do óbvio), manter-nos atentos, despertos, vivenciando com plenitude o aberto, a clareira – em estado poético. Hölderlin (que foi adotado por Heidegger) afirma: “…poeticamente o homem habita esta terra.” Acho que qualquer projeto só tem sentido se não nos rouba o presente, ou seja, se nos gratifica e nos ilumina, desde a sua gestação. Isso é possível, por exemplo, na criação e na recepção criativa da arte, tão necessária quando se trata de despertar. Acho que é nisso (e afins, a exemplo do zen budismo, que associo, entre outras coisas, ao ócio criativo) que vou mergulhar cada vez mais. O futuro ao Presente pertence. Carpe diem.
Clarissa Macedo é licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Está presente em diversas coletâneas. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog Essa coisa que é o eu.
De quantas faces é feito um coletivo de expressões? Eis um questionamento sempre complexo de se responder. Tendo em vista o universo particular e significativo que brota de cada indivíduo, poderíamos dizer que uma edição de uma revista como a Diversos Afins é, na verdade, um inventário de vestígios. Nesse processo todo, talvez o que seja mais difícil de projetar é o corpo definitivo das criações, ou seja, a maneira pela qual as vozes se orquestrarão rumo a um sentido final e amalgamado. Como a arte é uma eterna equação sem soluções exatas, cabe-nos sempre a tentativa de harmonizar as diversidades de pensamento que permeiam o mosaico de autores publicados. Assim, pesquisamos, pensamos, idealizamos e, sobretudo, acolhemos aquilo que vislumbramos ser o componente imprescindível de um organismo vivo que é a cultura. O estímulo necessário para a continuidade vem do entendimento tanto de autores quanto dos leitores. Aqui, entendimento significa compreensão dos caminhos e propósitos que norteiam nosso trabalho, isto é, um conjunto de características que consolidam cada vez mais uma identidade para a revista. E mais gente vem se juntar a esse solo comum de andanças. É o caso de Leonardo Mathias que, com o vigor significante de suas entrelinhas poéticas, compartilha conosco uma exposição de seus desenhos e ilustrações. No compasso do mistério que permeia a vida, nossas janelas de versos abrem seus compartimentos para que ecoem as palavras de Leandro Rafael Perez, Marcelo Ariel, Vanessa Carvalho, Luiz Brener, Adriana Aleixo e Luís Filipe Marinheiro. Numa conversa sobre poesia, a escritora Clarissa Macedo entrevista a poeta peruana May Rivas de la Vega. Num resgate sonoro, Rogério Coutinho escreve sobre um dos discos solo do ex-mutante Arnaldo Baptista. Nos Dedos de Prosa, toda a particularidade narrativa dos contos de Maurício de Almeida, Tere Tavares e Abilio Pacheco. O escritor Luis Benítez esboça um breve panorama da poesia argentina contemporânea. No território da sétima arte, Larissa Mendes anota suas impressões sobre a mais recente produção dos irmãos Coen. Conduzida por novos ímpetos, a 89ª Leva movimenta outros tantos verbos, sentidos e imagens. Mais uma vez, seja bem-vindo, caro leitor!
“Eres la fórmula perfecta que el tiempo formó para mis manos.”
May Rivas
A poesia atravessa, não se sabe ao certo desde quando, um processo descontínuo de rejeição e acolhimento. Rejeição, por um lado, de um grande público, e acolhimento, por outro, de uma leva de escritores que algumas vezes não têm um verdadeiro compromisso com a palavra – objetivo maior. A produção literária, em especial a poesia, requer um ciclo de estações imprecisas, com tempos longos, por vezes intempestivos, para que o sumo necessário à existência da obra seja esgotado e colhido.
Por isso, quando nos deparamos com uma poeta de carreira sólida, construída com base num pacto com a leitura e a escrita, somos, inquestionavelmente, levados a notá-la, ao menos, com maior atenção.
Uma dessas poetas de tempos trabalhados é a peruana May Rivas de la Vega, que tive o presente de conhecer no XX Encontro Nacional e Internacional de Mulheres Poetas em Cereté, na Colômbia. Desde o princípio, não apenas pela sua poesia precisa e madura, mas pelas suas ideias equilibradas, May Rivas despertou meu interesse. Com uma postura poética decidida, arejada por imagens corpóreas, seu trabalho com as palavras revela o movimento da vida em direção ao embate amoroso e à consagração ao enigma “natureza”, condensando uma poesia de sombras luminosas. E é a mulher – a mulher May e todas as outras – que sublima reinos e fomenta a saga lírica, feminina, humana e universal quem habita os poemas da escritora.
Gestora cultural, editora, poeta da geração de 80 e feminista, May Rivas tem seguido um percurso de força na literatura, com vasto e feliz currículo. Formada em literatura e também em ciências políticas, trabalha pela promoção do Livro e da Leitura. Participou de diversos programas e eventos literários, além de publicações em revistas, e como jurada de concursos. É autora de Con ojos propios, de 1996, pela Magdala Editora, e Si Dios fuera mujer, de 2006, pela AzulVioleta Editores. É frequentemente convidada para vários eventos literários pelo mundo.
Faz sua estreia na Diversos Afins, contando-nos um pouco de sua trajetória poética, suas inclinações literárias e posicionamentos ideológicos e políticos como gestora cultural, ativista da leitura e feminista que é, num mundo no qual as mulheres ainda precisam de leis para conseguir outros espaços.
May Rivas / Foto: Alberto Schroth
CLARISSA MACEDO –Assinalando uma experiente jornada na matéria poética, seu livro mais recente, Camino de Regreso, marca uma carreira literária de mais de 20 anos. A poesia, no entanto, geralmente indica uma origem que precede quaisquer datas. Por isso, May Rivas, conte aos leitores brasileiros quando, melhor, como a poesia apareceu na sua vida chegando mesmo a determinar sua atuação profissional.
MAY RIVAS – Pois sim, são muitos anos de carreira literária. Sempre penso que é a poesia quem escolhe seus adeptos. Em meu caso, poderia dizer que começou com as leituras em voz alta que minha mãe me presenteava desde muito pequena e a bem nutrida biblioteca que meu pai deixava ao meu alcance. Porém, minha escrita poética começa em meu primeiro ano de universidade, aos 16 anos. Primeiro vieram as publicações em revistas universitárias, logo revistas literárias, para dar lugar, posteriormente, aos poemários próprios e antologias nacionais, assim como de outros países. Através dela é que de alguma maneira se conduziu minha atuação profissional, não somente no aspecto laboral, mas na forma como percebo o entorno. Desde sempre, tenho trabalhado como gestora cultural, conduzindo a gestão no campo literário em todos os seus aspectos, desde a criação, passando pela edição, até a indústria do livro e da leitura. Com a firme convicção que o consumo da leitura alimenta uma parte importante do ser humano: a alma. Assim mesmo, se converte em sanadora de quem a escreve e de quem a lê.
CLARISSA MACEDO – Partindo desse alimentar da alma de que você fala, e de sua íntima convivência com a literatura, qual o significado disso para você?
MAY RIVAS – É a porta para o conhecimento não apenas das pessoas que participam de sua criação e do processo pelo qual passa um livro para chegar ao leitor e leitora, mas também de quem se relaciona com ela. Através da literatura, encontramos a liberdade e a integração com o outro. Também poderíamos dizer que a literatura cumpre uma função de terapia, de cura. E como disse o escritor Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura: “A literatura é uma forma de insurreição permanente e ela não admite as camisas de força”.
CLARISSA MACEDO –Lendo seus poemários, percebemos algumas nuances insistentes: o próprio tema da liberdade, através de uma espécie de “grito de livre-arbítrio”, os caminhos traçados ao longo da vida, o elo materno, o desconforto do estar no mundo e, ao mesmo tempo, a necessidade de sê-lo; há um grande tema, ou grandes temas, em sua poesia? Se sim, quais são eles?
MAY RIVAS – O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher independente é um eixo bastante presente em minha poesia, contudo, não é o único. Como sabemos, o que escrevemos é totalmente autobiográfico, somente em uma porcentagem, portanto, é o que percebo também em outras mulheres. Por outro lado, o escritor ou escritora é um testemunho de sua época. Ao sermos testemunhas de um momento determinado em um mundo como o que nos rodeia, dificilmente estaremos em conformidade com o que vemos, sentimos, etc. Portanto, há desconformidade. De outro modo, a literatura é insurreição pura.
CLARISSA MACEDO – “O tema da reafirmação e reconhecimento como mulher” é, certamente, uma tônica bastante abordada na literatura. Embora nem sempre tenha sido assim e isto seja uma das molas propulsoras desse ciclo. Nesse aspecto, há algo que, me parece, a inquieta: a situação da mulher, não só na literatura, mas na política e em todos os setores da sociedade. Como você vê este processo nesses últimos anos e como está sendo no Peru?
MAY RIVAS – É um tema bastante abordado na literatura e, efetivamente, é um assunto que me interessa em sua totalidade como feminista que sou. Em meu país estas reivindicações têm tomado corpo, com idas e vindas. Entretanto, o constante trabalho organizado dos grupos feministas tem logrado uma certa autonomia da mulher em diferentes campos da sociedade. Isto não quer dizer que o trabalho tenha culminado, pelo contrário. Por exemplo, faz uns poucos anos, temos um Ministério da mulher, que, de acordo com diferentes governos, se dá maior ou menor importância; também há uma maior presença de mulheres no campo político, o que originou a lei de cotas que estabelece uma porcentagem mínima de mulheres em altos cargos do Estado. Porém, neste momento não vem sendo cumprida pelo governo, mas se está trabalhando para reforçá-la. Sem dúvida, é fundamental que se siga trabalhando em cima da mudança de mentalidade, sobretudo das mulheres: a consciência de gênero e equidade em todos os âmbitos.
May Rivas / Foto: Alberto Schroth
CLARISSA MACEDO –Pensando nas suas respostas anteriores e nesse envolvimento declarado com o feminismo, é possível dizer que sua poesia seria de alguma maneira comprometida com tais questões?
MAY RIVAS – A poesia, assim como a literatura, não tem que estar circunscrita ou a serviço de um movimento ou ideologia política.
CLARISSA MACEDO –Vinda de uma escola literária, digamos, moderna, como você vê a poesia contemporânea, que está permeada pelo fascínio da velocidade e do alcance das redes sociais?
MAY RIVAS – Pessoalmente, gosto, já que também se pode dialogar com outras disciplinas. As redes sociais facilitam a difusão e conhecimento do que acontece, desde o ponto de vista da literatura, em outros lugares, e chega a muito mais pessoas de maneira mais direta.
CLARISSA MACEDO –Partindo desse ponto, há um espaço genuíno para a poesia hoje?
MAY RIVAS – Sim. Todavia, há que se seguir fomentando o consumo da poesia, que, dentro da literatura, é um dos gêneros que menos se consome.
CLARISSA MACEDO –Diversos poetas partilham dessa opinião: a poesia como um dos gêneros que menos se consome. A que se atribuiria isso?
MAY RIVAS – Diria que não só vários poetas compartilham deste ponto de vista, mas também editores. Aventuro-me a dizer que a razão poderia ser que não é um gênero que se saiba ensinar adequadamente nas escolas e/ou que não aproxima a poesia dos meninos e meninas nos primeiros anos.
CLARISSA MACEDO –Em sua carreira como escritora, é notória a participação que você desempenha em encontros literários em várias partes do mundo, como Cuba e Colômbia. Em que medida estas experiências enriquecem a matéria poética?
MAY RIVAS – Enriquecem muito, porque se aprecia olhares diferentes sobre o que se escreve e de como se é percebido por outros públicos, assim como escritoras e escritores de outras latitudes, com uma carga diferente da nossa.
CLARISSA MACEDO – E daqui pra frente, quais são os planos de May Rivas como escritora?
MAY RIVAS – Terminar o terceiro poemário que estou escrevendo, e, claro, os que estão por vir. Não sou uma pessoa que tenha pressa em publicar, mas bem, sou das que frequentemente demoram nas publicações. Por outro lado, e de maneira paralela, continuar com o trabalho de editora e gestora cultural focada em projetos que tenham a ver diretamente com a criação, o livro e a promoção da leitura, este último como um compromisso.
Clarissa Macedo (Salvador – BA). É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Está presente em diversas coletâneas. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog Essa coisa que é o eu.
O eternal movimento das águas nos conclama a desabitar as zonas de conforto. A impermanência, sugestão maior desse fluxo, é uma das crias mais valiosas do tempo, um avanço sorrateiro pelas trincheiras da toda poderosa senhora incerteza. De modo imponente, essa majestosa companheira parece muito mais afugentar corações e mentes do que qualquer outra coisa. Teimosamente, escritores e artistas cumprem o ritual das indagações, trazendo à baila dimensões possíveis para a ciranda da vida. Expressar-se, por si só, já pode se prestar a um indício de rompimento com o conformismo. E isso apenas não basta. Indo além, é preciso atirar verbos ao vento, submeter as imagens ao crivo dos olhares, extrair da abstração das horas o sumo das linguagens. Quando tentamos erguer uma edição da revista, é sempre desafiador refletir sobre os caminhos que nos impulsionam. Perceber, por exemplo, a grande metáfora que nos motiva a transcorrer sobre o ciclo das águas, agora, é um deixar-se guiar pelo convite de uma artista como Rosa De Luca, que, com suas fotografias, provoca em nós uma apreensão dos deslocamentos os quais a existência não se cansa de nos apresentar. É essa liquidez de sentimentos dispersos que também nos leva a abraçar a verve poética de pessoas como Rita Santana, Tristan Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá. Seguindo a corrente dos signos, entrevistamos o escritor e jornalista Sérgio Tavares, que dividiu conosco um pouco da sua trajetória literária, sobretudo no que se refere ao seu novo livro, ”Queda da própria altura”, obra que se presta a um digno mergulho de cunho intimista. No ato de construir histórias, Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Rossi demarcam, através de seus contos, universos peculiares para os desatinos humanos. A memória do poeta cearense Francisco Carvalho é celebrada no texto de Clarissa Macedo. O instigante “Dentro da Casa”, filme do diretor francês François Ozon, ganha espaço na resenha de Larissa Mendes. Das paragens mineiras para o nosso caderno musical, vem o belo trabalho de Luiza Brina e O Liquidificador. Numa alusão ao curso interminável das águas, deixamos fluir uma nova Leva, com toda a vontade de que os caminhos materializem cada vez mais o ideal de continuidade.
A poesia é uma instância muito contraditória. Contraditório, e curioso, é também o mercado que a promove. Contradições à parte, há na literatura mundial verdadeiras preciosidades escondidas ou pouquíssimo reveladas, seja por se encontrarem fora do circuito econômico central do país, seja por não estarem inseridas na mídia. O Brasil guarda muitas dessas pedras lapidares. Prova disso é o chamado “homem invisível”, o poeta Francisco Carvalho.
Autor de mais de 20 livros, quase todos de poesia, sendo um ainda inédito, o cearense de Russas, Francisco Carvalho, deixou, no mês de março deste ano, estas planuras como um desconhecido para a parcela maior do povo brasileiro. Injustiça sem tamanho, haja vista o autor de Quadrante Solar ser “Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis”, além de volumosa.
O cantor Fagner musicou alguns dos textos de Carvalho no álbum Donos do Brasil, que rendeu ao poeta mais leitores. Sem nos debruçarmos aqui sobre a belíssima leitura que Fagner fez de alguns poemas do homem “invisível”, o que podemos afirmar, sem temor, é que a poética de Francisco Carvalho é forte, sem engasgos e fórmulas universitárias de laboratório – as quais são aderidas por muitos escritores contemporâneos nacionais. Além disso, contrariando, ao que parece, uma de suas maiores características, a timidez, seus poemas são exibidos. Exibidos como aqueles que, escondidos sob a capa do livro, arrebatam o leitor ao primeiro contato. Basta um poema, para que fiquemos destinados a ler, incansavelmente, os demais.
Adepto da inspiração como caminho para alcançar a verdadeira arte, é o próprio, em uma das poucas entrevistas que concedeu, que aponta: “Tem-se vontade de escrever um poema da mesma forma que se tem vontade de fazer amor. Tem de existir certo clima de sedução e de cumplicidade para que o poema comece a existir. Têm de existir motivações, de ordem interior ou exterior, uma espécie de senha para que o poema comece a acontecer. O poeta constrói o poema, a emoção desenha o ritmo.”. E é este “clima”, talvez, um dos maiores motivos para sua obra ser tão expressiva e marcante – aspectos que podem ser verificados nestes versos:
Poema da Embriaguez
Bebem uns por desprazer,
astros, flor, vinho, absinto.
Bebem Deus para o esquecer.
Eu só bebo o que não sinto.
Outros bebem por desvelo,
solidões, o amor que dói.
Bebem Deus para esquecê-lo.
Eu só bebo o que não foi.
Outros bebem sal do mar,
azuis de ontem e hoje.
Bebem Deus para o matar.
Eu só bebo o que me foge.
Alguns bebem céus e ventos,
som, memória, espera e gesso.
Bebem Deus e anjos imensos.
Eu só bebo o que me esqueço.
A morte, o inevitável encontro, revela-se como um caminho para a sagração e um maior reconhecimento, quase sempre arbitrário, daqueles que são levados por ela. Para a obra de Francisco Carvalho, cuja matéria poética merece muitos estudos, tal reconhecimento, se vier, será justo e apropriado.
(Clarissa Macedo é baiana. Trabalha como revisora, escritora e produtora. Está concluindo o Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Está presente nas coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011), Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III e IV Feira do Livro (2011 e 2012), e no livro teórico Sem comparação: Torga, Rosa e cia. limitada (2013). Publicou na Verbo21, no site Musa Rara, no Barcaças, em A Poesia do Brasil, nesta Diversos Afins, na 7Faces, na Blecaute. Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia. É colunista do site Viva Feira)
Seis anos nos separam dos primeiros passos dados por aqui. Nossa primeira infância revelava, mesmo que timidamente, um desejo de alcançar e fomentar espaços em torno das palavras e imagens. Erguer cada edição sempre foi algo visto por nós como uma tarefa deveras especial, agregando expectativas e uma salutar ansiedade pelo modo como o coletivo de expressões mensais pudesse vir a ganhar corpo e alma. Com o passar do tempo, aprendemos que os passos editoriais, por mais que sejam minuciosa e previamente arquitetados, acabam por revelar gratas conformações ao jogo dinâmico do presente. É recompensador saber que existe sempre uma vastidão de leituras há serem feitas, todas elas atraídas pela jornada que conseguimos construir até então. Congregar manifestações dos mais diversos tipos de colaboradores nunca deixou de ser nosso lema maior. Para que tudo isso ocorresse sem gerar uma falsa ideia de incorporação aleatória de expressões, nosso perfil editorial sempre norteou as escolhas com critérios coerentes de seleção, pontuando aspectos que julgamos vitais em termos de publicação. Durante todos os anos de existência da revista, as trocas humanas foram o mote de nossas ações, permitindo-nos não apenas conhecer um pouco mais das obras de inúmeros criadores, mas também perceber neles uma necessária fonte de aprendizado. Os instantes passaram e o melhor de tudo é saber que solidificamos um caminho no qual atraímos, sobretudo, o respeito e a adesão de muita gente verdadeiramente interessada nos feitos culturais. Completar mais um ano de realizações significa louvar o nome de cada pessoa que, sem exceção alguma, por aqui um dia passou. Mais do que celebrar um rito novo de passagem, interessa-nos reafirmar a missão, chamando atenção para aquilo que hoje implica na continuação dos caminhos. E seguimos, contemplando agora os traços marcantes dos desenhos do artista português Rui Cavaleiro, muito bem apresentados por Hilton Valeriano. Nas veredas da poesia, deparamo-nos com Mercedes Lorenzo, Clarissa Macedo, Marra Signoreli, Raquel Gaio e Helena Barbagelata. É deveras especial perceber que gente como a poetisa Daniela Galdino, nossa entrevistada de agora, sabe dotar a vida de uma inquietude criativa vigorosa. Larissa Mendes, com suas precisas escolhas cinematográficas, aponta atrativos em torno do filme “God Bless America”. Intensos percursos da existência resvalam dos contos de José Geraldo Neres, Roberta Simoni e Teofilo Tostes Daniel. O personagem Sinvaldo Júnior, espécie de heterônimo do escritor Rogers Silva, revisita parte significativa da obra de Álvares de Azevedo. A atriz Ivana Luckesi testemunha sobre a sua vivência na arte de contar histórias. A Leva de agora é erguida e dedicada a todos os nossos leitores e colaboradores, em especial a Neuzamaria Kerner, Héber Sales e Valéria Freitas, importantes precursores de nossas andanças editoriais.
Na liturgia que devora
as feras, engoli o hálito
esfolado de sangue em
minha retina omissa.
Enlutada na incoerência
da terra, dedilho o quintal
de míticas odisseias.
Nas amarras da fome,
matei aquele lobo
que me cerceava,
inverossímil homem
carcaça de pelo e miséria.
O mundo, e suas lâminas,
decepam a seiva dos anjos
e sugam a heresia do uivo,
são grades de pétalas.
***
ALVORECER
A fé é rasgo de sol
que entra pela madrugada.
Perdida na melodia dos pensamentos,
cansada da vida nas placas,
busca significados e unguentos
na penumbra dos raios dourados.
Tédio sublime que arrebenta
os fios da amargura petrificada,
dissolve-se no claro do rasgo de sol
que avança machucado pela madrugada.
(Clarissa Macedo é baiana. Trabalha como revisora, escritora e produtora. Cursa Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS). Está presente nas coletâneas Godofredo Filho (2010), Sangue Novo (2011) e Verso e Prosa – Oficina de Criação Literária III Feira do Livro (2011). Publicou na Revista Verbo 21, no site Musa Rara, no Barcaças, e em A Poesia do Brasil. Participou, em 2011, da IV Feira do Livro de Feira de Santana e da 10ª Bienal do Livro da Bahia na abertura da Praça de Cordel e Poesia)