Quem de nós é capaz de juntar os cacos do tal velho mundo? Essa pergunta ecoa há alguns bons anos em minha cabeça desde que escutei pela primeira vez “Pra começar”, canção composta por Marina Lima e seu emblemático parceiro e irmão, o poeta Antonio Cicero. À época, já sabíamos sobre qual contexto aquela música fincava suas bases de inspiração, principalmente a ideia de se pensar o mundo como algo passível de reinvenção a nosso modo. E a energia ali presente apontava para a cíclica dinâmica de um ir e vir, ou seja, desconstruir para reconstruir, respeitadas as devidas maneiras de compreensão pessoal das coisas, repertórios da individualidade.
Passadas algumas décadas, o hoje cada vez mais nos desafia a prestarmos atenção ao fluxo constante de transformações as quais estamos submetidos até mesmo inconscientemente. A própria ideia de não sermos produto acabado põe em xeque a tentativa de se cristalizar convicções. E estar em processo, num incessante devir, pode não ser questão de escolha, mas sim de como a torrente dos fenômenos que nos cercam demonstra nos afetar. Haveria, então, uma linha tênue entre desejar algo e mudar a rota pessoal pela interferência dos fatores externos a nós?
De toda forma, nosso mundo é um imenso mosaico de sentimentos e ruídos. E há de se desconfiar de quem apregoa linearidade absoluta em seu trajeto pela vida. Perpassada por idas e vindas, nossa existência dentro de uma complexa teia social cada vez mais não nos parece permitir uma passagem despretensiosa ou desavisada pelos fatos.
Dentro da lógica que reinventa as paisagens da nossa tenra humanidade, testemunhamos a expressão artística de um alguém como Claudio Parreira. Ao observarmos as colagens digitais feitas pelo artista, não há como o impacto não ser imediato se considerarmos muito do que foi abordado nos trajetos iniciais deste texto. Ora, vejamos: Parreira faz saltar diante de nossos olhos o rearranjo desse fragmentado mundo em que vivemos. E o faz com a habilidade de nos comunicar que os tais cacos de nossas experiências podem ser ajuntados sob outras formas de ser e sentir.
“Casal”: Claudio Parreira
Volta e meia, o pensamento de que não há nada de novo debaixo do sol insiste em nos rondar. No entanto, falar disso não simplifica e nem reduz as experiências tidas em matéria de criação. Pelo contrário, virtude maior é ressignificar os sintomas mais pungentes da vida. E é isso que Claudio Parreira faz com seu trabalho quando nos apresenta sua própria maneira de configurar as paisagens humanas e seus enleios.
As colagens de Parreira não são uma mera reconfiguração de formas e contornos. Elas nos mostram o rico vocabulário que advém de outros modos de se pensar a experiência dos mortais no planeta cada vez mais esquálido em que vivemos. É patente a verborragia que se abriga na arte dele, sobretudo por trazer à tona o poderoso efeito discursivo de suas imagens. E assim vamos sendo guiados por um imenso cenário no qual as inquietações afloram. Num mix que agrega provocação, crítica, memória, espanto, ironia e indignação, dentre outros atributos também possíveis, a expressão do artista em questão parece em muitos momentos representar um clamor. Diante de tamanhos ímpetos, caberia indagar ao que ou a quem tal demanda estaria direcionada.
Na confissão do próprio Parreira, quiçá uma revelação ou resposta: “gritos ao silêncio que querem nos impor”. Suas colagens digitais flertam com a ideia de manusear o absurdo e o incomum, ele ainda sustenta. Muitos conhecem o Claudio Parreira autor de contos e romances, contribuições literárias que já assinalaram alguns caminhos de reconhecimento pela palavra. Mas o que se agiganta agora, com a perspectiva visual, é saber que outras narrativas assumem seu protagonismo na trajetória do criador, aquelas engendradas a partir do gesto imagético que ousa desafiar apagamentos. A recusa ao silêncio é, em grande medida, um ato de rebeldia diante do avanço obscurantista que insiste em turvar o pensamento e as ações contemporâneas no quesito sócio-político, para não dizer em outros mais.
Na profusão de cores, caracteres e tipos, Parreira lança mão do diálogo entre o velho e o novo, da harmonização do clássico com o moderno, da coexistência entre seriedade e irreverência. E seu êxito maior é nos ofertar outros modos de abordar as nossas humanidades, deixando entrever a pulsação permanente da lucidez, espírito incomodado e atento, mas que não deixa perdidas pelo caminho fatias necessárias de bom humor, leveza e esperança.
“Contabilidade”: Claudio Parreira
* As colagens digitais de Claudio Parreira são parte integrante da galeria e dos textos da 137ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.
A Literatura que não economiza no humor e na fantasia
Por Geraldo Lima
Claudio Parreira é desses escritores que enxergam a realidade pela ótica da zombaria, do humor, do escracho. Sua crítica aos poderosos ou ao comportamento humano passa sempre pelo rebaixamento ou pela ação de despir qualquer gesto grandioso da sua aura de importância. Na sua narrativa não cabem a sisudez, a dramaticidade ou o discurso grandiloquente. Não que ela seja marcada pela frivolidade, muito pelo contrário: esse seu caráter de desconstrução do que se determina como sério aponta exatamente para a descrença do autor na ideia de redenção do ser humano por intermédio de um discurso edificante. Claudio Parreira é, nesse sentido, um pessimista. Daí o modo zombeteiro com que trata literariamente as aflições humanas. É esse modo de narrar irreverente que o leitor encontra em A Lua é um grande queijo suspenso no céu, romance que o autor publicou, em 2017, pela Editora Penalux.
Para os que leram Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, fica mais fácil entrar no clima fantástico e irreverente desse romance de Parreira. Não que isso se imponha como exigência para se entender a história contada por ele, mas, com certeza, os que leram a referida obra de Machado vão sacar de imediato que o romance A Lua é um grande queijo suspenso no céu dialoga diretamente com ela. Não só dialoga, como traz, para dentro da sua narrativa, a figura do Bruxo do Cosme Velho.
“Sem considerar o absurdo de estar conversando com alguém, digamos, tecnicamente morto, mandei uma pergunta:
– O que é que você, senhor…
– Assis. M. Assis ao seu dispor – ele respondeu, o cigarro lançando uma fumaça preguiçosa para o alto” [pág. 35].
À semelhança do livro de Machado de Assis, o romance de Parreira traz também um defunto-autor [que faz constante uso da metalinguagem e da intertextualidade]. Só que, neste caso, um defunto-autor que está escrevendo um diário, cujos eventos dão-se entre os muros de um cemitério. O livro abre, na verdade, com um prólogo narrado em terceira pessoa. Nesse prólogo, sabemos que um corpo está sendo levado para o IML, numa ambulância, acompanhado por um médico e um enfermeiro. Junto ao corpo encontra-se um caderno. E é através da leitura, feita pelo médico, do que está escrito nesse caderno que somos conduzidos à história que se passa no interior de um cemitério. Essa história, para espanto do leitor, ainda está sendo escrita pelo protagonista, que, inicialmente, denomina-se Pafúncio [a questão do duplo é uma das tensões presentes na narrativa]: “– Admiro a sua determinação. Não é nada fácil viver uma aventura e escrevê-la ao mesmo tempo” (pág. 109). Essa trama pode parecer absurda e inverossímil num primeiro momento, mas, durante o desenrolar da narrativa, somos constantemente alertados de que, ali, no reino dos mortos [e no reino da fantasia, também!], tudo é possível. O engraçado é que, assim como a protagonista da peça Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, o tal Pafúncio não se reconhece como morto. E vai levar um bom tempo até reconhecer a sua nova condição, apesar de todas as evidências de que já não se encontra no mundo dos vivos.
Se Brás Cubas, no além-túmulo, decide escrever suas memórias com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, o personagem de Parreira não fará muito diferente: com a caneta da galhofa e da fantasia, ele, instigado por outro personagem, o misterioso Bernabé, dá início às suas idas e vindas em busca da panaceia, neste caso, pela cura do grande mal que aflige a humanidade: a Miséria. A partir daí, o que se vê é o nonsense, o fantástico, a irreverência, num universo em que se misturam vivos e mortos. Esse jogo entre vida e morte, entre o anseio pelo conhecimento e a dúvida de que se vale a pena mesmo buscá-lo, cria uma certa tensão entre o protagonista e aquele que o instigou a procurar a panaceia. Mas nada aí se propõe a criar discussões muito engajadas ou climas dramáticos. Quando a narrativa se encaminha nessa direção, o defunto-autor trata logo de desconstruí-la, apelando, até mesmo, para o juízo crítico do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas:
“Poucos fatos, é verdade, mas ainda assim. Esta seria, portanto, a minha salvação (e a de Bernabé também) e, paradoxalmente, a minha maldição. Ó!
– Larga mão de ser dramático!
O forte cheiro de cigarro não deixou dúvidas: era o tal M. Assis de novo…” (pág. 107).
No esforço de afastar o discurso de qualquer tom solene, o autor procura manter a linguagem num nível menos elevado, apelando, às vezes, para a linguagem chula, coloquial. “Em busca da fórmula de porra nenhuma, de uma panaceia tão concreta quanto um unicórnio” (pág. 53). “Estava sobre uma laje de mármore fria pacarái” (pág. 99). Assim, qualquer palavra mais sofisticada ou expressão mais poética da linguagem que apareçam, como que por descuido do narrador, eis que são logo sacaneadas, rebaixadas, usando-se, para isso, divertidas notas de rodapé. “– Bobagem – pensei enquanto o vento chicoteava meu rosto e cabelos com a fúria das suas carícias.”²9 E a nota de rodapé: “29. Deusolivre! Que expressão…” (pág. 81).
O tom da narrativa de Claudio Parreira é esse. E nessa narrativa marcada pelo gracejo impera a constante desconstrução do sentido elevado da linguagem. Cabe então ao leitor desconstruir-se também e entregar-se ao clima de gozação que a permeia. Muitas vezes, somos alertados pelos autores sobre os riscos ou consequências da leitura da sua obra [o que só nos instiga mais ainda a lê-la]. Assim o faz Lautréamont [ou o eu lírico/narrador dos seus Cantos de Maldoror] logo no Canto Primeiro: “Não convém que qualquer um leia as páginas a seguir; só alguns conseguirão saborear este fruto amargo sem maiores riscos. (…) Ouve bem o que te digo: dirige teus passos para trás e não para frente, assim como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno” (pág. 31). Ou o próprio Brás Cubas, em tom bem debochado: “A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus” (pág. 12). Parreira, ou seu defunto-autor, só vai se dirigir ao leitor, nesses termos, lá para a página 41, quando percebe que a sua narrativa circular, ou seu eterno retorno ao ponto de partida, pode enfastiar o leitor mais impaciente: “Mas aqui, cá entre nós, já percebi uma coisa: esta narrativa vai e volta, se enrola sobre si mesma, não fode nem sai de cima. Acho que é bom dar logo um norte a esse negócio, senão vocês aí podem ficar entediados e fechar o livro, o que não é bom pra mim e muito menos para a editora. Sigamos então!” (pág. 41).
Então, caro leitor, mergulhe sem medo nas páginas fúnebres e delirantes dessa obra de Claudio Parreira e se divirta um bocado.
O ano de 2016 começa aqui na Diversos Afins com um repertório de possibilidades. A primeira delas é a de celebrar a continuidade dos caminhos, empreendendo esforços para que outros renovados encontros continuem a alimentar nosso trabalho. É também o ano em que completaremos dez anos de estrada. De fato, um marco temporal se assinala, mas o verdadeiro lado especial disso é constatar que alcançamos um patamar de trajetos através dos quais pudemos consolidar ainda mais o projeto. A revista tem servido como uma plataforma de potencialização de discursos, olhares e distintas formas de percepção da vida. E mesmo com as múltiplas individualidades mescladas num só caldeirão de expressões, o arranjo de textos e imagens consegue trilhar uma estrada harmônica e equilibrada. Somos um organismo vivo por natureza, tendo em vista as marcas humanas essenciais a tudo o que fazemos. Nesse início de ano, nada melhor do que elencarmos as vozes que agora chegam e que compõem uma nova investida editorial. Uma delas está diluída em toda a 107ª Leva. Trata-se de Deborah Dornellas, que com seus desenhos desperta por aqui reflexões em torno de sua valiosa capacidade de abstração. Em matéria de contos, há o atravessar de pungentes territórios por parte de autores do quilate de Kátia Borges, Claudio Parreira e Cristiano Silva Rato. Apresentando-nos uma recente experiência de leitura, Orlando Lopes compartilha suas sensações sobre o mais novo livro do poeta Jorge Elias Neto. Percorrendo um instigante caminho de indagações, Sérgio Tavares entrevista o escritor Julián Fuks. As vias da poesia são contempladas com versos de Alex Simões, Fernando Naporano, Ellen Maria Vasconcellos, Marcus Vinícius Rodrigues e Tanussi Cardoso. As linhas de Marcos Pasche estão voltadas para a obra poética de Alexei Bueno. No caderno de cinema, Guilherme Preger escreve sobre as sensíveis abordagens do filme brasileiro “Boi Neon”. Há também espaço para considerações acerca do disco de estreia do cantor e compositor Liniker. Tudo isso posto, caros leitores, sejam bem-vindos ao nosso novo painel de expressões!
Tenho notado isso; a minha fala está cada vez mais pobre. A minha escrita também.
E isso não me surpreende: diante das circunstâncias, acho até natural.
Eu vejo TV, leio jornal, acesso as redes. Só não percebe quem não quer.
Eu não queria perceber; não era meu interesse entrar em conflito com Eles. Não é.
Tanto que só gritei quando a primeira palavra me foi subtraída. Um grito rouco, doloroso. Mas foi só. Não quero problemas.
Não sei como será amanhã — porque Eles estão em toda parte. Agora ainda mais.
Estas palavras, portanto, são importantes.
Podem ser as últimas.
***
TEORIA NA PRÁTICA
A coisa toda é bem simples: primeiro o pé direito, depois o esquerdo, um degrau, outro, e assim sucessivamente. Um piscar de olhos e pronto: alto da escada.
Bem simples — mas não pra mim. Faz dez anos que estou diante dessa escada e não consigo subir. Sei a teoria, mas a prática, ó, nem pensar.
Muita gente veio aqui me visitar: cientistas, engenheiros, vagabundos, todos eles me ensinando como é fácil atingir o alto da escada. Fui educado com todos, agradeci pela generosidade — mas sempre sinto vontade de mandá-los todos à merda: o que acham de mim? Que eu sou um idiota? Não, não, conheço a teoria melhor que todos eles. Só não me entendo direito é com a prática.
Dez anos. Onze, acho. Doze. Imóvel diante dos degraus. São Eles, é claro, são Eles que me impedem de subir. Não é nada surpreendente: Eles sempre fazem isso, basta um sujeito demonstrar conhecimento suficiente e Eles vêm atrapalhar. Tem sido assim desde sempre; Eles sabem e eu sei.
Já vi outros subindo essa mesma escada. Outros nem tão capazes quanto eu. Muitos não sabem sequer a teoria. Mas estão lá no alto, sorridentes e felizes como eu jamais serei. Sim, jamais. Eu, que sei que a teoria, na prática, é outra.
***
A GRANDE FOGUEIRA
Não era possível mais comer, onde é que já se viu? A água estava racionada. Oferta grande só mesmo a de oxigênio — mas por quanto tempo ainda?
Tudo dependia do Ministério. Da vontade do Ministério.
Do abençoado Ministério que ainda permitia, pelo menos, filmes & livros.
Mas um dia, é claro, o alto escalão do Ministério se reuniu e os homens, austeros, chegaram à conclusão de que filmes & livros poderiam causar grandes danos à ordem e aos bons costumes.
A grande fogueira de livros & filmes durou exatos 70 dias, ao fim dos quais a população, aliviada, agradeceu:
— Graças aos céus temos o Ministério aqui na terra!
O alto escalão sorriu. É claro que sim.
***
NADA É O QUE PARECE
Ele chegou ao balcão completamente exausto. Grossos cordões de suor amarelo lhe escorriam pelo rosto, pelo pescoço fino e comprido. O olho direito completamente fora da órbita.
O funcionário do outro lado do balcão sonhava paralelepípedos & centopeias. Seus dutos auriculares desconectados davam a notícia de que não queria ser incomodado. De jeito nenhum!
Mesmo assim, ele chegou ao balcão completamente esdrúxulo. Grossos fitilhos de suor regular lhe escorriam pela boca, pela língua torta e esburacada. A mão direita completamente entediada.
O funcionário do outro lado do balcão babava lembranças & meteoritos. Seus dutos fonéticos atentos:
— Quiqueres, quiqueres, estranho?
Ele chegou ao balcão completamente. A língua se desenrolou feito um tapete:
— Preciso falar!
O funcionário do balcão levantou a sobrancelha velha e desgastada. Do seu olho dormente escorreu um sentido:
— Já falou.
O funcionário do balcão suspirou tulipas & ornitorrincos. Era sempre assim: uma massa de gente dodecafônica e estropiada. Humpf!
— Próóóóximo!
***
VIDA NOVA
Já estou na terceira vida. Mas nem por isso diminuíram os meus problemas. Basta alguém do Ministério saber que estou de vida nova e tudo vai por água abaixo.
Muitos problemas, sabe como é. Não problemas meus, é bom que fique bem claro; o Ministério está sempre se superando em matéria de inventar problemas que não temos. Foi assim na primeira vida. Tudo se repetiu na segunda.
Esta terceira vida me assombra um pouco. Ainda não descobriram. Mas sei que o mercado negro de vidas está sendo ostensivamente combatido. Por Eles.
Ainda não descobriram. Mas o Ministério, eu sei, tem mil olhos, muitas bocas & braços também. É só uma questão de tempo. E depois, ah!, e depois?
Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Tem contos incluídos em diversas coletâneas. É autor, pela Editora Draco, do romance “Gabriel” e também da coletânea de contos “Delirium”, pela Editora Penalux.
Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!
Claudio Parreira é um destemido. Ele acaba de lançar um livro influenciado pelo realismo fantástico num país que subestima a literatura de Murilo Rubião e de J. J. Veiga. Um livro de contos, gênero que causa arrepios nas grandes editoras, pois não vende, “salvo se você for um Rubem Fonseca ou um Dalton Trevisan”, como, certa vez, desastrosamente declarou a representante de um selo. Contos estes, em grande maioria, brevíssimos, quando acaba de ser laureado com o Pullitzer um calhamaço de 800 páginas.
Claudio Parreira é, de fato, um artesão. Percorridas as primeiras páginas de “Delirium” (Editora Penalux/2014), é possível reconhecer o lapidar das frases, o tempo gasto para o encontro da consonância entre as palavras, a cultura paciente de um bonsai. Tal processo acaba por cobrir seus contos com um verniz poético que suaviza o estranhamento inerente ao terreno do insólito, porém não o destitui da capacidade de impacto. Há uma fronteira muito estreita entre sonho e pesadelo, entre o cotidiano que nos acomoda e a realidade que dele se mimetiza, na qual prevalece a absurdeza. Parreira a conhece bem e prepara a armadilha para o leitor. A linguagem é a isca.
Nessa entrevista, o escritor e jornalista experiente, com colaborações na Revista Bundas, Caros Amigos Online e O Pasquim 21, aceita o convite de transitar por caminhos dentro e fora do universo literário, mas que se relacionam diretamente à sua ficção. Rotina criativa, formato digital, autores contemporâneos, mercado editorial, o papel do leitor; uma estamparia de temas analisados com destreza e segurança, que ratificam o poder de encarar a vida e a arte, mesmo que de viés. “Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar”. Venham, caminhem junto.
Claudio Parreira / Foto: Arquivo pessoal
DA – “Delirium”, seu recém-lançado volume de contos, tem influência direta do realismo fantástico, cujos expoentes na literatura brasileira são o mineiro Murilo Rubião e o goiano J. J. Veiga. Na condição de leitor, qual a sua relação com esses autores e por que decidiu transitar por esse gênero ao tecer sua ficção?
CLAUDIO PARREIRA – Só fui conhecer Murilo Rubião e J. J. Veiga lá pela metade dos anos 80, depois de ter lido muito Cortázar, Borges e Gabriel Garcia Márquez. Eu simplesmente não sabia que se produzia realismo fantástico no Brasil. Li pouco de Rubião, apenas “O Pirotécnico Zacarias”, mas esse pequeno livro, por uma razão misteriosa – ou seria fantástica? – ainda se faz presente na minha experiência como leitor. Já o Veiga, esse eu li mais. “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “A Estranha Máquina Extraviada”, mas pouco perdura na minha memória afetiva. Quanto ao gênero que pratico na minha ficção, creio que, depois de ler tantos autores nacionais e hispano-americanos de literatura fantástica – ou realismo fantástico, que seja -, sem contar um punhado de europeus e norte-americanos, esse acabaria sendo mesmo o caminho natural. “Delirium” nada mais é que o resultado dessa mistura louca e prazerosa, uma maneira de devolver ao mundo dos livros aquilo que os livros trouxeram pra mim.
DA – Curioso mencionar Cortázar e Borges antecedendo Rubião e Veiga na sua escala de leitura, pois essa parece ser uma via de mão única. Aliás, há muitos leitores e autores que ainda desconhecem o quilate literário desse gênero no Brasil, dando conta de que o realismo fantástico cabe unicamente aos hispo-americanos. Por que acha que o gênero é tão subestimado no Brasil? Por que Rubião e Veiga não detêm a mesma exaltação cultivada por autores cujo extrato, por exemplo, provém do regionalismo?
CLAUDIO PARREIRA – Acho que o gênero ainda não atingiu a popularidade que merecia no Brasil, mas creio que isso está mudando; basta ver a quantidade de autores contemporâneos que de certa forma estão resgatando o realismo fantástico e acrescentando ao gênero curiosas misturas e experiências que vêm sendo muito bem recebidas pelo leitor.
Murilo Rubião e J.J. Veiga deixaram uma literatura que causava — e ainda causa, de certa forma — estranhamento. O leitor brasileiro não conseguia se ver refletido nela. Isso, com certeza, impediu que suas obras fossem apreendidas na devida profundidade e intenção. Mas elas ainda estão aí, cada vez mais, no meio do caminho, do nosso caminho. Acredito que o devido reconhecimento é só uma questão de tempo.
DA – Diante das narrativas de “Delirium”, podemos dizer que “seu caminho” é uma vertente que Italo Calvino, organizador da coletânea “Contos fantásticos do século XIX”, classificou de “fantástico cotidiano”. Perceber por trás da aparência corriqueira um outro mundo, colher do processo criativo o poder de conformar figuras. Empenho semelhante é atribuído à busca por reificar sentimentos, materializar sentidos que deveriam povoar unicamente o plano das abstrações. E isso, penso, só é possível mediante uma forma muito sensível e diferente de observar o que está a nossa volta. Essa percepção, no seu caso, é o mais próximo que se pode chamar de inspiração? Como um jornalista, que trabalha com fatos, quebra essa fronteira e transita por esse universo?
CLAUDIO PARREIRA – Não gosto muito da palavra inspiração. Isso me parece algo bem próximo do clichê do escritor que sofre, sofre e finalmente se redime com um presente da Musa. Eu trabalho com ideias e as transformo em texto, ficção. É um processo bem objetivo. Acredito no fazer literário, na disciplina. Talvez aí esteja a experiência do jornalismo: objetividade, prazos, metas a cumprir. Sou bem isso. A grande diferença é que os fatos com os quais trabalho são de natureza poética.
DA – Por falar em poesia, um dos contos mais singelos e com um verniz retinto de lirismo é o brevíssimo ‘A Flor’. Perceber todas as nuances que o compõem é justamente trazer à tona essa perícia, essa habilidade incansável e quase cirúrgica que significa o exercício da escrita. Como isso funciona para você? Nem sempre o texto mais curto é o mais fácil de se escrever?
CLAUDIO PARREIRA – Como muitos outros autores, comecei escrevendo poemas. Ou algo que eu achava ser isso. Tive a sorte de conhecer Leminski e, por intermédio dele, os haicais de Matsuó Bashô. Achei que aquela forma poética era tudo o que eu queria: dar o meu recado da maneira mais breve possível. E tentei, mas logo percebi que o gênero poesia não era bem a minha praia. Já a forma do poema japonês, a sua concisão, isso ficou presente em mim, tanto que passei a aplicar o que aprendi no microconto — numa época anterior à internet, que acabou por popularizar o gênero no Brasil. Praticando esse formato, foi que aprendi a força de cada palavra, o seu peso, o arranjo harmônico do qual surgem pequenos contos como “A Flor”. E sim, concordo: o texto curto não é o mais fácil de se escrever. Requer, no mínimo, paciência. E um bom conhecimento dos elementos que o compõem.
DA – Esse olhar, que é íntimo e mundano ao mesmo tempo, de certa forma evoca o embate entre a crônica e o conto. Alguns textos de “Delirium” parecem se localizar exatamente nessa fronteira, revelando-se para o leitor uma sala de multiformes espelhos, algo passível de ser concreto e de ser subjetivo. Essa possibilidade de abalar o leitor é uma busca na sua literatura? O quanto a preocupação com aqueles que lerão o seu livro influencia seu processo criativo?
CLAUDIO PARREIRA – Sim, sempre. É ótimo quando um texto causa impacto em quem lê. Significa que a intenção dele alcançou o seu objetivo, que é encantar, ou até mesmo indignar o leitor. Mas a preocupação com quem lê, quando escrevo, só vem depois. No princípio do conto é tudo nublado, uma estrada escorregadia, bifurcada. Esse período de névoa dura horas, dias até. Quando finalmente assumo o controle do conto, aí sim entra a figura do leitor: tudo é feito para ele e por ele. Mesmo que seja uma elaborada armadilha.
DA – O leitor brasileiro é mal formado, mal informado ou mal influenciado?
CLAUDIO PARREIRA – Pergunta complicada essa. E sou levado a crer que é um pouco de tudo isso. O bom é que estatísticas provam que o número de leitores está crescendo. Mas qual tipo de leitores? Creio que o mal influenciado é o que mais se destaca nessa história: simplesmente consome aquilo que a mídia e o mercado lhes enfia goela abaixo. E aí voltamos aos dois primeiros, que são mal informados porque foram mal formados. Mas isso é uma generalização, e toda generalização é perigosa. De qualquer maneira, já podemos falar de leitor brasileiro com mais certezas do que há dez, vinte anos. Já é um progresso.
DA – Digo isso por conta da percepção de que, apesar de termos hoje um número maior de novos autores, não contamos com leitores suficientes para absorver toda essa produção. O que me parece é que são os autores que acabam lendo os autores, e esse rejuvenescimento da literatura contemporânea brasileira passa a ser confinado a um grupo mínimo, algo com uma enxurrada que desemboca num funil. Qual a análise que faz dessa observação? Há livros sendo escritos para nenhum leitor?
CLAUDIO PARREIRA – Eu acredito que temos leitores suficientes, sim, para absorver essa nova produção. Mas tudo isso é um processo, um trabalho que ainda não alcançou o leitor. Como dito na pergunta anterior, diversos são os tipos de leitores. O quanto essa nova produção chega até eles, de qual maneira chega? Esse fenômeno, se é que pode ser chamado assim, de autores lendo autores, já é um fato um tanto antigo que continua aí. Errado? Acho que não, uma vez que se pretende que todo autor seja também ele um leitor. Mas é insuficiente. O que falta mesmo, e acho que esse é o grande nó que deve ser desfeito, é a distribuição dessa nova produção. Como ela tem sido feita, por quem, quais são as estratégias? As redes sociais têm facilitado muito esse trabalho, eu mesmo coloco meus livros nas mãos dos leitores através delas – mas isso, só isso, não é o suficiente. Não basta publicar o livro, é preciso fazê-lo circular, chegar às mãos dos verdadeiros leitores e não apenas dos nossos pares. Com raríssimas exceções, somos autores pregando no deserto – escrevendo para ninguém, como você diz. É muito mais fácil publicar hoje do que tempos atrás, mas e daí? Via de regra, as editoras colocam o material no mercado e deixam os autores entregues à própria sorte. Acho que também é papel das editoras divulgar e investir nos seus autores, torná-los visíveis nesse mercado cada vez mais competitivo. Uma parceria mais abrangente. Caso contrário, os livros continuarão sendo escritos para nenhum leitor – e assim perdemos todos nós, hoje e no futuro.
Claudio Parreira / Foto: Mariana Parreira
DA – Esse é um ponto interessante, pois hoje temos uma geração perfeitamente adaptada ao formato digital. Leitores de blogs, e-books, cuja extensão da biblioteca é medida pela capacidade da memória interna do dispositivo eletrônico. Você, embora da geração dos livros físicos, relaciona-se bem com esse universo, disponibilizando seus livros em arquivos digitais e divulgando-os nas redes sociais. De que forma essas mídias têm sido producentes para sua literatura? Lançar livros em formato digital, no Brasil, é uma opção ou a falta dela?
CLAUDIO PARREIRA – Sempre me relacionei bem com os meios de divulgação digital. Uma parte significativa do que escrevo e já escrevi passou por blogs, sites, redes sociais e afins. As redes sociais, por exemplo, são ferramentas que considero fundamentais para a divulgação do que produzo — sejam e-books ou livros físicos. Não tenho nenhum tipo de problema com essas plataformas. Lançar livros digitais é uma opção, sim, no meu entender. Gosto do formato, porque ampliam a visibilidade e não me obrigam a fechar necessariamente um volume de contos ou um romance: costumo lançar contos avulsos, volumes com dois ou mais contos, trechos de romances inacabados. E livros digitais trazem vantagens que eu considero muito importantes: relatórios detalhados nos quais você sabe quanto vendeu, o destino das vendas e o melhor: a remuneração é clara e certa!
DA – Falando em remuneração, o que é mais difícil ser no Brasil: jornalista ou escritor?
CLAUDIO PARREIRA – Os dois. Mas os jornalistas, pelo menos, conseguem encontrar trabalho fixo e, na falta disso, os frilas livram um pouco a cara. Conheço muitos que vivem exclusivamente do seu trabalho. Já escritores, eu não conheço nenhum.
DA – O que acaba por nos levar a uma questão que, a um só tempo, tem inúmeras respostas e nenhuma: por que seguir escrevendo? Cortázar afirmou que escrevia para suprimir seus medos. E você, o que ainda lhe motiva?
CLAUDIO PARREIRA – Costumo dizer que escrever é um ofício de trevas. Sou um cego em busca de luz.
DA – Essa busca, inclusive, é reprisada pelas vozes que comandam alguns dos contos de “Delirium”; personagens que tentam lançar luz sobre um dilema circundado por uma desclaridade multifária. Em ‘A Terceira’, em que um homem inventa mulheres, essa escuridão é o próprio processo de criação, uma metáfora para a incapacidade de transferir integralmente a ideia para o papel. Fale um pouco da tarefa de composição da antologia, da escolha dos contos.
CLAUDIO PARREIRA – “Delirium” é mesmo o que se pode chamar de coletânea de contos, pinçados aqui e ali, cobrindo diversas épocas e formas de escrever. Um inventário, digamos assim, da minha produção recente e mais antiga. “Z”, o conto que abre o livro, por exemplo, é o mais antigo de todos eles: foi escrito em 1989, durante uma dolorosa oficina de texto que fiz com João Silvério Trevisan. Quanto à composição da coletânea, quis que ela contivesse contos escritos num registro diferente dos quais estamos acostumados a ver e ler por aí. Fiz questão mesmo do estranhamento — mas só como superfície. O que me interessava na composição de “Delirium” era a linguagem, a forma de fazer, a maneira como a maioria dos textos foi escrita. Não era a minha intenção juntar apenas continhos bem escritos. Longe disso. Reuni, portanto, uns 40 contos tortos, dos quais escolhi os 29 que integram o volume. Essa tem sido a minha pegada desde sempre. Deixo a literatura bonitinha e bem comportada para os outros.
DA – O estranhamento, que você cita, é uma das nuances mais retintas do gênero fantástico, cujo poder de criar uma nova realidade, a partir da realidade que povoamos, foi a saída encontrada por muitos escritores para canalizar suas críticas. No ápice do movimento, nas décadas de 60 e 70, este tipo de literatura bateu duramente em governos ditatoriais, valendo-se de seus aspectos metafóricos. Hoje a que propósito serve a literatura fantástica? Contra quem ou o que novos escritores podem utilizá-la?
CLAUDIO PARREIRA – Eis aqui uma pergunta curiosa: pra que serve a literatura fantástica, hoje, já que o cotidiano social e político nos surpreende cada vez mais com fatos e comportamentos gritantemente absurdos? Digo que ela serve para gritar e abrir os nossos olhos e sentidos para outra realidade que não esta, insuportável, à qual estamos submetidos. A literatura fantástica continua servindo para dizer Não! E os novos escritores devem utilizar o gênero contra tudo o que ameaçar esse direito.
DA – Diante dessa observação, o que ameaça sua literatura?
CLAUDIO PARREIRA – Não gosto desses tempos que estamos vivendo, e sinto que paira no ar uma ameaça muito perigosa, uma ameaça de silêncio, de pensamento único, um retrocesso em todos os sentidos, diante dos quais os avanços tecnológicos nada significam. Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar.
DA – E para onde seguirá sua literatura depois de “Delirium”? Há caminhos que apontam para narrativas de longo fôlego?
CLAUDIO PARREIRA – Sim, venho desenvolvendo um romance já há algum tempo. Mais uma vez, não é apenas literatura fantástica: é um grande exercício com diversas vozes, vários focos narrativos, camadas sobre camadas que buscam um resultado surpreendente. Isso, pelo menos, é o que espero.
DA – Na literatura de hoje, ainda existe a possibilidade de resultados surpreendentes?
CLAUDIO PARREIRA – Sim. Acho que é por isso, em busca disso, que escrevemos todos nós.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
Dizer que não nos banhamos mais de uma vez nas mesmas águas implica prontamente no reconhecimento da nossa necessidade de mudança. Se pudermos alterar o curso das coisas, ainda assim muito do que supomos reter ficará disperso nalgum ponto de nossa trajetória. O que então poderia representar a ideia de um legado de nossas ações? Em sua natural condição de imutabilidade, o passado poderia ser vislumbrado como um ponto de partida para a busca de algum norte. Quiçá a vontade de minimizar equívocos acostumados ao longo da jornada. No entanto, a acepção do que signifique um legado não está em simplesmente inventariar um aglomerado de feitos, mas sobretudo em imaginar como presente e futuro podem se abrir para vias também nunca dantes exploradas. Numa referência ao jogo de palavras de uma das composições de Gilberto Gil, a mudança seria algo semelhante a um perene deus que dança e celebra seus caprichos ante nossos narizes perplexos e contestadores. No vasto e complexo reino das palavras, testemunhamos a presença vigorosa da procura por novos lugares. Muitas vezes, sem negar os atributos da tradição, notamos a aparição de vozes que fazem ecoar entre nós um sentido muito próprio de expressão. Apresentam-se como formas transmutadas de se perceber o mundo a partir de uma ótica marcada pelo teor da individualidade. A partir daí, ganha força a noção da unicidade de cada criador, principalmente pela perspectiva de, ao final das contas, celebrarmos tudo na inquietante arena das diferenças. Certamente, são as peculiaridades de artistas e escritores que tornam a existência um lugar sempre passível de descoberta e reinvenção. É com esse gosto especial por algo até certo ponto imprevisível e inusitado que nos deparamos com os enlaces poéticos de autores como Marília Garcia, Gustavo Petter, Lucas Perito, Ehre e Juliana Amato. De maneira semelhante, apreendemos as densas incursões de vida proporcionadas pelas narrativas de Claudio Parreira, Marcelo Novaes e Sérgio Tavares. Quando o tema é cinema, Guilherme Preger revisita a intricada trama da produção turca “Era uma vez na Anatólia”. Larissa Mendes deixa seus ouvidos se guiarem pelas canções do mais novo álbum de Fernanda Takai. Numa entrevista especial, intermediada por Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos, a atriz Sandra Vargas fala sobre sua trajetória à frente do importante grupo paulistano de teatro Sobrevento. O escritor Marcos Pasche elabora uma breve, porém incisiva, reflexão sobre a obra do poeta capixaba Jorge Elias Neto. Promovendo um diálogo entre uma obra do dramaturgo Sêneca e outra do cineasta Peter Greenway, Rafael Peres faz sua estreia no caderno Jogo de Cena. Diante de todas as epifanias presentes na mais nova edição, as pinturas de Neuza Ladeira traduzem uma atmosfera marcada substancialmente pelo incansável potencial da imaginação. Assim sendo, ofertamos a você, caro leitor, as alamedas da 93ª Leva, todas elas cuidadosamente pensadas e sentidas!
Conheci todo tipo de homem no mundo: homem certo, homem torto, homem que come o próprio pé; homens de cabeça quadrada, de olhos líquidos, homens sem coração.
De todos esses aí, o que representa mais perigo é o homem virtuoso: não é difícil vê-lo sacar o dedo indicador como se fosse um revólver e apontá-lo diretamente para o seu nariz, condenando o seu comportamento ou os seus prazeres como se ele, e somente ele, tivesse sido escolhido por Deus em pessoa para purificar de todos os pecados essa abjeta espécie humana — da qual fazemos parte mesmo a contragosto.
Conheço ainda os homens doentes e os tristes, embora ache que são ambos a mesma coisa, um servindo apenas de extensão do outro. De toda a espécie, no entanto, gosto mesmo é dos homens que constroem vento, dos que respiram pássaros e ainda daqueles, mais raros, que desenham unicórnios nas nuvens com pincéis de luz. São os poetas, costumam dizer, e acho que esse nome é mesmo bem adequado.
Homem na garrafa, porém, desse tipo eu nunca tinha visto. Já vi muitos casos de garrafa no homem, que é quando o sujeito bebe quase que com a mesma urgência com que respira. São muitos, e é fácil encontrá-los principalmente nas sextas-feiras à noite, quando o fim do trabalho assinala o tão esperado começo da vida. Mas homem na garrafa… Bem, a primeira vez que eu vi um assim foi em plena avenida, durante o dia. Estava lá sorridente e tranquilo, os olhos bem abertos, a pele toda amarrotada. E um tufo de cabelo avermelhado escapando pela abertura do gargalo. Como sou um sujeito civilizado, vi mas fiz que não, passei como se fosse algo normal, desviei os olhos para os carneiros encaixotados, que hoje são tantos e tão comuns por causa da explosão da natalidade.
Em casa, contei o negócio todo à minha mulher. Ela me olhou bem nos olhos, fez a sua famosa cara de filosofia e disse:
— Grande coisa…
As semanas seguintes, confesso, foram da mais pura agonia. Passei a ver homens em garrafas por todo canto — e eles não eram fruto da minha imaginação: eram todos de carne e osso, pele e vidro, solidez e transparência. Os meus amigos passaram a fazer piada das minhas preocupações:
— Meu, só falta você dizer agora que viu um bode fumando cachimbo!
— Vi dois — falei. — Mas isso não vem ao caso. O que me intriga são os homens em garrafas.
Isso me deu a medida da mentalidade social a que estamos submetidos: as pessoas acreditam em tudo, górgonas passeiam nas ruas sem serem incomodadas, ninfas trepam sob os carros estacionados, Shakespeare e Dostoievski tomam Coca-Cola enquanto discutem o futuro da Internet. Tudo isso é tolerado e tido como comum, e eu acho bom que seja assim. Mas quando o assunto é homem na garrafa, tudo muda.
Com a cabeça cheia de pensamentos, um sabor de tragédia em minha boca, resolvi finalmente tomar uma atitude. Abandonei o escritório, ignorei o elevador e desci pela escada mesmo. Ganhei a rua feito um alucinado, atropelei três ou quatro ornitorrincos e fui até a esquina. Ele estava lá, o primeiro, ainda sorridente e tranquilo, o maldito tufo de cabelo vermelho balançando ao vento. Falei então com autoridade, a voz grave e sombria:
— Como é que você entrou aí?
O homem descolou os olhos do vidro, abriu ainda mais o sorriso e respondeu:
— Não entrei aqui. Foi esta garrafa que me envolveu.
Sou o tipo de homem que precisa saber as coisas. De nada adianta um milagre se eu não puder explicá-lo. Por essas e outras é que fui pra casa feliz, aliviado enfim, os pés chutando tartarugas como quem assobia uma canção.
***
A CAIXA
A caixa é pequena: menos de um metro quadrado. Mas tem me sustentado há mais de 20 anos.
Eu faço assim: chego na cidade, alugo um teatro modesto e espalho cartazes com uma fotografia colorida da caixa pelos postes. Em vermelho, uma frase bem simples: “O que será que tem dentro da caixa?”.
É o suficiente para lotar o teatro. A cada uma das 100, 200 pessoas eu falo: “Não é fantástico? Nunca vi coisa tão genial dentro de uma caixinha!”.
Com medo de serem consideradas insensíveis a tão refinada manifestação artística, as pessoas todas concordam. Algumas até acrescentam: “É mesmo! O conteúdo da caixa é impressionante!”.
Impressionante são as pessoas, eu diria. Mas isso não vem ao caso agora.
***
CARNEIROS
Sempre gostei de carneiros. Minha infância foi repleta deles: carneiros brancos, pretos, verdes; carneiros altos, sorridentes, inquietos, carneiros quadrados. À mesa também estiveram muitos carneiros, que mamãe preparava com um exagero de vinho e pimenta e hortelã.
Hoje, no entanto, não vejo mais carneiros por aí. Uma tristeza. As pessoas, aliás, nem sabem o que é isso. Algumas consideram já ter visto algo parecido na TV; outras, em fotos amareladas. As crianças que eu conheço acham que os carneiros são apenas seres imaginários criados pela internet.
Foi por causa disso que resolvi fotografar carneiros. Trazê-los de volta à luz, resgatá-los do esquecimento. Provar ao mundo que eles ainda existem.
Tenho 7 câmeras que registram tudo o que passa na rua, 24 horas por dia, todos os dias. Meu esforço, no entanto, tem resultado inútil: acumulo já há meses fotos e mais fotos de caminhões, dinossauros, tigres de bengala e fusquinhas, hidras, minotauros, senhores de chapéu coco, medusas, anjos e demônios, a putaquiuspariu. Carneiros, nenhum.
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O CHOU NÃO PODE PARAR
Ele derrama lágrimas pela boca quando faz sol. Sorri estrelas às vezes, sempre dependendo da instabilidade natural do seu humor. Mesmo o seu silêncio é ruidoso: é um espetáculo, sabe-se assim, e assim se considera e se exibe. O chou não pode parar.
Mas o mundo anda repleto de tédio. As mulheres-barbadas, homens-elefante e crocodilos trapezistas não lhe dão a menor atenção. Perderam completamente o respeito; perderam a capacidade de sonhar.
Os mágicos extraem palavras mortas de suas cartolas roídas pela tristeza. Os coelhos brancos de fome e raiva conspiram contra a precariedade maquiada da lona velha e podre. Um dia a casa cai, torcem eles, certos de que estarão à distância e a salvo.
Ele não está, não se sente a salvo. Cada dia, matar um leão, dois, que lhe brotam dos bolsos como capim. Dos bolsos também retira pedrinhas azuis e lembranças pálidas. De um tempo em que fora outro, outra coisa. Alguém.
Agora é a tarde vazia que cresce nas pedras da rua, indiferença. O pulsar morno do coração que soletra ausências. Estímulo mesmo só o do conhaque, que pinga nos olhos para ver o dia em chamas.
O público, distinto público, ergue apenas as paredes da dúvida, da descrença: esse aí não é, desconfio do chou. Onde é que já se viu, espetáculo é o próximo milhão a ganhar, a grandiosidade do efêmero cintilante dia após dia após. A droga a qual nós o público estamos submetidos desde sempre, como cordeiros sob o machado de Deus.
Sabendo-se assim ele segue, cheio de nadas e de incertezas. Sob o sol é o homem-espetáculo, que teima em desafiar uma platéia de cegos. Um mundo trêmulo e arrogante, que por trás da máscara exibe apenas um circo perplexo de si mesmo.
Claudio Parreira é escritor e jornalista. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Teve contos incluídos em diversas coletâneas e foi o ganhador do 1º Concurso de Contos da Revista piauí, em março de 2007 e, no ano seguinte, integrante do folhetim despropositado A Velha Debaixo da Cama, da mesma revista. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel.