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88ª Leva - 02/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO – 2 e ½ – VOZES INVISÍVEIS

 

 

Inventariar fragmentos da memória, esta ciranda de lembranças que recende a pó da estrada. No meio do trajeto, também não se deve esquecer de cultivar raízes e frutos duma cumplicidade. Se a vida é feita de momentos compartilhados, os sentidos da amizade revelam muito mais do que meras marcas do tempo. É o gosto primevo das coisas quem deixa a face de coadjuvante e atua com destaque no palco duma existência que pode ser mais leve do que se supõe. Mas por que carregar mais fardos do que suportamos quando nada na vida pode ser mais urgente do que apenas respirar os instantes?

Talvez o parágrafo acima ouse definir uma pequena parte do ambiente de sensações que pairam pelo mais novo disco do grupo Graveola e O Lixo Polifônico. Tal como a vida nem sempre nos dá a chance de reescrevermos através das suas vacilantes linhas, assim o é quando vivemos saboreando o gosto incerto dos esboços. E esse sentimento de permanente incerteza parece reinar nos arremates poéticos do álbum 2 e ½ – Vozes Invisíveis. Certo mesmo é que em seu quarto disco, os mineiros da Graveola depositam suas impressões sutis sobre o tecido inexplicável dos dias sem buscar razões que se dignem a qualquer tipo de exatidão.

Se a própria vida jamais será uma equação matemática, é porque os caminhos não formam desenhos lógicos. E como saber disso nos serve de alento para continuarmos respirando sem os achaques científicos. Definitivamente e em matéria de sentimentos, a orientação meramente cartesiana das coisas é algo pronto a ser repelido. Assim, ao ouvirmos as composições musicadas da Graveola, temos a mínima noção de que estar no mundo é, acima de tudo, reverberar os acordes dissonantes dos devaneios que nos acometem por todos os cantos da mente. Para cada ouvido, uma experiência de percepções próprias se instala. E é justamente isso que faz de 2 e ½ um disco incompatível com bulas e manuais de instrução.

 

Graveola e o Lixo Polifônico / Foto: Flávia Mafra

 

A julgar pela escolha do título, o álbum já nos traz certa atmosfera de provocação e algum questionamento, pois as ações humanas, travestidas que estão pelo jogo das emoções e das ínfimas certezas, cabem num espaço de incompletude absurdamente colossal. É nesse momento que o novo trabalho da Graveola ganha proporções que flertam com traçados existencialistas.

As vozes invisíveis da banda evocam uma poesia que se situa no plano das ruas, dos becos errantes ou em sinas mergulhadas na rotina do tempo. Ao passo que revisitam afetos compartilhados, cantam a saudade, a transformação dos caminhos, as escolhas, o lado sublime das coisas e o gosto incessante pelo mistério. Numa tentativa de autodefinição, o próprio grupo se considera uma comunidade em movimento, repleta de investidas não necessariamente finalizadas. Pelo somatório de cenários, conduzidos pelos laços das afinidades em vida, fica a impressão de que ouvimos a expressão moderna de um outro clube da esquina.

Da escuta de faixas como Vozes Invisíveis, Cafeína, Canina Intuição, Escadaria, Maquinário e Da Janela, percebe-se que os caminhos percorridos não são nada uniformes. Refletem elementos rítmicos e melódicos bem típicos duma brasilidade carregada de pluralidade sonora. Assim, vocais e instrumentos estão a serviço de um verdadeiro mosaico de intenções puramente comprometidas com um certo ímpeto de acolher a porção sublime e indescritível da vida. Noutros momentos, há referências explícitas ao legado da MPB, como é o caso da canção Envelhecer, que entoa um “preciso aprender a ser só”, frase presente na composição dos bossanovistas Marcos e Sérgio Valle.  Em a Lenda do Homem Pássaro, há um pungente sentido de reflexão sobrevoando resultados de algumas escolhas nossas.

Quando o Graveola resume seu novo rebento como sendo fruto de andanças entre amigos, é porque o melhor significado é resultado direto e inexplicável da arte do encontro. A despeito de se levar em conta a capacidade que temos de alimentar o jogo das complementaridades, reconhecemos que a inteireza do ser não passa de uma quimera. Entramos e saímos dos inefáveis cenários da existência sem ocuparmos todos os espaços eterna e teimosamente vazios. A vida não passa de uma obra em construção.

 

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74ª Leva - 12/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TRANSMISSOR – NACIONAL

 

Não há nada mais valioso do que poder usar dos recursos da liberdade e fazer ecoar a própria voz. Na seara musical, isso até pareceria uma mera redundância não fosse a perspectiva de também se poder passar algo coerente através das canções. E é aí que entra a veia autoral a atravessar espaços com sua sedutora proposta de autenticidade.

Talvez seja um exagero falar de originalidade abundante em matéria de criação musical. Mesmo a máxima caricatural do “nada se cria, tudo se copia” revela em si o germe da transformação das coisas que, ao final das contas, sempre estiveram no mundo, seja de modo latente ou explícito. Importa mesmo saber quem percebeu a faísca inicial de algo e, com isso, promoveu a aparição do supostamente novo?

Escutar o trabalho da banda mineira Transmissor pode servir como uma sucinta e serena resposta a isso tudo. E predicados não faltam aos moços de Belo Horizonte quando o assunto é converter olhares sublimes sobre a vida em forma de letra e música de qualidade. Da reunião de Thiago Correa, Leonardo Marques, Jennifer Souza, Henrique Matheus e Pedro Handam, surge um ambiente sonoro carregado de sensibilidade e, o que é melhor, conteúdo.

Nacional, segundo disco da banda, é desses álbuns que atrai pelo conjunto. Há lugar para tudo ali, tanto para densidades típicas de nosso incorrigível trajeto pelo mundo quanto para a leveza necessária ao olhar por vezes aborrecido de todo o tipo de gente. É assim que, sem levantar falsas esperanças e tolas bandeiras, a trupe do Transmissor chega desnuda aos nossos ouvidos e nos apresenta um trabalho cuja simplicidade nem de longe representa um raso mergulho por sobre as coisas da existência.

Transmissor / Foto: divulgação

Pensando um pouco sobre essa miríade de sensações, é que conseguimos entender porque uma canção como Bonina merece ser eleita uma espécie de síntese do disco. Há ali uma leitura possível sobre as relações que suplanta a gratuidade tão recorrente do tema. Fala-se de amor sem, no entanto, repetir fórmulas, apelos desgastados ou subestimar a inteligência de quem escuta cada uma das faixas. Nesse percurso, músicas como Vazio, Outra Ela, Longe Daqui e Hoje ilustram bem a habilidade do grupo em se mover pelo pantanoso território das emoções.

Ao traço pop rock de Transmissor vem se juntar um repertório cujas escolhas melódicas refletem um cuidado com arranjos e outros importantes detalhes. Além disso, o revezar de vocais entre Jennifer Souza, Leonardo Marques e Thiago Côrrea é um retrato lírico de como as composições são interpretadas no seu mais preciso teor. Transportar, por exemplo, a especialíssima Nada Será Como Antes, canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e que é verdadeiro símbolo do Clube da Esquina, para Nacional só trouxe mais vigor ainda ao disco. Sem dúvida alguma, um ingrediente bem digno de uma valiosa referência das férteis paragens mineiras.

Num cenário no qual se multiplicam artistas e bandas das mais distintas frentes, não seria precipitado apontar Transmissor como sendo um grupo que tem muito ainda a oferecer. Pelo engajamento de seus componentes e, claro, o resultado direto de seus dois trabalhos já lançados, o caminho futuro afigura-se aberto. E a espera vale a pena quando se tem algo consistente e despretensioso a dizer.