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105ª Leva - 08/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Comentários sobre Corpo Sepulcro ou O extenuante júbilo da morte

Por Maurício de Almeida

 

 

1. O corpo sepulcro

 

Autor dos romances Retorno ao pó, No vale de ossos secos, Amor em tempos de solidão e Terapia das almas suicidas, Mike Sullivan lançou recentemente mais um trabalho, que nasceu reconhecido: o romance Corpo Sepulcro recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 2013.

Corpo Sepulcro é um livro trágico. Resumidamente, o narrador sofre de uma doença degenerativa que o paralisa por completo, fazendo-o perder não apenas a independência funcional, mas progressivamente todos os sentidos. Ao receber o diagnóstico, o narrador se questiona:

Como seria ver meu corpo morrer pouco a pouco, transformando-se num sepulcro a envolver minha mente ainda viva?

Da resposta provém o romance: absolutamente incapacitado e deixado à morte, ao narrador resta apenas o olfato e a capacidade cognitiva que o permite realizar um exame de consciência, rememorando as culpas que guiaram implacavelmente a vida e que, afinal, resultaram na situação absurda em que morrerá.

Nessa revisão, recupera-se a trajetória de um tradutor que se vê obrigado a retornar ao Brasil para amparar a mãe no momento em que o pai fica inválido por conta de um AVC. Esse retorno ao país é também um retorno ao passado – e a todas as culpas que o pautam e das quais quis fugir em um intercâmbio para a Inglaterra. Embora tente reiniciar a vida, ao assumir a tradução de Orlando (Virginia Woolf) e se embrenhar em um relacionamento casual com a editora Jasmine, compreende-se que a culpa do personagem é inescapável e se tona força motriz de uma vertiginosa derrocada.

Narrado em primeira pessoa, há dois elementos que conduzem a trama por serem obsessões do personagem: o olfato, único sentido que lhe resta no momento em que narra e, portanto, por meio do qual ele conduz suas recordações, e a morte, constante dramática que guiou a vida ao estabelecer com ele um jogo – a morte o persegue na medida em que ele persegue a morte.

 

2. O cheiro ou He was born a scentless apprentice

 

Já nos primeiros capítulos do livro somos informados sobre o evento fundador do personagem, seu drama de origem: a morte de Dominique, a irmã gêmea. Constante e veladamente reiterada pelos pais, a culpa do narrador decorre de sua participação na morte. Contrariando a mãe, foi por insistência do personagem que o pai retornou com os filhos ao lago no qual haviam passado o dia. Uma fatalidade faz submergir a irmã, que nunca mais foi encontrada.

Esse fato leva uma família aparentemente comum à ruína. E sob o signo dessa morte vive o narrador de Corpo Sepulcro. O mérito de Mike Sullivan é demonstrar como o personagem reencontra o evento da morte da irmã em todas as tragédias que o cercam e, por isso, se responsabiliza por elas. Não por acaso, a culpa já insuportável transforma-se em autoflagelo, como se a expurgação fosse impossível e a única solução é tornar-se vítima constante de uma morte perpétua.

Interessante notar o funcionamento dessa engrenagem: devido ao seu estado debilitado e tendo à disposição apenas o olfato, é por meio do cheiro que o personagem conecta todas as tragédias à tragédia fundadora. No entanto, ele não possui registro algum desse acontecimento originário que, justamente por isso, aceita todo e qualquer odor que o personagem entende por trágico.

Assim, as iniciativas desesperadas e inúteis de expurgar a culpa são direcionadas por esse entendimento: mijo, merda, suor, porra, corrimentos e inúmeros odores hediondos o rementem ao sexo furtivo e marginal. E, afinal, rementem a ele mesmo:

Dei-me conta então de que a origem da podridão se dava em mim, incrustada nessa personalidade de estrutura arenosa. Aceitei essa condição. Entreguei-me aos perfumes mais ordinários, e passei a extrair prazer daquilo que era considerado repugnante pela maioria maciça dos humanos. Eu queria ser apenas um libertino, um depravado, um imoral.

Eis o movimento circular que inicia o giro: a culpa que leva ao sexo que retorna à culpa – e a espiral que se realiza tem como ponto central (e inatingível) a morte.

 

3. A morte ou Wine is fine but whiskey’s quicker, suicide is slow with liquor

 

Ao longo de toda história que antecede a invalidez, o narrador consome quantidades excessivas de álcool. Tal qual o sexo, o álcool corresponde a uma suspensão da consciência que de certa forma o aproxima da morte, possibilitando, na verdade, que ele morra indefinidas vezes, e criando também uma punição constante às tragédias pelas quais se responsabiliza.

Dessa forma, justifica-se o jogo que ele estabelece com a morte: ela o persegue na medida em que ele a persegue, pois, devido à culpa que assume pela morte da irmã, ele pauta a vida por todas as mortes que o rodeiam, uma vez que é responsável por todas. E elas são muitas: o intercâmbio à Inglaterra para fugir da irmã, o retorno ao Rio de Janeiro para acompanhar a agonia do pai, a esbórnia deflagrada pelo acidente do cão. E é, afinal, em sua derradeira tentativa de reverter o desgoverno da vida que o narrador encontra a morte derradeira: a esposa.

 

4. A curva extrema do caminho extremo ou Die, die my darling

 

Por vezes, o narrador soa como se rodeasse o problema, mas temesse eviscerá-lo. Nomeá-lo é um primeiro passo: a morte da irmã, a responsabilização e fúria passiva-agressiva da mãe, a doença do pai, o ressentimento de Jasmine, o escapismo pelo álcool e o sexo como entorpecimento. Que esses fatos são mobilizados pela culpa que sente e da qual não consegue abrir mão, ele assume com todas as letras. Entretanto, existem situações e reações do personagem que soam amenizadas em seu relato, como se declinasse uma análise mais profunda para somente descrever os acontecimentos.

É verdade que, feito um autômato, o personagem apenas reage obsessivamente e a repetição do ciclo álcool-sexo-culpa-álcool leva à insensibilidade. É verdade também que a história narrada são reminiscências que, por sua natureza, permitem distanciamento. Mas julgo haver um elemento que justifique esse comportamento quase desinteressado e passivo: a impossibilidade.

Considero Corpo Sepulcro um livro sobre a impossibilidade. Lidando constantemente com a morte, a maior das impossibilidades, e encenando-a de diversas formas sem conseguir de fato realizá-la ou ao menos expurgar a culpa, o personagem relata desvarios, pois sabe que eles foram vãos. Corrobora com essa leitura um símbolo persistente na maior parte da história: a tradução inconclusa de Orlando. Antes de ser solapado pela doença, o personagem faz a seguinte confissão à editora:

É que me vi impossibilitado, de maneira muito misteriosa, de traduzi-lo.

Ademais, não se pode esquecer que a narração acontece quando o personagem se descobre finalmente realizando a curva extrema do caminho extremo, o que a ele significa alívio, mesmo que a situação seja absurda e angustiante. No limite, portanto, ele discorre sobre situações impossíveis e passadas que, se possuem desdobramentos, no momento em que são narradas significam muito mais despedida, uma vez que será permitido a ele esquecer. E, como não poderia deixar de ser, não haveria outro desfecho ao livro senão o personagem ser velado pela própria morte.

 

Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

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78ª Leva - 04/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Anderson Fonseca

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

O escritor

Antes de se estabelecer o equilíbrio, o mundo real e o mundo ideal não se olhavam face a face.
O Zohar

Débil, estúpido, soberbo, demoníaco, louco, estranho, doente, sem respeito ao sagrado e às leis; palavras sinônimas ou de similitude clara que definem com a precisão de um cirurgião meu caracter. Ó, como não adorá-las e admirar-se diante delas sentindo-se um deus, um deus cuja índole o eleva acima dos mortais? Bem que eu deveria enaltecer-me ante a tal nomeação adquirida por atos reprováveis – louváveis? Não sei –, no entanto, sinto-me um símio no meio de homens, tentando em vão, como eles, manter-se em pé.  E ainda que busque desviar-me do meu caracter, a natureza impele-me a segui-lo. Sou então, por isso, um mau caracter; inevitavelmente um mau caracter.  Parafraseando o apóstolo, vejo que vive nos meus membros outra lei.  Não me arrependo de sê-lo assim, mas admitindo a corrupção de meu espírito, decidi criar um ser melhor que eu, alguém cujas ações pudessem evitar as minhas. Comparei-o ao melhor dos seres possíveis imaginados por Deus, e o fiz.

No começo… Antes do começo, assim que o imaginei, pensei no que ele faria de bom para mim, ainda que eu não saiba conceituar o bom. Determinei o seu propósito e as condições de existência que permitiriam sua durabilidade como ficção. Pensei tal como um sábio a liberdade desta ficção e os limites a ela impostos por sua natureza irreal, e o que nela haveria de maravilhoso e de verossimilhante, e o que possibilitaria a ela romper com as duas como também o que por meio de ambas poderia desenvolver. Pensei, portanto, nela como indivíduo. Procurei sua alma nos símbolos, na geometria dos símbolos, nas palavras, nas frases, no texto. Procurei o seu vazio. E a cada imagem criada ela surgia mais radiante e perfeita. A mim ela pareceu boa. Certamente a ficção era melhor que o real. Era lógico acreditar que ela permitiria a mim, evoluir – noutras palavras, escapar a minha vil condição. Considerei, contudo, se os limites da folha seriam para ela um impedimento físico para se desenvolver livremente ou se como um carrapato habituado à superfície, não saberia encontrar tais limites, julgando, logo, ser aquele espaço o seu mundo, e se, caso descobrisse, como reagiria. Mas isto era um equívoco de minha parte, jamais uma existência ficcional poderia romper os limites da folha e se tornar real, assim como jamais o real poderia converter-se à ficção. Ao menos…  Após muito pensar, criei a ficção de mim mesmo. Criei-a no momento em que escrevi seu nome em um lugar qualquer num tempo qualquer.

A ficção não era perfeita, todavia, por ela tudo podia ser melhor; antes de tomar qualquer decisão, fazia-a com que agisse antes de mim; escrevia a cena, o momento da ação, o que eu faria caso se… de um modo que na realidade não agiria, de  forma tal que, eu poderia ponderar meus caminhos e evitá-los. Acreditei com muita fé que sua existência me curaria. Mas a ficção não tem por finalidade curar o real, não pertence a ela como a um escultor modelar a realidade; sua função é outra, contaminar. Mesmo assim, depositar a fé nela não ia de encontro ao que eu mesmo lhe havia estabelecido.

Passei a mergulhar em seu símbolo, convenci-me de sua beleza, e cri no seu milagre. Antes de ir ao trabalho, antes de amar minha esposa, antes de pensar, antes de respirar, antes que o dia começasse, antes que o outro dia começasse, antes, antes, antes, antes mesmo de, a ficção era e por ela tudo mais era e sem ela nada havia de ser. E com ela meus dias se tornaram melhores. Por meio da ficção eu percebi ser possível evitar o mal. Meu casamento, que antes estava uma porcaria, alcançou o status de sublime, tudo porque a ficção havia me dito como seria se.  Ora, era verdadeiro que eu havia me convertido à ficção, contudo ela jamais se converteria a mim. Então, ainda que sua existência me permitisse ser outro de mim mesmo, era impossível ela se tornar eu. Havia um limite intransponível. No entanto, ao olhar para minha vida, semanas após tê-la criado, era inevitável não pensar o quanto em tudo estava a sua essência. Quisera sê-la, mas tornar-me ela, como já disse, era impossível. Eu procurei convencer a ficção de se tornar real, eu busquei de todo modo arrancá-la daquelas folhas e outorgar-lhe a dádiva de estar em meu lugar; eu lhe fiz uma proposta irrecusável, a qual qualquer outra ficção aceitaria sem titubear, mas ela rejeitou.

A ficção rejeitou seu autor – e, ainda que esta rejeição fosse a prova de sua liberdade, continuei a acreditar que ela existia sob o meu querer; enganei-me; a verdade era que sua liberdade demonstrava incontestavelmente o quanto ela existia sem mim.  A ficção não dependia mais do seu autor. Depois disso, não houve dia melhor. Todas as escolhas se tornaram acidentais; a vida reduziu-se a um acidente, quando antes se podia chamá-la milagre. Era como estar diante do quadro, Reprodução proibida, de Magritte, por mais que olhe você não vê o rosto. Voltei a fumar cigarro, ouvir blackmetal e tomar banho com o corpo mergulhado em bolsas de gelo seco. Minha esposa mudou-se para a casa dos pais. Tive um companheiro matinal que chegava às 6hs: o jornal – mas, depois de conversarmos, eu era forçado a rasgá-lo e queimar tudo o que ele havia dito na lareira. Quando à noite eu necessitava de uma companhia, pousava no pinheiro da rua ao lado, uma coruja branca e cantava-me uma nênia, ao som dela eu adormecia. Quem, no entanto, suportaria esta vida miserável? Quem, no mundo, admitiria a realidade sem manifestar asco? Eu tinha fome… fome da ficção. Pensei no rosto que não via… tornou-se necessário forçá-la a mostrar a face.

Não precisei de tempo para pensar em como, a resposta, sabia-a desde o princípio. Coloquei uma página em branco em frente à página onde está o último parágrafo, e aconteceu o que imaginei: a ficção olhou-se a si mesma no vazio da outra página. E eu, de fora, vi seu rosto. Ela percebeu que a havia descoberto e procurou se esconder, mas era tarde, meu olhar a detivera.

Novamente a ficção me pertencia… me pertence, entretanto, até o momento em que cansado rasgue suas páginas ou até a hora em que ela declare minha morte.

(Anderson Fonseca formou-se em Letras e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estácio de Sá (RJ). É escritor e crítico literário. Publicou os livros Alucinação (poesia, 2009) e Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011), organiza a antologia Veredas: Caminhos do Conto Contemporâneo Brasileiro (Ed. Oito e Meio, 2013). Editou a revista Confraria (Brasil / Portugal, edição impressa, 2009, Ed. Confraria do Vento); editor do selo Orpheu (2010-2012), selo de poesias editado em parceria com a editora Multifoco (RJ). Tem textos publicados em diversas revistas. Trabalha como leitor crítico e revisor de editoras e agências literárias)

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Encadear fatos, construir cenários que os abracem e mover os personagens dentro das narrativas são apenas uma parte da hercúlea tarefa de se contar uma história. Quando um autor possui estes ingredientes em suas mãos, passa a lidar com o desafio de trazê-los à tona diante da presença dos leitores. Levar isso em frente não significa tecer um pacto com uma proposta de sedução gratuita ou, simplesmente, enveredar-se pelo torpe caminho da superficialidade, como se pode deduzir em muitas leituras diluídas no mundo.

Definitivamente, erguer uma história não é ter em conta apenas um arsenal de usos de linguagem e conduzi-los rumo a um ambiente meramente estético. Atrair um leitor para uma narrativa é, também, fazê-lo crer que tudo esteja sob seu controle até o ponto em que ele perceba ser praticamente impossível domar a eclosão dos acontecimentos. E assim, rompendo convicções e deixando leitores desfilarem livres e nada impunes pelo jardim do imprevisível, é que um criador alcança com sua obra resultados substanciais.

Não está longe de nós quem pratica essa espécie de ritual criativo. O escritor e jornalista fluminense Sérgio Tavares é exemplo vivo disso. Detentor de um estilo que penetra delicadamente no universo intimista de pessoas e lugares, Sérgio não é apenas cicerone de quem lê seus escritos. Na verdade, estamos diante de um autor que, de caso pensado, conspira a favor de nossas percepções, ofertando-nos um complexo fluxo de descobertas e revelações. Conceber uma zona de conforto para o leitor não é algo do qual esse autor seja fiel partidário. Importa, para ele, uma literatura que provoca, tira os móveis de lugar e não se encarrega de determinar qualquer perspectiva de salvação.

Vencedor do Prêmio SESC Nacional de Literatura 2009, com o livro de contos “Cavala” (Editora Record), Sérgio Tavares recentemente lançou seu segundo rebento, “Queda da própria altura” (Editora Confraria do Vento), que também trafega pelas veredas contistas. E para falar um pouco sobre o seu denso percurso pelas palavras e outros temas correlatos, o autor nos concede uma entrevista, pontuando aspectos que fazem de sua literatura uma observação marcante sobre o espantado ato de existir.

 

 

Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares

 

 

DA – Em “Queda da própria altura” há uma sensação abismal a atravessar as narrativas, como se existir fosse um arremesso rumo ao limiar das coisas. O que dizer das palavras que evocam o sabor dos precipícios?

SÉRGIO TAVARES – Creio que são as mais intensas. O Nietzsche tem uma frase que diz que se você olhar para o abismo por muito tempo, o abismo acaba também olhando para você. Esse livro é o abismo que olhou para mim num momento terrível da minha vida, viu um homem desmoronado por perda, impotência e dor, e revidou com o único eixo capaz de articular os fragmentos. Talvez isso explique a opção por contar essa história no formato de contos, lançando mão de induções que encadeiam todas as narrativas para um desfecho único e provocam a sensação de unicidade. Isso foi intencional, porém, enquanto escrevia, eu não sabia o quão distante seria preciso enveredar para encontrar a chave capaz de trazer a voz narrativa de volta para o cenário estabelecido: o limiar abismal. Seja de maneira explícita ou tácita, é ali que estão os personagens, era onde eu estava. Foi ali também que percebi que, diante do abismo, ou você pula ou você decide conversar com ele. Eu e a voz narrativa do livro decidimos conversar.

DA – De fato, fica-se com a sensação de que o ambiente do livro também apontaria para a construção de um possível romance. No entanto, a fragmentação da memória e dos próprios sentimentos, aspectos marcantes de nosso tempo, surge bem delineada na narrativa e encontra abrigo nos contos. Essa reflexão norteou sua escolha narrativa de algum modo?

SÉRGIO TAVARES – A memória era o único caminho para que esse livro existisse. Virar o jogo e exercer uma pressão sobre ela foi, naturalmente, entender que, para me reabilitar, eu precisava escrever sobre o que aconteceu, preencher essa ausência com algo que pudesse eternizar o que as circunstâncias da vida (alguns diriam destino, eu não tenho ideia) não me permitiram. Foi a partir dessa percepção que surgiram as muitas páginas de um cruzamento de testemunho e retratação que, mais tarde, seriam editadas no conto “Sono”, o núcleo de todo o livro. O que há de verdadeiro, do que pode se aproximar de mais real do ocorrido está ali. Contudo eu não podia resumir toda a história a isso, eu era atacado por tantos sentimentos que precisava incidi-los em outras narrativas. Essa opção considero a mais acertada em “Queda…”. Ao contrário de “Cavala”, meu livro anterior, onde o binômio loucura e sexo entretecia os contos, havia sentimentos demais, muitos fragmentos para definir dois ou três caminhos para a trama. O que eu não poderia, e sempre soube disso, era perder a mão desses sentimentos e cair na pieguice ou na comoção exacerbada. Portanto, depois de estar por muito tempo apegado a tudo aquilo, a tratar memória feito uma massa de modelar, eu precisa me desprender e ler o livro como um leitor apático. Isso é literatura, afinal.

DA – Suas observações aproximam-se muito com o pensamento do escritor Manoel Ricardo de Lima. Vislumbrando a literatura como uma armadilha a ser construída, ele sustenta que o seu esforço é para não escrever livros ingênuos, pois vivemos num tempo em que não podemos pactuar com esse tipo de coisa.  Seria esse o maior desafio da criação?

SÉRGIO TAVARES – É curioso você citar o Manoel Ricardo de Lima, pois ouvi comentários que traziam a mesma impressão, porém a primeira obra dele que li ocorreu depois de o novo livro já estar encerrado. Considero um tanto desconcertante, para um autor, fazer analogias entre sua escrita e a de outros escritores, mas há sim semelhanças e diferenças, sobretudo no conceito empreendido especificamente em “Queda…”. Por conta de partir de um momento tão íntimo, acredito que a prosa acabou por incorporar naturalmente um verniz poético. Comparando com o meu primeiro livro, eletrificado por cargas fortíssimas de violência e despudor, a tessitura dos novos contos acontece de maneira calculada, silenciosa, introvertida. Essa é uma irmandade que percebo com o trabalho do Manoel, mais especificamente com o livro “As Mãos”, onde a poesia é utilizada como elo para encadear as cenas que transcorrem em tempos mutáveis. Outra semelhança, e essa é a mais viva, é justamente o uso da literatura como armadilha, o que gosto de chamar de a construção do nocaute.  É não ser ingênuo (ou relapso) em acreditar que a ideia, o escopo, basta para que a história funcione, para que a estrutura prevista tenha solidez suficiente para sustentar a trama. Penso que é exatamente o contrário, que o leitor deve ser posto no estado de refém, que deve ser enganado até o derradeiro ponto final. Essa intenção é muito clara no conto “Cerimônia”, onde uma mulher se prende em reminiscências enquanto separa a roupa do filho para um importante evento, até encontrar um desfecho arrebatador, que não cabe aqui revelar para não estragar a surpresa. Conquistar o leitor aos poucos e colocá-lo numa zona de conforto, para em seguida atacá-lo com um golpe fulminante, sempre foi o que persegui, na edição do novo livro. O maior desafio da criação é não tratar o leitor com carinho.

DA – Logo em sua estreia em livro, os contos de “Cavala” conferiram a você o Prêmio SESC Nacional de Literatura. Em qual contexto você situa esse momento de reconhecimento? 

SÉRGIO TAVARES – No mais dos inesperados. Os contos que compõem “Cavala” são, em suas origens, acidentais. Durante o processo de criação do novo livro (que, até então, era previsto para ser o meu primeiro), escrevi alguns contos cuja natureza era exatamente a antítese de como estava tratando a memória em “Queda…”. Se as motivações ali eram os sentimentos íntimos, as lembranças dolorosas e o vazio, nesses contos guardados não havia tempo para o luto ou para a autocomiseração. “Cavala” é constituído por personagens que, impelidos por desejos irrefreáveis, gozos desmedidos e transtornos mentais, são pressionados até situações-limite, onde a possibilidade de redenção está condicionada ao cometimento de atos hediondos.  E isso também se reflete na prosa mais acelerada e fragmentada, sem espaço para poesia ou onirismo. Mas, como disse, eram contos de gaveta e continuei com o projeto inicial. Foi então que, certa manhã, eu li sobre as inscrições do Prêmio SESC; melhor dizendo, sobre o fim das inscrições. Era apenas o tempo de transformar esses contos num volume, revisar e despachar pelos correios. Assim o fiz e a vida seguiu, até o dia em que um telefonema mudou tudo. Eu vivia um outro momento, minha esposa estava grávida novamente, engatinhávamos novos planos e, de repente, o sonho de muito tempo. Lembro claramente que estava na balsa, indo para o trabalho, e não sabia se voltava para casa, mantinha a normalidade ou tentava achar salmão no fundo da Baía de Guanabara.

DA – A condição de premiado impôs a você alguma mudança de paradigma ou ruptura em especial? Viu-se imbuído de uma, digamos assim, maior responsabilidade criativa?

SÉRGIO TAVARES – Certamente houve uma ruptura, mas longe de qualquer aspecto negativo. Não há dúvida de que o Prêmio Sesc me avalizou como escritor, mas a conquista não se resume ao carimbo na capa do livro. Existe toda uma programação robusta (participações em feiras literárias, palestras, debates) que ocorre paralela ao lançamento, contribuindo para o enriquecimento literário do autor, bem como para a divulgação da obra. O acúmulo dessas experiências, diante da condição de ter sido revelado por um prêmio, pesou muito mais nas minhas escolhas do que qualquer tentativa de superar o primeiro livro. Aliás, o que seria uma tremenda estupidez, pois competir comigo mesmo só me valeria a derrota, de todo o modo. Fazer parte desse universo foi determinante para apagar todo o traço de deslumbramento, o que é vital para um autor que planeja continuar publicando. O mercado editorial tem suas regras. É isso. Se você pretende se estabelecer como escritor, escreva. Escreva, revise e reescreva. Não há nada de encantado nesse processo. O carpinteiro não faz a mesa com o manuseio da madeira. Acreditar que o fato de o meu nome estar associado a um dos principais prêmios literários do país abriria todas as portas, nunca foi uma possibilidade. O que foi ótimo, já que a verdade está bem longe disso. Eu não posso me comprometer com o que criei ou com o que estou criando, mas com o que ainda preciso criar. Tem um trecho do conto “Quebranto” em que o narrador diz que quando deixamos de chamar ou de ser chamados, perdemos nossos nomes. É exatamente assim que funciona.

DA – O caminho por seguir, encerrando os desafios que lhe são peculiares, remonta algumas vezes à  chamada “angústia da criação”.  A questão de se desejar erguer uma obra com status de notoriedade não lhe parece um desvio de nosso tempo?

SÉRGIO TAVARES – De maneira nenhuma. Todo artista que se propõe a publicar e divulgar uma obra está naturalmente em busca de notoriedade, principalmente aqueles que insistem que não, pois a negação em si já é a intenção do holofote. O que não se deve confundir é a chance de notoriedade com a busca vazia pela fama. São motivações diferentes, cuja explicação aqui iria pesar muito no tamanho da resposta. Sugiro a leitura dos ótimos “A Experiência da Fama”, da Maria Cláudia Coelho, e “O Show do Eu”, da Paula Sibilia, para um melhor entendimento. De volta à questão, tem se tornado claro, cada vez mais para mim, que os dois fatores principais para o bem-estar de um livro publicado é a divulgação e a distribuição. Hoje é possível facilmente lançar um livro por conta própria; e talvez esse seja o verdadeiro desvio do nosso tempo. Tomar uma atitude como essa deve estar condicionada à extensão da estrada que esse livro planeja percorrer. É claro que há a internet e as redes sociais, mas o aporte de uma editora bem estruturada e a comercialização nas livrarias de renome ainda têm um peso incomparável. Além disso, essas são engrenagens de uma máquina cuja esteira conduz com mais facilidade aos suplementos literários e às revistas especializadas. Isso não é crítica ou resignação, mas uma percepção particular. Eu sei que existem exceções, que não há nada mais angustiante do que aguardar a resposta de uma editora, que a qualidade pode intervir na verticalização da informação. O meu primeiro livro teve qualidade para conquistar o Prêmio Sesc, porém será que teria qualidade para ser francamente aprovado por uma editora do porte da que o publicou? O marcado literário é tão repleto de incertezas, que o autor deve contar com menos passos falsos possíveis. Entender que é necessário ampliar o campo de projeção de uma obra é, atualmente, uma atitude capital.

DA – O que você considera ser o traço marcante da literatura feita hoje no Brasil? Com toda a complexidade que a questão demanda, estamos ainda muito longe de consolidar uma nova geração de escritores?

SÉRGIO TAVARES – A nova geração está em pleno curso. Temos uma safra de talentosos autores entecendo uma literatura que transcende as fronteiras estabelecidas, que dialoga com o mundo sem se destituir do caráter particular, que se arrisca a incorporar gêneros com habilidade para não repetir o cânone. É um conjunto constituído por inúmeras correntes que, sem precisar aqui citar um ou outro nome, traz um traço cosmopolita bem marcante, com fulgente predileção por narrativas autocentradas, donde se sobressai a condição do “eu” nas relações interpessoais. É um tipo de literatura que já foi chamada de “literatura psicológica”; enredos centrados na (des)construção emocional, onde os embates e os impulsos têm mais impacto que a estrutura e a caracterização dos personagens, ao ponto de influenciar diretamente nas reviravoltas e no desfecho das tramas. Com isso, acredito que se estabelece um cenário forte, capaz de produzir clássicos para novas épocas; é claro, levando-se em conta o momento único em que a literatura brasileira se desvenda diante dos olhos do mundo. Há, no entanto, duas coisas que me incomodam. A primeira é o esforço descomunal de se instituir a supremacia do romance, sufocando as incursões em outros gêneros. Já a segunda é o manejo com que giram o holofote, na tentativa insensata de imputar a grandeza do momento a um grupo de escolhidos. Os nomes que perdurarão somente o filtro do tempo irá dizer. Mas certamente aqueles que caminham agora não são apenas vinte.

Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares

DA – Andamos bem em matéria de crítica literária? 

SÉRGIO TAVARES – Gosto, de maneira geral, do que é feito por aqui. A crítica brasileira tem um aporte mais incisivo, mais direto, seja para elogiar ou para meter o pau. Não somos afeitos a tergiversações, ao contrário dos norte-americanos que fazem das resenhas um misto de resumão com pontuais impressões. O que falta por aqui, na minha opinião, são mais publicações voltadas exclusivamente para literatura. E não digo apenas um robustecimento dos suplementos literários, mas revistas e outros periódicos especializados. Tirando o Sul (com louvor para o que é feito no Paraná) e São Paulo, percebo que os espaços acanhados acabam sendo relegados aos principais jornais do determinado estado. Aqui no Rio, por exemplo, é uma vergonha, uma falta de interesse medonho. Eu mesmo tenho impressões dos meus livros espalhadas pelo país, com gloriosa exceção para o Rio. É claro que pode valer a máxima de que santo de casa não faz milagre. Mas para ter santo, antes tem de ter altar.

DA – Há sempre um discurso pronto quando se busca a razão para a “tradicional” falta de interesse pela leitura.  Será também que não vivemos num país onde potenciais leitores são subestimados?

SÉRGIO TAVARES – Não há dúvida quanto a isso. Tornou-se lamentavelmente cômodo, para aqueles que passam pelos canais institucionais com o dever de mudar essa realidade, aceitar a constatação com a leviandade de uma máxima. “O Brasil é um país onde pouco se lê”, fica dito e pronto! Quase um lema distorcido, um eco que se propagava há séculos. Mas por que é assim? A resposta é bem complexa e encadeada por diversos fatores, mas gosto de um argumento transformado em crônica pelo jornalista Zuenir Ventura, colunista d’O Globo. Nesse texto, Ventura, um professor universitário já com 80 estações, sintetizou, em poucos parágrafos, essa infinita discussão do porquê do exercício da leitura ter se tornado, geração a geração, uma maratona com cada vez menos participantes. Ao contrário dos que culpam a decadência cultural, os novos caminhos tecnológicos e a hegemonia da televisão, o jornalista defende que a culpa não é de quem deveria ler, mas de quem deveria tornar essa atividade atraente.

Por que os europeus e os americanos leem oito vezes mais livros que os brasileiros? Por que cerca de 70 milhões de pessoas no Brasil não leem? Falta de hábito, poder aquisitivo? É claro que ambas as circunstâncias têm influência direta na resposta, sobretudo quando associadas ao fato de termos 21 milhões de analfabetos. Contudo, há um outro fator determinante que, no texto, o jornalista aponta com precisão: parte da culpa, sim, está nas escolas, num comodismo intelectual que refaz um tempo já, há muito, incinerado.

O mote da crônica, explica Ventura, veio do pedido de um amigo, pai de um aluno no segundo ano escolar, que lhe passou a lista de livros na tentativa do empréstimo de alguns títulos. O jornalista conta que ficou abismado ao se deparar com indicações como “Senhora” e “Iracema”, de José de Alencar; “O Cortiço”, de Aluisio de Azevedo; “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manoel de Antonio de Almeida; e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Obras que estão além do tempo daqueles que são obrigados a lê-las, assim como eu mesmo fui e como aquele menino, muitas décadas depois, também seria.

Vejo que a questão é exatamente essa: a obrigação. Como um jovem, justamente no momento em que está iniciando sua formação intelectual, pode desenvolver o gosto pela leitura através da imposição de obras datadas, repletas de um coloquialismo que torna o seu próprio idioma praticamente estrangeiro? Ventura cita, como exemplo, um trecho de José de Alencar: “Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva”. Sinceramente, eu mesmo não sei o que é um aljôfar. Então como isso pode ser mais atraente para um moleque de 13 anos do que ficar no facebook? Na época em que era obrigado a ler “Brás Cubas”, “Senhora” e “Iracema”, eu queria mais era ler histórias de detetives. Isso prova que o problema não é o apelo da internet, mas a forma errada e atrasada com que as escolas propõem aos alunos a leitura, anulando toda a condição de uma atividade prazerosa.

Na crônica, Ventura elenca alguns autores contemporâneos que certamente seriam mais atrativos, tais como Rubem Braga e Fernando Sabino. Eu acrescentaria Luiz Vilela, Clarice Lispector, Murilo Rubião e Luiz Fernando Veríssimo. Acredito que o caminho correto é fazer com que os potenciais leitores assimilem que ler não é um dever de casa, algo necessário para se dar bem num teste.

DA – O olhar para dentro, característica forte em seus escritos, é algo deveras significativo num tempo em que a superficialidade das coisas insiste em fazer sombra, sobretudo ao terreno das relações humanas. Esse caminhar pela via intimista é também uma tentativa de resgate, quiçá um ímpeto de resistência?

SÉRGIO TAVARES – Escrever, por si só, já é um ato de resistência. Não há um significado vital para isso, senão um esforço para aliviar um ímpeto particular. Escrever, de certa forma, é uma vaidade. Por isso, me tornei jornalista, pois buscava uma maneira de orbitar pelo universo da escrita, encontrando quem me pagasse para isso. Ainda que longe de qualquer ostentação, é muito mais certo sobreviver como jornalista do que como escritor nesse país. O curioso é que, à medida que me especializava na profissão, percebi o quanto o jornalismo era (e é) importante nas minhas incursões no campo ficcional. Sobretudo no que tange a construção do personagem. Vejo que o escritor não pode transitar pela superfície das coisas e deixar todo o trabalho para a imaginação do leitor. Por isso, há uma predominância, em meus escritos, pela voz narrativa em primeira pessoa. Os meus personagens são hiperativos, as histórias acontecem sob o ponto de vista deles. E isso só é possível porque, antes de partir para a escrita, eu traço todas as características desse personagem, da maneira mais íntima possível; é algo excessivo, abusivo. Um exemplo é a personagem do conto “Fome”, a segunda narrativa do meu primeiro livro, “Cavala”. Estamos diante de uma professora do ensino primário viciada em sexo, ao ponto de seduzir um mendigo e levá-lo para casa. Quem é essa mulher? Por que ela chegou a esse extremo? Como ela funciona emocionalmente e fisicamente nessa situação? Investiguei todas as respostas, antes dela tomar a decisão. Cumpro o papel de jornalista diante de meus personagens. Agora, isso mudou um pouco, pois estou engatinhando pelas vielas do romance, que são mais íngremes e auspiciosas que as do conto. Portanto, além de construir os personagens, há diversas anotações no caderninho de capa xadrez sobre a estrutura da história. Mas o principal continua sendo o protagonista. E, dessa vez, tento algo que, se não for inalcançável, será uma experiência fascinante: desvendar a origem do mal, entender quais fatores incidem sobre alguém, tornando-o capaz de cometer livremente atos hediondos.

DA – Que espécie de busca norteia as palavras de Sérgio Tavares e o faz seguir adiante?

SÉRGIO TAVARES – Escrevo porque preciso, porque é a única coisa que tenho vontade de fazer, porque é o que cala esses personagens que inelutavelmente insistem para que eu conte suas histórias. Depois de duas antologias, apostei que era o momento de escrever um romance. Bem, o que sei da história é que se passa na transição dos anos 80 para os 90, período de surgimento da epidemia do vírus HIV, e tem com ponto central o desmoronamento de um núcleo familiar, a partir do momento em que a mãe contrai a doença, após uma transfusão de sangue, e morre. Essa ausência provoca o desligamento entre pai e filho, cuja negligência trará consequências aterradoras, sobretudo depois que o pai traz uma nova mulher para morar na casa e torna-se um sujeito submisso, emasculado, incapaz de reagir a contínuas traições. Tem também uma mulher chamada Selma e alguns cachorros mortos. É um livro sobre a origem do mal. O meu projeto mais ambicioso, até então.

 

 

 

 

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Sérgio Tavares

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

evolam-se os barcos

 

hoje eu matei o trabalho, fui ver os barcos.

gosto de ver os barcos nesses dias de baixas nuvens chumbo, quando o céu se torna um reflexo encapelado do mar e sopra fiapos d’água que tingem de escuro meu terno, tecendo um manto baço de papel de seda que cobre o horizonte.

nesse cenário espesso de giz, os barcos são como pequenos borrões coloridos, imóveis no expressionismo da tela turva, onde gaivotas e trinta-réis adejam em voos erráticos como úmidas cerdas de um pincel que pinta de inverno todo o tecido marinho, exceto as franjas brancas tomadas por este misterioso e interminável ímpeto de tramar-se e destramar-se.

gosto de sentir as azaleias de espuma que se abrem mansamente entre meus dedos e me queimam de vida a carne, para logo em seguida desaparecerem na areia viscosa que suja de sal as bainhas da calça e engole meus pés para a fundura cinza onde penetram as ondas.

gosto de deixar que o áspero sudoeste me percorra o corpo, açoitando a pele por entre as casas dos botões e insuflando as asas de um homem-pássaro negro, eu e milhões de grãos, gotas e uma gravata, que rodopiam pelo ar.

parto com eles em direção ao infinito, perdendo-me no teatro de névoa e chuva, no momento em que descem as cortinas e os barcos içam suas velas, disparando em mim a reconfortante certeza de que o vazio da praia é maior que o meu.

sempre preferi a solidão. vivia em busca deste estado de desaparecimento, quando é possível ouvir alto a própria voz calada. na infância, fui uma criança introspectiva. gostava de colecionar coisas sem valor e andar a esmo pelos parques. não tinha amigos e nos aniversários ficava sentado ao lado dos adultos, observando as outras crianças brincarem.

uma vez, me deram um cachorro, mas ele morreu de tristeza antes de completar um ano. nem sequer teve um nome, só um retrato que desenhei do dia em que desenterrou um pardal. esquecia das horas entre os lápis de cera ou assistindo aos desenhos animados. minhas tias diziam que eu seria um infeliz ou um gênio.

quando ingressei no ginásio, descobri a leitura. lia de maneira indistinta e compulsiva. na biblioteca, no horário de recreio, no ônibus de ida e no ônibus de volta. no meu quarto, chegava a ler dois livros de uma vez. os professores começaram a me usar como referência e minha introspecção foi se tornando sinal de inteligência e admiração.

verdade era que, na página seguinte, eu já não me lembrava do que tinha ocorrido no capítulo anterior. os livros eram uma necessidade, pois são chaves para a solidão. às vezes, deitava na cama com um livro pousado sobre o peito e me perdia nos entremeios e nas reviravoltas até me esgotar de sono. era gostoso retomar a história no dia seguinte e perceber que parte do enredo fora tramada em sonho. dormindo, eu era um melhor escritor.

tentei a faculdade de matemática, mas os livros não me serviram para os números. os anos foram adoecendo meus pais até os tornarem dois insetos pequenos demais para a mecânica da casa. tive de trabalhar para comprar remédios e reparar os móveis.

meu primeiro emprego foi na fábrica de calças. tinha a função de verificar a precisão dos botões e dos zíperes. eu gostava, pois passava todo o dia sozinho, forçando as costuras e o trilho dos fechos. na hora do almoço, me sentava numa mesa do canto com um jornal aberto sobre o tampo para afastar qualquer intenção de diálogo. a única que insistia era Irene.

todos os dias, puxava conserva sobre os fatos publicados, que eu respondia com hum-huns. de tanto me importunar, acabamos iniciando um relacionamento em que nos víamos pouco, falávamos no refeitório e ela me ajudava nas tarefas domésticas pesadas de fim de semana. minha mãe gostava da Irene. dizia que ela me entendia e amava como ela amava o meu pai, e que dançariam conosco a valsa nupcial, no baile de casamento.

fatalmente ela estava enganada. alguns meses depois, minha mãe sofreu um infarto fulminante. no dia seguinte, meu pai acordou cedo, fez a barba, tomou o ônibus até o mais alto prédio comercial, subiu o elevador e se jogou do nono andar. fizemos as bodas junto à missa de sétimo dia para salvar as poucas economias que tínhamos, ameaçadas pela hipoteca da casa que pendia há seis meses. com o ordenado da fábrica, seria impossível nos sustentar dignamente.

foi quando um tio de segundo grau, que trabalhava numa secretaria de estado, me ofereceu um cargo no setor de protocolo. era um trabalho que não requeria muito raciocínio, o salário e os benefícios eram satisfatórios e o horário flexível, embora o terno e gravata fosse indispensável.

dividia a sala com dois funcionários estatutários, nos revezando no ofício de numerar os processos, carimbar, comunicar e depositar num dos muitos arquivos. a sala era pequena, de paredes cor pastel e sem janela, acarpetada e tomada de antigos móveis de patrimônio. havia três mesas, uma máquina de escrever e um ventilador em mau funcionamento.

verdade é que, com o tempo, comecei a gostar de passar o dia nesse isolamento remunerado, no qual quase não tinha de interagir com pessoas e podia me perder na leitura por horas sem interrupção. com essas garantias, me vi impelido por vontades que se harmonizavam aos desejos de Irene. quitei as dívidas e recuperei a casa, compramos móveis novos, incinerei as tralhas dos meus pais e tivemos duas filhas. tornei-me um homem de família, embarcado numa ciranda de deveres e novos sentimentos, em que a solidão era o acordo que incidia sobre o cotidiano quando o relógio de ponto, no hall de entrada, marcava o início do expediente da repartição pública.

uns dois anos depois, esse refúgio, porém, adquiriu uma atmosfera claustrofóbica que asfixiou o mundo que inventei para mim. a Casa Civil protocolou um comunicado, informando que todos os órgãos teriam de cortar despesas. houve demissões e todos os contratos foram suspensos.

logo, os funcionários do meu setor foram alocados em outras seções e fiquei sozinho. é claro que, a princípio, assaltou-me uma euforia sem igual. ficaria completamente isolado, imune a qualquer contato ou explicações. livre para ler, sonhar, pousar minhas costas sobre a espalda da cadeira e ouvir somente a minha voz calada. no entanto, detidamente percebi (e era como sufocar aos poucos) que esse estado que tanto buscava, a solidão, só suscita recompensa quando conquistado e não imposto.

a paralisação deflagrou a negligência que já pairava sobre as repartições, estabelecendo a mediocridade e o desânimo que acomete todo o ser envenenado pela burocracia. não havia mais andamento de despachos, fotocópias ou telefonemas. o expediente resumia-se a sentar diante do relógio e esperar os ponteiros empurrarem a massa pegajosa que era o tempo. fui sendo esquecido naquela sala sufocante e sem janela. desbotando feito um retrato consumido pelos anos, uma silhueta borrada sem reflexo.

a vontade de isolar-me, esse ímpeto de estar apenas comigo, deteriorou-se dentro de mim, deixando um vazio que me tornara invisível não do modo que sempre pretendi. às vezes, acontecia de um entregador ir ao setor levar uma correspondência e ficar parado na porta, olhando como se não tivesse ninguém, até ir embora. quantas feitas eu pedia para segurar o elevador e as portas se fechavam indiferentemente. ou quando alguém precisava arquivar um processo, o deixava com um bilhete escrito à mão, avisando que tinha estado ali e a sala estava vazia.

em casa, o isolamento desencadeara um processo mais doloroso. juntamente ao amadurecimento do corpo, minhas filhas desenvolviam a cruel habilidade de não me enxergar. cruzavam por mim como se me vestisse a textura do papel de parede ou a insignificância de um vaso ornamental.

já começavam as refeições sem a minha presença, ignorando meus comentários e mesmo os pedidos de passar o sal. quando, por ventura, estava assistindo à televisão, naturalmente pegavam o controle remoto e mudavam de canal. há duas noites, eu me deparei com a menor olhando para uma foto minha com ela e a irmã ainda pequenas com uma estranha atenção, como se eu fosse suspenso em sua prematura memória.

mesmo Irene, que me encontrou no esconderijo dentro de mim, agora me esquecia em comezinhas obrigações e pormenores que supriam o sentimento de ausência. fui desaparecendo. rareando como um tapete pisado, um fantasma na eletrostática da televisão. não dormia, e nem mesmo a leitura trazia-me conforto. comecei a vagar pela rua, em busca de um olhar, um rosto em meio à multidão, uma expressão manchada por olhos nublados capazes de enxergar o invisível…

ele vê a forma, um borrão, uma mancha que aflora na sedosidade da neblina e o assalta um entusiasmo incompreensível, tal a voragem que urde grãos de areia e contracorrentes na germinação de bulbos de lótus, flâmulas e pétalas que se abrem apenas para se despedaçarem na arrebentação, fragmentos de espumas, espelhos-fantasmas que refletem o desfraldar das asas do pássaro negro, o prelúdio do voo entre os véus bailarinos de chuva fina sobre as milhares de pegadas que se confundem e percorrem caminhos que nunca existiram, rumo ao rochedo, o aglomerado de pedras e depressões, coberto de limo, alestrins e matacães, onde explodem ondas e acertam estilhas peroladas nas suas costas, avançando contra os papa-breus entrando por desvãos e saliências que lanham as mãos confusas, entre o par de sapatos e escorregões, na escalada até o cume, o abismo onde o ar é menos salino, e ela está sentada, braços envolvendo os joelhos, o rosto delgado e a bainha do cabelo castanho, repartido ao meio.

 

É uma bela visão.
É uma bela queda.
Não deixa de ser um ponto de vista.
Talvez um menos glorioso.
A vida, em certos aspectos, tende a não ser gloriosa.
Meu pai costuma dizer algo parecido.
Seu pai é um homem sábio.
É, talvez.
Posso me sentar?

 

 

Sabe, subir aqui me dá a medida da minha insignificância.
Para mim, é a possibilidade de desaparecer.
Acredite, não é tão simples.
Não é difícil o bastante.
Está vendo os barcos? Os pequenos borrões coloridos atrás do mau tempo, surgindo e desaparecendo? Imagine todos os elementos que são necessários para que isso aconteça. A névoa, a chuva, o vento, as ondas. Tudo tem de convergir perfeitamente para criar essa ilusão de ótica. Não acho que seja tão simples assim.
Eu não consigo me impressionar com ilusões.
Deve existir uma boa razão para isso.
Meu pai é mágico, um ilusionista, como ele prefere ser chamado. O seu número mais famoso é o do desaparecimento.
E você cresceu sabendo que era uma ilusão.
É. Ele era grande em sua época.
E onde está agora?
Agora ele está preso à cama de um hospital, flutuando entre momentos de lucidez, enquanto espera por um transplante que nunca acontece. Irônico, não? Meu pai ganhou a vida com truques de desaparecimento, e agora não há nada que se possa fazer para evitar que desapareça para sempre.
Sinto muito por isso.
Acho que essa é a ilusão que ainda me impressiona. Acreditar que existe algum sentido na vida.
Sei que não é reconfortante, mas imagine, em todos esses anos, quantas pessoas seu pai tocou com seus números, quantas vidas conseguiu mudar.
Não é nada reconfortante.
Ao menos, ele tem a você.
A mim e ao meu irmão Pedro. Nunca o abandonaríamos. Minha mãe desapareceu quando éramos crianças. Meu pai sempre foi muito presente. Apesar da vida itinerante, de crescer seguindo a rotina dos circos de cidade a cidade, em momento algum ele permitiu que imaginássemos que poderíamos ficar sozinhos. Fomos ensinados a acreditar na comunhão e educados a construir um futuro próprio. Ele nunca deixou que seguíssemos sua estrada.
É curioso como viemos aqui por razões parecidas, mas com propósitos diferentes.
E o que você veio fazer aqui, num dia chuvoso, de terno e gravata?
Não sei ao certo. Encontrar algo.
Não deveria estar trabalhando?
Deveria, mas ninguém se importa. Já faz algum tempo que ninguém percebe que estou lá. Faz tempo que ninguém me percebe, de forma alguma.
Você é casado.
É, a aliança. Tenho duas filhas.
Isso é bom?
Não sei.
Deve existir uma boa razão para isso.
Passei a vida me escondendo, tentando desaparecer. Quando finalmente consegui, descobri que não podia voltar atrás.
No número do desaparecimento havia um fundo falso. Meu pai era amarrado por correntes presas a cadeados e erguido dentro de uma caixa. A chave ficava na sua mão. Quando a corda se rompia, ela passava pelo buraco e caía sobre um colchão. Esse é o segredo.
Quer ouvir um segredo? À noite, quando sei que todos estão dormindo, vou até o quarto das minhas filhas. Pego uma cadeira e me sento à beira das camas. Fico horas apenas as olhando, às vezes até raiar o dia. Eu não sabia o porquê. Na verdade, eu fingia que não sabia o porquê. No fundo, eu esperava que uma delas acordasse e, na transição entre o sono e o despertar, ainda livre de qualquer pensamento, pudesse me ver novamente. Saber que eu estava ali, que ainda existia. Mas agora sei que não posso reverter o que me tornei. Sou um fantasma no porta-retrato, um morto-vivo.
De alguma forma, é isso que meu pai se tornou.
É isso que, afinal, nos tornamos.
E não há nada que possamos fazer.
Ainda podemos ver os barcos.

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O conto aqui publicado faz parte de seu mais recente livro, “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012)