A jovem analisou, com cuidado, cada item que precisava levar antes de sair de casa. Dobrou com precisão uma calça impermeável, duas camisas de cores neutras, três pares de meias; depois, escova e pasta de dentes, shampoo em um frasco de 100 ml, três pares de roupa íntima, o carregador do celular, dinheiro em espécie, remédios essenciais, uma capa de chuva dobrável, chinelos. Tudo foi organizado na mochila com paciência. Satisfeita com a ordem meticulosa, respirou fundo: agora, sim, estava preparada para a viagem.
O caminho à sua frente desenrolava-se vasto e imprevisível. Cada passo a conduzia para mais longe de casa, onde histórias a aguardavam. Encontrou pessoas de olhares profundos, cujas vidas entrelaçadas com a terra lhe contavam segredos guardados no tempo. As paisagens que surgiam pareciam sussurrar memórias de eras passadas. Rios de correntezas indomáveis mudavam seus cursos sem aviso, como se seguissem razões que só eles conheciam. Cada murmúrio do vento carregava um silêncio acolhedor, um tipo de conversa que não pedia resposta, mas merecia ser ouvida. Ela seguia com os olhos abertos e o coração atento, captando as sutilezas ao seu redor.
Na primeira parada, sentiu algo diferente. A mochila parecia estranhamente mais pesada, como se, a cada passo, acumulasse algo invisível e, ainda assim, palpável. Curiosa, decidiu pesá-la. E não é que estava mesmo mais cheia? Decidiu aliviar o peso: deixou para trás uma das camisas, um par de meias e parte do dinheiro, como se pudesse liberar um pouco do que a mochila havia absorvido. Com a carga aliviada, seguiu em frente, sentindo-se mais leve.
Uma tarde tempestuosa a surpreendeu pelo caminho, mas em vez de buscar abrigo, foi tomada por um impulso infantil e, entre gotas e poças, deixou-se dançar com a chuva. A sensação de liberdade a lavou de dentro para fora. Os transeuntes olhavam com curiosidade, alguns riam, outros meneavam a cabeça, mas ela apenas lhes retribuía o sorriso, grata pela troca silenciosa de um momento compartilhado. Ao fim do dia, no entanto, percebeu que a mochila parecia novamente mais pesada. Desta vez, deixou para trás a capa de chuva e o carregador de celular. Pensou que, se precisasse, pediria ajuda adiante; afinal, já estava aprendendo que, muitas vezes, bastava apenas confiar.
O amanhecer trouxe novos encantos. Os primeiros raios de sol filtravam-se pela névoa e beijavam a grama molhada, criando um cenário suave e etéreo. Ela decidiu tirar os sapatos e sentiu a textura úmida e macia da terra sob seus pés, como se a própria natureza quisesse sustentá-la. Ao lado de um rebanho de ovelhas, sentou-se e conversou longamente com o pastor, um homem de palavras simples e olhos serenos. Depois, numa pequena vila, jogou uma descontraída partida de sinuca com os moradores e brindou à vida, como se os recém-feitos amigos fossem velhos conhecidos. Quando a noite caiu, sabia que a mochila pesava mais uma vez, mas já havia aprendido a solução: deixou-a ali mesmo, ao lado da estrada, esvaziando-se de objetos para se preencher de memórias e encontros.
Finalmente, ao chegar ao destino, sentiu-se plena de um jeito novo, mais completa do que jamais imaginara possível. E, movida por uma curiosidade repentina, decidiu se pesar. A balança, no entanto, pareceu vacilar, quase incapaz de pesar a imensidão que ela trazia dentro de si. Foi então que compreendeu a lição do caminho. Assim como o coração bombeia o sangue, renovando-o a cada batida, as pessoas verdadeiramente felizes também se esvaziam e se enchem continuamente, num ciclo constante de dar e receber.
Não é o peso das coisas que carregamos, mas o espaço que deixamos livre para o amor e para as experiências que nos fazem plenos.
Ailton Lima, de 32 anos, nasceu em Caruaru, Pernambuco, e desde cedo trilha múltiplos caminhos como escritor de contos e thrillers, compositor e publicitário. Jovem, mudou-se para Barcelona, cidade que despertou sua imaginação e lhe abriu as portas para o universo literário, inspirando histórias intensas e personagens complexos. Uma batalha contra o câncer, que superou ainda na juventude, transformou profundamente sua visão de vida e o impulsionou a dar voz às narrativas que habitavam dentro de si. Hoje, suas obras refletem essa trajetória de superação e o desejo de explorar o desconhecido, criando personagens inesquecíveis e histórias que tocam fundo na mente humana.
Urucutuques é um remanso. Não há turistas com camisas floridas e protetores solar, tampouco hipsters com tatuagens coloridas e barbas bem cultivadas, muito menos DJ’s ou headbangers. Acho que nunca vi um policial fardado, em patrulha. Na verdade, lembro de um que frequentava a praça principal, mas ele não usava arma ou colete e sua ronda se limitava a uma partida após a outra de dominó.
Era como se a cidade tivesse estacado em algum dia da década de 70 e uma parte de sua alma continuasse lá, preservada em um tipo de inocência que não serve para muita coisa, a não ser que o sujeito tenha desistido ou se esquive de grandes emoções. E era justamente desse jeito que eu andava, um bocado esquivo, e continuaria assim “ad infinitum”, não fosse uma inesperada ventura que me veio através do que lá fora chamam de wake up cool ever – acho que é isso -, que significa, basicamente, uma chamada de consciência absoluta. Um dia, de frente para o espelho, do nada dei de procurar o indivíduo que achava que era. Meia hora ali, em uma extenuante busca. Não o encontrei. Em seu lugar, um quase estranho, aquele tipo com quem cruzamos na rua e vasculhamos na memória de onde conhecemos. Sentia que passava por algum tipo de despertar e que havia algo de espiritual naquilo.
De toda maneira, lá estava eu, distraído, a caminhar pelas ruas de Urucutuques com sacolas de compras nas mãos, quando escutei a sua voz:
– Que tal uma cerveja?
Devia ter uns trinta e poucos anos, cabelos alisados e pintados num tom acaju, a alça do vestido caindo até o meio do braço. Seu rosto era bonito, mas desgastado. Estava em uma das mesas de um bar que, na fachada, tinha escrito “Supermercado Iguatemi”.
– Estou resolvendo umas coisas.
– Resolve depois.
– Não posso.
– Tá com medo?
– De quê?
– De mim.
– Ainda não deu tempo.
Ela sorriu. Não tinha um canino e um pré-molar.
– Gostei de você. Vou ficar aqui, te esperando. A vida foi feita pra se viver.
Não encontrei Lucky Strike na banquinha e acabei comprando uma carteira de Broadway, que me causava um pigarro enorme. Fui até o carro e arrumei as sacolas no banco do passageiro. Bastava ligar o motor. Meia hora de ramal. Colocaria uma música e a viagem seria rápida e agradável. Antes de girar a chave, no entanto, pensei nela. Havia qualquer coisa diferente nos seus olhos – esperança ou fé -, embora também tenha enxergado um tanto de desespero e loucura. A vida tem que ser como um rio em dia de temporal, imaginei-a dizer para alguém, ajeitando o cabelo sobre os olhos. Fechei o carro e caminhei até o bar.
Estava na mesma mesa, agora acompanhada de uma larga morena. Sentei em uma das cadeiras, tirei um Broadway da carteira e o acendi.
– Daiane, pega uma cerveja – ela disse para a morena. – O moço tá com sede.
Daiane me olhou e, em seguida, se levantou e seguiu, balançando sua enorme bunda de um lado para o outro, rumo ao balcão onde havia um velhote mal encarado usando boné.
– Isso aqui era um mercado?
– Acho que sim. Agora é bar e puteiro.
– Não imaginei.
– Ficou decepcionado?
– Não tenho problemas com bares ou puteiros.
– Que bom. Tenho um quartinho limpo lá atrás. Quer conhecer?
– Agora, não.
Daiane retornou e serviu a cerveja; primeiro, no copo delas e, depois, no meu. Dei grandes goles, a escutar aquela mulher falar. Dizia se chamar Marisa, crescera em uma área rural longe dali e tinha uma filha de oito anos que vivia com a avó. Chegara a Urucutuques há três meses. Achava a cidade parada, a não ser nos dias de sábado, quando os trabalhadores das fazendas vinham fazer compras e beber. Uma leve brisa cortava a rua da feira, bem à nossa frente, e trazia até nós o cheiro de verdura apodrecida, que se misturava ao da cerveja que secara sobre o piso. Algumas moscas graúdas revoavam à nossa volta.
– Nunca te vi por aqui.
– Venho pouco à cidade. Passo no mercado, na padaria e volto pra casa.
– Deve ser casado.
– Não.
– Algum motivo essa pressa tem.
– Sou só um sujeito que gosta de solidão.
– Eu não ligo se você for casado.
Além de despachar as cervejas, o velhote colocava discos pra tocar. Naquele instante, em duas velhas caixas de som penduradas na parede, Silvano Sales se esgoelava, a rimar castigo com abrigo. Eu conhecia aquela música e, como havia bebido alguns copos, cantei o refrão.
– Ih, tá apaixonado – Daiane falou.
– Parece?
– Muito.
– Daiane, você é uma garota esperta, que deve conhecer os segredos da vida, mas errou nisso. O que acontece comigo na realidade é algo bem diferente de paixão.
– Tá desiludido – Marisa disse.
– Também não. O que tá rolando, como os gringos dizem, é um negócio chamado Wake up cool ever.
– Que porcaria é isso?
– É como se, de repente, num susto, eu tivesse começado a entender o que é que vim fazer aqui.
– E o que você veio fazer aqui? – Marisa quis saber.
– Ainda não descobri.
– Me conta, quando souber.
– Pode deixar.
Daiane se levantou.
– Vou pegar outra.
Bebemos mais duas ou três. Minha língua começava a enrolar, quando fiz um brinde a todas as coisas boas que ainda nos aconteceriam. Os copos estalaram no ar.
– Que tal ir lá no quarto agora?
– Hoje, não, Marisa. Mas volto qualquer dia desses.
Ela fez um muxoxo.
De onde estava, vi dois cachorros muito magros cruzando, uma senhora varrendo a calçada em frente a sua casa e outra senhora a caminhar com uma Bíblia na mão. O sol começava a se pôr – o sol laranja de Urucutuques, uma panela de ouro a reluzir o seu brilho sobre o teto de velhas casas. Em alguns minutos, ele começou a se esconder atrás do horizonte e o céu mudou de cor: do azul claro se transformou em amarelo, depois ficou lilás, azul marinho, até que, subitamente, a noite chegou. Eu poderia estar em casa, tentando escrever alguma coisa, a escutar o barulho dos sapos e dos grilos, mas estava ali, num puteiro com o letreiro “Supermercado Iguatemi”, a imaginar que existia algum significado naquilo e que a única coisa que precisava fazer era ficar mais um pouco. Como se aquilo tornasse a vida algo ainda mais cômodo e confortável. Ou, também pensei, como se, de algum modo, eu tivesse feito uma jornada no tempo e regressado a um dia qualquer de 1976.
Rodrigo Melo escreve prosa e poesia e tem quatro livros publicados. Vive em Ilhéus, Sul da Bahia.
A cabeça ainda doía pela insônia. Na madrugada, lutei com aqueles pensamentos borbulhantes que fermentavam alternativas de respostas para nossa discussão.
Sovei bem essa massa de opções e a cozinhei no lado esquerdo do cérebro. Transformei tudo em produtividade e encarei meu primeiro banho do dia tentando sentir a energia da cromoterapia, efeito da lâmpada recém instalada no box. Última moda de relaxamento inconsciente do mercado.
Na noite anterior brigamos feio. O pior é que ele me deixou falando sozinha, mal respondia meus argumentos. Deve ter achado que agir assim resolveria. Até agora no café, pelo jeito, pretende ficar sentado à mesa sem me dirigir uma palavra.
Ainda não parei hoje, até esse momento do barulho ensurdecedor do liquidificador. — Quando compramos dizia ser o mais silencioso! Sigo na tentativa simulada. — O quê? O que você falou?Não escuto fazendo a vitamina!
Nada, indiferente. Ele bem sabe, que nada me irrita mais.
Ignorarei também. Afinal são 7h e eu já fiz minha meditação, exercícios faciais e os de “barriga negativa”. Check na primeira hora do dia. Pronta, não preciso da aprovação dele.
Os gêmeos, na correria matinal para a escola, não reparam na nossa falta de diálogo. Mal sentam à mesa, já levantam com a comida na mão falando combinações que só entre eles são compreensíveis. A caçula, no fone, nem que quisesse participaria da conversa, se houvesse alguma.
As crianças mandam um tchau de longe e ele nem olha. Isso já é absurdo. Nosso combinado sempre foi não misturar nossas discussões e o relacionamento pais-filhos. Meu nervoso só aumenta e desconto batendo em tudo enquanto procuro aquela lixa de unha que nunca está onde a deixei.
Agora vai se levantar e sair da mesa, no mínimo, para se fingir de incomodado com minha loucura.
Permanece quieto.
Então é guerra. O que era um conflito por temas banais, totalmente passível de resolução rápida e com bom senso, tornou-se daqueles que durarão o fim de semana. Incluindo sogra, cachorro, periquito e papagaio.
— Oi Alice! Sim, já estou descendo. Claro, faço questão. Mas na volta do happy hour hoje, você dirige porque é meu turno, lembra? Desligo o celular que fiz questão de atender ainda no apartamento.
Não, as vizinhas-colegas de trabalho-amigas de vale night ainda não estão na cota para serem afetadas pela briga conjugal.
Calço meu salto, bato a porta, chamo o elevador.
— Ai, esse salto não! Lembro que tirei o sapato de dirigir do carro, para limpar.
Escancaro a porta, reparo aquela nuca impassível, concentrada permanentemente no vídeo do celular. Toc toc toc toc, meus saltos pisoteiam o flutuante a ponto de quase se partirem, mas a tal série repetida deve ser mesmo mais interessante que resolver de vez a confusão.
Nessa altura, um olhar bastaria. Um — Mirela, me exaltei ontem, estou quieto repensando. Não. Só meu salto raspando na cabeça dele enquanto calço a Crocs.
Dessa vez não bato a porta. Cumprimento o vizinho de andar que segurava o elevador. — Obrigada! Bom dia! Quase terminando a semana, não?
No trabalho debatem o assunto noticiado pela manhã: um feminicídio ocorrido ali perto. Em plena luz-do-dia, o ex-marido com arma branca. — Em que mundo vivemos. — As mulheres não têm mais lugar. — Em casa está ainda mais perigoso. São os comentários dos que anseiam por uma justiça urgente. Fico sem saber o que falar. Compartilho do sentimento póstumo, mas me aterroriza o antes, em como relações chegam a esse ponto.
Após o almoço e com a fome ainda presente resultante da marmita fitness, olho constantemente o celular para checar o status online. Nada. E isso me surpreendeu. Só pode ter decidido fazer home-office, se afundou na vergonha de alhear-se a família e intensificou o trabalho.
— “Mãe, tem q autorizar nossa participação no campeonato do futs! E tem q ir junto”. É a mensagem que encontro no grupo da família. E continua… — “Viu, mãe? Pode ser? Vc marca lá no app da escola”. — Meninos, vocês sabem que assunto de futebol é com o pai de vocês! Minha chance. Joguei a isca, agora é aguardar.
— Ele não responde. Faz aí mãe. No dia ele vai. — Faço só isso então. Não posso perder minha trilha do sábado, já que domingo cozinho a comida da semana.
— “E antes tem q me deixar no coral, mãe!” — Sim filha. Feito meninos, agora peçam pro pai e me avisem.
Não fisguei ainda, mas coloquei gente para me ajudar. E não, eles ainda não perceberam nada.
A noite seguiu como esperada. Dois Mojitos para alegrar a conversa previsível das amigas sem intimidade e a cabeça na mesa do café. Por isso, o efeito do terceiro foi no #tbt da nossa última viagem de casal, com a legenda “amor pra vida toda”. Cansada dessa briga arrastada, da qual já nem me lembro o motivo.
Agora ele foi marcado, vai ver e abrandar aquele coração que só eu sei como é mole. Estou até agora sem entender qual das nossas falas rompantes o fizeram se chatear tanto, a ponto de desaparecer das nossas vidas.
Só quero logo que a motorista da vez se canse; libertar meus pés; tomar meu segundo banho e rir dessa confusão toda. E que as pazes não se prolonguem porque tenho minha leitura diária antes de dormir.
— Tchau querida, adorei! Sempre bom! Mês que vem deixa comigo.
Ao final de um suspiro, no espelho do elevador, reparo meu rosto. Quando foi que envelheci assim? Passo alguns segundos tentando entender o que faço ali, naquele lugar. Olho para os botões e não sei qual apertar. Apenas alguns segundos, de branco total, um frio no estômago como em uma queda livre. Por fim enxergo o 17. Isso, é ali.
Tudo quase volta ao normal, não fosse a indignação e decepção. A rotina cronometrada deveria estar mais eficiente, acho que falta incluir algo. Quem sabe nos 15 minutos restantes do almoço — Google, encontre um app para estimular memória após os 50. Talvez dormir seja uma boa opção. Um abraço apertado com autorização para choro sem porquê, também. Mas não, esses não aparecem na lista de trends.
Abro a porta com cuidado. Escuto o videogame dos gêmeos e as tentativas de afinação da caçula. Olho para a mesa e não seguro a risada.
É sempre assim que ele me ganha. Resolvendo tudo com bom humor. Como conseguiu voltar para a mesma posição da manhã?
— Oi Marcelo! Também senti sua falta. O salto enfim não resiste e se quebra com meus braços ainda em movimento para o abraço estalado pelas costas e um cheiro no cangote, quando tropeço e seguro no ombro dele com tudo.
Ele tomba devagar, para o lado, e bate a cabeça na parede. Um pedaço da orelha cai no chão.
Solto um grito atordoante.
As crianças aparecem esbugalhadas no corredor.
Me agacho trêmula e pego o pedaço da orelha. Do lado de dentro um papel, algo escrito em um tipo de etiqueta.
Com a vista turva pelo medo e assombro leio:
Modelo Cyborgue Yi1723. Para atualização de sistema e recarga de bateria abra o QR CODE.
Cecília Vieira é brasiliense, mãe de dois meninos e mestre em RH pela Universidade de Salamanca, Espanha. Estreou na literatura infantil com o “Marina a girafa que queria ser estrela”, na Bienal SP/22. É contista em coletâneas e revistas literárias. O conto “Perfeitamente equilibrado” foi um dos vencedores do 19º Prêmio Mário Quintana de Literatura. Lançou em 2023 o ebook “Guadalupe sobre um tapete de mangas” e o livro “Se tudo der errado não volto”, pela Caravana. Siga a autora em @cecivieira_eu.
Todas as coisas indicavam para a conclusão óbvia: o mordomo era o culpado!
Como eu sei disso?
Olha, vou lhe contar, caro leitor, como surgiram em mim as primeiras suspeitas e como essa conclusão pareceu-me tão óbvia que não precisei agenciar grandes esforços para chegar até ela. E pensar que o safado tentou colocar a culpa em mim, por conta da minha condição… vocês sabem, não é mesmo?, essa corja de pernudos sempre tenta colocar a culpa em quem tem pernas curtas.
O mordomo atende por nome Jerônimo e trabalhava na nossa casa desde que me entendo… enfim, há muito tempo ele trabalhava na casa, mesmo antes da minha chegada, e vocês sabem como esse tipo de coisa, me refiro a questão temporal e de convivência com os donos da casa etc., é levada em consideração quando de repente aparece um vaso quebrado e o safado aponta logo para quem é supostamente mais frágil e não tem condições de arguir em sua própria defesa.
Jerônimo era afobado, percebi logo. Mesmo ele sendo mais velho do que eu na casa, ele se sentia menos à vontade, pois estava em posição de subserviência, enquanto eu… eu já cheguei em uma posição que só era inferior a dos donos da casa, o doutor Omar e a sua senhora, a dona Matilda. Os dois, já velhinhos e sem filhos naturais, ambos aposentados e morando numa mansão enorme no Corredor da Vitória, decidiram-se por adotar-me. Foram, numa terça-feira de julho, até o… e assim que me viram não aguentaram. Disseram que eu olhava para eles feito quem pedia colo, como quem, abandonado pelo destino, encontrou a sorte nos braços de dois velhinhos. E me levaram, mesmo eu não podendo falar, sabiam bem disso, mesmo eu tendo pernas curtas… talvez eles até gostassem desse fato, posso supor porque não tiveram filhos… não queriam crianças correndo pela casa. Eu era do formato e do tamanho que eles queriam. A criatura ideal para preencher o vazio de dois velhinhos desfilhados. Sim, fiquei sabendo depois que já haviam tentado ter filhos, mas a dona Matilda perdera três bebês e resolveram não tentar uma quarta vez, seria uma grande dor, mesmo que previsível. Jerônimo passou por tudo isso com eles. O mordomo, quase tão velho quanto os dois aposentados, estava naquela casa há pelo menos três décadas. Eu só tinha doze anos na época, um menino na beira dele… perto dos meus: já quase um idoso. Segundo pensavam: minha memória já não era das melhores, talvez também minha atenção, por isso a conclusão precipitada de que o mordomo realmente estava certo e que, muito provavelmente, num vacilo, eu tenha derrubado o vaso. Cheguei a crer também nisso. Duvidei das minhas próprias faculdades, duvidei das coisas que eu via, mesmo minha visão estando em condições perfeitas.
Que covarde! Estou me eximindo das minhas responsabilidades por um simples orgulho felino. Martirizei-me por todos os cantos da casa e, na falta de ter com quem conversar, decidi investigar o caso. Falta talvez dizer a você, desocupado leitor, que se investiguei não foi só pela dor de talvez ser o culpado do crime… talvez você esteja pensando: ora, mas tudo isso por um simples vaso? No entanto, não era qualquer vaso, nele estavam contidos os resquícios de muitas vidas. Seu Omar e dona Matilda poderiam até inferir juízos sobre o assunto, mas a única coisa que faziam era lamentar. Poderiam muito bem, numa hipótese até justificada pelas ocasiões, dizer que o pobre do gato sentia ciúmes, que, sabendo haver dentro do vaso chinês de porcelana azul as cinzas dos fetos abortados, cogitava os mundos possíveis em que ele, desgraçado felino, não fazia parte dessa família. Pobre gato caduco, diziam ambos.
Passei a vigiar a rotina de Jerônimo, eu sabia que ele escondia algo. Seus olhos sempre baixos, como quem tentava se desviar dos próprios pés. Sua gola desajeitada… sorte dele que não era eu o patrão. Meus tutores não se importavam mais com essas coisas de aparências dos empregados. Bem lembrado! Eu não havia situado o leitor de que na casa, além do seu Omar, dona Matilda, Jerônimo e eu (que me reservo ao direito de anonimato, já que eu, cá de onde falo, também não posso saber as graças de quem me lê), também estava na casa e, noutra ocasião, talvez pudesse ser uma suspeita, a cozinheira Cida. Lá fora ainda tinha, na garagem, o motorista Dirceu e, no jardim, o jardineiro Alfredo. Todos os nomes são falsos, é claro, dado que não quero expor os dois velhinhos que me acolheram em todas as minhas necessidades. E por que não coloco também um nome falso para a minha persona?, você pode se questionar. Eu poderia deixar o meu impaciente leitor gastar suas unhas… mas isso é um pormenor que talvez valha mencionar. É simples, o meu anonimato é por pura força do drama, senão este que narra não seria eu, mas outro.
Jerônimo, como eu ia dizendo, andava sarrabieiro. Ele suava de nervoso perto de mim, e isso me deu ainda mais fortes indícios de que de fato ele teria sido o culpado. Eu, como não sou bobo, provocava-o. A todo canto que ele ia, eu seguia atrás como um gato sorrateiro, com o perdão da ironia… Calculei que estava próximo de encontrar uma brecha nas evasivas do sujeito, pois, com todo aquele nervosismo, ele vacilaria.
Ainda restava buscar por uma prova e, talvez a coisa mais importante, saber se o crime fora fruto de puro descuido ou se ele havia premeditado. Se premeditado, restava saber as motivações que moviam o mordomo ao ato nefasto.
Era já fim de tarde quando, diante do pôr do sol, ou das poucas frestas visíveis em meio a tantos prédios que surgiram ao redor de nossa casa nos últimos dez anos, quando fui atingido por um relampejar de sensatez detetivesca. As roupas!
Eu tinha noção de que o mordomo não lavava suas roupas de serviço, era Cida quem fazia isso no sábado. Ainda era sexta e resolvi investigar mais de perto. Assim que Cida descuidou-se, distraindo-se com um café que estava no fogo, avancei por detrás dela em sentido da lavanderia, supunha encontrar lá as roupas do malandro. Para minha fortuna, ele havia deixado na lavanderia as roupas do dia do crime. Logo me pus a investigar mais de perto. Dito e feito! Encontrei um caco na lapela do safado e tratei de planejar como faria para levar as roupas até meus tutores.
Depois de falhar ao tentar enganchar com minhas garras, abocanhei a lapela, que tinha gosto de suor, e arrastei até a sala. Antes tive que passar por Cida novamente, que, para minha felicidade, estava concentrada nas xícaras… Quando cheguei na sala e arranjei a cena para que fosse de fácil constatação que o culpado era na verdade Jerônimo, me senti um verdadeiro Dupin.
Os velhos ficaram chocados com a situação e, após alguns elogios acerca da minha esperteza na arte de desvelar as injustiças, me pediram os mais grandiosos perdões que eu já tinha ouvido em toda minha vida de gato. Não se enganem, tenho só uma vida e ainda dura em média só a idade de um reles adolescente. Por isso não posso gastar minha beleza explicando pormenores. Mas, indo direto ao ponto, eu tinha certeza que o canalha confessaria tudo e diria os motivos assim que chegasse, no outro dia de manhã.
Passou-se a noite. E quando Jerônimo chegou a arapuca já estava armada.
Primeiro ele chorou, de praxe. Essa gente chora por tudo, afinal. Depois, tratou de pedir desculpas por ter colocado a culpa no “gato”. Canalha duas vezes! Podia me tratar diretamente, mas preferiu ser indireto e ainda me chamou pela espécie. Eu não fico chamando os outros pela espécie…
Porém, até eu me senti um pouco mal quando o sujeito passou a narrar os ocorridos.
Ele disse que naquela noite o seu netinho de dois anos morrera de febre amarela, doença que estava atingindo muitos miúdos da região. Acabou que não dormiu bem, mas, como nunca em trinta anos tinha jamais faltado um único dia sequer, resolveu trabalhar assim mesmo. No vaivém pela sala, depois de algumas xícaras de café, vacilou e esbarrou no vaso. Como a primeira criatura que passou pela sua mente foi eu, ele resolveu me acusar do mal feito. Entretanto, andava se remoendo desde então e estava decidido a se desculpar e revelar os pormenores, disse isso passando a mão pelo meu corpo, em sentido de desculpa.
Depois disso, ele suspirou e disse que estava tudo bem se quisessem despedi-lo. Os velhinhos se entreolharam e não disseram nada por um bom tempo. A situação estava estranha. Senti que talvez realmente cogitassem despedir o sujeito. Resolvi também agir.
Pulei no colo de Jerônimo, que agora estava sentado aos prantos e eu, mesmo sem ter mãos e com minhas pernas curtas, rocei em seu corpo buscando acalentar a sua dor, ser para ele, por um momento, o que eu havia sido toda a minha vida para aqueles dois velhinhos. Depois olhei para meus tutores diante de nós e dei um miado, como que dizendo: vejam este homem chorando a morte do neto e o peso da responsabilidade de ter derrubado o objeto mais importante da vida de dois velhinhos.
Dona Matilda foi a primeira a sorrir, depois o seu Omar.
Eu, ainda no colo do mordomo, dizia a mim mesmo: não pode ser mal sujeito este homem tão emocionado.
* Publicado originalmente no livro “Linha tênue” (Margem, 2022).
Paulo Zan é o nome artístico de Paulo Alexandre Trindade Freire, (Rio de Contas-BA, 1999), graduado em Filosofia e mestrando em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Já publicou os livros de contos Linha tênue (Margem, 2022) e Trapaças (Caravana, 2023). Participou das antologias “Pacote de Textos” (Org. Rafael Caneca, 2021) e “Acaso literário Vol. 1” (Org. Simone Campos, 2021). É apresentador do podcast Orgulhoso Cast.
Acordou bem, mas de repente se perguntou: hoje eu vou sofrer pelo quê? – O dia me trará a resposta. No trabalho desfilavam pessoas em busca de soluções para os problemas com o fisco. Aproveitavam e contavam suas desditas. Na cabeça do moço uma luz sombreada se acendia. Eis um sofrimento para me agarrar a ele. Em seguida, a moça confusa passava mensagem exigindo atenção e cobrando promessas acumuladas. Se colava ao coração mais um sofrer. Ia para o banheiro e vertia água desde os olhos no vaso branco que recebe todas as águas e mais. O moço sofria num gozo estranho as dores que vinham de fora. Não era bom, mas sofria neste prazer. Mais um atendimento e ouvia a mais um derrame de infelicidades que aderiam ao seu peito, muro de lamentações diárias. O moço mal dava conta do próprio muro e desabava em mais sofrimentos. O que mais tenho hoje para sofrer? Mal acabou de pensar, veio um telefonema sobre uma separação matrimonial na família. Culpas pra lá e pra cá vindas das partes envolvidas. Um nó na garganta crescia como na dos condenados no minuto cadafalso. Que pena deles e de mim que somos seres imerecidos de tanta dor!
Em casa, já se pensando longe dos sofreres alheios, um pássaro preso na gaiola vizinha lhe canta a canção de ninar dos viciados em dor.
***
CEGO POR QUERER
Numa aldeia qualquer na beira de um rio qualquer neste mundão de meu Deus uma criança nasceu cega e assim permaneceu até que, já na adultidade, um médico se compadeu e com mãos hábeis e instrumentos adiantados deu-lhe a visão. Que alegria! Pela primeira vez viu a cor do caqui, os ranhos transparentes na sua polpa. Antes só lhe sabia a maciez e a doçura do mel quando em sua boca deslizavam pela língua e descia para o destino. Viu o matizado de cada flor. Viu como eram as patinhas do seu gato que arranhavam carinhosamente as pernas quando pedia o ninho do colo. Os passarinhos… Ah!… Esses eram a delícia no novo paraíso de ver. Explorava-o com prazer.
A sua aldeia se banhava noite e dia no rio que, como um sino de bronze, anunciava as horas da vida o tempo inteiro. Um dia, se distanciando a poucos metros do seu chão, viu um passante chutar um cachorro que salivava por um pedaço de carne. No mesmo dia viu um homem com a brutalidade dos monstros subjugando uma quase mulher, em seguida matando-a para silenciar seus gritos denunciantes. No mesmo dia, já assombrado com o que via, um homem incendiou o outro que dormia numa calçada. Antes do cair da noite, viu barracos caindo em barrancos, rios envenenados, matas gritando em quedas, bocas de gente babando fomes, almas alienadas, zumbis nas cracolândias, dores-choros-rangendo dentes…
Voltou, apanhou trapos grossos e pretíssimos e fez tufos para ou ouvidos e vendas para os olhos serventes. Num tamborete sentou-se em silêncio com uma bengala ao lado, caso precisasse se defender do que os olhos cansados pudessem ver, sentir e sofrer.
O sol deu uma risada ardente e cínica. A lua derramou duas lágrimas conformadas.
***
O LUGAR DAS MÁSCARAS
Olhe, moça, eu já estive neste lugar. Olhe, eu sei o que você sente. Não sei dos seus motivos, mas sei dos caminhos que você trilhou para chegar onde está agora.
Sabe, quando eu conseguia acordar, abria o armário e escolhia a máscara do dia. Colava-a na minha cara e ficava protegido. Às vezes, no meio do dia, eu tinha que voltar correndo para casa porque a máscara que estava usando não mais servia: começava a se derreter com o suor das emoções e tinha que ser substituída mais urgentemente do que todas as urgências do mundo. Se a máscara se despregasse de mim, eu seria visto. O que faria, então? Ficar nu dentro da vida, na vista dos outros, seria o inferno pegando mais fogo ainda.
Sei onde você está, moça. Creia!
Como eu não podia levar o armário das máscaras nas costas comprei um baú preto, bem chaveado, e o carregava no lombo, rua acima, rua abaixo.
Diziam: – lá vai ele! -. Sim, lá vou eu com o baú nos ombros. E todos completavam: – Oh! – e eu me doía mais e dizia ai… Aonde eu ia levava meu companheiro indesgrudável. Já estava acostumado e parece até que me dava certo prazer. Pesava menos. A gente se acostuma com tudo. De bom e de ruim. Até com a dor que enfeia a gente acha bom.
Olhe, moça, ouça bem o que não me canso de repetir: já estive neste lugar e resolvi desmatar o mundo para encontrar um caminho de volta para um outro onde já estive também.
Encontrei uns anjos pela estrada e, no início do retorno, chutei-os. Eu precisava dessa companhia, mas lutei contra. Não sei explicar. Eles, teimosos, ficaram grudados. Me ensinaram que a vida é sempre o aprendizado pela estrada de volta… Reaprender a função das asas não é lá coisa muito fácil. Não é não. Mas a gente é novo e sempre pode ter tempo de escolher.
Há muito chão para caminhar. Há muito espaço para voar. Há muito tempo ainda… Talvez.
Não sei, moça, se você entende o que falo e digo.
***
O SOLDADO, O POETA, OUTROS E EU
Todo vestido em roupa macia passava o soldado e me olhava de longe. Todos os dias fazia o mesmo percurso entre o quartel e o meu portão. Demorou pra eu saber que falava. Que voz de trovão virou pontual os meus ouvidos, quando entardecia. Forte, mas não amedrontava. Durante três dias, como reza de promessa, parou diante de minhas ânsias e lábios duros tocaram nos meus. Até hoje não sei se gostei, mas de uma forma que não sei explicar, senti segurança. Num destes amanheceres ele abriu meu portão, pediu emprestados meus pequenos pés e os pôs sobre seus coturnos lustrosos e andou uns dez passos sem me deixar pisar no chão. Gostei daquele novo chão sobre o qual nunca havia caminhado antes. Numa noite, chegou vestido de guerra, tocou meu corpo vestido de alma, trançou meus cabelos com estranha habilidade de força e me fez prometer que aguardaria a sua volta para o destrançamento. Eu quis dizer sim com um beijo na sua testa sempre guardada por um capacete. Nossas alturas eram incompatíveis. Ele alto como um poste de luz. Eu pequena como… O fato é que ele não se curvou para receber meu respeitoso beijo. Meu coração travou naquele momento. Muitas guerras ele travaria, porém sem mim. Decisão aprontada e apontada para o futuro.
Aí apareceu o poeta, suave como um passarinho. Cantava no galho junto ao meu portão. Às seis da manhã começava o ritual de encantamento, incluindo o destrançamento dos meus cabelos, fio por fio, salpicando pequenas pétalas de flores sobre a minha sagrada cabeça – como costumava dizer. Na verdade, a sua pontualidade era feita de acordo com o seu pensar, pois 6 horas da manhã, na cabeça dele, era qualquer hora do dia. Em todas as horas o dia estava sempre nascendo somente para a minha alegria, por isso o seu descontrole não me incomodava. Já me derramava de amores e ânsias. Seus presentes inusitados eram a minha glória. Sua ausência era a minha incompletude. Ele dizia que meus olhos eram o mar transparente onde ele nadava despido; dizia que o fio do meu cabelo era o raio mais brilhante do centro da lua e, como se fosse real o que dizia, depositava esse fio na palma da própria mão e admirava como se um tesouro supremo fosse; em outros dias, depois de sumiços ao dobrar a esquina, chegava esfuziante e me punha no pescoço um pedaço de brisa. Oh, como eu sentia! Um outro presente demorou sete dias pra trazer. Ao chegar me disse que havia ido ao deserto encomendar um xale de areias e que ele próprio tecera com as mulheres das tendas de um oásis. Ele sumiu por sete dias até retornar coberto de saudades. Enquanto cobria-me os ombros com o xale, ia descrevendo cores e sutilezas e fazendo trejeitos de decorador de corpos sobre a minha pele desejante de alegrias. Mas ele gostava muito era de dobrar esquinas para encontrar inspirações para seus presentes. Até que um dia me cansei de tantas esperas e inconstâncias. Não podia prendê-lo e não queria soltá-lo. Ele conhecia o meu êxtase, mas desconhecia a força que morava em mim. Cortei o galho da árvore do meu portão onde acontecia o ritual da sua magia. Quebrei o joelho da esquina. Nada adiantou. O mago havia me enfeitiçado. Recolhi os retalhos das lembranças, guardei os versos e gestos no meu coração e segui sem mar nos olhos, sem fios de luz de lua, sem olhar para outras esquinas onde a qualquer momento ele pode dobrar.
Outros me chamaram a atenção, mas não quiseram construir histórias dentro de mim: Azuis, brancos, pretos, índios, verdes, amarelos, representados por letras, cegos e estropiados, embora não tenham deixado marcas profundas e não tenham morrido no esquecimento. Tempos depois, mal eu me havia recuperado do soldado e do poeta, chegou um verdureiro. Meu Deus, que mãos calosas e unhas de arar a terra! Matava minhas fomes como se fosse a ambrosia dos deuses espelhada nos galhos de acácia amarela. Entendia o Olimpo – assim como me pareceu – como ninguém e me tornava imortal. Emprenhou-me com o branco maná produzido nos seus chãos com gosto de pão e mel. Caí de paixão pelas mãos grossas e sua fortaleza no olhar. Caí de paixão pelas suas descrições pelos tempos de cada semente sufocada na cova de cada dia.
Fui com ele para os longes das terras verdes. Lá conheci o que havia no disfarce de suas mãos bem como o diabo mais fogoso que havia no mais profundo do inferno ardente. Estive no centro do vulcão. Lá aprendi a solidão. No leito o procurava nas madrugadas e nada. Vivi o esquecimento das maltratadas. Eu era a sua terra e sofria com o rastelo, a enxada, a foice, o podão. Ele gostava do cheiro do rabo das cadelas e me fazia cheirar igual para as suas satisfações. Eu me desconhecia e tinha vergonha de mim. Quebrei o espelho do quarto com uma pedra para não me ver. Não podia gritar as dores para que o grito pudesse alcançar algum ouvido, tamanha era a distância entre mim e o mundo. Estava mais invisível do que sombra no fundo do rio. Ele gritava em seus gozos dentro de minha carne rasgada e minha boca tapada. Naqueles meus dias, ele me embebia o rosto com meu próprio mênstruo. Fugi mato afora. Me achou e, na corda, me trouxe de volta. Pensei em morrer, mas eu não merecia este pior. Ainda não era chegada a minha hora. Pensei: pinhão-roxo, mamona, mandioca braba, cobra coral, escorpião… Não sei se deixei pra trás um aleijão morto-vivo ou um homem morto-morto. Por sete meses fiquei num hospital que acode mulheres. Sete meses depois tive o meu nome mudado. Sete meses depois… atravessei oceanos.
Porém não posso esquecer o rei queniano que conheci no Texas e me fez cometer um poema na vez que o vi. Nem precisei saber seu nome, mas sua coroa permanece nos olhos da minha memória:
Hoje eu conheci um rei.
Estava coberto e um preto lustroso que lhe servia de pele
e sua testa sustinha uma enorme coroa
invisível para olhos desatentos.
Do seu sorriso marfim uma voz
pronunciava uma lei sem igual
por aqui.
Na sua altura trazia o Kenya inteiro
reino que deixou atrás de si.
Nunca havia visto um rei em pessoa
ancorado na proa
deste imenso cais que é a vida.
Ambos de passagem pelo mesmo porto
a despedida se fez presente
e a gente partiu se carregando em visão
de um passado que ali se encontrara.
Outros espíritos viajeiros
Se encontraram em nosso peito
E todos seguiram seus destinos.
(Austin – TX – Janeiro de 2024)
Eu continuo, buscando pacificação com a existência e resistindo bravamente todos os dias. Seja lá quem me apareça pela frente. Este Eu pode ser um novo que se apresenta diante de mim. Vamos ver o que me dirá.
Neuzamaria Kerner é poetisa, nascida em Salvador (BA). Professora, graduada em Letras e com os cursos necessários para o exercício da profissão escolhida pelo coração. Membro da Academia de Letras de Ilhéus. Membro da Academia de Cultura da Bahia. Artesã na técnica Bauernmalerei (pintura camponesa de origem alemã). Publicações: “Fragmentos de Cristal” (poemas), “Eu Bebi a Lua” (poemas), “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna” (parceria com outros escritores)(ensaio), “O Livro-Arbítrio das Evas – dentro e fora do jardim”(poemas), “Marcas Escrevividas”(poemas), “Memórias do Silêncio”(contos). Além de publicações esparsas em revistas literárias, mantém blogs e canal no Youtube, onde posta vídeo-poemas.
Mais um 31 de outubro havia chegado. Dias antes, na reunião de condomínio, os moradores do edifício Porto do Sol, à beira-mar de Boa Viagem, haviam decidido em maioria, por mais um ano, comemorar o Halloween, o famigerado Dia das Bruxas. Não sem antes ouvirem o costumeiro e veemente protesto de Patrícia, que insistira que a festa deveria ser em homenagem ao Saci, conhecida figura do folclore pátrio. Voto vencido, por mais um ano.
— Pois que encham este prédio com essas abóboras ridículas. O verdadeiro homenageado do dia é o nosso querido Saci!
Filha do falecido Major Vital, do glorioso Exército Brasileiro, Patrícia havia aprendido com o pai o amor à pátria e a valorização da cultura nacional. Contudo, dividia o andar com Cláudia, que considerava uma dondoca americanófila imbecilizada, entusiasta da festa estrangeira. Detestavam-se há anos, sobretudo nessas ocasiões. Aliás, o Quatro de Julho era outra data insuportável para Patrícia.
Pois muito bem, o Dia das Bruxas, digo, do Saci, havia chegado e as crianças perambulavam fantasiadas de andar em andar, pedindo doces ou ameaçando com travessuras.
A primeira leva de crianças do condomínio apareceu no andar do conflito “americano-brasileiro” e tocaram a campainha das duas portas opostas do hall. Ambas as adversárias ideológicas as abriram ao mesmo tempo e, de relance, encaram-se, para logo desviarem os olhares para as crianças.
— Doces ou travessuras! — gritaram em uníssono, estendendo sacolas.
A patriota, com uma grande sacola cheia de bonecos de sacis de pelúcia, distribuía os brinquedos, sempre lembrando: “hoje também é o dia dele, garotada.”
Cláudia, fantasiada de bruxa e com enfeite de uma assustadora abóbora na porta, distribuía doces dos mais variados à criançada. Não tardou para que estas corressem ao elevador. Cláudia não pôde deixar de censurar Patrícia:
— Você vai ficar dando esses bonecos ridículos a noite toda, vizinha?
— E você é bruxa de verdade para andar com essa roupa patética, querida? — retrucou Patrícia.
Fecharam as portas ao mesmo tempo.
E foi assim por toda aquela assombrada noite, as crianças ganhavam bonecos e doces e as duas trocavam ofensas das mais estapafúrdias.
— Você é uma alienada!
— Você não sabe brincar. São crianças, sua metida!
E por aí foi.
— Não sei como seu marido tolera você vestida assim na sua idade!
— E você só se manteve solteira por causa da pensão militar deixada por seu pai! Ou então porque é sem graça mesmo e nenhum homem a quer!
Essa tinha sido demais, mexeu com os brios de nossa patriota. Bateram as portas.
E passou aquele dia para o sossego de Patrícia. Rancorosa, guardou as palavras da vizinha como ofensa pessoal e à cultura nacional.
Passou-se um ano, nova reunião de condomínio, nova derrota de Patrícia, que, além disso, pelas normas estabelecidas para a ocasião, deveria dar apenas doces, em vez de bonecos de saci. Inclusive, foi uma insistente proposta de sua rival.
Porém, Cláudia não sabia com quem estava mexendo. Patrícia era filha de militar e, pior, realmente versada nos mistérios das ciências ocultas, cujos segredos, ecleticamente abrangendo desde a Wicca a magias de matrizes de diversas regiões do mundo, foram-lhe ensinados por sua mãe, que a iniciou numa secreta instituição mística feminina, durante a faculdade.
As crianças começaram a perambular nos andares de baixo. Até chegarem ao nono, onde moravam, Patrícia iria praticar sua travessura com aquela alienada fútil!
Primeiramente, dirigiu-se para a grande fotografia de pintura a óleo de seu pai, em trajes de major. “Não neste ano, pai.” Era bicentenário da independência do Brasil. E prestou sua reverência numa continência com semblante respeitoso e resoluto. Logo após, correu para um cômodo específico do seu apartamento, com um altar, um espelho e um monte de objetos cerimoniais misteriosos. “Mal-amada nunca, americana de araque”, pensou.
Numa cerimônia um tanto macabra, despejou um óleo perfumado, pétalas de rosas e outros ingredientes num caldeirão. Após isso, canalizou seu rancor a uma boneca de pano, em cuja perna esquerda enxertou um graveto para, em seguida, sussurrando: “quebra”, parti-lo em dois, ao tempo que se ouvia um estridente grito vindo do apartamento do outro lado do hall. Um malicioso sorriso de satisfação esboçou-se em sua bela face.
As crianças alcançaram o nono andar. As campainhas tocaram.
— Doces ou travessuras!
Patrícia, toda fantasiada de bruxinha, com direito a chapéu pontiagudo e estampa de luas e estrelas em seu vestido negro, abriu a porta com o sorriso de alegria.
— Aqui, meninos, muitos doces!
— Obrigado, tia!
Os pequenos voltaram-se para o apartamento de Cláudia e tocaram a campainha de novo, com ansiedade.
— Já vai!
Quem abriu a porta, no entanto, foi o marido de Cláudia. Esta veio mancando por trás e se apoiou nos ombros do marido. Sua perna direita estava quebrada. Escorregara durante o banho.
— Dessa vez não temos doces, minha esposa se machucou, estamos indo ao médico.
— Sem doces? — Um garoto com máscara de Freddy Krueger, valendo-se do anonimato, foi audaz:
— Que quebre as duas pernas, velha manca e mocoronga!
E todos os meninos correram rapidamente pela escada de incêndio abaixo, aos risos.
— Essa juventude… não sei onde vamos parar… — disse o marido da Cláudia, amparando-a no seu mancar em direção ao elevador — a propósito, vizinha, você está linda de bruxinha.
Cláudia fuzilou os dois com os olhos. Não queria acreditar no atrevimento de seu marido e sequer imaginar qualquer coisa além de um inocente elogio.
— Obrigado, querido — disse Patrícia com sorriso nos olhos e uma piscadela — e feliz Dia do Saci para vocês! — finalizou retirando um involuntário sorriso do marido de Cláudia. Esta lhe deu um leve tapa na nuca, indicando com os olhos o elevador. Foram-se. Patrícia estava radiante, correu à sala e bateu nova continência diante da fotografia de seu saudoso pai. Missão cumprida! Doce travessura!
E nunca mais nossa bela e querida patriota foi impedida exaltar a cultura nacional no condomínio, ainda que fosse a entregar os já afamados sacis de pelúcia, seja no detestável Halloween, seja nas ocasiões de comemoração do nosso folclore. Pois bruxa que é bruxa de verdade encanta, não apenas nas vestes, como também enfeitiça em sigilo… em qualquer dia do ano.
Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP.Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional.
Um dia depois da derrota do bozo saí à rua com a pretensão de passar despercebido. Cláudia me pediu prudência e cuidado. Eu estava pouco me fodendo com o que os bolsonaristas iriam pensar. Para mim, o caso estava superado; sem mais brigas e discussões daí para frente. E, além de tudo, estava com uma ressaca filha da puta, que me revirava os miolos a cada passo. Eu deveria estar no escritório às 10h, pelo menos. Recebi mil mensagens de felicitações, por nosso novo presidente, mas uma em particular me afetou: “Petista vagabundo, está morto”. Claro, o número era confidencial. Pensei em fazer um B.O. na delegacia, mas percebi que não adiantaria muito, não iria “dar em nada”, como ouvi algumas vezes. Cheguei ao escritório, e uma amiga olhou para mim sorrindo, leve e feliz, sem esboçar qualquer palavra; ela é do meu time. Os outros colegas são, em sua maioria, “em cima do muro”, ou seja, bolsonaristas enrustidos. O ambiente estava tenso. Um colega passou na minha mesa e me deu os parabéns, com um ar zombeteiro, querendo puxar conversa: “Eu sabia que Lula ia ganhar, rapaz… Com ele no jogo, não tem para ninguém… Aliás, agora, não tem para ninguém mesmo!”, insinuando que Lula havia roubado e que estaríamos numa ditadura – fiz essa interpretação porque sei com quem estava falando. Suspeitei dele, sobre a maldita mensagem. Ele é do tipo rasteiro, sujo, capaz de passar a perna até mesmo no Honório, um antigo colega de trabalho, que saiu por implicância do dito cujo, o baba-ovo do dono. Stélio, o chefão, não poderia ser, apesar de não disfarçar a raiva e a apreensão. Entrou na nossa sala aturdido, dizendo que teríamos de resolver as nossas pendências “para ontem”, porque “o ano não estava para brincadeira”. Decerto, contava com o estado comunista; que nos tornaríamos, logo, logo, uma Venezuela, coisa do tipo. Mirei-o com um olhar sereno, para transmitir tranquilidade e estabilidade. Soube que ele, no mesmo dia, havia feito o desligamento de duas empresas de mídia, porque havia o risco de uma guerra civil no Brasil, iminente. Apesar das nossas profundas diferenças, ele me tratava bem por ser o seu braço direito na formulação das peças jurídicas, sempre intrincadas por sua mente caótica; e eu, logo eu, era responsável por desatar o nó. O novo colaborador, Jackson, mal olhava para os lados. Era meu imediato. Cumpria tudo a rigor, sem precisar de carões e afins. Nesse dia, teria saído mais cedo para resolver uns problemas no banco, para o chefe. Não poderia ser ele o agressor. Tácio e Lorena, os atendentes, não teriam tal liberdade, ainda que remotamente eu receasse que Tácio tivesse virado a cabeça, lunático que era. Ele, sim, era bolsonarista de carteirinha. Usava um broche com a bandeira do Brasil desde o começo do ano. Poderia ele planejar um atentado? Não consigo imaginar, com aquela cara de tacho e uma cabecinha trivial. Desde que eu havia chegado ao escritório ele não cruzou comigo; estava no almoço, depois na sala do chefe e no banheiro. Quem mais poderia me desejar a morte? Descartei Lorena, que era muito frágil e maria-vai-com-as-outras; votou talvez no belzebu por influência de seu parceiro de trabalho, com quem também mantinha relacionamento. É fato que, nesse tempo eleitoral, havia arranjado vários desafetos. A família estava dilacerada, não por mim, mas por parte achar que era dona da razão; por se juntar a um projeto de morte; por estar acampada em frente aos quartéis – e ainda dizia que iria salvar o país, mesmo para um comunista como eu. Apesar dos pesares, não consigo vislumbrar que algum desses malucos teria a capacidade de me ameaçar ou me desejar a morte. A não ser Francisco, o marido de minha prima. Puta que pariu, por que não me lembrei antes? O canalha, antes das eleições, apostou até o carro, alegando, veemente, que o bozo ganharia. Deve estar falido e desesperado. Liguei imediatamente para Cláudia, minha digníssima, e desmarquei a nossa ida ao aniversário da filha do sujeito, que se daria em duas semanas. Melhor prevenir do que remediar. Cláudia, bastante triste, disse que também temia a imagem brutal de Francisco. Bem, estas linhas são para descrever o pior dos cenários: Francisco está preso em Brasília, depois do 8 de janeiro. Saiu em todos os veículos de comunicação que ele foi um dos responsáveis por organizar o ato terrorista. Em seu celular, descobriram que havia um plano para dizimar a população comunista, incluindo o vencedor do pleito presidencial. Esse “um dia depois das eleições” se arrasta e ainda gela os meus ossos.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
“[...] a maldade dos homens não teve outra origem senão nas suas
calamidades.”.
Giacomo Leopardi
“Você testemunha injustiça, mas segue adiante em silêncio.
Que falta de sorte a sua, nesta noite estrelada,
presenciar certas coisas e agora ser culpado de passividade.”.
Neguinho Dantas
“Eu quando saio/Pelo mar afora/Faço de conta/Que já vou embora...”.
Antônio Marcos, Gaivotas
“Filho da pólis [1], como é fruto das tuas ausências a comichão da procura. O tédio é uma dor aveludada. Por isso, não se foi ainda o que havia de brutal no homem primevo (nos sufoca, nos toma em demasia e nos leva às obscuridades) — essa violência que engole a palavra, que faz calar, há o pó na garganta, as alimárias e as iras nas entrelinhas da vida, quando o diálogo falha e os homens latem, por isso o Coliseum de cada dia como paliativo. Nesta mesa de bar, olho ao redor da multidão e quase não vejo vivalma, exceto dentro do meu copo americano. Um menino noturno estende a mão para mim e me pede uma moeda para um suposto pão, um suposto pão também noturno, porque também não conhece Chopin; resta ao filho da pólis as migalhas noturnas. Eu não nego uma moeda a ninguém. Os homens são filhos das circunstâncias, porque em algum momento de suas vidas alguma coisa externa os toma de surpresa fazendo-os comuns, trêmulos, seus semblantes como de palhaços falhos. E o dia lhes é indiferente e o filho da pólis boceja muito, porque não encontra convívio entre os filhos da esculhambação, e ninguém entende uma palavra dita, neste estado febril em que se encontram as coisas; seu corpo é invertido, não haverá redenção. E se Jesus disse “Filho do homem”, eu digo hoje “filho da pólis”, porque a vez de falar agora é minha! E Priscila Richardson, amicíssima, pintadíssima, descolada, num sempre salto alto, questiona: “Que porra é o filho da pólis?”; eu digo que não sei ao certo que porra é o filho da pólis, que talvez deva ser, quem sabe, alguma coisa lá para as bandas da Grécia Antiga, que no fundo acho bonito dizer “filho da pólis”, porque eu leio filosofia nas horas vagas, porque eu tenho graduação em História, porque eu não odeio este corpo onde habito, porque eu gosto de falar difícil. Priscila Richardson pula à janela, salta e voa anu-preto ao firmamento, novas paragens e tal. O caso é muito sério, nosso Homo sapiens é nascido em berço de tumulto, como não sabe nada do Começo é um desencontrado — Homo sapiens sapiens humanitas, ou Homo sapiens sapiens bestialis. Eu disse que olhe para as próprias mãos e me diga a que pertence. Vejam adiante, no chão, o sobejo da civilização muito apreciada pelos roedores, e para aqueles que não suportam seus caprichos, hão de lascarem-se, ao final da reta! Ao meu redor, bandeiras variegadas, ferros em múltiplos formatos, fumo e fogo e cinzas, muitos dedos em ristes, muitos espadachins e espadados… é a vida que temos hoje. Aqui mesmo, neste bar, vejo o universal, uma repetição de gestos, de sensos de causas e efeitos, e os melhores homens dentre os outros, aqui dentro, são como seres héteros a desfilarem sisudos com o archote de Prometeu dentro do orifício monossilábico, dentro do rabo. Na beirada da calçada, à sombra profunda de uma frondosa árvore, comporta-se dócil o corpo inerte de um bebum. Tal imagem deveria ser posta no centro da bandeira nacional. Em sua boca dócil e aberta uma mosca é acolhida, por isso ainda há alguma bondade neste município de coronéis analfabetos; ele parece indiferente à visitante, assim como um porteiro de edifício, que apenas quer cumprir o seu dever. Será que o bebum sonha, ou há dentro dele apenas um branco vácuo? E se há este espaço zerado dentro dele, então, como poucos neste mundo, encontrou Jeová. Tão imóvel e tão desnudado de humanidade, não sei se é ainda um homem ou tornou-se uma pedra, ou um anjo mesopotâmico. Nunca vi no rosto dos que dormem um sono bom e profundo tamanho desprendimento e abandono de tudo. O seu rosto não é o de um morto, nem de um vivo, aliás. O seu rosto é puro como o de um santo. Em seu semblante eu vejo aquela absoluta ausência de expressão, típica das coisas que não têm rosto, como uma nuvem ou uma cachoeira. Imediatamente, ao observar o bebum inerte, um jovem que passa se contorce numa rajada de gargalhadas — a trágica música de Antônio Marcos roda na radiola, e me parece que tal gargalhada acentua uma espécie de dor que soa sob as notas graves do violão. Não percebi (porque o inconsciente rege nossos interesses) o fundo rascado da calça do bebum em que se via as nádegas, seu Manifesto. Apesar de tudo, escrevo. Eu escrevo como quem mostra assentado o rego do rabo. Por sorte, o melhor de perder tempo sempre arrasta junto um pouco de paixão. Escrevo para não me transformar em uma pedra e não perdoar meus clichês. Não tenho muitas ferramentas, não posso ter muitos livros. Às vezes eu os roubo. A moça da biblioteca da Universidade me olhou de cara feia quando passei por ela sentada e um aparelho emitiu um som estridente; eu não sabia que colado à orelha do livro que eu trazia dentro da calça jeans havia um dispositivo que acionava aquele aparelho sonoro; não houve consequências para aquele meu primeiro roubo, além de olhares desconfiados; aprendi a retirar as etiquetas com o dispositivo atrás da orelha dos livros, como fazia a nossa Josete Londa, e nunca mais fui incomodada pelo som estridente do aparelho à mesa da bibliotecária. Roubar, todavia, apenas para matar o tempo (dos poucos que abro para sondar as páginas, dentre os livros roubados, há muitos que não entendo uma vírgula, nem quero). Exceto a minha casa, há somente dois tipos de lugares onde estive todos esses meses: este bar e as pequenas bibliotecas, a deste município, a de Pariconha e a de Água Branca. E aqui, nesta mesa, minhas pequenas leituras, impregnadas da música de Antônio Marcos, se misturam aos vultos caóticos de bêbados que adentram à minha retina. Se leio um verso de Byron percebo que cada frase está impregnada deste suor etílico, deste cambalear sem norte, sem sorte, destas mãos ensebadas de fumo, destas faces de olhos confusos. Isto ocorre porque sempre o leitor coloca suas asneiras dentro do texto do autor. E arrisco-me demais para não escrever. E o escritor não é outra coisa senão um ostentador da própria sujidade interna, destas mãos ensebadas, destes olhos que olham sem querer curar o mundo; o escritor de ficção hoje no Brasil é um incendiário sem isqueiros, seu fogo é imaginário, porque se ele escrever críticas verdadeiras e não tendenciosas as pessoas vão dizer: “Ah, que escritor triste e problemático!” (e se ele escreve boas mentiras ele se acha Deus). Há um bálsamo na transparência sorridente de uma garrafa de vinho — do seu contrário, não haveria força que pudesse carregar-me, de um bar a outro, de uma estante de livros a outra, de um sonho a outro, de uma leitura muito superficial a outra. Eu mesma não sei se de fato devo estar… [2] Eu sei que todos os sentimentos arcaicos são perturbadores, porta de saída de si, um descontrole que explode na cara e no final, perde as estribeiras nas imersões alcoólicas; chora a musa que não se pode possuir, e eles pensam que suas próprias as lágrimas soam em fá sustenido, sibilando como cobra carente à vulva atônita e encrespada e até o âmago extático da alma da musa imaginária. É por isso que estes filhos da pólis se embebedam e morrem, mas não antes de chorarem tanto para as garrafas, até ao rés do chão do patético, até chorarem dez vezes mais os litros de pinga que bebem todos os dias; esses bêbados todos nunca deram no couro de verdade, sempre brocharam ou desconversaram em tolices após suas ejaculações precoces, por isso foram abandonados ou traídos, porque brochões verde-amarelos, os murmuradores durante o coito, se justificam acusando a parceira de frigidez, e transam ligeiramente e em viés, clamando em pensamento por Stalin, Adam Smith, Marx e Jeová. Este lugar fede a esperma frustrado. A estes filhos da pólis, assim como Onã [3], o capado, nunca será possível lembrar seus rostos — isso porque desaparecem, enquanto ainda pensamos neles. A vida é bela tal como o cio, um bocejo, um surto, tal e qual a descoberta por demais passageira de que Darwin estava certo! Quem não entende a vida se fode, se lasca, se arromba. Logo o afoito acha que sabe das coisas e bebe. E se há alguma beleza nessas vidas de boteco, esta se esconde fundo nos recantos de uma vida aos farrapos, quando o bebum, sempre dramaticamente machista, se lembra do seu amor impossível, da imaginária traição da amada, da falsa castidade desvelada em trágica lua de mel, no ciúme que o corroeu por dentro, da fixação a estas coisas todas tolas, e de somente poder enfrentar, enfim, o seu destino quando a pinga ofusca este destino. Por isso, numa metáfora, todo bêbado que se preze tem o cu à mostra. Não me embriago às quedas, ainda que eu mostre o rabo; qualquer coisa bela dentro de mim somente funciona quando escrevo, eu já disse, e a escrita é o ópio dos vaidosos, o pior dos vícios, porque aí a gente mostra toda a nossa intimidade a partir do buraco em que Jeová nos empalou. Veja aquele homem, ali, num recanto. Parece-me não ter ainda quarenta anos. Mas, já o rosto lavado de lágrimas, desde que começou a tocar Gaivotas, de Antônio Marcos. Todo mundo o conhece: é o filho do pastor, aquele, você sabe, que me visitou duas ou três vezes no passado. Nos primeiros acordes o bar se transforma — ali um moço tenso balançando a perna esquerda, uns abaixam a cabeça em reverência, talvez, e outros respiram fundo, mas, aquele filho de pastor, soluça sozinho, ali, num canto, e ele sabe que seu soluço é fingido, mas precisa deste soluço, porque é tudo o que ele tem; é por meio de tal soluço que se lhe ativa um fogo e toda uma arte de se emocionar; soluçando fingidamente lhe advém um transe e estando em transe consegue chorar de verdade, tendo como tema do seu choro a mulher que tanto ele mesmo traiu e maltratou e que depois foi por ela abandonado. Flagro um jovem apontar dizendo: “Olha o corno chorão…”. Na multidão que agora se choca, ombro contra ombro, há um apagamento de veredas com os próprios pés, porque ninguém mais ali sabendo para onde ir descobre nessas “ausências de lugar” um ombro imaginário e existencial para se recostar, enquanto anda cambaleante e pendido. São bárbaros os sentimentos. E tais são que nunca param de nos invadir. Pergunto àquele homem pelo motivo pelo qual chora? “É que a vida é tão grande, senhora, que até me sinto acuado, às vezes”. Descobrimos que fora dentista bem-sucedido, até cair no vício. Mesmo bêbado ele me confirmou: “Eu fui dentista. Altamente profissional! Já implantei molares de jegue em boca de lobisomem.”. Escrever. Na verdade, nunca entendi plenamente a palavra, quando igual aquilo mesmo que ela diz e que não pode se tornar o que ela diz (são os bárbaros!). “Eu fui dentista.” — ele disse —“Hoje, diante das circunstâncias, elegi este modo existencial”. Vinte anos de casado, dois filhos; o divórcio. Não quero me debruçar sobre a sua vida — eu pensei —, ou escutá-lo se rememorar da sua convivência familiar. Não haveria explicação a certas coisas. Elas acontecem, apenas (e por não poderem falar acerca do impossível muitos deles escolhem chorar, ouvindo Antônio Marcos). Ora, querer dizer mil coisas sobre um acontecimento pretérito é o mesmo que não ter o que dizer. Ofereço-lhe meu ombro para recostar. Ele relaxa por um momento e soluça, talvez para pensar com dificuldade acerca da ideia de pegar em minhas coxas, o que de fato acontece; eu lhe nego e ele insiste; um bêbado total não merece o toque da pele suave de uma coxa feminina, por isso deixo-o subir um pouco mais por minha coxa depilada e ele apalpa num susto os meus testículos. O susto! Sai às pressas cambaleando, os olhos redondos; eis mais um bêbado do interior, típico dos pequenos vilarejos sertanejos — ainda que esteja péssimo, discerne bem com o tato o que no fundo eu sou em parte. Acho que este velho dentista não acredita mais no feminino. Talvez, a condição de alcoólatra não lhe permita pensar que hoje uma mulher como eu pode ter testículos. Não tenho preconceitos contra bêbados, ou ojerizas. De qualquer forma, a gente roda e roda sem jamais poder entender e explicar o turbilhão de acontecimentos desta vida — por causa disso, talvez, ele escolhesse chorar ouvindo Gaivotas, de Antônio Marcos. “Eu fui dentista! Me respeite, seu viado!” — apontando o dedo para mim ele braveja do outro lado da mesa. A sua cara tem a dignidade confusa de um capitão num naufrágio.
[1] Encontrei este texto num boteco. Escrito em papel de embrulho, letras miúdas, duas folhas escritas, frente e verso, dobradas em quatro partes. Assinou-se “Aline” à caneta vermelha, à esquerda e embaixo. Digitei seu texto e o modifiquei bastante, para deixá-lo mais confuso.
[2] Nesse trecho há uma mancha escura de “tira-gosto”, isto é, de gordura de toucinho, pelo cheiro rosado. Infelizmente não consegui transcrever toda a frase.
[3] “Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou”. Gênesis 38:8-10
Wellington Amâncio da Silva é sertanejo nascido e criado no interior das Alagoas, Delmiro Gouveia. É formado em Filosofia e mestre em Ecologia Humana. É membro do editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca, entre outras. Publicou livros de ficção e ensaios em lugares interessantes.
Ariel e Duda tinham uma grande amizade. Nasceram na mesma data e local. Enquanto Ariel queria agitar, Duda cuidava de tudo. E era isso que fazia a amizade tão forte. Completavam-se nas diferenças. Ariel nunca abandonou Duda no tédio. Duda jamais deixou Ariel entrar em enrascada. Contudo havia algo errado. O mundo parecia estar de cabeça para baixo. Minhocas que eram, viviam na terra. Sabiam que em direção ao centro do planeta tinha pedra e, mais para dentro, tinha muita quentura, tanta que a pedra derretia. Para a direção contrária, o mundo terminava nos limites da superfície, onde a terra se limitava com o ar. Minhocas ocuparam a região subterrânea desde o início dos tempos. Porém nenhum salto de minhoca nos ares foi registrado. E isso intrigava Ariel. Talvez temessem a captura por seres que habitavam aquele espaço, como aves, humanos e toupeiras.
Certo dia, Ariel convenceu Duda a irem aos limites do mundo conhecido. Queria testar a realidade. E queria registrar aquele momento. Por isso Duda iria também. Ariel portava uma câmera fotográfica. Quando chegou à casa de Duda com o plano pronto, a primeira foto foi da sua expressão reticente:
– Tsc tsc tsc, isso não vai dar certo, disse Duda balançando a cabeça de um lado para o outro.
– Claro que vai, Duda, e lembrarão de nós por isso, respondeu Ariel categoricamente.
Os olhares se atravessaram de forma profunda. Ariel já sabia a resposta. Se isso acontecia, Duda tinha topado. Era um desafio singular e Duda sempre acompanhava Ariel em suas ideias.
– Não passaremos por essa vida à toa, afirmou Ariel.
– Mas não faço questão de escolher algo que seja perigoso, retrucou Duda enquanto caminhavam pela rua central do vilarejo.
Caminharam uma hora pelas raízes laterais, depois duas horas pela raiz pivotante, até atingirem a zona principal das raízes do Ipê-amarelo, perto do tronco, e pararam para descansar. Pegaram o lanche na mochila, a água, e confabularam o que poderia existir na atmosfera do planeta terra. Será que de fato conheciam? O que aconteceria naquela jornada? Eram dúvidas que somente seriam respondidas depois que terminassem o dia. Finalizaram a refeição e seguiram viagem. Afastaram-se uma boa distância do tronco do Ipê-amarelo e depois subiram em direção ao fim do solo. Quando atingiram a superfície, conheceram de imediato o infinito. Que visão esplêndida! O tronco do Ipê-amarelo erguia-se imenso, com a copa aberta lá no alto, tão distante, seguida de um interminável azul do céu. Enquanto contemplavam a vista sem precedentes, a brisa acariciou os seus rostos e sentiram algo realmente novo.
– Ariel, nada que eu pudesse imaginar explicaria o que sinto agora, confessou Duda.
A manifestação não demandava resposta. Sorriram e continuaram a sentir a brisa. Era um dia de verão. O tempo estava limpo, a temperatura amena. Poderiam passar dias assim, não fosse o risco desconhecido. De onde estavam, planejaram como seria o salto. Duda permaneceu no mesmo lugar e Ariel foi até a raiz mais próxima, que estava exposta fora da terra. Subir uma raiz não era como andar no subsolo. Precisava de mais equilíbrio para superar os obstáculos sem apoio, vencer a gravidade e não escorregar. Para Ariel não foi tão difícil, mas para Duda seria. Duda suava só de ver Ariel vencer cada etapa.
– Duda, existe muito mais terra do que sempre imaginamos!
A exclamação de Ariel tentava traduzir a sensação de enxergar o gramado que circundava o Ipê-amarelo, as árvores ao fundo e o desconhecido brilho da água reunida no lago próximo. Duda interrompeu seu êxtase:
– Pule logo!
Ariel atendeu à ordem. Retorceu todos os anéis de seu longilíneo corpo e saltou aos flashes de Duda. Enquanto manobrava no ar com a naturalidade inexplicável para qualquer minhoca, um pássaro mergulhou em sua direção. Queria capturar Ariel em pleno voo. Duda assustou-se, gritou, tirou fotos e correu, tudo por instinto e medo. Sentiu então algo empurrar sua cabeça contra a terra e não viu mais nada. Ariel pressentiu a tensão e olhou para trás. O pássaro se aproximava como uma flecha até que bateu uma das asas na raiz de onde Ariel saltou. Lado a lado, Ariel e o pássaro caíram sobre a grama. O pássaro se levantou, encarou Ariel e investiu com toda a velocidade, de bico aberto. Um milésimo de segundo. Nada mais do que isso. Alguém puxou Ariel para dentro do solo e o pássaro encheu o papo de terra.
– Foi por um triz, disse ainda ofegante.
– Quem é você? Perguntou Ariel abrindo os olhos.
– Eu não tinha nome. Moro por aqui desde que nasci. Certa ocasião alguém que passava me chamou de Lee e disse significar habitante do prado. Desde então eu me apresento assim.
– Muito obrigado… mesmo!
Ariel entregou o corpo, mas de imediato se ergueu e indagou:
– Você viu Duda? Estava ali adiante.
– Sim, enfiei na terra quando passei para salvar você, contou Lee sorrindo.
Lee trouxe Duda para perto de Ariel e sentaram para descansar.
– Meu coração ainda está acelerado, disse Ariel.
– Deixe-me ver, atentou Lee ao encostar no seu corpo.
Ao sentir as batidas do coração de Ariel, a expressão de Lee causou estranheza. Duda, para evitar qualquer má notícia, disparou a falar:
– Somos do Buraco de Minhoca, um vilarejo localizado na zona pilífera das raízes laterais desse Ipê-amarelo. Moramos lá, pouco depois da região metropolitana. A capital da população de minhocas do Ipê-amarelo estende-se desde a parte antiga da ocupação, na zona principal das raízes, até a parte nova, na zona lisa, onde ocorre a expansão urbana, interligadas pela raiz pivotante. Você poderia nos visitar um dia, Lee. Agora temos que ir. Temos fotos para revelar e precisamos superar o baita susto de hoje.
– Fiquem um pouco mais, respondeu Lee. Quase ninguém passa por aqui e eu gostei da companhia de vocês.
– Duda tem razão, Lee. Temos que ir. Nós devemos essa salvação a você e será um prazer enorme receber a sua visita em nossa vila. Não deixe de aparecer. Nossa comunidade é isolada e se alegra demais quando chega alguém de fora. E esperamos ter boas fotos para mostrar.
Todos se despediram. Ariel e Duda tomaram o caminho de casa e Lee permaneceu espreitando até não ver mais ninguém.
Geraldo Lavigne de Lemos sofre de poesia crônica, costuma alinhavar a alma nas memórias e se imiscuir entre as letras para expressar o que sente. Escreveu cinco livros de poesia, coorganizou uma antologia e tem no prelo uma reunião dos quatro primeiros livros. Agora se arrisca em textos curtos de prosa
Angelo Badalamenti morreu. Foi outro dia, foi dia desses. Aqui em casa, ele vive no som que sai das caixas e abafa outro, vindo de uma britadeira tão longe, tão perto. Antes da britadeira, veio o batuque, o da torcida, exaltado a cada transmissão dos jogos do Brasil. Seleção eliminada amanhã faz uma semana, pandeiros e atabaques silenciados, chances de Hexa mais finadas que o compositor, resta ao pedreiro trabalhar hoje sem a ressaca do jogo de ontem, o que não houve, sem a cabeça inchada pela goleada que, muitos garantem, levaríamos da Argentina. Muitos brasileiros comemoram o fato, os fatos, de termos sido poupados da humilhação, de Messi poder enfim levantar a merecida Taça, de simplesmente o Brasil ter se fodido, bem-feito, o time do menino mimado sonegador não me representa.
O rapaz era desses. Metrô lotado, sexta passada, uma hora antes do jogo, camisas e adereços verde-amarelos por toda parte, ele ilhado. Por cima da máscara de novo obrigatória no transporte público, seus olhos se alternavam entre a talvez namorada e os outros passageiros, a uma o carinho, aos outros o desprezo. Cabelo comprido na altura do peito, camisa de flanela da cor do seu voto e camiseta do Ratos de Porão, para não restar dúvidas de que ambos eram vermelhos. As lentes dos meus óculos escuros o impediam de ver que eu o observava e protegiam meus olhos dos seus, mais perigosos do que os raios UVA e UVB.
Eu era só mais um alienado, desprovido de senso crítico, se não pior, quem sabe vindo da frente de algum quartel, saído de lá por poucas horas apenas, só o tempo de ir até algum bar assistir ao jogo e tomar umas brejas com outros golpistas também de folga. Ele era o filho que eu nunca tive, cabelo mais comprido do que o meu na idade dele, mais liso por ter puxado à mãe, a camisa de flanela igual, o voto igual.
Visto pelos olhos do meu filho, passei a também me desprezar, vendido, com a vida ganha, a vida fácil, fácil ignorar a desgraça que abate tantos, o sistema que a tantos crucifica, como diz o Gordo, não se abalar com os mortos, com os miseráveis, famélicos, vestir as cores-símbolo do fascismo tropical, da pátria amada apenas por quem, como eu, não é vítima dela. Isso, tiozão, vai lá ver o seu jogo, vai lá gastar 200 paus, isso por baixo, depois, na saída do bar, passar em frente e ignorar a mãe sentada na calçada, o filho no colo, vai lá, seu arrombado.
Mas eu não sou o que meu filho pensa de mim. Meu filho não existe. O que existe é o som de Angelo Badalamenti e o som da britadeira, cessado há pouco, hora do almoço do pedreiro.
Leandro Damasceno Leal é paulista de São Caetano do Sul, onde nasceu em 1977. Desde 1999, trabalha como redator publicitário. Estreou na literatura em 2014 com o romance “Quem Vai Ficar Com Morrissey?” (Edições Ideal). Em 2021, publicou “Olho Roxo” pela Realejo Livros. Em 2022, lançou “Fidel e a peste”, pela mesma Realejo.