Penso que desde muito menina hei de ter tido um coração vermelho e até que faceiro, como as penas do tiê. Mas se pena é para o passarinho como realeza, comigo há de ser sempre em sinal de tristeza, de resto como para o resto das gentes em geral.
Beleza assim, de se ver, Deus não me deu. Um cabelo meio que ruim, cor de mijo em lençol de cambraia; um porte até que de esteio avantajado, porém cortado sem prumo nas linhas de brando e cumeeira — de modo que não combinou: nem gordura com gostosura, nem magreza com esbelteza. Mas hei de ter agradado alguns homens, assim mais por brincadeira do que por bem-querer de noiva, companheira. Tenho cá minhas prendas, que é saber um forró como quê, moquecar badejo com dendê, coser colcha de retalhos e bordado de qualquer ponto.
Mas, no fim, eu me pergunto do que é mesmo que adianta, quando não se tem para quem? Parece um ouro que nunca hei de gastar, por me faltar assim uma pessoa a quem fazer agrado. Riqueza sem porquê desgraça mais que miséria.
Mas choradeira é coisa que não presta, afora em hora certa, como no frio da morte, ou em avesso de grande alegria. No mais, xô égua.
Para tudo nesse mundo há de haver uma compensação, como por exemplo a de eu ser Madrinha de tanto menino-homem e menina-mulher nessa terra de Deus. Se não de batismo, que conto sessenta, ao menos e mais tenho um tanto de afilhados de sal, o que é também de tanta importância quanto os santos óleos lá do santo padre lá da santa igreja: dia desses, um franzino vai lá em casa, pede um copo d’água e eu, sem que ele veja, entrouxo uma pitada de sal. O bichinho bebe, diz:
– Vôte!
Eu me rio de entortar a cabeça de lado, ele um pouco se amofina e desata a rir também. Pronto que virei madrinha, Madrinha de Sal; o menino pede bênção e eu: Deus te abençoe. Mais um. Mais um moleque para eu confeitar bolo, ensinar conta das quatro operações, acudir na hora da precisão, dar pancada – levinha – quando na malcriadez e, no caso de pai e mãe faltar, virar cria minha, que eu gosto de criança, demais.
A bem dizer, eu andei sendo uma virgem muito velhinha nessa minha vila, até que um dia retei: se cada gente mulher foi feita com fechadura, é pois porque cada homem nasceu com uma chave, que só serve mesmo numa portinha. Que Deus fez assim, eu acho, mas é um modo de falar, só para o meu entender.
Eu assuntava e desassuntava, sentada numa cadeira, espiando a janela, que devia de existir um amor meu andando por esse mundão, com uma chave que só havia mesmo de servir no meu segredo. Porque todo mundo é um e para um existe o outro.
E onde estava esse homem? — eu matutava comigo, fazendo caraminhola… Agora ele há de estar armando um mundéu, mor de pegar os bichos desavisados que passam na trilha. Ou o diacho será pescador e haverá de estar em alto mar, com esse Vento Sul, meu Deus?
Ou será um mestre carpina de boa lavragem, um viajante mascate, até quem sabe um gringo? Um gringo estrangeiro que haverá de chegar nesse veranico mesmo, da Suíça mais francesa, como tantos que aqui aportam, sempre.
Onde haverá de ficar a Suíça mais francesa?
Longe, lá longe, no avesso desse mundo.
Um homem louro, lourinho, de cabelo afogueado e olhos d’água, até quem sabe gateados?
Um índio moreno, moreninho, de cabeleira escorrida e mais preta que o assum.
Ou baiano aqui das terras da Bahia, cor de jambo, cabra de prumo, risonho, valente.
Um qualquer, que beleza não é o que vale primeiro.
Beleza a gente inventa no olhar o outro, quando se aprecia e se gosta, gosta tanto que vira amor e luz maior. E até que o outro seja um papa-capim a gente enxerga nele um tiê-sangue, o passarinho mais caprichado de Deus.
Um qualquer pode vir a ser meu bem-querer, porque depois que eu me tiver nele, aí sim, eu acho que ainda dá tempo de desabrochar e até fazer menino.
Mangabeira boa não é torta e põe fruto temporão? Assim, que eu possa ser uma desse tipo, quem sabe lá de minha sorte cigana, dos desalinhos da minha mão?
Enquanto ele não vem, meu Deus, eu vou por aqui tenteando, armengando um que outro namorico, só assim para ir mascando um pouco esse vazio que chega a doer no meio das pernas do mês, quando entro nos dias da fertilidade de terra roxa, roxa terra morena-morená.
Entra ano, vai des-ano, ninguém me vem aqui plantar, de modo que acabo aceitando uma que outra semente que o vento toca ou o passarinho solta, só para não ficar assim, sem função.
Falando sem zás-trás, eu aceito um convite no depois do baile, um perfume e um abraço roliço, chamegos… No mais das vezes de gente de fora, que a gente aqui de dentro chamamos por nome de Turista, Branquelo, Gringo, Biribando… Dependendo do ar de cada um.
Pois eu numa noite que outra me vou com um desses aí, por que não hei de ir? Dá assim uma alegriazinha curta e depois uma tristeza mais fundada, mas e daí, ouri-curi? Tu pões coco pra ninguém. E vai, e vem, na hora do momento a gente só quer mesmo se alegrar. É menos pior se arrepender no depois que arrenegar no antes.
Mas toda vez, no instantinho mesmo em que vou, digo para mim, na minha fonte, que aquele ali é o meu amor. Então, que a bem pensar, eu nunca deixei de bem-querer-amar esse um que tem minha chave.
Enquanto ele não vem, eu fico brincando com o boneco dele; abraço um e digo: é ele. Beijo uma carne e falo: é a dele.
Quem sabe um dia eu acerto? Quem sabe se minha natureza não é assim a de um licor de jenipapo que precisa de muito, mas muito reforço de tempo até chegar ao ponto de adoçar um homem?
Agora: eu também penso aqui comigo que um licor não tem serventia se ninguém bebe e só formiga bole, na falta de alguém que o guarde num armário de carinho. Eu acho.
E do que adianta eu achar, meu Deus? Ô vida de dura travessia de ponte caída, vida boa não fosse a morte, que eu por hoje ando arretada e falando sozinha que nem criança de colo e velho caduco que volta a menino, porque mocidade sem aquele quê é o mesmo que um fruto verdinho que se perde sem amadurecer, e nem passarinho quer comer, nem o tempo faz moldar.
Mas meu coração não foi arrepanhado de vez, nasceu assim encarnado como as penas do tiê, voa, voa tiê-sangue, por esse mundo sem fim, vá dizer a meu amor que nunca se esqueça de mim.
(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)
Antes de se estabelecer o equilíbrio, o mundo real e o mundo ideal não se olhavam face a face.
O Zohar
Débil, estúpido, soberbo, demoníaco, louco, estranho, doente, sem respeito ao sagrado e às leis; palavras sinônimas ou de similitude clara que definem com a precisão de um cirurgião meu caracter. Ó, como não adorá-las e admirar-se diante delas sentindo-se um deus, um deus cuja índole o eleva acima dos mortais? Bem que eu deveria enaltecer-me ante a tal nomeação adquirida por atos reprováveis – louváveis? Não sei –, no entanto, sinto-me um símio no meio de homens, tentando em vão, como eles, manter-se em pé. E ainda que busque desviar-me do meu caracter, a natureza impele-me a segui-lo. Sou então, por isso, um mau caracter; inevitavelmente um mau caracter. Parafraseando o apóstolo, vejo que vive nos meus membros outra lei. Não me arrependo de sê-lo assim, mas admitindo a corrupção de meu espírito, decidi criar um ser melhor que eu, alguém cujas ações pudessem evitar as minhas. Comparei-o ao melhor dos seres possíveis imaginados por Deus, e o fiz.
No começo… Antes do começo, assim que o imaginei, pensei no que ele faria de bom para mim, ainda que eu não saiba conceituar o bom. Determinei o seu propósito e as condições de existência que permitiriam sua durabilidade como ficção. Pensei tal como um sábio a liberdade desta ficção e os limites a ela impostos por sua natureza irreal, e o que nela haveria de maravilhoso e de verossimilhante, e o que possibilitaria a ela romper com as duas como também o que por meio de ambas poderia desenvolver. Pensei, portanto, nela como indivíduo. Procurei sua alma nos símbolos, na geometria dos símbolos, nas palavras, nas frases, no texto. Procurei o seu vazio. E a cada imagem criada ela surgia mais radiante e perfeita. A mim ela pareceu boa. Certamente a ficção era melhor que o real. Era lógico acreditar que ela permitiria a mim, evoluir – noutras palavras, escapar a minha vil condição. Considerei, contudo, se os limites da folha seriam para ela um impedimento físico para se desenvolver livremente ou se como um carrapato habituado à superfície, não saberia encontrar tais limites, julgando, logo, ser aquele espaço o seu mundo, e se, caso descobrisse, como reagiria. Mas isto era um equívoco de minha parte, jamais uma existência ficcional poderia romper os limites da folha e se tornar real, assim como jamais o real poderia converter-se à ficção. Ao menos… Após muito pensar, criei a ficção de mim mesmo. Criei-a no momento em que escrevi seu nome em um lugar qualquer num tempo qualquer.
A ficção não era perfeita, todavia, por ela tudo podia ser melhor; antes de tomar qualquer decisão, fazia-a com que agisse antes de mim; escrevia a cena, o momento da ação, o que eu faria caso se… de um modo que na realidade não agiria, de forma tal que, eu poderia ponderar meus caminhos e evitá-los. Acreditei com muita fé que sua existência me curaria. Mas a ficção não tem por finalidade curar o real, não pertence a ela como a um escultor modelar a realidade; sua função é outra, contaminar. Mesmo assim, depositar a fé nela não ia de encontro ao que eu mesmo lhe havia estabelecido.
Passei a mergulhar em seu símbolo, convenci-me de sua beleza, e cri no seu milagre. Antes de ir ao trabalho, antes de amar minha esposa, antes de pensar, antes de respirar, antes que o dia começasse, antes que o outro dia começasse, antes, antes, antes, antes mesmo de, a ficção era e por ela tudo mais era e sem ela nada havia de ser. E com ela meus dias se tornaram melhores. Por meio da ficção eu percebi ser possível evitar o mal. Meu casamento, que antes estava uma porcaria, alcançou o status de sublime, tudo porque a ficção havia me dito como seria se. Ora, era verdadeiro que eu havia me convertido à ficção, contudo ela jamais se converteria a mim. Então, ainda que sua existência me permitisse ser outro de mim mesmo, era impossível ela se tornar eu. Havia um limite intransponível. No entanto, ao olhar para minha vida, semanas após tê-la criado, era inevitável não pensar o quanto em tudo estava a sua essência. Quisera sê-la, mas tornar-me ela, como já disse, era impossível. Eu procurei convencer a ficção de se tornar real, eu busquei de todo modo arrancá-la daquelas folhas e outorgar-lhe a dádiva de estar em meu lugar; eu lhe fiz uma proposta irrecusável, a qual qualquer outra ficção aceitaria sem titubear, mas ela rejeitou.
A ficção rejeitou seu autor – e, ainda que esta rejeição fosse a prova de sua liberdade, continuei a acreditar que ela existia sob o meu querer; enganei-me; a verdade era que sua liberdade demonstrava incontestavelmente o quanto ela existia sem mim. A ficção não dependia mais do seu autor. Depois disso, não houve dia melhor. Todas as escolhas se tornaram acidentais; a vida reduziu-se a um acidente, quando antes se podia chamá-la milagre. Era como estar diante do quadro, Reprodução proibida, de Magritte, por mais que olhe você não vê o rosto. Voltei a fumar cigarro, ouvir blackmetal e tomar banho com o corpo mergulhado em bolsas de gelo seco. Minha esposa mudou-se para a casa dos pais. Tive um companheiro matinal que chegava às 6hs: o jornal – mas, depois de conversarmos, eu era forçado a rasgá-lo e queimar tudo o que ele havia dito na lareira. Quando à noite eu necessitava de uma companhia, pousava no pinheiro da rua ao lado, uma coruja branca e cantava-me uma nênia, ao som dela eu adormecia. Quem, no entanto, suportaria esta vida miserável? Quem, no mundo, admitiria a realidade sem manifestar asco? Eu tinha fome… fome da ficção. Pensei no rosto que não via… tornou-se necessário forçá-la a mostrar a face.
Não precisei de tempo para pensar em como, a resposta, sabia-a desde o princípio. Coloquei uma página em branco em frente à página onde está o último parágrafo, e aconteceu o que imaginei: a ficção olhou-se a si mesma no vazio da outra página. E eu, de fora, vi seu rosto. Ela percebeu que a havia descoberto e procurou se esconder, mas era tarde, meu olhar a detivera.
Novamente a ficção me pertencia… me pertence, entretanto, até o momento em que cansado rasgue suas páginas ou até a hora em que ela declare minha morte.
(Anderson Fonseca formou-se em Letras e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estácio de Sá (RJ). É escritor e crítico literário. Publicou os livros Alucinação (poesia, 2009) e Notas de Pensamentos Incomuns (contos, 2011), organiza a antologia Veredas: Caminhos do Conto Contemporâneo Brasileiro (Ed. Oito e Meio, 2013). Editou a revista Confraria (Brasil / Portugal, edição impressa, 2009, Ed. Confraria do Vento); editor do selo Orpheu (2010-2012), selo de poesias editado em parceria com a editora Multifoco (RJ). Tem textos publicados em diversas revistas. Trabalha como leitor crítico e revisor de editoras e agências literárias)
“Pharmakon, o amor é pharmakon.” Assim se apresentou à garota e à sua lata vazia de cerveja. A garota não era bonita ou feia, gorda ou magra, mas se fechava em uma indefinível vontade quando conduzia a lata de cerveja à boca, o que de imediato o conquistara. Percebera-a no intervalo breve entre o quarto e quinto gole longo de vodka. Ela bebia-se sozinha no canto mais escuro do bar, meio em pé, meio apoiada na parede. Os quadris se sustentavam largos demais se comparados ao resto, tão estreito.
— Pharmakon, o amor é pharmakon. — continuou, com uma pronúncia desastrada.
Ela não sabia grego, achou-o inteligente. Ele conhecia apenas aquela palavra, com a qual se bastava, porquanto o encerrava em remédio e veneno.
— Pois é, é pharmakon — se insistiu, a se ajeitar no tom de voz mais inteligente, acreditava — É veneno, ao mesmo tempo que é remédio. É remédio, ao mesmo tempo que é veneno.
Por fim, ela emitiu algum som:
— Que bonito. De quem é?
— Henrique Almeida. Prazer. E você, qual é sua graça?
— Eu, ah, Helena.
— De Troia?
Ela riu, com a certeza de que conversava com alguém inteligente, ou ao menos, não tão estúpido. Procurou se acertar nas palavras do outro:
— Apenas Helena. Henrique, hum, hum, bonito nome. — inclinou a cabeça e arregalou os olhos e o sorriso — Mas não concordo.
— Com o quê?
— Que amor é isso aí que você disse. Como é que é mesmo? Farma… farma…
— Pharmakon — atropelou.
— Isso. Pharmakon.
— E o que é amor pra você?
— Ah, é… Hum…é. — tremeu o lábio superior com um suspiro involuntário — Ora, sei lá eu o que é amor pra mim. Só sei que é bom, que é puro. Imagina só, veneno, tá bom, então. — balançou os ombros e jogou longe a latinha vazia. Voltou-se a si e ao seu amor puro. — Só sei que falta amor no mundo, isso sim. As pessoas já não amam mais. Acham que amam. Mas o amor é puro. — cruzou os braços. — e bom. — se completou, feliz com a definição exata do que não se sabia se definir.
— As pessoas precisam amar mais, isso sim. Daí sim, o mundo seria outro. — completou-se, já boa e pura.
— Sinceramente. Não entendo essa mania de querer sublimar o amor. O amor é bom e ruim. Como o homem, bom e ruim.
— Não. Não concordo. — riu nervosa. — O amor é bem melhor do que o homem.
— Como algo sentido pelo homem pode ser melhor que ele? Não. Não. Você está errada. Não dá pra achar que o que sentimos é melhor do que nós. Somos bons e ruins, ambíguos na maioria das vezes, exatamente iguais ao que sentimos. — respirou apressado, vitorioso pelo argumento perspicaz dito assim, tão displicente, em um bar ordinário. — Essa mania de querer sublimar o amor. Não entendo. — se repetiu na frase de efeito.
Os dois se desentendiam. Não sentiam o mesmo amor. Ela se apoiou no quadril largo, enquanto ele retornou ao sexto gole da vodka. Pouco se ouvia do silêncio de ambos, preenchido por fragmentos de conversas e risadas entrecortadas. Por fim, ela arriscou:
— Mas … e o amor de mãe? Quer coisa mais sublime do que amor de mãe?
— Minha mãe me expulsou de casa quando tinha quinze anos, por causa do meu padrasto, que não gostava de mim. Isso por acaso é amor sublime?
— Tá bom. Tá bom. Você venceu. O amor também é veneno. — já não aguentava aquela discussão. Tampouco o suportava. Algo nele a lembrava de que também não era pura. Nem boa. — Vou comprar mais cerveja. — tentou se esquivar.
— Permita-me pagar uma pra você. Faço questão. — persistiu o outro.
Andavam os dois lado a lado, olhos apontados para frente ou para o chão. Mais afoito, ele desafiou:
— Você nunca sofreu por amor, acertei?
— Como? – ela se assustou
— Você. É muito inocente, acho que nunca sofreu. — voltou os olhos para o chão.
Ela quis lhe dizer que se casara aos dezoito anos. Mas se o fizesse, também teria que revelar que já era viúva, aos vinte e três. Preferiu concordar, com o corpo solto, que não, nunca sofrera.
— Sabia! Um dia, Helena, você ainda vai concordar realmente comigo. Ainda vai descobrir que o amor é pharmakon. E vai se lembrar de mim. — encheu as últimas palavras de ar e de orgulho, um orgulho quase débil.
Chegaram ao balcão, mais cansados. Ele virou-se ao amontoado de pessoas em frente ao balcão e imiscui-se nos muitos braços estendidos com a comanda na mão. Ela se largou no único banco vago que encontrara próximo a eles. Cruzou as pernas, mais contrariada. Não queria cerveja ou qualquer outra discussão idiota sobre o amor. O que sabia ele do amor, afinal? Que chato! Mas ela não poderia lhe falar do sofrimento. O chato não estaria pronto. Ninguém estaria pronto para ouvir o que ela ocultava sob o movimento largo dos quadris. Se bem que, lá no fundo, ela desejava desvendar seu segredo ao chato. Queria ver sua cara quando lhe dissesse tudo. Como queria! Seria divertido vê-lo prostrado ao saber que ela já sofrera de amor sim senhor. Que já amara o homem mais bonito que alguém pode conhecer. Que já largara tudo por causa deste homem. Rangeu os dentes de raiva. Um homem tão bonito. Como se permitia ser tão bonito? pensou, enquanto aguardava sem vontade a cerveja e o chato servidos pela mesma mão. A raiva atingia algum ponto entre o peito e o ventre. Imaginou a cara do chato quando soubesse de tudo e soltou um ruído baixo. Continuaria o chato a ser inteligente se soubesse que ela, naquela noite, ferveu a água? Sim, que ela, naquela noite, deixou que a água quase evaporasse de tão quente e a jogou no ouvido dele, sem que ele tivesse tempo a pedir perdão. Não, palavra grega nenhuma definiria aquela noite como ela o definira repetidas vezes a si mesma. O que pensaria o chato se soubesse de tudo?
— Sua cerveja! Está bem? Parece tensa.
— Meu corpo está um pouco dolorido hoje. Mas vai passar. — segurou a lata gelada pelo guardanapo que aos poucos se esfarelava e tartamudeou — Tenho uma coisa pra te perguntar.
— Todo ouvidos.
— É verdade aquela história da sua mãe e do padrasto?
Ele engasgou-se constrangido e segredou, quase mudo:
— Não.
(Vera Helena Saad Rossi é jornalista, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutoranda em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Venceu o concurso de contos SESC On-line 1997 e foi finalista, com o romance “Estamos todos bem”, do IV Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Recentemente, publicou o livro de contos “Mind the gap” (Editora Patuá))
Regrinha básica para uma boa leitura de ficção ou de poesia, que até alguns críticos profissionais ignoram às vezes – falta-lhes generosidade, um pouco mais de atenção, de paciência, de humildade? O que, numa leitura superficial e apressada, pode parecer um movimento errado, grotesco ou mal coreografado, talvez seja na verdade um belo golpe de imaginação, tramado para produzir um efeito de sentido necessário, inevitável até, se considerarmos a obra em seus próprios termos e propósitos – um golpe sem o qual o texto literário não vence a desconfiança e a indiferença do leitor.
Acabei de pensar nisso ao reler O Olho, conto de Myriam Campello, que um dia me desagradou por uma ou outra metáfora mais tosca. Como poderia ser diferente, porém, se o narrador, logo no primeiro parágrafo, avisa-nos: “Não sou escritor, isso vê-se. […] Se deito ao papel notícias do vendaval que no último mês desmantelou minha vida é por justamente sentir-me em pedaços”?
É natural que um sujeito desses, poeta amador e casual, apele para imagens banais e cafonas do tipo: “Se só entre nós permitimos que a espuma do amor flua e se derrame?”. Como também é muito verossímil e ficcional que em outros trechos, arrebatado pelos acontecimentos excepcionais da narrativa, lhe ocorram observações mais agudas, bem arrematadas e poéticas. Acontece quando ele se refere, por exemplo, a “um bom dia reservado que marca limites”, ou ao comentar um desejo muito intenso e proibido, descrevendo-o como uma “avalanche que se nutre do próprio excesso para melhor derrubar e engolir”.
Está claro para mim agora, claríssimo: o fato de haver algumas metáforas mais preciosas do que outras nessa história nada tem a ver com a qualidade da autora e da sua prosa; é uma exigência do mundo ficcional do conto O Olho, um mundo animado pelo espanto de um narrador literariamente mal equipado para retratar uma experiência extraordinária.
O valor estético dessa irregularidade poética seria flagrante para o hermenêuta profissional, um perito em prestidigitação literária, muito capaz de fazer ver o todo nas partes ao mesmo tempo em que mostra as partes no todo, aproximando os dois planos até que eles se confundam, do mesmo jeito que a gente consegue fazer com o céu e o mar num dia bem azul, muito liso e manso.
Apesar de todo o meu respeito para com tal ciência interpretativa, que não é pouco, eu não havia pensado nela até o último parágrafo, confesso. Tentava apenas adivinhar o movimento de imaginação que fez Myriam Campello por o protagonista a misturar poesia com clichês. Se a manobra ressuscitou ou não a musa de O Olho, eu não sei, e, para ser bem sincero, nem me interessa saber, pois o que eu queria mesmo era dar um pouco mais de exercício à minha.
(Héber Sales, administrador, publicitário, escreve. Tem poemas, crônicas, ensaios e entrevistas publicados na revista Germina, Portal Cronópios, Digestivo Cultural, Portal Literal, Mallarmargens e nestes Diversos Afins)
gosto de ver os barcos nesses dias de baixas nuvens chumbo, quando o céu se torna um reflexo encapelado do mar e sopra fiapos d’água que tingem de escuro meu terno, tecendo um manto baço de papel de seda que cobre o horizonte.
nesse cenário espesso de giz, os barcos são como pequenos borrões coloridos, imóveis no expressionismo da tela turva, onde gaivotas e trinta-réis adejam em voos erráticos como úmidas cerdas de um pincel que pinta de inverno todo o tecido marinho, exceto as franjas brancas tomadas por este misterioso e interminável ímpeto de tramar-se e destramar-se.
gosto de sentir as azaleias de espuma que se abrem mansamente entre meus dedos e me queimam de vida a carne, para logo em seguida desaparecerem na areia viscosa que suja de sal as bainhas da calça e engole meus pés para a fundura cinza onde penetram as ondas.
gosto de deixar que o áspero sudoeste me percorra o corpo, açoitando a pele por entre as casas dos botões e insuflando as asas de um homem-pássaro negro, eu e milhões de grãos, gotas e uma gravata, que rodopiam pelo ar.
parto com eles em direção ao infinito, perdendo-me no teatro de névoa e chuva, no momento em que descem as cortinas e os barcos içam suas velas, disparando em mim a reconfortante certeza de que o vazio da praia é maior que o meu.
sempre preferi a solidão. vivia em busca deste estado de desaparecimento, quando é possível ouvir alto a própria voz calada. na infância, fui uma criança introspectiva. gostava de colecionar coisas sem valor e andar a esmo pelos parques. não tinha amigos e nos aniversários ficava sentado ao lado dos adultos, observando as outras crianças brincarem.
uma vez, me deram um cachorro, mas ele morreu de tristeza antes de completar um ano. nem sequer teve um nome, só um retrato que desenhei do dia em que desenterrou um pardal. esquecia das horas entre os lápis de cera ou assistindo aos desenhos animados. minhas tias diziam que eu seria um infeliz ou um gênio.
quando ingressei no ginásio, descobri a leitura. lia de maneira indistinta e compulsiva. na biblioteca, no horário de recreio, no ônibus de ida e no ônibus de volta. no meu quarto, chegava a ler dois livros de uma vez. os professores começaram a me usar como referência e minha introspecção foi se tornando sinal de inteligência e admiração.
verdade era que, na página seguinte, eu já não me lembrava do que tinha ocorrido no capítulo anterior. os livros eram uma necessidade, pois são chaves para a solidão. às vezes, deitava na cama com um livro pousado sobre o peito e me perdia nos entremeios e nas reviravoltas até me esgotar de sono. era gostoso retomar a história no dia seguinte e perceber que parte do enredo fora tramada em sonho. dormindo, eu era um melhor escritor.
tentei a faculdade de matemática, mas os livros não me serviram para os números. os anos foram adoecendo meus pais até os tornarem dois insetos pequenos demais para a mecânica da casa. tive de trabalhar para comprar remédios e reparar os móveis.
meu primeiro emprego foi na fábrica de calças. tinha a função de verificar a precisão dos botões e dos zíperes. eu gostava, pois passava todo o dia sozinho, forçando as costuras e o trilho dos fechos. na hora do almoço, me sentava numa mesa do canto com um jornal aberto sobre o tampo para afastar qualquer intenção de diálogo. a única que insistia era Irene.
todos os dias, puxava conserva sobre os fatos publicados, que eu respondia com hum-huns. de tanto me importunar, acabamos iniciando um relacionamento em que nos víamos pouco, falávamos no refeitório e ela me ajudava nas tarefas domésticas pesadas de fim de semana. minha mãe gostava da Irene. dizia que ela me entendia e amava como ela amava o meu pai, e que dançariam conosco a valsa nupcial, no baile de casamento.
fatalmente ela estava enganada. alguns meses depois, minha mãe sofreu um infarto fulminante. no dia seguinte, meu pai acordou cedo, fez a barba, tomou o ônibus até o mais alto prédio comercial, subiu o elevador e se jogou do nono andar. fizemos as bodas junto à missa de sétimo dia para salvar as poucas economias que tínhamos, ameaçadas pela hipoteca da casa que pendia há seis meses. com o ordenado da fábrica, seria impossível nos sustentar dignamente.
foi quando um tio de segundo grau, que trabalhava numa secretaria de estado, me ofereceu um cargo no setor de protocolo. era um trabalho que não requeria muito raciocínio, o salário e os benefícios eram satisfatórios e o horário flexível, embora o terno e gravata fosse indispensável.
dividia a sala com dois funcionários estatutários, nos revezando no ofício de numerar os processos, carimbar, comunicar e depositar num dos muitos arquivos. a sala era pequena, de paredes cor pastel e sem janela, acarpetada e tomada de antigos móveis de patrimônio. havia três mesas, uma máquina de escrever e um ventilador em mau funcionamento.
verdade é que, com o tempo, comecei a gostar de passar o dia nesse isolamento remunerado, no qual quase não tinha de interagir com pessoas e podia me perder na leitura por horas sem interrupção. com essas garantias, me vi impelido por vontades que se harmonizavam aos desejos de Irene. quitei as dívidas e recuperei a casa, compramos móveis novos, incinerei as tralhas dos meus pais e tivemos duas filhas. tornei-me um homem de família, embarcado numa ciranda de deveres e novos sentimentos, em que a solidão era o acordo que incidia sobre o cotidiano quando o relógio de ponto, no hall de entrada, marcava o início do expediente da repartição pública.
uns dois anos depois, esse refúgio, porém, adquiriu uma atmosfera claustrofóbica que asfixiou o mundo que inventei para mim. a Casa Civil protocolou um comunicado, informando que todos os órgãos teriam de cortar despesas. houve demissões e todos os contratos foram suspensos.
logo, os funcionários do meu setor foram alocados em outras seções e fiquei sozinho. é claro que, a princípio, assaltou-me uma euforia sem igual. ficaria completamente isolado, imune a qualquer contato ou explicações. livre para ler, sonhar, pousar minhas costas sobre a espalda da cadeira e ouvir somente a minha voz calada. no entanto, detidamente percebi (e era como sufocar aos poucos) que esse estado que tanto buscava, a solidão, só suscita recompensa quando conquistado e não imposto.
a paralisação deflagrou a negligência que já pairava sobre as repartições, estabelecendo a mediocridade e o desânimo que acomete todo o ser envenenado pela burocracia. não havia mais andamento de despachos, fotocópias ou telefonemas. o expediente resumia-se a sentar diante do relógio e esperar os ponteiros empurrarem a massa pegajosa que era o tempo. fui sendo esquecido naquela sala sufocante e sem janela. desbotando feito um retrato consumido pelos anos, uma silhueta borrada sem reflexo.
a vontade de isolar-me, esse ímpeto de estar apenas comigo, deteriorou-se dentro de mim, deixando um vazio que me tornara invisível não do modo que sempre pretendi. às vezes, acontecia de um entregador ir ao setor levar uma correspondência e ficar parado na porta, olhando como se não tivesse ninguém, até ir embora. quantas feitas eu pedia para segurar o elevador e as portas se fechavam indiferentemente. ou quando alguém precisava arquivar um processo, o deixava com um bilhete escrito à mão, avisando que tinha estado ali e a sala estava vazia.
em casa, o isolamento desencadeara um processo mais doloroso. juntamente ao amadurecimento do corpo, minhas filhas desenvolviam a cruel habilidade de não me enxergar. cruzavam por mim como se me vestisse a textura do papel de parede ou a insignificância de um vaso ornamental.
já começavam as refeições sem a minha presença, ignorando meus comentários e mesmo os pedidos de passar o sal. quando, por ventura, estava assistindo à televisão, naturalmente pegavam o controle remoto e mudavam de canal. há duas noites, eu me deparei com a menor olhando para uma foto minha com ela e a irmã ainda pequenas com uma estranha atenção, como se eu fosse suspenso em sua prematura memória.
mesmo Irene, que me encontrou no esconderijo dentro de mim, agora me esquecia em comezinhas obrigações e pormenores que supriam o sentimento de ausência. fui desaparecendo. rareando como um tapete pisado, um fantasma na eletrostática da televisão. não dormia, e nem mesmo a leitura trazia-me conforto. comecei a vagar pela rua, em busca de um olhar, um rosto em meio à multidão, uma expressão manchada por olhos nublados capazes de enxergar o invisível…
ele vê a forma, um borrão, uma mancha que aflora na sedosidade da neblina e o assalta um entusiasmo incompreensível, tal a voragem que urde grãos de areia e contracorrentes na germinação de bulbos de lótus, flâmulas e pétalas que se abrem apenas para se despedaçarem na arrebentação, fragmentos de espumas, espelhos-fantasmas que refletem o desfraldar das asas do pássaro negro, o prelúdio do voo entre os véus bailarinos de chuva fina sobre as milhares de pegadas que se confundem e percorrem caminhos que nunca existiram, rumo ao rochedo, o aglomerado de pedras e depressões, coberto de limo, alestrins e matacães, onde explodem ondas e acertam estilhas peroladas nas suas costas, avançando contra os papa-breus entrando por desvãos e saliências que lanham as mãos confusas, entre o par de sapatos e escorregões, na escalada até o cume, o abismo onde o ar é menos salino, e ela está sentada, braços envolvendo os joelhos, o rosto delgado e a bainha do cabelo castanho, repartido ao meio.
É uma bela visão.
É uma bela queda.
Não deixa de ser um ponto de vista.
Talvez um menos glorioso.
A vida, em certos aspectos, tende a não ser gloriosa.
Meu pai costuma dizer algo parecido.
Seu pai é um homem sábio.
É, talvez.
Posso me sentar?
…
Sabe, subir aqui me dá a medida da minha insignificância.
Para mim, é a possibilidade de desaparecer.
Acredite, não é tão simples.
Não é difícil o bastante.
Está vendo os barcos? Os pequenos borrões coloridos atrás do mau tempo, surgindo e desaparecendo? Imagine todos os elementos que são necessários para que isso aconteça. A névoa, a chuva, o vento, as ondas. Tudo tem de convergir perfeitamente para criar essa ilusão de ótica. Não acho que seja tão simples assim.
Eu não consigo me impressionar com ilusões.
Deve existir uma boa razão para isso.
Meu pai é mágico, um ilusionista, como ele prefere ser chamado. O seu número mais famoso é o do desaparecimento.
E você cresceu sabendo que era uma ilusão.
É. Ele era grande em sua época.
E onde está agora?
Agora ele está preso à cama de um hospital, flutuando entre momentos de lucidez, enquanto espera por um transplante que nunca acontece. Irônico, não? Meu pai ganhou a vida com truques de desaparecimento, e agora não há nada que se possa fazer para evitar que desapareça para sempre.
Sinto muito por isso.
Acho que essa é a ilusão que ainda me impressiona. Acreditar que existe algum sentido na vida.
Sei que não é reconfortante, mas imagine, em todos esses anos, quantas pessoas seu pai tocou com seus números, quantas vidas conseguiu mudar.
Não é nada reconfortante.
Ao menos, ele tem a você.
A mim e ao meu irmão Pedro. Nunca o abandonaríamos. Minha mãe desapareceu quando éramos crianças. Meu pai sempre foi muito presente. Apesar da vida itinerante, de crescer seguindo a rotina dos circos de cidade a cidade, em momento algum ele permitiu que imaginássemos que poderíamos ficar sozinhos. Fomos ensinados a acreditar na comunhão e educados a construir um futuro próprio. Ele nunca deixou que seguíssemos sua estrada.
É curioso como viemos aqui por razões parecidas, mas com propósitos diferentes.
E o que você veio fazer aqui, num dia chuvoso, de terno e gravata?
Não sei ao certo. Encontrar algo.
Não deveria estar trabalhando?
Deveria, mas ninguém se importa. Já faz algum tempo que ninguém percebe que estou lá. Faz tempo que ninguém me percebe, de forma alguma.
Você é casado.
É, a aliança. Tenho duas filhas.
Isso é bom?
Não sei.
Deve existir uma boa razão para isso.
Passei a vida me escondendo, tentando desaparecer. Quando finalmente consegui, descobri que não podia voltar atrás.
No número do desaparecimento havia um fundo falso. Meu pai era amarrado por correntes presas a cadeados e erguido dentro de uma caixa. A chave ficava na sua mão. Quando a corda se rompia, ela passava pelo buraco e caía sobre um colchão. Esse é o segredo.
Quer ouvir um segredo? À noite, quando sei que todos estão dormindo, vou até o quarto das minhas filhas. Pego uma cadeira e me sento à beira das camas. Fico horas apenas as olhando, às vezes até raiar o dia. Eu não sabia o porquê. Na verdade, eu fingia que não sabia o porquê. No fundo, eu esperava que uma delas acordasse e, na transição entre o sono e o despertar, ainda livre de qualquer pensamento, pudesse me ver novamente. Saber que eu estava ali, que ainda existia. Mas agora sei que não posso reverter o que me tornei. Sou um fantasma no porta-retrato, um morto-vivo.
De alguma forma, é isso que meu pai se tornou.
É isso que, afinal, nos tornamos.
E não há nada que possamos fazer.
Ainda podemos ver os barcos.
(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O conto aqui publicado faz parte de seu mais recente livro, “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012)
Moleque, imaginava que, homem feito, eu seria alguma espécie de guerreiro, herói de batalhas, conquistador (nunca um médico, como meu pai, ou contador). Transformei-me, por fim, num fiscal da Secretaria de Trânsito e Transportes da prefeitura: o bloquinho e a caneta na mão, óculos escuros pro romantismo não morrer.
O ônibus era o 016, linha 20, que entrava pelo Alto do Basílio, cortava Palmares e descia lá na Avenida Esperança, perto da Polícia Federal. Minha função era anotar o número da catraca toda vez que chegássemos ao ponto final, e o objetivo da missão, como o pessoal da Secretaria gostava de falar, era descobrir se o trajeto suportaria um ônibus maior. Eu sabia que não, mas não fazia diferença: os diretores e os seus secretários, com suas caras brutas e mal humoradas, quase nunca seguiam a lógica ou a opinião dos fiscais na hora de tomar as decisões.
Eu subia e descia as ladeiras olhando para o mar lá embaixo, pensando que, séculos antes, centenas de homens haviam cruzado aquelas águas em busca de riquezas, amores e salvação – o sangue humano, nunca derramado em vão. Agora, cruzando os morros, eu só buscava um pouquinho de emoção.
O tempo, de uma maneira ou de outra, acabava passando, da mesma forma como passavam as ruas e as janelas que eu investigava. Quem sabe a vida, minha e das pessoas que eu via, se resumisse àquilo: a sombra dos prédios e o sol marcando o asfalto, as tardes sonolentas, uma curiosidade infantil, a melancolia dos lugares e dos dias.
A empreitada acabava perto das sete da noite. O 016 me deixava a dois quarteirões de casa. Eu apertava o passo porque era justamente nessa hora que as costas começavam a doer.
Naquela noite, no entanto, enquanto eu caminhava distraído, coincidentemente pensando na história dos Aqueus (e em Aquiles, que, antes da flechada, vingou Peleu, do jeito que previram), havia uma garota lá, do outro lado da rua, gritando e assobiando pra mim. Tinha mais ou menos vinte e poucos anos, usava um short largo, estilo surfista, um top cor de abóbora e marrom. Linda não era, mas a gente nem sempre pode escolher. O mundo aperta o laço pra quem já passou dos trinta e tantos e não vingou.
– E aí, gato, tá afim?
– Tô – respondi sem pensar muito. – Quanto é?
– Trinta.
– Ela tinha uma boca carnuda, os seios grandes e pontudos.
– Tenho doze – falei.
Ficamos parados, nos encarando. Fazia frio. Eu pensava que era um tanto Aquiles também, o destemido guerreiro encarando a vida e suas provações.
– Com doze, gato, é rapidinho – ela disse, a testa franzida, o dedo me apontando a direção.
E a transcendência e a eternidade nos fundos de uma serraria em alguma noite sem estrelas de um ano que não lembro mais. Eu não sabia se era um guerreiro usufruindo das conquistas da vitória, o fiscal de trânsito e transportes da prefeitura rumo à salvação ou o sujeito ultrapassado e perdido no labirinto dos anos e da vida, gastando a grana do cigarro pra beliscar a alma. Não encontrava a resposta, mas concluí que naquele instante não necessitava encontrar: me bastava sentir, indo um pouco pra frente e pra trás, com os olhos fechados, tentando, entre as pilhas de cedros, vinháticos e putumujús, fazer valer a vida, o sangue que corria nas veias e os meus doze reais.
(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo)
É a sudoeste da planície de Buenos Aires que se situa a lagoa de Cubelli, familiarmente conhecida como “Laguna do Jacaré Bailarino”. Este nome popular é expressivo e interessante, mas – assim como o dr. Ludwig Boitus demonstrou – não corresponde à realidade.
Em primeiro lugar, “lagoa” e “laguna” são acidentes geográficos distintos. Em segundo, se bem que o jacaré caimã – Caiman yacare (Daudin), da família Alligatoridae – seja próprio da América, acontece que essa lagoa não é, efetivamente, o habitat de nenhuma espécie de jacaré.
Suas águas são extremamente salobras, e tanto sua fauna quanto a flora são típicas daquelas que se desenvolvem no mar, razão pela qual não se pode considerar anormal o fato de que essa lagoa conte com uma população de cerca de 130 crocodilos marinhos.
O “crocodilo marinho” ou Crocodilus porosus (Schneider) é o maior de todos os répteis vivos. Pode chegar a 7 metros de comprimento e pesar mais de uma tonelada. O dr. Boitus afirma ter visto, nas costas da Malásia, vários exemplares que superavam os 9 metros e, com efeito, ele tirou fotografias e trouxe-as com o objetivo de provar a existência de animais desta magnitude. Como eles foram, no entanto, fotografados em águas marinhas e sem pontos externos de referência, tornou-se impossível determinar com precisão se os crocodilos em questão tinham realmente a dimensão que lhes atribui o dr. Boitus. Seria um absurdo, naturalmente, duvidar da palavra de um pesquisador tão criterioso e com tão brilhante trajetória (apesar da linguagem um pouco barroca), mas o rigor científico exige a validação dos fatos segundo métodos inflexíveis, que, nesse caso específico, não foram colocados em prática.
Assim, acontece que os crocodilos da lagoa de Cubelli possuem exatamente todas as características taxonômicas dos que vivem nas águas perto da Índia, da China e da Malásia, razão pela qual, com toda a legitimidade, lhes caberia o taxativo nome de crocodilos marinhos ou Crocodili porosi. Eles apresentam, entretanto, algumas diferenças, que o dr. Boitus dividiu em características morfológicas e características etológicas.
Entre as primeiras, a mais importante (ou, melhor dizendo, a única) é o tamanho. Assim como o crocodilo marinho da Ásia alcança os 7 metros de comprimento, a espécie que encontramos na lagoa de Cubelli apenas atinge, no melhor dos casos, os 2 metros, medindo-se do começo da bocarra até a ponta do rabo.
Com respeito a sua etologia, este tipo de crocodilo, segundo Boitus, “tem uma queda pelos movimentos musicalmente harmônicos” (ou, mais simplesmente, é um “bailarino”, como é chamado pela gente do povoado de Cubelli). É sabido que os crocodilos, quando estão em terra, são tão inofensivos quanto um bando de pombas. Eles só podem caçar e matar dentro da água, que é o seu elemento vital. Apertando a presa entre as mandíbulas cheias de dentes e imprimindo a si mesmos um rápido movimento de rotação, fazem com que essa gire até a morte. Seus dentes não têm uma função mastigatória, são desenhados unicamente para aprisionar a vítima, que engolem inteira.
Se formos até as margens da lagoa de Cubelli e colocarmos em funcionamento um aparelho que toque música, de preferência a escolha recaindo sobre temas dançantes, adequados a um baile, em seguida veremos que – não digamos todos – quase todos os crocodilos sairão da água e, uma vez em terra, começarão a dançar ao compasso da melodia em questão.
Por essas razões anatômicas e comportamentais, esse sáurio recebeu o nome de Crocodilus pusillus saltator (Boitus).
Seus gostos são amplos e ecléticos, e não parecem distinguir entre músicas esteticamente valiosas e outras de méritos escassos. Recebem com igual alegria e boa disposição tanto as composições sinfônicas para balé quanto os ritmos vulgares.
Os crocodilos dançam de pé, apoiando-se apenas nas patas traseiras, de maneira que, verticalmente, atingem uma estatura média de um 1,70 centímetros. Para não arrastar o rabo pelo chão, eles o elevam a um ângulo reto, colocando-o quase paralelo ao corpo. Enquanto isso, as extremidades dianteiras (que bem poderíamos chamar de mãos) seguem o compasso com toda uma série de gestos simpáticos, e seus dentes amarelados mostram um enorme sorriso de otimismo e satisfação.
A algumas pessoas do povoado não atrai absolutamente a ideia de dançar com os crocodilos, mas muitas outras não compartilham dessa rejeição e o certo é que, todos os sábados, ao entardecer, essas últimas se vestem com suas melhores roupas e vão para as margens da lagoa. Nelas, o clube social e esportivo de Cubelli instalou tudo que é necessário para tornar inesquecíveis as reuniões. Os visitantes podem até mesmo jantar em um restaurante que se localiza a poucos metros da pista de dança.
Os braços de um crocodilo são curtos e não alcançam o corpo do parceiro ou parceira. Os cavalheiros e as damas que dançam, segundo o caso, com o crocodilo fêmea ou macho que o escolheu, apoia cada uma de suas mãos em um dos ombros do outro. Para realizar essa operação, convém esticar os braços ao máximo e manter uma certa distância. Como os crocodilos têm um focinho muito pronunciado, a pessoa que dança com eles deve ter a precaução de jogar o corpo para trás, mantendo-se o mais longe possível (se bem que pouco se tem notícia de episódios desagradáveis, tais como extirpação de nariz, esmagamento de globo ocular ou decapitação). E também não se deve esquecer de que, como entre os seus dentes podem ser encontrados restos de cadáveres, seu hálito deixa muito a desejar.
Entre os cubelianos corre uma lenda que diz que na pequena ilha situada no meio da lagoa moram o rei e a rainha dos crocodilos, de onde, segundo parece, eles jamais saíram. Comenta-se que esses exemplares já ultrapassaram os 2 séculos de vida e, talvez por causa da idade avançada, ou mesmo por mero capricho, jamais desejaram participar dos bailes promovidos pelo clube.
As reuniões não costumam passar da meia noite, porque, nessa hora, os crocodilos começam a ficar cansados e talvez mesmo a se aborrecer. Além do mais, é a hora da fome e, posto que o acesso ao restaurante lhes é vedado, devem voltar para a água em busca de comida.
Quando chega o momento em que não resta mais nenhum crocodilo em terra firme, as damas e cavalheiros retornam ao vilarejo bastante cansados, e um pouco tristes, mas com a esperança de que, quem sabe no próximo baile, ou em outro dia qualquer, mesmo que distante, o rei ou a rainha dos crocodilos, ou talvez mesmo ambos, simultaneamente, abandonem por algumas horas a ilhota central e participem da festa. É com essa expectativa que cada cavalheiro, ainda que não o demonstre, guarda a ilusão de que será escolhido como parceiro de dança da rainha dos crocodilos. O mesmo acontece com as damas, que sonham ser o par do rei.
(Fernando Sorrentino nasceu em Buenos Aires. É professor de Língua e Literatura e tem publicados livros de contos, novelas, infanto-juvenis, ensaios e antologias. Colaborou com jornais e revistas diversos e atuou como tradutor de livros de ficção e entrevistas)
Habitava um ódio sem limites e um rancor de dar veneno ao ar, não havia quem lhe sensibilizasse além do desprezo, era de fel a saliva que expelia para manchar a calçada, na desova diária de seu cuspe. Aliás, tinha um prazer enorme ao imaginar alguma mulher, das que nunca lhe olharia a cara, pisar seu cuspe e levar a sentença de sua escarrada para a casa.
Trabalhava bem em frente a um irritante chafariz, uma grande farmácia e um lugar de servir café. Não gostava de lugar nenhum, gostava mesmo era do ponto de bicho, no beco, onde apostava na sorte de ter alguma sorte para poder se livrar de viver junto aos miseráveis.
Conhecia o ser humano de dentro para fora, de trás para frente, acreditava e assim gostava de dizer quando lhe censuravam os mais chocados pelos seus comentários. Não tinha nada que lhe convencesse da possibilidade de existir gente que prestasse. Chegava mais cedo ao trabalho só para poder ver o movimento de pedestres apressados e ir fazendo as histórias daquelas vidas sujas em sua cabeça. Os que passavam todos os dias eram vítimas de crueldades no julgamento, sem nenhum pudor ou trégua, fosse adulto ou uma simples criança choramingando. Todos eram, no fundo, no fundo, gentinha.
Em um dia inesperado, depois de já haver visto todo o tipo de gente ruim, apareceu o pior ser humano de que ele já teve notícias: Francisca Martins! Dona de um andar glorioso em sensualidade inocente, deixava claro o grande desprezo que ela tinha pelos outros, ao levar os quadris de uma lado a outro, como um pêndulo que faz hipnotizar quem para ele olhou por mais de uns segundos… Vestia-se de roupas humildes para disfarçar alguma coisa, com toda a certeza! Dizem que era solteira e que jamais fora envolvida em nenhum tipo de escândalo ou comportamento mais ousado, quando trabalhou no bairro vizinho. Mas ele, com sua habilidade incomparável para detectar porcaria, percebeu na primeira hora que se tratava de uma farsa! Decidiu que iria dedicar algumas de suas análises mais profundas a ela, a tal Chiquinha…
Ia juntando os fatos à medida que convivia na mesma atmosfera que a moça. Os porteiros dos outros prédios diziam que se tratava de uma moça bonita vinda do Norte e chegaram a demonstrar certa queda pelo sorriso brejeiro na fala arrastada da mulherzinha. Ele não! Manteve-se digno de seus princípios e castigava-a com a língua, sempre que havia oportunidade.
Trabalhava há 25 anos no mesmo edifício e jamais havia sido atingido por uma energia tão maléfica quanto a da moça. Propositalmente, ela adquirira o hábito de ser gentil com toda a população do quarteirão, as velhas beatas achavam que ela era abençoada, os homens a queriam proteger, as crianças sorriam frouxo ao seu toque. Se continuasse assim, em breve ela acabaria levando para a lama a rua inteira… Pensava ele.
Desde cedo ele decidira não se casar, era uma grande bobagem o casamento, jamais dormiria tranquilo ao lado de alguém que poderia queimar-lhe com água fervente ou cortar-lhe o sexo com uma tesoura. Ele sabia do que as mulheres eram capazes, ouvia com atenção a conversa das empregadinhas, sabia das mandingas e pragas que elas distribuíam quando contrariadas. Entretanto, inexplicavelmente, a cobra maldita, Francisca Martins, lhe perturbava o sono com aquele encantamento do maligno, aquele véu de bondade, aquela promessa de prazer, aquilo tudo que faz parte da caixa de truques do maldito, o sibilar da serpente com o qual devemos sempre nos preocupar quando lutamos contra as forças do mal.
Foi em um dia de feriado que ele resolveu dar cabo ao tormento. Acordou um pouco antes do relógio, mas esperou pelo despertador. Detestava quebrar rotina. Barbeou-se e reparou novas marcas pelo rosto. Gostava das rugas. Combinara com um amigo que, se alguém perguntasse, para todos os efeitos, estaria com ele durante aquela manhã.
Morava Francisca em uma espécie de pensão para moças, assim como fazem as prostitutas, obviamente. Não era muito difícil conseguir entrar pela porta da frente, principalmente para alguém com as habilidades de porteiro. Subiu as escadas estreitas e fedorentas do cortiço, deparou-se com uma senhora sem importância. Não tardou a achar a porta da devassa, havia nela uma foto de padre Cícero, uma clara afronta ao padroeiro. Bateu devagar e a moça abriu. Nos olhos de Francisca um evidente espanto por ver aquele homem ali, parado. Para ele, uma inexplicável inércia diante dos olhos da moça. De repente ela sorriu e foi como se o diabo cavasse um abismo em seu peito. A comoção que o gesto lhe causou transformou o dia em noite, a vida em morte, o sangue em gelo. Saiu correndo imensidão afora.
Não tornou a ser visto no trabalho, nem em casa, nem no beco do bicho. Dizem que virou uma espécie de profeta mendigo no centro da cidade, que canta salmos em uma língua estranha e alerta as pessoas sobre a doçura do demônio.
(Eleonora Marino Duarte mora no arquipélago dos Açores, em Portugal. Nasceu na cidade Serrana de Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro. Aos 12 anos, mudou-se para a Ilha do Governador e no mesmo ano ingressou como atriz no mais antigo grupo de teatro em atividade da cidade do Rio de Janeiro, o G.A.T.I.G., fazendo parte da companhia por vinte anos. Formou-se em Alta Gastronomia pela UNIRIO. Em 2005, criou o pseudónimo Betina Moraes. Publica seu trabalho como escritora na Internet mantendo o Blog Versos & Ideias e mais outros sete de sua autoria. Participa do Blog coletivo Falsidade Ideológica)
No depósito do sr. B, uma sombra se recolhe todas as noites. Nenhum funcionário atinou com sua existência. O trabalho de estivador corre modorrento durante o dia — os homens cospem no chão — e, à noite, quando os portões são cerrados, a sombra surge dos cantos e se aninha entre os pacotes de lonas dos quais desconhece o conteúdo.
A sombra não fala a língua dos homens, mas tem dimensões dos homens e um andar elegante de cavalheiro. É tampouco fantasma. É sombra de ninguém. Este ninguém tem sentimentos e, todas as noites, antes de se aninhar nos pacotes encardidos, chora uma lágrima de poeira sem saber por quê.
A sombra é só e deita a cabeça no pacote duro. As treliças do depósito estalam, alguns morcegos gritam e a sombra soluça. Ela chora pouco até adormecer.
Quando um raio de sol entra por uma fresta do telhado e os passarinhos já estão piando em profusão, a sombra se dissolve em nódoa de parede, poeira, restos visguentos, antes que o primeiro estivador abra os portões do depósito do sr. B.
***
Alento
Expedito, está adiante. Na frente do teu nariz largo. Um Golias de gaze, um bolo de cabelo crespo amarfanhado na garganta. Engole e senta direito. A vida é assim. A vida é assim. A vida é assim. Olha lá para cima. Uma nuvem se forma. Parece que vai chover. Fechou as janelas? O prédio ainda está em construção. Invadimos os escombros como ratos. Às oito da manhã começa o teco-teco, a batucada no cucuruto. Uma hora ou outra os cavaleiros avançarão nossa sala, com suas lanças entesadas, faiscando. Nos daremos as mãos, nos curvaremos em reverência diante do engulho — coraçãozinho tremelicando de medo. A vida é assim. Senta, aceita minha mão no teu cabelo crespo. Olha para baixo, olha para trás. Para de respirar. Volta e escuta a chuva lá fora. Fecha o olho. Isso.
***
Agende sua visita com Medeiros
Medeiros está a seu dispor. Carcaças dos televisores de tubo solapam a porta da frente aos montes. Medeiros está bem, com saúde, são. Joga Sudoku, funga e estala o dedo do pé. O chato é que ninguém entra ali. Uma moça passa com o cachorrinho encoleirado. Uma senhora carrega com muito esforço um saco de verduras. O jardineiro ensimesmado do prédio ao lado pita um cigarro. Medeiros funga. Passou o caminhão do gás. Passou o carro de frutas. Passou um marmanjo montado na bicicleta. Passou uma vespa barulhenta. Medeiros estala a língua no céu da boca. Aterrissou uma maritaca. Uma papoula caiu. Um prospecto de mãe de santo voou. Medeiros desenha o número oito. Lá longe um orelhão grita.
Agende sua visita com Medeiros. Ele está a seu dispor.
***
Rogo
O irmão dele acampou lá por uns tempos. O apartamento ficava colado no Minhocão, e os janelões da sala exibiam o vidro trincado — tentou remediar com fita crepe. A cozinha em pedaços: o ralo do esgoto emanava um cheiro ruim. No andar de cima, no único quarto onde se via um colchão, sem lençol e puído, uma vela acesa para Nossa Senhora de Lourdes, a padroeira dos enfermos.
(Natércia Pontes tem 32 anos, é cearense e mora em São Paulo. É autora de Az Mulerez (edição do autor), Copacabana dreams (Cosac Naify) e organizadora de Semana (Hedra))
Chovia forte. Eu voltava do trabalho e via a gente da rua muito agitada, os pontos de ônibus alagados e os homens disputando espaço na sarjeta. Esperei um tempo debaixo duma marquise. Uma mulher esbarrou em mim com o guarda-chuva e uma criança negociou um trocado. A chuva estiou logo. Caminhei pesado, os tênis encharcados, até a calçada e subi num ônibus velho.
O engarrafamento era longo e o cheiro nauseante. Numa parada, um menino sujo e magro pediu carona ao motorista. Dizia: estou doente, acho que tenho febre. O motorista acenou que sim, mas amarrou a cara ao vê-lo entrar. Os passageiros, que se apertavam, resmungaram: cracudo filho da puta.
Ainda estávamos no espaço de meio quilômetro em que o ônibus permaneceu por duas horas, quando o garoto vomitou um visgo amarelo. Ignoravam-no, todos. Não demorou para que ele tombasse próximo a mim. Teve convulsões. Repousei a mochila num pedaço de chão entre minhas pernas e me abaixei para segurar sua cabeça. Os espasmos chacoalharam a carne mole dos meus braços.
Os olhos grandes remelentos do garoto olhavam meus olhos como se implorassem por socorro ou perdão. Um senhor gritou que chamássemos os bombeiros. Alguém pegou o telefone, embora soubéssemos que ninguém chegaria rápido ali.
De repente, a calmaria. Os olhos grandes muito abertos. Minhas mãos coladas à cabeça do menino, afundadas em seus cabelos grossos de poeira e suor. À volta, o silêncio: o garoto estava morto.
O motorista precisou levar o corpo à delegacia. Dei alguns esclarecimentos à polícia. Depois, peguei um ônibus mais novo e um pouco mais caro. As ruas já estavam secas e o trânsito fluía bem. Em casa, joguei as roupas na máquina de lavar e o tênis na lixeira. Tomei um banho quente, fritei uns empanados e sentei à mesa, sozinha, sem tristeza nem pressa, desejando que aquela noite durasse um pouco mais. Eu estava viva.
***
.fim
bomba-relógio, 6:00, levanta, lava a cara duas vezes, envelheceu muito esse ano. banho porco, roupa pronta, engole o café com leite e pão, e sai pela metade. sol, gente, sustos, dorme, chega. gritos, é assim. a molecada espera na fila. sala de aula, arrastam cadeiras, o giz no quadro, formiga a gengiva. cinco tempos, morre com farofa ao meio dia. almoça naquela pensãozinha xexelenta mas, tem papel no banheiro. volta, a mesa grande, cadê os óculos? médias, faltas, tá na hora. anda torto, a pasta pesa e cai, no meio do corredor. revoada, os papéis escapando das mãos. gritos, é assim. bomba-relógio, falta pouco pro fim do dia, pouco pro fim do mês ($), pouco pro fim do ano. quanto pro fim da linha?, conta nos dedos.
(Bruna Mitrano (1985) é carioca suburbana, professora da rede pública, mestranda em literatura portuguesa, leitora compulsiva, desenhista frustrada, bipolar e torcedora do Bangu. Escreve na revista Mallarmargens. Tem textos publicados no Jornal Plástico Bolha, no Fórum Virtual de Literatura e Teatro, na revista Germina e em outros espaços na Internet)