Telepaticamente, um filho se dirigiu a um dos pais, ambos diante de um grande visor, pelo qual se observava o esplendoroso planeta Terra em sua contínua rotação. Há milênios os Ankers aboliram a fala.
— Pai, as chances são de 0,3366%.
A Estatística e a Probabilidade dessa civilização eram infinitamente mais avançadas que a dos humanos, aos quais mais pareceriam pura precognição.
— Em quanto tempo? — retrucou o pai.
— Menos de um século, na contagem de tempo deles. Eles estão no ano 2126 D.C.
Uma lágrima rolou do olho esquerdo do Pai, que continuou:
— Sabemos quem viemos resgatar.
O filho fez uma súplica:
— Nossa facção acredita neles, Pai. Dê-nos uma chance. Convoque o concílio.
O Pai olhou para seu filho. Ainda tinha muito que aprender. A compaixão, entretanto, era algo caro demais à sua civilização e devia ser respeitada. Entendia a imaturidade dele e de todos de sua facção.
No coração da gigantesca nave à órbita da Terra, cuja civilização humana sequer suspeitava de sua presença, apesar de todo o seu avanço tecnológico, com seus satélites e estações espaciais, um concílio que decidiria a sorte da Humanidade foi aberto em uma grande assembleia. Ao centro, os pais, à esquerda destes, os filhos da facção humanista e, à direita, os filhos da facção legalista, a grande maioria.
Na abertura dos trabalhos, os pais telepaticamente lembraram a todos os filhos:
— Vocês sabem de nosso propósito neste sistema solar. Não precisamos lembrar que o tempo é escasso e nossa energia, ao momento, também.
A viagem tinha sido muito longa.
Ao centro da assembleia, imagens mentais compartilhadas eram geradas pelo poder das mentes de todos.
O advogado, representante de toda a facção humanista, tomou a frente:
— Pais e irmãos, a epopeia humana na Terra corre o risco de chegar ao fim em pouco tempo. É algo precioso demais para ser ignorado.
Imagens em sequência de todos os fatos humanos mais notórios foram projetadas ao centro do grande anfiteatro. O líder da facção legalista deu um passo à frente e respondeu:
— Pois a culpa é toda dessa civilização. Eles causaram as mudanças climáticas, ofendendo nossa grande Mãe Natureza, impuseram a si próprios o risco nuclear iminente, perderam gradativamente seus valores e se tornaram vis e malignos. Como disseram nossos pais, aqui presentes, não nos esqueçamos de nosso propósito. Catalogaremos suas conquistas em nossa enciclopédia, assim como fizemos com outros seres.
Os pais assistiam ao debate com olhares serenos e muita atenção.
— Mas eles têm chances de sobreviver e reflorescer! — disse o advogado.
— Ínfimas, nada que possa justificar nosso colossal empreendimento, que tanto demanda tempo e energia.
As imagens ao centro converteram-se em cenas de destruição e guerra.
— Tenham compaixão, meus irmãos legalistas…
— Ora, meus irmãos humanistas, a nossa lei é justamente o Amor. Há diversas espécies mais empáticas que os humanos. Não há como salvar todas do mal que essa espécie que vocês defendem causou.
As imagens ao centro do anfiteatro alternavam-se em representações de cavalos, elefantes, cachorros, pinguins, baleias e outras mais.
O advogado humanista disse:
— Eles são mais inteligentes, têm engenharia, sabem coisas da matemática, colonizaram seu planeta vizinho…
— Não nos faça rir, meu irmão — disse o líder legalista — suas construções, para nós, que estamos a milhões de anos à frente, não se diferenciam muito de uma casa de um pássaro joão-de-barro. A questão aqui é moral, e vocês, humanistas, sabem disso!
Os pais intervieram em uníssono em sua telepatia:
— Lembramos que precisamos de todo o amor possível para vencermos as forças entrópicas do Grande Nada.
O líder legalista lançou um olhar compreensivo aos pais e, logo após, desafiador ao irmão, advogado daquela causa perdida. Este, com lágrimas nos olhos, implorou por compaixão:
— As artes, não nos esqueçamos de sua bela arte.
Cenas de arquiteturas, pinturas, filmes, peças de teatro, esculturas e todas as formas de artes humanas, em sua maior expressão, surgiram no centro da grande assembleia.
— Já está em nossa enciclopédia, irmão, não será esquecida. Além disso, todas as formas de arte humanas estão em declínio há décadas.
— As grandes personalidades dessa civilização e seus grandes mestres benfeitores, seus ensinamentos…
Imagens de Shakespeare, Buda, Gandhi, Jesus, Madre Tereza de Calcutá, Gilberto Gil, Martin Luther King, Mandela, Leonardo da Vinci, Michelangelo e muitos outros grandes nomes da Humanidade foram se desenhando alternadamente.
O líder legalista, com olhar de certa indignação, respondeu em tom grave:
— E o que fizeram com o seu maior mestre? Crucificaram-no!
O advogado humanista retrucou de imediato:
— Eles podem aprender, nós podemos ensiná-los!
Todos os pais, ao centro, voltaram seus olhares reprovadores ao advogado e disseram telepaticamente em tom elevado:
— Não podemos violar a Lei!
O líder legalista engrossou o coro:
— A Lei e nosso empreendimento! Viemos atrás da espécie mais amorosa para salvá-la do perigo iminente. Precisamos de todo o amor no Universo para completarmos nossa missão. Não há necessidade em lembrar que a questão não é inteligência e, sim, empatia.
— Pais, imploramos, eles podem evoluir…
O líder legalista interveio de imediato:
— Assim?
Logo, as imagens ao centro se converteram em perversões, guerras, assassinatos, crimes de todas as espécies, corrupções, vilanias etc.
Os pais, em bloco, abaixaram as cabeças e fecharam os olhos, recusando-se a verem coisas tão baixas, há milhões de anos esquecidas em sua própria civilização.
Em uma última cartada, o advogado converteu as imagens em demonstrações, de afeto, atos de honra, atos heroicos, cenas de nobreza de espírito, cenas de amor familiar, com os dizeres telepáticos:
— Para nós, humanistas, essas pessoas que mostramos agora têm um valor inestimável de amor que supera o conjunto de todas as demais espécies. Deem-lhes uma oportunidade! — disse em retumbante apelo sentido por todos em seus corações.
O líder legalista se voltou aos pais e finalizou seu discurso:
— Estamos aqui pela espécie e não por indivíduos. Lembramos: 0,3366%. Não merecem tamanho risco e consideração. Não podemos encher nossa nave de monstros. Não temos tempo e energia.
O advogado apenas se restou a falar:
— Pais, esperança e compaixão!
Os pais, encerrando o debate em ordem telepática, após breve meditação, obtiveram o consentimento de todos, que restaram em silêncio mental. E deram a ordem final:
— Mapeiem o DNA de todas as espécies amorosas e façam o resgate da espécie mais nobre deste planeta. Não temos muito tempo.
E assim foi feito. Um grande arrebatamento foi efetuado e a nave partiu para outro sistema solar.
Um representante dos pais foi receber, em um imenso salão, os membros da espécie escolhida. Sentiu em seus corações o amor familiar, a caridade, a compaixão, o senso de proteção mútua. Toda aquela boa energia que captou, retribuiu gentilmente.
Com seus passinhos desengonçados, um dos pinguins se desgarrou do grupo e caminhou para mais próximo daquele pai. Nunca tinha sentido tanto amor. Girou a cabecinha para o lado, num misto de curiosidade e alegria, e o olhou com gratidão. O pai retribuiu aquele olhar feliz, que era a própria felicidade da Mãe Natureza, e sorriu.
Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP.Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional.
Naquela tarde, mesmo com o compromisso de buscar o neto na escola, Hélio decidiu sair de casa para encontrar a sua turminha na praça Castelo Branco, porque julgou ser mais importante, caso de providência nacional. Era costume encontrá-la aos sábados, no bar do Jonas Boca de Baleia, só que, desta vez, teriam de bolar um plano. O presidente viria a sua cidade, Fortaleza, no próximo sábado; era imprescindível que o recebessem com honras e pompas, para que se sentisse mais poderoso do que já é – pensava. Falaram sobre as perspectivas da tomada definitiva do poder pelo presidente; que não seria aceitável, de forma alguma, terem novamente o bandido de “nove dedos”. Gozavam e babavam ao falar, tomando, cada qual, a sua cervejinha de lei. Hélio achava que a conversa se estendia e que perderiam o fio da meada: “Caros patriotas, um minutinho de sua atenção… Precisamos mostrar a nossa lealdade ao nosso chefe maior, e, para isso, temos de ser merecedores das insígnias nacionalistas. Explico-me: o tempo está acabando. Chegou a hora de enfrentarmos os comunistas, custe o que custar. Faremos investidas radicais e filmaremos tudo, para entregar-lhe as gravações. O certo é que, estando ele no poder, seremos prontamente o seu braço direito nesta capitalzinha de merda”. Sim, Hélio falava como mandatário do povo, como o verdadeiro dono da província. Os demais, ávidos por sangue, não escondiam o frenesi em começarem os trabalhos. Combinaram de pegar as suas armas: uns com facas, espadas; outros, por disposição dos novos decretos presidenciais, com suas pistolas lustrosas. Esconderam as bandeiras que flanavam nos carros. Seguiram em comboio para os bairros centrais da cidade, onde poderiam encontrar estudantes e outros seres degenerados. Depararam-se com uma vítima: uma senhora de seus quarenta anos, claramente diarista ou doméstica – e a razão da escolha é porque ela levava uma bolsa com o broche de Lula. Esperaram que entrasse numa rua esquisita, transversal à avenida principal. Desceram quatro, com armas em punho. “Encoste na parede, sua vagabunda! Vai votar mesmo em quem? Em quem?! Bora, desembuche! Ah, não quer falar, né?! Pois, para aprender a votar direito, vai aguentar uns corretivos!”. Bateram, bateram, até deixá-la desnorteada, com a roupa em farrapos, com um furo grande na bolsa, onde antes estava o bendito broche. Mais à frente, encontraram quem queriam, um jovem metido a revolucionário. Colocaram-no no carro de Hélio e aí fizeram as maiores atrocidades: cortaram seus cabelos, bateram em sua boca, deixando-o desfigurado; obrigaram o rebelde a dizer que votaria no presidente. Largaram o sequelado numa rua distante, para os lados do bairro Antônio Bezerra. Queriam mais, mas Hélio achava que teriam material mais do que suficiente. Voltaram ao ponto de encontro e lançaram, aos risos, os vídeos para os grupos de WhatsApp. À noite, quando Hélio voltou regozijado para casa, percebeu que havia notícias sobre atentados políticos feitos por idosos, defensores do presidente, em sua cidade. A mulher e o jovem lesados prestaram queixa e falaram ao veículo de comunicação mais conhecido do país. Hélio titubeou, achou que poderia dar bronca, mas um colega, o Sérgio Cabeção, que estava no meio, telefonou para tranquilizá-lo: “Isso não vai dar em nada, patriota. Amanhã já esquecerão… E mais, o recado foi dado; a vagabundagem vai pensar duas vezes em usar um material com a figura do bandido de nove dedos”. Qual não foi a surpresa de Hélio ao ser acordado pela mulher, no dia seguinte: “O que foi isso, Hélio, me explique logo! Vi um vídeo na televisão em que aparecia o seu rosto e dos seus amigos, espancando aquela mulher e o rapaz que apareceram ontem na televisão. Ainda ameaçaram o ministro careca. Vocês piraram ou o quê?!”. O mesmo ministro carequinha determinou a prisão dos suspeitos. Meia hora depois de ter acordado, Hélio era levado à delegacia, onde encontrou os comparsas. A maior tristeza, que declaravam no olhar, é que não veriam mais a carreata do presidente na Capital. Hélio pensou que a esquerda estava por trás de sua prisão; mas não lhe soaram estranhos os atos do dia anterior. Para as câmeras acenou e gritou, isolado: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão!”.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Ela começou a atravessar em um passo pequeno, amedrontado. Os olhos cinzentos e lacrimosos varavam a rua em uma súplica muda, procurando se deter no primeiro transeunte. Era tão velha que parecia parar a qualquer momento para dizer que havia sido testemunha da primeira pedra que colocaram na rua, quando a rua ainda era feita de pedras. Olhá-la era como ver algo capaz de tombar a qualquer momento; não, nem tombar, que haveria no tombo ainda uma violência que não combinaria com ela. Parecia mesmo era prestes a desvanecer, assumir as cores da noite antes de sumir lentamente, imperceptivelmente — ela estaria de mãos dadas com o passante que se deixasse alugar, um tipo mole demais para repeli-la: aqui (a voz trêmula), aqui era a antiga casa de um industrial, uma construção tão linda (os olhos lacrimosos), datava do período do Imperador. Não, acho que era colonial — e em um átimo, seu corpo feito de éter, um vento noturno, nada.
Do outro lado da rua, as meninas faziam ponto. Equilibravam-se em saltos imensos, desfilando os corpos repletos de lantejoulas pretas, rosas, douradas, coladas no busto ou nas saias curtas. Uma delas viu a velha e cutucou a colega com o cotovelo. Apontou para o outro lado com o queixo.
— Ó lá, alguém largou a vovó no Centro.
— Vai ver se perdeu — disse a outra moça. Não insistiu no assunto: um carro preto se aproximava, e por trás do vidro abaixado um homem musculoso fez uma gracinha. Ela se encostou no vidro, o antebraço roçando entre o do homem, as frases retardadas por um chiclete entre os dentes brancos.
A primeira moça continuou olhando. Chamava-se Daiane. Tinha outro nome, mas não importa. Tinha também uma pele branca emborrachada, como de lagartixa. Assim que chegou, disseram que era pele daquelas lá do interior mesmo, as tabaroas. Pois era mesmo do interior e possuía uma história difícil, acreditaria ser sofrida caso não fosse tão atordoada em relação aos seus próprios acontecimentos particulares — uma história dessas que empurra as mulheres pra zona, enfim. Mais do que loiros, os cabelos eram amarelos, tingidos da cor de gema de ovo, e naquele momento Daiane não acreditou que a mulher fosse atravessar a rua.
Porque, por estranho que fosse uma idosa no centro da cidade àquela hora da madrugada, caminhando seu passinho pequeno que ignorava que tudo ao redor estivesse um ermo; mais estranho ainda seria aquela velha prosseguir até o outro lado, visto que do outro lado havia a zona e mais nada. Entretanto ali estava ela, com seu passo de santa. Talvez fosse uma visão de santa.
Daiane se aproximou de outra moça.
— Tem algum velho aí hoje?
A mulher lhe lançou um olhar desconfiado.
— Que foi?
— A senhorinha tá vindo pra cá — Daiane apontou com o queixo outra vez. — Acho que está procurando o marido. Ou o filho.
— E eu com isso? Suma daqui, vá, você está me atrapalhando.
Daiane abriu caminho e voltou ao trabalho. Houve justiça no fato que, uma vez tendo ganhado a calçada, a velha procurasse seu braço para encaixar a própria mão e dizer, numa voz também tímida:
— Mocinha, onde que eu falo com o dono?
Ela deu um sorriso nervoso. Retesou o corpo. Outro carro se aproximava. Tentou afastar o braço com delicadeza, mas o aperto da velha pareceu se tornar, de repente de ferro.
— Preciso falar com o dono.
— Minha senhora, isso aqui é um puteiro.
E a velha respondeu:
— Eu sei.
Muitos pensamentos podiam ter tomado conta de Daiane ao escutar a afirmativa; prevaleceu, entretanto, o medo pelos clientes que perdia a cada segundo que demorava com a velha. Pior ainda se lhe associassem indelevelmente à figura encolhida da mulher — um dos homens nos carros que passavam já havia gritado uma piadinha obscena: é quanto com a vovó? Daiane prosseguia com seu riso nervoso, um riso que mascava o desconforto até que este se encolhesse e se disfarçasse.
Mas não houve jeito de se livrar da velha. Logo as outras moças se aproximaram sorrateiramente.
— A senhora está se sentindo bem?
— Estou, estou sim. Quero falar com o dono.
O “dono” era um homem negro do pescoço de touro que se chamava Cláudio. Se não era bom, também não era de todo ruim. O fato é que nenhuma das moças tinha vontade de chamar por ele — o que seria um sinal de desordem, e não havia, entre elas, nenhuma que quisesse admitir uma desordem. Desconheciam se Cláudio estava de bom humor ou não: a mesma mão capaz de matar um cliente violento, daqueles que obrigam coisas nojentas e substâncias; essa mesma mão poderia lhes marcar a pele caso se sentisse no direito. Especialmente os assuntos relacionados a dinheiro o transformavam em um bruto.
Foi, por fim, Soraia, uma das mais antigas, que resolveu explicar:
— Dona, aqui a gente não tem chefe, chefe é o cafetão.
— Mas é com ele que eu quero falar, mesmo.
E, porque nenhuma delas se moveu um centímetro sequer, a velha ajeitou o casaco de lã e avançou para a construção.
Uma luz vermelha brilhava ali dentro. Dois quartos tinham as portas fechadas; em um se entrevia uma cama de solteiro, encostada na parede, um espelho, uma cadeira e o que pareciam ser revistas pornográficas em uma cômoda. A velha avançou muito cândida pela sala até dar com um homem calvo, de uns cinquenta anos, que ria de um vídeo qualquer no celular.
Ele levou um solavanco. À sua frente, a velha toda tremia. Usava um casaquinho de lã com um único botão grande, fechado sobre o colo.
— Como posso ajudar a senhora? — perguntou, desconcertado, em uma incerteza entre enxotá-la ou apresentar-se mais polido.
— Estou procurando um homem — disse a velha muito claramente.
Atrás, as moças — cinco das quais não tinham medo de aborrecer Cláudio, ou sentiam que dinheiro algum daquela noite pagava serem testemunha dos acontecimentos — suspenderam a respiração.
A velha prosseguiu, como se aquilo se tratasse de uma entrevista de emprego:
— Me chamo Dita. De Benedita, mas todo mundo sempre chamou assim.
— Como que a senhora chegou aqui?
— De condução.
— E tá procurando homem pra que? — perguntou Cláudio, abobadamente.
— Pra fazer amor.
Restou o silêncio. Uma das moças começou então a rir — tentou esconder o riso entre as lantejoulas da roupa, mas este lhe ultrapassou a boca, transformando-se em uma gargalhada que contagiou as outras pouco a pouco. Dita continuava, entretanto, impassível.
— Meu marido morreu faz tempo, estou cansada de ficar sozinha. E, Deus que me perdoe, não era assim tão bom.
— O amor não era bom? — uma das prostitutas perguntou.
— Assim, assim. Mas Deus que dê paz a ele, era um homem justo. Nunca me faltou nada, não.
— Tô vendo que faltou — Soraia respondeu com malícia.
Cláudio fez uma cara feia — estava gostando cada vez menos daquela situação. Bateu as mãos, virando-se ríspido para as moças:
— Bora, circulando. Chega de corpo mole.
A seguir tornou à velha e acrescentou de mau humor:
— Aqui não tem homem nenhum, só mulher.
Esperava com aquilo — não sabia o que esperava. Era inimaginável que a velha fizesse o caminho de volta pelo bairro semi-abandonado àquela hora. Sequer sabiam como ela tinha sido capaz de chegar até ali.
Ficaram assim por um momento, Dita alisando a saia, aprumando o cabelo ralo penteado e perfumado. Estudou as moças uma por uma.
— E mulher? — perguntou, por fim.
Mulheres, haviam; impossível negar. Dita atravessou a todas com o olhar cinzento que lacrimejava. As moças deixaram de enxergar a velha, passaram a ver apenas um corpo nu.
Do centro do grupo, saiu Daiane. Pôs as mãos na cintura.
— A senhora trouxe dinheiro?
Dita agarrou uma bolsinha minúscula.
— Trouxe, tudo aqui.
— Olha que é caro.
Virando-se para Cláudio, acrescentou:
— Acho melhor ela ficar pra dormir, não quero me meter com caso de morte de velha nessa rua.
Tomou Dita pela mão e a levou ao quarto. As moças puderam ouvir a velha falar, antes que a porta se fechasse:
— Deus te abençoe, filha.
Catharina Azevedo é natural de Salvador, Bahia. Em 2020, publicou o conto No Intervalo, presente na antologia “Soteropolitanos” (org. Matheus Peleteiro, edição independente). Seu primeiro livro de poesias, “deixe o bando correr selvagem”, está em pré-venda pela Editora Mormaço.
Desligo os faróis antes de alcançar o alto do morro e deixo o carro deslizar suavemente, como se planasse sobre uma nuvem, até parar embaixo de uma árvore. É tarde, não há ninguém, nem mesmo os nóias. Apenas nas luzes da cidade, lá embaixo, há algum sopro de vida. Salto do carro e acendo um cigarro. Uma vez Kersey me disse que a gente nunca deve ter pena de vagabundo. Vagabundo tem mesmo que se fuder, do contrário fodem com a gente. Eu nunca discuto com Kersey. Ele está nisso há muito mais tempo que eu.
Jogo o cigarro no chão e caminho até a casa com o portão verde. Bato três vezes. Alguns segundos se passam e escuto o barulho de uma porta sendo aberta e, em seguida, passos arrastados, os chinelos ralhando sobre o cimento do passeio que leva até o portão.
– Quem é? – ele pergunta.
– Te dou uma chance pra descobrir.
Depois de três segundos, ele destrava o ferrolho e o portão fica entreaberto. Está com os olhos inchados e o rosto suado, a cara de quem não dormiu.
– Ainda não tenho a grana.
– Não tem nada?
– Alguma coisa. Não é muito.
– Eu quero.
Ele me encara. Está desconfiado.
– Espere aqui.
Encosta o portão, se vira e caminha até a entrada da casa.
Cruzo a porta e vejo uma mulher deitada no sofá, de frente para uma mesinha onde há um prato com algumas gramas de pó. É loira, magra e, quando seu olhar de vampiro pousa sobre mim, imediatamente se encolhe, espremendo-se contra o sofá, uma almofada suja servindo de escudo. Faço sinal para que continue em silêncio, mostro a arma em minha mão. Pergunto onde ele está e ela aponta para o quarto. Sento-me em uma cadeira e espero.
Dois minutos depois, ele passa sem me notar. Está com o dinheiro na mão. Tem um 38 nas costas, preso à cintura. Ele nota a mulher espremida no sofá e, ao reparar nela, me vê.
– Pra quê o 38? – pergunto.
Seu rosto está congelado. As narinas dilatam-se por conta da respiração.
– O dinheiro tá aqui. Quase dois mil. Consigo o resto em uns dois dias.
– Não vim atrás do dinheiro. Quero minha parte da encomenda.
– Que encomenda?
– Você sabe.
– Não sei, não. Seja lá quem falou isso de encomenda, é mentira.
Fico de pé e caminho até ele. Pego o dinheiro de sua mão, coloco no bolso e então aponto a arma pra mulher no sofá. Ela grita e se protege atrás da almofada.
– Já disse, cara – ele responde -, não sei nada sobre o que tá falando. Muito menos ela!
– Tem certeza?
– Claro!
– Não está mentindo?
– Eu não minto pra você.
Deixo de apontar a arma para a mulher e a direciono para a cabeça dele. Seu rosto se contorce, os olhos piscam naquele segundo em que calcula se daria tempo de pegar o 38. Atiro no instante em que ele, com os olhos esbugalhados, faz o movimento. A mulher dá outro grito e se agarra à almofada, enquanto ele cai morto no chão.
– Fica de pé – digo pra ela.
– Não me mate, por favor!
Ela se levanta lentamente, o corpo inteiro treme. Usa uma bermuda jeans gasta e uma camiseta com a foto de uma garota, o nome Raquele escrito em cima.
– Sabe onde está?
– Sei… Na caixa d’água. Foi lá que ele subiu.
Há um limo grosso sobre a Eternit. Ando com cuidado. Tenho medo de escorregar ou de quebrar uma das telhas e cair. Seria estranho morrer assim. Tento imaginar o que escreveriam no jornal: POLICIAL CAI DO TELHADO APÓS TIROTEIO COM TRAFICANTE. Abro o saco plástico azul escondido na caixa d’água e, dentro dele, vejo dois pacotes enrolados com fita adesiva. Enfio o canivete em um deles e coloco o pó na gengiva. Em dois segundos, está dormente. Fecho o saco e volto a andar sobre a Eternit, cada passo como um salto rumo ao abismo.
A mulher teve tempo de fugir, mas continua ali, sentada no sofá, olhando para o corpo do bandido no chão. Ao seu lado, sem que consiga enxergar, Kersey se senta, cruza as pernas e olha pra mim. Eu sei o que quer. Nunca deixe testemunhas, ele me disse uma vez. Nem perca tempo com eles. Aponto a minha arma para ela.
– Você disse que não ia me matar! – a mulher grita, os olhos miúdos, cheios de lágrimas. – Eu falei o que você queria! Por favor, não me mate!!
– Quem é a menina?
Ela me encara, sem entender.
– Raquele – digo, apontando a arma para sua camiseta.
Ela suspira, estica a camiseta e olha para a imagem.
– Minha irmã. Desapareceu há dois anos. Tava brincando na rua e sumiu.
– Encontraram?
– Não. Minha mãe sonhou que ela já estava morta.
Abaixo a arma e saio da casa carregando os dois pacotes, enquanto ela me observa. Vou até o carro, sento no banco do motorista e acendo um cigarro, olhando para a cidade lá embaixo, para o pouco de vida que ainda resta.
– Uma vagabunda viciada é só uma vagabunda viciada – Kersey diz, sentado no banco do carona. – Volte e acabe com ela. É assim que a gente faz.
Olho pra ele. Paul Kersey. O mesmo bigode de sempre, o mesmo gorro sobre a cabeça, o olhar de quem já testemunhou coisas demais. Um grande homem, uma constante inspiração. Agora, no entanto, estou cansado.
– Vamos deixar essa merda pra lá, Kersey. A mãe dela já chorou demais.
Ele dá de ombros e, de um segundo para o outro, desaparece em meio à noite que engole tudo. Eu ligo o carro, acendo os faróis e começo a descer a ladeira.
Rodrigo Melo tem publicados dois livros de histórias curtas, “O Sangue Que Corre Nas Veias” e “Jogando Dardos Sem Mirar O Alvo”, ambos pela editora Mondrongo, e participou das coletâneas de contos “82, Uma Copa/15 Histórias” (Editora Casarão do Verbo), organizado por Mayrant Gallo, e “Outro Livro na Estante” (Editora Mondrongo), organizado por Herculano Neto. Escreveu, ainda, o livro de poesia “Enquanto O Mundo Dorme”, e o romance “Riviera”. Mora em ilhéus, no sul da Bahia.
Mas Onã, que sabia que essa posteridade não seria dele, maculava-se por terra cada vez que se unia à mulher do seu irmão, para não dar a ele posteridade. — Gênesis 38:9
O beijo de um tempo frio em minha testa/ Alguma luz na água/ O reflexo do meu rosto/ A poesia é meu único amor sincero/ A poesia é meu último amor sincero... — João Maceno
Estive envolvido profundamente com a literatura. Li muitas obras importantes e também escrevi umas coisas, por influência dessas obras, como quase todo mundo. O que fiz com tudo isso eu ainda não sei. Confesso que não me importo muito pelos resultados, porque os processos, os métodos, me envolvem sem que deles possa sair; estes me levam para longe, e qualquer trabalho finalizado se perde no horizonte distante. Sobre o ofício? Ah, dia após dia, sentava-me para escrever, até anoitecer; não saía de casa sequer para comprar um pão. Com esse exercício medonho aprendi a fazer umas coisas. Todavia, logo que me aperfeiçoei um tanto me deparei com aqueles velhos problemas inerentes à ficção. Minha terrível agrura: as personagens se misturavam muito às minhas histórias pessoais e com boa parte do meu caráter — o que é péssimo… porque verdadeiramente, no final das contas, eu não sabia em quem bater primeiro, se neles ou em mim mesmo. Com o tempo, me especializei nesta arte de me perder no universo das personagens, de modo que eu não pude nunca mais desvencilhar uns dos outros, isto é, eu deles. Como escritor eu trabalhava demais, digo, no sentido de não parar nem para comer um brioche de geladeira! Neste universo, a minha imersão era tamanha, eu trabalhava tanto! que estive sempre indiferente às demandas fisiológicas do meu corpo e à família — era o espírito da literatura que regia minha existência para não sei onde, noite e dia —, todavia, depois me apareceram sérios problemas… Não posso me culpar, eu já me perdoei, hoje eu pago por isso e assumo minhas culpas, estou quite com meus personagens e comigo mesmo. Porque para alguns escritores, sua relação com a literatura se configurava tal a uma condição de “aprofundamento singular” — este termo é de Ludwig Vaander-Stelmmer — porque a literatura, devo dizer, é o grande culto! Em outras palavras, eu nunca me preocupei com o tempo do meu corpo, enquanto estive convicto da importância do tempo do espírito. A realidade exterior apenas tem sentido quando incorporada sem pretensões, quando a deixamos perambular pelo labirinto da memória, para em seguida reescrevê-la, não em busca dos “fatos”, mas em busca do “como se” — esta é a nossa salvação… Eles disseram, depois do ciclo de palestras: “Vai com calma, João!”. Eu retruquei (muito embora não estivesse de todo convicto): “Eu sei o que faço, meus colegas… eu sei o que faço…”. Escrevi uns versos e quase os publiquei em livros, a experiência de escrevê-los ficou para sempre, mas a obra se perdeu. Eu vivo tentando… Vivi um tempo de livro quase concluídos, em eternas revisões — é isto o escritor, não se engane! No final das contas eu carregava sempre alguma dúvida se os publicaria ou não, visto que daí em diante eu poderia ser elogiado ou difamado; não me animava a possibilidade de tornar-me reconhecido enquanto houvesse o precedente da difamação, que é aquele estigma que mesmo após a morte perduraria (meus filhos teriam vergonha de mim). Eu escrevia, mas carregava as minhas dúvidas — e por causa destas eu não parava de escrever. Porém, dúvida boa é aquela que possui uma cratera tão grande em seu arcabouço, que pensamento incomodado infla, e se torna maior que a cratera. Hoje, gostaria demasiadamente de precisar alguns pormenores sobre a minha vida — se é que interessa.
Nasci na cidade de Penedo, nas Alagoas, em 12 de janeiro de 1962, sob o nome de Roberto Rabocha dos Santos, e não de João Maceno, meu pseudônimo. Aos 22 anos resolvi enfrentar o destino em São Paulo, e por lá, em alguns aspectos, me dei bem. Aos 32 anos tornei-me profissional da comunicação, redator de uma revista considerada e arrisquei-me pela literário da mesma revista. Neste ambiente de papel e de letras encontrei a mulher que me tolerava e que enxergava alguma beleza em mim — não vi nenhum feito em seu caráter. Casamos em 1996, e em 14 anos de casados e tivemos duas filhas — Clarisse, 05 anos; Alice, 11 anos. Vivemos como num sonho bom, porém, de súbito, aos 48 anos eu estava sozinho num quarto meio mofado de casa alugada a pouco dinheiro; sim, eu fiquei sozinho, porque sem a esposa as filhas escolheram, obviamente, morar com a mãe ou com a avó… (não quero tratar de detalhes do fim do meu casamento, mas adianto que há uma temática trágica, sobretudo “patética” envolvida, e da minha parte…). Ora, sinceramente não tenho ódio ou mágoas contra ninguém. O ódio sem destinatário é arte. Mas, deixa eu te dizer uma coisa: por outro lado, nós amamos e sabemos que amamos, examinamos nossos pensamentos e atos sobre a pessoa amada e cremos que amamos, todavia ela pensa que ainda é pouco, ou desconfia que é bobagem ou enganação. O que nós sentimos é tudo o que temos para aquela pessoa, e ela acha pouco ou inútil…
Após o divórcio, desvencilhei-me da maioria dos compromissos domésticos, ainda bem. Resolvi me debruçar, com o devido empenho sobre o que me restou de fato, aos meus textos. Certo dia, ao acordar disposto, explorei o velho armário cheio de papéis, de algumas traças e ácaros; tentei dar ordem ao que reencontrei. Seis sacolas de supermercado contendo manuscritos velhos, seis possíveis livros que eu abandonara. Muitos papéis, e ao folheá-los, de imediato retomei ao fio da meada daqueles anos passados; eram quase livros, ali, e somente eu estava ciente de que sabia o que escrevera, porque quando se diz a verdade ninguém acredita. Mas, não eram ainda livros, antes de reuni-los, sob a ordem de temas correspondentes. Havia certa desconexão (mesmo as melhoras frases, as que soavam bem, ainda não continham uma verdade). Grandes obstáculos enfrentados, num trabalho interminável, tentei encontrar ou inventar liames. Para alguns textos escrevi coisas que depois chamei de “emendas” e lutei em vão contra outros tantos. Às vezes temos frases aparentemente perfeitas, mas que não passam, no final, de um engodo. Os manuscritos “não aproveitáveis”, aqueles que por si só não forneciam saídas, eu os comi, os umedeci com água ou refrigerante, pus pimenta calabresa e os comi; o texto impossível não me dava outra saída senão trazê-lo para dentro de mim por simbiose, incorporá-lo pelo estômago, já que não sedia ao intelecto.
No final de 2013, eu os tinha organizado todos e atribuído títulos chamativos, tais como, “Diurnos”, “O Caso 64”, “As Aspirações de um Equilibrista”, “Âmago Translucido”, “A Paixão Segundo Margarete”, “Manto Frondoso” e “Piramundo”. Editar tudo me custou muito caro. Trabalhar pelas madrugadas me adoeceu. Emagreci em demasia, houve queda de cabelo e tornei ainda mais impotente. Cara caveirosa e olhos fundos, os lábios descorados, sem brilho. As calças caiam um tanto, as camisas folgaram-se. Neste período, eu pensava ter desenvolvido diabetes. A sorte é que depois de um tempo de folga e de paz — digo, não pensar em nada, não fazer nada — melhorei sobremaneira. A saúde se restabeleceu e se estabilizou. Eu estava grato pela saúde aparente. Pensei em me casar novamente, mas desde sempre fora casado com a literatura; na verdade, fiquei sozinho, ainda bem; eu não queria dar trabalheira a mais ninguém. Eu quis resolver de uma vez por todas, aquela tendência incômoda à vida a dois. Me lembrei de Kant, solteirão, quem sabe apaixonado pela Filosofia. Me lembrei do padre Simão, solteiro, quem sabe apaixonado pela fé. E eu, talvez pudesse estar solteiro, quem sabe, para escrever, porque escrever toma tempo e é a boa solidão.
Em grande medida, meu casamento acabou porque vivia para o trabalho e para a escrita autoral, e foi por causa destes dois universos que me lasquei. O primeiro, abandonei, já que perdera algo mais importante: a presença da minha esposa e filho. Acabei aposentado por invalidez. E o segundo? Não tive forças para abandoná-lo, devido “ao tamanho absurdo e a densidade insustentável da sua inerência dentro em mim” — tal frase parece clichê, mas na verdade eu nunca quis deixar a literatura; a violência sem destinatário é arte… Literatura, deste ofício não se despede; vive-o até o fim, e quem sabe, depois (mas não sou religioso, não penso o “depois” para além de um gracejo). Diante deste quadro, resolvi radicalizar alguns aspectos da minha vida; havia algo dentro de mim que me “roubava” certa parcela da minha concentração. Disse a minha mãe que iria morar sozinho e que cuidasse das meninas com o auxílio da maior parte do meu dinheiro (o que não era suficiente); as meninas gostam mais dela do que de mim e da mãe — digo isto sem mágoas pela opção delas; também não acho oportuna tal opção. Por conseguinte, comprei uma bela chácara em Araçoiaba da Serra (por sinal, mal-assombrada, mas eu ignorava visitantes de toda sorte). Por lá me aperfeiçoei ao meu gosto. Escrevi novos sonetos, escrevi odes, sáficos, gaitas galegas, e outras dezenas de decassílabo; escrevi alexandrinos e bárbaros, enquanto os pardais tentavam chamar minha atenção à janela; reinventei a métrica e a diluí em anarquias criativas que me faziam gargalhar pelas altas madrugadas, sem que as corujas noturnas, pousadas num galho à janela, me compreendessem. Mas percebi, com o tempo, haver em meu corpo uma demanda, que mesmo sendo menos indômita que a fome e a sede, e estando ao largo, ainda me incomodava; era uma ansiedade genital, a maldita libido: ora, eu a sentira muito sutilmente e difusa, muito de longe, muito de leve, porque estava enceguecido pelos versos; mesmo pela manhã, ao acordar eu notava sua presença e a sentia tal a um leve incômodo, que mobilizava dentro de mim certos pensamentos luxuriosos (e eu nem escrevia sobre o tema…). Antes, aquela coisa volátil, sem nome e sem nexo, reverbera vapor dentro, no calor cego da virilha, sem diretamente percebê-la, até que uma noite, devo dizer, depois de algumas perscrutações, me incomodou, porque eu me alegrei com a lembrança voluptuosa de antiga amiga da universidade. Imaginei-nos em mil e uma manobras sensuais, e por causa de pensamentos persistentes enfrentei duas semanas sem escrever um verso, até me libertar razoavelmente. Desde muito cedo, entre outras pulsões medianas, a sexualidade me era enfadonha; casei-me porque me vi obrigado, coitada…; eu muito jovem quis experimentar, me apaixonei e amei, todavia, acabou…. Para o sexo, nunca uma mulher me atraiu, nem homem, nem quaisquer outras das variantes… sempre tive medo desse calor exótico e testicular, desse exercício medonho sobre superfícies macias, colchões sofredores. A libido sem destinatário é arte, eu sei, mas eu não tenho este dom, nunca quis arriscar de fato, na cama fui um fingidor. Para mim, o sexo era a prática dos bichos que espumam pela boca, dos cães e das aves, em oposição à escrita, algo muito lento e calmo e que se faz sobre superfícies duras, escrivaninhas felizes. Quando casado, me cansava muito deste exercício — seus jogos, as caras e bocas, as mãos bobas, os sons monossilábicos incompreensíveis, os lábios derreados, as convulsões momentâneas, a dedicação ao gosto do outro, às frustrações das precocidades, minhas insuficiências, e a traição que ignorava, porque, como disse, o sexo e suas variantes me eram enfadonhas — na verdade, eu gostava quando minha esposa voltava feliz, porque ela sinalizava discretamente que somente neste aspecto eu não me tornara um suficiente. Sei que mesmo a pequena relação se constitui numa dívida de monta, e as asas daquele que voava sozinho se desfaz pelo caminho do matrimônio — me perdoem por usar esta metáfora tão felpuda. Ah, só mais uma coisa: a cama é tudo! Não é à toa que falam tanto da cama quando se fala de relacionamento. Na cama ocorre o “efeito da presença”, eu já disse uma vez, de quando dormindo ou acordado a gente sente a presença forte do outro, a gente acorda para olhar o outro dormindo, ouvir sua voz e sua respiração, olhar seu rosto sempre inédito, dormindo… isto é o amor. Porém, quando o outro desaparece na cama, se torna parte da cama, tal a uma almofada grande com pés e mãos, e nos sentimos como quem dorme só, acabou o amor.
De todo modo, tomei uma decisão definitiva, porque a literatura era a minha vida. Era o ofício! Sim! Até o final da minha vida, como dizia o pessoal do Romantismo europeu. E, um tipo de prescrição para a existência — e eu achava melhor considerar coisas do tipo do que a vida doméstica. Na verdade, a literatura é um modo de existir, é um horizonte, um portal em aberto, um plano existencial cujo alcance é infinito e maior do que a mente. “A literatura é mais extensa do que a natureza” — uma vez nos disse Eleanor Mannoir. A literatura é um plano extensivo, enorme, onde o mundo recosta a cabeça em busca de algum alívio. E é aí, neste orbe imenso, que eu queria viver e morrer. Deste modo, decidi conversar sobre o assunto com o meu médico; já a minha psiquiatra concordou de imediato. Como é de imaginar, o assunto demandou muitas outras reuniões (e a psiquiatra fartava a sua curiosidade…), porque aí, no âmbito de uma longa confrontação, que se enredou entre eu e o médico, havia um aspecto ético que ele denegou por um tempo; somente a muito custo consegui convencê-lo. Ora, é bom saber que em todo tempo da minha existência eu me reconhecia não sendo heterossexual ou homossexual, ou qualquer outra condição sexual. Na verdade, relativamente ao sexo, como prática eu não tinha gênero, eu nunca tomei gosto pelo ato em si, embora de quando em quando meu corpo “se aquecesse”…, e, íntegro desta minha apatia por mim conhecida e compreendida, ainda que no meio desse “fogo”, perseverei; tempos depois, consegui do médico o que queria — a castração, que é parecida à vasectomia, porém, com extração testicular; eu não queria ficar simplesmente infértil, eu queria ser como um Castrato italiano ou um Eunuco judeu e me libertar da libido, ter paz de espírito, enfim. Tal escolha seria para mim um gesto de violência? O que é a violência? A violência sem destinatário é arte. Aliás, meu pai falava que a natureza nos acha uns idiotas: para manter o ciclo da espécie, pela fecundação, ela nos obriga a copular a preço de esmola, o gozo. Mas eu não quero falar sobre isto.
Ora, pesquisando, eu não encontrei nada sobre castração humana nos dias atuais; num dicionário comum, está escrito que “A ‘castração’ no Brasil é um dos procedimentos mais realizados em pequenos animais. Evita diversos problemas de saúde, melhora o comportamento, e é das medidas mais importantes para controle populacional de cães e gatos. O procedimento não costuma ser complicado, porém exige certos cuidados antes e após a cirurgia”. Apresentei este pequeno texto ao meu médico e ele riu; disse que precisava pesquisar… confessou que nunca realizara tal cirurgia. Duas semanas depois, estava eu em seu consultório; me despi ali mesmo e vesti uma camisola hospitalar aberta nas costas. Numa sala pequena e branca, cerâmica até o final da parede, deitaram-me numa maca estreita. Uma enfermeira aplicou Clonazepan na entrada de um cateter na venosa do braço, porque eu estava um pouco hipertenso e nervoso. Um homem grande me pediu para sentar, ordenando que não me mexesse e aplicou a anestesia raquidiana em algum lugar da minha coluna serviçal. Logo eu estava paralisado da cintura para baixo. O doutor Aristóteles, meu médico, estirou uma pequena cortina, lado a lado à minha cintura e eu não vi mais meus pés, até ele erguer as minhas pernas sobre dois pedestais. Os três começaram a conversar sobre coisas banais, ou seja, era o sinal, a cirurgia havia iniciado. Em vinte minutos ele me mostrou meus testículos na palma da sua mão, e eu não pude segurar as lágrimas, num choro copioso, porque me senti como se houvesse perdido o elemento ancestral da minha existência e que me fez ver ali os rostos saudosos do meu pai e do meu avô. O médico disse que eu deveria parar de chorar, porque aquelas convulsões em meu ventre poderiam desencadear uma hemorragia no local da cirurgia, durante o processo. Ele me costurou por baixo, enquanto eu enxugava minhas lágrimas; realizou seu último ponto e me disse: “Missão cumprida, meu caro… De hoje em diante você será para sempre um homem indiferente ao sexo”. A enfermeira me olhava triste. Por questões éticas talvez o médico mantivesse segredo quanto ao meu caso, por isso ela me olhava triste. Se manteve segredo eu ainda não saberia entender aquela expressão de tristeza nos olhos impecáveis da enfermeira. Nos dias seguintes acordei taciturno demais, de modo que levantava tarde da cama e não conseguia realizar a menor tarefa em meu cotidiano. Meu consolo foi ouvir Pink Floyd e os álbuns Zeit e Alpha Centauri do Tangerine Dream, o dia inteiro, semanas a fio, até sarar. Nos quinze dias seguintes à cirurgia, eu não pude beber vinho e isto me foi aterrador, torturante, porque a embriaguez em momentos decisivos sempre me foi uma grande salvação, quase uma salvação escatológica. Eu sentia uma tristeza persistente e difusa, que estava não somente dentro de mim, mas em tudo ao meu redor, como quando se perde um ente querido; a minha tristeza estava nas paredes, nos móveis, na voz dos transeuntes, na réstia empoeirada que riscava o chão, no chilrear dos pardais, no cinzeiro de latão, nas cuecas sujas dentro do cesto de plástico, na reprodução de um nu artístico de Toulouse-Lautrec em minha parede, na forma quadrada da janela, sobretudo no encarnado soturno do arrebol de fim de tarde. Eu pensei que ia morrer de tristeza. Não havia ombro amigo nem outro consolo, porque ninguém sabia do meu caso, e o médico não me ligou nem para desejar boa sorte. Somente Deus sabia da minha situação, mas Ele talvez não gostasse da minha literatura.
Nos meses seguintes me sucedeu uma calmaria. Meu lar tornou-se mais claro, no espelho meus olhos tornaram-se mais inocentes, meu rosto rejuvenesceu-se uns dez anos, e minhas mãos tornaram-se mais dignas. Minha concentração nas coisas era precisa, meus pensamentos tornaram-se irrepreensíveis, minha autoestima subiu, as ideias fluíam em enxurradas (e eu anotava tudo!); eu conseguia articular pensamentos e conceitos complexos com grande coerência, e mesmo um ser de luz, um homem vestido de branco, rosto luminoso, olhos esfogueados, de uns dois metros e meio de altura, conversou comigo a noite inteira, em minha sala, sentado em meu sofá, e até tomou um chá de boldo comigo — disse-me coisas inefáveis que deveras não é lícito narrar agora. Meu corpo tornou-se como corpo de menino; meus ombros se encolheram, minhas pernas afinaram-se, meus pelos caíram, minha testa ampliou-se para cima e para os lados, minhas rugas desapareceram, meu maxilar tornou-se harmonioso e gracioso, meus incisivos retraíram-se dentro da minha boca, e brotou uma flor em meu peito, deixei de ser carnívoro. Meu pênis tornou-se ainda mais “sanfonado”, de modo que encolheu até quase desaparecer abaixo do umbigo, sobretudo nos dias frios (e como não me restaram testículos, minha virilha era tal a virilha lisa, sem protuberâncias, de um inocente boneco de brinquedo, ou de um andrógino). Passei a realizar enemas em mim mesmo, com o intuito de me libertar um pouco mais dos processos mais baixos do metabolismo animal inerentes a este corpo. São arte os empenhos sem destinatário.
Foram três meses de inoperância total, após a castração; emergi lentamente na escrita e nas leituras, isto de um modo quase sobrenatural, elevando estas duas ao patamar da mais leve e pacifica religião — confesso que eu estava eufórico, excitado de espírito; nunca uma libertação física me trouxe tamanha graça espiritual. Vivi uma mística nova, para além de qualquer recalque freudiano. A um só tempo estava liberto do pudor religioso e do cio dionisíaco. Me arrebatei às nuvens do vernáculo, e era tudo que eu queria, e lá encontrei o divino, o numinoso, o plenamente suficiente, e escrevi bastante. Descobri que a maior emancipação de um homem é perder os instintos. Hoje o alvor dos versos de camões está plenamente apreendido em meu ser. Posso dizer que vivo um nível outro de existência. Estou absolutamente convencido que as pulsões do animal no corpo do humano (sexo, pavor da morte, medo do imprevisível, agressividade, excreção) são um terrível estorvo diante do alto nível de humanidade que se descortina no tempo presente, e do qual sou o primeiro e único representante. Eu sou o übermensch de Nietzsche. Amigo, é preciso elevar nossa humanidade até patamares nunca antes imaginados — e tal libertação somente se fará pela libertação das pulsões, e o sexo é a pior delas! Todas as guerras e todos os males têm sua raiz na transa, têm seu aspecto corrupto também nas pulsões diversas! É preciso elevar o logos aos planos antes inimagináveis! Libertemo-nos a nós mesmos da velha sentença aristotélica do “humano como animal”! O “bicho” no corpo é uma cifra diminuta no calcanhar da existência, e o humano é todo o cosmo! Podemos ser como os santos anjos. Um dia nos aproximaremos daquilo que os antigos orientais denominavam de deuses (e os ocidentais de Sofia)! A busca sem destinatário é arte. E, que todo homem se castre por amor a si e ao devir, e escreva belos poemas, no intuito de libertar a Natureza dos nossos equívocos milenares.
Wellington Amâncio da Silva nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. É professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das Edições Parresia. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Distímicos e Extrusivos (2016), Diálogos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfeição (2001).
Havia, longe das vistas de Bernardo, uma verdadeira colônia de formigas carnívoras que se formava, com justiceiros que saíam de suas covas; mulheres e suas crianças, indicando que viriam da escola, ou de um passeio matinal; sem contar a quantidade de desocupados que, na falta do que fazer, alarmavam ao vento: “Venha! Acudam! Ainda está vivo!”.
Cautelosamente, marchando em passos trôpegos e cansados, assomavam-se três policiais: o primeiro, de calça frouxa, raquítico, roupas abandonadas num corpo debilitado, suíças e olhos profundos, entretinha-se em mascar o chiclete que tirara do bolso, guardado para os momentos de aflição; o segundo, de ombros largos, com peitoral empinado de galo, mostrava, igualmente impactante, as pernas e o contraste com o resto do corpo, o dito casquinha de sorvete, sem contar a patente moleza de coração, para acompanhar a tragédia, muito diferente do habitual – aproximava-se com os olhos vendados pelas mãos; o terceiro, mais malandro, rechonchudo, cara lisa, ostentando um pequeno bigode safado, regozijava-se com a aglomeração – era tanto que batia o cacetete na mão esquerda, frenético, para excitar a tara.
Naquela altura, já não havia quarteirão; uma massa parava em frente ao monumento, para fotografar, inclusive, e debater sobre o ocorrido; que teriam, propositalmente, provocado o agravo; que, nessa terra, não teria mais espaço para gente de pouca ou nenhuma estirpe; que, bem feito, o agressor fizera um favor, para livrar o governador de ser cognominado de negligente, ou mesmo carrasco, por tentar limpar a cidade do mal das drogas.
Enquanto Bernardo se acercava, temeroso, com receio do que poderia ver e escutar, tocou os ombros de um senhor pouco-caso, parado num poste, a cerca de cinco metros do ocorrido, para tomar pé da situação: “O senhor saberia dizer o que aconteceu? Que alvoroço é esse?”. O homem, com o semblante impassível, mirou fixamente o rosto do rapaz, perturbado pela incerteza, e soltou uma gargalhada: “E eu lá sei? Estou aqui como você, para passar o tempo”. E continuou rindo, embolando a voz, com palavras pouco compreensíveis, de onde se podia extrair, com muito esforço: “bandido”, “lixamento”, “justiça com as próprias mãos”.
Bernardo se aproximou mais, afastando alguns seres plantados, desnorteados, como se estivessem entregues a uma seita. Vislumbrou-se a imagem de um menino, doze a quinze anos – não se podia precisar, dada a magreza e a ausência de expressão –, com um corte profundo na cabeça, de onde, ainda, vertia sangue, recebendo chutes nas pernas, na barriga, menos na cabeça, já deteriorada.
Gritou um homem, muito pronto, de paletó, do meio da multidão: “Tem de pagar! Eu conheço esse marginalzinho. De santo não tem nada. Passa o dia cheirando cola, roubando; levou até um relógio meu, decerto pra trocar por droga!”. Seguindo de murmúrios e urras: “Isso! Isso! Tem de aprender!”.
As pessoas estavam entorpecidas de ódio, com os olhos vermelhos, fulminantes, aplicando grosserias e pontapés no miserável, que não se mexia mais. Daí, Bernardo, por impulso, pensando que teria de reagir, jogou a bolsa no chão e gritou: “Vocês estão loucos! Não existe lei neste país? Vocês não podem sair matando as pessoas! Senhor policial, por favor, temos de chamar a ambulância, urgente!”. Foi engolido por uma avalanche de dejetos: “Cala a boca, desgraça! Leva ele pra casa! Bandido! Comunista safado!”.
O primeiro policial, ao qual Bernardo havia se dirigido, querendo mostrar algum serviço, para colocar ordem, disse: “Saiam! Saiam da frente! O senhor tem razão. Pode ser que ainda viva. Chame você mesmo a ambulância. Nossa função é dar cobertura”. Bernardo, para não ser enleado na história, deu alguns passos para trás e se pôs próximo a uma senhora que chorava, contida. “Meu filho, eu só não liguei ainda porque não tenho essas coisa de celular… Que maldade!”. E, ao mesmo tempo em que Bernardo tentava se comunicar, a mulher ia debulhando uma ladainha sofrida, que seu filho também estaria nas ruas, que esse poderia ser o seu…
Para que não deformassem o corpo, o robusto policial se colocou de prontidão em sua frente, largando o cacetete nas pernas dos que, ainda, tentavam atingi-lo, para deixarem a sua marca da dita justiça. “Cês querem mais o que? Não estão satisfeitos? Morreu, seus monstros! Vão procurar o que fazer!”. Vociferaram: “Policial comunista! Comunista!”. Este policial, no ato, apesar de dez anos de corporação, foi surpreendido pela súbita lembrança do irmão, morto numa chacina no Morro dos Prazeres, quando ainda era pequeno, porque, segundo relatado na ficha, teria relações com o tráfico. Teve um ligeiro impulso de chorar, mas, sabendo da admoestação dos companheiros e da população sedenta por vingança, baixou a cabeça, demonstrando cansaço e resolução.
Do outro lado, o policial sorvete tentava se comunicar, também, com o resgate, mas não conseguia verbalizar, inteira, uma palavra. Esforçou-se e conseguiu declarar o ocorrido. Estava afetado pela comoção. Contudo, dissimulava postura sólida, intransponível, desferindo, por obrigação, alguns golpes de cacetete para que dispersassem e deixassem o canto vazio, para a entrada da ambulância.
Trinta e cinco minutos depois do primeiro contato, a ambulância chegou. Os paramédicos foram rápidos nos primeiros socorros. Apesar disso, não havia sinal vital. Declararam a morte, possivelmente por múltiplas fraturas, dilaceração de órgãos e hemorragia interna. Os que ainda acompanhavam mais de perto espalharam para os de trás, com sorrisos no rosto, até formar uma onda de excitação, resultando no uníssono grito: “Menos um. Uhhrruu!!”.
Perderam o encanto. Já haviam se fartado. Partiram em debandada para completar novos serviços espúrios.
Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Divina, com o nome que faz jus, era a apoteose do escalão dos deuses. E a redundância, que atiça os sentidos, é justamente pela ausência de palavras que a descrevam: divina. Digo, com a pureza de uma nascente, ela foi a minha primeira e verdadeira paixão. Sim, dos tempos de escola – que extrapolou para a vida. Alguns até me chamavam de louco: “Como pode, Sebá, você amar uma mulher vinte anos mais velha?!”. Mamãe, no entanto, achava bonitinho, um amor infantil, quando, mal sabia, me contorcia indócil no banheiro, sentindo o seu cheiro penetrar por todos os meus poros, do qual guardo a essência, presentemente, o perfume de jasmim. Papai, provocado pelo ânimo de ter um filho macho, “raçudo”, como dizia, atolava-me com revistas de mulher pelada; uma coleção de fazer inveja ao Marcos, que se vangloriava de seu pai fazer a assinatura da Playboy. Eu não queria saber nada daquilo; sexos escancarados, sodomizados, que me deixavam penalizado, amuado, com o sofrimento daquelas mulheres em posições circenses. Para mim, somente Divina. Maria Divina Assis dos Santos, seu nome completo. Foi a minha professora de português, na quinta e sexta séries. E, por ela e para ela, me converti num leitor contumaz, num crente da religião literária, para demonstrar-lhe do que era capaz. Mal ela chegava em sala e já me avocava, com um leve sinal, para saber qual era a novidade, que leitura estava fazendo no momento. Para impressioná-la, lia os clássicos da literatura brasileira, de Machado a Lispector, e me atrevia, ainda, aos grandes da literatura mundial, sobretudo dos séculos XIX e XX, como Dostoiévski, Tchekhov e Woolf. A professorinha, a mais linda dos séculos e séculos, posso acreditar, parava a aula para dizer aos meus coleguinhas que seguissem o meu exemplo e se dedicassem a ler não só a literatura recomendada pela escola, mas buscassem almejar “novos campos; verdes e imensos”; que devíamos conhecer os sabores e as liberdades conferidas pelo universo das letras. Houve um tempo em que o meu estado de ansiedade ultrapassou o razoável, com o que estava acostumado; podia ver-me, claramente, para além das nuvens, atônito: Divina estava doente e não viria à escola por, pelo menos, duas semanas ou, quiçá, um mês. Não nos comunicaram qual era a maldita doença; o que poderia suceder dessa catástrofe. Eu tentava elucidar, pelas mínimas sugestões, e em tudo me vinha à mente a gravidade de um problema cardíaco, pois que era muito lívida e miúda, pequenina e bonita como um lírio. Antônio, o mais espevitado dos garotos, logo que percebeu o meu tormento relatou uma mentira das grandes, mas que me fez cair ainda mais no poço da discórdia interior: Divina estava no hospital, sofrendo com as dores do parto. Mas como, se ela nem demonstrara estar grávida ou coisa do tipo? Que canalha a teria deflorado, tão pura que era? O carrasco queria mesmo me agoniar, como se ela tivesse e fosse dada a qualquer sujeitinho. E essa troça rápido se desfez, porque a constatação veio em forma de circular, direcionada aos pais. “Prezados pais, a Sra. Maria Divina dos Santos, professora de língua portuguesa, das turmas da quinta e sexta séries, está acometida por uma forte gripe e ficará afastada, para a sua segurança e também dos alunos, por cerca de um mês, até desaparecem todos os sintomas e, por conseguinte, os riscos. Contudo, no período, os discentes serão assistidos de perto pela direção do colégio, pela professora e coordenadora Mirtes, sem qualquer prejuízo no conteúdo. Gratos pela atenção, a Direção”. “Que troca absurda!” – pensei, revoltado. Mirtes teria sido minha professora em dois momentos, na segunda e quarta séries, nas disciplinas de ciências e estudos sociais. Ela tinha um quê militar, e, o pior, de megera desalmada. Tratava-nos com o mesmo prestígio que se trata um rebanho de bois. Quando ministrava as suas aulas, no mais das vezes, não levantava sequer os olhos para nos encontrar; aplicava os exercícios de maneira indiscriminada, para ganhar tempo, e, no fim, fazia-nos passar vergonha, tendo de ir à frente da sala explicar, tintim por tintim, sobre o que teríamos entendido do material. Vale salientar: em regra, o citado material era um calhamaço de vinte páginas, no mínimo, artigos científicos, que, por vezes, não chegavam à compreensão do mais esforçado dos alunos: eu. Olhavam-me com olhos de ajuda, suplicantes para que os tirasse da enrascada. Eu tinha pena e me juntava aos menos favorecidos, aos excluídos e discriminados pela falta de atenção. Jeferson, Cássio e Tânia, por exemplo, apesar de serem espertos – não bagunceiros, propriamente –, demonstravam certa dificuldade de concentração, por isso se ligavam a mim. Sempre eu e mais um ou uma ficávamos com a incumbência de esclarecer à turma o conteúdo dos trabalhos científicos. Ainda assim, por mais que nos esforçássemos, não seríamos capazes de decifrar os signos egípcios, se nem ao menos tínhamos base para isso. Quando os trabalhos degringolavam, Mirtes, como um furacão, caía sobre nós, dizendo que éramos lerdos e desinteressados; e, com isso, alertava-nos que teríamos uma “provinha” na próxima aula. E qual era o conteúdo? Ciências e estudos sociais; nada de português. Bem, numa dessas, me safei com palavras difíceis, como a algoz gostava. Ou seja, nem mesmo ela entendia o que tinha perguntado. Pedíamos aos céus com tanto ardor, para que a nossa mestra voltasse, pela sua recuperação, que fomos consideradas as crianças rezadeiras. Havia um revezamento na capelinha da escola, nos intervalos e nas horas da saída. Num dia radiante, Divina nos surpreendeu no meio de uma aula maçante da Mirtes. Apareceu como uma luz: divina. E disse que estava morrendo de saudade. E que já estaria conosco no segundo período do dia; lembro até hoje dessa data: cinco de setembro de 1994. Nada mais que a agoniante Mirtes falava valia a pena. As provas e os castigos seriam apagados com o sopro celestial de nossa deidade maior. O meu alívio, especialmente, foi em reconhecer em Divina a esperança, o amor renascido. Ela estava esplêndida, com roupas mais leves, encantadas, que me levavam a outro plano. No retorno do recreio, não conseguíamos nos acalmar com a música de acolhida, que era uma estratégia aplicada pela direção para esfriar os nervos. Olhávamos para ela, felizes e gratos, com sorrisos que eram propriamente abraços – eu ainda mais. Ela entendeu e nos cobriu de paz, com o poema Regresso, de Miguel Torga. Sabíamos que, ali, estávamos enfim seguros. Mas, a mim, desandou o calor de uma partida, pois que o ano estava terminando. Só eu, com as minhas íntimas aflições, fiquei enterrado na cadeira, quando a hora da aula acabou. “Você não ficou feliz com a minha volta, Sebastião?”. “Sim, professora; sim! Mas lembrei que o ano está terminando, e…”. “Não se preocupe, querido, estarei sempre aqui. E a literatura será a nossa mãe protetora”. Deu-me um beijo demorado na testa, que, até hoje, estala entre desejos e vontades. Onde estará o meu amor, Divina?
Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Eu nunca atravessei o rio Almada. Estive sempre em sua margem brincando no raso enquanto meus irmãos se aventuravam mais fundo, onde meus pés não alcançavam. Um fundo ainda raso porque, embora maiores, eles eram, como eu, crianças. Mas podiam nadar e mergulhar por baixo das canoas. Penso que poderia, também, fazer aqueles mergulhos. Uma vez eu tentei, mas parecia tão larga aquela canoa. Não tive coragem.
Minhas brincadeiras eram naquela beirinha em que o cobre do rio ficava mais transparente, como se um pouco de mel tivesse sido dissolvido na água. Eu sentava sentindo o sol nas costas e a água fresca nas pernas. Ali as piabas chegavam bem perto. Eu tentava cercá-las como quem pastoreia vacas no curral. Elas eram mais rápidas. Escapavam como as galinhas do quintal de minha avó, mas sem algazarra. Espantadas e silenciosas. Escorregavam pelos meus dedos como a água do rio talvez escorresse para o mar. Sim. Talvez. De meu raso eu não percebia a correnteza do meio do rio. O único movimento eram as ondas do mar no horizonte, onde o rio finalmente despejava suas águas castanhas no azul espumoso do oceano. Eu achava um mistério aquelas ondas que não terminavam na praia como acontecia na praia do Malhado. Que sabia eu, tão criança, sobre o movimento dos rios? O rio Almada não corria à porta da minha casa. Para mim ele estava parado. Eu não conhecia o rio Cachoeira do outro lado daquele grande ilhéu que era minha cidade. Sabia da ponte que atravessava para o Pontal, onde morava minha avó. Mas aquela era uma água vista de longe, de dentro de um carro. No Pontal, havia a praia salgada e os navios encalhados na areia. Nada que lembrasse um rio. O Almada, na porta da minha casa, era aquele rio que parava antes do mar. Imóvel. Para sempre.
Sentado no meu raso, descansei as mãos no fundo, espalmadas para cima como se, em posição de ioga, esperassem a energia do mundo penetrar por elas. Minha calma atraiu, enfim, algumas piabas. Uma nadou por sobre minha mão e, de surpresa, consegui agarrá-la. Que delicado o toque daquele corpo minúsculo e saltitante. Fiz das minhas mãos duas conchas que se fecharam suavemente em torno. Ela pulsava ali dentro como um coração. Gelado, escorregadio. Fazia cócegas. Eu me senti poderoso por conquistar aquela vida para mim. O peixinho não pertencia mais ao rio.
Era meu.
Quis mostrar para meus irmãos. Chamei os dois. Procurei entre as canoas. Não estavam mais na água. Já subiam o barranco para a nossa casa ali em frente, na vila militar. O almoço. Eu queria ficar com a minha piaba, mas eles, parados no meio do caminho, gritavam a ordem de subir. Não podiam ir sem mim. Eu não podia ficar. Fui atrás, resignado. Era um dia de domingo. Eu sabia que poderia descer no meio da tarde. Eles voltariam para o futebol e mais mergulhos. Eu voltaria com meus carrinhos para a beira da água, para os peixes, para o meu peixe. Bastava guardar o meu tesouro em um lugar seguro, para que ninguém pegasse.
Não contei a ninguém do meu tesouro. O almoço foi lento. As conversas em volta da mesa. Eu quase não falei. Tinha um segredo. Qualquer palavra que dissesse poderia deixar escapar o peixe de minhas mãos em concha. Ele saltitava dentro de mim como uma alegria. Brincava na minha imaginação dando saltos de um lado a outro da água. Eu fazia túneis com as mãos, barreiras com as pernas… a piaba nadava veloz pelos labirintos do meu corpo, mais água do que peixe. Bastava esperar a tarde. Bastava guardar o segredo. O silêncio.
Mas aquela não seria uma tarde de domingo silenciosa. Antes de acabar o almoço, vieram gritos do rio. Alguém veio chamar meu pai. Um alvoroço se espalhou pela rua. Minha mãe nos proibiu de sair. Ela saiu. Meus irmãos cuidariam de mim. Ficamos a tarde inteira sozinhos vendo a televisão com seus chuviscos dissonantes. Era meu pai quem movia a antena até a imagem estabilizar. Da rua não vinha nenhuma notícia. Todos estavam na beira do rio. De casa não podíamos ver. O barranco. Dali, nossa visão do rio era a outra margem, onde havia um grupo de pessoas observando.
Alguém se afogou, meu irmão mais velho disse. Aquela frase instaurou uma realidade de medo em mim. Alguém tinha ido para a parte funda do rio e tinha se afogado. Eu sabia que aquilo podia acontecer. Minha mãe sempre nos prevenia para não nadar para o fundo, onde não dava pé. Podíamos nos afogar. Disso eu sabia. Eu não sabia exatamente o que era se afogar, mas não era algo bom. Eu sabia o que era fundo. Era onde meus irmãos nadavam quando brincavam nas canoas. Com a revelação, meu corpo tremeu. Meus irmãos podiam se afogar. Vocês já se afogaram? Eu perguntei preocupado. Eles riram de mim. Claro que não. Fiquei com raiva das risadas e da gozação, mas aliviado porque eles não se afogaram. Eu nunca tinha me afogado. Não ia nunca para o fundo. Voltei a pensar na minha piaba. Ela também não se afogava. Estava sempre no raso como eu.
Passamos toda tarde em espera. A noite chegou e minha mãe voltou. Eu procurei o medo em seus olhos, aquele de quando ela avisava do afogamento. Mal consegui ver. Ela nos disse que estava tudo bem, que nada tinha acontecido. Meu pai? Estava resolvendo alguma coisa de trabalho. O quê? É verdade que alguém se afogou? Não era assunto de criança. Nós devíamos fazer os deveres da escola. Meus irmãos não tinham feito. Eu já tinha pintado os desenhos do meu livro com o cuidado de não sair das linhas. Era preciso dormir para a escola cedo.
Eu já estava na cama quando ouvi a história toda entre os meus sonhos. Eram vozes de meu pai e mais alguém — minha mãe ouvia entre soluços. Depois, meus irmãos repetiram a história no quarto. Havia um menino no fim da rua, na primeira casa da vila. Já era grande… três pescadores… a rede se enroscou em alguma coisa no fundo do rio… a mão dele estava presa… os amigos tentaram salvar, mas não conseguiram… gritaram. Só à noite conseguiram tirar o menino de lá. Os peixes já estavam começando a comer. Meu irmão disse aquilo muito assustado. Eu quis acordar e perguntar como o menino estava. As feridas doíam? Foi então que ele falou respondendo a pergunta que não fiz: morreu.
Eu nunca tinha imaginado que, se alguém se afogasse, morria. Morrer era ir para debaixo da terra. Mas o rio…? Fechei muito os olhos para não ver o menino dentro da água sendo comido pelos peixes. Não queria ver a cara dele faltando pedaço. Os olhos abertos. Em algum momento eu dormi e senti a água acobreada do rio me envolvendo. Cobrindo minhas pernas, avançando pela barriga, pelo peito, pelo pescoço. Eu estava completamente mergulhado — as piabas em volta. Abri a boca e a água entrou. Bebi muito, sem querer, sem poder resistir. A barriga ficou cheia. Eu pensei que era daquele jeito que a gente se afogava. Achei que ia morrer, mas tinha vontade de fazer xixi. E fiz.
Minha mãe não me deixou ir à escola naquele dia. Tinha acordado no meio da noite gritando e chorando. Era melhor ficar em casa. Ficamos sozinhos os dois. No meio da manhã a casa se encheu das mulheres da rua. Elas começaram a conversar sobre o afogado. Eu queria escutar as conversas, saber dos detalhes, mas minha me mandou brincar no quintal. Nada de ir para a rua.
Foi a primeira coisa que fiz. Desci o barranco e fui atrás da minha piaba. Por sorte, tinha deixado atrás de uma pedra. Mesmo com toda a confusão, eu tinha certeza de que ninguém tinha encontrado.
Ela estava lá.
Mas não estava saltitante como antes. Nem molhada. Estava seca e dura. Peguei com cuidado em minhas mãos e levei para a água. Ela afundou como uma pedra. Imóvel. O rio também não se movia naquele meu raso.
Não entrei na água naquele dia, nem depois. Ficamos proibidos de nadar no rio e, quando o ano acabou, nós nos mudamos. Saímos de Ilhéus e nunca mais.
Adulto, voltei à vila, ao rio, mas sempre passei apenas de carro. Nunca mais desci o barranco que, na verdade, era apenas uma descida muito curta.
O rio Almada. Ele vem do interior muito mais ao norte, mas deságua no oceano. Vira-se para a direita e percorre um longo caminho paralelo à praia. Ele resiste a entrar no mar, ele não quer morrer se misturando às águas claras e salgadas do atlântico. Na frente da minha casa, enfim, dobra-se para a esquerda, contorce o corpo desenhando uma interrogação de cabeça para baixo. É ali, em frente à casa da minha infância, que ele morre — todos os dias — murmurando seu porquê sem resposta.
Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019); Manual para composição de Vitrais (poesia, Selo João Ubaldo Ribeiro da Fundação Gregório de Mattos, 2019); Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) — vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; Arquivos de um corpo em viagem (poesia, Editora Mondrongo, 2015) e Cada dia sobre a terra (contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.
Vi Doroteia uma única vez. Assustei-a parece que para sempre. Mas desde então, e isso já faz três dias, ela vem me perseguindo a lembrança a ponto de conhecê-la.
Gritei quando a vi. Na verdade, antes de vê-la. Apavoramo-nos ambas. Eu de ver um vulto estrangeiro cair atrás de mim no momento em que movimento a porta e acendo a luz. Ela de perceber meu semblante aterrado movimentando a porta no mesmo instante de acender a luz. Corremos para cantos opostos. Acalmamo-nos, aparentemente. Fui eu quem deu o primeiro passo.
Não sabia ainda o seu nome, Doroteia. Dei três passos e pude contemplar seu silêncio indescritível. Era tão fiel sua ausência completa de movimento que era mesmo possível acreditar que não estava ali, o que era justamente o que ela queria; era mais que perceptível, sensível. Cometi nossa espécie mais chula de pecado e fingi que cri.
Não sei exato. É possível que tenha me dito seu nome, agora pensando bem, naquele tempo ali. Alguns minutos fiquei decorando a recorrência de padrões em sua pele. Fecho os olhos e posso rever sua textura. Jamais descrevê-la.
Busquei metáforas, perdi. Acredito agora também que não emiti som, também não acho que me lembre mais ultimamente o que é isso de a voz ter função externa. Sei que tentei falar-lhe. Provavelmente – agora é que isto me ocorre –, falei na altura com que me falo todo dia bom dia, com que rego as plantas, bebo o café, vejo o noticiário, abro a janela e volto à cama. Telepatia, acho que é essa a palavra que dizem. Diziam.
Joguei fora uns passos na cozinha. Passei os dedos na mesa da sala. Pensei em lavar a cortina. Gastei uns segundos ou mais avaliando o gelo do congelador. Tirei duas batatas e carne moída, que tenho deixado assim os ingredientes soltos na pia a ver se me dizem como preferem renascer. Conferi a chave na porta.
Voltei ao meio da sala. Olhei para a porta onde Doroteia e eu nos esbarramos há pouco. Foi nessa ocasião, agora é que me recordo, que elegi Doroteia como seu nome e acatei a ideia até então sorrateira de tê-la como nos filmes, nos livros ou nalguma anedota antiga de vizinho, não tenho tido propensão a exatificar as memórias, enfim, de tê-la como amiga. Comentar novelas. Reclamar dos preços. Bodejar à toa.
Dei mais dois passos em direção a ela, Doroteia. Estanquei avaliando a utilidade que seria. Nós duas feitas fraternas. Ela aparecer de repente, agarrada nas paredes. Fazer a pose de morta. Riríamos da primeira vez à porta. Você me desculpe é que não sabia. Eu que não sabia. Hahaha, hihihi. E aquela velha história de. Como é que se diz o nome? Conviva, conveva, convisser. Enfim.
Se bem me lembro, ainda a vi uma vez. Não, não foi. Senão começaria mentindo. Sei que, mesmo deixando a porta aberta, a luz acesa, o grito calado, quando voltei, Doroteia não estava mais em lugar algum. Olhei atrás, dentro e debaixo de todos os móveis. Encontrei, inclusive, uma meia que havia abandonado seu par. Nem parecia infeliz. Nem eu me havia dado conta. De qualquer modo, levei a meia para a máquina de lavar. Não quis ligar, menos pela energia que já aumentou vinte por cento mesmo com toda essa loucura acontecendo lá fora, mais porque ainda não sabia se Doroteia gostava de barulho alto. Ainda mais a essas horas.
Não. Agora eu tenho certeza porque, como já disse antes, embora ninguém confie em nada ou nada seja digno de, eu comecei a conhecê-la melhor. Doroteia. Fiquei um tempo escorada na máquina de lavar. Deixei a luz apagada. Ela também prefere assim. Nós combinamos tão bem. É uma pena que tenha durado tão pouco. Ou não. Ainda não sei. Pode ser que ela esteja ainda em algum lugar, espreitando-me, conhecendo-me. Não posso recriminar sua apreensão. E eu gritei deveras alto. Doroteia não disse nada. Um silêncio dos mais elegantes. Mesmo quando eu a devorava com esses olhos desumanos, nunca perdeu a compostura.
Olhando aqui essa sombra que cai na área de serviço. Quando percebo, já estou imaginando Doroteia morando ali, uma cama perto do tanque, meio embaixo. Logo em seguida, peço milhões de perdões. Embora saiba que ela de modo algum vai desculpar esse desvio de conduta.
Digo então, e de novo creio que em mente, que Doroteia fique à vontade para dormir, deitar, enfim, ter casa onde quiser apear. Só não parta. Não me abandone. Não vá pras ruas, é perigoso. Olho as janelas. Chego a me mover para fechá-las, para que Doroteia não se exponha. Abandono o ímpeto no ar. Não sei se precisa voltar.
Doroteia, quando digo esse nome, sai com uma pá de saudade e outra pitada de dor. O frio chega de madrugada. Sento-me na beirada do sofá. Olho o vulto das nuvens atrás dos prédios. Penso em cortar as unhas. Depois ouvir um vinil. Doroteia adora Bach. Ergo-me numa efusão acelerante. Qual sua uva preferida, senão shiraz. Peço escusas, Doroteia, hoje não tenho espumante. Brindemos a isso que a vida nos proporciona cruamente. O tempo. Sim. Essa migalha de pão.
Já faz tanto que não faço uma massa. Podemos tentar. Doroteia escolhe nhoque. Será uma pena sem sálvia. Quem sabe no mês que vem, quando formos ao supermercado. Escolhemos um dia de sol. Um horário mais pela tarde. Conferimos o movimento.
De repente, dou um pulo. Eu me assusto. Corro pra máquina de costura, sopro a poeira, escolho o retalho mais caro, procuro a linha azul da prússia. Vou lhe fazer uma máscara, Doroteia, belíssima. Você nem vai acreditar. Não sei se sabe o que está havendo. Senta, escuta, vou lhe contar.
Dheyne de Souza é goiana. Vive atualmente em São Paulo (SP). É doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Recém-publicou “lâminas” (poemas, pela Martelo Casa Editorial, 2020). Seu primeiro livro foi “pequenos mundos caóticos” (poemas, PUC/Kelps, 2011). Mantém ainda um blog e um canal de leitura de poemas chamado Pequenos Mundos. É membro do grupo goiano de vocalização de poesia Corpo de Voz.
Nem sei como isso começou, sei que sempre gostei muito de bonecas.
É como se eu tivesse acordado de repente nesse lugar, ou no mesmo lugar de antes, e as pessoas é que foram substituídas. Sabe quando a gente para e tenta lembrar o que aconteceu do nosso nascimento até cerca de uns três ou cinco anos de idade? Parece que simplesmente a gente acordou de repente. É isso que sinto agora.
As moradias são do tamanho das humanas, com móveis de verdade. Só que estes são programados. A TV passa quase o dia inteiro ligada. Existem coisinhas parecidas com trilhos dentro da casa que fazem os bonecos se mover por ali bem como na rua.
Na casa que eu vivo, existem dois bonecos. Um feminino e outro masculino. De manhãzinha o boneco se levanta e se direciona para fora de casa, e passa o dia por lá mesmo. Acredito que seja uma espécie de trabalho, já que esporadicamente ele chega com coisas novas, as coisas que vemos na TV. A boneca vai para a cozinha. Eu fico por ali observando o movimento. Também aproveito pra ler. Há muitos livros, mas não são tocados. Acho que não existe ainda mecanismo de leitura nesses bonecos, apesar de se alimentarem e fazerem outras coisas dignas de humano.
Sinto-me estranha. Eles não conversam, nada de sentimento, nada de afeto. Sinto falta dos afagos de família, de beijos de mãe, cócegas no sofá, risos pela casa. Eles se reúnem sempre à noite, em frente à televisão. Em algumas ocasiões me põem nos trilhos e sou obrigada a fazer certas coisas e ir a lugares dos quais não gosto. É complicado porque os meus pés não se adequam nunca e doem. Quando vou a esses lugares realizo trabalho chato. Lá não posso cantar que é algo que gosto bastante.
Acho que meu canto é de certa forma inútil pelo fato de não conseguir enxergar nenhum tipo de vibração por parte dos bonecos. Deduzo que eles não apreciam música. O rádio nunca é ligado, só por mim. Mas a música que existe na cidade dos bonecos é de uma péssima qualidade: rimas pobres, ritmos chatos, melodia irritante aos ouvidos. Então, logo desligo. E canto.
Lembro-me da criatividade humana quanto à música e começo a cantá-las. Meu coração se entristece um pouco por não poder mais tê-las. Se fosse boa o suficiente eu comporia, mas apenas canto. Há dificuldades de relacionamento entre mim e os instrumentos musicais. Contudo, do que acontece na cidade dos bonecos, esse é o fato que mais me entristece.
Vivo aqui e espero o dia em que os bonecos se transformem em seres humanos para que tudo se torne completo. Nas minhas reflexões penso se isso há de ser um tipo de praga que contamina o mundo aos pouco. Penso no dia em que eu serei contaminada e me tornarei uma boneca. Choro, depois acalmo, acreditando que se me transformar certamente entenderei a lógica deles e terei felicidade em viver de tal modo. Não há espaço aos que no mundo estão diferentes.
***
Envelope
Começamos a namorar.
Enlouquecida, deixei que tudo acontecesse muito rápido.
Primeiro, se foram os olhos.
Ele me arrancou um de cada vez. Comecei a poder ver menos, devagar fui me acostumando, e quando me arrancou o segundo eu já não senti tanta dificuldade de adequação. Não pude mais ver nem mesmo a ele mesmo, o que fazia, com quem convivia.
Mas eu o amava e deixei.
Da outra vez foi minha boca. Deixei de opinar. Na hora não vi necessidade porque certas coisas que saíam dela visavam nosso próprio bem-estar.
Mas eu o amava, e podia aprender a viver sem falar.
Arrancou-me um dos ouvidos. Poucas coisas eu podia ouvir dele antes de me arrancar o outro. Do que conversava com os amigos, do que lhe diziam as outras garotas.
Mas eu o amava e não me importei.
Quando me arrancou um braço, ainda consegui dirigir por um tempo. Eu queria estar nos lugares. Mas sem os dois braços, passei a ficar mais tempo em casa. Sequer podia fazer o que eu mais gostava: escrever.
Mas eu o amava e acreditei que faria bem.
Um dia me arrancou as pernas, ambas ao mesmo tempo.
Nosso relacionamento se resumiu a cama, pois era o lugar onde eu conseguia passar todo o tempo, sem queixas. Confesso que foi difícil essa vida.
Mas eu o amava, e me contentei com suas visitas e frases de amor.
Muito tempo de cama me fazia ter certas reflexões.
Quando ele apareceu para mais uma visita de amor, eu estava pronta.
Entreguei-lhe um envelope numa pulsão risonha.
Ele abriu e pôde ver.
Lá dentro estava todo o meu amor. Eu o estava devolvendo em troca de mim.
Com dificuldade ele aceitou, e me devolveu tudo de uma vez só: olhos, pernas, braços, ouvidos.
Agora ali estava eu, com tudo que precisaria para recomeçar.
E ali estava ele, com o meu e o seu amor nas mãos.
Fernanda Paz é Artista Visual e Especialista em educação infantil pela UFPI. Professora, escritora e produtora no FragmentadoLab. Estudou Teatro e participou de curtas metragens, performances e montagens teatrais. Tem dois livros publicados “O Buraco e Outras Histórias”(Multifoco, RJ) e “Olhos de Vidro”(Quimera, PI), participou de antologias de contos e poemas e publicações em revistas virtuais.