Categorias
135ª Leva - 02/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodrigo Melo

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

OS REINOS DA CHUVA

Era uma noite quente naquele apartamento do outro lado da cidade e eu estava deitado sobre o sofá que ela havia comprado uma semana antes – o sofá macio, de vinil preto, dividido em doze vezes no cartão. Pensava no conto que teria que escrever para uma revista. O prazo estava perto de acabar e eu ainda não tinha conseguido um único parágrafo. As coisas muitas vezes parecem mais complicadas quando se tem um prazo. Na tevê passava um faroeste. Dois sujeitos, um de frente para o outro, no meio de uma rua empoeirada, com as mãos sobre os seus coldres, à espera de um sinal. Talvez se eu fumasse o baseado que tinha no bolso as ideias começassem a vir e a história ganhasse forma e eu conseguisse finalizá-la a tempo. O problema era que ela não gostava do cheiro. Por conta disso, eu teria que ir até a praça lá embaixo, escolher um dos bancos que ficavam meio escondidos pela sombra das árvores e fazer tudo muito rápido, na esperança de que não aparecesse qualquer carro de polícia.

Um dos sujeitos na tevê era louro, alto e tinha uma estrela no peito. O outro era só um mexicano com o seu chapéu redondo e as suas roupas sujas e o seu sorriso era o sorriso de quem não tinha muito a perder. Talvez estivesse bêbado. De repente, ele puxou a arma e a apontou para o cara com a estrela no peito. Antes que conseguisse atirar, recebeu dois tirambaços e caiu estatelado no chão. E então, vinda do saloom e das casas ao redor, uma multidão começou a se formar em volta do seu corpo.

– O que é isso, Fófis? – ela perguntou, segurando uma vasilha com pipocas na mão.

– A vida – respondi.

– Não seria a morte?

– As duas. Às vezes as duas se misturam e viram uma coisa só.

Ela jogou um punhado de pipocas para dentro da boca e ficou a me olhar.

– O que ele fez para ser morto?

– Era mexicano.

– Só?

– Só… O nome desse loiro com a arma na mão é Randolph Scott. Tenho um amigo que é fã dele.

– Bonitão.

– Dizem que era gay. Mantinha um caso com outro famoso. Não lembro o nome.

– Não deve ser verdade, Fófis. Olha só pra ele, olha para o jeito dos ombros, dos braços. Posso colocar a mão no fogo por um homem assim.

– Escuta, não quero ser chato nem nada, mas não gostei desse apelido que me deu. Prefiro que me chame pelo nome, se não se importar.

– Tudo bem, eu não me importo. Tem certeza de que quer assistir isso?

– Não. Vou descer para fumar.

– Vai lá na praça?

– Sim.

Vê se não demora. Fico preocupada.

Era geóloga, mexia com pedras, matéria morta, tinha um gato que às vezes desaparecia e, tempos antes, numa noite feito aquela, foi até o quarto e voltou com uma caixa enorme, de onde tirou duas facas, uma taça de metal e uma porção de cartas com desenhos estranhos. Jogou tudo sobre a mesa, acendeu dois incensos e disse que a minha alma era velha e teimosa e que eu precisava evoluir. Disse ainda que a minha vibração tinha uma tonalidade verde escuro ou azul, o que poderia significar uma infinidade de coisas. Eu gostava dela, mas achava aquilo chato e com o passar do tempo tudo começou a soar exagerado, como se fosse uma espécie de resgate entre nós dois. Nos encontrávamos apenas para trepar, comer e assistir tevê, sendo que cada vez mais comíamos e assistíamos tevê.

Em vez de descer, fui até a cozinha e abri a geladeira. Havia uma lata de Malzebier escondida na parte dos tomates. Me sentei num banquinho ao lado do fogão e acendi um cigarro. Dei grandes goles e longos tragos. Por um instante, fechei os olhos e tentei me imaginar longe dali, talvez nadando em uma piscina aquecida, comendo profiterolis numa sacada de frente para o mar, andando de bicicleta em alguma paragem sagrada e especial. Por algum motivo, não consegui. Abri novamente os olhos e enxerguei, através do basculante na cozinha, o reflexo das luzes lá fora – as luzes de ilhéus, a cidade em que nasci e continuava a viver. Pensei que àquela hora, em alguma outro lugar, alguém talvez compreendesse tudo o que lhe acontecia e até se sentisse feliz. Alguém que não ficasse o tempo inteiro se perguntando o que cada coisa poderia significar.

Ela havia mudado de canal quando voltei. Os cabelos negros caíam sobre o sofá e suas pernas morenas se esticavam até a mesinha de centro.

– Tô indo.

– Pensei que já estivesse voltando.

– Tô indo pra casa.

Ela se virou e ficou a me olhar.

– Está chateado?

– Não. Tenho que entregar um texto até amanhã.

– Escreve ele aqui.

– Deixei o rascunho em casa. Melhor eu ir.

Caminhei até a porta e ela me seguiu. Nos beijamos. Sua boca tinha gosto de manteiga e sal. Havia qualquer coisa diferente no seu olhar. Como se soubesse que aquela seria a última vez.

Saí do prédio, caminhei até o fusca, dei a partida nele e coloquei uma música para tocar. Era Kingdons Of Rain, de Mark Lanegan. Ao meu redor, a cidade adormecia, uma e outra janela acesa, e por um momento me pus a imaginar as histórias que aquelas janelas guardavam e tornei a acreditar em belos e intermináveis amores e pensei em como tudo pode ser bonito e intocável quando a gente realmente precisa ou quer. Repentinamente, lembrei do nome do outro ator, mas já não importava mais. Tanto ele, quanto as cartas de tarô e o sofá de vinil haviam ficado para trás. Naquele instante, eu era apenas aquele sujeito a cruzar a cidade dentro do seu fusca bege, acendendo um baseado, calculando que talvez uma hora todas as coisas fizessem sentido e que bastava não desistir. Bastava peitar a fera e continuar, neblina adentro, até a vista clarear. E foi assim que segui: escutando a voz triste e rasgada de Mark Lanegan e sentindo que a cada tragada e a cada metro que o fusca vencia, eu me transformava em um homem mais livre, mais perto da verdade, e, por isso, um homem também melhor. E pensar aquilo me fez um enorme bem. E eu então comecei a sorrir.

Rodrigo Melo vive em Ilhéus, no sul da Bahia, e é autor de Riviera, romance prestes a ser lançado pela Editora Mondrongo. 

 

 

Categorias
134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Caio Russo

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Lógica da imobilidade

 
Para Priscila Faccini, viragem do meu ponto sem volta

 

[…]

 

é muito diferente de cadeiras, não, o sofá é a expressão, a encarnação mesma da solidão, no sofá, deitada sob sua superfície sendo eu mesma o sofá, o que eu posso ser, o que eu posso fazer, eu me concentro, eu me concentro no ponto fixo da parede e deixo que a ausência tome conta de mim como se eu fosse eu mesma um tipo muito particular de necrotério de mim mesma, uma cidade subterrânea de tudo aquilo que não fui e não chegarei a ser. E ali, bem ali no sofá, nesse lugar, nessa terra, nesse plano, nessa superfície de que é feita para o pensar e do pensar, o que eu podia fazer, o que eu podia verdadeiramente fazer? Eu podia me perder, me perder um instante, me desmanchar um tantinho que fosse, eu podia seguir ali deitada e continuar deitada, fazer parte da atmosfera, me condensar no pequeno vento que vinha da fresta de uma janela aberta num dos lugares da casa, essa casa, essa mesma casa, a casa de todos os dias, a casa que antes não tinha asfalto mas agora tem, uma casa asfaltada há muito tempo

 

[…]

 

mas deitada no sofá, olhando esse ponto fixo, talvez uma mosca, talvez um qualquer coisa, talvez eu mesma, olhando esse ponto, me permanecendo nele, dançando ao redor dele, gritando em rituais da qual sou a única inventora na separação dele como parte dele mesmo, o que vem, o que vem de um lugar que eu não sei mas que existe em mim, vem um tipo de instinto, um tipo de cheiro, um tipo de radar performático que me faz perceber e notar o que eu sou sem ter de fato sido mas ainda por restar, mas quando estou sendo isso me dói, isso me dói sobremaneira nas articulações

 

[…]

 

isso me dói também no próprio estase de me encontrar completamente extática sobre o sofá, o sofá me dói um pouco, posso dizer que o sofá também me dói um pouco, posso dizer assim e só, no entanto, há um problema, há um problema maior que me demanda no sofá, pois o sofá é o lugar em que eu posso não estar, em que eu posso escapar, num pequeno buraco da parede, para o lado de lá do real, plainando num vaporoso continente de espera em vias de balbuciar um algo ainda

 

[…]

 

mas confesso, a simplicidade da cadeira me faz navegar no naufrágio de não saber me manter sentada, só deitada, amarrada ao mastro o canto da sereia me fascina de morbidez adolescente, por isso serei sempre a criança perdida no mercado sem mão que lhe conduza os sentidos, uma tautológica menina numa extensa sessão de enlatados, circulando entre gôndolas num repetitivo pendular desde o medo sufocante, perdi muito, perdi o que não deveria ter perdido, o que não poderia, perdi o fundamento do perder, mas algo se passa sem que eu saiba, um anonimato de rosto escondido, um deixar-se descer até ao fundo sem roteiro de mapa no retorno, como um mergulhador das superfícies estriadas, um rasgo no tecido do lembrar, uma farpa de memória a sustentar meu imenso edifício de lamentos, tenho vocação para carpideira, conheço a marcenaria da lágrima desde o abaulado da gota, esculpo as paredes do choro no burilar que me faz faiscar, como um enxame de vaga-lumes noturnos, o cobre da minha desesperança

 

[…]

 

mas há um algo, há aquilo que se passa e que chamo de dor porque a criatividade de nominalista sempre me fez tamanha falta, denomino dor o momento exato em que ela se interrompe, o clima de alívio é sintetizado nesse hesitar cinzento de que logo volte, de que logo as ruínas se ergam nos confins de um pouco de lama presa na sola, de que minha banalidade não atravesse o odor de café no insólito da manhã vindoura, aí eu me preocupo, me inicio na escuta do que em mim há de estanque, o que há de destituído em ídolos a não ser no vazio do templo, sou a barragem de mim mesma, o empecilho sem caminho sedimentado, a imobilidade na pedagogia das pedras

 

Caio Russo é escritor, historiador e pesquisador em Estética Contemporânea, Teoria Literária e História da Arte. 

 

 

Categorias
134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Tiago Chaves

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

NO ASFALTO

 

Esse sol na minha cara que queima, que se eu pudesse saía daqui e ia pra sombra esperar. Ai, que eu me mexo e dói, e então é melhor ficar parado, esperando. E olhando assim pro céu vejo agora esses prédios que sobem pela avenida. Que na verdade os prédios estão subindo agora em todos os lugares e todos os espaços, mas é que eu nunca tinha reparado assim, olhando pra cima. Estou sempre olhando pra baixo. E agora aqui parado eu vejo esse tanto de janela que sobe, sobe, e que em cada janela dessas deve ter uma família morando. Será que é uma família feliz?

Ai, que de vez em quando vem uma pontada de dor! Mesmo eu tentando ficar parado, mesmo eu estando calado. Uma dor me futucando. Quando eu respiro fundo acaba incomodando. Vou respirando devagar.

As pessoas ao meu redor vão falando que é pra eu ficar calmo, que vai dá tudo certo. Todos falando, cochichando, com cara de pena pra mim, com celular me filmando. Quantos celulares apontados pra mim. Ai, que dor! Será que vou passar na televisão? Uma moça segura a minha mão, diz que a ambulância já vem.

Eu juro que olhando assim, bem rápido, esse monte de gente perto de mim, bem que parece uma festa, todo mundo conversando, rindo, contando piada, comendo e bebendo, e todos eles me olhando e querendo falar comigo ao mesmo tempo. Eu nunca tive uma festa assim com tanta gente. Se eu fechar os olhos consigo escutar a música.

Tá que dói. Fica difícil de respirar a cada tempinho que passa. Me dá vontade dormir um pouquinho. Estou ficando cansado, mas não pelo tiro que tomei, não pela hora que estou aqui deitado esperando socorro. Estou cansado de muito tempo, desde que tenho que ajudar mainha a comprar comida pra casa, desde que tenho de acordar de madrugada pra trabalhar, desde que tenho que pegar serviço no fim de semana, desde que tomo esculacho de minha mãe, desde que tomo esculacho dos namorados de minha mãe, desde que tomo esculacho do meu chefe, desde que tomo esculacho do cliente playboy, desde que tomo esculacho da polícia. Estou esperando socorro de muito tempo, bem de antes de eu tomar esse tiro, e só agora uma moça segura minha mão e diz que vou ter ajuda. É preciso sangrar pra chamar a atenção de alguém.

Respiro cada vez menos. Respiro cada vez mais forte. Ai, que dor!

Daqui deitado eu vejo os pés das pessoas. Pés tão diferentes uns dos outros. Pé de povo. De tantas maneiras calçados, mas vejo também uns pés descalços, uns pés machucados. Dá pra ver que alguns são de meninos, daqueles pés pequenos que correm com força, pisando direto no chão.  Uns pés agitados.

Daqui deitado eu vejo o chão, as pedras e as sujeiras. Já não consigo olhar pra cima, de tão cansado, de tanta dor. Aqui também tem muita história. Olha pra isso! Tem a calçada, a rua, os carros passando, as lojas abertas. Tenho vontade de mostrar isso tudo que estou vendo agora, só agora em minha vida. As lojas vendem roupas, vendem coisas de casa, vendem livros. Vejo também sangue no chão, que já é muito. Um vermelho manchando o asfalto, uma lama. Uma onda que invade, avança e as pessoas vão se afastando. Ninguém quer se sujar. Eu sou uma ilha. Pedaço de terra cercada por mar.

Ai, já não sinto tanta dor. Apenas uma vontade de dormir.

A moça ainda segura minha mão, ainda diz que a ambulância vai chegar. Tem outras pessoas também e elas falam coisas. Já não consigo entender o que elas dizem. Só vou me lembrando do momento que eu estava parado, olhando na loja uma cuscuzeira pra comprar. Gosto de comer cuscuz de manhã. Estava saindo da loja e ouvi um estouro de bala, as pessoas correndo desesperadas. Senti um ardido forte nas costas e vi homens correndo com armas nas mãos. Foi uma bala perdida que me encontrou. Sou um corpo caído e vi um dos homens com arma na mão ficar parado me olhando, parecendo que vem falar comigo, com cara de preocupado. Mas o homem foge, correndo pela avenida.

Olho bem pra moça, que ainda segura minha mão. Não consigo mais entender o que ela diz. Queria dizer pra ela que ela é bem bonita. A gente podia se casar e ela ia fazer cuscuz pra mim todos os dias de manhã. Não sai mais voz.

Não sinto mais dor. Estou com um pouco de medo. Estou cansado. Aperto a mão da moça.

Vou tentar falar com ela que não consigo mais deixar os olhos abertos. Vou descansar um pouco. Queria pedir a ela pra avisar a mainha que vai ficar tudo bem. Que a ambulância vai chegar e eu vou pro hospital.

Acho que não consigo esperar mais, desculpa.

 

 

Tiago Chaves é formado pela Universidade Católica do Salvador em Letras Vernáculas e Literatura da Língua Portuguesa. Ministrou aulas de gramática e literatura em escolas públicas e particulares. Ingressou no Grupo Teatral Oco Teatro Laboratório em 2007 e fez curso extensão de Análise de Espetáculos Teatrais pela UFBA. Apresentou e ministrou oficinas de teatro em alguns países e, também, em diversos estados do Brasil. Trabalhou como assistente de produção no Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia de 2008 a 2011. 

 

 

Categorias
134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Berg Morazzi

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Três

 

Era aniversário de um ano de casamento. Meu segundo casamento. Decidimos fazer um pequeno jantar para comemorar, convidamos alguns amigos. Eu não conhecia todos os amigos de Marina, acho que ela já conhecia todos os meus, pois não eram muitos.

Fui ao supermercado em busca de um bom vinho, pensei em levar um argentino, mas isso me remetia à minha antiga esposa. Acabei levando um italiano. Comprei mais umas azeitonas e amendoins, a maior parte dos convidados tornou-se adeptos do veganismo. Os que não fossem veganos teriam que comer nossas comidas. A regra da casa era “sem crueldade animal”.

Na fila que eu peguei havia uma velha na frente. Sempre as velhas. Ela tinha o carrinho mais cheio que a conta bancária de Bill Gates. Logo atrás de mim uma mulher linda, cabelos pretos, ondulados, pouco menos de um metro e setenta. Levava apenas uma garrafa de vinho, um vinho chileno que eu adorava.

– Ótima escolha. – apontei para a garrafa.

Ela estava meio distraída. Quando processou o que eu disse, respondeu:

– Ah, sim! Adoro esse vinho. Na verdade, adoro os vinhos chilenos, têm bons preços e o sabor raramente deixa a desejar.

– Concordo.

Ela tinha algo além da beleza óbvia, seduzia com seu jeito de andar ou falar. Tinha um tipo de magnetismo que não me deixava desviar o olhar.

A velha passou as compras e deixei a mulher passar na minha frente, fui gentil, acho que todo mundo deveria ser. Nem sempre fui legal assim, mas a vida ensina que devemos ser menos cuzões e fazer algo de bom, ainda que pareça pequeno.

Num piscar de olhos a atendente passou o vinho dela, que por sua vez pagou na mesma rapidez, com dinheiro trocado, também dispensando o uso de sacola plástica. Despediu-se de mim, agradecendo a gentileza. Desceu para o estacionamento.

Paguei minhas compras, também desci para o estacionamento. Coloquei as compras no banco do carona, pois não levaria ninguém. Quando arranquei com o carro, fui fechado por um SUV prata. Abaixei a janela, pronto para ser rude e começar a gritar feito um imbecil, mas lembrei do que vinha me dizendo mentalmente: “vamos tentar ser menos bosta”.

Umas madeixas pretas e onduladas saíram da janela do motorista do carro à frente:

– Desculpe!

Não tive outra reação, a não ser gritar:

– Tudo bem!

Coloquei o carro na garagem. Antes de subir, fumei um cigarro. Marina não gostava do cheiro de cigarro, dizia que lembrava seu pai, e ela o odiava. Eu até a entendia e fazia o possível, menos parar de fumar.

Terminei, coloquei uma bala de hortelã da boca, subi. Quando cheguei no penúltimo degrau, lembrei que as coisas ficaram no carro. Voltei para buscá-las.

Alguns convidados já estavam lá. Meu melhor amigo, André, com sua nova noiva. Acho que era a terceira ou quarta. Eu o entendia, relacionamentos são difíceis. Tinha chegado também um amigo escroto de Marina. Era do TI do trabalho dela, cantava nos bares da cidade nos fins de semana, achava que seria o próximo Tim Maia. Eu odiava aquele cara, ele quase acabou com meu casamento uma vez.

Cumprimentei meu amigo e sua noiva com um caloroso abraço, ele sempre teve bom gosto para as garotas, eram lindas e gentis. Não fui tão cortês com o outro, apenas acenei com a cabeça, de longe.

Levei as compras até a cozinha, Marina me seguiu.

– Você pode tentar ser menos babaca? – ela veio se aproximando de mim com raiva.

– Não com ele.

Para quebrar o gelo, dei-lhe uma flor, que estava meio amassada por estar na sacola, abracei e beijei-a.

– Você é um babaca, mas é o meu babaca.

– Estou sendo menos babaca ultimamente, mas não menos seu.

Preparei alguns petiscos, enquanto isso os outros convidados chegavam. Minha surpresa foi tanta que quase deixei cair a bandeja no chão. A mulher do supermercado sentada dentro de minha casa.

Ela se levantou ao me ver, sem esconder a surpresa.

– Vocês se conhecem?

– Não. – minha resposta.

– Sim. – resposta dela, que logo emendou. – Ele me deixou passar na frente da fila do supermercado.

– Sinal que as sessões de terapia estão funcionando. – Marina ironizou.

Cheguei perto do ouvido dela:

– Não precisa falar dos meus problemas para os outros.

Sem censura, ela escandalizou:

– Daniela não se encaixa na categoria de “os outros”. É minha melhor amiga, dividimos apartamento na época da faculdade. Ela só não veio ao nosso casamento porque estava morando em Chicago. Chegou há uma semana.

Senti tanta vergonha que deu vontade de enfiar a cabeça no chão, como um avestruz. A moça esticou a garrafa de vinho para mim.

– Muito prazer, Daniela Portillo.

Peguei a garrafa, sorrindo timidamente.

– Hugo Saavedra.

Jantamos, bebemos, conversamos, rimos, todos nós. Até ignorei o olhar estranho do babaca do TI e aquela sudorese nojenta nas axilas. Daniela era discreta, mas quando queria, tomava a atenção de todos. Tinha boas ideias, boas histórias. Bom decote também, que eu lutava para não ficar encarando.

Pouco a pouco os convidados iam saindo. Em questão de menos de uma hora, não havia mais nenhum. Eu e minha esposa levávamos as coisas para a cozinha.

– O que você achou, meu amor? – perguntei à Marina.

– Adorei, foi tudo incrível. A noiva do André é linda e muito simpática…

– É mesmo, ele tem bom gosto.

– Já a Karen, meu Deus! Quem é aquele peixe morto que ela foi arrumar? Ele deveria deixar a barba crescer, assim não ia parecer ter acabado de sair do ensino fundamental.

– Verdade.

– Ela engordou também, nem devem estar transando.

Ri alto.

– Duvido! Ela é ninfomaníaca.

– Como você sabe disso?

– André…

– Eles já?

– Várias vezes. Uma vez teve até participação da garota que dividia apartamento com ela.

Marina colocou a mão no rosto, tocando a orelha esquerda com as pontas dos dedos, como sempre fazia quando estava surpresa.

– Ela nunca me disse isso.

– Você tem o jeito muito fechado, sua cabeça é muito fechada.

Vi seu rosto enrubescer, eu conhecia bem aquela mulher, sabia que ela não estava brava, mas tímida. O problema é que quando ficava tímida, aumentava o tom de voz, num tom quase que de briga.

– De onde você tirou que eu tenho a cabeça fechada?

– Você faria um ménage?

– Nunca pensei sobre isso.

Ela me conhecia o suficiente para saber que se passava sacanagem na minha cabeça, quando eu abaixava a cabeça e dava um sorriso de lado.

– Você já, não é mesmo?

– Ah… sabe… eu acho que seria uma coisa legal de experimentar.

– Não sei.

Sua voz titubeou, havia uma brecha. Eu tinha que tentar.

– Já que você confia tanto na Daniela… Seria legal. Queria dizer, ela parece ser legal.

– Acho que ela não é do tipo que faria isso.

É sim! – gritei em pensamento.

– Só tem um jeito de saber.

– Qual é?

– Fazendo o convite a ela.

Era minha última jogada, não sabia o que vinha depois, podia ser o xeque mate. Ela me olhou nos olhos, ficou alguns segundos assim, então respondeu:

– Tudo bem, vou falar. Agora vamos acabar de arrumar essas coisas aqui, a noite ainda não acabou para nós.

Transamos a noite toda, foi incrível. Alguns meses depois estávamos divorciados. Nunca mais vi ela ou Daniela. Não tivemos um ménage a trois. Talvez no meu terceiro casamento.

 

Berg Morazzi, nascido em 17 de maio de 1992, em uma pequena cidade de Minas Gerais. É escritor, roteirista, audiodescritor e ativista vegano. Autor dos livros “Sobre a lucidez e outras farsas”, “Obsolescência Cotidiana”, “Isso nunca foi sobre o amor”, “Enquanto a cidade dorme”, “As flores morrem o ano todo” e “A um passo do precipício”. Traz em sua prosa uma mistura exótica de Paulo Coelho, Gabriel Garcia Marques e Charles Bukowski. Mostrando o doce e o amargo da vida cotidiana, criando personagens profundos e histórias reflexivas.

 

Categorias
133ª Leva - 05/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa I

Rodrigo Melo

 

Pintura: Canato

 

SÓ ELE VOLTOU

 

Alguns dizem que ele a matou e a jogou, com carro e tudo, num dos brejos lá da serra, um daqueles que ninguém sabe direito como chegar. E, acredite, tem uma porção de brejos assim por lá. Mas a maioria acha que tudo realmente aconteceu: que eles foram levados para algum tipo de experiência e que, por algum motivo indecifrável, só ele voltou. Eu mesmo não sei dizer o que é verdade. Cada um tem a sua opinião e a depender do jeito que falam, acabo acreditando em quase tudo.

A história que todos conhecem é que eles tinham saído para jantar. Era uma quinta-feira como outra qualquer, sem nenhuma data comemorativa ou algo assim. Alguém lembrou depois que eles quase nunca saíam juntos, mas há muitas coincidências na vida e essa pode ter sido apenas mais uma. De qualquer modo, foram até uma pizzaria, aquela que fica na esquina do cinema, e se sentaram em uma das mesas da varanda. Ele deixou Norma escolher o tamanho, família, e os sabores, e ela pediu metade de calabresa e a outra metade de manjericão roxo. Comeram sem conversar, como muitos outros casais, cada um sentado em um lado da mesa. Ela bebeu refrigerante e ele, uma lata de cerveja. A garçonete disse que Norma perguntou se era possível embrulhar os dois pedaços que haviam sobrado e que ele, ao descer o batente da pizzaria, disse:

– Cuidado, querida, para não tropeçar.

Entraram no carro e partiram. E, depois disso, tudo o que a gente sabe foi o que ele contou.

Ele disse que seguiram pela estrada que leva aos brejos. Era o caminho mais longo, mas ela gostava de ir por ali. Escutavam música francesa: Allan Barriere e Charles Aznavour. Conversavam sobre o desabamento de um prédio que tinham visto na tv. Tudo ia bem, quando, depois de passar pelas velhas fábricas, ao entrar à direita para pegar a grande reta que os levaria para casa, o carro de um segundo para o outro parou – não havia desligado, assim como não parecia haver qualquer problema mecânico. Apenas deixou de ir para a frente, de seguir a linha que vinha seguindo. E o mais estranho daquilo era que, mesmo acelerando e quase afundando o pé no assoalho do carro, continuavam sem sair do lugar. Era como se um enorme ímã os segurasse. E então, abruptamente, o carro ficou suspenso no ar e começou a se afastar do chão. Ele disse que não demorou a deduzir que estavam sendo abduzidos por alguma nave espacial, pois era a única coisa que poderia estar acontecendo. E ela, a nave, era enorme e muito clara, tão clara a ponto de quase cegá-lo, por isso teve que fechar os seus olhos. E apagou. Quando despertou, horas ou dias depois, se deparou com aquelas duas criaturas curvadas sobre si. Eram bem diferentes das que vira em qualquer filme sobre aliens, pois tinham o corpo gelatinoso e andavam sem esforço algum, como se flutuassem a dois palmos do chão. Curiosamente, ao invés de lhe causarem medo ou asco, lhe davam uma surpreendente sensação de paz e segurança. Elas o colocaram numa espécie de redoma de vidro, que chacoalhou por algum tempo e depois parou.  Nesse tempo, ele acabou apagando mais uma vez.

Na manhã seguinte, encontrava-se completamente nu, deitado sobre o asfalto, quando um cachorro veio e lhe lambeu o rosto. Não havia nenhum sinal do carro, muito menos de Norma. E ele, sem ter mais o que fazer, simplesmente se levantou e correu para casa, de onde ligou imediatamente para a polícia.

Tem cinco anos que isso aconteceu. O caso continua em aberto, pois nunca acharam o corpo, mas a bem verdade é que quase todo mundo acreditou na história que ele contou. Às vezes, até eu. Nos finais de semana, quando o tempo está bom, alguns turistas aparecem e vão até a estrada que leva aos brejos, hoje tão movimentada quanto qualquer rua comercial. Procuram por uma queimadura no asfalto ou qualquer coisa que os convença de que tudo de fato aconteceu, e por vezes até encontram algo, e, alvoroçados, começam a falar alto e a sorrir, como se dependesse daquilo atestar que tudo tinha sido mesmo verdade. Em seguida, rumam em caravana até a frente da casa em que o casal morava, onde hoje há uma lojinha na garagem. Em alguns dias, ele aparece, acompanhado da nova esposa, uma loira, quinze anos mais jovem, e tira fotos, conta para todos como foi a louca e maravilhosa experiência que teve a sorte de vivenciar. E aquelas pessoas então o abraçam, lhe pedem autógrafos, e, ao seu modo, o reverenciam, porque, apesar de tudo, ele conseguiu sobreviver.

Parece que na semana que vem, lá na praça em frente à pizzaria, vão inaugurar uma estátua dele montado em um disco voador.

 

Rodrigo Melo é prosador e vive em Ilhéus, Sul da Bahia. Publicará, no início de 2020, o romance Riviera.

 

 

Categorias
133ª Leva - 05/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana Paulo

 

Pintura: Canato

 

CENTO E ONZE

 

Parado em cima da ponte Rio-Niterói. A voragem. Um ponto indefinido lá no alto, na ponta de uma reta de metal, betão, piche. Carlos Henrique vacila. A dor dilacera o pensamento. A dor arranca-lhe o coração e o estômago. A dor é uma pesada pedra no peito. A imagem de seu filho perfurado, ensanguentado e morto. Fixada na memória como ferro quente. Queima, arde. A ponte, a água dura e profunda. Ele vacila. O vento passa pela face molhada. Não chove. O sol embaçado de poluição e mormaço. O calor derrete. Os olhos chovem. A injustiça abissal. O indestrutível Golias. O sofrimento maior. O peso do mar imóvel. E de novo a imagem do filho perfurado.

Furo, disparo. Tudo o perfura, atravessa o corpo, estraçalha a alma. Dói a realidade dentro dele. Na sua mente perfurada de chumbo. Tiros que o acertam e destroem a vontade de viver.

Esquecer é um bálsamo. Mas a memória dispara a imagem centenas de vezes. E tudo à volta o acerta, fura-lhe os olhos, a boca, o ouvido. Fura o pescoço. O sangue escorre e flui pelos olhos, pelas narinas, pela boca, pelos ouvidos, pelos furos nas veias…

Cento e onze.

No meio de um dia qualquer de novembro, o raio de sol refletia na janela. Nina lia o jornal, sentada no sofá da sala, no apartamento no Rio de Janeiro. Não gostava de ler jornais, raramente abria as páginas de um. Mas comprava de vez em quando no jornaleiro. Ele vendia exemplares do seu livro.

Ao ler os jornais parecia que tudo se tornava um problema. Desde que o povo acordou para a democracia era uma manifestação atrás da outra. Era cansativo! Ela se perguntava quando isso teria um fim e ela podia viver em paz sem as vicissitudes políticas e econômicas, sem ter que responder sobre sua opinião política nos eventos de literatura. Para ela, literatura não tinha nada a ver com política.

Lendo o jornal, os assassinatos a incomodavam. O artigo dizia que mais de sessenta mil pessoas morrem assassinadas em solo brasileiro, por ano. Quarenta e cinco mil, em acidentes automobilísticos. E mais adiante: Cento e onze tiros de pistola e fuzil contra o carro no qual estavam os jovens. Neste ano, são mais de onze mil, quinhentos e sessenta disparos pelos policiais do Batalhão de Irajá. Os policiais de São Gonçalo deram quinze mil setecentos e sete tiros. Somando com os do Batalhão de Niterói e do Bope chegam a quarenta e dois mil e quatrocentos e oitenta e sete mil disparos em um ano, e ainda faltava o mês de dezembro. A foto dos jovens Roberto de Souza Penha, dezesseis anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, dezesseis anos, Cleiton Correa de Souza, dezoito anos, Wilton Esteves Domingos Junior, de vinte anos, e Wesley Castro Rodrigues, vinte e cinco anos, horas antes do fuzilamento, mostrava a cara alegre e inocente de jovens afro-brasileiros.

Os ruídos dos disparos ecoavam. Muitas balas perfuraram o tronco, muitas balas entraram por cima, por trás e pelo lado direito do carro. O policial que mais atirou deu onze disparos com uma pistola Taurus e dezoito com um fuzil imbel M-964 FAL. “É um vazio no coração um pai sepultar um filho assim. Você nunca supera essa dor”.    

Ela passou na casa de seu editor, no condomínio CXI, na Av. Costa Barros. Um homossexual com cara de Oscar Wilde e gestos de Woody Allen. Ele, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, propôs: — Escreva sobre isso, então! Se está te incomodando tanto! Há meses que ele parou de fumar e engordou. Mas começou a fazer uma dieta rigorosa com o auxílio de uma jovem nutricionista. E fez um tratamento de branqueamento dos dentes. Sorria um sorriso imaculado. A editora é pequena e o número de leitores restrito, mas ele consegue financiamento de algumas empresas conhecidas do marido dela.

Nina sem inspiração. Não era ruim porque tudo o que ela escrevia seria publicado. O marido possuía amigos influentes que possuíam amigos influentes, e o irmão dela era jornalista. Seu círculo de leitores eram a maioria mulheres e ela vendia bastantes exemplares nas reuniões das instituições de caridades, promovidas pelas empresas dos conhecidos de seu marido. As boas resenhas nos jornais eram por conta dos amigos de seu irmão.

Cento e onze. Wesley Castro deixou um filho de dois anos. Wilton ia se formar como técnico em administração. Carlos Eduardo tinha acabado de concluir um curso de Petróleo e Gás e se preparava para tentar concurso para a Marinha. Roberto era Jovem Aprendiz no Atacadão de Guadalupe. “Primeiro emprego. Estava rindo à toa, estava bem com a vida. O primeiro salário que recebeu foi brincar no Parque Madureira com os colegas dele”.

Antes de voltar para casa, Nina passou no supermercado e fez a compra da semana. E cinco ramos de copos-de-leite brancos. Quando seu marido chegasse a janta estaria pronta. Ele reclamava que ela perdia tempo escrevendo ou lendo, mas quando alguém nasceu para escrever, ele somente poderá ser impedido se de alguma forma for morto. Como ela não se deixava matar, ela escrevia ainda mais. Seus três filhos quase a assassinaram, mas a empregada salvou-lhe a vida. Sem a Val ela jamais seria o que é agora, uma escritora mediana, casada com o superintendente de uma grande empresa, com três filhos homens adolescentes e o sobrinho que veio morar com eles depois da morte dos pais, em um acidente de automóvel.

O PM botou o fuzil na cara de Márcia Ferreira, mãe de Wilton. “Ninguém se aproxima do carro”, berrou. A mãe viu o seu filho e o amigo Carlos ainda vivos, gemendo. A mãe foi ameaçada por policiais, ela viu quando um deles colocou uma arma no chão, ao lado do carro, e tirou a chave do contato, jogou-a no porta-malas do veículo. “Minha cunhada queria ver o filho dentro daquele carro, mas o PM botou o fuzil na cara dela e disse que ia atirar em quem se aproximasse do carro. Quando chegamos deu para ver que o Wilton e o Carlos agonizavam e ainda estavam vivos. Pedimos para socorrer, mas eles não deixaram”.

Cento e onze pássaros alçaram voo. O bando estava pousado na árvore e no muro do grande jardim. Cinco ninhos nos galhos das árvores. A tarde caía. Nina sentou-se à mesa e não conseguia começar. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa. Roberto tinha recebido seu primeiro salário como auxiliar de supermercado e os cinco amigos foram comemorar. Moravam no Morro da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, onde os jovens negros morrem ou nas mãos dos bandidos ou da polícia, um bairro distante de onde Nina mora. Era como se fosse em outro país, em outro continente. Precisar conviver com a incerteza se o filho será vitima ou algoz. Era como uma guerra civil, um genocídio camuflado de perseguição e execução de criminosos. Horas antes a polícia tinha recebido um aviso sobre um roubo na redondeza e os suspeitos estavam dentro de um carro e uma moto. Na Curva Vinte e Um apareceu um carro e uma moto e isso foi o suficiente para a polícia atirar. Despreparo. Salário baixo. Risco de vida. Psicopatas. Psicologia. Despreparo.

Um dos países onde mais se mata.

Nina tinha medo de ir àquela região da cidade, mas buscava escrever uma história autêntica e para isso queria conhecer as famílias, as mães, pelo menos uma, precisava conversar com ela, saber sobre a vida dos rapazes. Soube, por meio de outro artigo de jornal, que o pai de Roberto foi um dos primeiros a chegar ao lugar da chacina, e não consegue esquecer a imagem do carro perfurado com o filho dentro. O adolescente recebeu 16 tiros. Soube que o alarme de Roberto toca regularmente às 6h30. O pai não sabe mexer no computador do filho para desativá-lo, e ouve o alarme tocar de segunda a sexta. O filho, de dezessete anos, nunca mais acordou para ir à escola.

O alarme tocou, seis e meia da manhã. Nina levantou-se e foi ao quarto acordar os meninos. Cinco luzes acesas. Eles tinham que ir à escola. O mais velho era o que mais lhe dava trabalho e era o último a se levantar. O sobrinho era o primeiro a se levantar. Eles não tomavam o café da manhã, se arrumavam e logo saíam.

— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele muito sensível!

Dois iam a pé, caminhavam pelas ruas do bairro até chegar à escola, atrás de uma praça arborizada. O sobrinho e o de dezesseis anos pegavam o ônibus especial da escola particular que passava na rua de cima.

Cento e onze. Gritos. Eram amigos de infância. Cinco amigos. No selfie, um deles sorri metálico com o aparelho corrigindo a felicidade. Cinco vidas. Josita, mãe de Roberto, morre três anos mais tarde, sem forças, anêmica, aos quarenta e quatro anos. Wilkerson, quinze anos, irmão de Wilton, que estava em uma moto com um amigo e conseguiu fugir dos disparos, morre de aneurisma cerebral, um ano depois.

Nina falou com a Val, que morava no bairro vizinho, sobre a possibilidade de vir a conversar com alguém da família.

— Você enlouqueceu? Foi a pronta resposta de Val. Eu não conheço ninguém daquele bairro. Não piso os pés lá.

— Mas você não poderia ver se alguém conhece uma daquelas mães?

— De jeito nenhum! E como você vai até lá? Nem táxi circula naquela região.

— Mas as pessoas vivem lá. Há muitos que vivem lá e não são todos criminosos. São a maioria gente como nós. Não são? Como eu e você que batalhamos na vida!

Uma série de argumentações passou pela mente de Val. Ela não era como a patroa. E respondeu apenas, “eu não posso lhe ajudar. Pergunte ao seu irmão, ele é jornalista!”.

De repente, a chuva.

— Val, tira a roupa do varal. Está começando a chover! Val correu para o quintal. Mas, não demorou muito, a chuva parou. Cento e onze gotas de chuva na poça no quintal.

“Não atira! Somos moradores!” O braço para fora do carro em sinal de aviso. “Não atira! Somos moradores!”

O maxilar solto por causa da potência das balas, pendurado

Cento e onze.

O advogado pediu ao Tribunal de Justiça que obrigasse o Estado a custear atendimento psicológico para mãe e filha. Em primeira instância, o pedido foi negado — a juíza considerou que a solicitação só poderia ser atendida após a condenação dos PMs. 

Cento e onze.

Nina pensou que a Val sempre a teve nas mãos. Ela era de confiança, rápida no serviço, prática, gostava de crianças e Nina não sabia de onde ela tirava tanta sabedoria sobre o relacionamento entre as pessoas. Há vinte anos que ela trabalhava na família. Com a convivência se afeiçoaram uma a outra. Val era determinada, Nina podia se dar ao luxo de se perder na realidade, o luxo do devaneio.

Adriana, mãe de Carlos Eduardo parou de falar. As palavras estraçalhadas dentro dela, a mudez sufocando. E o grito, a agressividade, os antidepressivos. As tentativas de suicídio. O mar. As ondas para engolir a dor. A dor acorrentando os pés. O caminhar no pântano. Na mão uma carta do filho, presente do Dia das Mães: “Escrevo essa carta para te dizer que tenho a melhor mãe do mundo, não porque seja a minha, e sim porque, se buscasse no mundo inteiro, não vou encontrar outra igual, nem parecida”. Monica Aparecida Santana Corrêa, mãe de Cleiton, vive à base de antidepressivos e medo de sair de casa.

O marido chegou do trabalho. Nina preparou a janta que Val cozinhou. No prato, cento e onze grãos. O filho mais velho fez dezoito anos, no mês anterior, e ganhou um Audi A3 sedã branco de presente. Desde então ele não respeitava mais o horário da janta. Nina o orientou a não sair do bairro, não dirigir o carro por aí, longe. Aquele bairro era seguro, os dois bairros vizinhos também, mas ao se afastar para a zona norte, poderia acontecer roubo ou rapto. Nina se preocupava. Quatro jovens em casa, quatro filhos lhe davam trabalho. Nervoso. Paciência. Paciência. Nervoso. O de dezesseis anos costumava deitar a cabeça em seu colo, no sofá da sala, vendo televisão. Ele tinha crescido. Desta vez, Nina deitou a cabeça no peito dele. Cento e onze batidas do coração. — Lembro de quando você nasceu, um bebê gorduchinho! Meu fofo!

Cento e onze. Márcia Ferreira de Oliveira, mãe de Wilton: “Que segurança é essa nossa que a gente é patrão deles porque o pagamento é a gente que paga com o nosso suor e a gente paga para eles poderem matar os nossos filhos da forma que o meu filho e os amigos deles de infância foram mortos? Não tinha bandido dentro daquele carro não. Tinha um bando de adolescente querendo se divertir, querendo fazer de um sábado um dia diferente, um dia de alegria, e hoje eu estou aqui, na porta do IML tirando o corpo do meu filho dali. Que UPP é essa? Ele acabou com cinco famílias. O meu filho tinha 18 anos, mas era uma criança. Ele deitou no meu colo e falou ‘mãe me faz um cafuné?’, como se fosse um bebê. E amanhã eu tenho que enterrar o meu filho”. 

A mãe saía para trabalhar, Wilton fazia o jantar e cuidava da irmã pequena, de 6 anos. De vez em quando, ela o chamava de “pai”.

Um ano depois, Nina sentou-se à mesa e não conseguia escrever. Não sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela polícia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa.

No apartamento de seu editor, sentado na sala do escritório desarrumado e cheio de livros, ele propôs: — Escreva então sobre os refugiados! Faça uma viagem pela Europa e escreva sobre os refugiados. Este é um tema que está em voga atualmente, e é um tema internacional. Seus avós eram húngaros, seu marido é descendente de italianos. Conte a história de sua família! Seus avós fugiram, na época da guerra, eram judeus, não eram? Escreva sobre isso! Para ser sincero, eu sabia que você não conseguiria escrever sobre estas mortes. Elas acontecem demais! Fazem parte do cotidiano brasileiro. Nós, brasileiros, lemos isso nos jornais o tempo todo! Esses jovens não são os primeiros e não serão os últimos e a maioria da população não se importa. Este é um tema muito vinculado à vida na favela e as favelas não são o Brasil. Favela é favela! Isso não é um tema internacional e você não conseguiria vender os livros nas instituições importantes. Eles não gostam destes temas polêmicos! E poderíamos ter problemas com a polícia e com o financiamento para a publicação. Eu somente sugeri para você pensar e se ocupar um pouco. Você mesmo veria que não é pra você, e foi o que aconteceu. Escreva sobre os refugiados na Europa, sobre a ditadura e a imigração brasileira! A matança nas favelas é horrível, mas a maioria não consegue se identificar com isso e não quer saber de violência, droga, crime, policiais despreparados, corruptos, sanguinários ou bandidos cruéis ou jovens inocentes. Já chega os filmes norte-americanos! É um tema muito pesado! É um tema masculino! Você não é Paulo Lins ou Drauzio Varella! Escreva sobre a ditadura! O tio-avô de seu marido não esteve preso? Você me falou disso certa vez. Uma namorada dele sumiu. Ela era professora na universidade e foi depor, depois disso nunca mais foi encontrada. Vamos pensar em um livro que possa lhe trazer prêmios internacionais!

Uma centena, uma dezena, uma unidade. Um número harshad mais um. Jorge Roberto Lima e Penha, pai de Roberto, trabalhava de montador da Odebrecht e faz faculdade de Direito. “Ele era quase um bebê, e não vai poder nem me ver de beca. Não é por mim, em si, porque tudo que sempre fiz foi pelos meus filhos.”

Cento e onze.

“Quando ando com essa cara triste pelo morro escuto as piores coisas que uma mãe pode ouvir. Dizem que vai doer menos se eu me conformar, que não sou a única no mundo a ter perdido um filho, que eu quero ficar famosa. Já me falaram até que não tenho motivo para sofrer porque fiquei rica com a indenização do estado. O governo não nos deu dinheiro algum, e a verdade é que não quero um centavo. Só quero sair daqui. Preciso salvar meus outros filhos.”

“Às vezes, ela volta do trabalho chorando o caminho todo. Era o único filho. Só tinha o Wesley!”

Nina partiu para a Europa, passou três semanas. Os rapazes foram junto. Visitaram diversos pontos turísticos e Nina recebeu autorização para visitar um campo de refugiados, na Grécia, mas não quis expor os rapazes àquela realidade deprimente de pessoas presas. Guerra, miséria, pobreza, promessa, ilusão. Ainda mais que o sobrinho terminou o tratamento psicológico há pouco tempo. Dois anos fazendo terapia por causa da morte dos pais. Nina dedicava-lhe, às vezes, especial atenção e pedia para os outros garotos terem paciência com ele, ajudá-lo. Eram bons rapazes, carinhosos, bons filhos. Levou-os para curtir a praia turquesa e mansa. Crepúsculo rosado. Cento e onze estratos transparentes no imenso azul do céu.

— Não se esqueçam de passar o protetor solar. Vocês têm a pele sensível!

Ela escreveu um romance sobre uma fotógrafa apaixonada por um refugiado sírio, engenheiro, que consegue falsificar os documentos e acompanhá-la para o Brasil. Menção à ditadura grega e brasileira. Ganhou um prêmio internacional.

Cento e onze disparos atravessaram a lataria branca do automóvel, entraram no corpo macio e quente dos jovens, perfuraram os ossos, transpassaram o tórax, o quadril, o abdômen, o pescoço, estraçalharam o queixo, a cabeça… o sangue gelatinoso e escuro espalhou-se no assento, no chão. Cento e onze balas de ferro, duras e mortais, geladas e inanimadas. No céu o final da tarde. À noite as estrelas caladas. Sem brilho. Assustadas.

“Quem deveria nos proteger está nos matando”.

Cento e onze.

“Cada vez que escuto um tiro penso no que Cleiton sentiu quando entrou a primeira bala. Não consigo parar de pensar nisso. Nenhuma mãe suporta ver um arranhão em seu filho, imagine vê-lo transformado em picadinho. Meu filho foi enterrado nu, porque não era mais um corpo que pudesse ser vestido.”

O filho mais velho de Nina, agora com vinte anos, conseguiu o seu primeiro emprego como assistente de auditoria, através da recomendação do pai. O seu curriculum foi o menos atrativo, ele não tinha experiência e estudou em uma faculdade particular. O mais velho nunca foi de estudar, faltou muito nas aulas e pagou amigos estudiosos para escrever os seus trabalhos. Mas no final, tudo deu certo e ele conseguiu o diploma de administrador de empresas. Um mês depois ele recebeu o seu primeiro salário. Estava feliz. Encontrou os irmãos, na quadra de tênis do prédio, e um amigo dele. — Vamos pro restaurante, no shopping?

Naquele início de noite, vento fresco e cheiro adocicado no ar. Alegres, os cinco jovens saíram com o Audi A3 sedã branco e foram comemorar.

 

Viviane de Santana Paulo é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.

 

 

Categorias
132ª Leva - 04/2019 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Sérgio Tavares

 

Foto: Luiz Bhering

 

O discurso presidencial

 

Um minuto, anuncia o secretário de Imprensa. O operador de câmera confere o visor e calibra o foco. A meia altura do tripé, o plano americano enquadra o tampo amadeirado do que parece ser uma mesa de uso doméstico. No canto inferior esquerdo do vídeo, tem um exemplar da Constituição de 88. No canto inferior direito, um volume da Bíblia Sagrada. Em escala de profundidade, vê-se o recosto chumbo de uma cadeira office e, mais atrás, a bandeira do Brasil presa, com fita crepe, na parede nua.

O presidente, então, entra em cena. A princípio, apenas o recorte do corpo que dá das coxas até meio do abdome. Trinta segundos, acusa a voz do secretário. O presidente acomoda-se. Usa uma camisa social azul turquesa, sem gravata, sobreposta por um blazer azul marinho. O assistente de som lhe prende o microfone na lapela: Alô, alô, testando… Ato contínuo, a maquiadora polvilha base na cara papuda e acerta, com um pente fino, o pega rapaz do penteado montado a gel.

Ok, todo mundo fora de cena! Silêncio agora, pessoal! No centro do vídeo, o presidente assume uma postura ereta e encara fixamente a câmera. O secretário de Imprensa corre para detrás do tripé e informa: Cinco segundos, iniciando uma contagem regressiva com os dedos, que é sucedida por uma voz feminina em OFF, escutada num pequeno monitor ao lado. “Forma-se, neste momento, a rede nacional de rádio e televisão, para o pronunciamento do presidente da República”.

É a deixa. O secretário de Imprensa sinaliza, mas, ao contrário do ensaiado, o presidente não começa a falar. Ainda com a coluna reta, as mãos pousadas sobre a mesa, faz um movimento sutil, porém firme, com a musculatura do pescoço, como se tentasse se livrar de algo preso na garganta.

O tempo passa, está ao vivo para todo território nacional, e o silêncio começa a provocar tensão. O presidente meneia a cabeça, empina o queixo, demonstra agora sinais de incômodo. Ninguém entende o que está acontecendo. Ele está engasgado?…, sussurra o operador de câmera para o assistente de som, que dá de ombros.

O presidente está mais alterado. Pressiona o pomo-de-adão, repete um esgar, perde a compostura. Debruça-se sobre a mesa e, num movimento forçoso semelhante ao da expectoração, contrai os lábios e, de sua boca, sai uma roliça tripa marrom malcheirosa.

Todos, no ambiente, se espantam. Ressoa um abafado de exclamação. O presidente, com os olhos arregalados, encara aquele montinho pastoso à sua frente, olha de volta para a câmera e retrai os músculos da face como se não soubesse o que fazer. Tenta falar outra vez, e um novo arremesso de bolo fecal bate contra o tampo amadeirado da mesa.

Minutos depois, o vídeo tinha viralizado em todo o mundo. Com igualável rapidez, apoiadores se manifestaram nas redes sociais, em blogs e em vídeos no Youtube, alertando de que se tratava de deepfake, uma montagem grosseira, feita por opositores, com o propósito de atacar a imagem do presidente.

Mas não era o caso. Toda a vez que o presidente tentava se expressar, um rolo de fezes era regurgitado inevitavelmente. Falava sobre o meio ambiente, defecava pela boca. Falava sobre a ditadura, defecava pela boca. Falava sobre a diversidade de gênero, defecava pela boca. Falava sobre cultura, defecava com mais ímpeto pela boca.

Em protocolo de emergência, o presidente foi levado para um centro médico, no entanto, depois de uma bateria de exames, proctologistas e otorrinolaringologistas não puderam determinar qual era a causa do fenômeno. Políticos da base, apavorados, davam como certa a renúncia. O estafe partidário se preocupava em blindar a Comunicação do Planalto do assédio da mídia nacional e internacional, ao mesmo tempo que articulava a posse do vice.

O problema era o fogo amigo de alguns aliados políticos que vazavam notícias, alimentando uma série de especulações que pressionavam o porta-voz do Governo a se pronunciar, muito por conta também de uma ansiedade perigosa que começava a ganhar forma nas ruas.

Dois dias depois, o vídeo tinha alcançado a marca histórica de dois bilhões de visualizações, e parlamentares da oposição começavam a colher votos para dar início a um processo de impeachment. Com o presidente ainda internado, ninguém sabia o que fazer e tudo parecia realmente perdido.

Até que, das profundezas de um porão situado num grotão morno dos Estados Unidos, um guru de extrema-direita faz uma live que muda todo o quadro. Defende que, na história do mundo, nunca existiu um líder com a capacidade de executar um ato que transcendia a fisiologia normal do ser humano. Que era um homem único, um mito. Que, por estar um degrau acima na evolução da espécie, todos deveriam idolatrá-lo e segui-lo. Que em função da impossibilidade dos outros mortais repetirem seu ato, os seguidores deveriam ingerir fezes, de modo a condicionar o corpo a expulsá-la pela boca. Que ele próprio, desde aquela manhã, tinha iniciado uma dieta no qual ingeriria três porções de fezes frescas por dia, de maneira a se tornar, oxalá!, tão evoluído quanto o presidente. Que mostrariam para o mundo que a fome, no Brasil, era uma mentira.

No dia seguinte, milhares de eleitores tomaram as ruas, simultaneamente em vários estados, para celebrar o presidente que defecava pela boca. Vestidos com camisas oficiais da Seleção Brasileira de Futebol, tênis e bermudões, cantavam o novo Governo, a nova Pátria, o direito de ingerir fezes. Alguns, inclusive, seguravam tupperwares com porções de bolos fecais e iam se alimentando durante a manifestação. Pais davam colheradas a seus filhos para, oxalá!, um dia alcançarem o estágio de evolução do presidente.

Com a crise controlada e o vídeo reduzindo, gradativamente, o número de visualizações, o estafe começa a botar a agenda presidencial de volta aos trilhos. Inapto a falar sem expelir um rolo fecal, o presidente tenta se comunicar por meio de libras, porém é incapaz de articular qualquer movimento com os dedos que não seja o indicador e o polegar esticados, simulando uma arminha. Passa, então, a ser acompanhado por assessores que seguram pequenas lousas e uma caneta piloto não da marca Bic. Ali escreve ordens para um grupo formado pelo vice-presidente, o chefe da Casa Civil, o ministro da Economia e um astronauta, que passam a ser a voz ativa no comando do Brasil.

Recolhido em casa, o presidente começa a usar, cada vez mais, o Twitter para se expressar. Ao fim de todo post, cola a hashtag Pátria Amada Brasil e o emoji cocozinho. Também é, através de tweets, que demite dois ministros e o chefe da Receita Federal, ao descobrir que não seguiam a ingestão regular de fezes frescas. Em 5 de setembro, Dia da Amazônia, compartilha um vídeo em que um ruralista, no centro de uma grande área desflorestada, pasto de cabeças de gado, saboreia um bolo fecal a garfadas cheias, afirmando que, a exemplo do esterco que aduba o solo, as fezes aduba (sic) o cérebro. O presidente cola, no rodapé do post, a hashtag Respeito.

Daí se avizinha a data da Assembleia-geral da ONU, na qual é praxe o chefe-maior do Estado brasileiro fazer o discurso de abertura. Com a reprovação da equipe médica circulando pelos bastidores do Planalto, o vice-presidente, durante uma coletiva, deixa escapar que o presidente não irá participar do evento. A declaração, porém, causa revolta no presidente, que ordena que o vice se dirija urgentemente à sua casa, onde ficam cara a cara e, aos berros, dispara jatos de matéria fecal por todo o rosto e terno de seu imediato. Completamente enfurecido e descontrolado, o presidente passa o resto do dia defecando em todo o assoalho da casa.

Não passa por sua cabeça (sic) faltar ao discurso de abertura. O estafe e o grupo, então, reúnem-se, de modo a bolar uma estratégia para o presidente fazer o discurso sem precisar falar. Sugerem um powerpoint; o presidente recusa. Sugerem uma dublagem sincronizada a movimentos labiais; o presidente recusa. Sugerem que fique em posição de sentido e a primeira-dama discurse por ele; o presidente recusa. O presidente quer falar. Em sua cabeça (sic), conclui que tem uma missão a cumprir. Um dia antes da viagem, publica, em sua conta no Twitter, que vai a ONU defender a soberania nacional, hashtag cocozinho. O post tem 200 mil curtidas e 40 mil compartilhamentos.

Nova Iorque, setembro. Diante de um auditório com centenas de ocupantes, entre chefes de estado, de delegações, autoridades diversas, repórteres e convidados, o presidente caminha até a oratória, levando consigo duas folhas de papel A4 escritas à mão, e se posta a centímetros do microfone. Flashes de câmeras estouram em seu rosto. O presidente arruma as folhas sobre uma pequena bancada, confere outra vez o início do discurso, limpa a garganta e, ao projetar a voz, arremessa um bolo de fezes ao pé da tribuna.

Na primeira fileira, lideres de nações europeias reagem com assombro, em seguida, com repulsa. Alguns deles, nauseados, levantam-se e abandonam o recinto. Outros, ao fundo, permanecem em seus lugares, até serem alcançados pelo futum. Mesmo para o padrão do presidente estadunidense é demais, e ele também deixa o salão.

O presidente, no entanto, não se abala e segue defecando pela boca o conteúdo redigido nas folhas de papel. Ao fim, o ar concentrado está tão poluído, que mesmo os operadores de câmera e a equipe de organização se evadiram, ficando apenas a pequena comitiva brasileira que, habituada à intensidade do cheiro, coroa a queda do último rolo fecal com uma salva de palmas e assobios. O presidente é abraçado e cumprimentado pelo sucesso, depois todos vão comer hambúrguer num fast food da esquina.

De volta ao Brasil, o presidente é recebido por uma multidão que se autointitula os toletinhos. Carregam faixas e cartazes, cantam o hino nacional e entoam frases de efeito, ingerem fezes frescas e dão tiros para o alto; no topo de um carro de som, uma dupla faz uma performance-homenagem de brown shower.

Analistas de direita tecem comentários elogiosos sobre a participação do presidente na Assembleia-geral da ONU. Exaltam como foi sensato, incisivo, mantendo a compostura diante da debandada dos chefes de nação, mesmo quando seu modelo moral, o presidente dos Estados Unidos, deixou o recinto, cobrindo o nariz.

Na imprensa internacional, porém, o discurso do presidente repercute entre a revolta e o escárnio. Um articulista do Le Monde define a participação como um acinte, pois (trad. do francês), “sabedor de que defecava pela boca no Brasil, fez questão de que o mundo tivesse ciência de seu hábito grotesco”. O editorial do Deutsche Welle defende que (trad. do alemão) “a próxima Assembleia-geral fosse realizada nos sanitários do prédio”. A capa do The Sun traz a manchete “Brazil is a sh***” (melhor não traduzir).

É o combustível para se iniciar uma guerra virtual, com memes, fake news, comentários, stories, textões e tweets. Mas, com o tempo, os efeitos ganham ressonância na política macroeconômica e acordos bilaterais e multilaterais começam a ser desfeitos. Todos os países europeus param de importar produtos e matérias-primas do Brasil. Multinacionais fecham fábricas em várias cidades, causando demissões em massa. Mesmo os Estados Unidos, um aliado platônico, cortam relações com o governo brasileiro, decretando o isolamento internacional. E assim, apesar da arrogância do presidente em garantir que o país é autossustentável, a economia caminha para a falência.

Dois anos depois, o desemprego atinge 44 milhões de brasileiros, e 88,8% das famílias estão endividadas. A violência social explode contra a inexistente política de segurança e, nos estados mais pobres, a fome mata uma criança a cada cinco minutos. Com a redução do território verde da Amazônia a 12%, epidemias tomam as cidades que, sem estoque de vacinas, empilham cadáveres em covas coletivas. Todos os planos econômicos e reformas se revelam pautas de festim. E até mesmo a Igreja, mentora e patrocinadora do Governo, fecha todas as suas sedes e seu canal de televisão, e se muda para Moçambique, alegando que Deus não é mais brasileiro.

Ainda assim, o presidente lança sua campanha de reeleição. E milhares de toletinhos o acompanham em caravanas messiânicas por todos os cantos do Brasil, reverenciando o mito, o ser incomparável que defeca pela boca, pois, apesar do caos social, dos continuados escândalos de corrupção, da livre prática de nepotismo, da volta da censura, do consolo da informalidade para ter o mínimo para sobreviver, todos podem contar com a ingestão diária de três porções de fezes frescas.

O presidente sequer se vale mais de lousas para se comunicar, arremessando, em ritmo de campanha, matéria fecal a torto e a direito, sem moderação. No corpo a corpo, eleitores disputam o espaço mais próximo do presidente, de modo a capturar um desses rolos ainda no ar e ingeri-lo imediatamente, presumindo que a fonte original possui componentes puros, capazes de agir com mais eficácia na modelagem do intelecto (sic).

O presidente não se incomoda com o empurra-empurra, os apertos e os abraços, guiando a multidão numa cauda verde-amarela de inquietos movimentos, que somente se interrompem quando o líder detém os passos para defecar, sobre os microfones e gravadores da imprensa, as mesmas malcheirosas evacuações. Até que, num desses contatos diretos com eleitores de Minas Gerais, uma repórter de uma rádio local atravessa o gravador por entre a barreira de pessoas e pergunta ao presidente o que ele teria a dizer para os brasileiros que não apoiam seu governo, que se recusam a ingerir três porções diárias de fezes. O presidente dá um sorriso debochado e se prepare para expelir um rolo robusto sobre o rosto da repórter, quando abre a boca e sai a sua voz.

O presidente se espanta em ouvir a si próprio, depois de anos. Todos congelam, e um silêncio expansivo vai ganhando forma na multidão à medida que cada pessoa transmite para a mais próxima que o presidente voltou a falar. Há uma perplexidade coletiva, um abalo mental, em seguida a ponta de uma rachadura. Com os dedos melados e os lábios sujos, as pessoas começam a se autoquestionar sobre a ingestão de fezes, construir uma reação de nojo. O presidente observa a mudança das expressões a sua volta. Processa novamente a pergunta, pensa no que falar, pensa na mais absurda e abjeta declaração para expelir um bem roliço e fedorento bolo fecal, mas se distrai, não consegue, e, atormentado, sem encontrar saída senão a mediocridade da própria voz, insinua uma resposta, quando, do nada, surge alguém e lhe acerta uma facada na barriga.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.

 

 

Categorias
130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Luan Bonini

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Entre escorpiões pt. I

 

– E ae, nene.

– Olha, achou alguma coisa?

– Nada. E você?

– Porra nenhuma. Mas foda-se. Que se foda essa merda.

– Tem café?

– Tem sim, vou fazer. E a pequena cozinha se encheu com o cheiro de café.

Depois de uma semana eu estava sentado de novo naquela cozinha. Um ovo, três kilos de arroz e quatro batatas. Tudo encaixado estrategicamente em dois potes. Microondas. Talheres dentro de um

copo. A prateleira encardida suportava tudo aquilo com elegância. Os produtos de limpeza ficavam embaixo, questão de facilidade. “Melhor que nada”, pensei. Até o fim do mês era aquilo. Acendi o último cigarro e espantei a fome com ele. Hora de dormir que amanhã é outro dia.

Dois dias depois arrumei um trampo no porto de Peruíbe. Meus dedos ficavam fodidos, carne viva. Conheci ela na praia, caiçara e escorpiana. Nicole. Morena, queimada de sol e lábios grossos. Pouco

conhecia das coisas da cidade grande. Vendedores ambulantes que disputavam calçadas, mendigos e putas, buzinas e carros. Pouco sabia. Alugamos dois cômodos. Tudo deu certo por dois meses, é o tempo médio para até paranoias individuais aparecerem. Depois tudo vem à tona.

Três meses depois já estávamos um querendo matar o outro.

– Ae, bola um beck?

– Podepa, bolo sim.

Fumei e fui pra casa. Sabia que Nicole estaria em lá e aquilo me desanimava. Sofria por antecedência. As mesmas merdas de sempre. Dinheiro, pai morto e mãe desempregada, quem foi no programa de quem, artistas, yoga e medicamentos contra o peso. Eu aguentava tudo aquilo.

Relacionamentos são assim. O problema era quando estávamos juntos e usando drogas. E começou a ficar constante. As mudanças de humor, agressivas por parte de ambos, nos desgastavam. Dia a dia. Bebida e cocaína, eu preferia a bebida e ela o pó. Nos dávamos bem enquanto tinha sobrando. Depois vinha a merda. Certo dia dei uma rasteira num maninho só porque olhou a bunda dela. E o trampo

continuava. Peixes, camarões, merdas marinhas. Certo dia eu e Nicole tivemos a pior briga. Saiu por uns quatro dias, voltou, como se nada tivesse acontecido. O cheiro de sexo e cerveja ainda impregnava seu corpo. No dia seguinte que voltou quis arrumar outra briga. Algo se quebrou em mim e foda-se. Taquei suas merdas no chão e mandei se foder. Ela gritava e eu também, ela me machucava enquanto tentava se machucar. A merda tava completa. E eu tava no meio. Os dias seguintes foram de silêncio profundo entre os dois. Estávamos imersos nas nossas merdas internas. Depois ela sumiu. E o trampo continuou. Preguiça. Sabia que meus dias naquele trampo estavam contados. Não suportava o cheiro de peixe impregnado nas mãos, roupas e cabelos. O odor piorava conforme o dia passava. Os dedos encaroçados, fruto das cabeças de camarões descascadas. Cabeças e mais cabeças. Bolhas e cortes. Sabia que a merda do camarão fica na cabeça? Arranca-se a cabeça pra tirar a merda. Literalmente o filho da puta tem merda na mente. Barata do mar. Aquela merda preta percorre quase metade do corpo dele. Pelo menos todo dia tinha peixe na mesa. Arrastei por mais três meses o serviço. Peguei o dinheiro, um bucado de peixe e fui pra São Paulo. Trampar de flanelinha não dava tanto, mas os dedos pararam de encaroçar. Pelo menos minhas mãos melhoraram.

Três semanas depois cansei das ruas. Queria um gabinete, algo com ar condicionado. Começo de ano era sempre uma merda, o calor fodia tudo. Ainda possuía dez reais e um maço de eigth. O mundo era

indiferente aos meus problemas e eu sabia disso. Fumei um cigarro e fui entregar currículos. Não deu certo, pelo menos não hoje. Mas amanhã é outro dia. Fechei os olhos e dormi. Bem suave.

No dia seguinte fui no ônibus conversando com um parceiro, trombei por coincidência, tinha acabado de sair da cadeia. Conheci ele em Peruíbe e agora lá estava ele. Vendendo uns halls em São Paulo. Ideia vai, ideia vem, me aparece com uma foto no celular e pergunta:

– Ta vendo essa foto?

– Que foto?

– Essa porra, olha aqui.

– To vendo. E aí?

– Comassim?

– Que que você acha, porra.

– Eu sei lá, acho nada. Que tem?

– A mina tirou essa foto antes de se matar.

– Mas que merda! Porque você tem essas merdas? Assiste essas merdas. Coisa de doente!

– Doente nada, vi hoje numa matéria. Passou de tarde, Datena. Doidera. Procê vê como a vida é um bagulho frágil, né?

– Pode pa, é sim. Falando nisso, se viu o Luis?

– Vishe. Você é o primeiro dos moleques que eu trombo.

– Pode pa, que fita.

Descemos no mesmo ponto. Quando começou a contar sobre a cadeia, logo em seguida, escuto um barulho alto. Ecoado. Me viro e um policial dá um tapão na minha mochila que cai. Agacho pra pegar e levo uma bicuda na bunda. Caio de cara no chão. Merda! Ele começa a esparramar os pertences com o coturno enquanto faz comentários sobre meus pertences. O fardado não se deu ao trabalho de encostar nas minhas coisas com as mãos. Passava o coturno em tudo. “Que merda é essa? Pobre sabe ler agora?”, pega o livro e lê o nome do autor meio sem jeito “FEREZ?!”. “Que porra é essa?”, grita olhando ao redor. Eu sem saber o que dizer fico quieto. Ele me levanta pela blusa e pergunta de novo “Que porra é FEREZ?”. ”É F-E-R-R-E-Z, senhor”. “R de rato”. “É um escritor do capão”.

“E agora favelado sabe escrever? que porra, hein. É o que me faltava”.

Meu parsa não teve a mesma sorte. Não teve o mesmo diálogo. Foi levado não sei pra onde. Tem passagem? Tem? Então vem cá. Nunca mais o vi.

Loucura. Depois daquilo resolvi recuperar o tempo perdido. Comecei trabalhar e estudar. Os currículos finalmente deram certo. 8 horas num arquivo empoeirado e 05 horas numa cadeira de madeira. Depois de um tempo torna-se automático. Ônibus, chefe, carteira rabuda, chefe gritando, almoço, futebol do fds, chefe, ônibus, professor e salas lotadas. De repente acordei dentro do ônibus. Demorei um pouco até conseguir perder a sonolência. De repente pego uma conversa do meu lado.

– “Oi. Você é do noturno né? Faz qual aula no primeiro horário?” um bombado, do tipo de academia, pergunta pra uma morena de vestido preto e pernas grossas.

– “Ah, LP V. Mas…”

– “Aaaaaah, não, é que eu faço uma depois da sua”. O cara responde na sequência.

– “Mas o que você quer saber porra?”. A mina reage. O cara enfia o rabo entre as pernas e sai vazado. Eu dou uma risada. Ela me olha com um olhar ainda cauteloso e diz “Homem tem que ser assim senão monta”. Bem, se ela diz. E comecei a observar outras pessoas conversando. Animadas, afinal, sexta. O professor declama “fim de aula, bom final de semana a todos!”. Finalmente! Ônibus, caminhada, ônibus, caminhada e porta, xave, cheiro de mofo. Boa sexta.

Na mesma época conheci Karen. Morena de início, possui um belo nariz e pernas grossas. A cintura fina dava o toque. Me esperava em casa com uma garrafa de vinho. Aliás, suco de uva com álcool. Conversas sobre o cotidiano, comer, banho e dormir. Sexo deixávamos pro dia seguinte, antes do serviço. De repente, tá tudo no automático. A gente se torna refém da comodidade. Insensível a toda merda. Explodimos nosso cérebros com comida radioativa e propagandas medíocres, um atrás do outro. E plá! Uma arma contrabandeada por um policial gordo acaba na nossa mão. E estouramos nossos miolos. Pá! O dia a dia nos mata. Rapidin. Consome. Quando me dei conta estava na frente de casa novamente. Chave na mão, porta abrindo.

Normalmente encostava de sábado na Santa pra fumar um baseado. E de vez em quando encostava o Felipe. Playboy, branco e faixa preta em jiu jitsu. De cada dez palavras, nove sobre si. Músculos, academia e bandido bom é bandido morto. Um trago no baseado… cof! cof! Tem que matar todos esses filhos da puta. Cof! Gastei mil reais em esteróides. Tudo pelo corpo né?! Ah, eu não aguento. Foda-se, vou embora. Levanto e saio andando. Ninguém entendeu nada e no dia seguinte o neguinho perguntou “Caralho, luã! Que porra foi aquela ontem? Cê saiu do nada.” “Ah, sabe como é. Às vezes nóis passa mal… mas ae vamos fumar um?” “Vamos ae”.

Sentei com o neguinho, nome Guilherme, mas conhecido como neguinho, e acendi o baseado. Já tava bolado. Na sequência dois moleques encostaram no outro lado da praça pra fumar também. Entre um trago e outro escutei entre eles algo sobre as garotas da escola. Cê viu a Bruna? Eu vi, mó gostosa. Essas coisas. De repente um tapão! Plá! Me viro e vejo os dois moleques levando um enquadro monstruoso. Os policiais apareceram do nada. Nessa meu parsa já se ligou, pegamos o beck e vazamos na miúda. Melhor não arrastar. Fui pra casa e queimei lá mesmo.

Domingo e tudo de novo. Segunda, terça, quarta. Quinta-feira e uma japonesa, meio metro e cabelos negros, entra na sala. Começa a falar. E falar. A boca abre, fecha e mesmo assim mantém um sorriso

eterno. Dos assuntos mais alegres, como happyhour, até a crise política atual e morte de Marielle, todos os assuntos eram acompanhados daquele medonho sorriso. Talvez nunca tenha passado necessidade na vida. Um pai professor sócio em multinacional e mãe professora universitária, estabilidade financeira,

professor de dança, escola particular, férias na Europa, boas amizades e ruas arborizadas. Tudo encaminhou aquela descendente asiática pra felicidade. Tanta felicidade que nem a morte ou miséria

abalavam. Nenhum parente viciado em crack ou vizinha suicida. Talvez por isso sorria tanto.

Parei de olhar pra ela, desisti de ouvi-la e comecei a rabiscar num pedaço de papel. Eu? Tinha tudo pra dar errado. E dei. Mas às vezes coisas boas aconteciam. E o segredo é se agarrar nelas. Quando tudo

aquilo acabou fui pegar o ônibus. Acendi o cigarro e percebi. O mundo continuava lá. E amanhã era sexta. Happyhour e os mesmos bêbados de sempre. Beber com o pessoal do trampo é uma merda. Dificilmente dá certo. Os papos viram grandes debates. Ruins são os críticos, pior ainda, críticos escritores. E com essa pérola Oswald inicia aquela merda. Dizia no último domingo ter comido quase um porco inteiro, joelho, toucinho, com arroz e couve. Oswald devorou o toucinho do coitado em poucos minutos. Luisa era vegetariana e começou a discursar sobre amor aos animais e como humanos são horríveis. Antropofagia? Só dos índios. Eu limitava a acenar com a cabeça meio sem entender. Não tinha pique pra’quele falatório. Só queria ir pra casa e dormir.

Dois meses depois perdi o emprego. Justificaram com “falta de interesse” e “corpo mole”. Além de trabalhar era preciso fingir que amava trabalhar. Sem seguro desemprego fui me virando. E sabia me virar. Comprava sucos de 2 litros e fazia 4, 5. Ligava às vezes a tv e porra, que merda fazem com nosso índios? Dizimam a maioria, fodem um monte de tradição antiga, e depois ainda reclamam quando os cabeças vermelhas querem uma terra. Terra Indígena por direito. E dai que índio tem celular?! Todo mundo tem e índio também é gente, também faz parte de todo mundo. Também quer terra. Enquanto a antropofagia indígena e oswaldiana tem objetivo de assimilar qualidades, o canibalismo do dia a dia faz o mais forte comer o mais fraco. Pura devoração. Empilhados em fábricas. Pausados em gabinetes. Continuamos marchando rumo à luz. A luz. Colocamos nossas bolas no cu e saímos todas as manhãs como se usássemos fardas. Aceitamos. Sim, senhor! E voltamos pra casa. Filhos ingratos e esposas tão perdidas quantos nós. Um tiozinho do aluguel, chefe zangado. Taí o sonho brasileiro, americano, venezuelano. Taí. Olhei pro teto e decidi ir pra rua. A chuva tinha acabado e a goteira ainda continuava. Não encontraria o cara do aluguel tão cedo. Só aparecia em dia de pagamento. E tava longe.

 

Luan Bonini Bonilha de Oliveira nasceu em São Paulo, Brasil, no dia 01 de novembro de 1994. Filho de mãe solteira, durante a infância passou por muitos bairros e cidades paulistas, como São Matheus, Jd. Jaqueline, Campo Limpo, Peruíbe. Instalado no Butantã, mais tarde vai morar em Taboão da Serra, Região Metropolitana de São Paulo. Começou a escrever por volta dos 18 anos, influenciado por Ferrez, Hemingway e Celine. Em 2014, ingressou no curso de Letras na Universidade de São Paulo e atualmente tenta viver da escrita.

 

Categorias
128ª Leva - 06/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Gustavo da Rosa Rodrigues

 

Foto: Adelmo Santos

 

Deus ao mar o perigo e o abismo

 

Ele vai explodir o avião. Eu sabia. Desde o começo, sempre soube que o meu destino era morrer agarrado a uma mesinha de polietileno com fogo cegando os olhos míopes enquanto crianças afogadas passam do meu lado, boiando, de coletinhos laranjas, indo pra uma colônia de férias no céu. Se o avião cair na água, já era. Na terra, talvez o piloto tenha uma chance de fazer um pouso forçado, ou então cair em cima de umas árvores e aí dá pra tentar achar uma das oito saídas de emergência, que não serviriam de nada porque o avião já estaria todo arrebentado, e teríamos que engatinhar até a abertura mais próxima passando por cima, isso é certo, de pedaços de pessoas pelos cantos como se fosse uma piscina de bolinha versão hardcore; o negócio é ficar no fundo, sempre no fundo, porque é a parte que bate por último, e tem uma estatística que diz que 90% dos sobreviventes de avião sentaram nas últimas fileiras. Mas, nesse caso, acho que não tem saída. Ele pode levantar durante a noite, ir lá no cockpit e anunciar o sequestro, afunde esse avião no mar, ou, quando estivermos nos aproximando da costa da África vá direto para as Pirâmides do Egito, melhor acabar com aquilo, que se fodam os faraós e a especulação turística, ou, dê meia volta e arrebente o Christ the Redeemer — mas por que alguém iria sequestrar um avião no Brasil? Pra bater aonde? Vai ver o Brasil agora é um novo alvo do Estado Islâmico, ou Al-Qaeda, e eles estariam mandando uma mensagem afirmativa reconhecendo que os países economicamente emergentes mas nem tanto também entram na conta? 12 horas de voo, 7 horas só em cima do Atlântico, sem mapa de voo. A companhia é tão chinela que não tem nem o mapa do voo pra pessoa saber onde vai morrer.

Ele se vira de um lado pro outro no assento desde que sentou e fica praguejando alguma coisa em árabe, ou é francês? não dá pra saber, fala sussurrando, pra dentro, como se rezasse. Quando chegou na minha fileira e apontou pro assento da janela efusivamente dizendo hã, o cabelo comprido e a cara imberbe, perguntei em português aqui e ele não respondeu, só apontou, mas quando se sentou disse obrigado, achei que fosse brasileiro. Tinha que chover, sempre decolo com chuva durante a noite; pela janela oval só as luzinhas vermelhas e verdes em rotação universal, 24 de dezembro, deve ser isso, e os risquinhos da água na janelinha fake de plástico ou acrílico anunciando a ressurreição, tears of joy; agora ele pegou a revistinha da companhia, o cara parece que é de boa, tô até viajando, lê revistas de turismo e tal; folheia o negócio recheado de imagens profanas por dois segundos e, num som abafado, socando a revista atrás do assento da frente, sussurra pra dentro de novo, árabe ou francês, vai saber, e se inclina na janela pra tentar ver alguma coisa; certo que ele pode ter colocado a bomba na mala e tá com um detonador na calça, escondido; lá fora, as luzinhas fuzilantes das asas, revestidas de polietileno, que não servem pra nada, e os funcionários caneta marca texto tocando a vida das pessoas pra dentro; ele deve tá tentando conferir se a mochila com os explosivos já entrou, calça jeans rasgada no joelho; telinha do entretenimento, ele liga e seleciona filmes, dá pra ouvir o ronco da gasolina fluindo, e se eles se enganam e colocam menos do que precisa, ou se tem um vazamento tipo a Apollo 13 e estamos no meio do oceano sem o Gary Sinise pra nos salvar, aí já era, a única coisa boa é que o avião não explode, a não ser que o cara queime tudo, claro, e quando vê eles conseguem pousar e passar as instruções de segurança corretamente pra galera sair show, infle o colete só fora da aeronave, não corre, senhor, mantenha-se calmo, porque todo mundo tem que sair em fila, se bem que não vai dar pra saber, e no impacto, metade já morreu; o negócio é touch-screen, ele rola rola a lista de filmes oferecidos durante o périplo de 12 horas dentro de uma lata de sardinha que voa e ninguém sabe como; dá duas batidinhas na tela, o filme não entra, paraísos perdidos, talvez ele nem seja um terrorista, só tá meio puto porque tem que viajar às pressas e queria continuar no Rio, entendível, ou alguém ligou dizendo que a mãe dele morreu e agora precisa voltar pra pagar pelo caixão e tudo mais; não entra, ele dá um tapa bem dado na tela esbravejando alguma coisa em árabe, é árabe, não francês, e solta uma bufada; que merda, o cara tá ficando puto e ainda nem decolamos, vai estourar essa porra aqui mesmo no chão; tenta desligar o negócio, mas a bosta nem desligar desliga, travou; ele inclina o banco pra trás e outra bufada, murmura de cabeça baixa e olhos na cintura, analisando a estratégia de ação e pedindo a última bença pra se vingar da companhia que não consegue nem oferecer as mínimas distrações antes do encontro final com o profeta; ele sabe, ele sabe de tudo. Luzinhas, as luzes das asas, me deram perto das asas de novo, se cair, já era; a chefe de cabine anuncia que as portas foram fechadas, embark completed, ligo a minha telinha, english, deutsch, français, italiano, desenhinhos, português, filmes, música, televisão, joguinhos — sem árabe sem mapa de voo; uma das aeromoças me entrega um saquinho plástico, dois, entrego um pro cara e ele faz um sinal assertivo com a cabeça, não deve ser terrorista, é gentil; pega o saquinho e nem olha, atira no chão e dá uma risada, uma cobertinha de poliéster dourada e um travesseirinho de bebê, tá de manga curta, sabe que não vai precisar de coberta nenhuma, não sente frio porque vai explodir tudo e o avião vai virar um fogo de artifício gigante celebrando nossa libertação eterna e a cessão de todos nossos pecados ocidentais; ele tira a bunda do assento e bota a mão no bolso com dificuldade fazendo questão de não encostar em mim, latino, e tira um pacotinho de chiclete, o Trident que parece uma mini carteira de cigarro, certo que o detonador tá escondido na caixinha, é agora; ele coloca o chiclete na boca sem tirar o papelzinho e vira de lado, juntando as mãos, com frio. O avião começa a andar, o comandante, preciso avisar o pessoal, anuncia naquela voz robótica cabin crew prepare for the take off please, só a companhia das luzinhas vermelhas, não tem mais volta, talvez se eu der um grito e pedir pra descer, que tô passando mal, ou que deixei o fogão ligado, ou que minha mãe tá morrendo ligaram do hospital, mas não; o cara tá puto, uma das mãos pressiona o rosto colado na janela, os olhos bem abertos, vendo o quê, as luzinhas vermelhas e o breu; vai ver na real ele só tem medo de voar mesmo, é isso, sou um merda, coitado do cara, tá inquieto porque viu que não tem mapa de voo nem uma mísera indicação de altitude ou tempo até o destino e tá apavorado; as luzinhas vermelhas se apagariam no primeiro impacto, nunca ninguém nos acharia, o foda é só o mar, depois que passar o mar tá tranquilo; ele se revira no assento, quem sabe o negócio é imitar o cara, colocar as mãos no rosto e fingir uma reza sussurrada pra ele ter compaixão de mim e não explodir nada, vai pensar que merda o cara do meu lado tá fodido que nem eu, não vou explodir nada, deixa quieto, desculpa meu Deus, esse cara não merece. Decolou, não tem mais volta mesmo, só daqui 12 horas, ou até a explosão; ele olha pra fora, as luzes das favelas da cidade do Rio de Janeiro mais próximas do céu, deve ter deixado um amor aqui, um grande amor no Rio.

Duas horas de voo, nada de explosão. O cara já ligou e desligou a tv umas quinze vezes, não para de se virar e volta e meia ainda resmunga, olhando sempre pra cintura, pro cinto de explosivos. Cinco minutos depois da decolagem e o cara já tinha tirado o cinto de segurança, com o aviso luminoso ainda aceso; já dá pra sentir um cheirinho de comida, o avião balança, pauso o filme, Trapped, o sinal do cinto acende; e se eu puxasse conversa, e aí meu da onde tu é, gostou do Brasil? sim, lindas, é, pessoal muito amável, e tu tá fazendo o quê? ah negócios, sim, eu tô indo visitar minha namorada, é, sim, morei na Europa um tempo, agora tô indo pra passar o inverno, sim, que merda, aqui tá muito bom né, é, não conheço o Rio muito bem, mas é lindo sim. A aeromoça se aproxima com o carrinho, sr. would you like something to drink? o cara nem baixou a mesinha de polietileno boia-salva-vidas que o pessoal avisou antes, o colete tá embaixo do assento, e as máscaras vão cair automaticamente, ninguém em pânico, de boa, se mantiver a racionalidade, 75% sai vivo daqui e vai escrever um livro de autoajuda; ele diz chicken water, comedor de bicho morto, and a coke. Olho pra minha mesinha esperança, uma bandejinha de papel alumínio com massa, um potinho de plástico com duas rodelas de tomate e uma folha de alface entocado do lado, um bolinho de chocolate, um pãozinho redondo, um potinho de geleia de goiaba, dois pacotinhos de polenguinho e talheres de plástico enrolados numa embalagem de plástico e um guardanapo de papel enrolado em outra embalagem de plástico. Tomo meu suco no guti guti, quente, mas tá valendo; ele pediu coca, olha praquela lata como quem olha pra uma perna irremediavelmente gangrenada, ou uma carta de amor de despedida, e balança a cabeça; acabou se ocidentalizando nesse tempo no Brasil, sabe que uma coquinha é contra os ensinamentos e doutrinas, mas força e a tampinha do alumínio se rende, o som da explosão do gás finalmente liberto depois de dias, meses, expandindo felicidade; em dúvida, olha pra janela, breu, gotas no acrílico, toma direito da lata e solta um arroto seguido de um grande puxada de ar, tava com sede, sabe que é a última coca da vida antes de explodir o avião, a culpa tá batendo forte, não poderia ter feito isso tão perto do céu; talvez o cara gosta mesmo de coca, que merda, e os dois quilos de açúcar vão fluir a serotonina providencial pra que ele decida não sequestrar nada; deixou metade do frango e nem encostou na água, dá mais uma golada; o cara tá de boa, deve ter problemas com colesterol alto, mas é magrelo; coloco o fone de ouvido de novo e dou play no filme com o dedo sujo de polenguinho. Desligaram as luzes pro pessoal não saber que vai morrer, não vou dormir enquanto ele não dormir; qualquer coisa ele vai ter que passar por mim se quiser ir no banheiro pra estourar a bomba, ou invadir a cabine, se ele levantar agarro as pernas e grito por ajuda; a luzinha da asa, incessante, falha a qualquer minuto, pegar um livro e ler, não dá, não vou ligar a luz aqui na cara do cara pra ele ficar mais puto e explodir tudo de uma vez sem compaixão, não, coloco o fone, pela hora, em cima do Atlântico, o avião vai até o nordeste por terra por uma razão, todo mundo sabe, a lua, do mesmo tamanho, nada de especial; finalmente o filhadaputa pegou a cobertinha, ainda bem, a última cochiladinha antes do sono eterno. No filme o cara sai atrasado de manhã pra trabalhar e quando tá descendo as escadas lembra que esqueceu o celular; volta correndo pra buscar o negócio no quarto só que nesse meio tempo a porta de metal bate com a chave do lado de fora e não abre por dentro de jeito maneira; o cara tá trancado num apartamento sem comida sem água sem bateria no celular, ninguém ouve, e pra piorar é um prédio abandonado, ninguém mora ali, o pico não tem nem energia elétrica direito, tudo gateado; ele gasta todas as energias gritando e tentando quebrar a porta, mas não rola; aí ele tem a brilhante ideia de rasgar o sofá e as roupas de cama e pendurar nas grades da sacada a palavra H-E-L-P e atear fogo, só que o negócio meio que foge do controle e o fogo se espalha pra dentro da casa e o cara quase morre asfixiado. O fera acordou, tudo escuro; alguém bate no meu ombro no caminho do banheiro, um cara gordão só de meia, bigode, camisa de flanela; o nutrido apoia as mãos no bagageiro perto do banheiro e sufoca a menina que tá na poltrona da frente; ele acordou mais puto que antes, se inclina pra frente, o cabelo comprido e fino encosta de leve na tela e ele volta a olhar pra cintura, agora com as mãos entrelaçadas; tá aí, chegou o gran momento, o gordão é comparsa dele, sim, levantou e fingiu que ia banheiro pra dar o sinal, uma encoxada abdominal na cara da moça; agora ele vai fazer a última reza e pedir perdão pela coca-cola antes de apertar o detonador Trident; o foda é que se ele levantar, não posso simplesmente dizer ô malandro onde tu vai, o cara vai achar que sou maluco, ou, pior, vai ficar ainda mais putaço que vai querer me explodir primeiro; aviso luminoso, please remain seated with you seat belts fasten, we are going through an area of turbulence, eh, pelo menos agora ele não vai poder levantar, turbulência; eu sempre soube que ia morrer num avião, sempre, janelinha quatro camadas de plástico não segura porra nenhuma, uma criança começa a chorar algumas fileiras na frente, pessoal tá acordando, do outro lado tem duas mulheres apagadas desde que a gente saiu do Brasil, certo que elas tomaram lítio ou dramin, água escorre pela janelinha, o cara ainda tá abaixado, rezando, a asa do meu lado parece uma trampolim com sete crianças em cima sem coragem de saltar, chocalhada, tão baixando de altitude, tá caindo essa merda; olho debaixo da poltrona, pressão nos ouvidos, não tem colete nenhum, lembre-se de inflar o colete apenas quando estiver já fora da aeronave, nunca dentro, ok, discernimento nas horas extremas é o que nos trouxe até aqui, Santos Dummont apertando a mão do alfaiate voador e dizendo vai malandro, que merda, por que eles dizem coisas do tipo em caso de um improvável pouso na água, que pouso, velho, não tem pouso, nem muito menos improvável, é provável, sempre foi provável, o avião tá baixando, fugir da turbulência, quebra-molas, os morros do ar, 200 quilômetros de ar, as luzinhas vermelhas, lindas, morrer no Natal no meio do Romanche Trench, um everest de profundidade com uma temperatura de 1 grau celsius e, com sorte, enroscar num cabo de internet submarino e acabar com a internet do mundo; sempre soube, amanhã vai ser notícia e todo mundo vai pensar, ufa, caiu um agora, então demora mais uns três meses pra cair outro, e meu corpo trucidado sendo levado para as profundezas oceânicas até que algum peixe mais faminto resolva se alimentar das minhas orelhas e se lambuzar com o sangue ainda quente de um dos braços de uma mulher, finalizando, de sobremesa, com pedaços do vestido de uma outra, florzinhas roxas e amarelas; mesinha do desespero tremendo, zumbido, o cara ainda tá abaixado, pode tá morto já e ter programado o dispositivo, ou a reza tá demorada mesmo, depois de tudo, se ele não explodir, mais chance de sair de vivo, please remain seated, tá baixando, vai cair certo, na próxima vou tomar dramin, sempre digo isso, mas é igual um amigo me disse uma vez, mesmo que tu teja lá no quinquagésimo sono, se o avião tiver caindo sempre vai ter alguém pra te acordar e dizer que o avião tá caindo, o cara levantou a cabeça, é agora, o pessoal do serviço de bordo sentou e tá colocando o cinto, nenezinho em prantos, please remain seated we are going through an… tá perdendo altitude, GPWS, seguro no encosto da poltrona, rígido, aperto os olhos, vai cair, sempre soube; tudo escuro, me inclino pra trás e sinto uma mão suada na minha; abro os olhos no susto, ele aproxima os lábios do meu ouvido e, segurando meus dedos com força, sussura numa voz adocicada — amigo, no tenemos apuro.

Gustavo da Rosa Rodrigues tem 26 anos e mora em Porto Alegre-RS. É escritor, poeta, tradutor e estuda Letras (Tradução) na UFRGS.

 

Categorias
128ª Leva - 06/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Ramayana Vargens

 

Foto: Adelmo Santos

 

HORA LIVRE

 

A velha mais velha do asilo. Mesmo banco de todas as tardes. Fundo sombrio da varanda, últimas luzes cinzentas do crepúsculo. Fala pouco, quase nada. Quando se dirigem a ela, responde cumprimentos, agradece gentilezas e diz amém (se for necessário). Falar cansa. Resta ficar pensando, o tempo todo.

Puro engano, a ideia de que o tempo é livre e democrático. Parece que todos têm direito ao mesmo tempo, que cada um usa como quiser. Não é bem assim. É muito além das medidas conhecidas. Tempo não é coisa única que se divide, igualmente, entre as pessoas. O tempo corre em velocidade íntima e penetra nos espaços vazios de cada vida. Minutos, segundos, horas ou anos podem ter durações diferentes para cada indivíduo – e demorar o tanto que a subjetividade exige no momento.

Três anos no asilo. Professora aposentada. Viúva de oficial do exército – metódico e previsível. Vida programada. Casamento de 52 anos. Relação amiga, respeitosa e equilibrada com o militar da artilharia. Muito tempo. Não teve filhos. Nenhuma grande paixão. Prazeres mínimos – nunca teve oportunidade para transgredir. Não havia grandes traumas ou tragédias para lamentar, mas também nada espetacular guardado na memória. Vida neutra, regular, correta, bem traçada (como os cálculos de balística do coronel).  Vida repetitiva (como a cadência do batalhão no desfile da independência, que o marido comandava com tanto orgulho).  Estudo e trabalho: únicas razões que preencheram a vida da mulher. Poucas emoções fortes para recordar.  As melhores lembranças vinham das aulas de física, trabalho de décadas, no colégio e na faculdade. Considerava um privilégio a missão de ensinar o funcionamento do mundo.

O tempo mora na alma. O tempo moral, temporal, é tempestade, besta, vendaval. O tempo não é infalível. Errado pensar que o tempo é exato e não falha. Falha e falta, porque nasce e morre dentro da gente. Enquanto escorre, tem o tamanho que quiser. É música silenciosa que embala o curso do universo. Compasso e ritmo definem sua existência. O tempo é invenção desvairada de cada pessoa, na dança consigo mesma. Não é coisa geral. Tempo universal (organizado em fatias) é como cena parada de um filme – cinema que vira fotografia.

Poucos parentes, a maioria já morreu. Sobrinhos e fiéis agregados apareciam vez ou outra – no aniversário, páscoa, véspera de natal e coisas assim. Sempre apressados, constrangidos, tentando demonstrar que tinham algo mais importante para fazer.  A única visita que lhe fazia bem era Ester, ex-aluna que reencontrara, por acaso, no asilo. Duas vezes por mês, Ester passava lá para ver o avô e dedicava um bom tempo para conversar com a antiga professora. Ester – a única que não inventava motivos para dizer que estava na hora de ir embora.  Só saía quando a velha dizia que precisava descansar.

Há séculos, o terrível vício das horas aflige a humanidade. Desde que foi criada a civilização do relógio (para facilitar a divisão social dos talentos e reprimir excessos de velocidade de imaginação), a desconstrução do tempo é considerada insulto científico ou distúrbio pessoal. Difícil fazer entender aos viciados em calendários e agendas que é impossível regular os momentos e a cadência da vida. Tão esdrúxulo como tentar disciplinar o vento. Ou pensar a sucessão das eras como uma sequência contínua em direção a um futuro fixo (como se só existisse o presente, cuja função seria apagar o passado).

Lembrou orgulhosa dos exemplos poéticos que construía para explicar fenômenos misteriosos com as forças da natureza.

A velha professora detestava os livros que ganhava.  Histórias tolas, manuais de autoajuda, meditação, pensamento positivo ou mensagens religiosas de preparação para a morte. Preferia ficção científica, aventuras que desafiavam a inteligência e propunham novos pensamentos. Gostava mais dos clássicos. A imaginação dos autores da atualidade ficava cada vez mais tecnológica do que científica. O desastre estava aí: pouca ciência para muita tecnologia. Ultimamente, mantinha no colo o pequeno volume que Ester trouxe de presente. Os Crononautas (tradução horrível), que narra viagens no tempo de um grupo de cientistas, que descobre equações mentais que permitem deslocamentos no espaço com a força do pensamento.

Não se deve acreditar que o tempo só caminha para frente. Nada mais falso. O tempo é etéreo e volátil. Pode andar para frente, para trás, para cima, para baixo e para qualquer lado. O tempo é invisível. Lugar móvel, abstrato, onde fica guardado tudo que existe, existiu ou existirá.  Voa, na velocidade total de todas as galáxias, sendo capaz de atingir qualquer distância cabível no universo. Às vezes, fica entupido num canto sem saída. Como dentro da garganta daquele velho com cara de monstro.

O avô de Ester não gostava da velha.  A neta parecia mais interessada na professora maluca do que nos problemas de saúde que ele relatava com profundo sentimento de carência e abandono. Maldizia a tarde que Ester reconheceu a professora, solitária, no canto da varanda. Foi ele que começou a espalhar que a velha era um perigo.

– Minha neta contou que ela é um gênio. Sabe tudo sobre energia nuclear. Foi até convidada para trabalhar na Nasa, mas o marido não concordou. Cuidado com ela! É meio desequilibrada. Tenho certeza que está aprontando alguma coisa. Olha a cara dela: parece que vive com raiva da humanidade.  Gente assim é capaz de tudo. Já imaginou se ela resolve fabricar uma bomba? Provocar uma explosão, causar um curto, um incêndio…

O mundo perde vida com a ideologia do tempo aprisionado. Inteligências criativas são bloqueadas e se atrofiam. Tempo expresso em números; tempo vigiado em tabelas e prazos; tempo apertado em competições de sobrevivência. Na vida corrida, condicionada a datas e compromissos marcados, sentimentos fraternos e respeito solidário são rebarbas de excessos. Tempo engarrafado, paralisante, epidemia de angústia, destruição da harmonia natural e ilusão de um futuro salvador. Droga pesada.

Tempo é liberdade! Abaixo opressores e compressores do tempo! Tempo livre. Solto e vago!  O tempo é leito de luz e usina de memória – confinado, compromete competências do espírito e altera a hierarquia dos desejos. Cada espécie é especialista em saber viver – entender o tempo que tem. Vida e morte, no mesmo trampolim. O mesmo ponto pode ser princípio ou fim. Depende da convenção. O amarelo é a menor distância entre o verde e o azul. Quantos tons existem entre os dois? Cor é luz diluída no calor do tempo.  Enquanto existir fusos horários, cronômetros e formas de medir o tempo, as pessoas não serão livres para perceber as verdadeiras variações das cores e as pulsações mutantes das estrelas. O tempo limitado no ciclo das horas aprisiona a humanidade na periferia da terra. Por isso, ficamos isolados de outras civilizações extraterrestres. É preciso libertar o tempo.

O velho implicante foi quem ficou mais alegre, quando o diretor do asilo avisou que a professora não podia mais ficar interna na casa.  Cleptomania. Encontraram diversos relógios, desaparecidos dentro do asilo, escondidos no quarto da velha. Só não entenderam por que tinham sido destruídos com tanta violência.

 

Ramayana Vargens é escritor, jornalista, professor de literatura, diretor teatral e membro da Academia de Letras de Ilhéus.