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127ª Leva - 05/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 Silvana Guimarães

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Carteira de Identidade Nº 803.412

 

Alguém está cantando perto daqui. Um cachorro late. O carro freia com estardalhaço e deixa um silêncio sem eco, depois. Um galo cocorica, em despropósito. Uma criança chora, um homem tosse. Eu começo um trabalho de parto ao reverso: vou dar à escuridão um poeta. A escuridão completa, definitiva, única espécie de eternidade em que ele acredita. Nenhum anjo torto por perto. Apenas eu, a outra. E essa coleção de ruídos.

Minha mão direita segura a sua mão esquerda (tão vazia tão fria).

Lio…

Sim.

Ele não diz nada. Apenas me olha e tão brevemente seu olhar confirma: cheguei a tempo: era só eu quem faltava para a sua partida. Entrega-me, então, seu último fôlego.

 

Meu nome de batismo e registro é Lygia Fernandes, mas durante 36 anos, sempre às tardes, sempre no meu apartamento, fui a sua Lio. E nos amamos, dançamos, rimos juntos como todos os animais que se amam com fervor. Anos à sua sombra: eu nasci para ser a sua sombra. Agora mesmo, que eu o tenho morto em minhas mãos, estou à sombra de sua morte e nela permanecerei, como se morta também estivesse.

Os obituários estão prontos, amanhã vão noticiar. Em vão, jornalistas do mundo todo virão me buscar para a triste inquisição. Eu negarei tudo, nada direi a mais. Não contarei que o bardo roncava e não tinha chulé. Nem as palavras obscenas de sua preferência, recitadas ao meu ouvido, quando eu lhe pedia decifra-me, e ele me devorava.

 

Decifra-me.

O defunto amado apenas sorri:

Quer se prevalecer do meu corpo inerte?

Quero que desvende a minha poesia escassa. Quero que me responda o que eu nunca perguntei, o que nunca aprendi (agora é tarde?).

A sua poesia de banheiro, você cansou de dizer, ele sorri, de novo.

 

 

***

 

 

Lembra-se do poema de amor, abril de 1974? A dedicatória?

Eu nunca esqueço. Estava escrito: Charlie, nu em pelo.

Pronto, nada mais a declarar. Tudo o que eu quis dizer, está escrito.

Mas eu não estou falando de amor. Já nos falamos tudo do amor. Quero saber da poesia, da inspiração: é coisa do destino, é arranjo da genética? A gente já nasce com ela? Como se nasce de olhos azuis ou castanhos?

Ah, os olhos. É preciso revirá-los, mantê-los atentos, há que haver intenção no olhar, olhos de observar, de ler, de ler até o silêncio das coisas inauditas. Os olhos têm de ser mágicos, constantemente atados à imaginação. Os olhos são importante instrumento de criação…

Borges era cego.

Falo de outros olhos, que têm tato, consegue perceber? Os olhos de dentro.

Sim, os olhos profundos, de mergulhador, eu percebo.

Então…

Não acabei: e os adjetivos tontos?

Sobre isso eu cansei de dizer: entre dois deles, escolha um substantivo. E não me leve ao pé da letra, por favor. (Os seus são pequenos arremedos de metáforas abortadas, covardes).

E você me amou assim mesmo.

Assim.

Superficial (eu nunca desmaiei).

Assim.

Com todos os meus temores e insignificâncias.

Assim. Tire a roupa! Tire tudo. Fique pelada, entendeu? Mostre as estrias, a celulite, a flacidez. Mostre à poesia o que cansou de mostrar a mim. Não lhe negue nenhum pedaço de você. A musa é uma puta a quem se deve esperar e se entregar completamente despojado, sempre.

Por favor, você pode.

Não posso dizer o indizível.

Mas você exerceu o cargo de poeta como se fosse um servidor público, batendo ponto, a vida inteira, ano a ano, mês a mês, dia a dia, minuto a minuto. Explique-me: de que substância foi feita a sua imaginação? De onde arrancou esses olhos?

Que o amante manteve fechados. E calados. Repetindo em silêncio que não era um deus, que era ínfimo (além de tímido, sem graça).

Você dizia que a sua escrita era a sua terapia. Devo acreditar então que todo poeta é louco?

Deve deixar-me em paz. A paz sonhada em verso, em prosa, a paz da paz da paz: aquela que me faltou enquanto eu vivia.

 

Então me dou conta de que ele não está mais ali, somente o peito mudo.

Nunca mais, penso (aniquilada).

Nunca mais, choro (discreta).

Nunca mais, reajo (intrépida).

Antes que me tomem seu corpo arredio — seu andar curvado, de cabeça baixa, braços colados às pernas, o ar antigo de seminarista — antes que me levem a sua alma, antes que me arranquem o seu coração, insisto:

Eu quero a senha.

O poeta abre os olhos e a boca, puxa a dentadura com a língua, deixa-a pendurada nos lábios, a careta desfazendo-se num sorriso descomunal, teimoso, de goiaba vermelha e madura. Com voz pálida e murcha, anuncia — assim na morte, como na vida —, irredutível:

 

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

 

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga e escritora. Organizou e participou de algumas coletâneas, entre elas, Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Foto: María Tudela

 

A FRESTA

 

— “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano”.

A voz ecoou majestosa, como se amplificada pelo vão de uma catedral gótica, a abóbada central da nave se esticando para os céus entre a devoção e a afronta. Soberba, diria Dona Antônia com a mesma voz tonitruante que tinha agora no alto da escada. Não estava em uma catedral gótica, nunca mesmo tinha entrado em uma, nem mesmo aquela no Largo dos Mares, imitação moderna e que achava vulgar. Gosta da sua. O pastor transformou um antigo galpão em templo. O teto era altíssimo. No lugar de janelas para a rua, as paredes eram pintadas como um céu azul. Quando se apagavam as luzes e se deixava apenas a iluminação nas paredes, era como se já estivessem todos no céu. Ela se sentia abençoada por estar ali. Cantava o louvor com fé e força, a voz enchendo toda a amplidão.

Mas Dona Antônia não estava no templo. A voz soava amplificada porque metia a cabeça para dentro do armário de mantimentos. Acabava de limpar quando falou.

— O cedro cresce lento, menina, mas cresce alto e forte. Tem de ter fé.

— Ah! Don’Antônia, às vezes eu desanimo. Não vou mentir. Nem sei mais o que…

— Passa as latas.

Luciana passou algumas latas de milho e extrato de tomate para a mulher, que, do alto da escada, foi incisiva.

— Mas precisa ser um rapaz da igreja. Nada de homem do mundo. Esses não dão futuro pra mulher nenhuma. O primo de Nalva?

— Quer nada comigo, não.

— O macarrão, não. Deixa aí fora. Vou fazer uma sopa pra de noite… levar pra Dona Almira.  A filha está de plantão hoje.

— Domingo? Vida de enfermeira é pesada.

— Ela não chega a ser enfermeira. É técnica. Limpa os pacientes. Ganha pouco. É outra que devia ter casado logo. A mãe viúva, doente…. se eu não ajudo, nem sei. Tem de ter caridade, minha filha… e casar bem.

— A senhora casou cedo.

— Casei. Barreto me viu no culto e falou com meu pai. Era bonito, bem vestido. A oficina era pequena, mas tinha jeito de crescer. Já tinha o dobro do tamanho quando a gente casou.

— Que bênção.

— Você sabe em que o primo da Nalva trabalha?

Luciana fez um gesto de negativa enquanto entregava o pacote de macarrão. Dona Antônia recebeu o pacote com impaciência. A menina não percebeu o olhar e continuou passado pacotes e latas.

— Luciana, você precisa prestar mais atenção. Tem de se interessar pelas pessoas, saber o que fazem, onde trabalham. Você não conversa com ninguém depois do culto. Como é que alguém vai se interessar por você?

— Fico com vergonha.

— Ter vergonha é bom… ser recatada. É uma boa qualidade numa moça, mas converse, seja mais alegre.

— Vou me esforçar.

— Bem. Aqui já acabou.

Dona Antônia desceu a escada com o pacote de macarrão na mão. Colocou na mesa e recolheu a escada para levar para o quintal.

— Vamos tomar um cafezinho agora.

— Eu preparo.

— Obrigado, minha filha. Sem barulho. Não acorda Barreto.

No quintal, colocou a escada encostada no muro e subiu a outra escada, a de concreto, para a laje. Dois lances. A casa tinha dois pavimentos e, no alto, uma área coberta onde ela estendia a roupa lavada e o marido fazia churrascos. De lá de cima podia ver todo o bairro com suas casas baixas. A torre da Igreja dos Mares aparecia de costas. Não dava pra ver a Igreja do Bonfim dali. A ostentação dos católicos, dizia o Pastor. “E destruirei do meio de ti as tuas imagens de escultura e as tuas estátuas”. Pegou as roupas na corda e desceu, desta vez, por dentro da casa. Passou pelo andar dos quartos e ouviu o ronco do marido. A porta do quarto estava aberta. Encostou um pouco, sem fechar totalmente. Fazia calor. Desceu com as roupas para a sala de estar.

— A água está esquentando.

— Obrigado. Vou dobrar essas roupas, mas não vou passar hoje, não. Fiz muito pra um domingo. Amanhã eu passo com calma.

— A senhora é tão jeitosa.

— Gosto de minha casa arrumada.

— Quero a minha assim quando casar. Aqui no bairro não tem casa mais bem cuidada.

— Você vai ter sua casa. É direita. Deus recompensa.

Luciana olhava pela janela. Apenas três crianças brincavam perto.

— Aqui é bem calmo. Lá na rua tem pagode o final de semana todo.

— Fui abençoada. A vizinhança é boa.

— E essa moça aí do lado, como é mesmo o nome dela?

Dona Antônia dobrava uma camisa do marido. Um dobrar que deveria ser displicente — ainda ia engomar —, mas começou a acertar o vinco do colarinho com a mão. Forçava o lugar da dobra com a unha.

— Deixa a vida dos outros, menina. Essa é uma ovelha perdida.

— Dizem que ela tem um monte de homem. Será?

— Eu não fico me metendo na vida dos outros, não. É policial. Anda com homens por causa disso.

— Será que já atirou em alguém?

— Mulher policial… É coisa que não concordo. Profissão de homem. Mora aí sozinha. Que futuro pode ter? Trato bem, não tenho preconceito, mas não acho que seja boa amizade.

— Mas é importante a mulher ter uma profissão, Don’Antônia. Acho a farda bonita.

Dona Antônia suspirou fundo.

— Você fica aí pensando besteira… vai acabar solteirona.

— Mas tem mulher policial casada. Tudo direitinho… Don’Antônia, espia. É ela? Esse é o namorado?  Um rapaz bem apessoado… parece direito. Vão passear.

— “Não tenha teu coração inveja dos pecadores; antes sê no temor do senhor todo o dia”.

— Oxe, Don’Antônia. Né isso não. Acho bonito passear domingo de tarde, um sorvete na Ribeira. Eles passeiam sempre?

— Deixe de ser fofoqueira. Vai ver a água do café. Anda.

Luciana sumiu para a cozinha. Dona Antônia ficou olhando para a janela. Do sofá via apenas o céu. A tarde começava a cair. Demorou-se um tempo e foi até a janela. Não chegou a olhar para fora. Apenas murmurou enquanto fechava a janela: “porque da janela da minha casa, olhando eu por minhas frestas”. Voltou às roupas. De lá de dentro, Luciana perguntou se tinha falado alguma coisa. Ela respondeu que estava relembrando uma passagem da Bíblia: “E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro com enfeites de prostituta, e astúcia de coração.” Ela recitava provérbios 7.

— Que passagem?

Luciana voltava com o café em uma bandeja.

— Aquele salmo que eu estava lhe dizendo.

— O 92.

— Muito bem. Vejo que está estudando. “Os que estão plantados na casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus.” Lembre bem disso, Luciana. Só assim você encontra a graça. Fora da palavra só existe danação.

A moça concordou de cabeça baixa.

— Pega uns biscoitos?

A moça saiu da sala e Dona Antônia voltou à janela. Decidiu que não valia a pena passar calor e a abriu novamente. Luciana voltou com biscoitos salgados.

— Pega aqueles amanteigados. São mais gostosos. Tem uns chocolates no armário. Pega também.

— Mesmo?

— Só um pouquinho não é gula. Vai. Vou guardar a roupa no quarto.

Dona Antônia pegou as roupas e subiu as escadas. Mal chegou ao andar, já podia ouvir o ronco do marido. Abriu a porta devagar. O homem dormia de lado. Estava sem camisa. A barriga grande e peluda avançava para o lado em que ela dormia. Sobrava pouco espaço, caso ela quisesse deitar. As coisas se acomodam, respondeu para uma pessoa imaginária que lhe perguntava como ela fazia para dormir. Deixou a roupa sobre uma cômoda e foi para a janela. Abriu uma fresta e avançou o olhar para a casa vizinha. De sua janela, no alto, podia ver a janela do quarto da vizinha. Dali podia ver parte de uma televisão. Às vezes vinha ver o que a mulher gostava de assistir. Achava que policiais viam filmes policiais, mas não era verdade. A mulher via os mesmos programas de todo mundo. Nada demais. Podia ver, também, um pedaço da cama. O lado vazio. A mulher costumava dormir do outro lado.  Aquele vazio era sempre ocupado por homens. Não eram tantos como diziam as fofocas. A mulher de fato já tinha tido muitos namorados, mas com esse estava já há algum tempo. A cama estava vazia naquele instante, mas Dona Antônia tinha bem viva a memória da noite anterior. Tinha visto os dois se amando. Ficou com vergonha de ver a nudez tão franca daquele homem, a maneira como se curvava para amá-la, lento, carinhoso. Quase uma devoção. Fechou a janela pra não ver, mas não conseguiu fechar tudo. Uma fresta. Por ali entrou a imagem da mulher, o rosto de contentamento durante o gozo — “o meu amado pôs a sua mão pela fresta da porta, e as minhas entranhas estremeceram por amor dele”. Depois do gozo, vieram as risadas frouxas. A felicidade. Fechou a janela, fechou os olhos. A cama vazia ainda rescendia a amor naquela tarde de domingo. Olhou para a própria cama. O marido ocupava quase tudo. Não havia lugar para mais nada.

Desceu para a sala. A mesa para o café estava posta. Louvou a arrumação que a moça tinha feito.

— Uma casa arrumada é convite para o amor, Luciana. Parabéns.

A moça corou. Não se decidia entre a vergonha e o orgulho enquanto servia os cafés, os biscoitos e o chocolate.

— Depois do café, vamos fazer a sopa. Vou lhe ensinar uma receita muito boa.

Dona Antônia, antes mesmo de tomar um gole de café, numa ânsia disfarçada, enfiou um pedaço de chocolate na boca.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Tem sete livros publicados, entre os quais “A eternidade da maçã” (Contos, Ed. 7Letras, 2016), vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; “Arquivos de um corpo em viagem” (Poesia, Editora Mondrongo, 2015)  e “Cada dia sobre a terra” (Contos, Editora Caramurê, 2010). Seu oitavo livro, “Café molotov” (Contos, Ed. 7Letras, 2018) será lançado em agosto/2018.

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Zuca Sardan e Floriano Martins

 

Foto: María Tudela

 

 COPA & FLERTE COM O SURREALISMO​​

 

Anos depois de haverem participado da última viagem do Trem Carthago, Olegário Trombeta e Anarquista Raspok se encontraram na Padaria Progresso para uma aguinha Xambuquira, gelo e raspa de tangerina. Ao fundo, a TV Pegada Atômica transmite o jogo Brasil x Bélgica:

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Enquanto vemos os jogos da Copa, releio a poesia de nosso cubista  tropical Vicente do Rego Monteiro,  tão injustamente esquecido como quase tudo em nosso país…

 

ANARQUISTA RASPOK | Naqueles tempos, se você saísse de terno sem gravata, ou saísse da igreja no meio do sermão… era linchado. Meu pai ia de terno e gravata para o cinema.  Tarsila se torna assim a miss paraquedista da época.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Realmente surrealista entre os modernistas, além de Murilo Mendes, é o Raul Bopp. Acho que poderíamos incluir no Surrealismo, ao lado do Jorge de Lima, o Nelson Rodrigues e o… Barão de Itararé.

 

ANARQUISTA RASPOK | O sonho do Oswald Lelé era ser a encarnação do Bispo Sardinha. O mais perto que chegou foi exatamente a mordida na canela que lhe deu Tarsila. Bopp tem um bom livrinho em que narra o caos fumegante dos bastidores da Antropofagia. Todos comiam as canelas de todos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | A entrada de Tarsila pela janela deve-se provavelmente à sua fase antropofágica, quando mordeu a perna do Oswald. A questão é saber se… ele gostou.

 

ANARQUISTA RASPOK | Então agora, da antropofagia, só sobram,  de autênticos, os índios Caetés… Depois do churrasco do Bispo, os Caetés passaram a falar latim. Mas este fato foi oculto pelas autoridades coloniais por ordem expressa do Palácio das  Necessidades. Foi um golpe cruel  na nossa nascente linguística.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Ficamos entre o tupi e o latim. Latimos enxotando a latinidade.  Com o tempo o latim virou pó.  Dissemos adiós a nosotros.

 

ANARQUISTA RASPOK | O Latim é um cachorro teimoso… Não nos deixa assim tão fácil.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | O latim não nos deixa nunca. Nós é que nos abandonamos. Moramos em casas suspensas  sem quintal e não nos reconhecemos nos vizinhos. Nem temos com quem falar.  O tempo foge de nós.

 

ANARQUISTA RASPOK | Tenho plano maquiavélico… Vou comprar um papagaio, batizá-lo de Plotino… e deixá-lo de estágio num convento jesuíta com  severas instruções de que só falem latim com o plumoso… Depois de dez anos de estágio, eu o trago pro meu gabinete.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Prof. Plotino Currupaco pode ministrar cursos de latim relâmpago e, tendo ele formação jesuística, pode reformular a etimologia indígena herdada de nossos ancestrais antes da Grande Gripe que varreu da terra.

 

ANARQUISTA RASPOK | Após a Grande Gripe, quando a população já estava completamente dizimada, inventaram o Xarope Pylathos contra tosse, gripe e bronquite.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Então já era tarde e a única invenção que vingou foi a metáfora de circunstâncias que propiciou a irradiação das colônias liliputianas.

 

ANARQUISTA RASPOK |… e um bom discurso do Rei elogiando  o patriótico sacrifício da população.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Contudo, a população já se encontrava surda e o Rei, temendo que espiões registrassem as entrelinhas de seu discurso, o fez com a mão cobrindo os lábios.

 

ANARQUISTA RASPOK | A moda do Rei de tapar a boca pra falar pegou na tevê. Até os jogadores de futebol, durante e até depois do jogo, tapam a boca pra conversar.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Pura presunção, de ambos, de acharem que suas falas despertem algum interesse. O Rei no gramado sintético e o goleador em sua torre de acrílico, alheio a tudo.

 

ANARQUISTA RASPOK | O Rei encomendou uma roupa no alfaiate mago pra ficar invisível. Mas só a roupa ficou invisível. E o Rei… ficou nu.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | O jogador encomendou uma torcida para gritar cada vez que ele fizesse gol, mas, como o gol não saiu, a torcida resolveu gritar mesmo assim…

 

ANARQUISTA RASPOK | O craque porém pegou o grilo, jogou-o contra a parede e ploffftttttt!!! sentou-lhe o martelo. O Rei, por sua vez real, escolado político, ainda se demora entre variadas soluções.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Ora, há um momento em que ambos se igualam, quando rei e goleador coçam atrás da orelha e descobrem que ali mora um grilo surdo e sábio, que em morse bem pausado aos dois transmite o irremediável carteado da solidão.

 

ANARQUISTA RASPOK | Tamanha distância entre as duas reações propiciou o surgimento de uma geração a mais de grilos sábios que, a cada nascimento, punha na estreita mente do rei e do goleador uma culpa sorrateira por serem tão iguais e ao mesmo tempo tão distantes entre si.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | As respostas se multiplicam sem eliminar as perguntas. Viva a pilha do gato.

 

ANARQUISTA RASPOK | Pilha dos sete gatos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Há uma caixinha especial com metade de meia dúzia, que acompanha um jogo de felpudas almofadas. Uma afoita gatinha ronrona na foto da capa.

 

ANARQUISTA RASPOK | Petekas saidinhas fazem piruetas enquanto os editores cruzam palavras no tabuleiro da Baiana Leocádia…

 

OLEGÁRIO TROMBETA | revista Guapo Azteka… não deixa cair a peteka.

 

ANARQUISTA RASPOK | Os editores em geral não querem correr riscos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Editores correm de riscos. E fazem uma risca limitando suas ações… Creio que há uma escola onde aprendem a arte do capitalismo sem risco.

 

ANARQUISTA RASPOK | certamente num armazém portuga…

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Lá bem no fundo do armazém, por trás de uns caixotes velhos da melhor Cubunquira.

 

ANARQUISTA RASPOK | Lendo no Jornal dos Sports as mazelas do Vasco.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | GOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

 

Zuca Sardan (1933) e Floriano Martins (1957) são dois destemidos profetas na luta contra os crimes graves da realidade. Brasileiros ambos, o primeiro mora em Hamburgo, Alemanha. O outro, na borda náutica do Nordeste do Brasil, precisamente em Fracaleza Drinks. Jamais se encontraram pessoalmente, embora tenham se conhecido no Congresso Mundial Imaginário da Patafísica. Juntos já escreveram quatro peças de teatro a quatro mãos, além de inúmeras pequenas cenas faiscantes, como esta que agora publicamos. Contatos, de preferência os imediatos de quinto grau.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Fernando Rocha

 

Foto: Tati Motta

 

Ainda estou aqui

 

Alguém que se foi, mas permanece aqui como um holograma, deitado na cama, de onde não pode mais se levantar, da boca apenas saem sons que não são palavras, a fralda é agora o banheiro, não sente mais vergonha dos excrementos, não sente mais o controle do próprio corpo, é um refém sem algoz, talvez a má sorte, que ele sempre ignorou, olhando sempre para os lados e para trás, mas nunca para frente, ela estava lá, pronta para desmanchar toda a construção inútil que foi a vida.

O homem forte, trabalhador, aquele por quem meus olhos e meu corpo se encantaram, não existe mais, ele está acamado há quatro anos, sequela de um a.v.c.. Tenho cuidado dele do jeito que posso, nossa filha me ajuda aos finais de semana. Ainda estou aqui, tenho querer, sinto o meu corpo pulsar.

Ontem a menina veio, menina? É uma mulher de 20 anos, mas aos olhos da gente é sempre uma criança, tomei um banho mais longo, senti cada gota de água correr em mim, um tempo comigo, depois saí por aí.

Parei na padaria onde ficava com os colegas de faculdade, nenhum deles estava lá, ao contrário de mim, concluíram o curso de direito, são doutores e doutoras, ocupados com as burocracias da vida de um advogado.

Sentei-me no balcão porque as mesas são destinadas aos que têm companhia, através dos lanches, eu vi dois homens que conversavam e bebiam suas cervejas, ali estavam como se flutuassem numa bolha que os protegia das chateações do cotidiano. Um tinha um sorriso encantador, eu queria, mas não conseguia parar de olhar, ele devia ter uns dez anos a menos que eu. Pela persistência do meu olhar, percebeu que eu o estava mirando, meio tentando disfarçar, mas sem conseguir, ele começou a retribuir o gesto, há tempos trancada em casa, como é bom ser desejada, ou será só devaneio meu?

Não, o amigo foi embora, ele veio até mim, a mão estendida era desejo, mas também receio, eu não tinha mais tanto tempo ou paciência para pudores, levantei, o beijei entre o rosto e a boca, disse um nome que acabara de adotar para aquela tarde, ele também se apresentou, conversamos sobre a vida, suas pupilas dilatadas me engoliam, olhos de menino num rosto de adulto, não recuei, pus a mão sobre a dele e com toda a minha coragem, não desviei o olhar, ele aceitou.

Disse que tinha que voltar para casa, eu disse que ainda estava cedo, me ofereceu uma carona, aceitei, minha intenção oblíqua era outra, entrar no carro e colocar meu plano em curso, eu disse vai por ali, vire à esquerda, entra! Estávamos na frente de um motel, ele titubeou, mas me obedeceu.

Entramos… Numa voracidade se atirou sobre mim, eu, faminta por um corpo aceitei e retribuí. O calor da pele transpassando a roupa, braços fortes e quentes, o beijo forte, parecia me engolir, era a vida sinalizando sua presença, logo estávamos nus, a boca dele percorrendo cada centímetro do meu corpo, acendendo em cada poro uma fogueira, um pouco afobado, mas eu logo comecei a ditar o ritmo, entendimento pleno entre corpos, duas horas morando no prazer.

Tomei banho sozinha, porque o contentamento é egoísta, saímos, disse a ele que podia me deixar na esquina, à direita, de lá pegaria um taxi, um último beijo, mais sereno, antes de sair do carro.

Em casa, a menina disse:

– Mãe, está tudo bem? A senhora está diferente.

– Coisa da sua cabeça, filha. Pode ir cuidar da sua vida, deixa seu pai comigo.

Olhei nos olhos do meu marido, eles permaneciam opacos, mas me miravam de um jeito diferente, fui até a cozinha preparar um sanduíche, mordido com força de quem está inteira em si.

 

Fernando Rocha da Silva é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, professor de Língua Inglesa na rede municipal de São Paulo, autor do livro de contos Sujeito sem verbo (Confraria do vento), da novela Os laços da fita (Penalux) e Afetos (Penalux). Tem um conto na antologia Descontos de fadas (Alink editora). Possui textos publicados em Mallarmagens, Diversos Afins, Incomunidade, Musa Rara e Letras Inacabadas.

 

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123ª Leva - 01/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Glauber da Rocha

 

Desenho: Raquel Piantino

 

EXU PAGÃO

 

Prometi que nunca mais iria ficar preso por causa de uma mulher: podia ser a Vivi Fernandez, a Mônica Mattos, a Morgana Dark ou a Fernanda Corrêa que ia cagar para ela. Foi o que decidi na prisão. E não só isto: quando saísse, iria viver uma vida honesta, sem feitiçarias, assassinatos. Mas, ao ver a boazuda da Ana Rita saindo da casa de minha mãe, não pensei duas vezes para correr atrás dela, para me enfiar em mais uma roubada em troca do amor de uma mulher.

Ela entrou em seu carrão, bati na janela, Ana Rita abriu. Olhei para seus olhos e por um instante pensei estar olhando o céu. Nunca havia visto olhos azuis tão claros como os dela, era linda mesmo, Ana Rita dava de dez a zero nas mulheres das revistas que eu vivia folheando quando estava na prisão.

– Eu faço o que você quer, é só me pagar – eu fui logo dizendo.

Ela abriu a porta e eu entrei, sentando-me no banco do passageiro.

– A sua mãe não quis fazer o trabalho para mim…

– Que trabalho?

– Matar meu esposo…

– Olha, dona, faz mais de um ano que minha mãe não faz mais este tipo de trabalho, ela fez o santo… E quem é do santo não pode fazer o mal, só o bem… Ainda mais quem é de Omolu, santo que abomina a maldade… Mas eu faço… É só pagar bem que faço! – falei olhando para as suas pernas e depois para os seus olhos.

– Interessante.  Como é seu nome mesmo?

– Zeca.

– Zeca, você falou que mata meu esposo. Do que você precisa? – disse ela, arrancando com o carro.

Falei para Ana Rita tudo o que precisava.

– Quanto vai dar tudo isto?

Disse o valor e ela parou o carro perto da ponte, para preencher o cheque.

– Quantos dias, Zeca? – ela quis saber.

– Dentro de um mês no máximo ele estará morando com o diabo.

– Precisa de mais alguma coisa?

– Só o nome do infeliz e uma foto 3×4, se tiver.

Chamava-se Ramão.

Ana Rita tinha uma foto 3×4 do marido na carteira, puxou-a e me deu. Olhei para o indivíduo: era um homem branco de bigode e sobrancelhas bem pretas, olhar sério, estava de terno e gravata.

– E se ele não morrer? – Ana Rita perguntou.

– Se ele não morrer na macumba, eu mesmo o mato na paulada. Não será o primeiro…

 

 

***

 

 

Tal como minha mãe antes de fazer o santo, na segunda-feira não tinha nem para o cigarro. É o que diz a Bíblia – se tinha algo que me fazia passar o tempo na prisão era a Bíblia, a Bíblia e as revistas de mulheres peladas –: “todo presente e todo bem mal adquirido perecerão.” Isto está no livro do Eclesiástico. No livro do Eclesiástico a gente encontra todas as respostas da vida. Nele diz também: “o trabalhador dado ao vinho não se enriquecerá, e aquele que se une às prostitutas é um homem sem valor algum”. Eu era assim. Um homem sem valor algum, sempre entregue à cachaça e às prostitutas de toda estirpe.

No mês seguinte, Ana Rita apareceu. O carro dela estava todo sujo, com a lama da favela.

– Sujei todo meu carro…

– Mas não é só o carro que está sujo não, dona. Você também está…

– Onde? – disse ela, olhando para a sua roupa.

– Esqueça. Diga…

Ela me olhou nos olhos:

– O homem está mais vivo do que antes…

– Droga!

– E agora?

– Agora vou ter que fazer outro trabalho no cemitério, para um exu pagão. O problema é que acabou o dinheiro, preciso de mais algum.

Mesmo contrariada, Ana Rita me deu mais dinheiro. Fui num cemitério bem assombrado, à meia-noite. A lua estava minguante. Se você deseja acabar com a vida de uma pessoa, tem que ser nessa lua. Porque a lua estava minguante não dava para ver quase nada na minha frente. Me cuidava para não acabar tropeçando numa tumba.

Desta vez não levei um bode, só um galo preto, uísque e charutos. Fui indo. Eu precisava chegar lá no fim, onde os trabalhos são feitos. De vez em quando encontramos alguém no caminho, mas desta vez não tinha ninguém, nem o coveiro cuidando das covas. Olhei para os lados, acendi as velas e fiz o trabalho. Terminei tudo rápido e saí daquele cemitério assombrado. Depois fiquei em casa, esperando notícias de Ana Rita. Passou uma semana e ela apareceu novamente, mas desta vez irritada porque o feitiço não tinha vingado:

– O santo de seu esposo é muito forte, ele deve ser de Ogum ou de Xangô. Na macumba não vai ter jeito. Vai ter que morrer na paulada mesmo. Mas vou ter que cobrar por esse serviço…

– Vou ter que gastar mais dinheiro, Zeca?

– Sim.

– Quantos desta vez?

Falei o valor e Ana Rita concordou.

– Mas é o seguinte. Eu tenho que prestar algum serviço na casa, para bolar o melhor plano.

– Vou dispensar o jardineiro. Você entra no lugar dele, na segunda-feira.

– Ok.

Ana Rita estava indo embora quando lhe pedi um dinheiro adiantado. Ela reclamou, mas acabou me concedendo. Passei o sábado e domingo bebendo, fumando e me deitando com as prostitutas de um bordel bem fuleiro perto de casa. Na segunda-feira pedi dinheiro emprestado para minha mãe, para comprar um passe de ônibus e uma carteira de cigarros. Ela me olhou com o olhar atravessado, sabia que eu estava tramando o mal.

– Pode ficar tranquila, minha mãe, arrumei um trabalho, de jardineiro.

– Você não me engana, filho. É na cadeia que você quer passar a maior parte de sua vida?

Minha mãe tinha uma intuição extraordinária, como a maioria dos filhos e filhas de Omolu. Muitas vezes ela nem precisava abrir as cartas ou jogar os búzios para saber o que seu cliente precisava. Eu sabia se era coisa boa ou não conforme o tempo da consulta: quando o cliente queria algo mal, ela já o dispensava, quando o cliente queria algo bom, a consulta demorava. Eu sabia que Ana Rita não queria algo bom porque do mesmo jeito que entrou, saiu. É impressionante ver o quanto que a beleza não define o caráter de uma pessoa: quem iria dizer que uma mulher angelical como Ana Rita não passava de uma bandida? A beleza física é a maior das ilusões, toda ilusão é uma prisão, como eu era um sujeito que vivia iludido, vivia preso.

Cheguei sete horas da manhã na casa da Ana Rita. Casa não, uma mansão! Ela me deu o macacão de jardineiro e me mostrou a dispensa com as ferramentas de trabalho: tinha enxada, pás pequenas e pás grandes, picaretas, serrotes. Era ali também o meu canto, onde eu devia almoçar e descansar. Queria me ver trabalhando, para não levantar suspeitas. Eu odeio trabalhar, ainda mais debaixo do sol. Na cadeia recusei todos os trabalhos que diminuíssem a minha pena. Mas fazer o quê? Trato é trato e eu iria ter que trabalhar debaixo daquele sol que às sete da manhã já estava forte pra cacete.

Foi o que fiz até o meio-dia, quando Ramão chegou, em sua BMW branca. Estava vestido tal como na foto 3×4. Não suava, é claro, quem vai suar dentro de uma BMW? Ao me ver me cumprimentou, mas fez com um desinteresse próprio de quem não gosta da ralé. Me deu mais vontade de matá-lo. Fiquei pensando na origem de Ana Rita: de onde ela veio, da vida honesta ou das calçadas da vida? Por que queria matar seu esposo? Só pelo dinheiro ou por ódio?

Ramão era um político corrupto, um deputado. Um ímpio. O ímpio que pensava da seguinte maneira, com seus comparsas: “tiranizamos os justos na sua pobreza (o pobre), não poupemos as viúvas (e as mães solteiras) e não tenhamos consideração com os cabelos brancos do ancião (os aposentados)”. Ele diz: “que a nossa força seja o critério do direito, porque o fraco, na verdade, não serve para nada!”. É assim que pensa o político corrupto, era assim que certamente pensava o deputado Ramão.

Na hora do almoço Ana Rita mandou a Luana, sua cozinheira, trazer um prato de comida: seria o mesmo que foi servido em sua mesa? A cozinheira era uma mulher negra e bondosa, carregava uma corrente bem fina no pescoço, com um pingente do Cristo Crucificado. Ela era simpática, não muito bonita, mas uma mulher que pelo jeito parecia saber colocar o homem no caminho estreito, no caminho correto.

Conversamos um pouco. Gostou de conversar comigo. Toda vez que ela vinha me trazer o almoço, conversávamos. Ela me falava passagens bíblicas que eu já estava cansado de saber, contudo com um sentido diferente, com um significado diferente: enquanto eu lia procurando a lei, ela lia buscando o amor. Me envergonhei. Comecei a me interessar por Luana. Ela era um anjo que Deus havia enviado em minha vida, a melhor coisa que podia fazer era casar com uma mulher feito a Luana.

Pensando assim, veio a vontade de desistir do plano de matar Ramão, de me arrepender, de trabalhar honestamente e de devolver à Ana Rita todo o dinheiro que tomei dela. Pensei em me converter, em deixar esses exus pagãos que eu me envolvia de lado e colocar Jesus no altar da minha vida, tornar-me um justo, andar lado a lado com as entidades de luz, com os anjos e os apóstolos. Ainda dava tempo. O ladrão que foi crucificado com Jesus se arrependeu antes de morrer e Cristo o perdoou. Não sei se ele teve uma grande recompensa nos céus, mas com certeza entrou ao lado do Filho de Deus e, portanto, protegido. Era melhor fazer o mesmo. Chegar em Luana e dizer: case comigo! Foi o que fiz. Quando ela entregou o meu prato de comida lá naquela dispensa escura, eu peguei em sua mão e a pedi em casamento:

– Casamos em tua igreja, Luana, e seremos felizes, com a bênção de Deus!

– Está bem, Zeca.

Mas Ana Rita era uma mulher astuciosa e malvada. No Eclesiástico está escrito que “a mulher maldosa é como um jugo de bois desajustado; quem a possui é como aquele que pega um escorpião”. Seu esposo e eu estávamos nas mãos de um, pronto para nos ferroar sem dó. Falei com ela, disse:

– Ana Rita, não quero mais matar ninguém nesta vida. Por mais que seu marido mereça morrer, que seja pelas mãos de outro justiceiro, não eu.

Falei-lhe que iria arrumar um emprego e que iria devolver todo dinheiro que me deu, centavo por centavo. Mas Ana Rita, como disse, era uma mulher astuciosa e malvada. Disse-me que não confiava que longe dela pudesse lhe devolver o que devia, que seria mais correto de minha parte ficar e pagar com meu trabalho. Todo mês ela descontaria a metade de meu ordenado. Em três meses estava livre.

Miseravelmente, aceitei. “Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher”, já dizia Eclesiástico e eu caí na sua malícia. No fim de um expediente, quando Ramão estava viajando, Ana Rita me ofereceu um copo de vinho. Eu teria rejeitado tranquilamente se não tivesse visto pelo decote de sua blusa seus seios brancos bem redondos e soltos, desprotegidos. Eram como maçãs suculentas.

Não resisti, esqueci meu compromisso com Luana e tomei num gole só todo o copo de vinho. Bebi outro copo cheio e mais outro. O vinho reacendeu o fogo de minhas paixões e quando vi estava na cama da pecadora. Entrei nela como um animal, virei Ana Rita de um lado, de outro, fi-la segurar firme nas barras de ferro de sua cama! Quando caí estremecido de gozo, ela pediu:

– Mata ele para mim, meu homem, mata?

– Mato sim!

Dois dias depois Ramão estava de volta. Quando deu meu horário, saí da casa deles e fiquei lá fora, esperando o telefonema de Ana Rita, me informando se Ramão já dormia. Luana saiu um pouco depois, mas não me viu, pois eu estava atrás de uma árvore. Onze da noite Ana Rita ligou. Pulei o portão da casa, fui até à dispensa, peguei uma pá e entrei na casa. Ana Rita, com uma camisola vermelha, abriu-me a porta. Ramão roncava. Cheguei perto dele e comecei a desferir os golpes com a pá.

Ele deve ter morrido na primeira, que acertei em cheio em sua cabeça. Fui para cima de Ana Rita, para beijá-la. Ana Rita não quis meu beijo, escapou dos meus braços, sacou o celular e ligou para a polícia. Tive vontade de matá-la, mas o desespero de ser preso foi maior, saí correndo. A polícia me pegou a dez quadras da casa dela. Fui preso e enquadrado no artigo 157 seguido pelo 213. Hoje, aqui na cadeia, cada vez que vejo uma de minhas revistas de mulheres peladas, faço a mesma promessa de sempre: nunca mais volto para a cadeia por causa de uma mulher! Nunca!

 

Glauber da Rocha é escritor e professor. Formado em filosofia e em pedagogia, com pós-graduação em educação especial inclusiva. Mora em Campo Grande, MS. Publicou “Pelas ruas de tua cidade, ó morena!” (poesias/2018) e “Crônicas Para o Face” (crônicas/ 2018). Para 2018, pretende lançar dois livros de contos: “Com os dentes que ainda me restam” e “matando anões”.

 

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123ª Leva - 01/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

As variantes do conto

Por Daniel Russell Ribas

 

 

O livro de estreia do autor César Manzolillo, Angústia e outros presságios funestos (Gramma Editora, 2017), possui as marcas de uma obra iniciante. Sem esconder suas referências literárias, também demonstra uma visão própria para as mesmas. Como em projeto “Mix Lit”, que promove a construção de um novo texto através dos trechos previamente conhecidos, Manzolillo relembra seus ídolos em luz própria. No caso, sua interpretação se sustenta acima dos gigantes em que se apoia.

O estilo breve, quase telegráfico de alguns contos, remete a Rubem Fonseca. Contos como “Cibele”, “Gabriel” e “Gilmar”, inclusive, referenciam imediatamente o universo de submundo e violência exposto no seminal “Feliz ano novo”. Entretanto, são exceções na maneira como o autor se apropria de sua fonte. Se a secura de Fonseca servia a um propósito realista e de choque, Manzolillo reutiliza esta artimanha como uma forma de conduzir o leitor às entrelinhas das narrativas. Ele insinua, no lugar de situar seu receptor. No caso, ele opta por uma desconstrução. Quando mimetiza na superfície o mestre, abre o espaço para a análise de seu uso. Manzolillo, então, oferece uma interpretação labiríntica, em que o narrador descreve uma cena que não se apresenta como uma saída, mas uma nova passagem para a compreensão íntima de seu leitor. O leitor é provocado a criar sua versão, como um novo escritor. O autor mostra as ferramentas e oferece as reticências entre as frases.

Estruturado em relatos breves, todos em 22 linhas, com os nomes de personagens como títulos, há um instigante experimento sobre a função da informação. O fato de não se tratar de contos fechados é a isca para que o ato da criação seja a força motriz. Mais do que a psicologia e o cenário, é a interpretação dos elementos o protagonista frequente do livro. A falta de localização dos atores neste palco, cujas escolhas e vidas são questionadas em múltiplas vozes, forma uma colcha opaca. O resultado é irregular, mas segura o interesse.

Os contos variam em gênero e alcance. Enquanto alguns são simples em sua estrutura, outros arriscam em uma miscelânea de vozes cujo atrativo é o impacto. Como em Dalton Trevisan, outro grandioso a que o livro presta homenagem, não é necessariamente o ato final o ápice dramático. A virada pode surgir logo na metade, um efeito que mexe em toda a compreensão do resto da história. O conto “Bianca” é um ótimo exemplo. A princípio um texto inofensivo, torna-se voraz após uma frase específica inserida em meio às cartas que a protagonista recebe. É um ótimo exemplo de como o minimalismo pode abrir o portal para uma nova visão sobre as ações de seu personagem. O que Bianca fez?, o leitor pode se perguntar.

Já em contos como “Arnaldo” e “Rita”, as narrativas são diretas, cujo propósito é o punch line. Embora sejam seguros, funcionam dentro do corpo da obra. O livro forma um padrão em que estes contos funcionam como alicerces, ou “respiros”, para mergulhos mais expressivos na metalinguagem. Manzolillo os intercala, de modo que a leitura de cada unidade passa ligada a uma anterior, mas com um todo que busca a surpresa do leitor. O autor é bem-sucedido neste aspecto, pois não é fácil adivinhar o que virá em seguida. A sensação de “caos organizado” carrega uma vitalidade que sustenta o espetáculo. Mesmo em contos que não alcançam seu potencial, como “Saulo” e “Clara”, há uma indagação preciosa para manter o interesse. A construção, o caminho, vale mais do que a jornada. Se em textos como esses a proposta torna-se mais óbvia, é quando se arrisca na seletividade de informações que funciona a contento. Matérias crípticas, como “Helena” e “Bartolomeu”, mostram que os personagens são o que menos importa na tapeçaria. São meios para um fim.

A que se destina, então, Angústia e outros presságios funestos? Com seus altos e baixos, é um inteligente exercício sobre escrita iniciante. Não ironicamente, diversos textos lidam com escritores em começo de carreira. Ao mesmo tempo que mostra uma voz ainda presa a seus ídolos, o efeito final é de uma reconstrução, jamais imitação. Há uma relevante questão que permeia o livro: o que torna um material único: originalidade ou uma maneira como nos debruçamos sobre o passado? Como encaramos o que se passou, expandimos nossa visão de mundo e acrescentamos ao jogo da literatura uma possibilidade refrescante. Nossos mestres não precisam ficar presos numa cápsula. Podemos resgatá-los com uma voz nova. A angústia da desconstrução é o que surge no livro de César Manzolillo, cujo presságio e a apreciação literária formam a cumplicidade criativa entre autor e leitor. Se nada é o que parece, cabe ao próximo elemento na cadeia completar os espaços em branco.

 

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.

 

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123ª Leva - 01/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Paulo Bono

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A puta de 50

 

Era uma cidade no meio do mato. Um desses fins de mundo onde você não encontra outdoors, flanelinhas, engarrafamentos, nem o M da McDonald’s. Lugares assim a solidão chega antes da novela das oito. Então perguntei ao vendedor de algodão-doce. Ele me garantiu a localização exata do puteiro.

Eles chamavam o lugar de Castelinho. De um lado, uma borracharia. Do outro, apenas mato e uma cerca torta. Nenhuma lâmpada acesa do lado de fora. Mas era possível escutar alguma música tocando fogo lá dentro. Havia esse tipo com boné sentado numa bicicleta. Apoiava-se entre uma Kombi e o portão de entrada.

– E aí, campeão – eu disse – as meninas estão no serviço?

– Estão. Você é de Salvador?

– Sou. Desculpa qualquer coisa.

– Quer ovo?

– Devagar, que história é essa de ovo?

– 7 reais, a dúzia. Galinha de quintal.

– Parece bom. Mas hoje só quero uma xotinha caipira.

– Mas se quiser ovo, meu nome é Zé da Monark.

– Tudo bem, Zé.

O cheiro de buceta parecia grudado nas paredes do Castelinho. Havia pouquíssima luz, mas achei uma mesa no canto. Do outro lado, um grupo apostava a vida e a morte numa mesa de sinuca. Incrível como esses caras do interior manjam de sinuca. De sinuca e de fazer cálculos rápidos. Havia também um pequeno salão onde dois casais dançavam uma versão brega de One, do U2. Apesar da música, eu escutava o choro de uma criança chegando de algum lugar daquele inferno. Claro, havia também as mulheres. Putas feias e mal vestidas. Sentadas no colo da rapaziada, bebericavam cerveja, riam das desgraças. Já que eu estava por ali, pensei em procurar a dona do Castelinho. Sempre achei que trepar com a dona de um brega era como chegar à fase final e encarar o chefão de um videogame. Então esse sujeito se aproximou. Alto, branco, pele avermelhada, quase careca. Parecia muito puto com a vida que Deus lhe reservou. Não sei dizer se era canhoto, mas não tinha o braço direito.

– O QUE VAI QUERER? – disse.

– Me diz uma coisa. O estabelecimento tem um proprietário ou uma proprietária?

– MINHA MÃE.

– Ah…

– O QUE VAI QUERER?

– Vodka.

– SÓ TEM CACHAÇA.

– Serve.

– MAIS ALGUMA COISA?

– Desculpa perguntar, mas sua mãe parece com você?

– PARECE. MAS O NARIZ É DE MEU PAI.

– Então me vê só a cachaça.

Logo o herdeiro do castelo trouxe meu copinho.

– Cara, acho que tem alguma criança chorando por aí – eu disse.

– É MEU FILHO.

– Então tá em casa…

– MAIS ALGUMA COISA?

– Tudo certo, chefe.

Lá se foi o paizão. Dei o primeiro trago e fiquei ali tentando lembrar como a vida me trouxe até aquela mesa. A minha falta de adequação. A falta de grana. As escolhas erradas. Os anos que passavam. A vida encolhendo e se escondendo no meio do mato. Então dei mais um trago e notei aquela puta sentada no fim do balcão. Ao contrário das outras, estava só. Não bebia, não ria. Só estava ali, no escuro. Esquecida. Essa mania de me identificar com os desprezados me fez levantar e me aproximar do balcão. Morena. Cabelos longos. Um pouco magra além do ponto. Mas a novela já havia acabado faz tempo e eu estava subindo pelas paredes.

– Qual o seu nome?

– Arlene.

– Por que está sozinha, Arlene?

– Não gosto das pessoas.

– Inteligente da sua parte.

– Você também não tem amigos?

– Só um. Zé da Monark.

– 50.

– O quê?

– Chupo, dou o xibiu, faço ver estrela.

– É tudo que preciso, Arlene.

Arlene me puxou pela mão e me levou por um corredor sem fim, onde você só escutava as putas se divertindo e o choro estridente do bruguelo. O quarto era escuro. Só uma cama e uma cortina na janela. Arlene sentou e começou a chupar. Pedi um tempo. Corri pra janela, mas vomitei na cortina. De repente, a criança parou de chorar. Respirei um pouco o ar gelado e aquilo me fez bem. Então bateram na porta. Bateram forte. Abri e era o Canhota. Com um só braço, o escroto fazia um barulho desgraçado.

– Vai me dizer que Arlene é sua irmã? – eu disse.

– TERMINOU?

– Como assim?

– TEM MAIS GENTE QUERENDO O QUARTO.

– Você que manda, canhota.

– ANDA LOGO. E NADA DE BATER NA MOÇA.

Voltei pra Arlene. Mandei ficar de quatro, botei a camisinha e enfiei. Quer dizer, acho que enfiei. Ou meti no meio das pernas, não sei, talvez minha ferramenta não fosse compatível, só sei que eu não sentia as paredes. Veio a suadeira. E o suor ardia nos olhos. Foi uma luta, uma caçada, a batalha do século, vi estrelas e cometas, mas consegui terminar. Então Arlene se levantou, acendeu a luz, se vestiu e ajeitou o cabelo. Foi quando peguei um lance estranho. Parecia que Arlene não tinha um olho. Ou era um olho de vidro. Ou era uma mancha branca. Deixei soltar um “puta que pariu!”.

– Algum problema? – disse.

– Ham?

– É meu olho?

– Que olho?

– Se incomodou com meu olho?

– O que tem seu olho?

– VOCÊ JÁ SE OLHOU NO ESPELHO?

– Não tem nada demais no seu olho.

– VOCÊ TAMBÉM É FEIO!

– Arlene…

– VOCÊ É MAIS FEIO QUE DOR NO RIM!

– Calma, Arlene. Vai acordar a criança.

– VOCÊ É FEIO COMO A DOR DA MORTE!

– A gente não precisa disso, Arlene. Vamos ficar numa boa. Olha, vou te dar 100. Você é linda, Arlene. Você é linda.

Arlene sorriu na mesma hora que escutamos o bracinho pesado do Canhota. Então fizemos as pazes. Depois tomei mais um trago e deixei o Castelinho. No caminho de volta, enquanto respirava aquele ar gelado, comecei a imaginar. Eu podia abandonar tudo, morar naquela cidade perdida, casar com Arlene, montar uma mercearia bacana. Esquecer a cidade que me esquecia. Uma vida sem fila pra entrar em elevadores. Pensamentos que se perderam com os latidos de uma suruba de vira-latas. Eu precisava descansar. O ônibus saía às seis. Acertei relógio pra 5h45. A rodoviária ficava bem ali ao lado da pousada de portão amarelo.

 

Paulo Bono nasceu e cresceu nas ruas da Lapinha, em Salvador. É flamenguista, publicitário, escritor e roteirista. Publicou Espalitando (Cousa, 2013, Contos e crônicas), participou da coletânea Casa de Orates (Mondrongo, 2016, Contos) e escreveu O Garoto (Saturno Filmes, 2014, 14 min.).

 

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122ª Leva - 07/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana

 

Foto: Bárbara Bezina

 

A BOMBA

 

Descobriram uma bomba da segunda Guerra Mundial ao fazerem uma obra na proximidade do meu prédio. A polícia passou convocando os moradores, pelo alto-falante, a deixarem suas casas. Na Alemanha, as bombas estão por aí, enterradas inertes no fundo da História, mas chega o momento no qual desabrolham como a gigante semente de uma flor nefasta, despontam da terra como uma enorme melancia enferrujada e repleta de crostas de lama. Mesmo depois de setenta e poucos anos podem explodir. Bombas são assim, não possuem prazo de validade como o pão, o leite ou a nossa vida. Enquanto ela estiver protegida por uma camada de terra como o embrião maligno da morte, ela fica ali, esperando a sua vez de espocar e despedaçar tudo a sua volta. Ouço os passos dos vizinhos descendo as escadas, os automóveis, antes estacionados na rua, deixam o local. O cinza do dia é escuro e chove. O eco do megafone funde o final da tarde. Não sei para aonde ir assim rápido, espontâneo. Devo ir a algum restaurante – longe – e ficar jantando a noite toda? Será que eu seguirei o chamado da polícia para evacuar ou ficarei em casa como aqueles teimosos que não abandonam os seus pertences mesmo com a chegada de um furacão, permanecem implacáveis junto de suas coisas como se pudessem salvá-las com sua presença flutuável, quebradiça?

Com repulsa visto o casaco, calço os sapatos, pego a bolsa, meu livro e o caderno de anotações. Na calçada, pergunto ao policial: quanto tempo isso demora? Talvez até amanhã de manhã! Até amanhã de manhã?! Penso perplexa. A polícia nem disponibilizou tempo para eu fazer uma mochila com a escova de dente, creme antirrugas, uma toalha e o pijama. Tocou a campainha de casa em casa ameaçando: deixe o apartamento imediatamente! Voltei. Regressei para o meu apartamento. Sentei-me no sofá da sala e escuto a mudez de tudo ao meu redor, como se o mundo tivesse se esvaziado. Não posso acender a luz, para não descobrirem que transgredi a regra. Será que sou a única a contrariar as ordens? Vejo a pantomima do vento farfalhando as folhas da árvore diante da minha sacada. Isso me leva a pensar naqueles que vivenciam a guerra, que sentem os tremores da explosão sob seus pés, ouvem o ruído ensurdecedor, que perdem as paredes de sua casa ou o teto, perdem os móveis e os que sobram são cobertos pela grossa camada de cimento pulverizado e seus pedaços, e perdem seus pertences – quando não perdem um braço, uma perna, — a vida.

Não é a primeira bomba a ser encontrada e não será a última. Há milhões enterradas nesta terra e nas regiões mais afetadas pelo conflito bélico daquela época, também são encontradas ossadas de civis mortos plantadas debaixo da cidade, por várias décadas. Eles renascem tão inocentes como morreram. Os ossos são resgatados e levados para um laboratório ou para o cemitério. Suponho que façam um teste de DNA para saber quem é. São tantos ossos ainda dormindo, esperando alguém libertá-los e lhes dar um rosto e uma biografia, e os levar aos seus parentes que agora fazem parte do futuro.

Os artefatos são desativados com sucesso, com exceção de alguns poucos. Acontece de trabalhadores da construção civil depararem-se com um dispositivo, cavando a terra com a escavadora, e ele explodir. Geralmente, são encontrados em terrenos baldios. O governo de Berlim comprou documentos e fotografias pertencentes aos arquivos dos Aliados para a busca de artefatos, e criaram um mapa com as regiões mais afetadas. Será que o piloto de um dos seiscentos aviões que jogaram mais de cinco mil bombas nesta cidade imaginou que ele poderia me acertar? Eu, que não vivi a guerra, não nasci neste país, vivi muito tempo longe daqui, e setenta e poucos anos depois, uma bomba da segunda Guerra Mundial pode me atingir como se a guerra fosse ontem.

Certa vez, o artefato explodiu e escutei na rádio: três especialistas em armamento morreram, as vidraças de alguns prédios se espatifaram, brotaram rachaduras nas paredes. Deixaram mulher e filhos. Quando explodem, apesar de antigos e enferrujados, é com os mesmos vigor e iniquidade, como se todos esses anos a força de destruição da guerra tivesse incubada ali.

Há pouco eu ainda ouvia o chiado das rodas dos automóveis passando ligeiros pela autoestrada lá adiante, o som undíssono dos pneus no asfalto encharcado ecoava alquebrado até a janela da minha sala. Agora nada, apenas o silêncio, parecido com o primeiro de janeiro quando todos dormem de ressaca.

E então, depois de algumas horas, na meia-luz, anotando palavras ilegíveis, a fome me surpreende e vou à cozinha, comer o resto da batata-frita que eu fiz para o almoço. Semelhante aos condenados à morte que fazem a sua última refeição. A bomba pode explodir agora, comigo comendo batatas-fritas. No banheiro, fazendo xixi, torço para que ela não exploda agora que estou com as calças abaixadas sentada na privada. Não é assim quando se está em guerra? Nem ao banheiro podemos ir em paz, as mínimas e insignificantes ações podem se tornar as últimas e tudo é perigoso. Percebemos o quanto as mínimas coisas são essências e o quanto podemos ser felizes com elas, como simplesmente jantar em casa com a família, ouvir uma música na rádio, guardar a louça no armário, tomar banho…

Ando como uma intrusa no interior do meu próprio apartamento. Não há mais alto-falante lá fora, não há mais polícia perambulando pela calçada. A rua está deserta, o prédio está abandonado. Não vejo mais o xadrez das janelas acesas e apagadas, que aparece todas as noites, somente o breu indecifrável resplandece na fachada das casas. E quando a taciturnidade é mais pesada do que aquilo que escrevo, a sensação de fim de mundo me advém, me sobressalta, logo em seguida, desaparece de novo. E depois? Devo pensar na vida eterna? O que vem depois da destruição, do fim? Não sei, só sei do não existir mais neste apartamento, neste corpo, nestes pensamentos. Só sei da abrupta interrupção de mim com esta vida, com as coisas deste mundo material. Talvez eu me torne somente pensamentos gasosos que flutuam no ar, uma espécie de névoa que se evapora ou se transforma em chuva e cai na terra, no cimento, nos telhados, no vidro dos automóveis. Pois não é assim, na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Nós nos transformamos em quê depois de mortos? Não sei para aonde vou quando eu deixar de ser eu incorporada nesta armação de carne e ossos, sangue e órgãos. No fundo, morrer é simples, basta um segundo e, às vezes, nada percebemos; outras vezes, a vida é um morrer constante, repleta de dor e desespero.

Reflito nos especialistas em engenho explosivo trabalhando ao redor do artefato. Certamente precisaram cavoucar cuidadosamente a terra, na região onde o dispositivo se encontra, para liberá-lo do lamaçal. Presumo que armaram uma cabana com cobertura de plástico sobre esta área, para que os pingos de chuva não caíssem sobre o rosto dos especialistas e em suas mãos, atrapalhando a concentração. E também de luz eles precisam, deve haver um grande farolete doando claridade. E no instante decisivo, os especialistas precisam ficar sozinhos, completamente solitários, e assim poucas pessoas morrerem se algo der errado.

Imagino um único especialista enfrentando este artefato de duzentos e cinquenta quilos, enterrado a cerca de meu prédio. Tudo a sua volta foi evacuado, a autoestrada está vazia, os edifícios, o supermercado, o asilo de velhos, a estação de metrô, os prédios, as calçadas. Apenas ele e o silêncio absoluto, ele e a afonia que caiu sobre esta parte da cidade como um manto negro, ele e o isolamento, ele e a solidão, ele e o pipocar dos pingos de chuva sobre o plástico, ele e o suspense, ele e a obscuridade do futuro.

Durmo no sofá da sala. No meu quarto, a cama fica muito perto da janela, e se o artefato explodir o vidro se espatifará em cima de mim, cortando meu corpo, furando minha carne. A sala fica do lado onde a pressão levaria os cacos a caírem para fora, deduzi com os meus parcos conhecimentos de física. Meu prédio localiza-se à margem do perímetro dos quinhentos metros de evacuação.

Tenho o sono leve, meu sonho é uma mistura de vizinhos invadindo meu apartamento, me acusando, me ordenando a sair, e o amarelado claro e forte do sol se derramando na escada. No meio da madrugada, desperto e cogito se seria agora que ele separa a concha entre o impulsor de ignição e o explosivo, com o cortador de granulado de água — e fomos salvos. Meus olhos arregalados vislumbram o escuro como se pudessem atravessá-lo feito um raio. Esse escuro nada me responde. Não é possível eu saber, pode ser agora, daqui a meia hora, duas horas, ou já foi. O que ele pensa neste átimo de tempo preciso com o bafo da morte na sua nuca, instante no qual o seu corpo pode vir a ser despedaçado e pedaços voarem e como um bando de pombas pousarem no chão. As partes espalhadas como em um quebra cabeça imontável. Sentir ele não sentirá, nada disso ele sentirá. Mas possui a consciência. Talvez ele reze, se for religioso, talvez ele pense em sua mulher e filhos, em seus pais, em sua namorada ou apenas se concentra porque a rotina – são mais de setecentas bombas que ele desativou – a prática o fez esquecer que ele é a pessoa que executa um trabalho que toda vez pode ser a última. Como se eu, ao assinar um documento no escritório, corresse o risco de explodir. Pego a caneta, observo o papel profundamente, calculo minha assinatura no espaço exato, preparo a caneta, a minha mão, respiro fundo, concentro-me, penso nos meus entes queridos e — desejo viver e — assino.

Não há como eu saber o lance de tempo exato no qual ele cala a bomba, corta a sua aorta e o monstro morre para nunca mais, — vencido, agora inofensivo, semienterrado na terra como um estranho alienígena de ferro, sem olhos, sem ouvidos, sem membros, somente com a boca fechada, esta boca que ao abrir engole construções e vidas. Não há como eu saber, mas creio que esta bomba não me alcança, esta bomba não me alcançará.

 

Viviane de Santana é poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, publicação independente, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.

 

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122ª Leva - 07/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Anderson Henrique

 

Foto: Bárbara Bezina

 

Máscaras

 

“O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.”
(Nelson Rodrigues)

 

Não sei dizer quando começou a obsessão com as máscaras. Quando percebemos, todos estavam com seus rostos cobertos. Ontem mesmo, sentei no ônibus ao lado de um leopardo. No topo da cabeça, duas pequenas orelhas pontilhadas de manchas pretas sobre um fundo amarelado. Julguei que o objeto fosse de acrílico, mas era plástico. Havia dessas coisas: as classes mais baixas não dispunham de muito dinheiro para investir na confecção e acabavam improvisando. O resultado, às vezes, era desastroso.

Bela máscara, falei na primeira oportunidade, tentando chamar a atenção do leopardo. Quando ele se voltou para mim, pude ver seus olhos amarelados pelo corte no adereço. Talvez eu não tenha mencionado, mas havia máscaras para olhos também. Começou com as lentes de contato coloridas. Adiante, os rumos da criatividade. O leopardo não respondeu ao meu elogio. Ergueu uma das mãos como uma garra e fez um som gutural. Cumprimentei-o com um aceno e seguimos viagem.

Cheguei ao trabalho atrasado para variar. Pablo veio à minha mesa e reclamou dos prazos do projeto em que trabalhávamos. Usava uma máscara de abracadabra. Alternou o assunto e passou a me contar sobre suas aventuras no final de semana. Sentado sobre a bancada, falou como se as palavras tivessem prazo de validade.

ABRACADABRA

ABRACADABR

ABRACADAB

ABRACADA

ABRACAD

ABRACA

ABRC

ABR

AB

A

Alguém se aproximou sorrateiro. Colocou uma das mãos sobre o ombro de Pablo e perguntou sobre o andamento do projeto. Ele disfarçou o embaraço pelos atalhos da bajulação. Espetacular essa gaivota, chefe, disse referindo-se à máscara que nosso gerente usava. É um mandrião, ele corrigiu. Pablo tentou escapar da situação como pôde: ave magnífica, sem dúvida. Acabei por ajudá-lo. Abri uma planilha no computador e mostrei ao chefe que o projeto estava no prazo. Mantenha-o em dia, ele disse. Pigarreou, ajustou o nó da gravata e saiu. Tá sabendo que ele vai ser promovido no final do ano? Pablo perguntou assim que o gerente cruzou a porta da sala. Sei. E que diabos é um mandrião?, emendou. Virei-me para o computador e fiz a pesquisa: Mandrião — Ave da família Stercorariidae, conhecida pelo cleptoparasitismo. Cleptoparasitismo, nova pesquisa: forma de interação em que um organismo rouba recursos de outro organismo, geralmente um alimento que o outro capturou ou deixou armazenado.

Fui atendido por um chacal fêmea quando fui ao banco na hora do almoço. Tirei do bolso o boleto que precisava pagar e avisei que o código numérico não estava funcionando. Estranho, ela disse. Pegou o papel e começou a digitar a sequência no computador. Por que um chacal? O chacal uiva até a morte, ela disse. Olhou para os lados, confirmou que não era observada e segredou: é o que tenho vontade de fazer todos os dias, gritar até a morte. O chacal não é o símbolo de Anúbis? Ela fez que sim com a cabeça e a máscara acompanhou o movimento, as orelhas compridas do animal sacudindo para a frente e para trás. Os cabelos loiros também balançaram, escapando pela parte de trás do adereço. Ela se levantou, pegou um papel da impressora e me orientou a usar o novo código de pagamento.

Combinei um drinque com a mulher-chacal no fim daquele dia. Ela estava sentada em uma mesa próxima ao balcão quando cheguei. Não foi difícil identificá-la, apesar de não estar mais transfigurada no cão egípcio. Usava uma máscara peculiar.

É maia?

Não, é celta. Uma amiga trouxe de fora.

Deve ter custado uma fortuna.

Custou.

Você bebe um chope?

Não. Um Martini. Com duas azeitonas.

Pedi as bebidas ao primeiro garçom que passou. Um chope e um Martini. Com duas azeitonas. O homem-mosca anotou no bloquinho, pediu licença e se retirou para atender outra mesa. O que significa?, perguntei ao examinar a máscara que ela usava. Era toda moldada em couro, com ramificações que se entrelaçavam de uma extremidade a outra, muito parecida com a folha de uma árvore. Os olhos estavam expostos pelas duas aberturas na parte frontal e o corte para o nariz descia em uma abertura até a boca, por onde escapavam lábios pintados de azul. Tive vontade de lambê-los. Não significa nada, ela respondeu. Puxei assunto falando de trabalho, mas ela retesou a conversa. Débito, crédito, transferência eletrônica. O que quer saber? Sorri em resposta, aproveitando para experimentar a bebida que havia acabado de chegar. Ela prosseguiu: se é para falar de trabalho, vamos morrer de tédio. Recuei e disse que entendia. O que faço também não é nada interessante.

A conversa engrenou. Sorrimos de forma espontânea. Sorrimos quando sorrir significava apenas ser cortês e também quando era apenas o pincel da novidade falando por nós. Seu nome era Inês. Nome espanhol. Pura, casta ou cordeiro. Pesquisei o que podia sobre o nome antes do encontro, mas, na hora, não tive coragem de mencionar. Inês não me parecia nada daquilo. Faço aniversário hoje, ela falou. Sério? Não, é brincadeira. Só queria ver sua reação.

Fomos para minha casa depois do bar. Entre lençóis, ela confessou: lembra da história do aniversário? Lembro. Faço 35. Então era verdade? Era, foi um dos motivos de ter aceitado seu convite. Fui até a geladeira e peguei um bolinho recheado que estava guardado há semanas, sobras do aniversário de um sobrinho. Enfiei um palito de fósforo no doce e levei até o quarto. Risquei na lateral da caixa e acendi. Não dá para comer, mas você pode fazer um pedido. Ela fez. Depois apagou a chama com um sopro cuidadoso.

Inês examinava alguns livros em minha estante quando regressei da cozinha. Observei-a de um único ângulo, mas pude vê-la por vários outros. Os cabelos que escapavam da máscara estavam amassados e desordenados pelo tempo na cama. Vi a mulher um pouco acima do peso e as dobrinhas entre a barriga e as costelas. Pude ver os homens que antes ocuparam meu lugar; homens de prazer e dor, homens que sequer foram homens. Havia uma mulher também. Única, mas inesquecível. Vi um aborto, o medo dos filhos na hora errada. Vi seu primeiro emprego, uma loja em um shopping, horas de pé em um salto desconfortável atendendo a desejos e a mau humor. Trocou de trabalho outras nove vezes, o salário pouco, a perspectiva inexistente. A vida no banco não parecia tão ruim daquele ângulo. Vi expectativas estéreis. Casa, marido e filhos afogados em uma banheira rachada. Vi que gostava de artesanato, que decorava seu apartamento com pequenos apetrechos de materiais reciclados. Fazia maratona de comédias românticas no sábado à noite, enredos repetidos que não tinham qualquer relação com sua vida amorosa. Foi à Índia certa vez. Juntou dinheiro e foi. Classe econômica, hotel modesto. Economias que custaram uma fortuna. Conheceu um guru por lá. Deuses de mil braços e conceitos difíceis de explicar. Destruir para construir. Não era tão complicado. Queria ir para o Egito também, mas não deu. Não por enquanto.

Ah, então você também gosta do Egito!, ela comentou ao dedilhar a lombada de um livro sobre Nefertite. Por isso reconheceu a máscara do chacal. Fiz que sim com a cabeça. Ela tirou o livro do lugar e começou a passar as páginas. Ainda estava nua, apenas a máscara celta a ocultar o rosto. Comentei o que havia descoberto naquela tarde, que o chacal sequer existia no Egito. Não pude ver a expressão de curiosidade por trás do adereço, mas sabia que tinha despertado sua atenção. Prossegui: alguém confundiu o chacal com um bicho parecido, tipo um cão selvagem, e a lenda pegou. Imagina só: você é um deus, e os súditos o associam ao animal errado. Ela sorriu. Seus lábios não estavam mais azuis, as cores espalhadas por partes distintas de meu corpo.

Pablo soube de minha paixão por Inês após dois meses de encontros. Sem o menor vestígio de hesitação, me fez a pergunta mais impertinente de seu repertório: e então, como é o rosto dela? Repreendi meu amigo por sua indiscrição, mas ele foi insistente. Tirou o telefone do bolso, pressionou a tela algumas vezes e me pediu segredo. Era a foto de Cláudia, uma estagiária que trabalhava no RH da empresa. Pude reconhecer os olhos castanhos e os cabelos anelados que se escondiam por trás das máscaras que ela costumava usar. A foto trazia o rosto nu de Cláudia, que sorria e fazia uma posição atrevida para a câmera. Sardas avermelhadas polvilhavam as bochechas, a curva do rosto era angular e pequenas depressões se formavam nas extremidades dos lábios. Era uma jovem de beleza excepcional. Não diga nada a ninguém, meu amigo repetiu. Estamos saindo há apenas uma semana. É nosso segredo. Concordei com a cabeça, ainda entorpecido pela imagem que há pouco estava diante de meus olhos. Pablo, com a indolência que lhe era peculiar, voltou a perguntar: e Inês, como é? Fui evasivo mais uma vez. Afirmei que ela era uma mulher distinta, que não havia revelado seu rosto ainda.

A conversa com Pablo inquietou meus pensamentos. Transformou uma leve curiosidade em obsessão. Uma semana apenas, uma semana de envolvimento com a estagiária, e ele já estava com a foto do rosto dela em seu telefone. O desejo pelo rosto de Inês não era novidade, mas eu estava aguardando a ocasião apropriada.

Inês não pôde se encontrar comigo naquela noite. Sozinho em casa, elaborava hipóteses quanto ao formato de seu rosto. Tentei dormir, mas estava agitado. Fui até o computador e digitei um endereço. Era um site pornográfico. No menu de opções, selecionei a categoria mais requisitada pelos usuários. Um filme apareceu no monitor. A atriz, apenas de máscara, provocava o homem. Serpenteava em sua frente, enrodilhando-se em seu corpo, tocando-o onde ele precisava ser tocado, ora gentil, ora com firmeza. Copularam, treparam, satisfizeram-se. Em poucos minutos, o ápice: a atriz remove a máscara e a ejaculação é despejada em seu rosto. Maskless facial cumshot. O gozo, o pensamento em Inês.

O assunto das máscaras foi revisitado em sonho. Inês relutava ante meu pedido. Exigiu explicações ao ceder. Queria saber a razão pela qual eu estava sempre com o mesmo adereço. Não tem mistério, respondi. É só porque todos usam. Ninguém estranha que você esteja sempre com a mesma?, ela emendou. Só no começo. Depois deixa de ser relevante. Satisfeita com minha explicação, Inês levou as mãos à cabeça e revelou a face. Havia um rosto de serpente sobre o adereço. Eu podia ver as presas e a língua bifurcada. O susto me fez recuar. Inês ergueu novamente as mãos e retirou a pele escamosa, uma segunda máscara. No lugar de seu rosto, um rubi de cor púrpura, a face sólida como a pedra de sangue. Ela seguiu, desgrudando camadas e mais camadas de seu rosto. Assustado, acordei.

Sou direto em nosso encontro seguinte. Digo a Inês que desejo ver sua face. Ela é reticente na resposta e se esquiva. Digo que sei o quanto de intimidade aquilo exige de um casal. Pego em suas mãos para convencê-la de que já alcançamos aquele estágio, mas ela profetiza que não deveríamos nos apressar. Acontecerá quando houver de acontecer. Minha consciência discorda, mas aceito o argumento. Daria o tempo que Inês julgasse necessário, mesmo que a recusa gotejasse dúvidas em minha consciência.

Inês adormeceu em minha cama certa noite após esgotarmos nossas energias. Cedi à tentação diante da máscara a evocar o rosto de Circe em uma das pinturas de Waterhouse. Virou-se para o lado durante um pesadelo e balbuciou palavras incompreensíveis. A máscara prendeu no travesseiro e saiu do lugar, revelando parte de seu queixo. Levei uma das mãos até seu rosto. Com um dos dedos puxei o adereço com delicadeza, mas Inês despertou. Levantou-se da cama, preocupada em cobrir o rosto e destruiu qualquer reconciliação com olhos de fúria.

Levou algum tempo, mas consegui convencê-la a perdoar meu gesto impensado. Um caminho de desculpas e agrados até reconstruir o que possuíamos. Um pedido especial feito a um artesão a convenceu em definitivo. Presenteei-a com uma pequena estátua do reencontro de Ulisses e Penélope. Aos pés de Ulisses, a inscrição: Inês. Abaixo de Penélope, meu nome. Ela colocou o objeto sobre a estante e, emocionada, atirou-se em meus braços. Tomou então a decisão que eu tanto ansiava: pôs a mão sobre a nuca e removeu a máscara. Vi seu rosto alvo, um equilíbrio entre a simetria e um leve desalinho. Os cabelos loiros caíram em suaves cachos sobre a testa e pelos ombros. A mulher diante de mim revelava uma beleza que minha expectativa não tinha sido capaz de elaborar. Chegou então minha vez. Tomando a iniciativa, Inês colocou a mão por trás de meu pescoço e retirou a máscara. Surpreendeu-se ao ver os olhos castanhos, a boca fina e a pele marcada pela barba por fazer — a face idêntica à máscara que há anos eu usava.

 

Anderson Henrique nasceu no Rio de Janeiro e é formado em Letras. Possui textos publicados em coletâneas e premiados em concursos literários. Seu livro de estreia, “Anelisa sangrava flores”, foi publicado em 2014 pela editora Penalux. “Chame como quiser” é seu segundo livro.

 

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121ª Leva - 06/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rita Santana

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

A FEBRE

 

Talvez a cidade seja vista por mim de forma panorâmica, como se eu não estivesse dentro dela, morando nela, mas de passagem. Do meu ônibus, olho. Mesmo que eu morra e seja enterrada aqui, eu não sou deste lugar. Não tenho vínculos sentimentais com as suas ruas nem com a sua gente. Gosto muito das casas que resistiram ao tempo e permaneceram intactas no silêncio arquitetônico da Capital, maculadas pela poluição. Eu aprecio, observo e penso as pessoas e o espaço. Mas não sei a cidade. Se soubesse, eu estaria nela. Não estou. Os nomes das ruas começam a ter algum significado dentro de mim. Os sacolejos do ônibus, curvas e freadas bruscas tiram o meu pensamento do foco, e a minha atenção se desvia para alguém, um ponto, outra viagem, um cabelo, uma camisa, um cheiro. É na minha terra que meus mortos morrem. Vejo na mesma calçada, o edifício Haroldo Lima e a igreja Universal do Reino de Deus. Quantos paradoxos atravessam-me! Tenho que fazer a síntese para não sucumbir, surtar, sofrer! Sinto que sou vigiada.

Às vezes, ela, Verônica, sente certo pertencimento, sim, certa aderência à cidade. Confessar talvez fosse resgatá-la para o lugar do fracasso. A conquista dos espaços é ainda mais dura do que supunha desde sempre, e os anos passam. O que há é vida e desengano. Dentro, memórias amontoadas e irresolúveis girando como os discos de vinil que vivem dentro do quarto-e-sala no Largo 2 de Julho. Um sangramento inconfesso e umas lembranças, mais doloridas hoje que ontem, atormentam-na. Veste uma calça jeans, um mocassim vermelho, surrado pra caramba, e aquela velha blusa de malha macia, mole, com pequenas flores brancas sobre o fundo vermelho. O cabelo solto com umas flores de crochê, cachos mais definidos, fios hidratados, alguns nós embaraçados, creme. Cabelo de mulher negra: macio, mole e muito fino.

– Sinto-me seguida, guiada nas palavras que uso, nos gestos. Como se houvesse uma inteligência a conduzir – ou tentar –os meus passos. Mas isto não é da sua conta, ouviu? Não é da sua conta o que não quero revelar. Não gosto da delatora ignorada que me espia e talvez revele falsas impressões sobre mim e sobre a minha intimidade. Originalidade, minha cara, tenha originalidade! O que em mim interessa a você, diz respeito aos seus inconfessos desejos? Nada! Por que, então, me olha? Demônios!  Sinto que aqueço e sangro por dentro. A boca inteira traz um gosto de sangue, e a cabeça – toda ela – parece conter a mesma sensação. Sinto-me sozinha, completamente sozinha em todas as minhas horas, sem que exista um par. Apenas a algoz que denuncia as minhas infâmias. Déspota que não olha pra si mesma e não tece seus próprios tecidos, apenas olha e é incapaz de manipular o tear; espia e manipula verdades, informações. Uma mulher! É mulher quem me delata. Habito um vestido de tecido barato, amarronzado, com manchas pretas que remetem à África, isto sim! Como acreditar no olhar que interpreta e é dono das verdades em narrativa de vida alheia? O olhar que orna o real como bem lhe apetece. Acreditar na edição desse olho, na sua montagem autoral?! Cacete!! Sinto frio e sede! Visto calafrios e enigmas. E não desisto de buscar a Poesia.

É uma quinta-feira! Início de tarde. Vejam – eu preciso cumprir o meu destino. O sol está muito forte e aquele ônibus não entra na estação da Lapa. Logo, é preciso caminhar até lá subindo o Vale do Tororó. E ela o faz, enquanto olha as vendedoras ocupadas com suas mercadorias, empurrando o pedestre para o asfalto com seus caixotes que me lembram o cenário de peças teatrais que vivem grudadas dentro de mim. Preciso acender velas. Perdão! Às vezes, caio em abstrações e penso em mim, no meu nome. Ela, Verônica, nossa personagem, vê beleza nos artefatos, nos objetos expostos, nas cores das malhas grudadas nas manequins cada vez mais próximas de um ideal de feminilidade baiana. Mas, apesar do cansaço, parece sorrir.

– Não, eu não gosto da Lapa! Eu, verdadeiramente detesto a Lapa e tudo o que a cerca! É tudo muito áspero, seco, escuro, sujo e concreto. O subsolo é uma prisão! Piso ainda nesta calçada sem olhar por onde ando e sei que preciso estar no agora para vencer o presente a cada passo: e não tropeçar! Mas como está difícil abandonar o passado. Como hoje ele me atravessa e insiste em lembranças antes apagadas! Hoje, sangro um pouco mais internamente. Os anos não me livraram de algumas imagens. Alguém para telefonar caso aconteça alguma coisa comigo? SAMU! E O Sol Também se Levanta desatinando sensações da leitura de tantos anos atrás, como se pudesse me levar de volta àquelas touradas, e às palavras que me trouxeram tanta estranheza; o cheiro das páginas do livro na memória. E o almoço? Comer sozinha. Preciso comprar um abacaxi. Falta-me oxigênio no cérebro! Gosto amargo de sangue na boca, vertigem nos olhos. Confusão de sombrinhas, pernas e poemas caídos no chão. Rostos de gente que não é a minha gente e uma perturbação nos dedos. O suor. Aquele mau cheiro de minha avó em meu corpo, os panos na pele, as pulseiras de ouro de tia Tonha no cérebro. E a febre nas pernas!

Parece tropeçar! Não consigo acompanhá-la agora. Ela, entre a multidão de trabalhadores, é apenas mais uma a levar empurrões, olhares e palavras de estupro. Como são comuns as palavras de estupro nas ruas dessa Bahia! Vence as escadarias e em algum momento se apóia em um homem, sorri uma desculpa e para. Depois prossegue sendo levada pela pressa, pelos atropelos, pelos ambulantes, pelas mercadorias, pelos dvds piratas em abundância atraindo seus olhos de fadiga.

– Estranhezas. Sensações. Impressões. Eu queria estar naquelas páginas novamente. Lembrança da alma em sincronia perfeita com os tijolos de uma cidade cujas cores não seriam as do romance lido há tanto tempo, mas cores de um amor abortado entre a baía de Todos os Santos e a baía do Pontal. O pôr-do-sol na Sapetinga, um deque, promessas inauditas. E o meu corpo suando frio enquanto resisto e observo o meu ceticismo quanto à chegada. Sempre temi encontrar em uma cidade o meu passado, a minha intimidade de outras vidas. Não perseguirei Toulouse, nem o Engenho de Santana, nem Milagres, nem Carcassone. Um chá e uns incensos talvez resolvam o meu drama, a minha tragédia. Uma caipirinha e um beijo. Eu preciso mesmo é de um beijo! Não, a boca está muito seca. Quero água! Que calor!

São quase duas horas da tarde. A fome dispara o alarme no corpo da mulher que sigo e as suas pernas doem; acho que tremem; são finas e fracas. Da distância em que estou, parece que cambaleiam um pouco. Verônica lamenta a sua peregrinação e outras mulheres em todo o mundo também o fazem, entretanto, seguem. Mas é apenas de Verônica o nosso olhar, os nossos gestos inúteis de ajuda, o nosso riso tentando entender a sua alma e inventar fingimentos para o seu caminho, construindo a trilha da sua chegada. Pensando no tempo para que a narrativa se cumpra. Como entender Verônica assim, entre a multidão que se esbarra na estação da Lapa correndo para alcançar, antes de qualquer pessoa, aquele degrau vazio da escada rolante – sempre tão cheia, insuficiente e suja – como se estivesse fugindo de algum suspeito? Suspeitando de tantos no medo moderno. Talvez outros já intuíssem a sua existência. Mas não tivessem querido alcançá-la na sua solidão sem par; talvez a temessem. Não havia para a nossa Verônica a parceria no mundo, a companhia absoluta, mesmo que invisível. Ela passava apressada pelos dramas alheios esquecidos em estações, em carteiras de identidade perdidas nos banheiros fétidos das rodoviárias, em ruas fétidas do centro de São Paulo, nos arredores das velhas catedrais, nos fétidos interregnos de Copacabana.

– Lembro daquele homem por quem me permiti ficar apaixonada por meses razoáveis. Ele me beijava em francês e queria que eu entendesse a sua língua. A língua eu entendia bem, sabia entendê-la, mas o idioma? Assim? De supetão? Não…  E, ainda por cima, dissera que eu era a primeira a não entender a sua linguagem, me deixando estupidamente grilada durante uns tempos. Depois, dispersei o pensamento, mas de vez em quando me vem – não mais o homem, aquele rosto eu (quase) esqueci – mas o substantivo perca, inexistente no idioma oficial, infelizmente. As minhas perdas nunca deixarão de ser, realmente, intimamente, as minhas percas, muito mais lindo, mais forte, mais palatável, mais brasileiro, mais meu, mais de quem sabe intuir a língua e lambê-la. Exaspera-me a ociosidade da gramática. Fico feliz quando encontro percas na boca do povo. Percas são pérolas na boca do povo.

Lá vai ela! Na sua arrogância de personagem! O sol penetra seu tecido e enfraquece suas certezas. Titubeia um pouco tonta, enquanto sobe a ladeira, mas sabe que chegará. A pressão está caindo por causa do sol, da fome e do cansaço, da menstruação próxima e das frustrações políticas. Respira um pouco e para diante do vendedor de água de coco. Bebe toda a água sentindo-se revigorar imediatamente. Agradece ao moço oriental com um sorriso e segue levando consigo o seu encantamento, sua simpatia heróica, seu charme silencioso. O sol parece que está posto sobre a Praça da Piedade.

– Quase morri outro dia atropelada por um ônibus defronte ao quartel do corpo de bombeiros. Eu atravessava a rua distraída – talvez pensando no caruru da corporação suspenso por falta de verbas ou talvez pensando naquela cor para um vestido ou na intensidade da cor ou nos homens do calendário, na água, em Luma – quando ouvi um freio brusco ao meu lado. Segui, sem olhar a face metálica da morte. E agora aqui. Estamos aqui! Estou perdendo a ortografia.

Um carro buzina agora mesmo diante do seu corpo quase curvo com o peso das sensações. Sequer olha para o motorista e segue, querendo chegar em casa. A avenida Sete não percebe o episódio. Os transeuntes transitam sonâmbulos entre os ambulantes, volantes, volições, buzinas, pernas, barracas e desejos. É preciso segui-la antes que se perca ou morra. Para no mercadinho e compra um abacaxi maduro e cheiroso, além da farinha. Olha as pimentas frescas. Pensa se verá aquele rapaz suave que a deixa tonta. Ou sou eu a pensar naquele rapaz suave, doce, leve, lépido? Quem fica tonta? O repolho roxo é pequeno. Pensa na sua textura e na sua cor, no barulho da trituração. Chega ao edifício com o cansaço das operárias. O elevador está quebrado novamente e somente ela, àquela hora, sobe a escada. Quase sempre que sobe aqueles degraus, é rezando o pai nosso. Vê as plantas da vizinha sobre o muro e sente uma alegria, uma espécie de consolo, subversão da sujeira. As chaves. Abre a porta, segurando a sacola com os livros entre as pernas.

– O apartamento me resguarda. Tiro os sapatos, respiro e entro. Deixo os livros no sofá e abro a janela da sala. Beber água geladíssima! É a ordem do organismo inteiro. Embrulhos sobre a pia. Estico as pernas no sofá e tento relaxar um pouco, sacudo as pernas, pés descalços. O suor ensopou toda a roupa e o meu rosto. Com as mãos, tento amenizar o suor. É preciso me esticar antes de qualquer coisa. Penso no quanto devem ter me achado repugnante na rua, com tanto suor. Penso no caldo de cana que eu detesto porque um dia me causou enjôo. Alguns rostos me viam todos os dias saindo para a estação às cinco e meia da manhã, driblando os camelôs e toda espécie de ambulantes que organizavam suas mercadorias. As engenhocas eram papelões, lonas e ferragens que se transformavam em tendas. Olho o mofo das paredes do apartamento recém pintado, lembro das baratas que surgem à noite, e da velha casa do passado com tantos mofos e telhados pictóricos, bicicletas e poço, cisternas, tonéis e túneis. Os sonhos que me perseguem naquela casa. A profundidade escura do passado. Os gritos das mulheres violentadas, agredidas, ecoavam nas paredes do edifício. Meus gritos e meus silêncios também formavam o coro no poço do elevador.

Liga a tevê para se sentir acompanhada. Certifica-se de que não há homens na obra de um sobrado próximo. Despe-se. Antes, olha-se ao espelho e percebe uns sinais no rosto, típicos da família do seu pai. Umas pintinhas pretas. Segura os seios suados, suspende-os, aperta-os e sorri. As rugas sobre o nariz delineando o tempo. Caio chega confuso à memória. Vontade de ter morangos frescos. Perdi os tomates maduros na geladeira. O banho libertá-la-á de tudo aquilo, do cansaço, da dor nos tornozelos, nos músculos. Olha os crisântemos dentro do jarro azul e sabe que eles, mesmo murchando, a salvarão de Salvador e da sua máquina incessante de moer vidas, comer pernas e devorar os sonhos mais delicados, pelo menos durante uma semana. Pensa em O Jogo de Ifá de Sonia Coutinho. A cidade come os nossos sonhos com as impossibilidades. A cor da pele aqui também é uma conquista cotidiana, com guerras impensáveis. A cidade ilumina os sonhos da gente com os espaços ensolarados e cheios da arquitetura que não ilude mais a sua/minha expectativa. Cuidado ao partir, cuidado! Qual é o seu interior? A pergunta ressoa pelo chão frio. Umas lembranças teimam em lhe invadir hoje. A tarde começa a ficar nublada, o peso das nuvens recai sobre o seu ânimo.

– Observo o recrudescimento das cenouras na geladeira. Se ao menos eu fosse fácil, Deus! Por que me deste a visão? Alguma coisa na cidade me aprisiona. Serei eu a minha própria cela? Meus naufrágios naqueles navios noturnos serão criados pela minha própria mente? Haverá tempo de ser quem eu pretendia? O meu projeto de gente? Ou terei que atravessar eternamente o sacrifício e o desvio do túnel? Amolar a faca e imolar a garganta.

A água do chuveiro hoje cairá por mais tempo. Pega a toalha e começa a se enxugar, mas não quer sair; volta para a ducha como se ainda não tivesse entrado e tenta concentrar-se novamente no banho, no agora. Esforça-se para não pensar na conta do telefone que já chegou, mas pensa. Depois disso, o de sempre: cochilo, almoço, janela, lixo na porta, correspondências, louças, lousas. Novamente tenta seguir o ritual do banho, mas veio o calafrio ainda debaixo da água. Sabia da sua força, por isso buscou a toalha com sofreguidão. Era tarde, caiu lentamente no chão e quis paralisar o corpo, conter o bater dos dentes, mas era inútil. Soergueu-se com desespero por pura consciência da solidão e por medo de morrer ali tremendo de frio. Consegue chegar até a sua cama e cobre o corpo com o edredom. Paralisa os movimentos e lentamente consegue escapar do tremor. Permanece apenas respirando, imóvel. O corpo está quente, as pernas ardem.

Veio o incêndio. A partir daquele momento, todos os velhos sobrados ruíram sobre aquela mulher. A sensação de abandono entrou pela janela com as lufadas de fumaça que se misturavam na atmosfera lá fora. Ela olhava assustada. As labaredas cresciam no interior do prédio defronte do seu edifício. Conseguiu levantar e caminhar até a janela. A imagem da desolação dos moradores, a agitação e a gritaria. Dentro de si, tantas vozes querendo falar. E o calafrio oprimido apenas pelo medo de perecer sem defesas. Desligou a televisão e deu um telefonema inútil. Não havia conforto do outro lado nem reconciliação nem socorro.

De repente, é noite. Ela ouve a música de olhos fechados e começa a dançar na sala. Fica em pé na escrivaninha e vê o mundo mais amplo e se vê maior diante do mundo e sente desejo de abraçar toda a Baía. Há mosquitos circulando o espaço, a lâmpada e uma vontade de comer chocolate e lambuzar a boca. A música de Ella penetra seus sentidos e os tecidos ficam arrepiados. Ela faz movimentos leves do balé clássico que aprendeu em aulas de dança afro com Zebra e murmura a cantiga, o refrão. O corpo sua e o vento frio penetra as prateleiras da estante. Toulouse! Verônica agora caminha sozinha nos labirintos da cidade cor-de-rosa. Olha a feira nas calçadas e os objetos vendidos ali. Garrafas, antiguidades, roupas usadas, porta-retratos, frascos de perfume. Músicos se apresentam em cada esquina e dão ao ar uma atmosfera agradável de que a arte está em todos os lugares, principalmente nas ruas. Estala os dedos e morde os lábios ao som das Timbilas, marimbas e dança. Eu também desejo dançar, Verônica! Mas ela não me ouve, apenas grita: Nunca mais na sua vida ligue para mim. Você não sabe que hoje é o meu aniversário! Ouço Billy, ouço Ella. Há sussurros em seus lamentos. Ouvimos outrora Sarah Vaughan em uma vitrola antiga, bebemos vinho. A noite ia serena e carregada de silêncios, carícias – nunca houvera carícias ali, e escuridão. Apenas as sombras que vinham do beco dos artistas traziam o movimento do mundo lá fora e as músicas que se misturavam com as nossas.  As nossas sombras dançavam no apartamento; sim, agora eu também danço. Ele tremia de uma forma violenta e eu nunca soube perguntar por que os tremores, por que a impotência, por que não aprofundamos absolutamente nada, sequer as carnes. A arquitetura da cidade espezinha os que vêm do meu interior. Preciso renovar o meu armário, entende? Sair desta! Cair fora! Preciso perder a minha própria pele e emergir outra figura. Ainda quero perseguir o cometa Lulin ou qualquer outro astro que me faça sair da minha própria atmosfera doméstica, caseira. Pensei que a ideologia estivesse enterrada e morta, mas não está. O elevador quebrava sempre que eu tentava buscar água mineral do outro lado da rua, numa esquina em que uma costureira aplicava o seu comercial na janela: costura-se, conserta-se. E eu pensava: Morre-se! Na entrada do meu apartamento: Morre-se. Como em Pompeia: A Casa do Poeta Trágico, mas, aqui, apenas: Morre-se! O vento entrava pelo apartamento inteiro e sobre a minha cabeça cansada destilava um ar frio de resgate dos sentidos perdidos durante o sol sem almoço, sem água. Aquele homem proferia as promessas do passado e beijava a minha boca como sempre, engolindo tudo no tempo da eternidade. E ele já não era. Os bombeiros erguem suas escadas, gruas, repórteres, gritos, e os moradores do sobrado que chegam. Mulheres correm. Uma delas se deixa ficar na calçada com a mão na cabeça, segurando o pensamento que teima em fugir daquele lugar, o armário, as contas, as roupas dos filhos que estavam na escola, fogão, prestações do ferro novo, a narrativa e a minha vida em incêndios. Sinto o calor, padeço. O peso do seu nome nas costas e uma vontade de rezar. Chorar por aqueles a quem amara. Os amores perdidos. Enxugar as faces de cada um; perpetuá-las em seus lençóis até a eternidade. Buscando entre os astros o abraço do pai, sem que o tocasse, entendendo a comunicação das energias, onde é prescindível o toque. Assim ela o fazia: enxugava as dores dos homens a quem amara no seu véu, no seu colo abnegado, mas falível, inquieto, insatisfeito, febril e irado. Santo sudário de imagens, memórias. Expulsá-los do seu templo de várias formas, a todos, num só ímpeto! Com a ira santa das fêmeas que despertam para a indiferença eloquente do macho; a ira das viúvas afortunadas que gritam e são ouvidas na arena. A minha verônica é mulher de sanhas e louca, por isso, Santa. É mulher de êxtases quando toma o chá, quando se entrega na meditação, quando goza em machos e em preces, quando faz silêncios cíclicos. E quando dança! Agora eu ouço o Bolero de Ravel no circo com todo o grupo presente, cumprindo a determinação cênica do meu diretor, indo pra tantas viagens desconhecidas, quase sem volta. Pedra. E Ele na vidraça da janela, com palavras de um poema destinado a outra, a ameaçar as minhas/suas certezas. Ela cresce. Sinto que o seu tormento também a mim me atormenta um pouco. Terei fome, também eu? Terei também eu estas víboras dentro de mim e do meu estado inerme de existir? Eu, a narradora fria que se surpreende ao também suar? Seria da narradora também o suor? E o orgasmo? Serei eu de natureza gozável também e humana? Terei também eu um sexo e um discurso, assim como as verônicas que se mostram nas telas, nos véus? Eu beijo…  E o meu nome? Estou no Beco dos Artistas e me observo diante de uma parede de bar pintada, enquanto o artista plástico tenta, bêbado, explicar o seu processo criativo, certamente bem mais interessante que a obra, caso conseguisse expressá-lo. Era Sarah cantando e você viciado, sem que eu soubesse dos rituais em cocaína. Equus no palco e você tremendo ao meu lado, acho que por puro tesão àqueles cavalos magníficos, ou a cocaína? E tantos desejos circulando no meu sangue, perpassando vertigens e já não era você o homem com quem eu tentava uma transa séria, madura: – Foi bom pra você, mas eu estou aqui, desse jeito ainda! Houve uma segunda vez? Não sei! Não sei! Os diários, as cartas e as receitas médicas soltas no chão do apartamento, expostos aos olhares dos amigos que chegavam e os amigos dos amigos desconhecidos que atropelavam minhas palavras e; também eu bêbada, atropelada pelo ônibus durante a duração daquele beijo. Eu também vivi tudo isso, em algum lugar! E você chegava de outro encontro. E aquele beijo, após licores caros e queijos fartos à mesa de um restaurante onde eras percorriam todos os cantos do muro, hermeticamente fechado, consolidando um discurso de alienação do mundo lá fora. E o pedido para que eu fosse sentar ao seu lado e o não seguido do seu corpo me beijando até hoje? Onde estou? A pista traz luzes e é noite. Luzes de estrelas na estrada. Quantas luzes! Quem guiava o voiture enquanto nos beijávamos na estrada de Montppelier a Itacaré? Enquanto nos refugiávamos nos cafés das calçadas para apreciarmos aquele céu azul, ainda sem trio elétrico, nem turistas invasores? Ele nunca soube que você era uma artista! – ele nunca ouviu o que você falava, nem o seu silêncio! Ele só via o seu umbigo e o seu pênis. Estou perdendo o desejo de continuar sendo esta mulher. Falo com paredes, mas principalmente, com barcos e homens do mar, inalcançáveis. Queria me despir de todas as tibiezas. Sou muito fraca! Muito fraca. Ele nunca soube que você falava. O beijo no átrio da igreja de Santo Antônio com a lua na boca quase a dizer que ama e o infinito sutil dentro de mim, como se fôssemos eternos naquele lugar diante do sagrado e da heresia da lua. Os sapos continuam caindo do céu, minha orquídea! Como eu entendo os sapos caindo do céu sobre nossas cabeças naquele filme. Através da garrafa de vinho ou da taça de Martini, ela viu a imagem da mulher, cuja sombra dançara com ela a noite inteira e, ao perceber que tinha sido vista, correra para a parede e fora aprisionada como musgo, pelo mofo esverdeado. A outra me olha assustada pelo flagra e parece tornar-se uma ninfa, um fauno, uma árvore, talvez um irôko, um musgo. Ou sou eu a figura esmagada no mofo cujos olhos de espanto ainda gritam dentro de mim? Suo, suo, suo e fecho os olhos para um longo beijo. Daquela mulher, eu só conseguira arrancar o nome: Berenice. Mas a vida sempre escapou-me.

 

Rita Santana é uma ilhoa! Em essência, cada vez mais solitária e dedicada à escrita de forma indisciplinada, talvez caótica, mas com determinação absoluta. Publiquei em 2004 o livro Tramela (prêmio Braskem/contos); em 2006 o selo Letras da Bahia selecionou e publicou o Tratado das Veias (poesia.  Alforrias (poesia) é uma publicação da Editus/2012 e consta da bibliografia do Mestrado em Letras da UESC/2018. Sou atriz, o que facilita vivenciar meus dramas como se assistisse a um espetáculo, com certo distanciamento, e professora, o que me possibilita trocar aprendizagens contínuas e enlouquecer um pouco mais. Profundamente triste com o destino do País: daí a necessidade cada vez maior da Arte e do seu desnudamento.