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121ª Leva - 06/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anchieta Mendes

 

Pintura: Cláudia R. Sampaio

 

QUANDO A CHUVA MOLHA A ALMA

 

Mercedes viu o pai, naquele dia, chegar bêbado. O rosto avermelhado, a voz travada. Quando bom, as palavras saíam com dificuldades. Poucos entendiam os significados. Lá fora o céu empalideceu. O vento varria gravetos e as árvores envergavam. As galinhas corriam no terreiro em algazarras. O céu escurecia rapidamente. Sua irmã Francisca chegou da vizinha resfolegante. “Cuida! Vamos fechar as janelas. A chuva está vindo como nunca”.  O pai deitou-se no chão frio como de costume. Resmungou qualquer coisa indecifrável. Não se interessou pela chuva a vir, apesar de sempre esperar por ela. As outras irmãs fecharam-se no quarto. Helena precisou de ajuda de Isabel, a irmã mais próxima.

Mercedes ajudou as irmãs o mais rápido possível. Correu à janela para ver a chuva. Não tinha chegado, mas o cheiro estava no ar. Olhava para a estrada à distância. Olhava para o pai na sala deitado no chão, a não sonhar com a chuva. E ele não a viria tão torrente, tão forte capaz de deixá-los quase à deriva. A mãe deixou-o morto e não precisou dele para buscar formas de não se envolverem no dilúvio. Por mais que sentisse dó dele, Mercedes sabia, no íntimo, a cada dia o desprezo aumentar. Era um pai doutro mundo. Era um pai presente-ausente. Era um pai de lascar. Olhava agora para a mãe. Corpo esquálido, de ossos do peito a estufarem-se. Os olhos quase não cabiam nos côncavos. A pele presa aos ossos e aos nervos e às juntas. Pele ressequida e sugada. As pernas finas a formarem dois arcos. Os cabelos tingidos aqui e ali de branco e ruins de serem penteados. Ficava a se pensar como aquela mulher pariu cinco filhas com aquele corpo que mal se firmava em pé. Às vezes temia em a mãe se desmoronar e os ossos se espalharem pelo chão. Era uma mulher de aparência fraca, mas forte na luta, na lida, nas resoluções. Pecava pelo amor desvairado, pela inocência no pensar e no agir pelo marido longínquo. Não entendia a mãe, ou se fazia por não entender. Por que aquele amor de um só? Por que sofrer tanto por um homem? Procriação? Carne? Carne era só o que ele trazia na feira do mês, e só. O resto as mulheres da casa tratavam de conseguir às duras penas.

Ela chegou, aos poucos, perpendicular vindo da estrada, subir o alto, banhar as podas das árvores, tingir as cores encardidas das casas. Mercedes viu a chuva vir de tal forma branda para depois forte. Lembrou de Paulo, amigo de Francisca e que se tornou amigo de todas. Lembrou porque ele era como a chuva, apesar de sempre tardia, passageira. Vinha sempre, saltitante, mas logo ia a deixar reverberação no ar. Mas logo esqueceu da imagem fugidia daquele que seria o ponto cego da visão. Deixou-se a ver a chuva a tamborilar nas telhas, aos poucos e logo constante. Não quis ouvir as irmãs no quarto a rirem. A mãe chegou-se perto e as duas ficaram mudas, pelo vão da janela, a ver aquela coisa rara. Cada uma ao seu modo.  As irmãs no quarto, agora a rirem. Quis rir também, e assim o fez, de forma suave, a receber a chuva do caju. E nunca soube o porquê do caju. Naquelas bandas a fruta era rara, quase a não existir.

Foram assim serenas, controláveis, no princípio, que as águas de setembro molharam as lembranças de Mercedes. O pai deitado no chão da sala, bêbado. A mãe sem tantas palavras, mas nos olhos o brilho a espelhar os pingos d´água. As irmãs, no início, a rirem de qualquer coisa. Mas nem tudo foi assim. Tudo foi aos poucos, como qualquer chuva a banhar aquelas terras gris. Choveu. Choveu como nunca. Na proporção que as águas caíam, o cenário mudava. A casa edificada no alto parecia estar segura de provável inundação. Mas o que se veria nas próximas horas foi de causar medo. Os risos das meninas se foram, aos poucos.

Quando a noite chegou, e o pai ainda bêbado e jogado, a chuva veio junto. A luz dos postes era pouca para se enxergar o que acontecia lá embaixo. O caminho a dar na casa, em um dos lados, havia declive acentuado. Existia um vão convexo. Uma espécie de açude sem água. Na beira da estrada, um bar. No início da chuva, alguns bêbados celebravam em brados. Ouviam-se copos a se quebrarem e garrafas tilintarem. Mas depois apenas a chuva. Foi quando a luz se foi. Os risos das meninas também. O pai naufragado no álcool. A mãe, agora, preocupada. Todas trataram de buscar as lamparinas, as velas, algo para as iluminarem. As telhas cantavam, dançavam à chuva, explodiam em melodias agudas. Sentiam-se os respingos por entre elas, como se aspergissem água benta naquelas pecadoras. O pai não sentia, estava morto, e não era novidade morrer a cada dia. A chuva a aumentar.  Os olhos das irmãs, apesar de Francisca ser a mais velha, a expressarem medo.

As casas vizinhas, distantes, Mercedes tentava ver as frouxas luzes pelos rasgos das portas. Eram luzes disformes. Os grossos pingos da chuva turvavam a visão.  Não conseguia enxergar o que, pela manhã, seria o mar lá embaixo e sem condições de não ir a lugar nenhum.

Mas a noite ainda demoraria a chegar ao seu fim. A casa, com suas três portas, delimitava os dois mundos: o interior e o exterior inundado. Mercedes temeu o pior, mas segurou-se. Não tinha presenciado aguaceiro como aquele, apesar de não ver, mas sentia. Os respingos de entre telhas a banhavam como gotas de orvalhos exagerados. Banhavam a esperança de dias melhores, como estágio para que as futuras plantações vingassem. Lembrou, então, de ter deixado a escola, não porque quis, mas pela imposição do pai. Era preciso limpar os matos a engolirem o feijão. Era preciso encher os baldes de água da cisterna. Era preciso encher-se de tantas tarefas para esquecer a dor de ter deixado de estudar. Por isso cruzava com o pai no dia a dia como a um estranho nos caminhos empoeirados daquele terrível lugar.

A escola era do outro lado da estrada. Paralelo à estrada, o rio. Depois do rio a escola. Para chegar lá, muitas vezes, precisou nadar, com as roupas, a sacola com o livro e o caderno e o braço a puxar a água. Quando chegava à margem, esperava Francisca para se ajudarem a se vestir. Os meninos iam pelo outro lado, distantes. E esses meninos, apesar de próximos naquela geografia de Magdaluz, a cada dia, se tornavam mais distantes. Muito mais tarde, com a idade avançada, e as durezas da vida, não os via com os seus próprios olhos e nem os sentia com os seus restantes de sentidos.

Era bom estar sentada na cadeira da escola, apesar de péssima, mas era o que tinha. A manhã a passar a rabiscar cadernos, a juntar palavras naquele único livro, não era ruim. As duas filas das carteiras, de um lado as meninas e do outro os meninos, mostravam as divisões entre eles. A professora era rigorosa, e mesmo no intervalo não as deixavam ir longe, esconderem-se. Os óculos da professora deviam ter graus demais para enxergar tão longe. A sua amiga mais íntima, Eufrásia, de cabelos louros, pele branca como a neve, aparentava inocência, mas era uma diaba por dentro. Os quinze anos das duas emparelhavam entendimento, embora Mercedes se resguardasse nos ímpetos. Já Francisca não era bem assim. Por ter um ano a mais das duas, envolvia-se com Eufrásia em peripécias demais para a época. As trocas de bilhetes eram constantes e os assuntos, claro, eram sobre os meninos. Mercedes era quem acobertava os encontros delas com eles quando dos intervalos. Estava sempre atenta a todos os passos da professora e dos seus óculos longitudinais. Inventava sons, batia palmas sem ver para quê, cantava o que não sabia cantar, gargalhava por nada. Tudo para avisar às meninas das investidas da professora. Depois em casa, Francisca contava tudo, mas jurava de pés juntos, que tudo não passava de beijos, só beijos. Conte-nos, dizia Mercedes, os detalhes. Francisca minuciava cada ação e reação. Helena ouvia e imaginava tudo. Como as demais também. No final cada irmã guardava pra si aquele segredo como algo mais precioso do mundo.

Eufrásia não deixou a escola. Eufrásia casou, teve filhos e se separou do marido para viver com outro, e depois com outro e, hoje, não se sabe do paradeiro dela. Mercedes riu, enquanto sentia a chuva naquela escuridão de lá de fora. Dentro de casa, as luzes bruxuleantes dos candeeiros tornavam as irmãs e a mãe imagens fantasmagóricas. Quando elas se moviam, as sombras nas paredes se encontravam como a se engalfinharem.

Na mistura dos sons nos telhados, dos chinelos pela casa, deixava Mercedes entregue a devaneios e, ao mesmo tempo, atenta a tudo. Achava os movimentos da casa o seu mundo mais profundo. A chuva trazia, além dos fantasmas nas paredes, os vultos do passado. Na proporção em que a chuva se fincava na noite, a casa enchia-se dos parentescos vultos, vizinhos e figuras desfiguradas. Mercedes recebeu todos eles, entre desconfiada e deslumbrada. A tia Andaluzia gostava de falar alto, e foi logo expondo o seu ponto de vista em relação à situação da região: “a seca me dá agonia por ter que comer carne seca e farinha. Não tenho nada contra o gosto, mas minhas dentaduras não aguentam”.  Tratava logo em tirar do bolso do vestido o naco de fumo e a palha de milho. Insumos para o cigarro de cheiro maldito. Não se importava para o torcer de narizes dos outros. “retirem-se os incomodados. O terreiro é o local ideal para as bestas”. E continuava a falar, sempre se referenciando à dona da casa. A cada palavra a sair da boca, enxovalhada de fumo e fumaça, o olho direito fechava. Era a forma viciosa, um tique nervoso a deixar a outra pessoa a querer lhe imitar. Pelo olho fechado a fumaça soltava-se e enuviava aquele sentido incomum. Os gestos das mãos em jogar para uma e outra o cigarro de palha mordiscado era outro gesto intranquilo. Tia Andaluzia não era normal. Espalhafatosa, apesar do corpo magro, ao chegar num ambiente tomava conta de tudo. Os outros eram os outros.  Foi assim que ela entrou na casa, já por volta da madrugada, encharcada da chuva. Foi assim, também, em outros dias quando a chuva veio tão forte que não quis voltar de onde veio. “O marido se ajeita”. Ficou uma semana com a irmã de roupa única. As de baixo a irmã precisou comprar. O cunhado foi aos solavancos, no lombo do jumento, a resmungar injúrias para si, a comprar no comércio calcinhas para Tia Andaluzia. As filhas, naquele dia, não aguentaram de tanto rir. Queriam ver a encomenda, o tipo. Mas o pai sob protestos aos quatro ventos enviou a mercadoria pela vizinha. Chegou horas depois trazido pelo animal afogado na cachaça.

Outra personagem, a se livrar da chuva, foi Tio Nonato. Ao entrar trouxe na aparência, de nota, o rente cabelo à brilhantina. O cuidado com aquela indumentária era de causar comentários. Anexado pelo bigode fino, sempre penteado. Ambos os toques negros pela tinta rejuvenescedora. Trazia no bolso o pente fino, guardado como relíquia, parte do corpo, parte da vida. Juntados os irmãos sob o aguaceiro e aos olhos e mente de Mercedes, a noite arrastou-se diferente. Tio Nonato comentou sobre o cunhado caído para depois deixá-lo largado igual a todos. Os irmãos enfiaram-se na cozinha e beberam garrafas de café ao gosto das palavras e memórias elucidadas. Mercedes ficou no canto da porta a ouvir aquelas vozes misturadas do além e do presente.

Tio Nonato também ficou pós-chuva. Deixou a mulher na cidade distante, e acompanhou a Tia Andaluzia em visita à irmã. Foi num período de dois dias que Tio Nonato revelou-se doído pela paixão do passado. Em outras visitas à cidade de Magdaluz, há muito tempo, conheceu uma mulher. Trovadora, audaciosa, bonita, indecifrável por fim. Amor, paixão, atração, não se sabe. O que se sabe foi o rapto da mulher casada, notícia afora. A esposa de Tio Nonato soube e aguentou e chamou a amante de rapariga, praguejou, desejou morrer, serenou. Suportou o tempo de seis meses em que o aventureiro e apaixonado cabra desnudou-se das suas responsabilidades de marido. O filho de uma égua fugiu como o diabo foge da cruz. Fugiu como quem buscava nas carnes da outra o que não encontrava em casa. Voltou tempos depois ao largar a mundana quando abusou. Entregou de volta ao marido como objeto usado, e aquele traído a recebeu. E agora, no encharque da chuva, Tio Nonato mergulhou-se na cachaça a lembrar das aventuras e de querer saber do paradeiro da aventureira.

Foi assim a noite toda a lembrança, a memória a misturar-se com a realidade. As vozes das irmãs com a da mãe fizeram com que Mercedes confundisse o real do imaginário. Porém não deu para confundir quando as telhas dançaram. As telhas não suportaram o soprar do vento. Muitas foram arrastadas. Buracos se abriram no telhado. A chuva a continuar forte, tanto fora como dentro de casa, deixou a todas em pânico. O pai jogado e agora molhado. Era preciso sacudi-lo. Mas antes as irmãs e a mãe trataram de aparar o aguaceiro; cobrir os parcos móveis; de vassouras e rodos a puxar o excesso. O pai era um móvel-imóvel que podia inundar-se, por enquanto. Todas se molharam. O cuidado estava também em Helena. O cuidado estava nas louças e na última feira do mês. Helena se salvou, mas a feira foi de porta afora. A mistura aguou. A mãe quis ir atrás, mas foi impedida pelas filhas. Todas as roupas molhadas, grande parte dos móveis. Quando o pai foi arrastado pela leveza do álcool, a mãe atirou-se para impedi-lo. Foi então que as irmãs notaram o grande amor da mãe pelo pai. E nessa divisão de água entre os pais e as filhas, Mercedes tornou-se pioneira no estilo de vida que iria perdurar por todos os dias vindouros. Mesmo Helena com suas dificuldades, sentiu o quanto aquele episódio as marcaria para sempre.

 

Anchieta Mendes, natural de Juazeiro do Norte-CE, é escritor com prêmios literários e contos publicados em várias antologias. É autor de “Valados de giz” (Romance), “Alquimia” (Romance – Multifoco) e “Bicho Metropolitano” (Contos – Penalux).

 

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120ª Leva - 05/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues 

 

“Gato” . Ilustração: Bárbara Tércia

 

TINTA NEGRA SOB AS UNHAS

 

Para Bárbara Tércia,
inspirado em um desenho seu.

 

— É melhor ser órfão de pai morto do que órfão de pai preso.

A frase veio de muito longe, lá da infância, assim que a janela se fechou. Marcelo não teve como reclamar que as janelas é que devem ser abertas quando as portas se fecham. Não pensou isso nem lembrou de Deus, mas se arrependeu de ter dito aquilo ao primo. O fato é que eles não tinham pai, não importava se um estava preso, o de Tiago, ou se estava morto, como o de Marcelo.  Aquela frase, no meio das disputas normais de criança, ficou esquecida. Eles brigaram outras vezes, competiram por tudo, amigos e adversários, primos e irmãos. Agora, no meio da queda, Marcelo queria que o primo o tivesse visto correndo da polícia; primeiro pela avenida, entre os carros; depois, já dentro da favela, entre as casas, subindo muros, por cima das lajes. Era o gato, como gostava de dizer, quando criança, sempre caindo de pé e ileso fosse das árvores, fosse dos muros.

Gato. Foi esse o bicho que viu no rabisco aleatório que fez na aula de desenho. Depois, treinou várias vezes em casa escondido, ensaiou o gesto para parecer o mais espontâneo possível e fez dele sua assinatura. Primeiro nos desenhos da escola, depois nos muros da rua. Todo mundo pichava naquela época. Ele e o primo se uniam naquela vontade de marcar territórios. Iam cada vez mais longe pelo bairro. E fora dele também. Naquela aventura de ultrapassar limites, ampliar horizontes, Marcelo foi além. Dos rabiscos frenéticos, das marcas da galera, passou a se aventurar em outros desenhos. E mais que as pernas ágeis e compridas, descobriu que as mãos eram capazes de fazer quase tudo que imaginava. As imagens na sua cabeça aos poucos iam passando para os muros na tinta negra do mais barato spray. Eram apenas as formas. Vieram, a seguir, as cores, multiplicadas rapidamente. Uma explosão de cores, diria o menino, ainda desacostumado de criar imagens com palavras. Como os desenhos falavam mais, ele não insistia nas palavras. Foi assim, em silêncio, que respondeu uma tarde quando o primo o chamou para mais um desafio de pichação.

— Vamos?

A mão de Marcelo apontou um olho inacabado em um muro. E para a próxima pergunta, nem mesmo um gesto.

— Vai ficar de mariquinha, é?

Eles se separaram.

Marcelo queria que o primo tivesse visto seu salto entre um prédio e outro, queria que tivesse visto o gato pichado naquele lugar tão difícil, os truques pra se livrar do segurança, o portão arrombado, a tinta negra sob as unhas, aquela prova de que não era veado.

— Homem tem tinta preta na mão. Nada de verdinho, vermelhinho, amarelinho.

Marcelo tinha medo de ser visto como menos homem do que era, mesmo que até já tivesse mostrado isso algumas vezes. Pegava mulher. Não era fácil, era tímido, mas a força do corpo e suas exigências empurravam o menino para frente. E tinha Rai.

— É um peixe?

O peixe estava visivelmente voando, havia nuvens embaixo para provar. Ele se entrelaçava com um pássaro que visivelmente estava dentro d’água, havia ondas em cima para provar. Eram muito coloridos e pareciam voltear um em torno do outro, asas e barbatanas se uniam passando suas cores de uma para outra. Entre tantas, havia apenas um filamento azul que saía da cabeça do peixe, abraçava o pássaro e terminava formando a pena mais longa de sua cauda. Foi o que mais chamou a atenção da menina.

— Que azul lindo. Nunca vi um azul assim. Chega dói.

Marcelo tinha misturado vários tons até chegar àquele azul. Ele se orgulhava do que tinha conseguido.

— Eu chamo de azucrinante.

Ela riu. Para ele, azucrinante era algo incrível, legal. Ele não sabia que os dicionários pensam diferente. Ela sequer pensou. Seu olhar estava além das palavras, além da explosão de cores, além da magreza juvenil e morena dele. As meninas chegam primeiro a um entendimento do que querem e de como devem fazer para ter. Ela sorriu admirada.

— É tão bonito!

Rai era linda. De um beleza que todos sabiam. Tiago sabia.

Ela se intrometeu entre os dois como se alguém usasse uma ferramenta de metal para alargar uma pequena rachadura. No começo, sem se dar conta, mas logo percebeu, pelo jeito esquivo de Tiago, que havia ali um desejo. Ela não resistia à tentação de atiçar o rapaz e rejeitar. Tinha o gozo de, estando com um, saber que o outro de longe invejava.

Marcelo não percebia. Não via relação entre a nova namorada e o primo. Sentia apenas o afastamento, e se ressentia de Tiago não ter nenhuma admiração pelo que ele fazia. Nenhum elogio de quem quer que fosse fazia o primo sentir como uma vitória de Marcelo. A marca do gato pequena embaixo de uma paisagem colorida não significa nada.

— Melhor é quem vai mais longe, mais alto. Isso é que é coisa de homem.

A voz do primo gritava nos ouvidos de Marcelo durante a queda. A mesma voz que ouvia enquanto invadia aquele prédio. No silêncio que fazia para enganar o segurança, a voz estava lá dentro, alta. E mesmo depois, na fuga — seguranças, polícia, carros —, nada era mais alto do que ouvir o primo gritando a superioridade de quem vai mais alto, de quem coloca sua marca no lugar mais difícil. Ele correu pela ruas, pela favela, por sobre as lajes das casas. Sabia que por ali chegaria em casa facilmente. Tantas vezes os dois tinham feito aquele caminho. Da última laje viu a janela do quarto aberta. Eles moravam numa encosta, uma casa em cima de outras três casas, um prédio construído aos poucos, uma invasão para o alto, que outro lugar não havia por ali. Tanta gente. Dormiam no mesmo quarto, juntos e, agora, afastados, um afastamento que doía em Marcelo.

A janela estava aberta. Era só pular e estaria salvo. Pulou. Tiago estava lá dentro. Ele sorria. Marcelo, como um reflexo do primo, sorriu satisfeito. Eles se aproximavam, juntos de novo, Marcelo vitorioso e aceito pelo primo.

Então, Tiago, como um Deus ao contrário, sem nem mesmo abrir uma porta antes, fechou a janela.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010),  “Cada dia sobre a terra” (Contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014),  “Arquivos de um corpo em viagem” (Poesia, Editora Mondrongo, 2015) e “A eternidade da maçã” (Contos, Ed. 7 Letras, 2016), vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016.  

 

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118ª Leva - 03/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

André Timm

 

Foto: Kristiane Foltran

 

Seleção Natural

Quando certa manhã, Ingrid acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada em uma criatura que não mais enxergava.

Posso trocar Gregor Sansa por Ingrid, certo, Kafka? Posso trocar “inseto monstruoso”, que é um tanto dramático, por “criatura que não mais enxergava”? É isso a literatura, não? Vestir a pele do personagem, se colocar no lugar dele. Ou é Gregor Sansa que veste a minha pele nesse caso? Não sei. Enfim, eu nem precisava pedir autorização, é mais por uma questão de respeito, de consideração. Uma vez no mundo, a história não é mais do autor e cada um faz o que bem entender dela, não é? A premissa também vale para você, Camus.

Hoje, meus olhos morreram. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do meu corpo: “Seus olhos faleceram. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”.

Desculpe lhe dizer, Kafka, mas Camus é mais musical que você. Tem mais ritmo. Flui melhor. Eu sei disso pela velocidade com que meus dedos percorrem os relevos, pelos lugares onde preciso parar ou não.

Vocês conseguem ouvir esse som? Sim? Não? O cânone é tão vaidoso. Sou capaz de apostar que ainda que não estejam ouvindo, não irão admitir. Por via das dúvidas, esclareço. Esse tilintar é meu bastão de Hoover sibilando pelos corredores da escola. É como as anteninhas de um inseto, Kafka, apesar de não haver nada de monstruoso nisso. Uma antena adivinhando o que vem pela frente, escaneando o mundo aos meus pés, detectando vibrações em alturas que vocês nem seriam capazes de imaginar.

Mas preciso admitir: no princípio era mesmo o verbo. Diante do breu perene, na condição de estrangeira em minha própria terra, me refugiei em vocês. Depois, quando conheci Tarso, as coisas tornaram-se um tanto menos soturnas. Não que algo em nosso entorno tenha mudado, mas é que já faz uma imensa diferença essa sensação de irmandade, uma cumplicidade tácita que se estabelece simplesmente pelo fato de saber que o outro está precisamente na mesma condição e enfrenta os mesmos problemas, especialmente quando se tem treze anos.

E agora, vocês ouvem? Preciso lhes dizer que essa polifonia às vezes atrapalha. Há momentos em que o silêncio é sine qua non. Estou tentando encontrar Tarso, uma tarefa árdua numa escola com mais de mil indivíduos existindo em toda a sua plenitude e com a máxima intensidade possível. Me desloco incrivelmente rápido, como se acima da minha cabeça houvesse um fio desencapado captando os pensamentos dele. Se vocês colaborarem, posso me concentrar especificamente nas batidas do coração. Vocês não sabem, mas cada coração bombeia sangue de uma maneira singular. Alguma coisa nesse abrir e fechar de válvulas, na forma como o músculo se contrai e relaxa. É como uma assinatura, por isso posso encontrá-lo em meio a uma legião de estímulos, mas é preciso um esforço tremendo. Às vezes parece apenas uma rádio fora de sintonia; estática; chiado; mas então me esforço, bloqueio todo o restante e consigo captá-lo novamente.

Eu e Tarso temos uma ideia recorrente. É bastante ousada e poderia colapsar toda a indústria do entretenimento. Imaginem um espetáculo musical completamente desprovido de qualquer artifício visual. Na entrada, cada um dos espectadores receberia uma máscara, dessas usadas para dormir. No princípio seria estranho. Sem dúvida, desconfortável. Mas tudo que importaria seriam os aspectos sonoros. Um despertar do ouvido, por assim dizer. Um golpe preciso contra a ditadura da estética visual. A indústria pop se debateria como um inseto que, com as patas para cima, não consegue se desvirar. Milhares de “artistas” cujo apelo se dá em grande parte por sua aparência, ruiriam. Estruturas imensas de telões e aparatos de luz e pirotecnia se tornariam sucata. As trocas de figurino perderiam completamente a razão de existir. Os gritos tresloucados de fãs diante de belezas arrebatadoras e efêmeras dariam lugar a um silencioso contemplar de uma paisagem sonora que vai se constituindo dentro de nós, camada por camada. Se houvesse relutantes, aos poucos, seríamos cada vez mais radicais, tirando-lhes a opção da escolha. Uma vez acomodados, apagaríamos todas as luzes. E mais tarde, talvez nem houvesse mais luzes a serem apagadas. Com o tempo, isso se tonaria maior. Cinemas cairiam em desuso, assim como a televisão. O rádio reviveria seu apogeu. Celulares voltariam a diminuir em suas dimensões, visto que não precisaríamos mais de telas enormes e brilhantes. A especialidade de oftalmologia desapareceria dos cursos de medicina. Fabricantes de óculos ou lentes de contato precisariam rever seu nicho de atuação. Utópico, eu sei. Ou melhor, distópico, não?

K. Dick, Huxley, Orwell, vocês estão por aí? Ouçam essa, vocês vão gostar.

Aos poucos, no início por imposição, mas depois pelo simples curso natural das coisas, confiando que Wallace e Darwin estavam certos, pouco a pouco nosso aparelho visual, cada vez menos utilizado, diminuiria de tamanho. Gradualmente, nas raras vezes em que fizéssemos uso dele, nossa visão se tornaria cada vez mais turva e nublada. Aos poucos, os fotorreceptores de nossas retinas se tornariam menos eficientes, levando informações cada vez mais precárias aos nervos ópticos. As células responsáveis por detectar intensidade luminosa morreriam sucessivamente. O córtex visual do cérebro começaria a falhar, minando nossa capacidade de perceber de maneira eficiente profundidade e distância. Bateríamos em objetos que julgássemos estarem mais longe; nossas mãos passariam ao largo de coisas que desejássemos segurar; daríamos passos em falso e dirigir se tornaria impraticável. Esclera, coroide e retina, paulatinamente, se aglutinariam, tornando-se uma coisa só para depois converter-se em um apêndice sem uso e, finalmente, deixar de existir.

Mas esperem, silêncio, por favor. Perdi Tarso outra vez. É engraçado, mas há todo um universo magneto-fantasmagórico que nos afeta mais do que vocês podem supor. São tantas ondas de tantas naturezas nos atravessando que às vezes somos bússolas desmagnetizadas momentaneamente, sem rumo, sem referência de onde está nosso norte verdadeiro. Mensagens, tevê, rádio, wi-fi, ligações, infravermelho, bluetooth, eletricidade, medo, ansiedade, ódio. Não se enganem, está tudo por aí, no ar. Dá pra sentir. Dá pra medir. Mas já devo estar mais perto de Tarso, consigo sentir seu perfume.

Seguindo em nosso pequeno projeto de seleção natural e evolução da espécie, a diminuição do aparelho visual abriria espaço para que outros o ocupassem. Nosso sistema olfativo, por exemplo, se tornaria maior e, assim, muito mais eficaz. Com mais área de contato, os axônios das células olfativas poderiam captar mais partículas. E com células receptoras mais poderosas, uma quantidade maior de sinais elétricos seria enviada aos glomérulos, estimulando com maior intensidade nossos bulbos olfatórios, local em que os impulsos nervosos atingem o córtex cerebral e onde a excitação nervosa é, finalmente, transformada nisso a que chamamos de cheiro. Talvez, para os padrões contemporâneos de beleza, não fossemos considerados os mais belos seres humanos. É provável que tivéssemos orelhas e narizes bem maiores do que os que costumamos ter hoje. Entretanto, lembrem-se, que diferença faria já que não enxergaríamos mais? E aqui começa a beleza dessa hipótese: o valor das coisas por suas funções e capacidades e não por sua aparência. Nossa audição, prosseguindo, seria espetacular. Orelhas maiores implicariam em mais ondas sonoras fazendo os tímpanos vibrarem e impactando o ouvido interno, onde estas ondas transformam-se em impulsos nervosos que são transmitidos ao cérebro pelo nervo auditivo. Não quero me alongar nos pormenores técnicos, mas vocês são capazes de vislumbrar as possibilidades? Não seriam essas capacidades invejáveis a um escritor, visto que o que fazem é justamente transmutar estímulos em histórias?

Essa escola é minha Galápagos. Esse ônibus escolar que tomo todos os dias é meu HMS Beagle. Eu deslizo por esses corredores, saguões e reentrâncias captando ecos de um passado remoto. Sinto cheiros, amores e dessabores. Lapido minha capacidade de inferência deduzindo o presente através do que veio antes dele. Entre tartarugas gigantes, tentilhões e adolescentes, eu decifro a vida e as espécies. Sou uma mutante, o próprio vislumbre do futuro, uma antecipação do que vocês podem vir a ser.

E agora já ouço com distinção o átrio direito de Tarso em plena atividade. Agora o esquerdo. Sinto seu perfume almiscarado. Vocês sabiam que antes do almíscar sintético, descoberto em 1888, a essência de almíscar era obtida através de uma glândula existente no cervo-almiscarado, que era morto para que dele pudesse ser extraída a matéria prima para o perfume? Ou ainda, vocês sabiam que a palavra almíscar vem do persa mushk, que significa testículo? Claro que vocês sabem, são escritores, entendedores de toda a etimologia que nos precede como linguagem. Enfim, esqueçam minhas digressões. O fato é que por alguma razão Tarso gosta de usar um perfume almiscarado que eu sou capaz de reconhecer de longe. E conforme avanço, a soma desses fragmentos vai constituindo um Tarso que só eu conheço. O timbre da voz, os odores, o farfalhar único que o ventrículo esquerdo faz ao atritar com a aorta descendente. E na iminência desse encontro, eu já antecipo o toque, quando eu tomo minhas mãos nas dele. Gosto de passar os dedos delicadamente, subindo pelos braços antes de chegar aos ombros e depois ao rosto. No caminho, as pequenas cicatrizes são histórias em braile de uma infância destemida e célere. A queda de cima da árvore no quintal nos fundos da casa, uma bombinha apressada que estourara antes da hora, uma queda de bicicleta na rampa construída coletivamente com os outros meninos do bairro. Nessas horas meus dedos são como a agulha de um disco rígido procurando por informação, impulsos elétricos esperando para serem convertidos em crônicas registradas naquele corpo tênue de treze anos.

Finalmente o encontro. Está na sala de música. Reconheço o ciciar dos dedos ásperos contra as cordas graves do baixo. Ninguém toca como ele. Nesse momento, ou muito antes, minhas polifonias já estão em pleno diálogo com as de Tarso. Meu cânone literário em calorosos debates com seu panteão de grandes jazzistas. Aliterações, digressões e figuras de linguagem em abraços lânguidos com formas sincopadas, polirritmias e improvisações. Somos Miles Hemingway, Franz Coltrane e Charlie Cortázar. Somos Truman Gillespie, Nina Lispector e Dizzy Rubião. Todo nosso amor é uma blue note, dissonante. E em meio a tudo e a todos, eu apenas paro e o sinto. Sei que ele sabe. Num êxtase contemplativo, que está muito além do que apenas ouvir, sinto ele tocar por toda a duração do intervalo de tempo de sua aula. Me aproprio da música que ele faz, seja com o baixo ou com a sua existência, reverberando em lugares que eu quase duvido existirem dentro de mim. Vibramos na mesma altura. E por hora, isso me basta.

 

André Timm é gaúcho, de Porto Alegre, radicado em Santa Catarina. “Insônia” (Design Editora, 2011), seu livro de estreia, foi Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura. “Modos inacabados de morrer”, seu primeiro romance, foi o vencedor da Maratona Literária da editora Oito e Meio na categoria prosa. Mantém o site 2 mil toques, projeto autoral em que convida escritores a compartilharem suas rotinas e processos ligados à produção literária.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana Paulo

 

Foto: Antonio Paim

 

Viver e morrer no facebook

 

Era uma vez ela —, uma amiga no facebook. Ela era amiga de uma amiga minha e me pediu amizade. Cliquei. Registrou-se com o nome de Megami de Aiedi Timaeus. Não sei se esse foi o seu nome verdadeiro, desconfio que não, por ser muito estranho e porque muitas pessoas se registram com nome fantasia mesclado ao verdadeiro. Fomos amigas durante uns quatro anos. Ela postava fotos da família, dos amigos, das viagens, esboços do que pensava sobre determinado acontecimento, vídeos engraçados, dizeres sobre sabedoria de vida. Soube que foi ao show do Caetano e lá encontrou o ex-namorado (foto dela sorrindo ao lado de um rapaz sorrindo), começou a trabalhar em uma instituição cultural, depois de dois anos mudou de emprego, era secretária executiva em um banco, fez uma viagem a Roma e subiu a escadaria na Praça da Espanha (no anexo, mais 31 fotos que eu não abri), desmanchou o namoro com o namorado porque conheceu alguém mais interessante no jantar da empresa (soube através de um comentário maldoso de uma amiga dela), casou-se com ele (fotos dela vestida de branco, segurando um buquê de orquídeas, o marido ao lado, homem bem apessoado, moreno, estatura mediana, de óculos e mais 95 fotos que eu não abri, e um vídeo no qual assisti os primeiros momentos em que ela entrava na igreja e dava o braço para o noivo), e passou a lua de mel em Buenos Aires (ela tomando café no Tortoni, em frente à fachada colorida de uma casa no La Boca, passeando na orla do Puerto Madero, comendo churrasco, tomando vinho e mais 46 fotos que eu não abri). Outros detalhes de sua vida eu soube, acompanhei algumas fotos: por do sol na praia de Santos, gato em cima do sofá, receitas de tortas de palmito, pudim de milho, tapioca, almoços ou jantares com a família, com amigos, caminhada na praia do Balneário de Camboriú, nova sandália de salto, dicas de restaurantes, de como se alimentar bem, receitas para dietas, vídeos de cachorros, de gatos, de papagaios, de tucanos, de bebês fazendo graça, de cidades estrangeiras, de lição de vida… e alguns comentários no facebook.

De repente, no meio de várias postagens que eu recebo, vejo com espanto uma foto dela in memoriam. Não sei como ela morreu, não sei por qual destas fatalidades repentinas ela foi acometida, se foi de câncer, acidente, aneurisma… Tinha trinta e quatro anos. Na foto ela possuía um sorriso sereno e o reflexo do sol banhava sua face, ao lado o cacho de uma orquídea rosa vergava-se do vaso suspenso na parede de cor ocra. Imaginei ser a varanda de uma casa no campo. Ela não era bela nem feia, possuía um rosto comum, ovalado, os cabelos escuros meio ondulados, compridos até os ombros, a pele clara, as bochechas um pouco salientes, os olhos pequenos e escuros, os lábios finos. E cliquei. Nunca nos encontramos, nunca troquei mensagens com ela no inbox. Cliquei em uma foto ou outra, em um vídeo ou outro, em um comentário ou outro. Na imagem in memoriam a família e amigos expressavam condolências. Postei as minhas e antes que surgissem fotos dela, recapitulando a sua vida, eu a excluí do meu grupo. Afinal não era meu parente ou uma amiga íntima!

Por que acompanhei a sua vida? O que estes detalhes da vida de um desconhecido têm a ver com a minha? Para que serve esta enxurrada de detalhes da vida alheia?

Sempre procuramos saber da vida alheia, por mais que nos convençamos que não nos interessa. Não é bem assim, fora da nossa vida tudo faz parte da vida alheia, os filmes que assistimos, os livros que lemos, as pessoas que encontramos. Além da nossa vida, vivemos a vida alheia inconscientemente, apreendemos a realidade do outro de forma indireta e a integramos em nossa vida, em nossas opiniões, em nossas preferências, em nossa visão de mundo. Precisamos do outro, embora sejamos egoístas e egocêntricos. Mas sem o outro não temos como ser egoístas. Sem o outro estaríamos pensando no outro o tempo todo. Com o outro pensamos no que somos, nos definimos através do outro. No entanto, meu contato com ela não foi do tipo que proporcionasse esta característica. Hoje em dia não buscamos esta característica, temos preguiça de nos conhecermos e conhecer o outro e nos falta tempo. A amizade virtual permanece na superfície e no nunca conhecer o outro como ele é na vida real. Ela foi um punhado de imagens, frases sucintas e opiniões, vídeos, digitalizados e esporádicos, efêmeros como em um livro de enredo fragmentado, temas mesclados e incompletos —, um livro mal lido e emprestado que você esquece de não ter recebido de volta.

E sigo minha vida clicando.

Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em diversos jornais e revistas. Vive em Berlim.

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Caio Russo

 

Foto: Antonio Paim

 

Diário

6h07 e o calor da manhã sorri irônico da tarde que virá tostada numa frigideira de asfalto.
Essa completa ausência de brisa fotografa o que poderia ser um álbum familiar da década de 30, pai sentado, mãe empertigada com a mão sobre o ombro do patriarca, três filhos em pé ao redor aguardando nervosos o estrondo e o cheiro de pólvora da câmera primitiva que lascará uma parte de suas almas infantis, exatamente como confidenciou o tio Sérgio entre sussurros no almoço passado, quando soube do retrato parental.
ental.

6h22, daqui três minutos o Sr. Maurício do pet-shop destrancará a porta da frente e sairá para comprar o pão matinal.
Não, ele não se atrasa, é neurótico como eu, o hábito funciona, é a batida sintomática de uma estaca, a parte final do longa metragem em que o casal acaba junto, mas se separam assim que termina os 96 minutos de filme, tenho certeza.

 

6h26, é provável que o Sr. Maurício do pet-shop tenha tido um enfarte enquanto descia as escadas, talvez esteja agora mesmo agonizando numa tentativa ridícula de chamar a esposa que só acorda às 10h04 por conta dos 6 mg de rivotril.
Posso ver daqui aquela mão estufada, dedos cilíndricos usando os últimos minutos de uma medíocre existência para abrir a maçaneta do portão da garagem e o suor faz deslizar, deslizar, e os nervos frágeis não permitem que a mão feche, segure, mantenha.
Quem sabe não está arrependido, “por que não cortei a gordura da picanha?” “por que a cerveja todo dia e não só nos finais de semana?” “arroz na banha de porco”.
Foi tarde, é sempre tarde para soltar a mordaça do cotidiano, gritar o próprio nome não escolhido nunca.

6h40 e é o tédio.
Não, Baudelaire e seus párias não sabem o que é o tédio, só conheceram a melancolia. O tédio foi anunciado no XIX, mas demorou 153 anos para ser parido.
A maioria é preguiçosa e só.
Nem melancólica, nem entediada.
Tédio? É preguiça fermentada, envelhecida em barril de carvalho, ausência de ausências, o verdadeiro contentamento imóvel, homens

6h45, olha lá, é o Sr. Maurício do pet-shop, atrasado para o pão matinal. Hoje o dia começou incomum, fora de esquadro.
Esse tom sépia da tua pele não engana, são os ventrículos pedindo ajuda, a icterícia do fígado estampada no andar desritmado.
feito pedras por debaixo de lagos pausados.

 

7h00, não foi hoje, mas tudo bem.
Eu aguardo.

 

Caio Russo é escritor, melômano, estranho como as imagens num desenho de Alfred Kubin. Autor dos livros “Delicado desespero de beija-flor em voo” (Chiado, 2015), “Vaga queda” (Benfazeja, 2016).  

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Mariel Reis

Foto: Antonio Paim

Lego

Para minha mãe

1.

A primeira vez na cozinha comendo biscoito enquanto a minha mãe preparava o jantar não havia nada de diferente de outras cozinhas ou de outras mães que preparam o jantar enquanto o filho come biscoitos, sentado à mesa, na cozinha. A cozinha tinha armários, potes de conserva, fogão, geladeira, mesa e quatro cadeiras. Não tinha nada de diferente de uma cozinha em que se senta para lanchar, conversar, almoçar, cear e jantar como todas as demais cozinhas em todo o mundo.

A minha mãe não parecia diferente de qualquer outra mãe que prepara o jantar para a família: o avental, o cabelo com uma rede, os sapatos de solado rasteiro, os olhos atentos às instruções dos manuais de receita, o fogão aceso com as panelas brilhantes, a pia com louça para ser lavada, o santinho no caramanchão da parede sobre a porta, o rádio tagarelando incompreensivelmente e eu sentado, comendo biscoito na lata de alumínio amassada, herdada de minha avó como todas as outras latas herdadas de antepassados por todas as mães de todas as casas de minha rua.

As pastilhas das paredes brilhantes como pequenos sóis despontavam por toda a cozinha, encimadas por uma listra azul que percorria todo o perímetro; o pequeno pinguim com fraque e o paliteiro e a cesta de frutas, o pequeno capacho para limpar os pés para quando se entra pela área de serviço, com os sapatos enlameados ou com detritos grudados em suas solas. Como toda outra casa deve ter igualzinha, sem tirar nem por, só que esta mais especial, por se tratar de minha mãe na cozinha, enquanto prepara o jantar para a família como todas as outras mães preparavam, a essa mesma hora, o jantar.

Para os maridos famintos vindos do trabalho, de pasta na mão, com o semblante grave e o jornal enrolado embaixo do braço, como o meu pai chegava e acredito que todos os pais chegavam com a mesma gravidade em seus lares, sentavam-se nas poltronas, ligavam a tevê, despindo o terno, a gravata, os sapatos, apoiando os pés na mesinha de centro, beijando os filhos, conversando amenidades como fazia o meu pai com a minha mãe e comigo, e todos os pais e mães comportavam-se da mesma maneira, porque era o rito, nada poderia ser alterado e se fosse alterado seria afetado o equilíbrio de toda aquela paisagem – a que meus olhos estavam acostumados – e tudo ruiria, o que seria uma temeridade, uma infelicidade e ninguém quer ser infeliz.

E em todas as casas todos tinham um modo de chamar pela felicidade e em nossa casa tínhamos o nosso que não deveria ser especial porque todas as outras residências deveriam ter método semelhante, e ser feliz é muito melhor do que ser triste. E ser triste é algo que todos queriam esquecer, porque não prestava para coisa alguma. Aliás, os meus pais acham que existe muita coisa triste, enumerá-las é um meio de se tornar triste também e as condenam ao silêncio como todas as outras famílias que não pronunciavam palavra sobre a tristeza. A minha mãe era bonita como qualquer outra mãe bonita e me amava como deve amar uma mãe. Ela me dizia que nem sempre as mães amam e me mostrava no jornal a notícia de uma mãe que havia matado o próprio filho. Era uma exceção, pois toda mãe amava ao seu filho e o filho amava a sua mãe como em toda a família, especialmente aquelas de propaganda de televisão.

Toda a família quer ser como a família da televisão. É assim que deve ser toda a família e ninguém duvidava de que aquele modelo era verdadeiro, porque se não fosse não estaria na televisão e aquela família não seria uma família, a mãe não seria a mãe e o pai tampouco ele seria. Eu comia biscoito sentado à mesa, esforçando-me em ser um garoto como o daquela família que era igual a todas as outras da minha rua, que era uma rua igual a todas as outras do mundo.

2.

A minha casa era igual a todas as outras e os meus colegas todos eram muito parecidos. As casas todas tinham dois andares, três quartos, sala, cozinha, banheiro, churrasqueira e piscina. Todas as casas tinham o mesmo gabarito. Os meus amigos todos se pareciam tão profundamente que passariam por irmãos, e se errassem de casa, uma noite, os pais não ficariam preocupados ou perplexos.

Os pais vestiam-se iguais para ir ao trabalho, tomavam o mesmo ônibus e voltavam no mesmo transporte, sempre a mesma hora, sem atraso, sem imprevistos, sem sobressaltos, seja em que parte da cidade trabalhassem. Talvez nem trabalhassem, talvez o ônibus ficasse dando voltas no quarteirão enquanto estávamos na escola. Talvez nossas mães soubessem de tudo isso e nos escondessem para a nossa felicidade. Porque não há nada mais importante do que a felicidade. Todas as portas tinham pregada a tabuleta com os dizeres que não há nada mais importante que a felicidade. Em todos os canteiros havia homenzinhos verdes sorridentes, cães felizes, gatos simpáticos, varredores satisfeitos, lixeiros contentes.

Não havia discórdia alguma ou maledicência. Todos pactuavam com o lema não há nada melhor que a felicidade. A minha família era partidária extremista da palavra de ordem. Bastava acordar um dia com uma leve indisposição orgânica para ela ser considerada uma ofensa ao manual de viver bem daquele lugar. Um leve mau humor situava o indivíduo à margem dos eventos, quando não era encaminhado a uma junta, que decidiria como restaurar a boa vontade, o arejamento e a abertura de espírito necessária à convivência democrática FELIZ. Às vezes tudo isso soava monótono e a única fuga era a prática hedonista dos esportes: o único momento em que o silêncio era respeitado não pelo que significava de reflexão, interiorização ou balanço interior, nada disso.

O silêncio, ali, era um apetrecho da atividade narcísica: quando os olhos percorriam regozijados os músculos torneados, as curvas boleadas como o aço e não valia por si mesmo, por seu valor intrínseco.  Eu passava a maior parte do tempo na academia para ficar em silêncio e eliminar barriga. Eu comia muitos biscoitos. Tudo isso seria normal se a minha vida não fosse afetada de modo irreversível naquele dia de muitos outros dias em que se pratica as mesmas coisas de todas as vezes, sem alteração alguma do cotidiano e que me tornaria marcado para sempre dali em diante em minha comunidade em que nada fugia ao comum.

Eu voltava da academia e me sentava à mesa da cozinha em minha casa para comer biscoitos. A trivialidade do gesto já me escapava por repeti-lo inúmeras vezes, que despido de importância, se me substituíssem o biscoito ou se acrescentassem escorpiões à lata ou que me sugestionassem comer anchovas tudo daria na mesma coisa. E talvez fosse melhor que uma das coisas descritas ocupasse o lugar do que me aconteceu, porque o extraordinário não era bem-vindo e se o extraordinário viesse seguido de incerteza, bem menos. E se fosse seguido de infelicidade, era o caos.

O caos, meu pai dizia, é um menino segurando um balão de ar vermelho em uma chuva de cometas. O caos, dizia a minha mãe, era um exército tomar a sua cozinha e acampar sob a mesa. O caos, descobriria, era o mundo escorrer entre os meus dedos e eu não saber montá-lo. Mas quem acreditaria que o mundo se desfaria?

3.

Cheguei em casa e meu pai não estava sentado na poltrona para assistir ao noticiário. Estava no banho. Minha mãe, estática na pia da cozinha, limpava peixe. Quando fui abraçá-la esbarrei em seu avental que se desfez em milhões de pequenas peças espalhadas por todo o chão. Caía em cascata. Minha mãe parecia não ter notado o avental desfeito. Milhões de pequenas peças escorriam da cintura e do enlace da vestimenta. Uma delas saltou para pia, intrometendo-se na carne limpa do peixe. Minha mãe suspendeu a tarefa para retirá-la com cuidado – como a uma impureza. Quando me desculpei, ela, com o olhar bondoso, parecia dizer não foi nada.

Meu pai saiu do banho, enrolado em uma tolha.  Ao olhar para os seus pés, percebi: estava quadriculado. Sentia fortes dores na sola e passou a massageá-la. Ao realizar o gesto, desprendia-se uma parte ou outra que formavam os dedos. Não dói? , perguntei. Deveria ser um mal passageiro, um problema de pele como as micoses e com tratamento, logo estaria resolvido. À hora do jantar, sentados à mesa, percebíamos uma tensão em nossa conversa. Minha mãe tranquilizou-me, prometendo buscar um médico. Meu pai renovou a promessa e reforçou que aquilo, naquela época do ano, era comum. Não era. Nenhum dos vizinhos tinha pés quadriculados ou roupas que se desfaziam em cascatas de pequenas peças.

O meu pai, para ir ao trabalho, passou a vestir um longo sobretudo que lhe cobria os pés, para não ser importunado pelos colegas dentro do transporte para a firma. Minha mãe tomava um excessivo cuidado para não ter os vestidos desfeitos por um movimento brusco ou por um acidente de percurso. Eu procurava uma explicação para tal acontecimento e não a encontrava. A cozinha, como todas as outras, lentamente se modificava. E não era mais como tantas outras da vizinhança. A minha mãe não era mais igual à mãe dos meus amigos, apesar de bonita e simpática.

O meu pai não era como todos os outros pais. Ele chegava em casa e fechava as cortinas para não ser visto. Chamava de lepra aquela anomalia. Triste, retirava-se mais cedo para o quarto e lá fazia também as refeições. Minha mãe tinha pernas de que se podia orgulhar, no entanto, com a metamorfose, passou a usar saias compridas ou calças jeans. O cabelo não precisava mais ser penteado, os sapatos trocados ou qualquer outra coisa alterada. Os meus pais passaram a me evitar. E logo toda a rua passou a ser como os meus pais e os filhos permaneciam como eram – pareciam divertidos.

À noite, espiei o namoro de meus pais, pela fechadura. Viam-se multiplicadas milhões de peças quadriculadas: encaixavam-se e se desencaixavam ao sabor das emoções experienciadas por ambos. A predominância por peças vermelhas, azuis e amarelas e as inúmeras paisagens formadas por seus esforços amorosos enchiam o quarto de uma poesia única. A minha mãe, na manhã seguinte, irreconhecível, porque parecia desfigurada por um programa de computador para ocultar testemunhas de crimes brutais, dirigiu-se a mim, perguntando o que queria para o café da manhã e instantaneamente transformava-se em um microondas. Segundos depois, avisava que os ovos estavam prontos. Meu pai descia para trabalhar e poderia ser confundido com um quadro cubista. Ele e todos os outros pais que tiveram suas formas alteradas no decorrer da semana do surto. Os médicos não tinham resposta para a epidemia, nem ideia de quanto tempo duraria.

4.

A casa não suportava mais o meu peso. Desfazia-se, quando me apoiava contra os móveis. Eu não dormia mais em minha cama. Acordei várias vezes no piso da sala com fortes dores nas costas por ter caído indefinidamente pelos andares da casa. Minha mãe me servia comida de plástico, montada por aquelas milhões de pecinhas.

Ela e meu pai não encontravam problemas em mastigá-las ou eliminá-las. Eu não suportava mantê-las durante muito tempo na boca e corria para vomitá-las. Todos os meus colegas das casas seguintes pediam pizza e coca-cola para quase todas as refeições. O dinheiro escasseava, porque ninguém mais trabalhava. E os poucos que ainda aventuravam-se, tinham o soldo pago em dinheiro de banco imobiliário, portanto sem nenhum valor. Os meus pais cada vez me reconheciam menos.

Eu não tinha o cheiro, o aspecto ou o rosto deles. Portanto, em suas cabeças, não deveria ser seu filho. Folheava álbuns de fotografia para lembrá-los de quem eu era. Todas as fotografias quadriculadas e ali, entre eles, aquele estranho. A minha mãe, com a voz modificada, sugeriu que me adotassem. O meu pai parecia não achar um negócio direito. O melhor era chamar a polícia e me encaminhar ao juizado de menores. Em cada uma das casas, parado à porta, estava um ônibus das autoridades, confiscando crianças normais de pais quadriculados. Vigiados por policiais, que se desfaziam e se refaziam instantaneamente, como se as milhões de pequenas peças fossem organismos vivos e independentes.

A expressão idiotizada não dizia nada a respeito dos sentimentos das autoridades ou dos pais, apenas o gesto de minha mãe encostar a cabeça no que parecia o ombro de meu pai demonstrava a sua consternação. De nenhuma outra maneira ela poderia ser percebida. Quando me despedi dos dois, alisei o rosto de minha mãe que se desfez em minhas mãos como areia, e as suas feições, se assim posso chamá-las, condoídas pela separação, pareciam revelar a verdade a meu respeito.

Entretanto, o cérebro parecia recusar-se a lhe dar crédito sobre o parentesco entre nós, e a natureza, contradita em minhas linhas, provava ser impossível. Aquilo que lhe pareciam os olhos, em misto de dor e de ansiedade, fez que o restante de voz humana escapada de sua garganta, soasse como a palavra filho. Depois se tornou um incompreensível glamerô – para nós que éramos retirados das casas, e levados para campos de concentração em que médicos estudariam a nossa faculdade estacionária.

Os pais de outros colegas olhavam estupidificados do portão para os ônibus lotados e suas mentes de plásticos não alcançavam o motivo de tantos de nós termos invadidos os seus lares e as suas vidas. Por que éramos tão diferentes? Não saberíamos nunca a resposta. Os médicos não trabalhavam mais em cura alguma. Não havia enfermidade. Ou a enfermidade éramos nós com nossas aparências monstruosas: redondas e angulares. A contradição vivida por nós era que a liberdade era fácil; arrebentar-se-ia com facilidade as paredes e se escaparia daquele lugar. Mas para onde se iria? Eu tinha saudades de minha mãe e de meu pai, lembrava de suas feições de areia ou de peças plásticas articuláveis e remontava com pedaços da parede de minha cela os retratos de ambos. Descasquei com tanta severidade a parede que abri espaço para o meu corpo atravessá-la sem dificuldade. Não tinha vontade ou coragem de ir embora. Os planos de fuga eram diversos. Construíam-se aviões, submarinos e outros transportes para se dar o fora e se voltar para aquela rua. Restava a dúvida de que seríamos ou não aceitos e a imobilidade decorrente da dúvida.

Mariel Reis é contista, poeta e ensaísta.

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114ª Leva - 08/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

[1976] A ALMA DO DIABO*

She has given her soul to the Devil
but the devil gave his soul to God
Caetano Veloso

Quando o Major Andrade passou mal em casa, acabava de colocar o uniforme para ir ao quartel. Tinha acordado cedo para engraxar os sapatos e polir o cinto. Podia ter feito isso na noite anterior, mas há muito tinha adquirido o hábito de revisar seu uniforme pela manhã. A mulher deixava tudo passado e em ordem. O que lhe cabia, cinto e sapatos, ele cuidava logo quando acordava. Deviam estar sempre brilhando, impecáveis e, mesmo já limpos, ele tornava a escovar e polir. Depois era vestir-se. As meias esticadas até o alto da canela, a calça verde-oliva com o vinco exato, sapatos, a camisa cáqui, a gravata de mesma cor, a túnica também verde-oliva e o quepe. Vestia-se nessa ordem. Naquele dia, por um motivo que não saberia dizer, mas que, depois, pensaria ser um indício já de sua doença, um indício da desordem do corpo na rotina de vestir… naquele dia ele colocou a túnica antes da gravata.

Não era uma gravata comum, mas daquelas de nó pronto com um gancho para encaixar no colarinho. Foi por isso que ele, ao sentir o aperto na garganta, teve certeza de que a gravata não lhe apertava. Algo o enforcava e não eram as roupas, mas ainda assim tentou se desfazer da gravata que teimava em não sair, agarrada ao botão do colarinho. Teve de puxar com força e rasgar a camisa. Com o alívio momentâneo é que se deu conta. O braço formigava como se dormente e o peito estava apertado numa angústia de morte anunciada. A cabeça latejava. A rigidez da túnica lhe impedia de levantar direito os braços, não conseguia tocar a testa com a mão. Naquele momento não sabia se era uma fraqueza do corpo ou se tinha esquecido o movimento da continência. Para vencer as mangas rígidas do uniforme tinha de esticar primeiro o braço para a lateral. Assim ele escapava um pouco do tecido. Só então fazia o gesto de levantar o braço até a testa. Pronto. Estava feita a continência.

Naquela manhã não foi assim. O uniforme apertava e mais parecia uma camisa de força do que uma roupa e seus símbolos. O Major Andrade caiu no chão do quarto e lhe pareceram muito longos os instantes em que ficou ali sufocando. Antes de perder a consciência, imaginou ser essa a sensação de quem é torturado: um quase morrer que nunca se completa. Uma agonia sem fim. Esse foi seu último pensamento antes de tudo escurecer no quarto, enquanto lá fora, às cinco e meia da manhã, começava um novo dia.

*

O quarto era branco.

Dizer assim uma simples constatação parece redundante e desnecessário para qualquer um, mas para o Major Andrade era uma constatação infeliz. Ali naquele quarto de hospital tudo era branco. Faltava algo verde-oliva nas portas que pudesse lembrar o Hospital Militar de Salvador. Quando ele acordou pela primeira vez, quis saber por que não estava lá.

— Eles não têm equipamento para cuidar de você, querido.

A esposa tentava a todo custo convencê-lo a aceitar o hospital civil sem reclamar. Ele aceitava, dava-se por rendido, mas reclamava e acha defeitos em tudo. Tinha tido um infarto, estava ferido, fora de combate, mas não se conformava. Por que o exército não tinha um hospital bem aparelhado? Que diabos estavam fazendo com a tropa?

— Se você ficasse lá ia morrer.

— Palhaçada! Saindo daqui vou falar com o Comandante da Região. Se um soldado não tem tratamento certo, seguro, como pode defender o país? Se precisar, mando carta pro Geisel. Absurdo.

— Meu velho, você tem de ficar calmo. Assim só piora.

O médico, que já entrava no quarto enquanto a mulher falava, emendou.

— O senhor tem de relaxar pra ficar bom logo.

Andrade olhou para o médico com algum desprezo. Era novo, não devia ter nem trinta anos. O que ele sabia de medicina?

— É esse menino que está cuidando de mim?

A mulher respondeu com um olhar de recriminação.

— Ele não fica quieto, Doutor, não se acalma.

— Se o senhor não se acalmar, vamos ter de lhe dar um calmante.

O médico falava com uma paciência estudada, complacente, como se lidasse com uma criança. Aquilo só irritava mais ainda o Major.

— Quando ele sobe pra cirurgia, Doutor?

— Marcamos pra de manhã.

— Cirurgia?

— Sim, querido, eu lhe falei.

Ele não lembrava. Como iam operá-lo naquele hospital? E sem nem mesmo ser consultado? Começou a praguejar, queria uma explicação, queria sair dali.

— Esses médicos não sabem nada. Eu não vou ser operado por esse menino.

— Calma, meu querido.

O médico resolveu que era melhor deixá-los conversar. Ele teria de ser operado. Teria ainda de esperar até o outro dia e, depois, repouso. E quem sabe quais as consequências? Talvez fosse reformado, fosse para a reserva e fim. Acabado. Morto ou vivo não seria mais o soldado que era. Tanto tempo de dedicação ao Exército; aqueles anos todos defendendo o país e justo naquelas circunstâncias, o país em crise. Os comunistas.

A mulher tinha conseguido acalmá-lo. Deixou-o sozinho no quarto.

Veio, então, uma enfermeira. Era uma mulher de uns quase trinta. Todo mundo tinha quase trinta naquele hospital e ele não confiava em ninguém com menos de trinta anos. Era morena clara. O cabelo meio cacheado estava esticado e preso num coque atrás da cabeça. Via-se que todo o desalinho do cabelo tinha sido domado com mão de ferro. Uma disciplina militar. Ela o cumprimentou sem nem mesmo olhar e começou os preparativos para um remédio. Preparava uma seringa.

— Vai me furar com isso pra quê?

Ela finalmente olhou para o paciente assustada. O major percebeu o susto.

— Que é? Estou mal assim?

— Não, senhor.

— Pra que é esse remédio?

— É pro senhor relaxar um pouco.

— Vai me dopar?

Ela não hesitava ao colher o remédio com a seringa. A mão firme. Depois foi só injetar no soro lentamente.

— Já, já o senhor vai estar tranquilo. Vai ser bem suave. Tá?

Era verdade, aos poucos ele se acalmava. Ela arrumou os apetrechos e se preparava para sair quando ele a chamou.

— Vem cá, eu já não te vi antes?

A moça se virou. O rosto estava imóvel, sem nenhuma reação, uma frieza típica de enfermeiras. Já tinha visto tantas coisas.

— Como é seu nome, menina?

— Maria.

— Maria de quê?

— Só Maria, senhor.

— Tem sobrenome?

— Sim, senhor.

— E não vai me dizer?!

— Não, senhor. Agora o senhor precisa relaxar.

— Eu lhe conheço.

— Acho que não.

— Conheço, sim.

— Senhor, talvez seja o remédio. Ele já deve estar fazendo efeito. Vou deixar o senhor dormir. Boa noite.

Ela saiu e fechou atrás de si a porta branca. O quarto ficou numa penumbra branca. Com se estivesse numa noite glacial. O branco foi se desgrudando das paredes como se fosse algodão e aos poucos começou a cobrir a cama onde estava o Major, lentamente, como neve. Ele se viu inteiramente coberto. Sentiu-se um pouco sufocado. Teve medo de morrer, um medo vago, um sentimento que pouco a pouco se distanciava, ou era ele que parecia estar cada vez mais distante. Parecia escapar, sumir, até que finalmente o branco escureceu de vez e tudo se apagou.

*

Acordou no escuro. Apenas o retângulo da porta fechada se destacava. Voltou a fechar os olhos e a imagem da enfermeira apareceu na sua frente. Não estava de cabelos presos. Eles estavam soltos, ondulados, desalinhados. Usava um vestido azul, simples, que descia reto até os joelhos e era abotoado na frente. Não tinha nada do espalhafato dos jovens daqueles tempos esquisitos. Nada de estampas, calças jeans. Uma moça de família. Ela chorava e repetia “meu irmão”, “meu irmão” e então desapareceu de novo no escuro meio avermelhado das pálpebras fechadas do homem. Ele voltou a dormir o sono químico do remédio, o sono profundo de um corredor longo em que podia ouvir portas de ferro se fechando e gritos. Eram gritos distantes, abafados, como se alguém estivesse sendo sufocado. Ele andava e os gritos pareciam mais próximos, como se fossem sussurrados em seus ouvidos. Vinham cada vez mais perto, até que pareceram entrar na sua cabeça e ficaram mais e mais abafados e, por fim, viraram uma tosse descontrolada.

Acordou tossindo, engasgado na própria saliva. Por um segundo, sentiu que ia sufocar. Precisou levantar e sentar na cama. Queria gritar, mas a voz não saía, pelo menos não audível. Pensou que sua mulher pudesse estar ali no quarto velando seu sono. Não estava. Estava só no escuro. Aos poucos a garganta se desobstruiu e pôde emitir um pigarro mais alto. Queria cuspir, mas onde? Não tinha nenhuma aparadeira perto. Acabou cuspindo no chão, um cuspe grosso, escuro, que logo se transformou em vômito. Ficou um tempo debruçado para fora da cama até que a ânsia acalmou. Ainda recostou um tempo na cama para só então ouvir algum barulho. O retângulo de luz se abriu na porta e entrou a enfermeira.

— O senhor está bem?

— Claro que não. Não tá vendo?

A moça olhou o chão sujo.

— Quase morri aqui sozinho. Não tem ninguém aí, não?

— Eu estou aqui, senhor.

— Minha mulher?

— Não sei dizer. Deve ter descido. Eu mesma vou limpar isso.

Ela acendeu a luz e saiu, voltou logo com um carrinho de material de limpeza e uma bandeja com vários outros materiais.

— Estamos sem pessoal de limpeza à noite, mas já vou limpar isso tudo.

— Hospitalzinho de merda.

Ela se concentrou primeiro no chão. Enquanto ia de lá para cá entre quarto e banheiro, o Major Andrade voltou a reconhecê-la.

— Eu conheço você, sim.

Ela não parava a limpeza. As mãos enluvadas para recolher o vômito do chão.

— Acho que não, senhor. Eu, pelo menos, não me lembro.

— Você tem um irmão?

A enfermeira o olhou sem expressão. Mesmo enquanto limpava o chão sujo sua expressão era impassível. Nenhum nojo aparente.

— Não, senhor. O senhor fuma, não é? Não precisa ficar preocupado com esse muco. Vou relatar ao médico, mas tenho certeza de que não é nada grave. Pelo menos não agora.

Levou o pano sujo para o banheiro e de lá continuou. A voz saiu um pouco mais alta, mas ainda calma e controlada.

— O senhor fumava sem filtro?

De volta ao quarto.

— Ou cigarro de palha?

— Os dois.

— O senhor devia fumar só cigarro. E com filtro. É melhor.

— Eu lembro de você procurando seu irmão no quartel.

— Eu não tenho irmão, não. O senhor deve está me confundindo com alguém.

— Tem, sim. Ou tinha. Ele foi preso, não foi? Era subversivo.

Ela tinha terminado a limpeza. Preparava, agora, um chumaço de gaze.

— Era comunista.

O rosto de Maria continuava imperturbável. Havia apenas um esboço de compreensão, o ar compassivo que as enfermeiras fazem para qualquer dor que um paciente sinta, seja uma febre ou um câncer terminal, a mesma face suave e calma. Confiante.

— Eu preciso limpar o senhor. Posso?

Começou a limpar o rosto do paciente, queixo, pescoço.

— De manhã um enfermeiro vem lhe dar um banho. Isso é só pro senhor não dormir sentindo o cheiro do vômito. Não vale a pena perder o sono agora.

— Você é muito educada, mocinha. Me admira ter um irmão comunista.

— Me desculpe, mas não sei do que o senhor está falando.

— Sabe, sim. Você foi várias vezes atrás dele. Isso aconteceu há uns dois ou três anos. Não lembro bem, foram tantos. Ele tinha desaparecido. Fazia tempo que você não o via. Ele tinha ido pra clandestinidade. Não sei o que fazia antes, algo na universidade. Professor ou estudante? Tinha sido expulso e entrou na luta armada. Uns marginais, você sabe.

— Eu não acompanho política.

— Pelo visto, não mesmo. O que eles não entendem é isso. Os subversivos. O povo está do nosso lado. Ninguém quer saber dessa história de comunismo. As famílias não querem. Alguém precisava fazer alguma coisa. Foi o povo que pediu a Revolução. E o Exército apenas protege a vontade do povo.

Ela não respondia nada.

— A influência deles é nefasta. Eles se metem na música, nos programas de televisão. É esse desregramento; a nossa juventude está se perdendo.

Ela acabou o que estava fazendo e começou a arrumar as coisas para ir embora.

— O senhor precisa voltar a dormir.

Ele a segurou pelo braço. Segurou forte. Queria que ela o olhasse nos olhos. Puxou-a.

— Você achou seu irmão?

Ela pegou a mão, tirou-a do próprio braço e a colocou de volta sobre o peito do paciente.

— Agora o senhor precisa dormir.

A voz era mais firme do que antes.

— Menina, eu sou um Major do Exército Brasileiro. Só recebo ordens de meus superiores.

— Mas aqui o senhor tem de obedecer. É para sua saúde.

Falou no tom amigável com que se fala com as crianças. Arrumou suas coisas e ia saindo quando ele a chamou.

— Não quer saber o que aconteceu com seu irmão?

Ela parou na porta. Ficou um instante em silêncio até voltar-se com o rosto plácido de sempre.

— Parece que o senhor não vai dormir, não é?

— Quer saber se ele está vivo?

Ela continuou parada na porta.

— Sente aí.

Não sentou. Ficou imóvel no mesmo lugar.

— Seu irmãozinho era um agitador. Tinha mesmo de ser expulso da Universidade. Acho que era estudante, não é? Nossos homens estavam na cola dele há muito tempo. Sumiu, mudou de nome. Ele era o tal Carlos, não era? Você parece que não sabe de nada. Ou sabe? Essa cara tranquila…

Ela continuava no mesmo lugar.

— Sente.

Apontava a cadeira convidativo.

— Seu irmão não era assim. Era fraco. Não fui eu que prendi, mas sei que ele foi encontrado numa casa na Ribeira. Quando os colegas chegaram, ele se escondeu na caixa d’água. Quase se afoga, o idiota. Chegou na unidade molhado e sangrando. Às vezes é preciso dar um corretivo nos caras. Sabe como é, né? É preciso pôr ordem nas coisas. Jogamos ele no buraco e esquecemos lá. Nem sei quantos dias. A ordem era essa. Primeiro uma adaptação, pros caras esquecerem o mundo lá fora. Quando tiramos, ele tossia muito. Estava todo vomitado, mijado, cagado. Fedia muito.

Maria franziu um pouco a testa, muito levemente.

— Tá com nojo? Mas você não teve há pouco quando limpou meu vômito.

— Não.

— Pena? Eu entendo, afinal era seu irmão. É compreensível. Você é uma boa moça. Católica, temente a Deus. Eu também. Vou à missa todo domingo. Faço meus filhos irem também. Tenho dois filhos, um casal. A moça ainda está na escola, dezesseis anos. O rapaz já é casado, é engenheiro. A esposa é professora, fez escola normal, mas não trabalha mais. Casou. Tem de cuidar dos filhos que vão nascer e não dos filhos dos outros. Você é casada, minha filha?

— Não, senhor.

— Mas ainda é moça. Logo vai casar. Quem sabe um médico desses daqui, um rapaz direito. Tem um oficial recém incorporado no meu quartel, um tenentinho. Não namorou ninguém desde que chegou. Já falei pra ele arrumar uma noiva. Assim é esquisito. As pessoas comentam. Quem sabe ele vem aqui, hein? Você é uma boa moça.

Eles ficaram um pouco em silêncio.

— Quer que eu continue?

— Não precisa. O senhor tem de descansar.

— Mas eu vou continuar. Seu irmãozinho estava muito mal, com febre. Sabe Deus que doença tinha. Mas era preciso limpar, né? Ali só tinha um jeito. Botaram ele no pátio e lavaram com um banho de mangueira. Ele tremia tanto, era incontrolável. Parecia um boneco. Foi a diversão dos soldados. Depois demos toalha e roupas secas pra ele. Ele não podia piorar. Tinha muito a falar. Olha, quem fala sofre menos. Ele devia ter falado logo. Esses caras são assim. Sabem que vão soltar a língua, entregar todo mundo, mas demoram, ficam sofrendo. Era tão mais fácil entregar logo o jogo. São muito burros. Seu irmão foi muito burro.

— O senhor torturou ele?

— Sim. Quer ouvir? Senta e escuta.

Uma sombra tomou conta do rosto dela. Ela sentou na cadeira e esperou. Não olhava para o paciente, olhava para os lençóis da cama.

— Eu ainda era Capitão naquela época. Meu trabalho era interrogar os subversivos. Fiz isso muitas vezes. Era assim que a gente descobria os planos deles, era preciso. Uma questão de segurança nacional, sabe? Esses terroristas estavam à solta por aí fazendo baderna, assaltos, sequestros, explodindo coisas. Ainda estão. O país não está seguro. Nós vivemos anos perigosos, uma guerra.

— O senhor torturou muita gente?

— Foi preciso. Seu irmão foi um caso. Não colaborou. Poxa, na primeira surra era pra ter falado. Peguei dois soldados e mandei espancar. Primeiro de leve. A gente tem sempre a esperança de não precisar pesar a mão. Eu sou muito humano. Não sou de exagerar. Levou pauladas nas mãos e nas palmas dos pés, telefones. Sabe o que é um telefone?

Ele acenou positivamente com a cabeça.

— Você sabe. Pois não adiantou. Botamos na geladeira um tempo, nada. Geladeira é um cubículo baixo. A gente esfria, esquenta, esfria… o marginal fica uns dias lá debaixo de uma barulheira infernal. Seu irmão ficou. Nada. Ele não dizia nada. Foi aí que eu tive certeza. Um terrorista treinado. Ele resistia bem. Tava na cara que sabia de alguma coisa grande. Quanto mais eles se calam, mais a gente sabe que estão escondendo algo. É sempre assim. Seu irmão não seria diferente. Depois disso, fizemos afogamentos. Sabe como é?

Ela fez que sim novamente.

— Sabe não. Pensa que é só enfiar a cabeça num balde ou num tonel com água? Tem isso, ok, mas não é só. Pra mim funciona melhor tapar o nariz do sujeito e enfiar uma mangueira de água na boca. Liga e pronto. Ele vai engolindo água até sufocar. Quem já engoliu água na praia sabe o desespero que dá.

Ela se levantou.

— O senhor vai me desculpar, mas eu preciso ir.

Os olhos piscavam para disfarçar as lágrimas que queriam vir. O nariz estava vermelho.

— Não que saber mais?

— Não, senhor.

— Ele precisou ir para os choques, o pau-de-arara. Era teimoso o danado. Gritava, gritava muito, muito.

Ele colocou as mãos nos ouvidos, como se ainda pudesse ouvir os gritos dos presos, todos dentro de sua cabeça. Os olhos fechados.

— O senhor me dá licença.

Maria aproveitou o momento para fugir daquele lugar. Já saía do quarto quando ele completou.

— Ele acabou falando, menina. Contou tudo. Eles sempre falam.

Ela parou na porta entreaberta.

— E depois?

— Depois, pegamos os comparsas todos. Todo mundo. Fim.

— Assim? Fim? Acabou?

— As coisas não acabam assim, minha querida. Essas coisas não acabam bem.

Ela não conseguiu dizer nada. Saiu e fechou a porta atrás de si.

Ele ficou sozinho de novo. Por que tinha dito tudo aquilo à moça? Estava meio alterado, a respiração ofegante. Ia morrer logo, achava. Sussurrava para si “não passo de hoje, não passo de hoje”. Sentia que ia morrer, sabia disso enquanto fechava os olhos. Via um escuro diferente, mais negro que o normal. Definitivo.

*

Do seu sono ouviu a porta do quarto abrir. Abriu os olhos e viu a enfermeira novamente. Estava plácida, equilibrada. Manejava uma bandeja com seringas e remédios.  Quando percebeu que ele estava acordado, sorriu.

— Está acordado? Como está se sentindo?

— Bem.

Ele estranhou a calma da moça. Tinha saído transtornada antes e agora voltada como se nada tivesse acontecido. A mesma feição compassiva de antes.

— Você deve me achar um monstro, não é?

— Como?

— Depois de tudo que eu lhe contei.

Ela sorriu compreensiva.

— O senhor não se preocupe. Está tudo bem.

— Você está com ódio de mim, não é?

Ela preparava o medidor de pressão.

— Deve me achar um torturador de merda. É isso.

Encheu o medidor de pressão. O braço do paciente ficou apertado. Ele achou que estava exagerado, doía. Pensou em reclamar, mas logo a pressão começou a diminuir. Ela se concentrava na medição.

— Sua pressão está alta. Vou precisar lhe medicar.

— Você?

— Sim.

— E onde está o médico?

— Ele vem mais tarde, não se preocupe.

— E minha mulher?

— Ela está lá embaixo, já vai subir.

Ele desconfiava da calma da moça. Como ela podia estar assim tão calma depois de tudo que ele falara?

— Você vai me matar.

Ela olhou para ele surpresa. A seringa estava na mão pronta para colher o remédio na ampola.

— O senhor está agitado. Esse remédio é justamente pra lhe acalmar.

— Você quer se vingar de mim. Eu não tenho medo. Se eu morrer, não vou para o inferno. Tudo que eu fiz foi pra defender o meu país. Já você, você é uma assassina. Eu sou um soldado, eu obedeço ordens. Ninguém pode me culpar de nada. Sou católico, vou à missa, confesso, comungo. Eu entreguei minha alma a Deus. Quando eu morrer o próprio Jesus vem me buscar porque eu defendi meu povo. Eu fiz o que era preciso. E se fiz alguma coisa de errado é porque precisava fazer o certo. Alguém tinha de fazer. Você, não. Você é uma assassina. Vai pro inferno.

Ela olhava para ele com uma expressão diferente da placidez de antes. Era como se controlasse uma impaciência. Quem a visse fora daquela cena sentiria que algo a incomodava.

— Senhor, esse remédio é apenas para acalmá-lo.

— Você vai me envenenar. O que é isso?

— Um tranquilizante leve. Apenas para o senhor dormir melhor. Foi o médico que passou.

— Eu não vi nenhum médico.

— O senhor estava dormindo, um sono agitado. Ele achou melhor repetir a dose do remédio.

— Não.

— Por favor, Capitão. O senhor vai ver como tudo vai melhorar.

Aquela voz lhe chamando de capitão lhe fazia voltar no tempo. A menina implorava pelo paradeiro do irmão. A mesma frase repetida várias vezes, chorosa, desesperada. “Por favor, Capitão.”

— Major. Eu sou um Major.

— Me desculpe, eu me confundi.

Ela enfiou a seringa no receptáculo do soro e injetou o remédio. Ele sentiu o líquido entrar no seu braço. Com a outra mão quis puxar a agulha, mas ela o impediu. Ela era surpreendentemente forte para uma moça. Olhava com a expressão firme. Ele repetia entredentes.

— Assassina.

— O senhor não se preocupe, Major. Acabou. Agora tudo vai ficar bem.

Ele sentiu o branco do quanto avançar sobre sua vista. Tudo ficou enevoado. Só os olhos negros na enfermeira permaneciam visíveis. Depois, esse negror se ampliou como se o sugasse, como se ele fosse levado por um corredor escuro com um barulho longe de portas de ferro e uns gritos desesperados, cada vez mais longe, cada vez mais longe, e no fim de tudo, nada.

*Conto de abertura do livro A Eternidade da Maçã, obra vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2016.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014) e “Arquivos de um corpo em viagem” (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Recentemente, lançou “A Eternidade da Maçã” pela Editora 7Letras.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anderson Fonseca

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

A caixa

 

Caro Williams, se porventura notar que a literatura como a conhece está assumindo outra forma, a culpa é minha. A razão que me levou a fazer certa escolha de valor ambíguo deve-se a um anseio natural de contemplar um universo ruir para outro nascer, como também a uma inclinação da alma para a desobediência – como sabe, não sou afeiçoado por ordens -, sobretudo, pela curiosidade, talvez de natureza infantil, em conhecer os mistérios que nos cercam. Creio que faça parte disso minha história com jogos de azar. Ainda lembro, quando com 17 anos, você deu-me um dado chinês do século XVIII e advertiu-me a respeito da sorte, o quanto ela possui duas faces – como Jano – e só vemos no momento em que é feito o lance. De lá para cá, meu espírito inclinou-se a crer que a sorte é a lei constituinte do mundo. A todo instante jogamos dados e alteramos a ordem dos eventos. Somos uma espécie de deus preso às próprias leis que criou. Mal da onipotência? Quem sabe. Por isto, reafirmo que a curiosidade aliada à paixão pelo acaso levou-me a imaginar as inúmeras possibilidades que cerceavam minha escolha tão funesta. Eu a fiz. Este é meu crime.  Mas a fiz por desejar, – como já afirmei -, que este universo ruísse para outro de suas cinzas emergir.

Certamente não está a entender nada do que lhe digo, e com isso pergunta-se do quê exatamente conto. Antes de esclarecer suas dúvidas, quero agradecer por ter sido meu mentor, pai e herói. Não me esqueço do pequeno ladrão que fui um dia, e, ao encontrá-lo, no bibliófilo reconhecido em que você me tornou.  E venho desculpar-me pela escolha que fiz, estou arrependido, talvez se eu não tivesse olhado, se eu não tivesse aberto a caixa, se não tivesse desobedecido à ordem do senhor Barrington, talvez… talvez tudo permanecesse o mesmo.

Foi na noite de terça-feira, 23 de abril, logo após ter saído do bistrô do Paço Imperial, mal ter entrado em casa, aberto o Cabernet Sauvignon, derramado em uma taça, umedecido os lábios, e deitado no sofá, o telefone tocou. Quando atendi, ouvi uma voz seca dizer: – Senhor Xavier? É o senhor Xavier?

– Sim. É ele quem fala.

– Boa noite. Perdoe-me o incômodo a essa hora tão tarde. Sou o Dr. Barrington, creio já ter escutado a meu respeito. Venho de uma família nobre, reconhecida por preservar artefatos históricos. Há dias estou em busca de um bibliófilo a quem conferir um objeto de inestimável valor, pertencente à minha família, até descobrir seu nome. Sua fama o precede, senhor Xavier, não somente por seus feitos, como por sua ética, por isso, quero muito seus serviços e será bem remunerado.

– Agradecido, senhor Barrington, por solicitar meus serviços. Estarei em sua casa na quinta-feira, pois amanhã preciso com urgência resolver uma questão de trabalho.

– Dr. Xavier, não tenho tempo para esperar. Meu chofer já se encontra em frente à sua casa. Por favor, venha logo.

Lembra-se da vez em que você deu-me um soco tão forte no rosto que caí? Foi assim que me senti quando Barrington desligou o telefone. E como um gato perseguindo o fio de lã puxado pelo dono, segui aquele misterioso convite.

O mordomo abriu a pesada porta de madeira maciça entalhada em flores; contei 12 passos até o salão principal. No centro, sentado à mesa de mogno retangular, o Sr. Barrington mantinha os olhos sobre a pequena caixa de ferro. Sentei-me ao seu lado, ele levantou os olhos voltando-se para mim, e disse com a voz trêmula: – Dr. Xavier, estava ansioso pela sua chegada. Agora, sinto-me aliviado ao vê-lo aqui à minha frente.

– É um prazer estar aqui, Sr. Barrington. Mas, até o momento, não entendi o motivo do convite. Estou ansioso a respeito do trabalho que irá me designar. Por favor, diga-me por que estou aqui.

– Direito e lacônico… Agirei do mesmo modo. – E sorriu. – Vê essa caixa? Ela é o tesouro de minha família. Há séculos protegemos seu conteúdo. E jamais algum de nós ousou abri-la. Esclareço: Nessa caixa está o texto original de O Fausto de Wolfgang Goethe. Sim, Xavier, a grande obra que influenciou a literatura moderna. Como sabe, Goethe escreveu duas partes da obra, a primeira publicada em 1808, e a outra em 1832. Ao menos é isso que sabem os especialistas. Na verdade, há uma terceira, intermediária entre as duas edições. Esta obra chamada por Goethe de Fausto – a tragédia humana ficou apenas como rascunho da segunda publicação. Nela encontravam-se resquícios da primeira edição e o projeto da segunda. Tratava-se, portanto, de uma obra intermediária. Diz a lenda que Goethe levou os rascunhos a um feiticeiro para lançar sobre as folhas um encantamento. Dali em diante, as duas publicações estariam entrelaçadas a esta, de forma que qualquer intervenção alteraria os traços das duas edições e, assim, a literatura alemã. Um efeito no tempo. Ciente do poder que continha os rascunhos, Goethe os guardou em uma caixa de ferro e ordenou que jamais fosse aberta. Dr. Xavier, o senhor já ouviu, sem dúvida, falar na mecânica quântica. Há duas teorias bastante interessantes propostas por essa mecânica. Uma delas é conhecida como entrelaçamento quântico. Imagine você dois objetos, digamos duas maçãs tão fortemente ligadas entre si que se torna impossível que uma seja descrita sem mencionar a outra. Ou seja, suponha que eu pegue uma dessas maçãs e gire para a esquerda, a outra irá girar subitamente para a direita. Eu poderia separá-las, colocando uma distante da outra por milhares de quilômetros, e ainda assim, ao girar uma para a esquerda, a outra se moverá na direção contrária. De um modo maravilhoso a informação viajou mais rápida que a luz rompendo com as leis da física.

– E se eu morder um lado da maçã? – perguntei para distrair.

Barrington riu escandaloso, depois olhou-me firme e disse: – Ora, Xavier, a outra maçã perderia sua parte. Agora não me pergunte se estaria no estômago ou não, pois ignoro a resposta.  – E voltou a rir. Depois emendou: – A outra teoria é o famoso paradoxo de Schrodinger. Trata-se de uma incoerência, uma incerteza que só é abolida mediante a interferência de um observador humano. Dessa vez, imagine um gato dentro de uma caixa lacrada. Nessa caixa há um frasco contendo veneno ligado a um contador Geiger que acionará um martelo para quebrar o frasco, caso seja detectada a presença de radiação. Para Schrodinger há duas realidades: uma em que o frasco está quebrado e o gato morto; noutra, não. No entanto, segundo ele, estas realidades existem simultaneamente, isto é, o gato tanto está vivo como morto. Acontece que, quando a caixa é aberta por um observador humano, a dualidade é desfeita e o gato aparece vivo ou morto. Isso depende do observador, ele decidiu a vida ou a morte do pobre felino. Se não fosse ele, se não tivesse aberto a caixa, o gato permaneceria nos dois estados. É uma grande surpresa. Só saberemos se ganhamos ou perdemos depois de olharmos para dentro do abismo. Você entendeu, Dr. Xavie

– Sim, entendi completamente. O senhor explica de forma tão clara que faz um assunto complexo parecer um jogo infantil.

– Quem sabe não seja isso o que diz… ser a verdade. Quem sabe não seja tudo o que vemos um jogo na mão de deuses. – refletiu. – Mas, veja, estas duas teorias explicam a importância de não abrir a caixa. Para tornar ainda mais óbvio esse valor, acrescento a teoria da causa retrógrada. Ela afirma, em poucas palavras, que um observador ao medir o estado quântico de uma partícula no presente está alterando seu estado no passado. Nessa linha de pensamento, é possível que o efeito seja anterior à causa. Assim, duas partículas entrelaçadas podem desobedecer às leis da física. Se eu medir uma partícula no presente, estarei alterando a outra partícula a qual está entrelaçada e que existe no passado. A informação viajou no tempo. Isso é paradoxal, mas possível. Da mesma forma, as duas edições de Fausto estão entrelaçadas à terceira, a que se encontra nessa caixa. Este livro aí guardado existe tanto no passado quanto no presente, e, enquanto ele não for observado por ninguém, as duas edições se manterão inalteráveis. Contudo, se a caixa fosse aberta, a dualidade desapareceria e a informação do presente viajaria ao passado alterando as edições emaranhadas à terceira. Isto afetaria toda a história da literatura e o mundo como conhecemos se tornaria outro. Portanto, escuta-me. Jamais… jamais… jamais abra a caixa e olhe para o livro. Estou morrendo, faltam poucos dias para eu partir. Ao contrário dos meus antecessores, não tive filhos. Então me perguntei a quem passaria este legado, e aí descobri você. Espero que aceite o convite. Será bem recompensado.

– Eu aceito, senhor Barrington.

Levantamos e apertamos as mãos, assinei um contrato de confidencialidade e voltei para casa. Quatro dias depois, Barrington falecia em seu leito. No dia seguinte recebi a caixa e toda a fortuna da família Barrington. Para manter meu novo status quo e a boa qualidade de vida, era preciso apenas não descumprir o acordo.

Os dias seguintes, as semanas, os meses… foram os mais terríveis que vivi, Williams. O que você teria feito em meu lugar? Aceitado aquela caixa de Pandora? Ou teria rejeitado? Para mim foi como receber das mãos do Diabo um maldito presente. Não sei por qual motivo aceitei o trabalho, quem sabe, insanidade. Ao longo de oito meses não dormi, meus olhos permaneciam fixos no objeto misterioso. Perguntava-me sobre as possibilidades ocultas na abertura da caixa. E se… e se… e se… Estava seduzido pela ideia do fim da literatura e o surgimento de outra. Obsessivo, paranoico, doente, tornei-me pela ideia. Nada me salvaria.

No dia 22 de maio, recebi o convite para uma conversa de Carlos Pinheiro, famoso crítico literário, ex-colega de faculdade. Precisava sair, respirar. Nos encontramos no bistrô do Paço Imperial. O prato: bolo de chocolate amargo acompanhado de café sem açúcar. Em meio à conversa, Pinheiro, declara: – Xavier! Vou deixar a carreira de crítico literário e me dedicar à pintura.

– Por que essa decisão brusca?

– Bastante simples o motivo. Cansei-me de buscar a obra que fosse o espírito de nossa nação no presente século. Nada encontrei. Desde 1980 que não se vê um autor cuja obra carregue essa alma. Estou arrependido, aliás, vencido pelo tempo.

Eu sei que você, Williams, já sabe o final. Já deves ter concluído minha decisão. No fim daquela tarde, escolhi olhar o livro, graças ao infortúnio da conversa. Embora não concordasse com Pinheiro, partilhava de sua tristeza. Até então não tinha visto obra comparável a de Goethe, tão impactante a ponto de influenciar os séculos. Saí da conversa, emotivo, abalado; destruído pela falta de esperança, de uma obra que contivesse em suas páginas o drama humano. Durante nove horas fiz-me a pergunta: “E se Goethe não tivesse escrito Fausto, será que outra obra surgiria em seu lugar – quem sabe neste século – e salvaria a história?” Pergunta estúpida. De repente, uma palavra que significa incerteza e possibilidade, invadiu minha consciência. E se… E se Goethe tivesse sua obra alterada? Bêbado e abatido, levantei-me da cadeira, peguei a caixa, joguei-a sobre a mesa, apanhei a chave guardada no criado-mudo, e, diante dela por uns instantes, hesitei. Depois pensei: “Dane-se, vou abrir”. E assim que abri a caixa e olhei, vi os papéis que ali estavam subitamente desaparecerem. Neste preciso instante, compreendi que havia destruído a literatura.

Pois, se agora Williams sente o mundo em ruínas e algo novo surgindo, a culpa é minha. E, apesar de estar profundamente arrependido, não posso fazer nada.

X.

 

Anderson Fonseca nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Professor ensaísta, é também um dos editores da revista de contos Flaubert. Publicou “Notas de Pensamentos Incomuns” (contos, 2011) e “Sr. Bergier & Outras Histórias” (contos, 2016, Penalux). Organizou a antologia “Veredas – Panorama do conto contemporâneo brasileiro” (2013). É autor de “O que eu disse ao General” (contos, 2014), considerado pela revista Literatsi um dos melhores livros de 2014.  Vive atualmente na cidade de Brejo Santo (CE), com sua esposa e filha.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Denser

 

LUMA FLORES
Arte: Luma Flôres

 

Os autógrafos de Paul Anka

(Das DesMemórias – capítulo 12)

 

Jamais imaginei que fosse contar este episódio, era um dos meus segredos mais secretos e bem guardados, a sete palmos no último cofre da vergonha: foi precisamente assim que a garotinha de 11 anos se sentiu a vida inteira em relação à coisa toda. Não foi legal. Na verdade, foi horrível. Hoje, por exemplo, ainda é difícil contar essa história com alguma dignidade. Porque antes teve o episódio dos gibis – não sei bem por que estou associando esses dois eventos – talvez por implicarem em mentiras deliberadas.

Melhor falar antes dos gibis: eu tinha oito anos e era uma devoradora selvagem de gibis – Pato Donald, Tio Patinhas, Pateta, Mickey, Luluzinha, Superman, Fantasma (era fissurada no Fantasma!), e como já expliquei também era filhadaputamente discriminada pelas colegas do colégio de freiras, minha vida era uma merda. Por mal dos pecados, Isaura se enturmara com a mãe delas e agora vivia marcando cabelereiros, dentistas, chás, compras na Clipper direto com as novas amigas.

Que traziam junto as filhinhas cretinas – as mesmas que me maltratavam na escola. E minha mãe: o que é isso, filha, que implicância! (eu simplesmente queria matá-la!) Significando doses extras de desaforos sub-reptícios que eu não precisaria engolir, não em casa, não à paisana, não mesmo: Yarinha, Julinha, Clarinha perto das mães era uns anjos: vamos, Marcinha, lá fora pular corda.

Sei.

Lá fora, me gelavam, fingiam que eu não existia, me davam as costas, deixavam de lado, no toco, de castigo da vida, sempre a mesma merda. Quando não insultavam a troco de nada: tenho-te nojo, garota, diziam: olha só a cara dela, parece débil mental, ha,ha,ha! Filhas da puta, eu trancava o choro, cerrava os dentes e os punhos, vermelha feito um pimentão: simplesmente queria matá-las!

Teréca não, essa se enturmava, porém com as pequenas – aí meio que não valia, tinha graça brincar com as nanicas? Humilhação em dose dupla (quando se é criança, dois anos e meio fazem uma tremenda diferença).

Certa vez, na casa de Dona Yolanda, mãe de Yarinha e Clarinha, duas das mais cretinas, esta me vendo jururu num canto, me levou até o sótão lotado de gibis: mergulhei feliz no meio deles. A tarde ia avançada quando percebi que não conseguiria ler todos, de forma que enfiei um monte sob o vestido, abotoando o casaco. Já anoitecia quando mamãe e a dona da casa vieram me buscar: íamos embora. Levantei, me ajeitando.

Você ainda está lendo? perguntaram, percebi que mamãe e D. Yolanda se entreolhavam, constrangidas: pode levar quantos quiser, meu bem, vejo que gosta de ler, disse esta. Encabulada (poxa, se soubesse que ia ganhar, não teria enfiado na roupa, ainda pensei), respondi que não, obrigada, Yolanda insistia: mas leve quantos quiser, encabulei mais ainda: não, não precisa, obrigado!

De repente, com um puxão, mamãe me arrastou até o banheiro e arrancou-me os gibis: e agora vá devolver e pedir desculpas já, tremendo vexame você me fez passar! Afinal, devia estar IMENSA com aquele volume sob o casaco, mas não percebera: auto-imagem aos oito anos? Bobagem.

Mas esta é uma história de rejeição: se estivesse na rua, brincando de pegador, não precisaria enfiar gibis na calcinha. A outra trata dos autógrafos de Paul Anka.

Três anos depois – eu já era quase uma mocinha – as coisas tinham melhorado um pouco para o meu lado no ginásio, eu fizera a primeira cirurgia plástica que corrigira o lábio, simetrizara o nariz. Já a cicatriz, esta enraizara na alma. E aí não havia plástica nem cirurgia que resolvesse: o mal estava feito.

Experimentava minha primeira paixonite pra valer: o cantor e compositor de rock balada de origem sírio-libanesa, o canadense Paul Anka – da mesma safra de Neil Sedaka e do rei Elvis Presley. Tinha todos os seus long-plays, sabia sua biografia, acompanhava a coluna do Louis Serrano na revista Cinelândia onde este relatava as peripécias do meu ídolo em Hollywood, seu namoro com a starlet Annette Funicello, aliás eu andava furiosa com o Louis: este previa que Anka seria um astro passageiro, não ia ficar.

(De fato, atualmente no Brasil ninguém mais se lembra de Paul Anka, eu mesma precisei entrar no Google pra conferir sua trajetória: por exemplo, no próximo sábado, 30 de janeiro de 2016, descubro pelo viagogo, que ele estará em Barcelona no Gran Teatre del Liceu, apresentando-se a seguir na Polônia, República Checa e Eslováquia, um  circuito bem of-of. Depois dumas 47 cirurgias plásticas, não lembra nem vagamente o rapazinho árabe das fotos dos LPs gravados em 1960 quando cantava Diana e My Heart Sings. Leio que fez carreira em Las Vegas na esteira de Elvis, sendo compositor de alguns sucessos como My Way de Frank Sinatra e She’s a Lady de Tom Jones).

Então Paul Anka veio ao Brasil indo se apresentar no Teatro Record. Não sei como tive a ideia, mas inventei (já era ficcionista naquela época) que minha prima e o namorado iriam me levar todas as noites para vê-lo, aí não sei qual das colegas da classe pediu: me traz um autógrafo? Como eu hesitei, as demais fizeram coro, me assediaram, caíram sobre mim: subitamente eu virara o centro das atenções!

Aquela tarde e todas as subsequentes – enquanto Anka estivesse por aqui – eu carregaria cerca de 30 a 40 livros de inglês no trajeto de ida e volta ao colégio – um peso considerável! – a serem autografados advinhem por quem? Eu, naturalmente, que garatujava algo assim “Of me for you, Paul Anka” (Eu queria dizer “De mim para você” e saiu isso, até porque não sabia nadica de inglês nem ia perguntar, right?).

Repetindo, estas são histórias de rejeição: uma delas foi descoberta, pois a ladrazinha era demasiado estúpida. A outra não – mas pela estupidez alheia! Até porque as pessoas odeiam admitir que foram feitas de idiotas. Histórias que não acabam bem, não acabam nunca: são a crônica duma cicatriz.

 

A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Fernanda Fazzio

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

 As definições acerca do Belo são há muito tempo o alvo de inquietações de filósofos e de artistas. E é devido a elas que se tornou possível reconstruir uma história da estética. Contudo, o mesmo não aconteceu com o Feio, havendo poucos tratados e considerações relevantes sobre o tema. Aqui, partindo das reflexões de Umberto Eco, não se pensa o Feio em oposição ao Belo, mas sim em suas características peculiares, considerando conceitos próprios, relativos aos vários períodos históricos e aos seus estranhamentos nas diversas culturas.

 

A primeira margem

 

Eu sou o Bobo da cidade. Porque, em todas as cidadezinhas com pôr do sol entre as montanhas, precisa-se de um tolo, de um idiota, daquele a quem todos se referem como o lunático-fracassado-da-cidade. Sim, eu, muito prazer. Mas nada peço a ninguém, não preciso de esmolas, só propicio um encontro quando me ordenam. Eu, descuidado, vivo assim mesmo, no meio-fio de uma existência imprecisa. Um poeta um dia disse: “Esquecer é des-existir”. E fiz disso meu amuleto profético, eu não desisto, eu existo tecendo o vislumbre do invisível.

No começo dos tempos, já invejei os homens engravatados da cidade grande, aqueles que saem de casa com aroma de pó de café. Percebo que gozam de uma rasa felicidade, agarrando com destreza uma gravidez próspera de certezas, mas não percebem que são escravizados dia a dia por aquilo que mais lhes falta: tempo. E depois se corroem pelos equívocos de suas vidas empacotadas – meras verdades chamadas de absolutas e que costumam ser levemente incômodas. Isto também acontece por aqui, algumas pessoas se acham, sem mais, imortais. Formados para obter resultados, às vésperas do dia final, arrependem-se de uma existência com sentidos rasgados, amores incompletos e escolhas interrompidas em uma vida que não valeu a pena ser vivida. E o que lhes resta? O indizível, eu lhes digo, junto ao seu último suspiro.

Eu logo percebi que essas coisas não eram para mim, sujeito de uma autoria que não se escreve em pauta, mas que se esgarça entre uma linha e outra da existência. Foi então que, certo dia, adormeci no trajeto, cheguei até o final da linha do trem e, distraído, vim parar aqui em Vila Grandina.

Sou odiado por muitos, não nego. Por sempre conversar com os detalhes inquietantes da cidade, sutilezas despercebidas aos olhos comuns, sou conhecido por muitos como “aquele lá”. E quando me chamam, algo da ordem do oculto parece surgir. Mas, como eu lhes disse, sou necessário aqui. Sem mim, Vila Grandina se tornaria uma cidade ainda mais morta, sem memória, sem lembranças, sem passado nem mesmo uma história.

Admito que meus pensamentos desaforados são como as águas dos grandes rios. Em tempos de chuva, chegam como enchentes aos ouvidos desavisados. Minha consciência lampeja quando sou tomado por ideias estranhas sobre os moradores daqui. Meu talento é decifrar as pessoas desta cidade, até aquelas que parecem mais assustadoras do que eu. Eu sei de tudo, conheço o jeito de cada andar, os seus perfumes caros ou comprados de viajantes clandestinos, os vícios mais secretos e as singelas virtudes em suas vicissitudes. E também o mais terrível escondido: eu sei dos segredos, das histórias contadas por jurados, dos encontros sorrateiros, até das lembranças que deveriam permanecer esquecidas, que faço retornar como reminiscências opacas.

Moro nas coisas deixadas pelas pessoas. Carrego tudo o que posso comigo, nunca me desfaço de nada, tudo aqui assim, junto a mim, nesse lhano carrinho de mercado. Ando a cidade inteira com ele. Os moradores de Vila Grandina se livram do lixo de suas casas, mas não conseguem tirá-lo do bairro. E as pessoas me veem atravessando as ruas com essa carga de outros e não me compreendem. Crença ou ciência, eu também já desisti de tentar explicar sobre as incessantes vozes lancinantes e memórias perdidas. Mas mesmo assim elas me dão comida, às vezes um casaco ou um livro. Talvez porque ainda me reconheçam dos anos de trabalho na Biblioteca Municipal, dos tempos de uma vida ordenada, regrada por garantias institucionalizadas. Contudo, foi preciso abdicar de tudo, essa minha essência necessita de solidão, de quietude sem lugar comum. Só assim chego à superfície do manto de angústia quase insuportável, meu companheiro fiel no desespero gelado.

Nunca se viu por aqui, nem se ouviu de terras longes, do enterro de um anão, menos ainda de uma anã. Talvez eles nem se autorizem a aparecer com as marcas do tempo. Eu sempre penso sobre isso. Os anões não morrem, como dizem, viram alguma outra coisa, não se sabe ao certo à qual maldição estão destinados. Crueldade ou destino, pouco importa agora, as atitudes mais terríveis são por vezes camufladas em perfumes importados e saltos de verniz, doces vozes escondem as ações mais desagradáveis.

Às vezes eu vou até os trilhos abandonados onde a pequenina foi encontrada e me recordo do dia em que ela chegou aqui. Fico à procura de alguma explicação para não deixar aquele corpo condensado morrer em mim. As vozes silenciam naquele lugar, acho que não podem se manifestar ali, há sem dúvida algo de sagrado nos cascalhos. Por isso, quando estou perturbado em meus devaneios confusos, vou até a estação para tentar assentar minha cabeça no lugar. O único que me acompanha fielmente nesses retiros é Preto, ficamos sentados nos trilhos, olhando um para o outro, desatando sentidos em um infinito sem tempo. Eu tenho cá para mim que ele sabe de tudo, mesmo em sua condição de gato que emudece o seu miado, eu sei que não ignora o fim da pequenina. Nós bem sabemos que ela deixou esse mundo na sutileza da sua menor grandeza.

 

Fernanda Fazzio é psicóloga pela PUC-SP e bacharel em Teatro formada pela Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH). Buscando aperfeiçoar a sua escuta clínica, especializou-se em Semiótica Psicanalítica: Clínica da Cultura (PUC-SP) e realizou a sua formação em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae. Escreveu a “A Inquietante Beleza do Feio” (Patuá, 2014), livro de ensaios e contos poéticos sobre as máscaras, o feio e a criação artística.