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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Roberta Silva

 

suzanalatini
Foto: Suzana Latini

 

O Lamentável fim da família de Dr. Conrado, o Benemérito

 

Moro numa daquelas casas que rodeiam o belo Central Park, nome atual do antigo parque da Colina, área nobre de nossa pequena e antiquada cidade. Ao redor desse parque, a nata de nossa sociedade. Famílias invejavelmente bem sucedidas e felizes que passam os domingos fazendo piqueniques no verde gramado do parque, como este fosse, e é, uma extensão de seus jardins. Nossa cidade é próspera, apesar da pequenez e pacata, apesar da rotina e grande distanciamento social entre as classes. Somos pacíficos e católicos e isto nos basta. Durante muitos anos, somente dois acontecimentos causaram escândalo entre o seleto grupo dos moradores do parque. O primeiro foi minha mudança para cá. Eu, Maria da Piedade, ou Piê, como era chamada no posto de saúde em que trabalhava como atendente de farmácia, filha de mãe solteira, herdei esta casa de meu pai, um ilustre personagem político da cidade. Seu desejo último foi redimir-se de sua omissão deixando para mim todos os bens que possuía. Nos primeiros anos fui apontada por meus vizinhos na rua e no parque e, primeiro por causa de uma exclusão descarada, depois, por convicção, passei a aproveitar os domingos na janela a observar o balé social, no qual bailam e representam nossa tosca comédia as pessoas respeitáveis de nossa sociedade. Deixaram de falar de mim após a morte de Dr. Conrado, o benemérito. Morte lamentável, mas não tanto quanto o lamentável fim de sua família, que aconteceu após a trágica morte.

Dr. Conrado era um advogado conhecido. Bonito, jovem, culto, bem sucedido. Era casado com uma mulher bela, jovem, culta, extremamente tímida, excelente dona de casa e pai de três adoráveis, educadíssimas e também belas crianças, o primogênito e duas meninas. Eram invejados pelos vizinhos, inveja branca dizia-se, daquela que não se deseja o mal. Exemplo vivo de uma família perfeita. Durante as tardes de domingo, no parque, estavam sempre rodeados de amigos. Seus quitutes eram fartos e os mais saborosos, a conversa deles era a mais agradável e suas crianças nunca davam um pingo de trabalho. Quando as mães tinham de ralhar com seus filhos por terem cutucado os peixes do lago com espetos ou darem rasteiras nas bengalas dos velhinhos, quando uma esposa descontente cobrava do marido um pouco mais de zelo ou um marido, cansado das lamúrias da mulher, desejava secretamente que a dita engolisse a língua e se calasse numa crise convulsiva de auto sufocamento recorriam à imagem da família de Dr. Conrado como exemplo a ser seguido, meta a ser atingida. Eram assunto também, nas rodas, as diversas obras de caridade que patrocinavam e as gordas doações nos jantares beneficentes feitos por ele e sua família.

Como num conto de fadas invertido, essa era uma história feliz que tivera um triste final. A princípio notaram que o jardim de Sra. Conrado não estava mais impecável. Ervas daninhas proliferavam a olhos vistos e depois estas substituíram definitivamente os lugares de destaque das folhagens nobres. O pior era que isso não acontecera por falta de zelo, tristeza recolhida ou luto. Parecia que a jovem viúva estava dando os primeiros sinais de enlouquecimento. Fora flagrada diversas vezes cultivando os capins, carrapichos e ervas de passarinho no que agora não era mais uma pálida sombra do lindo jardim de antes. Pararam de frequentar o parque aos domingos. O filho mais velho, depois que adolescera, perdeu-se completamente. Fazia teatro de rua, pintava os cabelos de cores vivas e os olhos e as unhas de preto. Viam-no circular com um colega um tanto afeminado diversas vezes pelo bairro em conversinhas purpurinadas, trôpegas e cheias de risinhos. A filha do meio vestia-se à moda dos novos hippies e vivia acompanhada de pessoas que não condiziam com sua classe social. A caçula ainda trazia muito dos modos de antes da morte trágica de seu pai, mas temiam cedo ou tarde contaminar-se também com o caos que se instalara no seio daquele lar. No seu andar, apesar de ainda elegantemente vestida, notava-se um leve desleixo nos movimentos, um desleixo que não se permitiria antes, visto que era, dos três, a mais elegante. Pela ausência demorada aos piqueniques de domingo descartaram a possibilidade do luto familiar, pois saiam todos, nesses dias, animados em seus novos trajes, rumo a um programa desconhecido além das fronteiras do rico boulevard.

Pela janela presenciei a chegada de um caminhão de mudança que parou à porta da casa da família de Dr. Conrado. O grand-finale deste escândalo será quando descobrirem que Sra. Conrado está de mudança. Com a família, mudará para outro lado da cidade para amasiar-se com um livreiro comunista e pé rapado com quem ela havia tido um pequeno affair na juventude. Superará, por certo, em pontos de audiência a notícia da morte do estimado doutor após ingerir uma sopa de mandioca brava, preparada para ele pela zelosa esposa, naquela tranquila noite de inverno.

Conheci Sra. Conrado tempos antes de me mudar para cá, durante os anos em que ainda trabalhava na farmácia de um posto de saúde afastado. Ela veio pegar gratuitamente os medicamentos receitados pelo doutor do posto em nossa farmácia. Ela apresentou-se na portinha apresentando a receita, minha repulsa foi imediata, pois se via logo de cara que era uma mulher que não precisava dos medicamentos grátis que distribuíamos para as pessoas menos afortunadas que eram tratadas ali. Era uma lista enorme, antiinflamatórios, antibióticos e ataduras. Ofereceu-se muito constrangida para pagá-los e senti-me um tanto arrependida pelo julgamento precipitado. Depois daquele dia, ela voltou várias vezes. Comentava-se a boca pequena entre os funcionários a natureza de suas consultas secretas. Ela entrava, às vezes só, outras acompanhando um dos filhos e depois passava na farmácia. Nunca dizia nada e parecia resignar-se ou não perceber os olhares de reprovação dos outros pacientes e funcionários dali.

Num dia igual a muitos outros, em que ela havia ido ao posto em busca de cuidados e remédios, sem motivos aparentes, ignorando completamente a fila que formara atrás de si, começou a falar. Sua voz era baixa e suas palavras polidas e bem escolhidas. Contou-me como alguém contaria a um padre em uma extrema-unção sobre como havia conhecido o marido. Após um namorico problemático com um colega de escola de nível social muito inferior ao dela encontrou-o, recém formado, belo, companheiro e disposto a terminar com suas angústias para sempre. Foi o casamento dos sonhos. Pouco depois da lua-de-mel, o marido dera os primeiros sinais que nunca esqueceria que um dia ela havia amado outro homem. Desconfiava de seu amor. Vasculhava suas coisas, seguia-a pelas ruas. Primeiro veio as discussões à meia voz para não serem ouvidos pelos empregados. Depois o primeiro tapa, o primeiro soco. A primeira gravidez frustou-se em um aborto devido a um chute que levou na barriga. Tirando a vez em que ele lhe socou a primeira vez, as outras nunca lhe deixaram hematomas que não pudessem ser omitidos por uma blusa, um echarpe, um xale. O médico da família ameaçou denunciá-lo, depois que se esgotaram as desculpas para os ferimentos e infecções, caso ela não o fizesse pessoalmente. Ela não o procurou mais e nas reuniões em que se encontravam convencia-o de que não aconteciam mais aquelas coisas e que estavam todos muito bem e felizes. Além do ciúme, sua excessiva mania de limpeza e perfeccionismo o fazia perder a paciência com a menor sombra de poeira ou objeto deixado fora do lugar. Isto era mais fácil de controlar antes da chegada das crianças, mas depois dela sua vida era uma eterna inspeção atrás de coisas que pudessem desagradá-lo. Lógico que os filhos não podiam acompanhar o cuidado da mãe. Vez ou outra deixavam cair um talher, manchar um vestido ou soltavam uma risada inoportuna e também sofriam com os corretivos do zeloso pai. Ouvi calada e depois a chamei para dentro do meu cubículo. Atendi as pessoas que esperavam na fila rapidamente e tranquei a portinhola. Conversamos durante algum tempo. Ela dizia que não havia como sair de lá. Todos iriam ficar contra ela, era impossível imaginar que Dr. Conrado, o benemérito, fosse capaz daquelas coisas. Ele mesmo a advertira que a internaria num manicômio caso tentasse levantar algum falso sobre sua honra. Ficamos amigas, eu a ouvia, quase todas as semanas, sobre a violência que aquele homem cometia impunemente contra a família acuada e indefesa. Um dia decidi por tentar ajudá-la. O filho tinha sido submetido, pela terceira vez, a uma sutura de pontos de um ferimento. O pai tinha por ele uma fúria mais contundente. Dizia que daria àquele ser patético uma postura máscula e viril nem que para isso tivesse que quebrá-lo em pancadas. Eu disse à minha amiga que tinha como dar a ela um veneno que ela poderia misturar a sua comida e ele morreria rapidamente. Sugeri que ela fizesse uma sopa de mandioca, pois era sabido que esse tipo de alimento vez ou outra causava uma desgraça.

O velório foi preparado com muita pompa pela família do doutor. Queriam aproveitar a visita relâmpago do governador pela cidade e pediram ao diretor do hospital, que era o mesmo que acompanhava a família do venerável defunto, para que fossem dispensadas as formalidades e que este assinasse o atestado de óbito o mais rápido possível. Foi mais fácil que imaginavam e foi, na época, aquele velório o evento social mais elogiado nas colunas sociais.

 

Roberta Silva é escritora, edita o blogue Ragi Moana. Tem poemas publicados na internet, entre outros sites, na revista Germina e no Escritoras suicidas. Faz parte de Dedo de moça — uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Vive em Belo Horizonte.

 

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109ª Leva - 03/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Tom Correia

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

Benguela

 

Quando se está preso a um futuro morto perde-se o senso
É impossível anotar com exatidão a passagem do tempo:
Os séculos que conduzem ao exílio sem salvação
Ao desterro compulsório que aniquila
Se há um despertar dos escombros
Não se pode mais compensar as milhões de horas escoadas
Os milhares de dias melancólicos
Febre por respirar coisa morta
Comida arremessada do céu sobre um tronco que navega
Intestinos que se esvaem
Lamentos da costa cada vez mais distante,
Peças desencaixadas para sempre da pangeia original
Corrente subterrânea que faz oscilar
Vidas-dejeto sepultadas em naus fantasmas
Fome e sede amontoadas
Corpos em pus despejados no oceano
Travessia malsã, coleção de moléstias sob ouro e marfim
Tumba flutuante que vomita almas lucrativas
Em portos hostis

A família estrangeira se reunia festivamente etílica ao redor da mesa posta. Havia comida para alimentar um exército, mas em vez de iguaria da terra deles ofereciam algo típico da cidade que os acolhera. Comemoravam o aniversário da matriarca, jovial e de sotaque carregado. Ela não parava de falar sobre os costumes e vantagens do seu país. Os convidados, informais, fingiam interesse. Não se cansavam de elogiar a comida, alguns repetindo pratos vigorosos. Para manter as panelas sempre cheias, a anfitriã sumia por alguns minutos e logo depois retornava carregando porções fumegantes em utensílios inox.

Eu conhecia bem o local da festa, a casa ampla e avarandada que trazia em si uma preciosidade: um quintal com árvore e sombra. Quando o patrão me disse o roteiro no dia anterior, quase me denuncio, porém mantive a frieza profissional. Passei a noite em claro, lendo no meu quarto, e imaginei dar uma desculpa por motivo de saúde. Porém, faltar ao trabalho daquela forma teria sido indigno. Quando chegamos, confirmei o meu eterno estado de invisibilidade em certos ambientes, especialmente quando estou de uniforme. Sentei a um canto para observar os atores principais. Efusivas, as pessoas andavam de um lado para o outro segurando pratinho e copinho cheios. Talheres caíam no piso produzindo o som metálico que trinca os dentes e arrepia o braço. Também havia cerveja barata e cachaça artesanal. A primeira circulava sem limites; a outra, servida a conta-gotas. Os filhos da aniversariante mantinham distância. Comiam pouco e não bebiam. As breves conversas não envolviam histórias engraçadas de infância. O relógio era consultado a intervalos cada vez mais curtos.

“Mas onde a senhora aprendeu a fazer tão bem nossa comida?”, alguém perguntou a certa altura. “Ah, filho meu, isto é segredo”, disse sorrindo. “E depois de tanto tempo aqui a senhora ainda sente saudades da sua terra?”, outro perguntou. “Sinto… É tanta falta que às vezes penso que voy a morrer sufocada. Só vim pra cá porque não tive outra saída, me arrastaron sem me perguntar nada. Quando me desperté estava enfiada dentro de uma lata velha que quase afunda”, respondeu, enquanto se dirigia saltitante em direção à cozinha. Devido ao álcool, todos riram. Menos eu.

*  *  *

Eu não era dono do meu tempo. Tinha de esperar quando quisessem ir. Sentei no sofá pra ver um pouco de tevê. A comida pesada me fez cochilar, mesmo com a gritaria histérica. Sonho: eu e Debrê tomávamos cravinho num boteco próximo ao Parafuso, na Conceição. A gente bebia e jogava dominó, enquanto ele explicava a mudança de ramo, que arte não tinha futuro e seus quadros estavam todos encalhados. Resolveu abrir uma agência de cordeiros e uma construtora de camarotes para o Entrudo. Ele bebia várias doses e permanecia sóbrio, enquanto eu tinha a visão cada vez mais embaçada. Eu perdia todas as partidas sem conseguir dar nem mesmo um passe. Também, pudera. Ele pintava as pedras. No meio do jogo, Debrê atendeu a uma ligação do sócio. “Era o Rugendas, tá vindo pra cá”, disse ao desligar o aparelho. “Não vai demorar”, ele levantou-se e anunciou eufórico, “pra esta cidade ser tomada por hordas de imbecis dispostos a pagar fortunas pra pular atrás de qualquer geringonça bem barulhenta. É um filão que precisamos explorar logo, entende, meu nobre?! A flutuação cambial no mercado de idiotas e espertos está favorável e temos de aproveitar. Hoje, um tolo vale cinco virtuosos, porém você não faz ideia de onde isso vai parar, meu bom rapaz!” Quando ele piscou para mim, levantando outra dose de cravinho com a mão esquerda, acordei.

As pessoas falavam cada vez mais alto. Alguns assistiam a um jogo sem importância, um desses esportes de praia inventados pelos departamentos de marketing dos bancos estatais. Ouvi barulho de copo quebrado em algum lugar vago da residência e fui procurar o meu banheiro. Passei pela fila de mulheres contorcendo as pernas e cheguei ao quintal vazio pra regar rapidamente a árvore, uma das minhas mais remotas lembranças infantis. Notei o mesmo casebre atrás de um muro de plantas, a fumaça branca saindo por uma chaminé de metal no teto da construção. O cheiro não podia ser confundido, não por mim. Antes mesmo de saber onde seria o tal almoço, uma coincidência desconcertante, eu já ensaiava uma visita.

Fui me aproximando e empurrei a porta entreaberta. Ela estava de cócoras, soprando as brasas de um fogão feito de tijolos e pedaços de pau. Eu conhecia bem a fonte da comilança na casa-grande: um centenário panelão de barro coberto de fuligem que eu lavava todo sábado. Uma tarefa detestável. Quando me viu, levantou-se, limpando a mão no vestido roto. Parecia esperar eu pedir algo. Estava descalça e sua pele azul de tão retinta exibia pequenos pontos de suor estático. Cabelos desgrenhados como palhas de aço, massa disforme e espessa repuxada a fórceps. O fundo branco dos grandes olhos contrastava com o sorriso feito só de gengivas roxas. Ficamos assim, um procurando no outro mudança e permanência. Ela tocou meu rosto e ia falar alguma coisa, mas percebeu uma movimentação. “Eita, que lá evém minha patroa…”, estalou a língua e apressou-se em voltar a mexer na panela. Tive de ser rápido pra achar um vão que me mantivesse oculto. Uma encheu os vasilhames e saiu; a outra respirou fundo e se sentou no chão de terra batida, recostando-se à parede. Perguntei se ela precisava de alguma coisa, mas a mulher permaneceu alheia, de cabeça baixa, dividida entre lavar os pratos numa bacia e manter o fogo aceso. Várias vezes pensei em levá-la comigo. Teria sido um grande erro. Além disso, ela queria ficar só. Eu também.

Quando retornei, o pessoal acompanhava a música aos berros. Dei uma olhada no banheiro imundo. Eu sabia quem limparia tudo mais tarde. Evitei colaborar com a sujeira. A anfitriã estava meio anestesiada, devia ser o cansaço. Assistia a tudo com um rosto oleoso, incapaz de esboçar reprovação. Improvisaram um bloco carnavalesco no meio da sala, subindo nos estofados e rindo de tudo, até um deles chegar com a má notícia: a bebida terminara. Sob protesto, foram se recompondo, chaves de carros sendo recolhidas uma a uma. Também tive de sair, porém não podia deixar meu patrão ali naquele estado alcoólico. Fui obrigado a carregá-lo, ajeitando seu corpanzil no banco de trás. Tirei seus sapatos e meias, guardei sua carteira de cédulas e óculos no porta-luvas.

No dia seguinte, ainda trazia comigo as imagens do encontro. Caminhando pelo Vale de Nazaré, vi uma aglomeração ao redor de um caixote de papelão. As pessoas apostavam para descobrir sob qual das três tampinhas um sujeito escondia uma bola de plástico. Nervosos, homens e mulheres exibiam as cédulas que desejavam multiplicar facilmente. Tentei identificar golpistas e vítimas, mas todos eram iguais em suas ambições e trapaças. Recordei o sonho com Debrê. Existem infinitos meios de explorar o mercado de idiotas nos tempos de hoje. Eu tinha vergonha de pegar minha parte do lucro. Quase todos os anos vividos nos subterrâneos de um quarto minúsculo só foram dissipados com uma carteira de motorista, alforria conseguida a muito custo, só eu sei.

Nada mais era importante. A não ser o fato de eu sentir um aperto no peito toda vez que eu via o nome daquela negra na parte de trás do meu RG. Somente o nome dela, carregando nas costas cansadas o branco da outra linha vazia nos meus dados de filiação.

Tom Correia nasceu em Salvador. Jornalista, iniciou a carreira literária em 2002, quando ganhou o Prêmio Braskem com Memorial dos medíocres. Publicou Sob um céu de gris profundo (2011) e participou das coletâneas As baianas (2012) e 82: Uma copa, quinze histórias (2013). Integrou ainda a antologia Wir sind bereit (2013), a convite da editora alemã Lettrétage. Em 2014, foi selecionado para o segundo volume de Autores baianos: um panorama, publicação em quatro idiomas promovida pela Secretaria da Cultura e pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Em 2015, lançou Ladeiras, vielas & farrapos e ganhou um prêmio de residência artística para escritores no Instituto Sacatar, Itaparica. A residência proporcionou seu retorno à Fotografia.

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Dedos de Prosa III

Natalia Borges Polesso

 

ricardolaf
Foto: Ricardo Laf

Wasserkur

Se há motivos, eu queria começar te dizendo que odeio dias de chuva, mas não vou. Dias chuvosos me deixam tão triste que não tenho nem forças para odiar, na verdade, eu só tenho vontade de escrever. Não, vontade não, urgência. Só que acontece de, como hoje, eu estar ilhada em lugares distantes da minha casa, do meu computador, das minhas coisas de escrever, ou impossibilitada de alcançar meu caderninho e minha inspiração. E me dou conta de que estou com os pés encharcados, numa rodoviária, parada de ônibus, rua alagada, pensando em tudo o que eu poderia estar fazendo que não estar molhada. Ao mesmo tempo, se não acontecesse de chover, eu não teria essa vontade tão urgente. Aí eu fico mais triste, porque ouço no rádio a defesa civil falando sobre alagamentos, resgates, desabamentos, famílias perdendo tudo o que mal tinham em casa, bebês quase se afogando dentro do próprio quarto, idosos que enquanto dormiam foram levados pela correnteza e todas essas calamidades que vêm junto nas enxurradas, anunciadas pela voz muito dramática e bem articulada de um locutor. Hoje, especificamente, estou na rodoviária de Porto Alegre, e tu deve entender a implicação de caos nesse fato. Estou ilhada. A média de atraso é de três horas. As estradas estão alagadas e sofrendo interdições intermitentes. Acabo de ver, numa tela ensebada de televisão que a rodovia está parcialmente alagada no sentido Porto Alegre-Canoas, o que significa que não vou para casa tão cedo, por isso, no momento, eu não sei se há algo para gostar em dias de chuva, mas não quero dizer que os odeio.

Eu não gosto do barulho da chuva quando estou nela, nem das vozes que oferecem guarda-chuvas a dez ou cinco reais, esses guarda-chuvas não são honestos e se destroem logo na primeira rajada de vento que quebra na esquina. Eu não gosto do lixo que se acumula mais visivelmente nas calçadas e sarjetas, não gosto das pessoas que caminham com o guarda-chuva aberto sob as marquises, sendo que poderiam dar espaço para quem não tem um, não gosto de carros que avançam sem dar preferência para pedestres ensopados e não gosto do cheiro das pessoas também, especialmente aquelas que fumam, o cheiro de cigarro se potencializa na umidade. Eu odeio cheiro de cigarro, mas eu detesto ainda mais cheiro de cigarro molhado. Eu tinha uma colega que chegava de manhã cedinho na faculdade com o cabelo lavado e cheiro de cigarro. Cada vez que ela se mexia, na minha direção se espalhava uma nuvem meio doce, meio azeda, meio suja talvez com aquele cheiro detestável de cigarro e condicionador de cabelo.

Hoje o dia está especialmente triste, porque amanheceu sem promessa de sol. Sabe quando tu olha para fora e tem certeza das limitações do clima, tem certeza que o céu não vai te presentear com azuis e dourados, tem certeza que tudo o que vai ver é a cor cinza? Pois então, esse é o dia de hoje. Mas eu sempre tento me enganar com alguma coisa boa, como meias secas, almoços ou um programa tosco de televisão. Tomei dois cafés e dois canos hoje e a culpa foi da chuva. Assim como é culpa da chuva que todos os ônibus, que me levariam para casa, passem pelo box de embarque número três sem menção de parar. Acho que fico mais do que três horas por aqui.

Escrevo essas frustrações úmidas nas margens de um jornal.

Nesses dias de chuva, tudo fica meio bagunçado dentro e em derredor, e é difícil para mim, já que sou meio triste naturalmente, digo, não sou uma pessoa alegre, sou engraçada, mas isso é diferente, mesmo quando seca e quente, tenho esse tipo de humor melancólico que dizem combinar mais com dias chuvosos e por isso talvez eu os despreze tanto, por conta das potências. De qualquer maneira, é difícil para mim controlar essa espécie de choro que vem. Na verdade, são só umas lágrimas silenciosas que nem chegam a escorrer até o fim da minha cara, ficam ali paradas, pelas pálpebras e apenas marejam nas bordas. Algumas descem pelos cantos ou avançam pelas bochechas, mas acabam secando antes de fazer a curva final. Não pingam como choro de verdade. Por fora é só uma tristeza baça. O grosso do desânimo com a vida fica dentro, e me cava no coração uma força de melancolia, que eu tento cobrir com outras mentiras. Talvez eu não devesse ter dito isso assim tão meramente, tão explicado, mas é assim que acontece. Tudo o que meus olhos enxergam fica borrado como numa lente que tenta amaciar a realidade, mas não cumpre a fantasia, apenas borra. Nesses dias de chuva, tudo fica meio bagunçado dentro e ao redor, como disse. Talvez eu te entregue esse jornal, talvez eu jogue fora, talvez eu faça um barco e largue sarjeta abaixo até que ele entupa uma boca de lobo.

Tu me disse que em dias de chuva não consegue ficar lendo e bebendo café e eu acrescento, nem fumando cigarros ou esperando encontros fortuitos. Nos dias de chuva, eu existo, porque não posso não fazê-lo. Não quero morrer num dia de chuva. Não posso morrer em todos os dias de chuva e voltar apenas nos dias de tempo seco, nos quais os pés estão sempre quentes. Então eu imagino.

Eu imagino que em dias de chuva tu pensa no desenho que o parquet faz no chão da sala de aula e de longe ouve a voz monótona do professor, imagino que deseja estar mergulhada, imersa nas poças que se formam caudalosas lá fora, ou talvez, num bloco de chuva espessa que cai de uma só gorda nuvem, uma tromba d’água. Eu imagino que o professor fala de wasserkur, e tu perde o fim da frase, porque se distraiu com a vidraça, mas sabe que a frase era sobre arte e transitoriedade. Pensa. Não existe. Te imagino numa conversa sobre dentes e paredes.

Eu me sinto triste quando longe de ti, mas hoje, mesmo mais perto, continuo me sentindo triste. Eu não sei se é culpa da chuva agora, deve ser ainda. Mas por um momento me passa pela cabeça que tu mandou chover no nosso encontro. Eu sou meio desconfiada mesmo. Mais ainda quando sinto sono e dor de cabeça, talvez por isso o pessimismo todo e a desconfiança. É que eu passei a noite em claro pensando se nos veríamos e tive vontade de te encontrar porque gosto de ti como se há muito fizesse parte de mim. E a minha preocupação é criar um amor no espaço dessa distância que hoje, por conta da chuva, não se comprimiu. Agora eu olho para o chão embarrado da rodoviária sem ideia de como farei isso. Eu sei que essas coisas acontecem, talvez já estejam acontecendo. Eu não quero te proteger de nada, mas não quero que nada de ruim aconteça com teus dentes, como paredes em lugares errados. Só que eu sei que em dias de chuva, com o campo de visão diminuto, a gente pode muito bem dar de cara com algum empecilho, seja buraco, parede ou negativa para convite.

É que essa chuva me atrapalha as urgências. Isso é engraçado, né? Porque, se não fosse a chuva não haveria nem vontade e nem tristeza em potência, e aí está o paradoxo: ao que ela impede, também propicia.

Mais que um lugar seco e silencioso agora, eu queria ter os pés dentro d’água, talvez porque tenha lembrado de longe a voz monocórdia do professor dizendo que isso é um tipo de cura. Pés na água curam ansiedade, gripe e saudade.

Amanhã já é dezembro, depois outro ano e em setembro volta a chover e eu vou ficar sozinha. Então eu tenho vontade de mergulhar para me curar do amor que ainda não tenho e não sentir a saudade que nem existe.

Por isso, eu desisto de ir embora. Vou fazer dessas folhas de jornal um barco e das outras folhas um abrigo. Vou comprar cigarros para fumar debaixo de uma marquise, soprando fumaça nos apressados. Vou encharcar as meias para depois ver meus pés brancos e murchos. Vou inventar razões para amar e odiar a chuva, e o dia de hoje e, talvez, te odiar também. Até te encontrar naquele café que, em todos os dias chuvosos, tu vai para que ninguém te veja lendo e tomando um pingado, porque saberiam que tu mentiu quando disse que não conseguia fazer essas coisas em dias de chuva. E eu, eu vou te desmascarar.

***

 

 

Molotov

Que pena. É uma pena mesmo que esse encontro tenha acontecido assim tarde, assim tão tarde da noite. Já com os copos vazios e as cabeças cheias, que pena. Vai e vem de bilhetes inconsequentes, ou melhor, com consequências trágicas, não fossem patéticas. Essas ninfas, essas musas, essas mentes – torço meus dedos e suspiro pensando no coquetel molotov que veio a propósito de beijo de boa noite. Quando me dei conta, a garrafa já tinha explodido e o quarto pegava fogo – labaredas entre nós – senti os cacos de vidro me cortarem a cara. Abri a boca para respirar, os cacos na minha boca, mastigo. Vidro quente. Lábios, dentes e língua machucados. Fico com a boca cheia de sangue, engulo tudo. Pedaço de dentes, língua, lábio, vidro, gasolina e fogo e tento te alcançar com as pontas dos meus dedos. Tu está queimando. Tua pele arde e teus cabelos tomam um negror de carvão antes de ser brasa. Tu está imóvel, impassível, impenetrável. Vejo um homem surdo que sorri e me estende a mão, e por ser surdo não se afeta nem com o barulho do fogo, nem com o que em mim se faz mais estridente. O homem me abraça, eu me desvencilho, corro na tua direção, enlaço teu corpo que, abrasivo, me faz bolhas. Meu corpo dói inteiro. Sou carne, estou viva.

Natalia Borges Polesso é escritora, professora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. É autora de “Coração a corda” (2015) e “Recortes para álbum de fotografia sem gente”, obra vencedora do Prêmio Açorianos (2013) na categoria contos, e também da tirinha tosca “A Escritora Incompreendida”, publicada via facebook.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Krishnamurti Goes dos Anjos

 

Arte: Juca Oliveira

 

GANGRENA

 

“Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem.”
(Adriana Calcanhoto – Senhas)

 

A dor e a sensação de intumescimento aumentando, uma sede horrível queimando-lhe a garganta. Tateou no chão, perto da cama, o copo plástico e a moringa com água. Bebeu o resto da água que havia e deixou cair pesadamente a cabeça no travesseiro. Depois de serenada a sede, recordou-se do alívio que sentira quando interromperam a música do trio elétrico em frente ao palanque dos homens do governo. “Não sei de onde o Genésio saiu. Eu naquele desespero, sem saber o que fazer, para quem apelar. Contei a ele. Ele me disse: toma um gole. Liga não, corrente. Ó, se tu quiser, tu pode entrar num lance comigo e mais dois bróder. Ó, vai rolar a maior grana, tá ligado? Na quarta de cinza vamo estourar um caixa vinte e quatro horas na Pituba… Mas, ih, cara! É nenhuma para você, deixa, esquece, eu só falei por falar, só porque cê tá nessa de horror aí com o tal do isopor. Você é moral, eu sei. Teu negócio é ficar lá enfurnado com a tua nega no barraco. A Sussuarana toda sabe. Tô ligado, só ali ralando na empreiteira que corta os gatos de luz, né? Toma, bebe um gole dessa onda aí, vai te fazer bem….” O zunido da guitarra do trio, sendo afinada, entrando nos ouvidos como o voo rasante de um mosquito gigantesco. Genésio falante, falando alto e suando, a pele negra brilhante. “Eu sei, mano, que a maré não tá boa pra ninguém, só para eles – fez um gesto para cima com o polegar – sempre os mesmos. E os tiras não tão brincando não. Se você vacila, pegam, apagam e desovam o corpo na primeira pirambeira. Depois abafam e não se fala mais nisso. Tá afim de um baseado? Não? Tá limpo. Comigo eu não vacilo, viu? Tá aqui, vê só o cabinho do três oitão aqui no meu abadá. Polícia se mete comigo, meto bala no meio dos peitos desses putos”.

O barulho de música de carnaval recomeça estrondoso, e uma morena, lá no alto, canta berrando: – E tá um empurra-empurra aqui / mas tá gostoso / Ô, ô, ôooo… – Genésio deixou-lhe a garrafa plástica, cheia da bebida liquorosa à base de álcool. Multidão enlouquecida, dentro do bloco aquelas meninas minas do Itaigara, tudo linda, tudo loura, tudo cabelo liso, solto, escorrido, molhado, tudo mamãe-sacode. No apertume chegou a roçar no braço de uma loirinha do bloco, calçada com tênis importado e tornozelo enfeitado com correntinha de ouro. O empurra-empurra invadindo os domínios do bloco, até que a turba recuou na ação encapelada e firme da corda grossa de amarrar navio, jogando longe os do lado de fora da tribo.

“Não sei onde foi para o pé esquerdo do meu tênis velho, o que já estava com o cadarço partido, e aí senti aquela pontada, a dor fina na planta do pé. Primeiro não liguei muito não, e depois que aquela bebida bateu na cabeça, a minha raiva, o cansaço virou uma alegria besta, deu uma zoeira que esqueci até da fome, do isopor; queria mesmo era sacudir os braços, beber da garrafa plástica, me misturar no meio da multidão, daquela zoada maluca até madrugada alta, pra botar pra fora de mim esse mar de amargura, essa rotina de dificuldades, esse cabresto de miséria o ano inteiro. Como é? Tanta gente rica e eu fodido? Aquela bebida tonteia o cabra até os ossos!”

Uma dor de pontadas elétricas partia daquele rasgo e começava a invadir todo o pé esquerdo, o tornozelo, a batata da perna, subindo com força pelo joelho.

“Maria lá na terra dela vendo se o irmão empresta algum pra a gente ir tocando enquanto eu não arranjo um trampo. Eu não queria, mas ela só ficou falando naquilo… Deixei ela ir porque queria pegar o dinheiro do seguro desemprego, sem que ela soubesse. Me deu na ideia ver se eu não fazia o mesmo que muita gente faz aqui: vender de ambulante no carnaval. Comprei a caixa de isopor, comprei as caixas de copinhos de água mineral. As latinhas de cerveja, já não dava o dinheiro, tive que pegar fiado no depósito do Jorge. O que sobrou foi a conta de comprar as barras de gelo. Eu queria dobrar o dinheiro do seguro, fazer uma baita surpresa pra Maria quando ela voltasse. Por que a Maria ainda não voltou? Eu já tô aqui assim faz quanto tempo? Dois dias… ou três?… Maria na estação da Lapa. Olha daqui, olha dali, todo dia enquanto o ônibus dela não vinha, eu trepado no andaimezinho trocando lâmpada da estação, Maria trabalhando em casa de família, gostei dela logo, jeitosinha mesmo. Maria magrinha, fraquinha, ficou tão minha amiga… Ficamos de lá para cá. Só não deu para parir. Não é mulher parideira não.”

A secura na garganta voltou a incomodar-lhe  a goela seca, a sede, a seca.

“Sempre a seca matando, a eterna história miserável da seca. Só mandacaru para suportar. A minha sede é tanta agora que estou enxergando a cortina da porta do quarto igual a quando o sol abrasa a terra já ressequida, e sobe aquela ondulação de calor de miragem… Que agonia meu Deus. Até quando isso vai durar? Valei-me nossa Senhora… Foi isso… Isso mesmo que mãe disse quando contei que vinha para Salvador tentar vida melhor. Valei-me, Nossa Senhora! José, você num vá, Zé. A capitá num tá prestando mais não, diz que não tem mais emprego, Zé. Fica aqui, Zé. A gente tem pouco, mas tem com que passe. Zé, ô Zé! Cê é que sabe… É, mãe, a senhora acertou mais uma vez… Eu preciso suportar mais um pouco. Se tivesse um talo de bananeira aqui pra botar o leite na ferida… Também, se não tivesse vindo, não tinha encontrado a Maria, a minha Mariazinha… Ai que dor desgraçada, não gosto de médico, e quede dinheiro?  Nada! Sempre tive boa saúde.”

Entretanto, naquela altura, uma aflição começou a morder-lhe o íntimo como uma advertência. Aquelas dores faiscantes que não paravam eram um sinal que o ameaçava. Quis gritar, chamar por alguém, chamar por Maria, mas o grito saiu como um murmúrio arrastado da garganta ressequida. Procurou ver o pé, aquela coisa disforme em que se transformara toda a sua perna, supurando e sangrando. O sangue novo em cima do coagulado, tingindo o lençol, escorregando da cama, pingando no cimentado do chão. Já não conseguia distingui-lo precisamente. Um nevoeiro impedia-lhe a visão e, pela primeira vez, frágil, desprotegido contra o que podia acontecer, teve medo, tremeu de medo.

“Mãe nunca demonstrou ter medo de nada, nem nunca chorou. Ficava triste às vezes, ficava com o olhar distante, perdido na barra da serra, sempre ali na janela, calada, olhando, matutando. Nunca. Desde que nasci sem pai, e que me alembro, sempre ali. Forte. Só quando já tava sentado no ônibus que vinha para cá, quando dei o último adeus pra mãe, foi que vi aquelas duas lágrimas escorrerem por seu rosto comprido, sulcado de rugas. Mãe ficou ali com Guardião ao lado, sentado sobre as patas traseiras, os dois me olhando… me olhando”.

O mal-estar aumentava, febre e suor, mal-estar aumentando e trazendo com ele uma sonolência cheia de delírios.

“O cabo de alta tensão energizado, treze mil volts explodindo o caixa eletrônico, incendiando o dinheiro, ele subindo em poste, descendo de poste em turnos de trabalho de doze horas, descascando fios e calos da mão também, folgando lâmpada em poste sim, racionando, poste não, racionando, todo mundo embolado, fio descascado, gente descascada, descarnada, cobre exposto, demissão, bala de trinta e oito no peito do empreiteiro da companhia de energia elétrica que usava uma bota roubada de eletricista e que parecia protegê-lo do des/emprego de corte de lata de cerveja lascada, derramada no chão impermeável do asfalto da avenida carnavalesca, na blitz da fiscalização da prefeitura, o peso enorme do isopor, a cantora gritando sai de baixo meu irmão que lá vai a zorra! Dois dias na base do acarajé, emendas de licenças para ser ambulante, emendas de fios de agarra, tudo embolado, toda hora dando descarga, faíscas, curtos, choques imensos carbonizando o pé calçado numa bota, uma explosão elétrica! A velha casinha no mesmo lugar ao pé da serra, agora reformada. Em volta, um bosque irrigado, com muitas árvores, tudo verdinho, verdinho. A luz dourada filtrando-se por entre a folhagem das árvores. Um cheiro de terra úmida misturado a exalações de flores silvestres. Porteira nova que ele mandara fazer, as ripas e caibros do telhado novinho que ele mandara substituir, mãezinha pitando o cigarrinho de palha, passando o café cheiroso, fartura na mesa. No pátio a bicharada solta, flores e crianças brincando de roda. Quem seriam aquelas crianças? Seriam seus filhos? Brincavam de roda. Guardião de um lado para outro correndo, latindo, perseguindo galinhas histéricas, sob o olhar omisso de vacas leiteiras, uma arruaça engraçada de se ver. Sua atenção se fixa nas crianças brincando. Sentiu-se participando da antiga ciranda de sua infância, cantando a débil canção infantil: Eu sou pobre, pobre, pobre, de marré-de-si”.

Um violento calafrio percorreu-lhe o corpo. Minutos depois, com surpresa, conseguiu erguer devagar a cabeça. Alívio de suave vertigem. Sentia-se agora pairando alguns centímetros acima do próprio corpo dormente. Incomoda-lhe menos a perna, a sede quase que cessara, e o peito, como que liberto, abre-se para uma calma inspiração.

Em meio à tontura de ambiência nevoenta, ressoou mais uma vez o coro infantil… E seu rosto assumiu uma expressão de deslumbramento, porque, girando na ciranda, divisou nitidamente o semblante de Maria a sorrir-lhe docemente.

Quando cerrou vagarosamente as pálpebras, tinha nos lábios o esboço de um sorriso de secreta alegria.

 

Krishnamurti Goes dos Anjos é escritor e pesquisador. Autor de “Il Crime dei Caminho Novo” (Romance), “Gato de Telhado”, “Um Novo Século”, “Embriagado Intelecto e outros contos” e “Doze Contos e meio Poema”. Tem participação em várias coletâneas e antologias, algumas resultantes de prêmios literários. Possui textos publicados em revistas literárias na Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro, “O Touro do rebanho”, publicado pela editora portuguesa Chiado, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Vivian Pizzinga

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Teoria e prática

 

  1. Tese

 

Ele queria que eu fosse outra. Ele queria a outra de mim. Que eu fosse diferente daquilo que pediu de mim, daquilo que viu em mim, daquilo que julgou gostar em mim. Ele queria que eu fosse diferente do começo, que o começo fosse descartado, ele insinuava que o meu começo não valia mais. Ele dizia que, nesse começo sem valor, havia julgado que gostava daquilo que me definia como eu mesma, havia julgado que sabia exatamente o que é que ele gostava quando sentia gostar de mim. Ele queria que fizéssemos um inventário de nós mesmos, que no autoanalisássemos de forma pura e simples e convertêssemos as dobras, os espinhos, os calos e as inflamações em suavidade morna. Ele queria que eu não fosse o que eu sabia ser, o que eu queria ser, e que o erro havia sido meu, não dele, ao julgar que o que eu sabia ser era outra coisa. Ele me pedia uma impossibilidade e era incapaz de entender que o impossível se constrói aos poucos como possível, muito aos poucos, medidas de longo prazo. Ele não me ouvia, e o diálogo ia ficando cada vez mais confuso, a conversa rodava em círculos, o quê? Como? Explica melhor, eu pedia, evitando olhar para o desespero. Você errou, ele me disse, seriamente, fitando meus olhos empapados de lágrima, aqueles olhos que eu evitava piscar para não enlamear um diálogo tão enxuto.

 

  1. Antítese

 

Ela queria que eu a quisesse a mesma, que eu não esperasse nada, que eu me contentasse com a tranquilidade de dias eternos, que me fixasse em um começo imutável, ela queria que fôssemos felizes para sempre e queria, com isso, uma aliança, um noivado, um compromisso e a longevidade da felicidade que não derrapa. Ela queria uma estrada sem declives, sem aclives, sem curvas fechadas e com acostamento. Não era capaz de entender o que eu dizia, mesmo que eu me tornasse didático e me desdobrasse em exemplos. Ela queria que eu fosse o mesmo, ela exigia que eu não mudasse, pois, mudando, mudaria as esperas, as reivindicações, as palpitações. Ela queria que eu quisesse o mesmo que quis no primeiro dia, e o que quis no primeiro dia era o que ela era no primeiro dia e o que eu era no primeiro dia. Contudo, eu já não era mais o que eu havia sido no primeiro dia, eu era outro. E o primeiro dia, era isso o que eu tentava esclarecer a ela, é sempre diferente de todos os outros. Eu me queria outro, e a queria outra, e tencionava um desvio na estrada, um atalho ou uma volta maior, só saberíamos depois, mas era preciso uma guinada, eu tentava elucidar esse problema e a encarava em seus olhos marejados, sem poder evitar dizer que eu precisava, eu nos queria antônimos.

 

  1. Síntese

 

Nós nos queríamos diferentes do que éramos. Do que havíamos sido e do que almejávamos ser. Ele me queria outra e eu o queria o mesmo. Ele não podia ser o mesmo, eu não podia ser outra. Ele arfava ao me explicar, eu chorava ao ouvi-lo. Ele então tirou minha blusa e me deitou na cama, devagar, alisando meus cabelos. Passei minha mão pelo seu ombro, desci pelo seu braço, acariciei sua barriga. Nos olhamos atentamente, como se descobrindo uma paisagem que havia sido ocultada por um nevoeiro antigo. Ele elogiou a maciez do meu cabelo e espalhou sua mão pelo resto do meu corpo, tirou minha saia. Eu elogiei a firmeza de seu tronco, de seus braços e desabotoei sua calça jeans. Te quero diferente, escutei-o sussurrar em meu ouvido, e dali sua língua enrodilhou o meu pescoço em um colar delgado de saliva úmida. Expirei com força, tentando interromper uma vaga qualquer que se agigantava dentro de mim e que meu corpo não seria capaz de dar conta. Te quero igual a todas as vezes em que te vi, respondi imediatamente, sentindo seu corpo nu avançar sobre o meu. E quando ele disse que não haveria como ficarmos juntos enquanto esperássemos coisas tão díspares um do outro, senti-o inteiro, em certa aspereza edulcorada e de um jeito que eu antes não conhecia, e ele respondeu com um gemido, um longo gemido, o ar quente expelido das narinas, demonstrando que nada precisava ser modificado.

Vivian Pizzinga é psicanalista e escritora. Lançou dois livros de contos (A primavera entra pelos pés, 2015; Dias roucos e vontades absurdas, 2013), ambos pela Editora Oito e Meio. Participou de antologias de contos (Clube da Leitura vols. I, II, III, Para Copacabana, Com Amor) e publicou textos ficcionais e de prosa poética no Jornal Plástico Bolha, na Revista Pesquisa FAPESP, na Revista Café Espacial, entre outros. Escreve críticas teatrais e outras resenhas para o site Ambrosia e contos para o Jornal Algo a Dizer. No momento, prepara-se para o doutorado em Saúde Coletiva e finaliza um romance.

 

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Márcia Denser

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

MEMORIAL DE ÁLVARO GARDEL

Em memória de meu pai por quem não pude chorar

Foi enterrado a 28 de maio com aquele casaco que eu lhe dera em 87, que um dos amantes havia me dado ou roubado ou não sei, era um casaco sal e pimenta vagamente inglês, imagine, ele, logo o velho, logo Álvaro que só se vestia no Minelli desde que eu tinha seis anos e minha irmã quatro, mas de todo modo foi enterrado com um casaco de bom corte, sal e pimenta, meio inglês, que roubei ou ganhei ou não sei que amante remoto eu poderia ter arranjado nos confins do naufrágio de 87 (aqui refiro-me ao meu drama pessoal que agora não vem ao caso) porque o dele (o do velho, o de Álvaro) o arrastou muito antes, vinte anos antes, mais ou menos no início de 70 quando eu o enterrei, nós (eu e minha irmã) o enterramos pela primeira vez, o velho louco, desabiondo y suicida, que aprendera filosofia, dados,  timba e a poesia cruel de não pensar mais em si (como naquele tango de Mariano Mores). Por isso aceitou e usou o tal casaco dois números maior, dado ou roubado de alguém que já não precisaria de nenhum (um amante talvez morto ou preso ou exilado) sequer de mim que também já começava a naufragar naquele ano de 87 e meu pai – que só se vestia no Minelli desde 1947 – o aceitou com irônica resignação, o velho pilantra antecipadamente morto, como se soubesse ou adivinhasse ou antecipasse que o enterrariam nele pois que doravante repousa precariamente em paz (mas num excelente casaco de tweed inglês sal e pimenta) no columbário número 80 do cemitério de Vila Mariana, ala B.

(Em 26.06)

Há um mês mandei inscrever a lápide com um nome e duas datas, premeditando futuramente o painel de azulejos ou ladrilhos, sem contar a inscrição que desta vez sim, mas não foi assim, posto ter sido informada que em três anos o município recolheria suas cinzas à gaveta de modo que seria bobagem gastar dinheiro por tão pouco, o administrador enxugava a testa coberto de razões e fuligem, os grossos óculos de míope, donde a não menos premeditada quanto tola inscrição In Memorian de Álvaro Gardel, pai eternamente amado, suas filhas Júlia e Amanda – 29.05.24 – 27.05.97  igualmente caput – três nomes e duas datas – sequer esta derradeira vaidade lhe foi concedida, velho (ou  negada à mim?) mas tolamente eu insisto: então não restará nada e terá sido só, terá sido tudo: desejo e pó?

Porque eu não sabia ser tão tarde, tão inútil.

Veja bem, não estou tentando penitenciar-me até porque para mim não há perdão nem castigo nem penitência nem remorso (não há pecado para minha estúpida inocência) apenas a obstinada pergunta sem resposta sobre o desígnio da vida de um homem resumido a duas datas e um nome, enterrado com um casaco de outrem (ele que só…) pai eternamente amado, desejo e pó, e então o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos, enfrentar este vazio sem perguntas nem respostas que é meu pai definitivamente morto na antevéspera de completar 73 anos.

(Em 26.05)

“Sua chegada é repentina, inflama-se, extingue-se, é jogado fora”
(I Ching – hexagrama 30 – Li – A Chama, nove na quarta posição)

Desta vez meu pai está morrendo.

Eu deveria ou poderia ou não me restaria outra alternativa além de pegar um ônibus para ir vê-lo pela última vez no hospital quando sua segunda mulher ligou-me: seu pai está morrendo (morrendo entre estranhos, como tem vivido os últimos quinze anos, se fazendo de  cego, surdo e burro).  O hospital fica no quilômetro 27 da estrada de Itapecerica da Serra, com nome de santa que duvido existir alguma chamada Mônica, todavia ocorre que há oito anos – desde que vendi o apartamento, o automóvel, os telefones, os móveis de família, liquidei minha vida (ou o que materialmente restava dela) – e os móveis eram tudo o que restava – desde então experimento, digamos, o lado coletivo e anônimo da vida, o que significa andar de ônibus, metrô e assemelhados, sem contar o cotidiano mais pedestre, indo e vindo de lugares onde ninguém me espera, não sou benvinda (não sou mais), pois há muito não conto, não vivo, não valho o suficiente a ponto de alguém se dispor a perder tempo, gastar gasolina, em atenção ou amor ou amizade ou compaixão ou piedade comigo – eu, sombra de mim.

De forma que na condição de filha, a mais velha, a primogênita, teria que pegar um ônibus para Itapecerica da Serra, a norma exigia, os bons costumes, e ir ver o pai ainda uma vez, possivelmente a derradeira.

Mas seria bobagem.

Porque eu sei (eu e minha irmã sabemos) que é bobagem, que este cara está morrendo há 28 anos, que começou a morrer  quando eu o internei pela primeira vez no sanatório para a cura de desintoxicação – ele, o alcoólatra,  o desgarrado, o infeliz, o despojado dos bens desse mundo, até mesmo do amor e  orgulho, o vaidoso  dipsomaníaco.

Foi em 71.

Recordo-o vagando no escuro corredor do escritório onde eu trabalhava (meu primeiro emprego com carteira assinada e direito ao INPS). Vinha vacilante, macerado em álcool, subira sozinho os nove andares (enquanto os irmãos esperavam-no lá embaixo  sentados no taxi com taxímetro ligado, que aliás ele pagaria) para pegar a guia de internação e eu lhe entreguei rapidamente o envelope, temendo ser vista ou que o vissem ou que nos vissem, mas ele desapareceu, um meio sorriso torto, sugado pelo elevador, reconduzido de volta à rua onde o aguardavam no taxi para levá-lo e interná-lo e trancá-lo e jogar a chave fora.

Porque eu apenas era jovem (ah, a juventude, essa falha impossível de se evitar em dado período da vida) naturalmente cruel e impiedosa como todos os jovens que acreditam com absoluta certeza na vitória e na esperança, no poder e na glória eternos e para muito breve.

Então eu não tinha tempo para você, velho, para parar e olhar pra você, voltar-me e te ver despojado dos bens desse mundo – alcoólatra que naufragara, silencioso e hostil, inconquistável rendido indiferente, sem implorar (porque se ignorava despojado da  sua fortuna pessoal, aquele capital inalienável de sanidade e lucidez ) – eu é que estava suja aqui dentro, porque a tua derrota, a tua rendição doía em mim, velho,  então melhor te excluir do pensamento e do coração, fingir que você não existia, porque eu não ia me voltar para te olhar  (estacar a meio caminho da vitória iminente) parar e olhar para você só para me sentir um lixo,  por isso te internava e internava obsessivamente em sanatórios onde  te deixava, te  trancava e jogava a chave fora.

Mas não vou pegar ônibus nenhum.

Aos 43 anos não se pega ônibus nenhum — além de velha, derrotada – e de certa forma sim, derrotada, mas precisamente por isso não vou pegar ônibus nenhum para te ver morrer, meu chapa, não definitivamente.

Porque nós merecíamos mais do que isto, alguém assim que nos acompanhasse, amigo e silencioso, nos pagasse um café à beira da estrada, a meio caminho do hospital da tal santa que não existe, oferecesse um saquinho de balas, nos estendesse o lenço voltando o rosto para não nos ver chorar e – sobretudo – porque era preciso que você me visse derradeiramente acompanhada, não mais a filha da sua orfandade, e então partisse consolado pelo fato de não me deixar tão só e  já tão distante da breve vitória, sabendo-me amparada por alguém a conduzir-me sem contudo me carregar – qual troféu, qual fardo, tanto faz, depende do ponto de vista – posto que a mim já basta minha dor.

Solicito apenas tempo, lugar e o direito de chorar derradeiramente por meu pai cuja alma se apagou há 28 anos e hoje definitivamente de corpo e alma, duas vezes morto e acabou-se.

Terá sua morte sobrevida? Terá a alma sua palma? Sim ou não? Terá o espírito gás suficiente ou se extinguirá num sopro, rendido ao demônio do abismo? – como se nunca tivesse existido, porra.

Decidi-me por não (aos 43 anos não se pega ônibus nenhum e muito menos nas ditas circunstâncias, etc.) ir, velho, acho que em nome duma derradeira dignidade, ao menos hoje, ao menos desta vez, a última, porque será para sempre.

Aliás, ambos merecemos esta última dignidade – o transitus da vida à morte – de não estarmos sós, os passes de ônibus amassados entre os dedos, como se fosse tudo o que daqui levaríamos, a passagem para o outro lado – o óbolo de Caronte?

Porque não se joga fora o coração metendo-o num ônibus para dizer adeus apenas com um passe amarrotado no bolso, o símbolo desta sub-vida, desta sub-paisagem  de postes e fios,  deste sub-horizonte de cães onde transito (que é uma das tantas formas de estar morta) daí  não haver muita diferença entre você e eu, meu chapa, porque também fui despojada, também me fodi – nem que estivesse na sua cola, velho – puxei você, puxou ao pai, eis o óbolo (o passe de retorno ao mundo dos mortos vivos).

Nada, sequer o bolo de mel, a coroa de flores, unicamente a moeda de Caronte a ser paga ao barqueiro pra te atravessar para o outro lado, entrando assim na morte com as mãos vazias.

Ficarei te devendo também isto.

E devo-te ainda mais porque devo à mim, não sem razão de tal forma sou cobrada, conquanto toda humilhação seja uma penitência, todo fracasso, uma misteriosa vitória, todo acaso, um encontro marcado, toda morte, um suicídio, mas não vejo consolo algum nesta sórdida teleologia, pois  existe algo em mim que não se compraz com palavras, não trafica com sonhos, não negocia e também não adiantaria, porque tem um limite até onde se pode enganar-se a si mesma (sem contar o descarado plágio avant la lettre borgiano).

Por enquanto, devo a Deus e todo mundo pois que outra forma de explicar o fato de reiteradamente me voltarem as costas deixando-me há anos e à margem com dois passes de ônibus de ida e volta para o Limbo – do nada ao nada? E agora me abaixa Horácio (ou será Hovídio?) para lembrar que o homem é a soma das suas condições climáticas, é a soma do que se tem, uma problema de propriedades impuras que se desenrola fastidiosamente até o nada inexorável: desejo e pó.

Sem lastro, sem guia e a lembrança da breve, artificiosa vitória (esta, a misteriosa vitória? eu passo) que era falsa e eu não sabia, que não podia perdurar o meteoro cuja órbita já é queda, se inflama e extingue-se, a menos que não tivesse de ser assim, a menos que sob os escombros ainda seja a carne, sempre a velha carne, a voz do sangue que a tudo reivindica, inclusive o direito à dor (a esta dor, a minha, a da filha, o ônus da primogenitura) pessoal, intransferível e única dor, a de chorar o pai (o único) enquanto agoniza (apenas uma vez ) e desta vez (de uma vez por todas) para sempre.

Post-Scripitum: O presente relato foi escrito a 26 de junho, um mês após o enterro, e 26 de maio do mesmo ano, na madrugada anterior à morte (que intuí inevitável embora sem dados da realidade para comprová-lo) aproximadamente durante os momentos de agonia. De modo que esta oração fúnebre escreveu-se furiosamente, desenredando-se em sentido inverso, ou seja, para trás, para baixo e de costas (a despeito de mim)  –  direto ao centro dilacerado e oculto da dor.

 

 

A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

João Bosco

 

Foto: Ana Pérola

 

O Baptizado

 

O dia está abrasador e eu não aguento tanta presença entre garrafas de água. A ressaca dói-me como uma primeira vez, apesar de já não ser novidade. É o baptizado do último primo que não sei se o será e eu sinto-me como se caminhasse por entre um sonho onde mal dou por quem passo. Cada parente pesa-me como um membro edemaciado, pendurado pelos nervos directamente no meu cérebro, hoje de gelatina. Tenho que sair deste lugar tão familiar na pedra e no sangue, com agulhas quando me olham e eu sem conseguir compor-me no fato descosido que hoje sou. Tenho que sair daqui e encontrar-me comigo em algum lado onde hajam só olhos para dentro, até me passar esta náusea nada metafísica e reaprender a caminhar de outra forma e não desta em câmara lenta, pensando cada passo para parecer natural e dando cabo de todo o teatro de improviso.

Tenho que me manter eu. Tenho que me manter o eu a que estes estão habituados. Não posso deixar que estes saltos de consciência se manifestem no que sou para o mundo. É festa, a gente está para festejar e não para serem contagiados pelo meu funeral de neurónios. Funeral, baptizado… e eu a ter que aguentar isto tudo, só por causa da religião destes, depois de uma noite herege deste. Se soubessem que as religiões surgem de esquizofrénicos que foram levados demasiado a sério por multidões…

Não sei o que o futuro me reserva, mas talvez um barco, não dos que descobriram a Índia cheia de indianos, mas dos que levam a glande ao colo do útero de uma sueca qualquer, já riscada no mapa por um filho de chileno. Os do novo mundo antecipam-se, mas de vinho… E a irmã ao lado adormecida por um fingimento também ruivo, acordada por uns dedos que desaparecem no vácuo de tanta espera líquida. Só me espalharei numa delas, mesmo dentro de ambas até elas todas ruivas no fim. Não haverá beijos porque o vinho chileno não quer e nada mais será que uma memória de um futuro no passado recordado onde fiquei e estou. Nunca saberei a marca do vinho chileno, mas também depois do orgasmo já não vale a pena.

Pode ser que a distância que me está reservada a percorrer no espaço, chamar-lhe tempo se for mais fácil assim, seja só a que vai desta casa do povo, desta aldeia pequena, até ao lameiro do meu avô onde se ouve o sino da igreja, mas não se vê sinal de telhados laranja ou casas brancas com os palheiros castanhos a assinar a ruralidade que persiste. Pode ser que o tempo todo que tenho ainda que soprar, como vidro quente, no caminho, ou debaixo das macieiras, ou o tempo todo que esse tempo todo será, até o prolongar.

Toda a gente me conhece no baixo da casa do povo menos eu. Os braços são-me mais estranhos que aquele sapato de salto alto pendurado no pé de pernas depiladas para a festa. Mal consigo abrir a décima garrafa de água. A sede que tenho nem parece ser minha, por mais que eu beba, não se vai embora. Devo estar a beber com o corpo errado. Os meus tios insistem em cerveja e eu a fingir-me de doente ou santo. Seria o melhor remédio, mas a noite será de festa outra vez e queria guardar-me para depois do casamento. Ninguém me conhece de verdade, no baixo da casa do povo.

Feliz Natal.

Direi na manhã que me espera, na ilha em marte, longe de ontem, longe de hoje, daqui a umas horas se o tempo me levar sem o peso do corpo. Feliz Natal e um ano novo que não se vê a chegar nunca, passa e fico igual, só o número muda, só a ideia a esperança ridícula que seja melhor que o último, só porque é novo… pois ontem estava melhor: bêbedo, pouco eu, mais nos outros, sem uma caneta espetada no cérebro para escrever o que se passou, para o amanhã ser a continuação falsa do que acaba sempre…

Não sei onde estive ontem à noite. Acordei em mim e só, nada a reclamar. Foi festa na terra e acabou mais tarde que o seu fim, para isso servem os amigos e os bêbados. Sei que houve, quando a cor do céu se torna púrpura, uma grade de cervejas quentes no meio do jardim de paralelos com a música a desafiar os guardas que nem se interessavam de males menores. Sei que falei pela primeira vez, sem ter sido eu a falar, com alguém que conhecia há muitos anos. Dizem-me que às vezes tímido, digo que às vezes com pouca vontade para o que não vale a pena e pouco dura. A mim nem me quero conhecer apesar de andar sempre a queixar-me. Sei que houve abraços sem dúvidas, num estado duvidoso, por razões sem existência, apenas porque havia aquele momento e uma força maior que o nosso pé atrás a empurrar-nos na direcção do que sentíamos, fosse quase nada, fosse uma euforia irracional só por se estar ali no centro do jardim de paralelos, com uma garrafa de cerveja quente, a ouvir música sem se dar por ela depois do dia da tão esperada festa. Sei que esticamos a noite até se romper com o dia e que tentamos desacelerar o tempo com golos apressados, só não sei onde estive ontem à noite. Hoje, que deve ser onde… que deve ser quando estou, não sei quem foi aquele gajo, mas invejo-o, porque hoje ainda há luz e ando a água.

Ainda longe dos paralelos da cerveja quente, estive com os dedos dentro de um candeeiro no passeio, encostado a uma loira acesa, sem qualquer pudor, ou sem consciência para isso, só a vontade. Encostei-me contra a porta descascada da casa antiga, hoje velha, dos senhores ricos em decadência bebendo loiras, confundindo a sólida com a líquida, fazendo com que a sólida líquida e a líquida em pouco tempo a jorrar do sólido. Tudo acabou antes do fim porque no meio da rua da terra pequena não é lugar para se dar liberdade à vontade, mais vale esperar uns dias até a casa estar vazia e uma desculpa estar cheia e infalível, uma cama para desfazer e a ansiedade de ter tudo planeado e previsto quando nada sai como previsto por causa da ansiedade. Trapalhada de lençóis e pregas de pele que se colam ao corpo como sanguessugas de orgasmos, chupando, chupando e o sangue a vir de longe de nós, de um lugar onde não sabíamos existir.

Treme-me o cérebro e sinto-o nos movimentos descoordenados dos braços a levar-me água aos lábios secos, de escamas a saltar no sal dos peixes afogados. A vida passa como uma sucessão lenta de imagens, como se o condutor do tempo estivesse a aprender a conduzir entre travagens bruscas e um acelerador de ejaculações precoces. Devo parecer uma marioneta e este lugar cheio de gente que julga conhecer-me a tomar conhecimento da minha condição, tropeçando nos fios que me controlam, provocando-me espasmos inesperados. Não tarda passa-me do corpo ao que sou realmente e salto anos em segundos sem sair do mesmo espaço, louco por dentro, que são os mais comuns e menos reconhecidos.

Savonlinna, 2010

 

João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Estudou no Porto. Vive e trabalha em Turku, na Finlândia.  Publicou os livros Os Poemas de Ninguém (2009), Disse-me António Montes (2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (2011), Saber Esperar Pelo Vazio (2012),  Destilações(2014) e Trepanação de Jerónimo Bosch (2015).

 

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102ª Leva - 05/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Rodrigo Melo

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

CÉU SEM FIM

 

Eu trabalhava como soldador em uma fábrica de carrocerias de caminhão. Não é um trabalho fácil, tanto que muita gente até desiste depois de um tempo, mas era o que eu gostava de fazer. Dizem que todo homem nasce para alguma coisa. Talvez eu tivesse nascido praquilo. Trabalhei lá por quase quinze anos. Chegava bem cedo e saía às seis da tarde, entrava num ônibus apinhado de gente e seguia pra casa apenas para tomar banho, comer e dormir. No dia seguinte, antes que a fábrica abrisse, estava lá outra vez. Os patrões gostavam de mim. Nunca ninguém falou, eu apenas sentia que eles gostavam. Eu era quem menos faltava ou reclamava. Eu não negava serviço, doutor. Naquele dia, porém, uma dor de dente me fez sair mais cedo, algo que jamais havia acontecido. Foram dois os sofrimentos: pelo dente e por não soldar. Sentei no ônibus, desgarrado das coisas, preso àquela dor. Quem já teve dente ruim sabe do que falo. Encostei o ombro na janela, o rosto sobre ele, fechei os olhos. Alguém então se sentou ao meu lado. Era uma loura de uns trinta e poucos anos e a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que ela tinha um rosto parecido com o de mamãe. Ela se sentou e ficou a me olhar com estranheza e curiosidade, em seguida perguntou se eu precisava de ajuda. Minha cara não devia estar boa, ela que na verdade nunca foi grande coisa. Respondi que não, que só estava cansado, que ser gerente numa fábrica de carrocerias de caminhão não era brincadeira, naquele instante eu ia resolver umas questões, havia a labuta com os subordinados, as preocupações matavam. Preferi não dizer que era soldador ou que não cuidava dos dentes. Talvez ela se decepcionasse. Talvez ela deixasse de ser simpática e de conversar. A sua voz era doce como a voz de um anjo. Seus olhos eram cheios de vida, o seu cheiro era bom. Conhecê-la fez com que a dor no meu dente diminuísse. Disse para eu ter paciência no trabalho. Com tranquilidade e fé tudo voltará ao normal. E esta é uma coisa que nunca tive, doutor: fé. Lembro que havia uma moça no orfanato que gostava de me contar histórias antes de dormir. Era uma boa pessoa e foi a única que me deu atenção depois que mamãe me deixou. Um dia ela se casou ou conseguiu outro emprego e nunca mais apareceu. Mas foi ela quem disse: tenha fé, sua mãe ou alguém vem te buscar… Mas eu não sabia como era ter fé e talvez por isso mamãe não tenha voltado e ninguém me adotou e tarde da noite eu ficava acordado olhando para o teto daquele lugar, e a noite marca e destrói, a noite é um libertino que fode com as nossas almas, doutor, e aquele era um teto tão alto quanto um céu sem estrelas, um céu infinito feito apenas de breu e de solidão, e eu olhava para ele tentando entender o porquê dela ter me deixado lá, lembrando do seu rosto, da lágrima que descia, de quando acenou e saiu apressada, sem olhar para trás. Por onde andará? Quem sabe ainda viva, em um outro lugar… Sinto falta do emprego na fábrica, do barulho, de chegar antes que todo mundo e de me pedirem para fazer algum serviço… De qualquer maneira, eu estava lá, no ônibus, e por um instante pensei em conversar um pouco mais com aquela mulher, pensei em perguntar seu nome, se achava que choveria mais tarde ou qualquer bobagem assim, mas não perguntei. Não demorou muito, ela se levantou, puxou a cordinha, disse boa sorte e desceu. Tudo tão rápido que só resolvi saltar quando o ônibus já ia longe. E então comecei a correr. Corri muito, corri desesperadamente, corri como se tudo dependesse daquilo, de vê-la outra vez. E eu a vi: atravessando a rua, com a calça jeans desbotada, a blusa vermelha com listras brancas, o cabelo loiro, a caminhar em direção a um prédio de tijolinhos. Era um prédio velho e pequeno, mas enxerguei charme e beleza nele. Quase um minuto se passou, a luz do apartamento do segundo andar foi acesa e ela entrou e se sentou sobre o pequeno sofá que havia na sala, tirando os sapatos e estirando as pernas. Pensei que era muito possível que ela gostasse de me ver novamente. Mas o que diria? Ela se levantou, foi até o quarto, acendeu a luz e tirou a roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã. Passou a se olhar no espelho do guarda roupa, num instante de perfil e, no outro, segurando os seios e os levantando. Enfiou uma das mãos por dentro da calcinha. Eu não sabia o que viria a seguir. A intimidade é a nossa sentença. Segundos depois, entretanto, ela parou com aquilo e entrou no banheiro. Ficou por lá uns bons vinte minutos. Quando reapareceu, estava envolvida numa toalha. Foi nessa hora que resolvi ir até lá. Entrei no prédio, não havia ninguém na portaria, subi os degraus e bati na porta. Eu estava ansioso, sentia que era o que tinha que fazer. Mas o que aconteceu quando a porta se abriu, infelizmente, não foi nada do que imaginei. O rosto dela já não parecia doce e amável como quando conversamos no ônibus, sua tez empalideceu, seus olhos se arregalaram. E ela então me perguntou, andando para trás, com a voz assim meio tremida, o que você está fazendo aqui?! Eu mostrei a nota de cinquenta reais em minha mão. Eu disse, é sua, vi quando caiu. Falei lentamente, sorrindo, para ela se acalmar. Porque as pessoas gostam muito de deduzir e acabam pensando em coisas que não têm nada a ver. Quase sempre se exagera. E acho que foi mesmo o que aconteceu.  Ela de repente estava com os lábios crispados, com os olhos bem abertões, parecendo olho de cavalo, e tentou fechar a porta com força.  Eu coloquei o pé na frente, dizendo que só queria devolver o dinheiro, que já ia embora. Mas ela correu para dentro do apartamento e começou a gritar. Foram gritos horríveis aqueles, gritos longos, altos, que pareciam não acabar mais. Pra quê aquilo tudo? No fundo, digo ao senhor, as pessoas não são de confiança. Culpam os outros pelas próprias escolhas e, se deixarmos, podem mesmo nos arruinar. Eu pensava nisso quando dei o primeiro murro. E, depois dele, dei outro, depois outro e mais outro. A verdade, doutor, é que eu não consegui mais parar, mesmo quando ela deixou de gritar e virou uma massa de carne, sangue e cabelos loiros, mesmo quando senti que não respirava mais. Quando vocês chegaram, mais de uma hora depois, o dente tinha começado a doer outra vez e eu estava deitado ao seu lado no chão, com o braço cruzado sobre o seu peito, abraçando-a. Do mesmo jeito, doutor, que eu, quando olhava para o teto lá do orfanato, imaginava deitar com mamãe.

Rodrigo Melo é autor de “o sangue que corre nas veias” e “jogando dardos sem mirar o alvo”, livros de histórias curtas. Lançará, no final do ano, o seu primeiro romance.

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Sérgio Tavares

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

A fuga

 

Para o amigo Bernardo Kucinski

 

O menino foi antes. Fazia uma semana. Agora era a vez dos pais prepararem-se para a fuga. A mãe foi a primeira a aprontar a mala. Sentada no sofá da sala atravessada pela penumbra das cortinas cerradas, ouve os passos do marido num vaivém acelerado do escritório à cozinha. Arrasta objetos, joga-os no chão, rasga papéis. Dá vida a um descontrole que não a alcança. Ela apenas ouve.

Então o cheiro adocicado de fumaça recende pela casa. Logo o ambiente fechado é preenchido por uma massa nebulosa. A mãe se levanta e dirige-se até a soleira da cozinha. Vê o marido intranquilo, queimando, na boca do fogão, documentos, fotografias, relatórios mimeografados e páginas do manual de guerrilha e de jornais clandestinos. Em volta dele, a porção de vapor é mais densa. Como se ao incinerar o passado, incinerasse também a si.

A imagem lhe resgata a memória de uma canção antiga. Passa um tempo olhando-o, enquanto a letra flui remansosamente em sua cabeça. O marido não a percebe em momento algum. Focado em não deixar vestígios e tampouco ser flagrado na janela, embora coberta há dias. A mãe se cansa e retorna ao sofá. O corpo já não é mais o mesmo com o chumbo sobre os ombros. Toca na mala aos seus pés, abastecida com mudas de roupa, cartas do irmão, passaporte falso, livros de poesia e um álbum de retratos do filho. Sente vontade de pegá-lo, mas sabe que mexer no interior pode gerar um contratempo, e precisam partir o mais breve. Fugir e reencontrar o menino.

A cozinha ainda despeja fumaça e cacofonia. Não será agora, aparentemente. Põe-se de pé outra vez e caminha até o quarto do filho. Afasta a porta. Está do jeito que ele deixou, uma desordem encantadora. A cama desfeita, gavetas expostas. Uma passeata de brinquedos pelo tapete. O menino não pôde levar nenhum deles, imagina que deve sentir falta. Agacha-se e pega um soldadinho de plástico. Enfia no bolso de trás da calça jeans. Passa somente a observar. A ausência. Um quarto infantil sem uma criança é a reificação da saudade.

Quando volta à sala, o marido está de cócoras diante de uma mala aberta. O olhar inquieto denuncia o desgoverno sobre os gestos, quase um rompante. Vai atulhando roupas, sapatos, cintos, livros de economia e de história do Brasil, passaporte falso, um revólver automático, cartuchos e uma fita magnética de rolo. Transpira excessivamente, o linho da camisa se emplastra no tórax. Ela o observa, não trocam palavras. Ele fecha a mala. Ato contínuo, dispara até a estante e pega uma folha de papel e caneta. Debruça-se sobre a mesinha de centro e começa a manuscrever uma relação com nomes de empresários, diretores de agências de publicidade e de jornais que apoiam o regime. Patrocinadores de prisões arbitrárias, de torturas, de desaparecimentos. Produzir, com o próprio punho, a lista é seu último ato de resistência.

Termina e deixa a folha explícita sobre o tampo. Pega a mala, a esposa faz o mesmo. Caminham agora juntos até a saída dos fundos. Com cautela extrema, destranca a porta e abre uma ínfima brecha. O ar fresco os atinge. A mão na maçaneta treme. Sabe que não podem se precipitar ou irão cair. O ponto não é mais seguro. Eles estão lá fora, à espreita, os agentes disfarçados. O sujeito de ray-ban tomando café no balcão da padaria. Aquele outro de perfil, a cabeça encoberta pelo capacete do orelhão. Encostado na lateral da kombi, de mangas de camisa. Atrás da face externa do portão. Ao redor dos muros baixos da casa. Quantos eles são? Não deve perder o foco, assim versa o manual. Tem de proteger a esposa, a companheira.

Mete os dedos pela bainha da camisa e segura o cabo da arma presa ao cinto. Encosta o ombro na madeira da porta, olha para a esposa, assente e dá um tranco seco. A abertura é sucedida por uma escapada pela garagem, até a traseira do cupê Uirapuru azul-ferrete. Abre o porta-bagagem e joga as malas. Mantendo o ritmo frenético, separam-se pelas laterais e embarcam nos assentos dianteiros.

Os vidros fechados logo condenam a cabine ao gás tóxico de suas respirações. O medo, a aflição, a possibilidade de um ataque a tiros. Precisam sair dali o quanto antes, precisam da chave. O pai vasculha os bolsos com agressividade, até que encontra o pequeno estojo. Ali está, a chave para que possam finalmente fugir. Ele retira a tampa e exibe as cápsulas de cianureto. Ele pega uma, a esposa fica com a outra. Colocam delicadamente entre o vão dos molares. Entreolham-se, por alguns segundos. Em seguida abraçam-se e as mastigam.

Os corpos entram em convulsão, dirigidos pelo veneno. A boca aflora em espuma, os olhos reviram. Passam a enxergar o mundo interior, onde a mãe vê o menino e o marido. Estão na praça, jogando futebol sobre a grama. É um domingo. Eles não deviam se expor assim, mas uma criança precisa de diversão, mesmo em tempos sombrosos. Então a bola corre para além do gradil de proteção. O menino dispara atrás. A praça está à margem de uma autopista, a bola corre para lá. O menino não se detém. Os carros zunem.

A mãe berra e corre. O pai berra e corre. A bola corre. O menino não se detém. O caminhão não se detém. Porém, desta vez, o motorista consegue desviar a tempo e o menino salva a bola. O pai estanca e serena. A mãe o ultrapassa e choca-se contra o corpo frágil da criança. Segura-a, beija-a, chora. Tem contra si, para sempre, o filho que é seu. O filho, para sempre, envolto em si. A morte não é uma luta, é um abraço.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Vinícius Rodrigues

 

gabriel-rastelli
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

O sabor dos anjos

Por trás da vitrine, o olhar e o doce. O sonho brilhava encoberto em açúcar, minúsculos cristais faiscantes sob a luz da vitrine. Abel, ainda pequeno, com os olhos na altura do doce, uns olhos arregalados para o recheio de goiabada que escorria, olhos de quem adivinha um sabor nunca experimentado. Do outro lado, além do sonho, o filho do padeiro, um pouco mais alto, um pouco mais velho. Eles se viram aquela vez e, por muitos anos, não se conheceram.

*

— Oi! Me vê aquele quindim ali?
— O maior?

A resposta foi um sorriso entre as bochechas gordinhas.

— Você eu não conheço.
— Meu pai é o dono.
— Ah! É verdade. Tinha um garoto aqui quando eu era criança.
— Eu.
— E…

O outro sorriu.

— Eu morava com minha mãe.

Abel sorriu um sorriso de compreensão. Agradeceu o doce e foi saindo.

— Meu nome é Amaro.

Abel se virou da porta interrogativo e apontou para o alto. Amaro fez um gesto conformado. Padaria Santo Amaro.

A padaria ficava numa esquina e o letreiro se repetia para cada uma das ruas. Letras vermelhas sobre um fundo amarelo claro. Há muito já não tinha a imagem do santo, de quem Abel tinha uma lembrança apenas vaga.

**

— Já pensou se fosse Santo Expedito?
— Ou São Basílio.
— Santo Antão.
— Sabia que tem um São Frutuoso?
— Nossa! Ia ser muito pior.
— Eu não gosto é do José.
— Eu também tenho José.

José Amaro e Abel José. Eles riram da coincidência e se reconheceram ainda mais como amigos.

— Uma prima me chama de Belzebu.
— Por quê?
— Bel, Zé, ela foi juntando e lembrou do danado. O apelido pegou.
— E você é assim endiabrado?

Riram. Amaro estendeu um doce para o novo amigo. Abel sequer perguntou do que se tratava. Colocou o doce inteiro na boca. Um gosto de amêndoas lhe invadiu a boca.

— Beijinho de freira.
— Humm!
— Gostou?
— Acho que comi o papel junto.
— Não é papel, não. É uma hóstia.

Amaro falou para o novo amigo do desejo de colocar novos doces para vender. Pensava em recuperar o ar de padaria portuguesa que tinha no tempo do avô. Estava experimentando receitas.

— Eu gostei. Vou querer experimentar todas.
— Vou querer que você experimente.

Quem acompanhasse a conversa dos dois jovens poderia perceber que havia ali um encontro.  Eles eram tão diferentes. Amaro era alto e magro, uma pele levemente morena, uma morenice mediterrânea, coberta por longos pelos negros. Abel era mais branco, uma brancura também mestiça, sem os avermelhados dos brancos do norte. Tinha os cabelos também muito pretos, mas não tinha pelos. Era gordinho. Braços e pernas roliços escapando das camisas e das bermudas. Amaro tentava disfarçar, mas quase sempre seu olhar escorregava para aquelas partes do amigo em que a carne forçava os tecidos das roupas. Tinha sido assim desde que o tinha visto saindo da padaria com um quindim. Abel tinha as pernas grossas sustentando uma bunda volumosa. As gorduras sem exageros doentios faziam curvas sinuosas e pareciam dançar quando ele andava. Amaro quis chamá-lo, retê-lo um pouco mais, mas não sabia como. Foi assim que gritou o próprio nome para o rapaz.

Depois daquele primeiro encontro, não viu a hora de ver o rapaz de novo. No dia seguinte, mesmo sem estar previsto, fez mais quindins. Escolheu de propósito formas maiores. Abel retornou, mas não quis o quindim. Preferiu uma tortinha de limão. Depois, no outro dia, quis um brigadeiro. No fim de uma semana, já tinha experimentado todos os doces da vitrine. Um por dia. Amaro percebeu seus olhos procurando alguma novidade. Lembrou-se do sonho.

— O recheio desse é de creme de baunilha.

Abel mordeu o doce num prazer genuíno. Logo depois, entretanto, o brilho nos olhos diminuiu. Não havia mais novidade. Ele comia o doce com avidez ainda, mas uma avidez tensa, de quem apenas se deixa levar.

— Você tem tempo?
— Hum?

Amaro foi para a cozinha. Uma rápida mistura: açúcar, manteiga, farinha de trigo, baunilha. Um forno quente, um pouco de conversa. Logo, os biscoitos ficaram prontos.

— O que é isso?
— Areias de Cascais.
— Bom!
— É o que há de mais simples em doces.
— Nunca tinha experimentado.

Amaro sabia. Abel gostava da novidade, sabores novos, mesmo que fossem simples.  Foi assim que ele começou a seduzir o amigo. A cada dia fazia um doce diferente. De simples biscoitos de natas a bocas de damas. Fez os mais diversos manjares, ambrosias, madalenas, pães-de-ló. Não faltaram os pastéis de Belém e outros doces de convento. Amaro seguia as receitas de um livro antigo do avô. Abel vinha todos os dias para experimentar a novidade. A cada dia, Amaro se mostrava mais próximo. Abel já não era um mero cliente. Era convidado para a cozinha onde podia ver os doces sendo feitos. Lambia as massas cruas das panelas, provava cada etapa até o doce estar pronto. Ele se perdia num labirinto de sabores às vezes tão iguais, mas sempre apresentados de maneira diferente. E enquanto o menino guloso se lambuzava nas delícias, Amaro se deliciava de ver as bochechas gordinhas, os braços roliços que pegava com as mãos cheias para mostrar ao amigo alguma panela fervente. Ele degustava o corpo do rapaz aos poucos, em esbarrões casuais, em gestos fraternos. As coxas de Abel eram tocadas na espontaneidade de uma piada. O corpo todo do jovem se debruçava sobre Amaro numa tentativa de alcançar um doce que lhe era negado. Eles viveram essa dança por semanas. Um encontro de desejos. Encontro? Assim pensava Amaro.

— Hoje à noite vou fazer papos de anjo.
— Hum. Eu gostei desses.
— Mas vou fazer diferente: papos de anjo na hóstia…
— Quer me ver fazendo?

Abel voltou à noite quando a padaria estava fechada. Amaro lhe abriu a porta dos fundos, apenas o suficiente para o rapaz passar roçando no outro. Amaro sentiu a bunda inteira do rapaz passar por seu corpo. Chegou a estremecer.

Abel perguntou dos doces, os papos de anjo de que já tinha gostado tanto.

—Antes você vai experimentar esse bolo dos anjos.

Era um bolo de claras, muito leve. A forma estava de ponta cabeça equilibrada no alto de uma garrafa.

— O que é isso?

Abel estava maravilhado.

— É um bolo tradicional americano. Tem de deixar esfriar assim, se não murcha. Tinha de aproveitar as claras, né.
— Podia ter engomado umas roupas.
— Da próxima vez traga suas camisas.
— Prefiro experimentar esse bolo.

Amaro desenformou o bolo. Era levíssimo. Abel comeu aos bocados.

— Parece mesmo comida dos anjos.

Falava de boca cheia. O bolo era tão leve que logo já tinha comido a metade. Enquanto isso, Amaro colocava a massa dos papos de anjo em hóstias, fechava-as como um pastel, besuntava de gemas e passava em açúcar.

— Agora experimenta os papos de anjo desse jeito.

Pegou um dos doces e ofereceu a Abel diretamente na boca. O rapaz mordeu o doce no meio. A Hóstia partida deixou escorrer o creme pelo braço de Amaro. Num gesto instintivo, o rapaz lambeu o braço do amigo. Junto com o doce, os pelos longos e negros do braço foram sugados. O suor se intrometeu no meio do doce. Uma mistura alegre e inusitada.

Amaro percebeu o maravilhamento do outro. Então, espremeu mais creme no braço e ofereceu. Abel hesitou. Antes, tinha lambido por reflexo, dominado pelo desejo do doce. Agora, sentia que não devia. Lamber um homem? Nunca tinha querido isso. Não gostava. Mas aquele gosto? O sal misturado ao açúcar e às gemas?  Ficou uns instantes parado olhando para o amigo. Entre eles, o doce. Amaro rasgou outro envelope de hóstia e espalhou mais creme. O braço estava todo lambuzado de papo de anjo.

Abel não resistiu. Dessa vez, talvez porque já não era um ato impensado, talvez porque sabia do passo além que dava, lambeu o braço devagar. Assim, o gosto lhe veio mais calmo, mais definitivo. Parecia que experimentava uma revelação. Depois daquilo, sentia que não se contentaria com nada menos.

Lambia o braço peludo do amigo. Lambia meticulosamente. Lambia o creme e lambia o braço sem creme. O doce e depois o sal. Abria a boca para sentir ambos na língua. Os olhos fechados. Deleitava-se.

Amaro extasiava de sentir aquela boca suave na própria pele. Sentia-se beijado. E, vendo na bochecha do outro um pouco de creme, não resistiu. Sentia que também tinha o direito de provar o doce e provar o outro. Avançou sua boca, primeiro no creme; depois, direto nos lábios de Abel. Não lambia. Beijava.

A reação foi susto e rejeição. Abel o empurrou com força quando a língua já lhe entrava pela boca a dentro. Não teve sabor, não teve prazer. Ele não saberia, depois, descrever o que sentiu. Não sentiu nada. Talvez, bem mais tarde, chegasse a compreender que era simplesmente isso: não gostou, não se sentiu atraído, não desejava. Aquela ausência de querer, para alguém que era movido pelo desejo de experimentar, era assustadora. Talvez porque fosse um homem? Talvez porque nunca tivesse pensado a respeito? Talvez porque fosse além do paladar e esse era o único sentido que importava para o rapaz. Abel fugiu.

Amaro se sentiu perdido. Até aquele momento achava que vivia um perfeito encontro de desejos; o seu pelo amigo, um desejo de pele e de amor; e o do amigo, um desejo talvez mais difuso, mas ainda assim um desejo por si. Ele acreditava nesse encontro, nesse ponto de chegada de dois caminhos. Só depois de ser empurrado com força — e Abel era forte—, é que se deu conta de que os desejos apenas se cruzavam e se atravessavam. Ele via a gula de Abel como um reflexo de seus desejos. Não era isso. Descobriu não um reflexo, mas uma refração. Um desvio, um trágico desencontro. Abel fugiu e ele ficou só em meio aos doces com nomes de anjo.

***

Abel saiu da padaria assustado. Pensou que talvez tivesse culpa pelo que tinha acontecido, mas repetia pra si mesmo: eu não imaginava, eu não imaginava. Dizia e não conseguia apagar as imagens do amigo tocando em seu braço, em sua perna. E no meio das imagens, os doces; tantos sabores delicadamente diferentes e iguais, como um contínuo crescente. Amaro tinha lhe seduzido com aquele desfile sem fim. Ele se deixava levar feliz, guiado pelo desejo de mais um novo sabor; e, então, o sal no braço do amigo, o suor nos pelos. Aquela incrível descoberta. Abel seguia pela rua meio tonto. Resolveu sentar numa escadinha de tijolos de uma casa abandonada. As mãos sujas de açúcar apoiadas no degrau descarnado. O açúcar, a gordura, o barro. Abel sentiu aquela textura. Olhou aquela nova mistura nas mãos. Um comando de aventura na cabeça. Será? Pensou uma última hesitação antes de lamber as pontas dos dedos.

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010),  “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010) e “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014).  Participou de várias antologias poéticas, além de figurar no volume “Anos 2000 – Coleção Roteiro da Poesia Brasileira” (Global Editora, 2009). Mantém o blog Café Molotov.