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91ª Leva - 05/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Paulo Bono

 

Arte: Marcantonio

 

Jaca, os peitinhos e a galinha

 

Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.

– E a cachaça? – Jaca disse.
– Tá aqui – eu disse.
– Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
– Que galinha?
– Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
– Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
– E o bode?
– Que bode, caralho?
– O bode que enterram em seu quintal?
– Ok. Cadê a galinha?
– Na mala.
– Na mala?
– Lavei o carro hoje.
– A porra vai morrer sufocada.
– Fique tranquilo. A galinha tá na dela.

Jaca era um amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levavam a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje trabalha como segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.

Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Primeiro, daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.

– Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?

O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.

– Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.

Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.

– Esse merda não vai falar nada – eu disse.
– Será que é doente?
– Quero que ele se foda.
– Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
– Vamos sair daqui, caralho!
– Tô quase metendo a porra nesse moleque.
– Cuidado, esses caras manjam de capoeira.

Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.

– Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
– Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
– Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
– Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
– Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
– É, tô no cu da cobra – eu disse.
– Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
– Aguente firme, Tico-Tico – eu disse.

Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.

– Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
– Ham?
– Tá sentindo o quê, porra?
– Calor da porra!

Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Em um desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.

– Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
– O quê?
– Porra, você tá suando pra caralho.
– É o calor, porra.

Adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.

– O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
– Não sei. Entendi, não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim…
– Jaca, você tá branco.
– Dor de cabeça…
– Porra, será que você tá dando santo?
– Eu tô tranquilo…

Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. De repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.

Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.

– FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
– Vai tomar no cu, Jaca!
– FOI VOCÊ QUE DISSE!
– Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
– E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
– Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
– Ele me pegou desprevenido.
– Mas você viu aqueles peitinhos?
– Jesus é mais forte!

Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.

Paulo Bono é baiano e nasceu na Lapinha, tradicional bairro do centro antigo de Salvador. Formou-se em relações públicas, é pós-graduado como roteirista, trabalha como redator publicitário e escreveu o blog de contos e crônicas Espalitando Dente durante 6 anos. Em 2013, lançou o livro de contos Espalitando (Editora Cousa). 

 

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Nelson Alexandre

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

Paciência ou das efemérides aos desejos não realizados

 

Leva-se tempo. Para tudo. Sim, mas nem sempre estamos pacientes para compreender isso. Para apurar isso como um ourives diante de uma peça rara. Paciência é um adjetivo que supostamente todos diagnosticam como um elemento raro, porém de suma importância para nossas miudezas cotidianas. Paciência é algo que, como eu havia dito antes, requer a habilidade cirúrgica do médico comprometido com seu paciente mais terminal. Nas efemérides, ou mais popularmente no nosso memorial do dia a dia, a paciência, inquestionavelmente, vai se imiscuindo no lampejo de um raio cortando uma nuvem roxa e carregada de chuva e trovões explodindo os tímpanos mais desavisados. Mas raivas à parte, tudo deve ser deitado, repousado nos braços elegantes dessa senhora de idade inquestionável que resolvi chamar de paciência. Eu mesmo nunca a dominei, e, desesperadamente, de alguns meses para cá, muito me reivindica essa bela senhora que jamais me responde quando grito. Quando espero uma advertência por ser tão insistente em testar sua incomensurável leveza com o meu revés de seu silêncio plácido. Às vezes, imagino que a paciência é como Arvo Pärt… Como um lago escondido em algum lugar do Canadá inglês, e por que não do francês? Em sua leitura profunda, nas águas mais inóspitas, está lá a dama agarrada em algum galho olhando até quando seus pulmões aguentam. Até quando seus olhos poderão ficar arregalados como um baiacu pronto para explodir como uma granada viva e cheia de escamas letais ao entrarem em contato com a pele, os músculos e membros alheios. Eu nunca saberia morrer com a paciência do peixe pescado e mantido vivo no samburá para depois ser abatido, destrinchado e saboreado com algum vinho branco de nome com som inaudível em português. Quando vou ao supermercado, meu carrinho é constantemente carregado de impaciência: Miojo ao invés de uma boa pasta italiana, molho enlatado ao invés de uns bons e vermelhos tomates bem maduros, uma garrafa de qualquer refrigerante ao invés de laranjas amarelas e radiantes como os raios do sol visto do fundo do lago congelado… A senhora paciência que me perdoe, mas como sou testado para me enquadrar em seu comportamento de céu infinito e iluminado visto do telhado de algum prédio abandonado. Em meu carrinho também entram os sacos de batatas prontas para serem fritas e não as que precisam ser descascadas enquanto servimos mais uma taça de vinho para alguém que ainda não chegou, que provavelmente deve estar em um ônibus cheio, ou quem sabe retornando para casa de táxi lendo algum livro ou achando engraçado algum “dejavi” com o personagem do filme de 1976 de Martin Scorsese. O mundo é um moinho… Mas minha conversão ao estado de espírito dessa senhora desenha-se em pão feito na hora, quente, com manteiga derretendo em seu interior cáustico, vulcânico e até mesmo erótico. Sempre fui erótico e não pornográfico. Não sou um desqualificado, nem maldoso, nem vingativo, mas um sem teto do acalanto dessa senhora que me vê como um autista/anarquista que gosta de fazer compras às terças-feiras chuvosas e melancólicas. É do meu feitio considerar as partes antes do todo, pois de finitude sou um ginasiano que ainda ama platonicamente aquela moça meiga que agora é uma mulher que também empurra carrinhos de compras e sempre fica indecisa na hora de acertar as contas, se ainda falta alguma coisa para completar o grande buraco negro das despensas da alma, mas de uma alma sadia e que preserva ainda algum resquício de boa vontade em descascar as batatas e cozinhá-las para fazer um purê com molho de amor… Pois essa cozinha está completamente desprovida dos temperos do amor e da paciência. Como o mundo que Cartola, se estivesse vivo, ainda haveria de chorar com seu violão em notas aquosas e cheias de cebolinha e cheiro verde. Odeio truco, e jamais tive paciência para aprender, observar e muito menos jogar esse jogo oriundo de butecos mal ajambrados e cheios de sujeitos que passam longe do vício que Dostoievski dedicou num livro inteiro e que, óbvio, nada tem a ver com o joguinho brazuca que tanta gente gosta para subir em mesas ou cadeiras e alavancar a voz aos mais detonantes decibéis que sua pobre alma pode suportar. Às vezes, e muitas vezes, já sonhei que era o conde Vlade para decretar o empalamento em praça pública aos amantes dessa inhaca chamada truco… Desejo… Mas… Enfim, prefiro lembrar sim das continuidades existentes do meu amor platônico por essa senhora que me resigna apenas a ler e ver minhas mensagens mandadas de setores nobres do sentimento humano, mesmo que por certos momentos diluvianos eu perca a fé e a esperança de um dia tê-la em meus braços e dizer, sem empolamentos parnasianos, que quero descascar as batatas e servi-la de mais uma taça daquele vinho inaudível se pronunciado em português. Quero te levar ao cinema numa quarta-feira também chuvosa, à tarde, clandestinamente, como amantes que fogem do trampo e dão uma esticadinha ao motel, mas acho motel broxante, prefiro uma casa isolada numa chácara com riacho e com cachoeira no fundo. Dois rios caudalosos, o da cachoeira e do meu bom mocismo induzido pelos seus carinhos de menina abandonada à própria sorte na selva de pedra. Eu também quero lembrar que de tudo um pouco nessa vida precisa do auxílio dessa senhora que acalanta estressados e estressadas para um caminho mais brando, suavizado pelo amor, e, claro, por uma boa comidinha feita na hora, pois amor de barriga vazia é sinônimo de picaretagem em aula de mantras em Nova Délhi. Incursões em partes para chegar-se ao todo, senão a vida idealizada e maravilhosa, que tanto mora em efemérides e desejos, vira: “fuck you!”.

Nelson Alexandre nasceu em Maringá – Paraná. É autor de “Paridos e Rejeitados” (Contos, 2012) e “Poemas para quem não me quer” (Poesia, 2013), ambos publicados pela editora Multifoco – RJ. Em 2005, recebeu menção honrosa no prestigiado Concurso de Contos Newton Sampaio, onde viu seu trabalho ser publicado pela primeira vez em uma coletânea. Teve textos publicados também pelas revistas: Literacia, Outras Palavras, Flores do Mal e Diversos Afins. É graduado em Letras pela Universidade Estadual de Maringá.

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Sérgio Tavares

 

Foto: Ozias Filho

 

Nelson e as flores

 

Deixe-me ao menos as flores que te emprestaram o perfume, pois agora, espalhadas pelo caminho, são como um sorriso teu que não me deixa passar com a minha dor, de modo a impedir que vás assim, magoada, bateando a porta e derrubando em mim a culpa que não é par de um ato tão leviano, quando te disseste, abraçado ao violão, que iria partir sem saber se voltaria, que não me quiseste mal, pois era carnaval, e tu riste, um tanto distraída cantarolaste meu samba, mas verdade é que, entre as estrofes, exaltavas a aurora de uma mágoa que não souberas esconder dos dias foliões, e quando voltei (veja, é claro que eu voltaria!) a encontrei pelos cantos, com os olhos rasos d’água, para me inundar com amargura e injustiça, dizendo que a partir de hoje eu era espinho em teu amor, que nosso jardim, ontem viçoso, secou, e eu, ainda confuso e embriagado, tentei afrouxar teu desprezo, alegando que espinho não machuca a flor, mas isto só serviu para aumentar tua raiva, chamando-me de cínico, rei vadio, que sempre guardaste teus sorrisos para mim, teu zelo, e o que eu te reservaste?, a revelação, logo no primeiro carnaval, que foi um erro ter juntado minha alma à tua, que és sol que não pode viver perto da lua, aí conseguiste me inflamar, pois o carnaval amo antes de ti, então repliquei que poderia sorrir para quem quiseste, e mesmo dizer que não me queria, mas não precisava me humilhar, pois nos olhos da mulher, teus olhos, eu sei quando ela quer abandonar o lar, e tu se calaste e, do caminho até porta, ouvi somente teus passos, o vaso com as nossas flores se despedaçar pelo chão e meu último rompante, um tolo ultimato que pregava que se me disseste adeus, não pensaste mais em mim, que eu ficaria com Deus.

Sei que a fé não consegue confortar o vazio do amor, mas tenho fé que tu voltes, pois as flores, embora agredidas, ainda conservam o lastro do teu perfume como a certeza de que não foste por completo. Sinto, no meu peito, que, mais alguns minutos, a porta vai abrir uma fresta dos teus olhos e tu vais entrar, catando os cacos e as pétalas, e assumir que tudo não passou de um mal entendido, que o sol há de brilhar mais uma vez a clara luz que chegará aos nossos corações, queimando, do mal, a semente e tornando o nosso amor eterno, sempre, novamente.

Sentado na beira da cama que é nossa e não minha, não posso aceitar que tudo se acabe neste dia de cinzas, marcado por sentimentos e costumes opostos ao que é a nossa vida, e sim o espelho do que fui antes de te descobrir, quando o sol me era raro e a luz negra do destino cruel iluminava meu teatro sem cor, onde eu desempenhava o papel de palhaço, um louco de amor.

Nestes dias sempre só, eu vivia procurando alguém que sofria como eu também, mas não conseguia achar ninguém, até que, naquela roda de samba, fingindo-me alegre, tocava meu violão, quando te vi, entre as cabrochas e as passistas, sozinha em um canto, desenhando em uma folha de papel de pão. Passei toda a noite acumulando coragem para falar contigo e, quando finalmente me aproximei, tu me recebeste com censura, pensando que o convite era de dança, mas o convite era de silêncio, e descemos até a praia onde sentamos na areia e deixamos que nossas tristezas se conhecessem.

Durante horas, foram só as nossas respirações miúdas se perdendo na estrondosa respiração do mar, então tu me perguntaste se eu carregava tanta dor no peito, por que o samba? E eu respondi que sempre soube esconder a minha mágoa, sem que me vissem com os olhos rasos d’água, fingindo-me alegre pro meu pranto ninguém ver e achando feliz os contentes, aqueles que sabiam sofrer. Nem a mágoa pode calar meu violão, eu disse, e tu me beijaste e, a partir deste instante, graças a Deus, minha vida mudou, quem me viu quem me vê, a tristeza acabou, pois contigo aprendi a sorrir. Escondeste o pranto de quem sofreu tanto e organizaste uma festa em mim, que comemoramos enlaçados, quietos, para não descompassar o batuque que ainda hipnotizava o morro. Na manhã seguinte, trouxe-te o desjejum e um buquê verde de rosas, que pediste para pôr em um vaso, como um pedido para que ficasses para sempre com o meu amor. E tu sorriste, ajeitara-te com sonolência e, cobrindo a nudez com o lençol, disseste:

O amor é como a flor, Nelson. Ele nasce e morre quando não se espera.

Sem braga, aproximei-me de teu ouvido e confessei:

Pode haver outra mulher tão carinhosa, mas para mim é apenas tu.

Nos dias que se passaram, construímos um amor tão duradouro quanto as flores que nunca perderam o viço. Agora caídas, penso o quão ingrata foste por não considerar ao menos o que elas representam. Se bem que, avaliando a frieza das tuas primeiras palavras, assalta-me uma suspeita de que tu usaste o carnaval como pretexto para se livrar de um amor que, para ti, nunca de fato existiu. Pesando o rigor dos teus protestos sobre um ato tão banal, sinto aflorar em mim o medo de que isto seja verdade e, inesperadamente, percebo uma lágrima descer pelo o meu rosto, anunciando o brotar do meu desgosto. Pois sempre fui bom para ti e, por ti, sem que soubeste, quase passei fome, apenas para honrar teu nome: o nome que te dei. Temo que, o princípio de flores, tenha me feito tão cego de amor que não percebi que eu era demais entre seus amores, e acabei tropeçando nos erros de uma mulher sem alma, que, no meu peito, abria uma ferida a sangrar.

Se assim for, sei que só a fé é que me trará consolação para tanta humilhação que viverei a suportar. Olho para o relógio: são duas da manhã. Contrariado espero por ti. Aguardando amanhecer o dia e findar minha alegria, imagino qual será o teu paradeiro, que até agora não voltou. Já mesmo nem sei se voltarás ou se me abandonaste de vez? A minha esperança está morrendo, e a saudade, no meu peito crescendo, é o meu coração que me diz que sem ti eu não serei feliz. Nada me resta, além da tristeza. Mas espere um pouco: não fui eu que te quiseste mal, foste tu que quiseste a mim. Posso ser um rei vadio, um poeta sem lei, porém nunca vivi em vão, fiz tantos amigos, muitos irmãos. Sempre plantei o bem, e, por que não iria colher o que mereço? A felicidade pode tardar, mas tem meu endereço. E, quando chegar, trará o samba: o desfile das campeãs, o último suspiro de um repique, um cavaquinho ao longe.

Levanto-me para fechar a porta, dizer-te adeus e esperar o próximo bloco atravessar, mas logo percebo que tudo não passa de ilusão. Pois, quando passo perto das flores, elas me dizem assim: vai, Nelson, que amanhã enfeitaremos o seu fim.

 

Nota do Autor:

Nelson Cavaquinho era mestre da poesia de botequim. Sempre nas rodas dos boêmios, pernoitando numa mesa acessada por uma soma de parceiros musicais, trazia a lume histórias de indivíduos à sombra de desilusões amorosos, ébrios, sustentando sobre a vida uma tonelada de pessimismo e de melancolia. Dizem que são de sua autoria mais de 400 composições, muitas das quais negociadas por uma ninharia ou usadas como vales para hospedagens em pensões baratas. Nascido no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, em outubro de 1911, era filho de um policial militar, rumo que tomou até ser sequestrado pela malandragem, pela comunidade da Mangueira, pelo samba. A princípio, tocava cavaquinho, depois abraçou o violão, que fazia soar com o uso de dois dedos. Também peculiar era a sua voz roufenha, que trazia naturalmente um senso lamuriento para suas letras desditosas. Gravou quatro discos próprios e foi regravado por artistas do quilate de Nara Leão, Elizeth Cardoso e Elis Regina. Morreu em fevereiro de 1986 como Nelson Antônio da Silva.

Esse conto-colagem é um tributo (certamente não o melhor, mas um honesto) montado com trechos das composições ‘A flor e o espinho’, ‘Juízo final’, ‘O bem e o mal’, ‘Mulher sem alma’, ‘Quando eu me chamar saudade’, ‘Luz negra’, ‘Pode sorrir’, ‘Rugas’, ‘Vou partir’, ’Duas horas da manhã’, ‘Palhaço’, ‘Amor que morreu’ e ‘Ninho desfeito’.

Viva Nelson Cavaquinho!

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Larissa Mendes

 

Ilustração: Vera Lluch

 

BIOTÉRIOS DOMINGOS

 

O poeta é um cientista com preguiça.
(Michel Consolação)

O lar-laboratório, casulo e consolo. Morada biotéria.

O [tubo de] ensaio de um amor líquido-gasoso. De solidez, apenas nossa efêmera química. Sentimentos sublimados, condensados, vaporizados. Jamais pistilo e pipeta, cadinho e pompete. Instrumentos descabidos, codinomes impronunciáveis.

Eu, a ruiva-alva, de polipropileno coração, cobaia de uma experiência virtualmente planejada.

Ele, uma espécie de professor Pardal. O cientista maluco, de peito-autoclave.

Ironicamente a televisão aberta e suspensa da antessala anunciava uma matéria qualquer de um Domingo Espetacular. E de fato foram noites agradáveis do mais enfadonho dos dias da semana. Lembro de uma em particular, onde a chuva batia na janela e o vento dedilhava a persiana. Barulhinho bom.

– Preciso de uma bebida para relaxar. – Disse eu, ainda confusa.

– Se eu soubesse tinha trazido. Só tenho água para te oferecer.

Sua voz é marcante como brasa em pele. Tem um quê de rouquidão que se assemelha a um constante resmungo. Gosto de suas gírias desencontradas, que colocam na mesma frase, lado a lado, várias gerações. Os olhos são de um magnetismo que ocultam até mesmo sua cor. O bater de asas dos cílios longos e negros emana a liberdade de um pássaro selvagem. O cabelo e a barba escura contrastam com a lucidez de seus gestos. Corpo quente [e rijo como sua mente], personalidade polar. Mãos pequenas, ego inflado como um colchão de ar.

Não caberia [ou não saberia] classificar o que se sucedeu nas duas horas seguintes. Era um misto de paz e urgência, desejo e pânico, riso e lástima. Uma intimidade, ainda que artificial, pré-fabricada em minutos. Não lembro de ter me sentido tão à vontade com alguém tão distante. Mesmo opostos [ele médico, eu monstro; ele criador, eu criatura], uma empatia de angústias e pesares.

Não saberia [ou não caberia] explicar o que se sucedeu nas duas semanas seguintes. Tudo foi tomado pelo silêncio. Uma cidade vazia como nossos copos, nossos corpos.

Não mais bom dia.

– O que você vai fazer hoje?

– Nada. E você?

– Nada também.

– Vamos fazer nada juntos?

São diálogos bloqueados, desfeitos, deletados. Afetos liquefeitos. Experimentos previamente testados e engavetados. Arquivados nos labirintos da memória que insistimos em perder.

Às vezes pareço um rato correndo em círculos numa esteira invisível. Um animal de teste engaiolado. Manipulado e reprovado. Não mais monitorado. Pronto para ser substituído. Morto numa câmera de dióxido de carbono ou ingerindo uma carga enorme de anestésicos. Aliás, é assim que me sinto: entorpecida. Um ser apático, desprovido de razões e pretextos. Sequelada e incapaz de novas experiências. Incinerada junto ao lixo hospitalar.

Amores voláteis não resistem às segundas-feiras. Não merecem segunda chance.

No criatório das palavras, Larissa Mendes é mais uma cobaia da inspiração.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 Mariel Reis

 

Ilustração: Vera Lluch

 

O Peixe


Ele tinha transtornos. Os transtornos impediam que se relacionasse com mulheres. As mulheres evitavam-no a todo custo.

O custo era alto. Alto porque contratávamos prostitutas. As prostitutas tinham que ser louras. Louras e peitudas. Louras, peitudas e altas. Altas, altas, depois de tanta bebida. Bêbadas, elas começavam a olhar para o meu amigo. Ele tinha transtornos. As prostitutas eram fadas.

Ele não notava o desprezo, o nojo, o desconforto. As prostitutas depois de rodadas de bebida esqueciam por um tempo o desprezo, o nojo e o desconforto. Permitiam-lhe tocar nos seus seios.

Ele tocava, agarrava e mordia as prostitutas. Prostitutas lindas, louras, altas. O atlas do mundo dele. Torto, na cadeira de rodas.

O dinheiro comprava toda aquela felicidade. As prostitutas passeavam em sua cadeira de rodas elétrica, dançavam com ele, colavam os ouvidos à sua boca para escutarem a sua voz fraca.

Tudo custava dinheiro, muito dinheiro.

Eu bebia uísque nacional. Uísque falsificado. Ele, lá, na pista de dança, com as prostitutas altas, louras e peitudas. O meu dinheiro escasseava. Toda vez ele me pedia as prostitutas louras, altas e peitudas. Agora queria prostitutas louras, altas, peitudas e de olhos azuis.

Chamei as mesmas da festa anterior. Comprei lentes de contato para todas. Todas tinham agora olhos azuis.

O médico dele deu-lhe mais três meses. Ele repetia O PAI , O FILHO E O ESPIRITO SANTO. Repetia. Repetia. Três meses. Ele se apaixonou pela prostituta alta, peituda, loura e de olhos azuis. Queria casar com ela. Casou bêbada. Era um casamento de mentirinha. Dormiu com ele a primeira noite. Cobrou alto. O meu dinheiro acabando. Fiz um pacote de uma semana.

Ele não queria mais as festas com tantas louras, peitudas, altas e de olhos azuis. Só queria ela. Eu bebia litros de uísque, trabalhava pelo computador, saía pouco de casa. Descansava na piscina. Ele ria. Os cabelos afagados por aquele sonho comprado caro.

Começou a me pedir coisas impossíveis. Viagens a lugares distantes, sagrados ou não. Ele me pediu para morrer em um submarino. Havia aquele parado no velho cais do centro que servia para a visita de estudantes. Ele não sabia quando morreria. Morrer fora de um submarino estava fora de cogitação.

A prostituta–esposa me pedia mais dinheiro, mais bebida. Eu me enojava de tudo aquilo: Por que ele não poderia levar uma vida normal? Por quê? Os médicos não se mostravam satisfeitos. Suspendi os remédios. Quer dizer, ele suspendeu.

Morávamos no velho submarino do cais da cidade. Todo vivente que o visitasse nos encontraria por lá.

As garrafas de uísque vazias boiavam ao redor do casco do submarino, repletas de cartas.

Um dia, acordei tarde, de ressaca. Ele estava vendo o nascer do sol. Levantou-se com esforço da cadeira, a prostituta-esposa molhava os pés delicadamente n’água. Escorregou até o mar. Nadou de costas uns duzentos metros.

Afundou.

Reapareceu, mais à frente.

Ele queria ser um peixe. Despedi a prostituta. Consultei o saldo de minha conta bancária. Deveria comprar um barco. Vendi o que me restava. E me tornei um pescador.

Mariel Reis é escritor, publicará em 2014 o livro de narrativas  “Bordel de Bolso” pela Editora Oitava Rima. Escreveu os livros: “Linha de Recuo” (contos), “John Fante Trabalha no Esquimó” (contos), “Vida Cachorra” (contos), “Cosmorama” (poesia), “Cidade Tomada” (crônicas políticas), “A Arte de Afinar o Silêncio” (contos) e “A Fábrica” (narrativas – inédito).

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Foto: Bruno Kepper

 

A NORA

Yara Camillo

 

– Chegaram, Juliana!

A Mãe corre até a janela: o filho vem com a nova mulher, que nem de longe condiz com sua expectativa.

Pequena, magra, cabelos rebeldes, olhos muito vivos – deve ser por conta deles o sorriso que brilha.

Desconcertante: é a palavra que ocorre, à Mãe, para explicar a decepção. Tanta moça em São Paulo e ele foi se engraçar com essa, pensa, tomando fôlego para ir à sala.

Chega a tempo de ver o Pai abraçando o filho e recebendo a nora:

– Seja bem-vinda. E que sorriso bonito! Foi assim que você pescou esse caboclo?

Pronto, lá vai o Pai, com a corda toda. E ela, a Mãe, como fica? Não tem vocação para rapapés, o máximo que consegue é ser educada.

– Gostei dessa menina, Juliana, porque quando entrou, em vez de reparar nos móveis, olhou para as pessoas.

Que pessoas? – a Mãe suspira. Faz tempo que só restam ela e ele, na casa.

– Muito prazer – ela diz, num esforço.

– Oi – diz a Moça.

Oi? Isso é jeito de se cumprimentar? Pensa a Mãe, abraçando o filho.

– Venha tomar um café, menina – o Pai convida, esbanjando o encanto que só ele tem, quando lhe dá na veneta. – Aqui o café a gente mói na hora, quer ver?

Por insegurança, ou porque gostou mesmo do Pai, a Moça se desmancha em sorrisos e, justiça seja feita, ela sorri com os olhos também. A mãe concede o veredicto: Simpática. Não digo encantadora, mas simpática.

O café saiu amargo, pensa a Mãe. A Moça parece ignorá-la, condescender a cada pergunta que ela faz, enquanto, com o Pai, nossa, até parece que os dois se conhecem há anos.

Quero só ver essa menina, lá no sítio.

Pois o Pai já começou a falar do sítio, que ele conserva à moda antiga, na base do lampião e fogão de lenha, horta, cafezal, passarinhos como já quase não há por essas bandas, morcego, cobra, tatu…

A surpresa da Moça é tudo que o Pai precisa para se espalhar, pensa a Mãe. Quando ele se cansar, talvez ela possa oferecer os presentes que separou para a Moça, para o filho: roupas de cama, mesa e banho; é o mínimo que se pode dar a quem se casou assim, sem avisar a família.

A Moça surpreende, fica muito à vontade no sítio, prova as frutas, acompanha o Pai num passeio pela horta, pelo cafezal, pergunta de tudo e vai repetindo o nome das plantas, dos passarinhos… À tardinha, se deslumbra com o pôr-do-sol, já ganhou uma cor, parece mais assentada, agora.

A Mãe acende o lampião, mostra o álbum com fotos das antigas terras da família. A Moça admira as paisagens, os detalhes:

– Qual dessas fazendas era do seu avô?

– Todas – responde a Mãe, feliz pela primeira vez, no dia que se finda.

– Meus avós eram colonos numa fazenda assim.

A simplicidade das palavras, sem revolta nem pejo, confirma a impressão da Mãe: a nora é, decididamente, desconcertante.

– Moça esquisita, não? – ela comenta com o Pai, antes de dormir. – Magrinha, espevitada, vai ver nem tem boa saúde.

– O que lhe falta em corpo, sobra em alma – diz o Pai.

– Sabe o que eu acho?

– Sei, Juliana, sei.

A Mãe fecha os olhos. Não era isso que queria, para o filho. Mas nessa noite sonha com a filha que nunca teve: as duas de mãos dadas, fugindo da chuva para o rancho à margem do Tietê. No tempo do sonho resumem-se os dias e os anos, Natal, São João, uma festa noite adentro, um café ao amanhecer. Nos cabelos rebeldes da filha, o primeiro fio de prata: Olha só, mãe! As duas riem, se olham. Mas aquele rosto não é o da filha, é o da nora.

– Será? – pensa a Mãe, ao acordar.

Já na cozinha, passando o café, vê a nora junto à porta:

– Quer ajuda, Dona Juliana?

– Quero, filha.

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Foto: Bruno Kepper

 

Trancelim

Pedro Costa Reis  

     

Canções. As canções de pequeno. O trancelim dourado no qual me pendurava pelos dedos, deslizando e rodando suavemente pelo pulso da mãe. Real ou não. Às vezes era só trancelim. Quando não, era melhor, com as canções, que passeavam detalhadamente por cada assobio meu quando maior, entre os trabalhos na horta e no curral atrás da casa, com Noite, Lobisomem e os outros bichos, padres de minhas confissões. Se falava dentro da casa, era chibata, por isso penso, mais que falo. E ouço. E guardo essa lembrança dentre as meias e panos do meu quarto. O bater das agulhas da minha mãe à janela. Desta vez eu saio, pra não ouvir mais.

“estes xales e colchas eternos que faço. Motivo que seja, pra esquecer-me das horas. Somos somente três nesse fim de mundo pra onde Aurênio me arrastou, puxou e fincou com mais força do que as folhas que ele planta e arranca todo dia atrás de casa, com aquele menino burro. Arranca e liberta. Menino, não serve nem pra modelo das meias que faço pro pai dele, mas mesmo assim divide e gasta pra eu ter que fazer mais, todo dia. Perdi as contas. Tanto faz, sou mais ele que eu mesma.”

Luarina entoa discretamente uma das canções antigas enquanto tricota. Tensiona as bochechas com força pra não chorar, pois era sexta, e Noite já estava pronto pra levar Aurênio. O canto sai rouco e forçado.

Meu pai sai sem falar com ninguém. Entra em meu quarto, talvez para procurar meias. Relógio invisível de ponteiros iguais com os quais meço o tempo lento. Mãe tece a vida eterna entre sonos ocos da madrugada de sexta, entre a revolta e a resignação, espadas de horas, constantemente a estalar. Meu pai deu a volta na casa, ainda dentro da névoa. Só lembro-me da cidade, longe, de dia, quando novo, depois nunca mais ela precisou de mim. Antes era uma infinidade de pernas, lixo, vozes, gritos, pombos e muitos brinquedos. Pendurava-me nas tábuas e via difícil os bonecos que olhavam assustados ao redor, os cavalos olhando assustados para frente. Brisa quente. Olhava para a mãe de olhar sério e queixo forte, como o do pai. Será que sempre foi assim? Nem dava trela para a curiosidade, e não era doido de falar coisa que fosse. Voltava aos pés levando os sacos verdes fedidos, pesados.

Otávio persegue atento a intervalos de janelas os cascos de Noite névoa afora.

Por um momento esqueço dos sons dos ponteiros da mãe atrás de mim. Esqueço da sua presença, por pouco, sei bem. Mas sem acalanto hoje, deixa ela sozinha dormir em paz o sono vazio de canções. Dá saudade. Dava. Pensa bem, Tavito, olha a chibata ali atrás, é doido é? Medo de tudo, pavor de nada. Antes eu ia mais, de dia, até com meu pai. Agora meus amigos sumiram. Antes era correria. Agora também, mas sem sorriso ou gritaria.

Afasta-se da janela, ouve o distanciamento de Aurênio, cujo som dos cascos possantes de Noite emudece a canção que Luarina discretamente entoa.

O estalar novamente. Ela mal me olha de frente, muito menos na sexta. Se esquece no meio desses panos, as bochechas tesas. Sempre novas linhas no sábado, costurando as semanas em meses e anos. Mas essa sexta eu saio. Sete anos costurado nesse meio de nada. O silêncio é dono deles por aqui, mas hoje não. Vou-me em Lobisomem.

Sai da casa por detrás, pega a sela, a chibata e a rédea tateando pelas paredes e usando do costume apronta Lobisomem velho pra seguir. Luarina cochicha a melodia enquanto ouve Otávio por detrás da casa.

“Devia ter levado algo pra agradar as raparigas filhas da puta de sexta-feira, e agora o menino grande quer putariar também. Só pode, de fora tem tudo do pai, o demente. Meia é não era que foi procurar no quarto do menino. Só quero que volte. Essa música sempre, sempre”

Tricota com mais força, estalando forte as agulhas, uma na outra.

Agora não quero saber o porquê de ela nunca sair com meu pai toda sexta. Que fique. Aqui, as pegadas, mas longe, como vou ver? Luz. Sim, pela luz. Não ouvi sequer o som das cobras debaixo dos cascos do velho Lobisomem, perdi a noção e cheguei aos portais da cidade. Um vazio, e suspeitei que fosse o inferno, só dos gritos ao longe que vinham me receber. Das almas loucas ao longe passando bruxuleavam silhuetas na névoa corrente. Um vazio, e os balcões não estavam lá, na rua que senti nos pés ser a dos dias, antigos. Puxei com força Lobisomem e avancei. Segui a música alta, animada, e vi umas pessoas passando cheirando forte. Uma lâmpada fortíssima cobria de verde os passantes e a entrada do bar era ensurdecedora. Mar de gente se debatendo por dentro. Conhecia aqueles rostos velhos e desconhecia os novos. Havia um balcão úmido à frente, onde as pessoas se penduravam esticando as mãos e gritando um não-sei-o-que-de-mel-limão-tangerina-canela-pimenta-troco, e virei de lado numa entrada sem porta com uns dizeres obscenos em volta. Fui empurrado para dentro, olhei para trás e não vi alma que pudesse culpar. Me viro e de um susto pensei ter visto minha mãe sentada com uma puta no colo. Trancelim em pulso falso. Era meu pai que a sentava no colo, dourada com as memórias de criança. Acordei sem lembranças, caído na esquina do bar, entre gritos e o crocitar das sirenes. “Foge, foge, pirralho!”, um mendigo gritava. Corri tropeçando em poças, com o trancelim vermelho no bolso.

De uma das janelas, enquanto não entrava, ela se levantava de um susto, observou-a cruzar a sala até olhar para trás antes de entrar no quarto. Olhou para trás e foi deitar-se. Estava, ouviu? Mas ele não está dançando. Estava. Vai pro quarto, velha, que ele não volta mais. Cadeira de frente à janela e o xale meio acabado com as agulhas no chão. Foi pro quarto, limpou com os dedos o trancelim. Ela se virou, apertando o xale contra o corpo, a outra apoiada no rosto do menino dentro do quarto, que cheirava a velhice, a brisa gelava o suor debaixo dos lençóis. Não dormiu. De um susto levantou, sob a luz: viu o pai no rosto velho da mãe. Tirou a mão da corrente gasta em pulso seco. Virou a cabeça e o riso demente, desaparecendo à medida que calava o riso, desaparecendo de cabeça até embaixo como se subisse a cabeça primeiro e calava para algo que o suprimia como um desenho de giz sendo apagado da lousa.

(Pedro Costa Reis, nascido em 1987 em Recife, formou suas leituras no interior do estado e quando voltou, em 2003, à capital, iniciou sua produção com pequenos poemas escritos em cadernos escolares. Em 2005, lançou seu primeiro conto em uma revista mineira, e depois o mesmo conto foi para o portal Cronópios, bem como a prosa A borboletas do pai (Meu pai e as borboletas). Entrou na Contologia, organizada pela Cronópios e lançada em 2012, e seu conto Midas fez parte de uma antologia de narrativa fantástica da Fliporto de 2012. Enquanto isso, segue escrevendo)

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

 

Foto: Bruno Kepper

 

 O  sonho

Anderson Fonseca

 

Quem serás, esta noite, do outro lado
Da parede do sonho indecifrado?
Jorge Luis Borges

 

Tinha por costume, um ilustre cientista, Dr. Andrea Svevo, visitar-me às tardes de domingo para conversar assuntos que a nós dois suscitavam interesse.  Habitualmente às 14h quando chegava, sentava-se – na poltrona que fica à direita da estante de livros – coçava o bigode, acendia o cigarro, e depois de lançar o fumo no ar, dava inicio ao diálogo que se alongava até o fim da tarde. O hábito de sua visita – exata e assídua – tornou-se para mim um rito… Até o dia em que se atrasou. No começo da noite ele apareceu como uma ave de mau agouro, assim, repentinamente; entrou arrebatado, tirando os sapatos às pressas, procurando com o olhar o assento. Estava agitado; a fala trêmula e com espasmos. Entre balbucios repetia que tinha algo a me contar. Sugeri – indicando a poltrona – que se sentasse, Svevo se sentou, acomodou os ombros largos, ajeitou o bigode, acendeu o cigarro para não faltar com o costume e começou a dizer:

– Dr. João Zveiter, o senhor, como sabe, não sou um homem que se impressione por qualquer ideia, ainda que minhas cogitações em torno do misticismo lhe pareçam surrealistas, imagino que não pense a respeito de mim como um insano. Acredito de boa fé, que apenas respeita minhas opiniões. Estou certo?

– Sim – concordei.

– O senhor deve se lembrar de quando comparei o espelho ao sonho e disse-lhe da possibilidade mágica do sonho se comportar como espelho. Certa vez, você mesmo disse, repetindo as palavras de um poeta, que o espelho e o sonho são um mesmo e único ser nos olhos do homem. Baseado no que me disse, retruquei lhe dizendo o quanto acredito que o sonho possa nos revelar o futuro e você concordara comigo. Mas lembro-me de você ter dito, citando Jung, que também é possível que o sonho nos revele o futuro daquele mesmo sonho, ou nos mostre outro sonho que ainda há de aparecer. Em suas palavras, era possível um sonho antever outro sonho dentro de si mesmo.  – Svevo dizia fitando-me os olhos com a convicção de um luterano. – Pois bem, meu amigo, hoje tive a sensação de tais ideias. Hoje sei o que a certa hora da noite hei de ver, quando meus olhos estiverem cerrados. O que vou lhe contar, deve ser dito de uma forma que não possa esquecer, direi a você o que ainda não me aconteceu, e sei como será sem antes ter sonhado. Certamente, Dr. Zveiter, você irá me perguntar como posso saber o que não me aconteceu, se nem sequer mergulhei no vasto sonho para que este me revele o futuro. Sinceramente, não sei como explicar, somente lhe garanto, com fé, que sei o que há de me acontecer no sonho.

– E como o senhor pode me garantir de ter antevisto o sonho sem antes sequer ter sonhado? Quer que eu aceite que sabe apenas porque você tem certeza do que diz, pela fé? Está por acaso debochando de mim?

– Não! – exclamou Svevo como uma criança questionada pelo pai tentando convencê-lo de que não mente. – Eu sei, é isto.

– Ora, hei de aceitar o que me diz, como hei de ouvir o que há de me contar, mas não porque existe lógica no que afirma, pois na verdade, sabemos ambos que não há nenhuma razão no que está dizendo. Poderia interná-lo num hospício, para que recupere, lá, sua sanidade. Mas acredito que ainda que eu fizesse isso, você continuaria a defender sua ideia. Não tenho outra escolha senão ouvi-lo. Diga-me então com suas palavras previamente escolhidas o que tem a contar. Diga-me o que viu.

– Não o que vi Dr. João Zveiter, mas o que hei de ver.

– Fale logo.

– Esta noite sonharei um sonho inevitável. Sonharei que diante de mim, nesta sala, estará outro eu. Ele estará sentado onde estou. Saberei que ele é eu porque o sonho me dirá e não porque reconhecerei seu rosto (no sonho o rosto é uma sombra). Ele estará diante de mim em silêncio aguardando que eu fale, e eu mostrarei a ele minha angústia e meu desejo. Direi a ele que a alma que carrego comigo é maléfica e que dela quero me livrar. Ele então compadecido estenderá sua mão. Quando a toco sinto parte de minha alma ir para com ele e mal ela se vai já me sinto diferente. Ali, naquele instante, percebo que a outra parte agora a ele pertence. Ali, entendo que ele é o limbo e que ela ficará com ele para sempre. Ao despertar já não sou eu quem desperta, mas outro, porque embora saiba que ainda sou, sou um eu com menos de mim. Não posso lamentar. Aceito que é real; eu estarei com o outro eu, e ele levará uma parte de mim consigo, ele é meu limbo, e o que é eu, ao estar com ele, não mais retornará.

– O senhor usa de uma linguagem poética para descrever o indescritível. Acredita que o uso desta linguagem convencerá a mim de que o que diz é verdade? Não obstante creia que a poesia seja a língua do infinito, não a considero suficiente para tornar lógico o que é irracional; é possível tornar aceitável o fantástico aos olhos de um sábio, não significa, entretanto, que valha como verdade. E o que o convence de que a visão do futuro sonho seja real a ponto de perturbá-lo?

– Zveiter, já conversamos a respeito do sonho ser um espelho, se tal conceito for verdadeiro, nada impede que a alma se fixe no sonho como a imagem no espelho, e, se este espelho for o inconsciente, é claro que a alma se fixará nele sem retornar.

– Ainda assim, não disse o que o perturba.

As horas se passavam sem nos aperceber e Svevo a cada minuto dizia com maior convicção o seu sonho e a cada minuto que a convicção evoluía para o indubitável, sua feição transformava-se; a metamorfose de seu rosto me amedrontava, eu temia por algo pior. Pois embora o sonho fosse apenas devaneio de um filósofo, este mesmo sonho teve o poder de mudar a mente de um homem. Não mais se olhava para Svevo e se podia afirmar ser ele. Diante de mim, outro surgia, mas quem?  Eu não sabia, não sabia, até que ele disse:

– Tenho razões para crer que após o sonho cometerei atos terríveis que me levarão a um fim igualmente terrível. A ausência de minha alma, certamente me tornará em alguém incapaz de distinguir o bem do mal. Eu me vi matando Madelaine e você, Zveiter. Eu matarei para santificar o mundo de um mal invisível, e ainda que esta razão seja insana, e também indesculpável, é a única razão que me há de vir sem que eu a questione. Creio imensamente que ao fazer, o farei sem arrependimento. Apesar de agora considerar um ato terrível o que farei, após o sonho me parecerá natural. Eu serei este outro que desperta. Portanto, esqueça o que você vê neste momento, apenas pense em quem hei de ser. Pense em mim, agora, como aquele que surge depois do despertar.  Estou tomado por esta certeza, e isto, me conturba profundamente.

Andrea Svevo estava transformado. Eu o olhava, mas sabia que já não era ele quem estava diante de mim, como se o sonho desde o seu futuro já influenciasse o presente, como se aquele outro eu, já existisse, ali, diante de mim. A hipótese de que o sonho, que ainda nem se realizara, já o tinha tornado em outro, me seduziu a ponto de crer estar certo de que Svevo não era mais o amigo que conheci. Mas seria ele realmente capaz de assassinar sua esposa e amigo? Seria possível que ele abandonasse parte de sua alma num ser extracorpóreo, cuja existência era improvável, e, sobretudo, existindo no interior dele mesmo tornando-o inverificável cientificamente, e ainda sim, real somente para ele? Fantasia ou realidade me perguntava por que Svevo acreditava tanto neste sonho. Convenci-me de que Svevo não mais existia. Apiedei-me dele e a piedade levou-me a fazer o que era necessário.

Antes de Svevo dizer “A…”, com a agilidade de um jovem, saltei da cadeira encravando em sua garganta a caneta que estava em minha mão. Enquanto a caneta deslizava pela carne indo cada vez mais fundo cortando a veia jugular, rasgando o tecido fibroso, a fenda aumentava seu raio de abertura deixando o cálido sangue escorrer grosso com gotejos pesados sobre o chão; a sensação de que era eu que ali morria, crescia em mim alucinadamente, inquietando-me por dentro, e embora lutasse para afastá-la, sabia ser impossível. Tal como a caneta penetrava a garganta de Svevo, a ideia imergia em meu espírito, até – no mesmo instante em que a caneta afundou-se de vez na garganta – afundar-se de vez em mim. Não havia dúvida, Svevo era meu outro eu e eu o havia assassinado. A cada gota de sangue que escorria crescia a certeza de que tudo era um sonho, e agora, ao despertar, quem levantaria era outro, enquanto eu passaria a eternidade no limbo. Como disse Svevo, aquele sonho… Era inevitável.

 

(Anderson Fonseca é autor dos livros Notas de Pensamentos Incomuns (2011) e Sr. Bergier (2013). Vive em Brejo Santo, Ceará)

 

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85ª Leva - 11/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marcantonio

 

Arte: Julia Debasse

ATIVIDADE INTERNA

Há tanto dentro de ti
que não queres conhecer:
flores semi-enterradas
na tua aridez íntima
que não se dão
à carícia afásica dos teus dedos.

Há também um sol tresnoitando
que bronzeia a película das tuas veias,
e do qual não podes suspeitar
na tez pálida das tuas palavras.

Há um regato de vontades
onde peixes desmedidos nadam
– forçosamente anfíbios.

Há uma garça escura
em pé sobre teus intestinos
que bica o fundo dos teus olhos
tão logo comeces a ignorar a luz.

Há muito trabalho no teu interior,
polias, rolamentos e roldanas incansáveis.

Há sim uma oficina que quer abrir fendas
no sono eterno,
que faz hora-extra enquanto tu engendras
dicionários
sem saber que o que te obceca
é a palavra morte,
esse ramo da noite
que carregas durante o dia.

 

 

***

 

 

PLANAR E POUSAR

 

1 – Pluma

Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.

Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.

Ó pluma randômica, em que esquina de voo poderias escapar
Da ideia de pássaro que te aprisiona?

 

2 – Osso

Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.

É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.

 

3 – Pouso

O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.

 

 

***

 

 

MESQUINHEZ

 

Eu amesquinho as tuas asas
Enquanto ejeto os meus temores.
Assim, eu mesmo me torno mesquinho
E verto um vinho que não beberia,
Vinho acre de volume amazônico.

Nas vielas em que me vejo
Comigo mesmo não cruzaria
Se fora antes advertido:
É que estou vindo esse ser soturno
Com as mãos nos bolsos sempre.
Quem me garante que não trago
Neles escondida uma navalha
Para me desfigurar o rosto?

Ao menos sei que me avizinho,
E tenho um átimo de segundo
Para evitar a minha má companhia
Em sua descida aos subterrâneos.

 

 

 

***

 

 

ANGÚSTIA

 

Não há recorte no vazio
que espere pela palavra
como o desdentado espera
a prótese que o faça esquecer
dos dentes naturais;
ou como um sorriso sombrio
de bueiro aguarda uma tampa;
ou como uma tomada fêmea
aguarda os pinos;
ou como uma algema aguarda
os pulsos;
ou como uma sequência aguarda
um número;
ou como a casa do punho da camisa
aguarda o botão;
ou como um rolamento aguarda
uma bilha.

A palavra cai num largo vazio,
como uma pedra num cânion,
como na luz difusa do mundo
um parto.

Ou cai num meio fluido
(continente transparente, já ocupado)
qual um comprimido efervescente
no Atlântico:

não é dela a espuma  que vaza na orla
nem o som das ondas é o seu chiado.

 

 

(Marcantonio, natural do Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta (ainda não editado em livro). Reside atualmente em João Pessoa. Escreve nos blogs Diário Extrovertido e O Azul Temporário. Seus trabalhos em artes plásticas podem ser vistos no blog-portfólio Cadernos de Arte)

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Sérgio Tavares


Arte: Julia Debasse

 

 As moscas

1.

Airam caminhou até a mesa, matutando o que poderia fazer. Nua, cortou o ar espesso e febril, os pés em carne escura macerando a terra cozida. As moscas esvoaçavam em torno do seu corpo, atraídas pelo almíscar do sexo e a doçura do leite em placas viscosas à roda dos mamilos rachados. De quando em vez, ela consentia aos insetos seus banquetes. Por que somente a criança e o marido deveriam ter direito a essas partes? Airam se retirava até o catre de palha, onde o casal se recolhia, e se solidarizava ao apetite das moscas. As pernas abertas configuravam o convite ao fartum que atraía as famintas. Era, em si, um estado de sossego para Airam. Uma desaparição em deleite e estupor, que transportava suas ideias para um vale de montanhas escarpadas recobertas por gradações de verde e azul, de frescor e absorvência. Sentindo as moscas sugarem o suco da fenda, as patinhas peludas roçagando seu ventre na escalada rumo aos seios, Airam se intoxicava com magras doses de prazer. Um episódio raro de enlevo capaz de evocar epifanias do céu ou do inferno.

2.

Airam acercou a mesa e socou o tampo com o punho fechado. Um gesto feito de brusquidão para deter o choro desabalado da criança e espantar os saqueadores de provisões que se fartavam daqueles restos vitais. Uma nuvem em vários tons de zumbidos ergueu um voo errático, enquanto dois calangos escaparam por uma rachadura no barro que conformava as paredes começando a esfarelar por conta do calor atroz. Os clandestinos respeitaram Airam, a criança sequer por um triz. Os gritos incontidos percorriam a constituição tosca do casebre de taipa, sem fuga naquela caixa abafada e contundente, irradiada pela fornalha do meio-dia. A criança estrilava e se engasgava com o sopro áspero que extraía dos pulmões. Iové era o seu nome. Cinco meses de vida, cria de Airam e o marido, parida sobre palhas pelos meios naturais dos mamíferos. Dor e fome eram a causa do desalento (a carne recém-nascida sendo cozida), conquanto Airam acreditasse que havia uma mentira naquela algazarra, uma ação dissimulada para ruir de vez com sua sanidade.

Do punho fechado, ela dobrou os dedos, aferrando as unhas no tampo. A mesa avariada, conforme Airam, trazia singularidades daquela vida vulgar. Inanidade era a principal delas. A mesa era indiferente aos castigos da estação, não se importando com o surro que se alojava nos sulcos da madeira, com os insetos escrotos que escalavam seus pés. A mesa não reclamava ou sentia. Não se apegava ao desespero da criança. Airam tampouco. Não conseguia, por outro lado, deter a libido do marido que evoluía mesmo sem complacência. Neste caso, ela simplesmente se colocava de quatro, deitava a testa na palha e se entregava à condução dele. O calor certamente tivera a sua parte nos primeiros coitos, mas, de maneira paulatina, o desejo foi minguando à medida que eles pagavam a consequência nociva do ato: a cópula aumentava a fome e atraía mais moscas.

3.

Havia outra razão para a secura sexual entre Airam e o marido. Alisando o tampo da mesa, ela sentia no contato dos dedos as cicatrizes e lascas na madeira, que era a mesma sensação de acariciar o próprio corpo. Airam nua era uma tábua sem espessura e desidratada. Criatura minguada, tinha pernas na feição de galhos secos. Os seios flácidos pendiam num abdômen desenhado por faixas de costelas, pelos pubianos lhe arvoravam do ventre ao umbigo. A tez era escura e lustrosa do tom da resina que antes cobria a mesa. Rosto encovado, olhos grandes e escuros, cabelos crespos na altura dos ombros. Airam tinha em si a vida insustentável daquele deserto, a própria esterilidade do solo. Sua aparência era algo de dar pena. Um corpo fraco, um útero doente. Por duas ocasiões, antes de Iové, ficou grávida durante alguns meses, antes de abortar naturalmente. No primeiro caso, três meses; no segundo, dois. De modo que, ao constatar o atraso da regra, crescia o temor quanto à possível gravidez e, inevitavelmente, a sua descontinuação. Sendo assim, a gestação de Iové foi o pior período em que Airam passou sozinha, mais que os dias perseguidos pela fome ou pelo exício. Assistir às mutações do seu corpo numa contagem regressiva até o momento em que a primeira nesga de plasma deslizou por entre as suas pernas foi cruel o suficiente para anular qualquer traço da felicidade que acomete a mulher que ganha um filho. Airam pensava nisso, alisando ainda o tampo, depois agarrou uma cumbuca e encheu com a água concentrada no fundo da caçamba. Engoliu o líquido com as larvas. A gravidez foi um erro; ter se completado, uma tragédia. Dando vida ao filho, ela se matava.

4.

Iové trovoava a valentia da tempestade que nunca virá. O gume da voz rasgava o ar em golpes grosseiros, lanhava as paredes do casebre sem compartimentos distintos. Em Airam, penetravam as ideias a ponto de fabricarem pensamentos cruéis. Na companhia das moscas, ela se postou sobre o ninho feito de palhas e panos, fitando o berreiro da criança através da proteção de filó. Iové estava uma bola de sangue. Cinco meses com a compleição de um feto, todo em pele e osso senão pela barriga dilatada, um reprodutório de vermes. Tinha cólera, a causa da pasta lodosa que manchava os panos e os flancos do corpo franzino. Por isso chorava, estava sujo e doente. Subalimentado. O cheiro das fezes deixava as moscas em polvorosa, afastando-se do corpo de Airam, e desabando feito contas escuras à procura de rasgadelas no filó que cobria o ninho.

A falta de amparo transfigurava o rosto macilento num esgar afogueado. Chacoalhava os braços em busca de ar nos finos intervalos entre berros e soluços. Iové bramia, rugia, balia, clamava, esperneava e, quanto mais o fazia, mais recendia o ódio em Airam. Era um embuste, ela conhecia aquele pequeno verme. Sabia que toda a choradeira se valia ao único desejo de sugar seus seios. Mas chupar o quê? Estavam tão secos quanto os poços que circundavam o casebre, as árvores que se retorciam até estalar. Se quisesse extrair dali seu sangue, ela estava à disposição. Ainda que, depois de tantas secas, ela soubesse que o sangue deles se tornara uma massa escuriça que não mais derramava da carne. Airam voltou a pensar no sentido da gravidez. Para que vir a esse fim de mundo? Para berrar contra ele? Por que simplesmente não morre em silêncio, da mesma maneira que fizeram os cachorros, as galinhas e os porcos?

Sem resposta, Airam arrastou-se até um canto da parede, onde repousava um cesto de vime. Ali guardava vestimentas e panos, tecidos conservados à temperatura da fornalha. Catou um pedaço de malha branca e retomou a posição sobre o ninho. Iové chorava aos gritos, no entanto, à menção de desatar o nó que prendia as duas caudas do filó, foi aquietando-se de maneira paulatina, prestes a não emitir um silvo. O rosto recuperava a palidez, olhos vidrados nos movimentos pendulares dos seios da mulher acima. O silêncio tão esperado deu-se então. Sobraram apenas os zumbidos das moscas. Um mal menor, contudo. Os insetos se aglomeravam nos pulsos e dedos dela, ferrenhamente em busca de um acesso ao ninho desfeito. Tomada por um gesto só legitimado pela maternidade, Airam umedecia a malha em toques na ponta da língua, em seguida apagava o desasseio no corpo da criança. Iové assistia ao zelo calado; talvez confuso, talvez se sentindo vitorioso. Certa apenas era a avidez para abocanhar os seios doces como as frutas que não sabia existirem.

5.

Minutos depois, Iové estava limpo o suficiente para não causar asco. Airam então o alçou pelas axilas e o retirou da redoma. A entrada franca foi um convite mais que irrecusável para as moscas, que avançaram a toda sobre a pasta lodosa com suas sedes por imundície. Airam sentia a criança. Tão leve e frágil, que seria fácil demais matá-la com uma queda. Um descuido, juraria ao marido. Simplesmente ela teria de recolher os dedos, um por um, e naturalmente Iové bateria de cabeça na dureza do chão. Quebrar o pescoço, uma saída sedutora. Airam puxou um dedo, depois outro, o terceiro e desceu a criança até o alento do colo, apoiando suas costas no antebraço dobrado, a testa colada na armação ossuda da clavícula. Iové se inquietava com o cheiro do leite ressecado no seio, balançando as pernas no ar. Olhos grandes e escuros semelhantes aos da mãe, ela o encarava. Um rumor de excitação, um agito de súplica. Insânia, Airam entoava à medida que descia o braço até a medida do desejo da criança, antevendo a pressão que lhe cobraria um grito. Iové abocanhou seu seio com gana. Uma mordida de gengivas, dolorida e malograda. Matar é bondade aqui, disse para si mesma. E tomada por um nojo próprio, cuspiu, com toda força, no rosto daquilo que tentava extrair dela a vida, tola criatura.

6.

Sob a ditadura do Sol, eles aprenderam a viver entre perdas e punições. A sobrevivência desvalida dessa condição era não só impossível como inarrável. O Sol não permitia rebeliões. Controlava o tempo, os imperativos do corpo, a textura do cenário e os flagelos diários; um reinado fundamentado em repetições. Na aragem da manhã, o avanço do manto nácar vestindo a terra; ao meio-dia, o fervilhar do ar e a explosão das cores; à tarde, o céu maciço em tela de delírios de fogo e o peso do desencanto; à noite, uma ausência furtiva, sabotada pelo cheiro ferroso e o halo de vapor entre as constelações. Os que viviam sob sua tutela, aprendiam a sobreviver segundo sua permissão. Os cárceres do Sol eram ceifados de livre-arbítrio, criados numa colmeia de dissidência e torpor. E, a quem relutasse, o calor se encarregava de ruir a sanidade, perambulando sem trégua entre as rachaduras do solo até esfarelar. O Sol transformava o espanto da vida em condenação desde o parto, preservando a imutabilidade dos dias a fim de não decifrar passado e presente, tampouco futuro. Semeando a desesperação entre os sobreviventes da seca, revelava que suas existências dependiam restritamente de seguir os mandamentos. A vida que tinham era o barro que pisavam, cuspiam, construíam suas moradas, enterravam os mortos e viravam ossos. O barro eram eles; eles eram o barro cozido pelo Sol. Airam, Iové e o marido, todos feitos à Sua semelhança.

 

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente