Mergulho na sombra úmida. O rosto da vida que busca por onde começar. Sua distância ― uma tempestade que nos visita ―, seu olhar não se apresenta em forma d’água. Mergulho o rosto. A vida abre os dentes.
Os retratos tomam as cores de nossa memória. Reconhecem as feridas. Nos negam a origem. O silêncio é a porta da qual não temos a chave. A parede por cair. A olhar o tempo. Não encontro o seu rosto entre suas raízes. Sombras saltam comigo.
O relógio está quebrado, mesmo assim, o tempo joga suas cartas. Existe um fio quebrado no labirinto ― ele não se preocupa com as armadilhas ―, nos seus dentes um aviso.
A parede por cair nos estende as mãos. Ela não acredita na ressurreição. Na poesia os fantasmas se reconhecem, e a morte se pesa à parte. Avessa às festas, não se recorda da mãe ou do pai. Não consegue unir essas duas margens. Não se banha na mesma água. Corre no seu sangue uma música desconhecida. As mãos limpam a poeira dos ossos, desenham caminhos, e penetram a pele dos nomes.
Um menino de riso fácil junta gravetos para construir um esconderijo. Não me aproximo das paredes de olhos líquidos nem das igrejas. Deixo o corpo sepultado no seu colo. O silêncio guardado no espelho. Dentro do silêncio, espero o dia nascer, e sempre permanece escuro. Poucas palavras revelam meu nascimento.
Entre a parede e o espelho, observo suas unhas varrerem uma tempestade para detrás da porta. O menino pergunta: quem vazou seus olhos? Respondo: o voo dos cordeiros não termina em mim, e os fantasmas fazem fila atrás do seu sorriso. Afaste-me desta parede!
Como levantar essa parede sobre mim? Quero um pouco de veneno para novamente sonhar. Se precisa de uma igreja, engana-se: é lá que se despede a vida. No meu corpo carrego as preces antigas, as escamas dos pecadores.
A igreja entrevista os novos candidatos a santos. Um corte profundo nas veias ― observo a cena ―, não existe trapézio nos aquários. Os santos se imaginam peixes voadores. À minha volta mulheres cortam seus sexos com asas de arame farpado. Recolhem milagres.
A infância: pássaro embalsamado. O choro de mãe se faz terço invertido. Estamos perdidos, retiraram as estrelas de nossas pupilas. Os meninos não caminham na chuva.
***
A CABEÇA DA SERPENTE
Saí de casa mais cedo. A lua começa a cantar e cai dentro de um copo. Vermelho. A cor me faz ficar parado. A rua não tem nome. Orientaram-me não ficar parado, mas o corpo não responde ― tem o ritmo de uma fotografia ― Devagar. Dizem: o passado é um colecionador de luzes. Ninguém me espera.
Vermelho. Sinto a noite afundar no silêncio do semáforo. Olho pelo vidro. Uma sombra vem em minha direção, tento decifrá-la O passado é Outro a caminhar ao meu lado, se instala nas paredes do meu corpo. A parede não tem janelas. Uma tempestade com flores entre os dentes. Não sei das pétalas nem da boca que as carrega. Deve ser minha infância, ou apenas o medo: o ninho de punhos fechados.
Espere.
Ainda vermelho. Deve ser algum defeito mecânico. ― Estou aqui. Devagar. Olhe para mim. Não durma. ― Não consigo decifrar sombras.
Um menino bate na janela. Quer me mostrar ou vender algo. Faz pequenos movimentos com as mãos. Sorri.
― Construí um deus, quer ver? Fiz em sete dias.
Está tudo vermelho. Agora já aparece um verde, um amarelo. Preciso de descanso.
― Quer um pedaço da minha sombra? É para manter a pele dele aquecida. Isso, um pouco de vermelho, um pouco de barro.
― Não tem mais?
― Esqueci de terminar os olhos.
Ninguém me espera.
(José Geraldo Neres é poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual), produtor e gestor cultural paulista. Publicou os livros de poesia: Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, 2007) e Outros silêncios (Escrituras Editora, 2009). O livro de contos “Olhos de Barro” (Editora Patuá, 2012) é sua mais recente obra. Tem publicações em suplementos e revistas literárias do Brasil e do exterior. É curador do Quinta Poética, projeto que promove encontros poéticos no espaço Haroldo de Campos, em São Paulo)
Tempo é a sucessão dos anos, dos dias, das horas. Permite ao homem ter noção do presente, passado e futuro. É irreversível.
Dar um tempo é a nova droga do momento. Vou dar um tempo. Estou dando um tempo.
Indicação deste produto para pacientes que durante uma relação amorosa passaram a sofrer de: choro súbito, olhar perdido, dor no peito, estresse com o vizinho que não tem culpa de nada, ódio da prima que mora a mil quilômetros de distância e nem lembra de sua existência, vontade de comer dúzias de bombons depois de um churrasco, secura na boca, aumento do consumo de bebidas de teor alcoólico, overdose de cigarro, cantar Yesterday em pagode, ímpetos de matar o açougueiro que substituiu a alcatra por chã de dentro, mandar pra puta que pariu o porteiro que não lavou seu carro, desejar a maldição de Montezuma para todos os vendedores de telemarketing, gritar pro filho que o som está alto, rever novela no Vale a Pena Ver de Novo, sentir raiva dos bonzinhos e uma vontade imensa de ser mau, muito mau. E bota maldade nisso.
Informações
No século XX, resolveram que dar um tempo nas relações afetivas é eficaz. Desde a antiguidade o tempo é considerado o melhor remédio para tudo. Há relatos de que com o tempo a verdade aparece. Foi comprovada essa tese em alguns detentos que passaram a juventude inteira presos injustamente, mas na velhice tiveram a inocência declarada. Morreram livres e hoje usufruem lápides com escritos lindíssimos!
Efeitos colaterais mais comuns (que não melhoram com o tempo)
Saudades, ódio, esquecimento e morte.
Advertências
A saudade costuma causar depressão. Se você sentir vontade de ver fotos e cartas antigas, fechar os olhos e reviver momentos passados, cantar Matriz e Filial no banho, suspenda imediatamente o tempo e tome Prozac, concomitantemente.
O ódio pode levar a desejos estranhos, como querer a ditadura de volta, sonhar que a cunhada caiu na rua, comer o fígado do ex.
O efeito esquecimento é extremamente perigoso, costuma causar o adeus com cinco letras que não choram.
Se estes sintomas ocorrerem, consulte imediatamente seu coração. Caso você morra antes, dane-se. Acreditou que o tempo cura, porque quis. Este medicamento é contra-indicado na faixa etária superior aos sessenta. Pode não dar tempo de retomar à antiga posição.
Dados complementares
Vovó e vovô fizeram bodas de ouro antes dessa solução afetiva que muitos afirmam revigorar a saúde da relação! Só não fizeram de diamante, pois apesar da penicilina ter sido descoberta antes desse recurso, vovô pegou pneumonia por conta de um vento e faleceu.
Não houve tempo para o efeito do medicamento.
Dar um tempo é a grande saída para se chifrar parceiros sem o perigo de ser malvisto por terceiros. Quem pede um tempo, quer se livrar da relação. Eficaz apenas para amor de ocasião, daquele que começa num verão e não chega a outono nenhum.
***
Art. 214*
Tinha apenas uma hora para chegar ao aeroporto. Seu corpo parecia uma bomba-relógio. No táxi, começou a rever o que estava levando e o que havia deixado. Tinha certeza de que havia colocado todos os seus vestidos de alça, não abria mão deles nunca; todos os remédios, não se acostumava com similares, muito menos genéricos, tinha grilo deles, já estava acostumada com a cara da embalagem tradicional, em remédios a gente tem que confiar, só fazem efeito se forem antigos amigos; documentos (trouxe todos ou lá é sem lenço e sem eles?); a sandália preta; aquele ratinho de pelúcia; o travesseiro rasgado; o CD dos Beatles; as fotos companheiras da night.
Não queria revirar o armário da memória, as gavetas das lembranças, a estante das reminiscências e mandou o taxista acelerar ao máximo. Não queria mais tempo para se revirar, não pretendia ficar novamente enfurecida com a constatação de que o atual coração é genérico, daqueles em que ela não confia. O antigo, aquele que adorava os vestidos de alcinhas, a sandália preta, o ratinho de pelúcia, o travesseiro rasgado, os Beatles, que botava o seu sorriso nas fotos, foi roubado por um traficante de heart.
Foi presa por atentado violento ao pudor, quando saltou do táxi, literalmente nua, sorrindo pra dedéu. O motorista afirma que ela se estressou no engarrafamento e saiu jogando tudo pela janela.
*Atentado violento ao pudor (Código Penal Brasileiro)
(Natural do Rio de Janeiro, Rosa Pena é escritora, professora especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas, administradora de empresas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação, na secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro com projetos ligados a cinema, teatro, música, literatura. Compulsiva em ler e escrever, considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Possui inúmeros e-books, compartilhou com outros escritores de oito antologias, tem participações em livros da Tribo e três livros de crônicas e contos editados: PreTextos (2004), UI! (2007) e Tarja Branca (2010))
O corredor da sala ficaria com o azul rosado, o quadro das embarcações. Para o quarto distante e agora mais feliz levaria as tulipas aquáticas que antes eram da sala. Na onda embranquecida pela violência do mar já se haviam dizimado os motivos do choro. O coro de lamentos sumira no lume da primeira embarcação – máscaras e caracóis vestidos na véspera. O vazio prenhe de elipses entre decisão e ardor, ascendia num horizonte lívido de silêncios sem voz. Quisera correr e agarrar-se aos remos com os braços fortes de outrora. Quisera haver ainda sais para remar a vontade de parar.
***
Som
Esquecera há quanto ocultara na falta de tempo as leveduras do pó e seus milhões de ouvidos. Abriu o compartimento de onde viriam as notas. Um clique. Debussy. Massenet. Guardava o som na memória que esquecia títulos, composições. Só a melodia a vagar o sentido que não oblitera. A leitura disforme e veloz como as mudanças tecnológicas. A fome por som continuaria somente até a segunda ideia navegar a distância da aproximação, portas presentes. Meditação para Thais e Clair de Lune. Viu partituras. Ouviu piano, violino. E segregou-se no retrato de um homem que possivelmente teria amado.
***
Debrum
Revestia-se humílima no breu da razão onde esmigalhara vertigens irresolutas, esmiuçada no equilíbrio de uma desordem no fio dos lábios exultando um ontem mínimo e indispensável à perfeição do hoje, hígido, servil. Estremeceu a voz numa hiperbólica vigia “ah se não fosse se não viesse se parasse o que possui dores”. Via no branco espalmado apenas a liberdade feita de algemas. “E esse céu que se vai tecendo num fulcro de impossível”. A fadiga solúvel, uma fragrância irrecusável de alecrim e calêndulas – um gesto súdito a reveste derramando-lhe um cetim consútil – sua noite de pêssegos.
***
Eco lógico
O peso do elo pode não ser um pesadelo. Na urgência que tem para que o tempo demore já não demora nem retorna à raiz a árvore que cai – apenas o corte finge que o cinge quase esquecido do seu gosto de nozes. Como uma película de lagos entre os braços tinha para si a modorra que movia. Sequer existia. Rodava nas horas que imaginava. Ramagens. O cansaço não adormecia nem o dormir acordava. Uma angústia exausta não aceita ordens; quer exaurir e o faz tombando de forma macia, sem a tristeza de não dar arborescência ao próprio reflexo.
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Açucena
Uma forma de driblar a solidão e derreter as coisas que fermentam, erroneamente refreadas – deixar um pensamento para depois é correr o risco de perdê-lo – já não ousa correr riscos nem deixar de correr porque o tempo tem pressa. Aprende a falar sozinha para não desaprender a falar, perde o apetite na proporção que lhe cresce o pássaro do peito entre roupas sujas e ninhos limpos. Quer olhar coisas onde coisas não há para estreitar… caça às escuras, entre simbioses e moedores de letras, algo que aproxime a distância entre os abraços. Do voo suprimido de asas vê o vácuo, bebe o céu. Seu sim.
***
O Alienista
A perspicácia o faz ainda re-ver algumas provas. É agradável o deslindar dos pensamentos à sua frente. Fragilmente forte não reagiu quando bateu a chave com força e fez cair a porta. Talvez se assemelhasse àquela fechadura muda que lhe abriu o chão para vê-lo enrijecer o esquecimento de todas as coisas que por insegurança o fizeram útil. Um exclusivista ligou para ser ouvido. Quando quis fazer-se ouvir “só um minuto” não teve garras – seus ouvidos eram os erros da casa – os labirintos de Borges.
***
O menor de todos
Eu visto outra pele sem ser a minha alma uma pele que visto. Não me escondo senão por uma timidez ou um desejo de ser o nome obtuso estreitando livremente a ameaça de mostrar-me. Como se nunca sucumbisse a luz errante da sombra. A confiança erra ao não ter compaixão. Vale a pena sonhar, me antever quase totalmente arrependida nessa terra estranha que se tornou a minha figura. Minhas fotografias são essas palavras, e algumas palavras são sapos. Não há sentidos feios, apenas almas. Não há palavras feias, apenas sentidos. Papel de bala.
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Mata
Num oceano de folhares o néctar vive com o trivial cerne da comoção. Quem nunca teve uma grande ferida para saciar? Toma a sua cicatriz aberta e desperta do que não é, em absoluto, um pesadelo, um caule impoluto. Uma foice cruza o último solstício tropeçando sem saber se ainda serve aos admiradores da resistência. “Melhor se não vivas” diria a teimosia peregrina ao luto das ramarias. Talvez um imbecil soubesse de matemática quanto sabe a sorte do semeador. “Não julgariam se me vivessem; sou uma eterna grade, herdeira sentenciada pela casca que me veste como quem despe”.
(Tere Tavaresé escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com)
CONTRATEMPOS LIBERDADE || O BEM-TE-VI ABSTRATO-GEOMÉTRICO || A HISTÓRIA SE REPETE
Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. [André Gide]
Tela: JB Lazzarini
JANEIRO || FEVEREIRO: “Começou o ano martelando água em Inhotim. Salvou a paisagem tropical da morte, e renasceu contemporâneo. Num dado momento, a andorinha pinta o céu de vento. Passa o gato movido a álcool, e outra nuvem anuncia a substância do verbo. Tirou as roupas das expressões e assoviou bem-te-vi.”
MARÇO || ABRIL: “O bem-te-vi quer ter filhos. Ampliou a solidão com lápis cinza na máscara de Carnaval. Sua mãe diz que não é coqueluche. Vacinou contra catapora. Mesmo assim, rastejou entre moscas, segurando os ovos entre palhas escuras.”
MAIO || JUNHO: “Os ovos chocaram verdes com tons amarelados. Duras penas aguentam a picada da cobra coral, que engole o perfume da trepadeira. Vermelho com amarelo perto, fique esperto; vermelho com preto ligado, pode ficar sossegado. Não é uma jararaca. Sobrou só um bem-te-vi abstrato-geométrico no silêncio que estica a noite.”
JULHO || AGOSTO: “Tentou criar o bem-te-vi na gaiola com pedaços de palavras açucaradas. Veio o gato entortar a gaiola. Comprou pastilhas Valda. E tomou remédio alopático para começar o mês, numa escrita automática, contando os riscos de dar nomes existenciais às flores.”
SETEMBRO || OUTUBRO: “Desmanchou o quintal, fez florir três jardins, e soltou o bem-te-vi. Perdeu aquilo que encontrou, quando o gato retornou. Os ratos detestaram a ideia. Almoçou frango xadrez, sentindo gosto de liberdade, inventando nova gaiola.”
NOVEMBRO || DEZEMBRO: “Queria ser lido nos bicos dos passarinhos. Contrariado, armou a arapuca. Foi repetir o canto do bem-te-vi, a história. Criou a ilusão de que a metamorfose poderia ser contrariada. Tempo passado, abusando gerúndio: o cisco incomoda muito o olho esquerdo, pois a liberdade sempre machuca num abandono sem fim.”
A HISTÓRIA SE REPETE || O BEM-TE-VI ABSTRATO-GEOMÉTRICO || CONTRATEMPOS LIBERDADE
Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. [André Gide]
NOVEMBRO || DEZEMBRO: “Queria ser lido nos bicos dos passarinhos. Contrariado, armou a arapuca. Foi repetir o canto do bem-te-vi, a história. Criou a ilusão de que a metamorfose poderia ser contrariada. Tempo passado, abusando gerúndio: o cisco incomoda muito o olho esquerdo, pois a liberdade sempre machuca num abandono sem fim.”
JANEIRO || FEVEREIRO: “Começou o ano martelando água em Inhotim. Salvou a paisagem tropical da morte, e renasceu contemporâneo. Num dado momento, a andorinha pinta o céu de vento. Passa o gato movido a álcool, e outra nuvem anuncia a substância do verbo. Tirou as roupas das expressões e assoviou bem-te-vi.”
MARÇO || ABRIL: “O bem-te-vi quer ter filhos. Ampliou a solidão com lápis cinza na máscara de Carnaval. Sua mãe diz que não é coqueluche. Vacinou contra catapora. Mesmo assim, rastejou entre moscas, segurando os ovos entre palhas escuras.”
MAIO || JUNHO: “Os ovos chocaram verdes com tons amarelados. Duras penas aguentam a picada da cobra coral, que engole o perfume da trepadeira. Vermelho com amarelo perto, fique esperto; vermelho com preto ligado, pode ficar sossegado. Não é uma jararaca. Sobrou só um bem-te-vi abstrato-geométrico no silêncio que estica a noite.”
JULHO || AGOSTO: “Tentou criar o bem-te-vi na gaiola com pedaços de palavras açucaradas. Veio o gato entortar a gaiola. Comprou pastilhas Valda. E tomou remédio alopático para começar o mês, numa escrita automática, contando os riscos de dar nomes existenciais às flores.”
SETEMBRO || OUTUBRO: “Desmanchou o quintal, fez florir três jardins, e soltou o bem-te-vi. Perdeu aquilo que encontrou, quando o gato retornou. Os ratos detestaram a ideia. Almoçou frango xadrez, sentindo gosto de liberdade, inventando nova gaiola.”
(José Aloise Bahiaé jornalista, escritor, pesquisador, ensaísta, colecionador e crítico de artes plásticas e literatura. Graduado em Comunicação Social e pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios curtos (Belo Horizonte: Anomelivros, 2004). Participa, dentre outras, das antologias O achamento de Portugal (Lisboa: Fundação Camões/Belo Horizonte: Anomelivros, 2005) e H2HORAS (São Paulo: Cronópios/Dulcinéia Catadora, 2010). E-mail: josealoise@gmail.com )
“Se metade do meu coração
está aqui, Doutor, a outra
metade está na China com
o exército que flui em
direção ao Rio Amarelo.”
Angina Pectoris – Nazim
Hikmet
Corações de Silício – pulsam nessa percepção para além de Bits e Quarks baterias de Volts impessoais. Tragamos com a retina fontes que pulsam em HD`s e nuvens abrangidas de paradigmas de programação. Crias frankstenianas escoradas por mesas inertes e contraditoriamente giratórias. A comunicação visual é acelerada por meio de janelas cravadas em caixas quadradas ou slim. Redes sociais velam a vigília de uma Legião – superação das elites humanas à parábola do Nazareno (expansão universal dentro do buraco da agulha).
Corações …de… Silício – conservar a
humanidade. é questão relativa e anexa às
HQs e heróis 3D ou de poliuretano. Anos
de ..petições e .exercícios de altruísmo de
calendário .… Afinidades com Karmas e
Dharmas e expansão mental editada pela
engenharia …genética. Arte adaptada aos
pixels, .. ferramentas … comprimidas
no winrar. .– ..foice e martelo in Botons e
Cartões de Crédito.……………………………….
Corações de Silício – coletivo iluminado por telas de signos édenizados – biblioteca de Alexandria abrigada no cisco de uma nano-unha e frequentada diariamente por cyberbactérias. A promoção do eu-anódino em seus quinze minutos de infâmia. Estímulos assexuados e eunucos – precipita a ação e condena o corpo à condição uniforme.
Corações de Silício – nata do Oriente
navegando em mares ocidentais.
Feminino e Masculino habitando o
andrógino e as universais idades.
Sais antidepressivos, antimaníacos,
antikarmicos. Ornitóptero de pedra
colado, limitado pelo seu pulso
potencial e temível. Crianças-fuhrer
cortejando bestas apocalípticas. Deus
Capital venerado em seus templos-
shoppings (na santa missa de
domingo).
Corações de Silício – carcaça altíssima na piramide vida-matéria – conduz fluxos aos retos orifícios e vias chupadas pela yankeeannélide. Arranca a estrutura Animaanimal e libera a energia nas cavidades interiores. Pneuma despertada ao campo fonte – voltagem exata e evoluente em software original.
Corações de Silício – autogestão
bakuniana e desmistificação do criador e
do patriota. Bomba e bombeador
detectados no silêncio que medita a
clarividência e os intentos de uma
humanidade criativa e com License
Commons – capaz de compartilhar o seu
melhor sem apontar seus cielos ou cercas.
Cor e ações em uma orbe policristalina tingida de silíca e mitos.
***
A Queda
Embrutecida pela solidão não consegue retribuir as rosas deixadas no seu caminho. Alguém surge de mansinho e perfura o seu coração com notícias trêmulas e catastróficas. Caída afasta a única corda de esperança – não anseia elevação e muito menos últimas chances. Abraçada ao chão sorri expondo os dentes maltratados de tanto roer ossos. Imagina um 3×4 tirado ali e se envaidece “experiência de fundo do poço deveria constar em qualquer curriculum vitae”.
***
Angelus Blasé
Frito reminiscências temperadas com sais de tortura. Cavei as mãos para despejar sucos de minha filantropia. Deguste e sorva nossa carne sem essa face acinzentada por transes, escute os ditados, escreva-os e depois os guarde em um arquivo antes que a espada de significações recorte sua imaginação e a ofereça aos pássaros carniceiros da Manufatura. Representamos uma espécie sem roupagem: demônios doces e poliglotas, leitores de clássicos e amantes de uma audaciosa revolução. Caçamos qualquer um que se maquia de vítima ou simplesmente se apropria da sombra alheia – caçamos para formar alianças e não para ao ato de eliminação (que fique claro antes mesmo de mantermos um grau de compreensão mútua entre o leitor e o que se lê). Existem tantas metáforas que nos colorem como o lado sombrio da humanidade que já não podemos nos abrigar na nossa naturalidade blasé – agora somos luminosos homens de branco, esboçadores de alegres fisionomias e praticantes do altruísmo de calendário (com hora e data marcada).
Observação: É só assinar na última linha e depois chuviscar um pouco do seu vermelho.
(Lisa Alves nasceu na cidade de Araxá/MG e vive há mais de dez anos em Brasília/DF. Trabalha com arte digital e projetos ambientais. Possui poemas publicados em três antologias poéticas: Trilhas (CBJE, Rio de Janeiro, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011) e Cumplicidade das Letras (Perse, 2012). Divulga sua arte em vários sítios culturais e atualmente é colunista na Revista Ellenismos)
Encadear fatos, construir cenários que os abracem e mover os personagens dentro das narrativas são apenas uma parte da hercúlea tarefa de se contar uma história. Quando um autor possui estes ingredientes em suas mãos, passa a lidar com o desafio de trazê-los à tona diante da presença dos leitores. Levar isso em frente não significa tecer um pacto com uma proposta de sedução gratuita ou, simplesmente, enveredar-se pelo torpe caminho da superficialidade, como se pode deduzir em muitas leituras diluídas no mundo.
Definitivamente, erguer uma história não é ter em conta apenas um arsenal de usos de linguagem e conduzi-los rumo a um ambiente meramente estético. Atrair um leitor para uma narrativa é, também, fazê-lo crer que tudo esteja sob seu controle até o ponto em que ele perceba ser praticamente impossível domar a eclosão dos acontecimentos. E assim, rompendo convicções e deixando leitores desfilarem livres e nada impunes pelo jardim do imprevisível, é que um criador alcança com sua obra resultados substanciais.
Não está longe de nós quem pratica essa espécie de ritual criativo. O escritor e jornalista fluminense Sérgio Tavares é exemplo vivo disso. Detentor de um estilo que penetra delicadamente no universo intimista de pessoas e lugares, Sérgio não é apenas cicerone de quem lê seus escritos. Na verdade, estamos diante de um autor que, de caso pensado, conspira a favor de nossas percepções, ofertando-nos um complexo fluxo de descobertas e revelações. Conceber uma zona de conforto para o leitor não é algo do qual esse autor seja fiel partidário. Importa, para ele, uma literatura que provoca, tira os móveis de lugar e não se encarrega de determinar qualquer perspectiva de salvação.
Vencedor do Prêmio SESC Nacional de Literatura 2009, com o livro de contos “Cavala” (Editora Record), Sérgio Tavares recentemente lançou seu segundo rebento, “Queda da própria altura” (Editora Confraria do Vento), que também trafega pelas veredas contistas. E para falar um pouco sobre o seu denso percurso pelas palavras e outros temas correlatos, o autor nos concede uma entrevista, pontuando aspectos que fazem de sua literatura uma observação marcante sobre o espantado ato de existir.
Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares
DA – Em “Queda da própria altura” há uma sensação abismal a atravessar as narrativas, como se existir fosse um arremesso rumo ao limiar das coisas. O que dizer das palavras que evocam o sabor dos precipícios?
SÉRGIO TAVARES – Creio que são as mais intensas. O Nietzsche tem uma frase que diz que se você olhar para o abismo por muito tempo, o abismo acaba também olhando para você. Esse livro é o abismo que olhou para mim num momento terrível da minha vida, viu um homem desmoronado por perda, impotência e dor, e revidou com o único eixo capaz de articular os fragmentos. Talvez isso explique a opção por contar essa história no formato de contos, lançando mão de induções que encadeiam todas as narrativas para um desfecho único e provocam a sensação de unicidade. Isso foi intencional, porém, enquanto escrevia, eu não sabia o quão distante seria preciso enveredar para encontrar a chave capaz de trazer a voz narrativa de volta para o cenário estabelecido: o limiar abismal. Seja de maneira explícita ou tácita, é ali que estão os personagens, era onde eu estava. Foi ali também que percebi que, diante do abismo, ou você pula ou você decide conversar com ele. Eu e a voz narrativa do livro decidimos conversar.
DA – De fato, fica-se com a sensação de que o ambiente do livro também apontaria para a construção de um possível romance. No entanto, a fragmentação da memória e dos próprios sentimentos, aspectos marcantes de nosso tempo, surge bem delineada na narrativa e encontra abrigo nos contos. Essa reflexão norteou sua escolha narrativa de algum modo?
SÉRGIO TAVARES – A memória era o único caminho para que esse livro existisse. Virar o jogo e exercer uma pressão sobre ela foi, naturalmente, entender que, para me reabilitar, eu precisava escrever sobre o que aconteceu, preencher essa ausência com algo que pudesse eternizar o que as circunstâncias da vida (alguns diriam destino, eu não tenho ideia) não me permitiram. Foi a partir dessa percepção que surgiram as muitas páginas de um cruzamento de testemunho e retratação que, mais tarde, seriam editadas no conto “Sono”, o núcleo de todo o livro. O que há de verdadeiro, do que pode se aproximar de mais real do ocorrido está ali. Contudo eu não podia resumir toda a história a isso, eu era atacado por tantos sentimentos que precisava incidi-los em outras narrativas. Essa opção considero a mais acertada em “Queda…”. Ao contrário de “Cavala”, meu livro anterior, onde o binômio loucura e sexo entretecia os contos, havia sentimentos demais, muitos fragmentos para definir dois ou três caminhos para a trama. O que eu não poderia, e sempre soube disso, era perder a mão desses sentimentos e cair na pieguice ou na comoção exacerbada. Portanto, depois de estar por muito tempo apegado a tudo aquilo, a tratar memória feito uma massa de modelar, eu precisa me desprender e ler o livro como um leitor apático. Isso é literatura, afinal.
DA – Suas observações aproximam-se muito com o pensamento do escritor Manoel Ricardo de Lima. Vislumbrando a literatura como uma armadilha a ser construída, ele sustenta que o seu esforço é para não escrever livros ingênuos, pois vivemos num tempo em que não podemos pactuar com esse tipo de coisa. Seria esse o maior desafio da criação?
SÉRGIO TAVARES – É curioso você citar o Manoel Ricardo de Lima, pois ouvi comentários que traziam a mesma impressão, porém a primeira obra dele que li ocorreu depois de o novo livro já estar encerrado. Considero um tanto desconcertante, para um autor, fazer analogias entre sua escrita e a de outros escritores, mas há sim semelhanças e diferenças, sobretudo no conceito empreendido especificamente em “Queda…”. Por conta de partir de um momento tão íntimo, acredito que a prosa acabou por incorporar naturalmente um verniz poético. Comparando com o meu primeiro livro, eletrificado por cargas fortíssimas de violência e despudor, a tessitura dos novos contos acontece de maneira calculada, silenciosa, introvertida. Essa é uma irmandade que percebo com o trabalho do Manoel, mais especificamente com o livro “As Mãos”, onde a poesia é utilizada como elo para encadear as cenas que transcorrem em tempos mutáveis. Outra semelhança, e essa é a mais viva, é justamente o uso da literatura como armadilha, o que gosto de chamar de a construção do nocaute. É não ser ingênuo (ou relapso) em acreditar que a ideia, o escopo, basta para que a história funcione, para que a estrutura prevista tenha solidez suficiente para sustentar a trama. Penso que é exatamente o contrário, que o leitor deve ser posto no estado de refém, que deve ser enganado até o derradeiro ponto final. Essa intenção é muito clara no conto “Cerimônia”, onde uma mulher se prende em reminiscências enquanto separa a roupa do filho para um importante evento, até encontrar um desfecho arrebatador, que não cabe aqui revelar para não estragar a surpresa. Conquistar o leitor aos poucos e colocá-lo numa zona de conforto, para em seguida atacá-lo com um golpe fulminante, sempre foi o que persegui, na edição do novo livro. O maior desafio da criação é não tratar o leitor com carinho.
DA – Logo em sua estreia em livro, os contos de “Cavala” conferiram a você o Prêmio SESC Nacional de Literatura. Em qual contexto você situa esse momento de reconhecimento?
SÉRGIO TAVARES – No mais dos inesperados. Os contos que compõem “Cavala” são, em suas origens, acidentais. Durante o processo de criação do novo livro (que, até então, era previsto para ser o meu primeiro), escrevi alguns contos cuja natureza era exatamente a antítese de como estava tratando a memória em “Queda…”. Se as motivações ali eram os sentimentos íntimos, as lembranças dolorosas e o vazio, nesses contos guardados não havia tempo para o luto ou para a autocomiseração. “Cavala” é constituído por personagens que, impelidos por desejos irrefreáveis, gozos desmedidos e transtornos mentais, são pressionados até situações-limite, onde a possibilidade de redenção está condicionada ao cometimento de atos hediondos. E isso também se reflete na prosa mais acelerada e fragmentada, sem espaço para poesia ou onirismo. Mas, como disse, eram contos de gaveta e continuei com o projeto inicial. Foi então que, certa manhã, eu li sobre as inscrições do Prêmio SESC; melhor dizendo, sobre o fim das inscrições. Era apenas o tempo de transformar esses contos num volume, revisar e despachar pelos correios. Assim o fiz e a vida seguiu, até o dia em que um telefonema mudou tudo. Eu vivia um outro momento, minha esposa estava grávida novamente, engatinhávamos novos planos e, de repente, o sonho de muito tempo. Lembro claramente que estava na balsa, indo para o trabalho, e não sabia se voltava para casa, mantinha a normalidade ou tentava achar salmão no fundo da Baía de Guanabara.
DA – A condição de premiado impôs a você alguma mudança de paradigma ou ruptura em especial? Viu-se imbuído de uma, digamos assim, maior responsabilidade criativa?
SÉRGIO TAVARES – Certamente houve uma ruptura, mas longe de qualquer aspecto negativo. Não há dúvida de que o Prêmio Sesc me avalizou como escritor, mas a conquista não se resume ao carimbo na capa do livro. Existe toda uma programação robusta (participações em feiras literárias, palestras, debates) que ocorre paralela ao lançamento, contribuindo para o enriquecimento literário do autor, bem como para a divulgação da obra. O acúmulo dessas experiências, diante da condição de ter sido revelado por um prêmio, pesou muito mais nas minhas escolhas do que qualquer tentativa de superar o primeiro livro. Aliás, o que seria uma tremenda estupidez, pois competir comigo mesmo só me valeria a derrota, de todo o modo. Fazer parte desse universo foi determinante para apagar todo o traço de deslumbramento, o que é vital para um autor que planeja continuar publicando. O mercado editorial tem suas regras. É isso. Se você pretende se estabelecer como escritor, escreva. Escreva, revise e reescreva. Não há nada de encantado nesse processo. O carpinteiro não faz a mesa com o manuseio da madeira. Acreditar que o fato de o meu nome estar associado a um dos principais prêmios literários do país abriria todas as portas, nunca foi uma possibilidade. O que foi ótimo, já que a verdade está bem longe disso. Eu não posso me comprometer com o que criei ou com o que estou criando, mas com o que ainda preciso criar. Tem um trecho do conto “Quebranto” em que o narrador diz que quando deixamos de chamar ou de ser chamados, perdemos nossos nomes. É exatamente assim que funciona.
DA – O caminho por seguir, encerrando os desafios que lhe são peculiares, remonta algumas vezes à chamada “angústia da criação”. A questão de se desejar erguer uma obra com status de notoriedade não lhe parece um desvio de nosso tempo?
SÉRGIO TAVARES – De maneira nenhuma. Todo artista que se propõe a publicar e divulgar uma obra está naturalmente em busca de notoriedade, principalmente aqueles que insistem que não, pois a negação em si já é a intenção do holofote. O que não se deve confundir é a chance de notoriedade com a busca vazia pela fama. São motivações diferentes, cuja explicação aqui iria pesar muito no tamanho da resposta. Sugiro a leitura dos ótimos “A Experiência da Fama”, da Maria Cláudia Coelho, e “O Show do Eu”, da Paula Sibilia, para um melhor entendimento. De volta à questão, tem se tornado claro, cada vez mais para mim, que os dois fatores principais para o bem-estar de um livro publicado é a divulgação e a distribuição. Hoje é possível facilmente lançar um livro por conta própria; e talvez esse seja o verdadeiro desvio do nosso tempo. Tomar uma atitude como essa deve estar condicionada à extensão da estrada que esse livro planeja percorrer. É claro que há a internet e as redes sociais, mas o aporte de uma editora bem estruturada e a comercialização nas livrarias de renome ainda têm um peso incomparável. Além disso, essas são engrenagens de uma máquina cuja esteira conduz com mais facilidade aos suplementos literários e às revistas especializadas. Isso não é crítica ou resignação, mas uma percepção particular. Eu sei que existem exceções, que não há nada mais angustiante do que aguardar a resposta de uma editora, que a qualidade pode intervir na verticalização da informação. O meu primeiro livro teve qualidade para conquistar o Prêmio Sesc, porém será que teria qualidade para ser francamente aprovado por uma editora do porte da que o publicou? O marcado literário é tão repleto de incertezas, que o autor deve contar com menos passos falsos possíveis. Entender que é necessário ampliar o campo de projeção de uma obra é, atualmente, uma atitude capital.
DA – O que você considera ser o traço marcante da literatura feita hoje no Brasil? Com toda a complexidade que a questão demanda, estamos ainda muito longe de consolidar uma nova geração de escritores?
SÉRGIO TAVARES – A nova geração está em pleno curso. Temos uma safra de talentosos autores entecendo uma literatura que transcende as fronteiras estabelecidas, que dialoga com o mundo sem se destituir do caráter particular, que se arrisca a incorporar gêneros com habilidade para não repetir o cânone. É um conjunto constituído por inúmeras correntes que, sem precisar aqui citar um ou outro nome, traz um traço cosmopolita bem marcante, com fulgente predileção por narrativas autocentradas, donde se sobressai a condição do “eu” nas relações interpessoais. É um tipo de literatura que já foi chamada de “literatura psicológica”; enredos centrados na (des)construção emocional, onde os embates e os impulsos têm mais impacto que a estrutura e a caracterização dos personagens, ao ponto de influenciar diretamente nas reviravoltas e no desfecho das tramas. Com isso, acredito que se estabelece um cenário forte, capaz de produzir clássicos para novas épocas; é claro, levando-se em conta o momento único em que a literatura brasileira se desvenda diante dos olhos do mundo. Há, no entanto, duas coisas que me incomodam. A primeira é o esforço descomunal de se instituir a supremacia do romance, sufocando as incursões em outros gêneros. Já a segunda é o manejo com que giram o holofote, na tentativa insensata de imputar a grandeza do momento a um grupo de escolhidos. Os nomes que perdurarão somente o filtro do tempo irá dizer. Mas certamente aqueles que caminham agora não são apenas vinte.
Sérgio Tavares/ Foto: Mateus Tavares
DA – Andamos bem em matéria de crítica literária?
SÉRGIO TAVARES – Gosto, de maneira geral, do que é feito por aqui. A crítica brasileira tem um aporte mais incisivo, mais direto, seja para elogiar ou para meter o pau. Não somos afeitos a tergiversações, ao contrário dos norte-americanos que fazem das resenhas um misto de resumão com pontuais impressões. O que falta por aqui, na minha opinião, são mais publicações voltadas exclusivamente para literatura. E não digo apenas um robustecimento dos suplementos literários, mas revistas e outros periódicos especializados. Tirando o Sul (com louvor para o que é feito no Paraná) e São Paulo, percebo que os espaços acanhados acabam sendo relegados aos principais jornais do determinado estado. Aqui no Rio, por exemplo, é uma vergonha, uma falta de interesse medonho. Eu mesmo tenho impressões dos meus livros espalhadas pelo país, com gloriosa exceção para o Rio. É claro que pode valer a máxima de que santo de casa não faz milagre. Mas para ter santo, antes tem de ter altar.
DA – Há sempre um discurso pronto quando se busca a razão para a “tradicional” falta de interesse pela leitura. Será também que não vivemos num país onde potenciais leitores são subestimados?
SÉRGIO TAVARES – Não há dúvida quanto a isso. Tornou-se lamentavelmente cômodo, para aqueles que passam pelos canais institucionais com o dever de mudar essa realidade, aceitar a constatação com a leviandade de uma máxima. “O Brasil é um país onde pouco se lê”, fica dito e pronto! Quase um lema distorcido, um eco que se propagava há séculos. Mas por que é assim? A resposta é bem complexa e encadeada por diversos fatores, mas gosto de um argumento transformado em crônica pelo jornalista Zuenir Ventura, colunista d’O Globo. Nesse texto, Ventura, um professor universitário já com 80 estações, sintetizou, em poucos parágrafos, essa infinita discussão do porquê do exercício da leitura ter se tornado, geração a geração, uma maratona com cada vez menos participantes. Ao contrário dos que culpam a decadência cultural, os novos caminhos tecnológicos e a hegemonia da televisão, o jornalista defende que a culpa não é de quem deveria ler, mas de quem deveria tornar essa atividade atraente.
Por que os europeus e os americanos leem oito vezes mais livros que os brasileiros? Por que cerca de 70 milhões de pessoas no Brasil não leem? Falta de hábito, poder aquisitivo? É claro que ambas as circunstâncias têm influência direta na resposta, sobretudo quando associadas ao fato de termos 21 milhões de analfabetos. Contudo, há um outro fator determinante que, no texto, o jornalista aponta com precisão: parte da culpa, sim, está nas escolas, num comodismo intelectual que refaz um tempo já, há muito, incinerado.
O mote da crônica, explica Ventura, veio do pedido de um amigo, pai de um aluno no segundo ano escolar, que lhe passou a lista de livros na tentativa do empréstimo de alguns títulos. O jornalista conta que ficou abismado ao se deparar com indicações como “Senhora” e “Iracema”, de José de Alencar; “O Cortiço”, de Aluisio de Azevedo; “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manoel de Antonio de Almeida; e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Obras que estão além do tempo daqueles que são obrigados a lê-las, assim como eu mesmo fui e como aquele menino, muitas décadas depois, também seria.
Vejo que a questão é exatamente essa: a obrigação. Como um jovem, justamente no momento em que está iniciando sua formação intelectual, pode desenvolver o gosto pela leitura através da imposição de obras datadas, repletas de um coloquialismo que torna o seu próprio idioma praticamente estrangeiro? Ventura cita, como exemplo, um trecho de José de Alencar: “Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva”. Sinceramente, eu mesmo não sei o que é um aljôfar. Então como isso pode ser mais atraente para um moleque de 13 anos do que ficar no facebook? Na época em que era obrigado a ler “Brás Cubas”, “Senhora” e “Iracema”, eu queria mais era ler histórias de detetives. Isso prova que o problema não é o apelo da internet, mas a forma errada e atrasada com que as escolas propõem aos alunos a leitura, anulando toda a condição de uma atividade prazerosa.
Na crônica, Ventura elenca alguns autores contemporâneos que certamente seriam mais atrativos, tais como Rubem Braga e Fernando Sabino. Eu acrescentaria Luiz Vilela, Clarice Lispector, Murilo Rubião e Luiz Fernando Veríssimo. Acredito que o caminho correto é fazer com que os potenciais leitores assimilem que ler não é um dever de casa, algo necessário para se dar bem num teste.
DA – O olhar para dentro, característica forte em seus escritos, é algo deveras significativo num tempo em que a superficialidade das coisas insiste em fazer sombra, sobretudo ao terreno das relações humanas. Esse caminhar pela via intimista é também uma tentativa de resgate, quiçá um ímpeto de resistência?
SÉRGIO TAVARES – Escrever, por si só, já é um ato de resistência. Não há um significado vital para isso, senão um esforço para aliviar um ímpeto particular. Escrever, de certa forma, é uma vaidade. Por isso, me tornei jornalista, pois buscava uma maneira de orbitar pelo universo da escrita, encontrando quem me pagasse para isso. Ainda que longe de qualquer ostentação, é muito mais certo sobreviver como jornalista do que como escritor nesse país. O curioso é que, à medida que me especializava na profissão, percebi o quanto o jornalismo era (e é) importante nas minhas incursões no campo ficcional. Sobretudo no que tange a construção do personagem. Vejo que o escritor não pode transitar pela superfície das coisas e deixar todo o trabalho para a imaginação do leitor. Por isso, há uma predominância, em meus escritos, pela voz narrativa em primeira pessoa. Os meus personagens são hiperativos, as histórias acontecem sob o ponto de vista deles. E isso só é possível porque, antes de partir para a escrita, eu traço todas as características desse personagem, da maneira mais íntima possível; é algo excessivo, abusivo. Um exemplo é a personagem do conto “Fome”, a segunda narrativa do meu primeiro livro, “Cavala”. Estamos diante de uma professora do ensino primário viciada em sexo, ao ponto de seduzir um mendigo e levá-lo para casa. Quem é essa mulher? Por que ela chegou a esse extremo? Como ela funciona emocionalmente e fisicamente nessa situação? Investiguei todas as respostas, antes dela tomar a decisão. Cumpro o papel de jornalista diante de meus personagens. Agora, isso mudou um pouco, pois estou engatinhando pelas vielas do romance, que são mais íngremes e auspiciosas que as do conto. Portanto, além de construir os personagens, há diversas anotações no caderninho de capa xadrez sobre a estrutura da história. Mas o principal continua sendo o protagonista. E, dessa vez, tento algo que, se não for inalcançável, será uma experiência fascinante: desvendar a origem do mal, entender quais fatores incidem sobre alguém, tornando-o capaz de cometer livremente atos hediondos.
DA – Que espécie de busca norteia as palavras de Sérgio Tavares e o faz seguir adiante?
SÉRGIO TAVARES – Escrevo porque preciso, porque é a única coisa que tenho vontade de fazer, porque é o que cala esses personagens que inelutavelmente insistem para que eu conte suas histórias. Depois de duas antologias, apostei que era o momento de escrever um romance. Bem, o que sei da história é que se passa na transição dos anos 80 para os 90, período de surgimento da epidemia do vírus HIV, e tem com ponto central o desmoronamento de um núcleo familiar, a partir do momento em que a mãe contrai a doença, após uma transfusão de sangue, e morre. Essa ausência provoca o desligamento entre pai e filho, cuja negligência trará consequências aterradoras, sobretudo depois que o pai traz uma nova mulher para morar na casa e torna-se um sujeito submisso, emasculado, incapaz de reagir a contínuas traições. Tem também uma mulher chamada Selma e alguns cachorros mortos. É um livro sobre a origem do mal. O meu projeto mais ambicioso, até então.
faz a cama como quem veste a noiva e não dorme sobre. o pouco que se diria sobre este jovem não se daria à história. é como aconselhar alguém a não respirar mais o ar, dizer que é pura alegoria, luxo demais. estou tocada pelo fogo. há também o fato de que não gosto de dizer o rapaz. ele me chama. quando o digo, ele me chama. mas bem, faz a cama como quem veste a noiva e não dorme sobre. veste-se como aos dias, é um mancebo cotidiano. hospeda-se onde cessa. sempre. é uma preguiça feita. é também essa espécie de hotel de esquina onde raios de sol e partes de luar só entram se convidados. não uma casa, é hotel de esquina, pois que pura cintura. não bebe café nem liga pra conhaque. serve-se de leite morno e não dança bem, não dança bem nem querendo pretender passinhos engraçados. não nos roçamos. aos seis anos tomou uma surra dum buldogue de ladeira e quase perdeu-se do nariz. ele não diz, mas sei que ama a minha voz, pois que falo a ele. falo a ele para ecoar o menino. e minto. o menino não faz a cama. a cama o faz. sua noiva, sua cama. disse que o pouco que se diria sobre este jovem não se daria à história. minto. oh, Deus, minto tanto. neste hotel, as esquinas dos espelhos se dobram, os corredores se cruzam e se perdem tanto, todas as janelas se lamentam e então prosam. este é o nome do menino.
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seus parágrafos
digo que há sempre um leitor. na escuridão. na chuva. no ponto de ônibus, entre tantos que não, por exemplo, na biblioteca poderia não haver. e o leitor é instituto flamejando a cabeça besta e os óculos respingados, boneco vodu recheado de nada para que o livro entre ao leitor, faça-se o leitor. é besta e é servidor e como é bonita a cara do leitor. não ter vergonha, não ter destino, consumida cara por este sal de esperanças desgraçadas. na praça, na fila do açougue, onde houver aglomeração, lá estará o leitor, onde houver espaço, onde houver encaixe, onde não houver, no avião, onde não há, poderia haver. deixa-se respirar e existir pelo manto que o cobre, o leitor é súbito. emprestado à paisagem, divindade caridosa, silente, o leitor. o leitor do quando alguém a pedir informação, o leitor gesticulando sem estar ali, o leitor. escondido e infiel, agora estará lendo um suspense, em casa, ao lado do abajur tenro, o leitor e o gato do leitor, o café esfriando ao lado do leitor e o leitor ao fim do livro, como que num gesto de súplica e horror, aplacado e um tanto decepcionado, enfim volta a ser gente no clique que apaga a luz, derrubando o café já frio, espantando o gato do leitor que não mais, o leitor.
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seus queijos
(Para Gabraz Sanna)
parte já o trem com jeito de sino. vai já partir. numa das janelas sem vidro está o homem bom. Gabriel é de viajar sozinho e leva no colo uma sacola com queijos e doces caseiros. fazia tanto, contando em tempo, que Gabriel não via a mãe e esta o fez levar sete dos queijos e três dos potes de doce que é o doce-de-leite, não o argentino, diz a mãe, o argentino não presta, esse faço eu, gritava, que gostava de gritar. ao lado de Gabriel senta-se uma senhora já tomada pelo conhaque, fumando feito uma senhora muito fumante e que podia muito bem ter se escavado em outro lugar do vagão quase completamente vazio. Gabriel é este homem bom que não dirá coisa alguma, não se levantará rumando outro assento, não Gabriel, Gabriel não. a senhora roça o homem bom, ela não tem jeito mesmo, é uma joça duma senhora, enfia o dedo na beirada da sacola, espia os queijos, ri como joça muito gargalhosa. e agora estarão passando pelas fazendas e Gabriel fingirá esse interesse absurdo pelas manchas que fazem o rebanho no pasto, pensa em mapas, são mapas, são estados e cidades as manchas que fazem. a senhora o cutuca na bochecha, examina sua camisa de homem bom. o cigarro dela já quase todo consumido e a cinza quase toda aposentando-se no queijo do cimo. Gabriel cutuca um dos parafusos do banco da frente, são globos, planetas, são planetas, lá vivem criaturas que, pensa gritado, que gostava de pensar assim, gritado, criaturas que. a senhora pega a cabeça de Gabriel, desmoronada do cigarro que já não mais, que jaz na sacola sobre o último queijo, junto às cinzas, pega a cabeça do homem bom, toma o rosto dele e por uma eternidade, com a língua e os dentes, com o sexo e a tremedeira duma ressaca bem próxima, estuda um estudo mancado do que é o rosto e o dorso de um homem tão bom. engole e então o cospe, mastiga e então o rumina, Gabriel é a pele seca da mulher vivida, é a vulva e é a suja lentidão. a senhora o embrulha em pura libertinagem molenga e malpassada para depois o ejetar. embrulha e o ejeta. e agora o Gabriel não. o homem bom não estará mais ali. Gabriel, o bom, terá sumido com os entrecortes de sombra e de sol, uma ou duas estações atrás. o Gabriel que fica é tomado pela senhora ladrona depravação, é tomado de luxúria e despreocupação. filho do mal, agora é um homem vermelho e alto que desce ao Rio de Janeiro sem instinto subsidiário. ele não é mais uma filial. a vida se ribomba por ele e tudo é calor e umidade. a senhora, os queijos e o doce seguem viagem. não esse Gabriel. esse não.
mas acabar assim o guloso recomeço de vida de Gabriel, oh, não poderia.
agora ou mato Gabriel ou ele me mata. e assim é.
segue a bandidagem, segue a senhora, seguem os queijos e o doce.
segue o trem com jeito de sino. fica um homem, fica sua pujança, coisa abusada debruçada na ribalta da mácula.
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suas faces
cresce o boi, os porcos, cresce a lã, cresce a muié. o céu faz cosquinha nos orvido dos bão de coração. ah, a vida pequeninha do homem de saia rosada. tem dia que limpa o chiqueiro e tem dia que não, que se limpa não chamava chiqueiro, não. tosa Carla, sua única ovelha. pretinha-pretinha é a Carla, a ovelhinha do homem de saia que faz café, faz pão de milho, fez curso de tricô lá na comunidade do Amparo, com a mulherada do Amparo pra tricotar e tricotou: fez três lindos cachecóis pra Carla, friorenta que só, tadinha, estranhando a intimidade com a lã. teve o dia em que o boi, a muié e os porcos do homem de saia fugiram e não voltaram. teve o dia em que Carla quis fugir e não foi, ficou presa no farpado. e é assim: Carla e o homem de saia. a cadeira de balanço com o homem de saia e Carla. e, claro, o céu fazendo cosquinha nos orvido dos bão. os bicho e a muié andarão bebeno e brigano na estrada, cabadibronco. UMA HORA ES AVORTA, CARLA. UMA HORA ES AVORTA. CAUSEDEQUE AVORTA É AVESS DI SAÍ. Carla pensa: ÉÉÉ-É-É-É.
(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)
Para quem se embrenha pelo pantanoso terreno da criação literária, talvez não haja desafio maior do que adentrar as alamedas do erotismo. E não é simplesmente isso. O dilema que é posto aqui remonta à hercúlea tarefa de se transpor as muradas do óbvio e da gratuidade, construindo uma narrativa que se firme apartada de elaborações banais e, por assim dizer, descartáveis.
Se serve de consolo, há quem ainda consiga materializar em palavras impulsos valiosos numa literatura que se digne a decifrar certos esconderijos da carne. É quando um autor, utilizando-se de recursos cuidadosamente arquitetados, consegue efeitos que redimensionam a experiência de se estar vivo. Exemplo disso é o que acontece com Carnebruta (Ed. Apicuri/ Oito e Meio), livro de contos de Rodrigo Novaes de Almeida. Nele, o escritor, mais do que nos apresentar situações e cenários envoltos numa forte carga sexual, propõe um percurso por outros tantos becos do homem.
Conduzindo uma obra esculpida em carne e palavras, Rodrigo não nos conta boas novas nem tampouco atiça descobertas próprias do instinto humano. Se a cada um de nós é dada a faculdade de conhecer do próprio corpo um receptáculo portentoso do prazer, por outro lado, a mera representação de um desfrutar dos sentidos dá lugar a uma constatação de que o gozo maior se instala na crueza do ser.
Em Carnebruta, a pulsão sexual deixa de lado o simplismo da contemplação e canaliza suas forças para cruzar certos labirintos. E, assim, seu autor aposta em narrativas decididas, muitas vezes diretas, viscerais e ácidas, como se a intenção fosse golpear as percepções dos leitores mais desavisados. Não há espaço para devaneios, tampouco delírios baratos. Nesta viagem, somos convidados a perceber alguns aspectos que põem em xeque nossas vãs convicções, chacoalhando quaisquer enquadramentos que se pretendam moralistas.
Rodrigo é, antes de tudo, um provocador, tanto em seu modo de desarrumar os móveis da secular “casa dos costumes” quanto pelo fato de celebrar as pequenas epifanias da carne nossa de cada dia. Um jogo cênico vibra por entre seus contos, fazendo-nos crer que estamos diante de um livro de imagens. Numa aproximação com o cinema, os relatos desfilam arremates dignos de um bom curta-metragem. Seus personagens sabem tão pouco de suas imprecisas trajetórias como qualquer mortal que se preze.
Engana-se quem pensa que Rodrigo Novaes de Almeida, soando, alguns momentos, pornográfico, concentra seus esforços apenas numa frente. O percurso em Carnebruta visita todo tipo de paisagem, desde a mais cotidiana possível até aquela que é fruto de nossa projeção imaterial. Nesse ínterim, há espaço para uma curiosa nostalgia do futuro, marcada em passagens como as do conto inicial Valete-de-espadas. Nele, a “oportunidade única de uma segunda vida” contrasta com as inúmeras mortes que podemos experimentar quando nos achamos absolutamente vivos e respirando.
Com doses muito bem aplicadas de sarcasmo, algumas passagens do livro têm um arremate que lembra Nelson Rodrigues, sobretudo quando o assunto é a surpresa de certas revelações, encerradas no porão da consciência dos personagens. No confronto com o mundo de aparências ao qual estamos acostumados, Rodrigo posiciona o homem em toda a extensão de sua autofagia, traído que está pelos sentidos e pela miopia inerente à existência.
Carnebruta é um roteiro de percursos que retiram da vida seu véu sobejamente pudico. Demovendo excessos, seu autor forja os idiomas da pele e os converte em instrumentos hábeis das diversas e malfadadas travessias que fazemos. Mais do que desnudar a matéria que habitamos, é a alma quem aparece, arranhada e nada impune, a flutuar nas águas turvas do existir. Melhor assim, pois ao menos em parte estamos quites com nossos subterrâneos.
Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão dos outros.
(O lobo da estepe, Herman Hesse)
Nós éramos fio de faca rasgando a sua garganta. [VOCÊ] acorda, deixa a cama e anda pelo apartamento. Seu próprio grito o despertara. Som inumano em carne humana. Água fria para lavar o rosto e água fria para saciar a sede, nós éramos fumaça e veneno atravessando a sua garganta. Para dentro e para fora: [VOCÊ] fuma um Marlboro vermelho na varanda da sala. Pela primeira vez em anos, é a carne distensionada. Liberada a voz abissal, nós éramos necessidade. [VOCÊ] pensa: estão todos quebrados. [VOCÊ] vê adiante, presa a um muro de pedra, uma placa com estas palavras: mata o homem que odeia, faça da rapinagem teu ofício – se tiver sucesso, teu roubo será conquista e tua vingança será a guerra. E [VOCÊ] pensa: vai ser triste, sim. Mas a carne tem necessidades… Por que diabos não há espelho nesse banheiro, pergunta-se. Nem no quarto, nem no resto da casa. [VOCÊ] lava as mãos ensaguentadas na pia do banheiro, enquanto observa a placa no muro de pedra através da janela. No quarto, a mulher estirada na cama. [VOCÊ] se pergunta a razão de não existir espelhos na casa, afinal, [VOCÊ] considera, a mulher é bonita. Uma morte ordinária. [VOCÊ] conta quantas vezes repetira aquele ritual. [VOCÊ] sabe de cor, é claro. Mesmo assim conta. E como [VOCÊ] gosta do medo delas e do cheiro!, sim, do cheiro de todas aquela mulheres – ele inebria. Medo e cheiro o alimentam. Depois vem um sentimento de ausência, uma ausência que não é morte, sempre quando [VOCÊ] lava as mãos na pia do banheiro. E isso acontece todas as vezes, e segue o mesmo ritmo, e vem na mesma ordem. Finalmente, [VOCÊ] diz: tudo terminado aqui. E não há quem escute a sua voz.
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Porra em brasa
A música não parava de tocar. A agulha da vitrola machucava a bolacha preta, e o chiado que saía da caixa de som era mais alto do que a voz agonizante do cantor de pagode do vinil. A porcaria do ventilador não funcionava como deveria. Teobaldo e Vânia suavam. A temperatura estava em torno dos cinquenta graus dentro daquela quitinete. Era verão, o asfalto derretia nas ruas da cidade. Nestas condições, uma trepada poderia levar dias para terminar. O sangue das pessoas queimava como brasa, tinha a grossa consistência do ferro em seu estado líquido. As pontas de cigarros escapavam do cinzeiro já cheio. Porra pra todo lado.
(Rodrigo Novaes de Almeidatem textos publicados em sítios literários e jornalísticos, como Le Monde Diplomatique Brasil, Portal Cronópios, Germina Literatura e Arte, Observatório da Imprensa, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou, pela editora Mojo Books, a ficção A saga de Lucifere (The Trinity Sessions – Cowboy Junkies, e-book, 2009), e, pela editora Multifoco, o livro de contos Rapsódias – Primeiras histórias breves (2009). Recentemente publicou o livro de contos Carnebruta (Oito e Meio/Apicuri – 2012). É cofundador do coletivo literário O Bule e Colunista do Página Cultural)
Nesses tempos pós-modernos em que os objetos enxergam, detectam, espionam, memorizam, calculam, filmam, tocam, sentem, reproduzem e falam o que bem entendem sem limitações de lugar, distância, fuso horário ou emoções, ocorreu o seguinte diálogo:
Mochila Surrada: “Nossa, que cara feia, aconteceu alguma coisa?”
Mochila Nova: “Não aguento mais esse burro que me carrega! O animal só falta meter a casa inteira aqui dentro. Estou me estufando toda pra acomodar dois celulares, carteira cheia de documentos e pouco dinheiro, cartões de visitas que não acontecem, santinhos de amigos candidatos a isso e aquilo, maço de cigarros, fósforos, vela pro santo, minidicionário com a nova ortografia, moedas soltas, esferográfica sem carga, papel pro baseado, par de head-phones, caderno de espiral, jornal de anteontem… Arre! E quatro livros virgens que não são lidos nunca, três porta-retratos de namoradas antigas, lanterna sem pilha, talão de cheques, volantes de loteria, proposta de financeira pra financiar a moto sonhada, marmita vazia, par de tênis e boné sobressalentes, estojo com escova de dentes e tubo de pasta, fita dental, bermuda pra consertar, miniguarda-chuva mofado, cotonetes, cortador de unhas, raquete de tênis com o cabo pra fora, canivete… Ufa! Camisinhas no invólucro, calção de banho, camiseta de grife falsificada, lata de refrigerante diet a consumir, embalagem de seis iogurtes com cereais, dois halteres surrupiados da Academia, figa pra cortar mau-olhado, relógio de pulso parado, chaves de casa, saco de amendoim, comprimidos de Viagra, frasco com cristais de gengibre… Arre! Ufa! E assim essa besta vai a toda parte, não liga se estou tomando chuva ou pegando sol, vai esbarrando nas pessoas e em outras mochilas na rua, no ônibus, no metrô, e eu levando pancada, sendo empurrada, e ninguém pede desculpa… Arre! Pior é que essa besta não me dá a mínima, nem me olha, claro, estou nas suas costas… Pra mim chega! Hoje mesmo, na hora do rush do metrô, vou abrir a minha costura do fundo e deixar cair no chão toda essa porcaria que carrego dia e noite, e noite e dia…”
Mochila Surrada: “Calma! Precisas ter paciência com essa nova geração. O animal que te carrega ainda está em formação. Já passei por tudo isso que me contaste. Mas hoje, vês como estou magrinha? A besta que me carrega entendeu que o mundo dá muitas voltas e há outras prioridades na vida. Então, foi largando tudo que não servia de imediato, e agora só me deixou com essa protuberância que sobressai bem aqui no meio!”
Mochila Nova: “Mas eu estou nas últimas… Aqui dentro não cabe nem mais um palito! Sim, vi que estás magrinha e só tens essa protuberância bem aí no meio… Afinal o que carregas agora?”
Mochila Surrada: “Na verdade, com o passar do tempo, a besta que me carrega começou a beber, largou emprego, amigos e namoradas, e então se afeiçoou a mim, dia e noite, noite e dia, morre de ciúmes e me isolou de tudo e de todos… Bem, resumindo, estou grávida de seis meses!”
***
O BESOURO E A LAGARTA
Na linguagem dos insetos, um besouro cascudo, com asas a mil por hora, equilibrou-se no ar e, provocante, disse a uma lagarta que sanfonava o corpo, devagar, quase parando, no tronco do marmeleiro:
“Oi! Lagarta! Olha pra mim! Vês como sou resistente, esperto, rápido e voo para onde quero?! E tu, pobre lagarta, és molenga, tens o corpo flácido e te arrastas lentamente. Aliás, acho que não sabes nem mesmo se vais ou vens. Quanto a mim, o zumbido das minhas asas é exaltado mundo afora por escritores, poetas, cineastas e outros artistas. Sou citado até na Bíblia! Deus quando criou o mundo me deu uma nobre missão…”
E a lagarta que sanfonava o corpo pelo tronco do marmeleiro, ao ouvir a provocação do besouro respondeu:
“É verdade o que dizes, mas só parcialmente, pois esqueces que a principal diferença entre nós dois está na natureza da nossa missão. Tu és aquilo que chamam de produto final e acabado, tuas serventias ou missões, como queiras, são eficientes, porém limitadas, enquanto eu, lagarta molenga, sou um dos bichos escolhidos pelo Criador – que valorizou ao máximo a minha lentidão, para a mais preciosa das missões…”
O besouro ouvindo aquilo se enfureceu:
“Como te atreves, lagarta pegajosa? Por acaso tens missão mais nobre que a minha? Maior nobreza do que o zumbido que produzo com a velocidade das minhas asas? Velocidade essa que também serve de inspiração para as fábricas de aeronaves e de tantos outros instrumentos? Ora, lagarta, eu não imaginava que fosses tão presunçosa! Então me diz logo o que há de precioso na tua lentidão?”
Ao que a lagarta replicou com expressão calma, mas definitiva, fazendo o besouro zumbir e fugir:
“Bem, como eu já disse antes, tu és, na Natureza, um ser final e acabado. Enquanto eu, carrego no meu corpo lento e sanfonado uma preciosidade, pois um dia serei borboleta sedosa e dourada, ou azul, ou prateada, ou estilizada, enfim, carrego a síntese perene do Universo, ou seja: trans-for-ma-ções!”
(Carlos Trigueironasceu em Manaus e foi alfabetizado pela Mãe aos 3 anos em folhas de jornal estendidas pelo chão. Viveu “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu em Manaus, Santarém e Belém, onde soube de canoas, igapós, socós, jaraquis, caboclas, pororoca, açaí, tacacá, maniçoba e do Círio de Nazaré. Viveu no Ceará dos 8 aos 12 anos, onde aprendeu de mar, dunas, falésias, jangadas, seriguela, agreste, sertão, arigós, e romarias a Canindé. Aos 13 foi pro Rio de Janeiro, onde assimilou morros, carnaval, mulatas, Copacabana, bondes, jogo do bicho, macumba, Maracanã, trens suburbanos, serviço militar, “a vida como ela é” do Nelson Rodrigues. Ainda menor, trabalhou para custear os estudos. Depois, viu outros Brasis por terra, mar e ar. Estudou na FGV e na Universidade de Roma. Trabalhou na Espanha, Itália, China e Estados Unidos. Quando crescer tentará ser escritor)