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137ª Leva - 04/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Jonatan Magella

 

“Amor seguro”: Claudio Parreira

 

Luz e cheiro

 

O amor deles fedia. Fedia porque depois de nascer, crescer e reproduzir-se (tinham uma filha), o amor morreu. Mas não houve coragem para o sepultamento e o amor deles tornou-se um cadáver jogado em cima do sofá.

Nascera aquele amor num ponto de ônibus, em um desses insuportáveis fins de tarde de primavera no subúrbio carioca, quando voam os mosquitinhos ao redor das luzes.

Ele viu Lucília toda atrapalhada, entre pernas de trabalhadores exaustos que esperavam a condução da volta pra casa. Eram jovens e não havia nem sinal do que se tornariam com o tempo. Lucília abanava-se e às vezes batia em si mesma, por causa dos insetos sobre a cabeça.

– Você deve ser uma pessoa muito iluminada.

– Por quê? – Lucília deu um tapa rente ao próprio rosto.

– Porque esses mosquitos ficam quietinhos no inverno. Mas no calor voam, se guiando pela lua. O problema é que quando encontram outra fonte de luz, se confundem.

– Tipo uma lâmpada?

– Ou um rosto luminoso.

A partir desse dia, Lucília cingiu aquele homem – que entrou no mesmo ônibus que ela dizendo, sim, esta é a minha condução, mas depois pegou mais dois para chegar ao seu verdadeiro itinerário, não sem antes conseguir um beijo e o número de telefone.

O amor cresceu rápido. Não à toa. Eles o alimentaram à base de pipoca e cinema, de chocolate e bolo, de pizza e cerveja. Mas o erro do amor foi ter se considerado autossuficiente. Se amigos convidavam um ou outro para sair, em vez de ir e apresentar o namorado novo, eles diziam em uníssono, não, melhor ficar. E assim foram ficando. Cada vez mais solitários. O amor deles se trancou no quarto e ficou antissocial. O amor ficou mimado, o amor ficou narcísico, o amor perdeu a noção de mundo. O amor deitou na cama e ficou olhando o teto. (O amor ficou um chato!).

Foi assim que o amor deles cresceu mais do que deveria (relacionamentos acabam por amor de menos, também por amor demais). E ficou gordo. A ponto de Lucília, vinte e poucos anos, não aguentar mais carregá-lo em si, de modo que seu marido (casaram-se no civil, depois de algum tempo) teve que conduzir sozinho aquele sentimento morbidamente obeso.

Nessa disparidade de esforços, o tempo passou. Ele começou a se olhar no espelho e sentir-se velho, sozinho, a despeito de ter trinta e cinco anos. O mesmo não ocorria com Lucília. Ela – que até gostava da solidão – ainda sentia-se jovem, uma jovem mãe (o rebento veio logo após o casamento), e essa diferença geracional os distanciou. O que um queria, o outro não estava a fim. Sempre.

Foi a essa altura que o amor morreu e ficou jogado em cima do sofá. Mas o casal não reconheceu o corpo. Não assinou atestado de óbito. Não fez um enterro digno. Ambos empurraram a situação com a barriga (talvez por isso, perto dos quarenta, tenham começado a fazer crossfit – mas cada um numa academia). Enquanto isso, a filha (já uma adolescente) chorava pelos cantos num luto que não acabava nunca. O mau cheiro do cadáver dentro de casa a fazia lacrimejar.

Foi num dia de tristeza extrema da filha (a menina cortara os pulsos com lâmina de barbear), que o homem decidiu ir embora. Não tinha uma amante. Só estava exausto. Lucília também estava, mas feito um mosquito de luz depois do voo, perdeu asas.

– Vamos pensar uma última vez – ela propôs.

Era inverno e ambos se convenceram a recolherem-se em suas solidões e olharem-se sem automatismos. Foram dias de silêncio naquela casa-área-de-desova.

Dias depois, eles se reencontraram e, olhando-se nos olhos, souberam que finalmente era hora da cerimônia fúnebre.

Primeiro ele se abriu. Até as entranhas. Depois foi a vez de Lucília se abrir. Eram as palavras voando depois de semanas em hibernação.

E foi assim, abertos, que tiraram aquele corpo podre de dentro de si; era o amor em putrefação. Havia uma porção de ossos entulhados. (Com o tempo e a serenidade, poderiam remontar o esqueleto do que fora aquele sentimento, e deixá-lo à exposição numa das salas da memória).

Quando saíram do quarto, a filha finalmente conseguiu respirar. O cheiro funesto tinha desaparecido e a adolescente se alegrou genuinamente ao ver a rara alegria nos olhos de seu pai e sua mãe. Abraçou-os, como um padre a benzê-los:

– Eu abençoo essa separação, desde que nunca se separem de mim.

Os dois passaram as últimas semanas de inverno quietos. Cada um em sua nova casa, trabalhando, vendo televisão, olhando a rua sem coragem de ir lá fora. Mas no primeiro fim de semana quente da primavera, como se a separação tivesse acendido uma luz, ambos saíram dispostos a encontrar nova companhia (a filha incentivou a aventura). Meio desorientados, avançaram sobre a noite feito mosquitos avançando nas lâmpadas. Ele encontrou uma jovem num bar. Lucília encontrou um colega de trabalho. Voaram ao redor de suas novas lâmpadas, com a leveza de quem encontra a lua, até se cansarem e caírem nas camas exaustos, sentindo ao redor a lascívia da perda de asas depois do voo e a vontade de estar no casulo de um toque novo.

Foi assim que fertilizaram a terra onde nascem os afetos novos: com prazer. E só prazer.

De amor, por enquanto, nem o cheiro.

 

 

 

***

 

 

 

Substituição

 

Há meia hora atrás eu era criança, um menino pensando em como melhorar o time da Internazionale para vencer o Milan do meu vizinho, após quatro meses de derrotas humilhantes, no Play Station da lan house do Nino. E agora, deitada no braço do sofá com a saia erguida, a amiga da minha prima me pergunta, você tem camisinha?

Notei que ficou maior a sombra do meu corpo que pedalava com pressa – mais pressa que o Kaká quando puxava um contra-ataque no vídeo-game. Na verdade, até minha bicicleta pareceu uma CG 125 cilindradas; e eu, um homem feito e habilitado a pilotar rumo à farmácia, onde estacionei e perguntei, moça, tem preservativo?

A balconista estranhou. Não que alguém aos catorze anos não possa fazer sexo, mas ir à farmácia comprar camisinha, ainda mais sem constrangimento algum, lhe pareceu demais; meio a contragosto, ela apontou a prateleira, aquela ali, ó. As camisinhas pareciam guloseimas – descobri posteriormente que algumas são. Voltei com três. Era para o que dava meu dinheiro, que iria para a lan house do Nino, mas foi para o sexo.

No caminho, porém, entrei em colapso, como se meus pensamentos não coubessem na cabeça que os pensava. Me perdi pelas ruas que conhecia e, parado numa encruzilhada, sem saber pra onde ir, eu disse a mim mesmo, pensa, pensa cara, a garota tá à sua espera. Na dúvida optei pela esquerda – ainda opto hoje em dia. Então eu reencontrei a amiga da minha prima, e ela ainda estava de saia erguida sobre o braço do sofá.

Tentei ser romântico, passar o dorso da mão no rosto dela, coisas que eu tinha visto na Malhação. Mas logo a mão se perdeu em outras tramas. Se foi rápido ou devagar eu não sei. Quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo. Sobretudo esse prazer primicial: a sensação da primeira penetração da vida é algo tão drástico quanto nascer, quando você sai de um corpo familiar; a diferença é que, sobre o braço do sofá, eu entrava num corpo estranho. Depois que saí pela última vez, nos abraçamos e ela disse, amanhã a gente faz mais, pode ser?

Sem saber que esse amanhã nunca chegaria, guardei as outras duas camisinhas como Maldini guardava a zaga do Milan, o time do meu vizinho. Vizinho que, quando me viu na rua andando a esmo – eu ainda revivia as lembranças recentes – me propôs: vamos jogar?

Respondi que estava sem dinheiro. Eu pago, ele disse, e já fez um gol rápido com Seedorf, porque eu ainda pensava no corpo da amiga da minha prima. Empatei com a classe de Figo; Pirlo fez de falta pra ele e logo em seguida meu Recoba provocou um alvoroço em sua zaga e colocou 2 x 2 no placar. Meu vizinho assustou-se: hoje você tá inspirado, não sei o porquê, mas calma que ainda tá no primeiro tempo. Só eu sabia por quê. Inexplicavelmente, consegui segurar o resultado. Eu mal pude acreditar que o jogo já estava no final (quando temos prazer não nos preocupamos com o tempo). Mas eu ousei, queria o improvável! Substituí Figo, o mais velho do time, e coloquei o jovem Adriano, o mais novo; tão novo que parecia uma criança perto dos outros. E foi Adriano que, após um chutão despretensioso, ficou sozinho contra o goleiro adversário. Meu vizinho e eu nos levantamos. De pé na frente da televisão 29 polegadas, parecíamos dois fiéis reverenciando um altar. Seu semblante era de desespero, porque eu finalmente poderia vencê-lo após quatro meses. Ainda há pouco eu era um adulto, pensando em como dar prazer a uma garota, e agora a vida se resumia a fazer valer a substituição do mais velho pelo mais novo, e, com os pensamentos novamente confortáveis dentro da cabeça, vencer aquele clássico italiano do Play Station, na lan house do Nino.

 

Jonatan Magella nasceu em 1990 e vive em Nova Iguaçu/RJ. Publicou Vidas irrisórias (contos, 2018) e Desculpe o transtorno (dramaturgia, 2019). Tem dezenas de contos em revistas e coletâneas nacionais. Organiza o evento literário Aleatórios.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Adriano B. Espíndola Santos

 

Imagem: Roberto Pitella

 

O tempo e minhas mãos

 

O tempo, que era meu aliado, virou vilão. A gravidade e o colágeno, também. O silicone, que tornava fausto o meu corpo, escorre sinuoso pelas nádegas e pernas, alojando-se, invariavelmente, nos tornozelos. Incham, e não me deixam andar; uma passada ao banheiro é um parto que nunca tive. O rosto é um enigma variável, meses sim, dias não, me apresenta novidades, com formas que despertam certos sustos ou surtos ao acordar.

As inseguranças lancinantes me agravam o peito, muito mais que a aparência. Marli falava, “a beleza… ah, a beleza é troço fugaz, menina, escapa feito um átimo de cocaína”. Escapou-me, lisa, sorrateira. Aliás, parece que me escapou. E aí? Sem bronca.

Aproveitei. Pode apostar que sim, aproveitei. E digo que foram dias de glória, regados a champanhe – né esses trens de mentira, que enchem a boca para dizer: “Champagne!”. Emergentes brazileiros são mesmo risíveis…

Sou estudada e tenho classe, mas, ao contrário do que possa pensar, nunca levei desaforo para casa – daí concluía a força da mulher que domou o mundo com as mãos. Só não fui precursora de Rogéria porque abdiquei do trono, por um sumo amor – que jamais poderia revelar, para não comprometer uma morte, quiçá, tranquila.

Fiz o que fiz, não me arrependo um segundo. Aguarei minhas vontades e desejos quando ninguém sabia o que era mulher trans. E aí? Sobrevivi, mon amour, digna, altiva. Apenas me atormenta o tempo, que corre ligeiro. Ah, não fosse esse maldito delay entre mim e ele…

Fui a prostituta mais querida, badalada nos recantos que percorri, Europa, sobretudo Paris; e ainda, pasme, recebo elogios velados ou rasgados de lá, do outro lado do Atlântico. Sinto-me viva, pelo menos. Aqui me olham com desprezo, como velha meretriz. Só aqui. Tudo bem. Olhar não arranca pedaço. Não mexendo comigo, ah, meu bem, aí viro bicho.

Estou tentando me aliar ao tempo. Damos voltas; uma hora vamos nos encontrar e correr juntos, lado a lado, até o fim dos dias, oxalá que sim.

 

 

 

***

 

 

 

Orientações para o embarque

 

No quadro de pendências, antes de viajar, como de costume, aponto uma série de medidas, as quais me incumbo de resolver, para que minha mente permaneça tranquila – em parte. Não sou tão metódica (ou excêntrica) como mãe, dona Germânia, que no mês anterior à viagem já tem uma “lista de afazeres”, com medidas “exóticas”, quais sejam, podóloga para arrancar os cantos de unhas; trocas dos mega hair e aplicações de unhas de porcelana; intervenção com a toxina botulínica ou, no popular, estiramento de rosto, para chegar “bem apessoada”, entre outras cositas más, que não vêm ao caso – vou evitar o embrulho na leitura.

Dessa vez, por disposição minha, vou de mala e cuia para Brasília. Definitivamente, Mauriti deixou de me comportar – para lhe situar, caro leitor, falo de uma pequena cidade do interior, do interior do Ceará.

Estou há meses conversando com o Inácio. Parece ser uma boa pessoa; sabe cozinhar, limpar a casa, essas coisas que todo homem deveria fazer. Na lida do sertão, no máximo, os homens aprumam uma porta quebrada, as telhas (se as tiver), um calço na mesa, pequenos ajustes, nada demais. É uma afronta à sacra masculinidade mandar um homem lavar a louça, arrumar a cama, por exemplo – onde já se viu! Meu pai saiu de casa por desgosto, segundo bodejou por aí. A extravagante senhora minha mãe começou a ganhar dinheiro vendendo pães caseiros. Montou uma minipadaria, com os trocados que ia juntando. Resolveu, por si, assumir as dívidas de casa – muitas –, e meu pai, como um sensato cidadão que é, mandou ela ir se lascar com o seu dinheiro: “Não sou homem para ser sustentado por mulher!”. Mãe acolheu a decisão. Não quis mais saber de homem nenhum; se fosse de prestar, dizia, teria de ser o pai. Para ela, o peso daquela masculinidade atrapalharia os seus planos. Feminista e não sabia.

De lá para cá, perdi gradativamente o contato com pai, “o ser humano mais humilhado da paróquia” – foi o que me contou por último, chorando. Eu até entendo, de certa forma, bruto como papel de enrolar prego, limitado e açoitado pela vida, não podia expandir muito. Há séculos o cenário se reproduzia igual, ali, homem manda e mulher obedece. Ainda bem que não resultou em morte. Nos arredores de Mauriti contaram-se, no último mês, três feminicídios – um dos motivos pelo qual vou me debandar daqui.

Parece que mulher é ameaça; é indignidade à existência do homem, “é pau para estropiar um cristão”, nas mesmíssimas palavras de pai, o velho Sebastião. “Mulher não é maldição” – tive vontade de dizer –, nunca aceitei isso. É uma fobia tresloucada, uma fragilidade sem tamanho, só pode, diante da imensidão que a mulher traz consigo.

 

 

O tempo da existência circunscrita à labuta familiar passou. Eu mesma me orgulho de dizer que já superei isso. Sou filha única, bem-criada por mãe, e pude estudar longe, em Fortaleza, de onde agarrei, com unhas e dentes, a oportunidade de me formar em Filosofia. Minhas primas, coitadas, foram excomungadas pelas mães à constrição marital, uma com quatorze e outra com quinze. Pegaram dois buchos, em seguida. “Pronto, estão desgraçadas; o ‘destino maligno’ as impôs cuidar dos filhos e da casa”, pensei. Dito e feito. Os canalhas dos seus maridos, já muito folgados na condição, volta e meia os encontrava numa vaquejada, numa festinha; e as mulheres ralando para amparar as crias.

 

 

Quando desembarquei em Brasília, Inácio veio me encontrar logo no aeroporto. Espiritualizada, senti-me abraçada; um sentimento pleno de outras vidas. Deleitamo-nos em conversas, que não paravam de gerar outras, e outras, num loop infinito.

Sei bem que naquele dia, 21/01/2011, cabalístico, vibrava entre a excitação, a novidade e o encantamento. Inácio, que não era bobo nem nada, quis me levar direto para o seu ap. Caí como uma patinha. Fomos. O local parecia mais um abatedouro, com roupas espalhadas por todos os lugares; até calcinha vi. Perguntei se havia mulher morando com ele. Num acesso de loucura, agarrou-me pelo braço e esbravejou: “Você chegou agora, mocinha, já quer ditar as regras?!”. Assustei-me, comecei a chorar de medo. Não tinha o que fazer. Portas fechadas, sensação claustrofóbica. Deu-me um pânico e comecei a gritar: “Abre essa porta! Abre essa porta!”. Ele, parecendo que havia caído em si, voltou do transe, soltou o meu braço e desabou na cama aos prantos: “Me desculpa, vai?! Fui demitido essa semana. Estou um trapo… Fica comigo?!”. A demonstração de total descontrole emocional do sujeito desconectou qualquer expectativa de relação e, sem olhar para trás, de cabeça baixa, despedi-me e saí, para nunca mais.

Passados sete meses, entre abusos e desaforos, consegui entrar pela porta estreita da UNB. Antes, muito antes, nem sabia que esse mundo chocante existia. Penso, absorta, como a vida deu uma guinada para o norte. Só dependeu de mim – obviamente, com o suporte inestimável de mãe – estar no Mestrado em Filosofia e Sociedade. Vou concluir o curso com a dissertação acerca do patriarcado e dos modos seculares de controle social, e pisar na cabeça do machismo. Agora sou eu quem vai estropiá-lo. Boa linhagem essa de mãe, benza Deus.

 

Adriano B. Espíndola Santos nasceu em Fortaleza, Ceará. Autor dos livros “Flor no caos” (Desconcertos Editora, 2018) e “Contículos de dores refratárias” (Editora Penalux, 2020). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem prosas publicadas nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

A interpretação dos sonhos de Dênisson Padilha Filho

Por Sérgio Tavares

 

 

Escrito em 1876, o conto “O sonho”, do russo Ivan Turgêniev, é considerado um arauto da modernidade psicológica, pois prenunciava, por meio da ficção, temas que seriam a base da psicanálise no século 20. Na trama, um jovem começa a ter sonhos repetidos com o pai, que morreu quando ele tinha seis anos. Os encontros são antecedidos por andanças pelo subconsciente, frequentando pessoas e cenários de composições substancialmente realistas. Até que, em meio a um festejo local, o protagonista se depara com o mesmo homem do sonho e planta-se a dúvida se está no mundo concreto ou dentro de uma produção onírica.

Turgêniev dosa, de forma impecável, a ambiguidade no movimento entre esses planos, fornecendo ao texto uma característica ímpar de tornar a assimilação do sonho narrado numa experiência muito próxima do que seria a de um sonho de verdade. Duas décadas depois, no volume “A interpretação dos sonhos”, Freud cita o filósofo alemão Karl Burdach para decifrar tal fenômeno na configuração de chaves que levam a coleção de memórias a simular os acontecimentos em estado de vigília. “Mesmo quando toda a nossa mente está repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de espírito e representar a realidade em símbolos”. Neste caso, sonhar nada mais é que prolongar o vivido por meio de representações. Os sonhos, invariavelmente, levam à vida comum, em vez de se apartarem dela. Em outras palavras, por mais transgressiva que possa ser a experiência onírica, sempre será uma amálgama do que foi experimentado internamente e externamente.

O baiano Dênisson Padilha Filho bebe desse conceito em seu mais recente livro de contos, “Um chevette girando no meio da tarde”. São 10 narrativas curtas, cuja matéria nuclear é o sonho em sua projeção difusa e sensorial, porém reproduzida a partir de uma mecânica na qual o desenho do cotidiano nunca deixa de ser como o conhecemos. Não se trata de alucinações ou experimentações insólitas, e sim de imagens de consistência estranha, embora familiar. O inusitado não se filia a uma percepção dilatada, mas a vertentes da interpretação do mundo no qual a frequência dos sentimentos se sintoniza a uma estática dualista, inclusive através de comentários sociais.

Vide “Barracão de enlatados explode no ar”, conto que abre o livro. Um sujeito, que participa de uma tal Festa do Mar, resolve ir a um bar gourmetizado e, enquanto toma uma cerveja, começa a enxergar a fauna local em sua forma antropomórfica: a beluga, o leão-marinho, a baleia branca etc. O autor trata essas manifestações psíquicas com um traço de humor, mas também usa desses arquétipos para criticar o comportamento forasteiro, a adesão do estrangeirismo na cultura e nos hábitos regionais.

O texto seguinte, “Livro de contos no painel de um velho Boeing”, evidencia a busca por uma qualidade estética, valendo-se das possibilidades pitorescas do sonho de modo a se criar composições visuais muitas vezes mais vigorosas que o próprio desenvolvimento do enredo. O narrador (sugestivamente um segundo eu do autor) descobre-se dentro de um velho Boeing da Varig, arrastando-se na pista em meio aos carros, enquanto atravessa a cidade. Trata-se de um insight narrativo que canaliza seu alto poder imagético para a discussão do desamparo do escritor diante do inevitável fracasso da escrita. “Talvez, cada um de nós seja esse avião obsoleto que não consegue voar”, conjectura.

Assim como Turgêniev, Padilha guia o andamento de suas tramas através de um senso de imprecisão entre o que é estado onírico e o que é estado de vigília. “Aqui vamos nós mais uma vez” e “Um chevette girando no meio da tarde” remontam o período do colégio, da infância plena, sobre a qual, segundo Freud, incorre, com mais intensidade, os sonhos de angústia, aqueles cujos “sentimentos desprazerosos nos retêm em suas garras até despertarmos”, representando “indisfarçáveis realizações de desejos”.

“Um amigo em dia com a moda” segue no tema da angústia, só que a literária, como que numa resposta desesperançosa ao personagem no interior do Boeing. “Nunca serão leões” lança mão outra vez do arquétipo antropomórfico para dar significado a uma alegoria sociopolítica, enquanto “As camisolas dos monges tibetanos” recorre a um teor satírico para falar de meditação, terapia junguiana e clichês literários, executando um inesperado movimento de metalinguagem que sugere o fecho de uma parte.

A coletânea se encerra com “Trilogia de sal e vento”, cujo tom naturalista e uma certa dissensão entre vida pedestre e voos farsescos trazem à memória o Copi, de “A Internacional Argentina”, e os trechos marítimos de “Um ano”, do chileno Juan Emar. O conto final, “Não são cavalos-marinhos”, evoca uma entidade mitológica de modo a construir uma metáfora sobre o quão penoso é tentar domar os galopes selvagens da criação literária.

Os sonhos de Dênisson Padilha Filho podem não ter enredos complexos, mas são enriquecidos pelo jogo construtivo da ambiguidade, plasmando um território onde imaginação e experiência direta do autor surpreendem ao trazer uma sensação de inconsistência no tratamento de temas tão objetivos. Combinam fugas visuais concretas com abstrações generalizadas, a partir de um impasse extraído do subconsciente que parece indagar: se, ao fim, o fracasso espera, por que insistir no sonho de ser escritor? Diante das possibilidades de tantas interpretações, penso que essa questão nem Freud explica.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.

 

 

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134ª Leva - 01/2020 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Giovana Damaceno

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Cama e mesa

 

A repórter se ajeitou no banquinho de madeira rente ao chão, enquanto Dalmira tentava controlar o choro para continuar seu relato. Levava ao rosto o lenço gasto e parava o olhar, perdido, a mirar o passado. Na face cansada e velha, apesar dos quarenta e poucos anos, escorriam as lágrimas expressivas dos sentimentos de uma existência. Firmino Neves morrera há nove meses; Dalmira agora já não frequentava o casarão do dono “daquelas terra tudo”, inclusive do pequeno povoado de Encruzilhada do Cipó. Mudara-se em definitivo para sua casa.

Chegou menina-moça na fazenda para trabalhar e, ainda que sem corpo de mulher pronta, deixava rastros de suspiros por onde transitava. Diziam que era feita de café com leite e açúcar queimadinho, devido ao tom da pele, e provocava lambidas de beiços na homarada, sem dar confiança para ninguém. Porém, o patrão Firmino Neves foi o único a provar o sabor de café com leite tão cobiçado em Encruzilhada do Cipó. Não apenas a tez morena, mas o balançar dos quadris e a voz de criança faceira que cantarolava pelos corredores nas tarefas diárias faziam o poderoso fazendeiro tremer de vontades. Firmino Neves se considerava dono dos empregados e logo determinou para si que Dalmira era sua pertença, sem se importar em quando lhe colocaria as mãos; seria apenas questão de tempo. Aguardou a potra arisca se acalmar sem pressa, para aprimorar a doma na cama; logo ficaria doce e fácil.

Assim, Dalmira se tornou mais uma entre as mancebas de Firmino Neves. Ganhou uma casa sua e passou a receber cinquenta dinheiros por dia para servir a seu senhor em meio aos lençóis e nos afazeres domésticos. Fora comprada e “bem-paga”, do mesmo modo que as outras, mantidas em cada sede. Dalmira cuidava pessoalmente da comida, das roupas, das botas, do quarto, dos banhos. Era presenteada com vestidos, brincos, pulseiras, colares, fitas de cabelo, teve a casa mobiliada e até um aparelho de som, no qual colocava suas músicas preferidas para tocar e rodopiava pela sala, quando Firmino Neves não estava ou não a chamava. Não levantava os olhos, respondia às ordens com ações, quase não falava. Como a ninfa Eco, condenada à maldição de apenas repetir a voz de Narciso, objeto de sua cupidez, alienava-se e enfurnava seus próprios desejos. Estava sempre pronta, arrumada e perfumada, pois Firmino Neves cismava de querer seus préstimos a qualquer hora.

Não teve criança; fora obrigada a entregar menino nascido ou a botar fora a cria, logo que lhe atrasavam as regras. Nunca saiu da fazenda, não conheceu parente. Nasceu criada, encarou a lida em troca de morar e comer, tornou-se amante de Firmino Neves e nada soube de si.

— Conheço ninguém, não, senhora, a não ser os daqui. Fico sozinha neste fim de mundo até morrer.

Sem pressa e em detalhes, Dalmira discorria acerca de seus dias ao lado de Firmino Neves a uma jornalista lívida. A matéria, pensada minuciosamente, contaria as experiências de mulheres do interior do país, que atravessaram a vida sob o jugo de seus coronéis, servindo-lhes a própria carne. A exemplo das amasiadas de Firmino Neves, muitas poderiam existir pelos cantões do país, e a revista seguia atrás dessas histórias.

A personagem escolhida para a primeira reportagem da série “Cama e Mesa” envelhecia rápido e prematuramente, contudo se conservava jovem no gosto de se mostrar enfeitada, de sombra nos olhos, vestido florido de saia rodada. A repórter acreditava que a trajetória de Dalmira seria perfeita para sua pauta – saturada de dor e tormento, coagida pela dominação, pelo poder, pelo dinheiro, pelo descaso de uma sociedade conivente com a submissão e subserviência femininas. Alheou-se à entrevista, imaginando Dalmira infeliz, dias e noites em claro, o anseio por ir embora, sumir dali, abandonar Firmino Neves para ser livre, ao lado de alguém que a honrasse e construísse com ela uma família em uma relação de amor.

— Saudade? – a repórter se deu conta de que escapulira em devaneios – o que disse?

— Que sinto saudades de Firmino Neves, sinto falta do meu homem.

— E o seu sofrimento nesse tempo todo? – perguntou a repórter, confusa.

— Que sofrimento? A vida não me deu nada, não, dona; Firmino Neves foi quem me deu tudo. Amei quieta, servi com gosto, recebi em troca mais do que esperei. Felicidade era ter Firmino Neves. Agora que foi embora, resta esperar minha vez e ir no encalço dele.

 

 

 

***

 

 

 

Pé de não sei quê

 

E o maldito pé de não sei quê enfim pendeu de vez, mortinho. Arqueou o tronco fino lentamente, perdendo sua força; tentou apoiar no muro, mas minha vontade que virasse um molho de folhas secas pareceu vencer o que lhe restava de viço. E ali está: acabado, sem chance de voltar a assombrar minhas lembranças e a se manter como guardião do jardim do amor eterno, como se agora me ameaçasse com sua presença muda. E feia.

Ele caiu. E com ele se foram as últimas lágrimas. As últimas que choraria de raiva, de humilhação. Agora o choro é de foda-se! Desabou o último representante de uma fase sombria.

Dez anos durou aquele arbusto. O mesmo tempo em que dividimos o teto, a cama, a comida, o chão. O mesmo tempo em que nos enganamos ou que eu me enganei. Era pra ser o símbolo da nossa união e da nossa felicidade. Foi o primeiro ser vivo a fazer parte do que seria um lar, em dia especialmente escolhido, com direito a ritual a dois. Recebeu o apelido de pé de não sei quê, pois não sabíamos nada sobre plantas, muito menos que nome teria a arvorezinha que levamos para a casa em obra. Ríamos disso.

O que nunca prevemos é que o mundo é real, com problemas reais e suas consequências. Com as mudanças, mágoas e rancores. Com a maldade pura e fria. Foi uma década de olhos baixos, sorrisos pela metade, concordâncias falsas, cessões por simples favor. E, ao final, o transbordamento de tanto desgaste pela via mais torpe: a violência.

Encaro o pé de não sei quê com ódio. O peso de significados que carregava o levou à queda. Eu não resisti, ele também não. Aguentei o que pude, levei a sério o que aprendi com o padre e com meus pais: segurar o casamento, pelo bem dos filhos. Balela. Tornamo-nos todos infelizes – eu, ele e eles – por não sermos capazes de dizer não. Eu não fui capaz de dizer não.

Confesso que dei uma ajudazinha: deixei que se virasse. Se chovesse, teria água; caso contrário, ah, que pena. Era frágil, o pé de não sei quê. Bem parecido comigo lá no início da história. Passei pela manipulação, pela pressão, pelo descaso, pelo abuso. Ele só teve sede e absorveu minhas vibrações negativas para que definhasse sozinho. Finalmente, parou de exalar seu perfume nauseante no fim da tarde.

Por que não o derrubei? Afinal, seria mais rápido me livrar da representação tão marcante dos meus dias de infortúnio. Porque preferi ser cruel. Queria vê-lo se dobrar diante dos meus olhos, vergar o que era altivo e vultoso, beijar o chão. Entregar -se.

Em pouco tempo o caule enrugou, as folhas amarelaram e começaram a cair. Mais uns dias e estava encurvado, até tombar de vez. Morte assistida e comemorada com o que de pior tenho em mim. Imagino que me olha com desprezo, enquanto o encaro com sarcasmo.

Era o que eu queria ter feito, meses atrás, mas não tive tempo, nem jeito. O ódio me faria a arrancar-lhe unha a unha, até ajoelhar e pedir perdão. O ódio que o surpreenderia na madrugada com o quarto em chamas, até sucumbir sufocado. O ódio a mim, por ter me submetido e suportado sem resposta. O ódio por tudo em que se transformou essa existência fracassada. O ódio que me moveu a fazê-lo pagar com a vida, sem sentir nada do que me fez penar.

 

 

 

***

 

 

 

Desenlace de Família

 

Aquele rosto me era estranho. Não porque jazesse inerte, dentro do caixão. Não porque, coberto de flores, não pudesse reconhecer-lhe o físico. Não porque cheirasse mal. A tez morena, avermelhada, feito índio; os cabelos brancos encaracolados; os lábios finos, sem curvatura, como se traçados num único risco de dois lápis. Aquele rosto me inspirava desprezo, somente. Não me interessava recordar dele vivo, pois à memória retornaria a expressão de fúria nas lides diárias ou descendo o cacete nas filhas.

Agora a carcaça do brutamontes estava cercada pelo choro das mulheres que subjugou. Não atinava como pessoas tão judiadas fossem capazes de lamentar a morte de seu carrasco. Olhei ao redor e não encontrei a caçula, a única das filhas que conversava comigo, a mais doce e cordata. Havia algo que nos unia, um laço entre almas. Não reagia às corretivas do pai, ao contrário, demonstrava afeto por ele, não manifestava revolta pelo tratamento opressivo, não chorava e nem reclamava pelos cantos. Apesar de castigá-la como às outras, Rejane era a única filha que contava com um mínimo de carinho e certo excesso de atenção do “tio” Cadô. As irmãs se ressentiam, enquanto a mãe notava a diferença, mas deduzia como preferência natural – quem não tem seu filho dileto? Compreenderia se qualquer das filhas faltasse ao velório, no entanto foi Rejane que não velou o pai.

E eu? O que estava fazendo naquela sala escura com cheiro de flor e vela, suor e café? Fora arrastada pelo meu irmão, Lucas, sem explicações; disse “morreu” e me tirou de uma festa para o velório. Não tivesse apenas treze anos e igualmente criada abaixo de porrada, teria questionado “E eu com isso?”.

Seria a minha primeira vez na quermesse, sem a mãe; a primeira vez de olhos sombreados e batom; a primeira noite com amigas. Combináramos de andar na festa de braços dados, pedir música e mandar mensagens aos rapazes pelo autofalante. Não poderia passar das dez horas, sob a ameaça da varinha de marmelo de papai, que me aguardaria na varanda, a contar os primeiros segundos de atraso. Como “tio” Cadô fazia com Rejane, papai me cobria de mimos exagerados, contudo não me poupava das sovas quando lhe convinha ou se me rebelasse contra seus afagos melosos.

Quis me afastar do caixão, porém meu irmão me segurava, e se mantinha contrito diante do corpo do homem que admirara. Temente a Deus, frequentava a igreja aos domingos, pai exemplar, bom provedor, trabalhador, honesto, corrigia esposa e filhas com precisão, educava com rigor, rude, tosco, grosso, mau, violento, cruel. Na verdade, não era parente nosso; amigo chegado de papai, fora escolhido para apadrinhar Lucas. Embora as duas famílias tenham se constituído praticamente juntas, até então, mamãe tolerava essa amizade em silêncio.

Não assisti ao enterro. Acompanhei o caixão sair no carro funerário, entrei em casa, do outro lado da rua, e emburrei. Sobre a causa da morte, passei muitos anos sem saber. No velório escutara rumores sobre um tombo da marquise e minúcias que não se arranjaram de modo lógico no meu raciocínio. Este mês faz dez anos que “tio” Cadô se foi. Também são dez anos sem ver Rejane, a filha que pagou na cadeia pelo assassinato do pai, com a paulada que o derrubou do beiral da janela, onde emendava um fio. Deve estar prestes a sair da prisão. Agora, se quiser, poderá viver. Eu escolhi fugir.

 

Giovana Damaceno é jornalista e escritora. Autora dos livros: “Mania de escrever” (2010), “Depois da chuva, o recomeço” (2012) e “Do lado esquerdo do peito” (2013). Membro da Academia Volta-redondense de Letras e integrante do Coletivo Feminista Literário Mulherio das Letras.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma pequena-grande amostra da condição humana: o originalíssimo impacto do conto “A História, um pouco de blush nas bochechas e um número tatuado no braço”, de Mário Baggio

Por W. J. Solha

 

 

O ancião que acaba de receber o Nobel de Literatura vai dar entrevista na TV, pelo que, antes, é encaminhado à maquiadora do canal. “Ela o cumprimenta, olha-o de maneira profissional e avisa que lhe aplicará um pouquinho de base no rosto e tirará o brilho da cabeça pelada e das mãos, ´porque em televisão uma pele oleosa fica horrível e desvia a atenção do que realmente importa´”.
Ponto pra ela: lembro-me – e o velho escritor também deve se lembrar – de que Nixon começou a perder a eleição pra Kennedy , em 60, pela pele oleosa, o descuido da aparência num debate em que teve de enfrentar o outro . Os que acompanharam a coisa pelo rádio acharam que ele fora o melhor. O outro foi eleito pelos que viram o confronto pela TV.

Bem.

Colocados Nobel e maquiadora em cena, Mário Baggio dá um show no diálogo.

– Sobre que assunto o senhor vai falar no programa?

– Perdão?

Você, como eu, vê surpresa e ironia na resposta à pergunta infame. Mas é apenas um problema de audição do gênio. Ela capricha na dicção:

– Qual será o tema da entrevista?

– Ah, isso. Será sobre um livro que escrevi, eu acho – e sorri, embaraçado.

– O senhor vai vender bastante, esse programa tem muita audiência.

Quando ela quer saber quantas obras ele já publicara, ele, pra simplificar a coisa, diz “muitos”.

– Mais de quatro? Mas então o senhor é profissional. Como se chama?

– Alberto – gagueja – Gerber;

– Gerber, Gerber. Acho que já ouvi falar.

O conto já nasce curta-metragem. Um bom ator maduro e uma grande atriz ainda jovem matariam o público de rir, a princípio, de emoção, em seguida. Principalmente porque tudo é extremamente real, convincente. José Saramago soube que ganhara o Nobel por uma TV de aeroporto. Olhou em volta: ninguém – fora ele – prestara atenção na notícia.

– Agora um pouco de blush – diz a maquiadora -. Pra mim, o blush é a maior invenção da humanidade.

Ela é uma figura antológica.

Mas vamos ao final, que só conto por que é um dos 63 do volume e já está no título. Como já vira até degola de crianças, nos outros, eu esperava, qualquer um esperaria algo na mesma linha – mas Mário Baggio mereceria estar no lugar do Alberto Gerber, por ele.

– Agora vou maquiar um pouquinho as mãos. Pode arregaçar as mangas? Assim não mancho os punhos de sua camisa.

– Ah, sim, claro – o escritor levanta as mangas até os cotovelos. Tem as mãos trêmulas. Bia percebe e o ajuda. Interrompe o gesto, admirada.

– Ah, olha só. O senhor tem uma tatuagem, que moderno! O que é? Simboliza alguma coisa?

– É só um número… – o escritor responde, com um fio de voz.

Baggio resume toda a tensão do Nobel com aquele “tem as mãos trêmulas” ao arregaçar as mangas e, agora, ante a total desinformação da moça a respeito de uma enorme tragédia humana, ainda com sobreviventes: “É só um número… – responde, com um fio de voz.”

Depois do punhal enfiado, o contista revira-o no peito do leitor e do personagem:

– Um número. Que original! Eu também tenho uma tatuagem, pequenininha, no ombro – afasta a alça do sutiã e mostra a ele.

Batido o prego, o reviramento da ponta:

– Se eu fosse o senhor, faria uma igual, no braço esquerdo, pra ficar simétrico.

 

W. J. Solha nasceu em 1941. Escreveu romances e poemas longos premiados nacionalmente, trabalhou em filmes como O som ao Redor, pintou cento e tantos quadros, montou peças de sua autoria, foi parceiro de grandes compositores, continua na ativa.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

No tempo da delicadeza

Por Lima Trindade

 

 

Publicado pela Patuá em 2018, Por assim dizer recusa neons e maneirismos. O livro vai na contramão de boa parte do exibido nas páginas das redes sociais e nos estandes das livrarias em que as capas das publicações precisam desesperadamente chamar a atenção de um público não mais tão interessado em atributos como discrição e  elegância. Basta ver a predominância de best-sellers nas vitrines, suas capas carregadas de cores berrantes, seus títulos ofensivos (tanto pela gratuidade do uso de palavras de baixo calão quanto pela “originalidade” de sua poesia). Perto deles, Por assim dizer soa prosaico demais, dito quase como um sussurro para não incomodar a sensibilidade de seus possíveis leitores. No entanto, observemos que a utilização da locução por assim dizer enquanto nome da obra também guarda uma valiosa declaração de intenções, uma não aceitação de um único modo de se ver e se falar sobre as coisas do mundo, uma necessidade de relativização (e reflexão) que julgo extremamente bem-vinda para nosso cenário cultural contemporâneo.

São 16 contos a compor a primeira parte e a reverberar numa segunda. São 16 contos que tratam da condição humana num cenário muito, muito, muito próximo ao que vivemos, presenteando-nos cada um deles com uma centelha de emoção que jamais esbarra em pieguismo, retórica maniqueísta nem pirotecnias linguísticas.

Os temas são variados e estão divididos em “Dos amores”, “Das dores”, “Das viagens”, “Das memórias” e “Das paragens”, desdobrando-se em muitos outros subtemas e situações de conflitos em que os protagonistas lidam com diferenças sociais, violência, desamor, sonhos, esperanças e perdas, as personagens agindo e reagindo como seres autônomos, vivos, senhores e senhoras do próprio destino, muitas vezes nos surpreendendo por suas escolhas e pontos de vista únicos.

Yara Camillo nos faz adentrar a mente de um criminoso quando ele aplica um golpe por telefone num velhinho, permite que acompanhemos os impasses de uma mãe excessivamente protetora em admitir a escolha amorosa do filho, que compartilhemos as alegrias etílicas de uma sem-teto que não sabia rezar, o choro de uma cafetina pela morte de uma das suas protegidas, o pavor que um notório malandro tem de noites de temporal e escuridão, a estranha e compulsiva relação entre uma fã e uma escritora novata e, até mesmo, lança um petardo contra a indústria farmacêutica em sua ânsia monetária.

Esses são alguns exemplos que demonstram vividamente seu interesse em entender de maneira mais profunda a sociedade em que vivemos, mas que seriam vazios se ela não potencializasse a linguagem a seu favor, se não fizesse da técnica uma aliada.

Yara Camillo é adepta da economia verbal. Ela sugere muito mais do que afirma, mostra muito mais do que conta, diz muito ao dizer pouco. Segue o caminho dos mestres, sobretudo Tchekov, Cervantes e o uruguaio Juan José Morosoli, na delicadeza com que constrói suas cenas e explora a tensão de experiências aparentemente banais, assenhorando-se de um tempo com um compasso menos apressado, muito menos leviano. É o que constatamos na abertura de “Duas vias”:

“Ele abria a porta do carro para que ela entrasse.

− A velhice dando passagem à juventude?

− Não: a sabedoria dando vez à pretensão.”

Já neste começo entrevemos o jogo de poder entre o casal, a provocação inteligente, a sedução, o humor, os embates que terão no futuro.

“Com fatos banais e incidentes corriqueiros é possível entrever toda a transformação de uma vida passada a limpo”, diz Arlete Cavalieri ao comentar a síntese poética da narrativa de Tchekov, acrescentando ser essa vida “fragmentária, sem relações imediatas de causa e efeito, sem respostas definitivas aos conflitos e predisposta ao inesperado e ao inexplicável”, juízo esse que se adequa perfeitamente a Por assim dizer, um livro que se presta a mais de uma leitura e não se rende à pressa dos relógios nem à brutalidade das cifras dos mercados. Sua arte está inserida num tempo outro: o tempo da delicadeza.

 

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Lima Trindade é escritor e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Bahia.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Viviane de Santana

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Emergir

 

Creio que eu tinha vinte e dois, vinte e três ou vinte e quatro anos. Eu pulava do trampolim de cinco metros, pulava e voltava, competia com os garotos, ficava na fila e pulava de novo. Eu estava me divertindo, nunca aprendi a nadar direito, nado do meu jeito, sem controlar a respiração, mas mergulhar não é problemático pra mim.

Então, ele me disse, “se você consegue pular do trampolim de cinco metros, você também pula do de dez metros.” Ele estava deitado na toalha, em cima do gramado.

“É mesmo?! Tem certeza?”

“Claro!” Fiquei alguns minutos na dúvida e, sentada ao lado dele, mirei a prancha de dez metros.

“Então vou pular. Por favor, fique olhando, se acontecer alguma coisa, se eu demorar muito pra emergir, você já sabe, estou me afogando, e você tem que vir me salvar.” E lá fui eu pular do trampolim de dez metros. Subi as escadas, subi as escadas, subi as escadas. Esta foi a primeira diferença que eu percebi: havia bem mais escadas para subir. Cheguei lá em cima e me dei conta da segunda diferença: não havia ninguém ali. No trampolim de cinco metros eu tinha que ficar na fila esperando os moleques se jogarem. Na fila era uma algazarra, falatório, risos, e minha paciência. No trampolim de dez metros eram apenas eu, a solidão e o silêncio. Estranhei! Mas agora eu estava ali, naquele lugar alto e vazio, como se não  pertencesse à piscina, como se fosse um território proibido. Algo perigoso e ameaçador pairava no ar, mas eu não sabia identificar ao certo. O vento era mais forte e arrepiava a minha pele molhada. Ao caminhar pela prancha e chegar à ponta, olhei para baixo: tudo havia se transformado em pequeno e notei o quanto eu estava no alto, distante deles lá embaixo. Um frio suscitou no meu ventre e não era o vento. Pensei em voltar, se me recordo bem, cheguei a dar alguns passos para trás e parei. Continuei estudando a minha possibilidade e tentando captar de onde vinha aquela ameaça que pairava naquele exato ponto do planeta. Acreditei que poderia ser simplesmente porque eu estava só, lá em cima, ouvindo o silêncio. Voltei a caminhar para a ponta da prancha, meus dedos dos pés ficaram agarrados à beirada. Lá embaixo a voragem azul me mirava e eu mirava o azul da voragem. Olhei para a frente: metade do céu, alguns chumaços brancos de nuvens, as árvores verdes e a lanchonete da piscina -, pequenos e distantes. Olhei para baixo, comecei a me preparar para saltar. Pensei nas competições olímpicas, nas mulheres pulando e se rolando e virando no ar, e caindo n’água. Como elas fazem isso? Abri os braços, elas começam abrindo os braços. Me encarnei em uma nadadora olímpica. Eu mergulharia de cabeça, com os braços levantados para o alto, e ao mergulhar, eu logo faria a curva com o meu corpo para dar impulso para a subida. Mas eu ainda estava com os braços abertos me sentindo a estátua de Cristo Redentor, com a pele arrepiada do vento passando pelo meu corpo.

Levantei os braços para o alto, tomando cuidado para não tocar o céu.

Respirei fundo e me joguei.

A queda foi rápida e nada percebi do espaço, senti apenas quando meu corpo rompeu a membrana da água e a velocidade me empurrou para o fundo. Logo curvei meu corpo para o impulso. Comecei a subir sossegada. Eu tinha os olhos abertos e apreciava a luz na imensidão azul suave. E subi… e subi… e subi, mas eu não chegava. Eu nadava e nadava e não chegava lá em cima onde a membrana me separa destes dois planetas: o líquido e o gasoso. Aí, percebi qual o perigo de se pular do trampolim de dez metros: você afunda demais e precisa ter fôlego o suficiente para subir. Eu não tinha, meu ar estava acabando. Assustada, estiquei mais o meu corpo, me esforcei mais, aumentei a velocidade, me concentrei, reforcei os meus esforços e segui em direção à luz. No fundo da piscina, o silêncio continuou, como se tivesse pulado comigo, assim como a solidão. Eu movimentava as pernas e os braços o mais rápido que eu conseguia, empurrando a massa líquida pesada à minha volta e me concentrava para não perder a calma. Meus pulmões queimavam de tanto segurar o ar e por falta de ar. É assim que se afoga, pensei! É assim que se morre! A solidão e o silêncio, que me acompanhavam desde o alto do trampolim, me proporcionaram uma estranha tranquilidade azul celeste. A luz que se movia e cintilava no avesso da membrana, parecia uma entrada redonda para a salvação. Era apenas o sol distorcido pela cor e pelo movimento d‘água.

Eu movimentava as pernas e os braços me esforçando ao máximo. Quando, finalmente, consegui emergir, eu estava sem ar e sem forças, e no primeiro aspirar pensei que fosse engolir o mundo -, o reverso do trampolim solitário e mudo lá no alto, as pontas das árvores, as nuvens brancas, o azul do céu inteiro, o sol estrelado… Eu necessitava engolir ar, respirar,  simplesmente respirar, mas meu corpo amolecido pelos esforços, meus braços e pernas não podiam mais e, sem forças, eu podia afundar de novo. Boiei. Sempre que estou nervosa e prestes a naufragar, eu boio. De novo meus braços abertos, como um Cristo crucificado. Sob mim o ciano do céu.

Eu normalizava a minha respiração, apreciava o oxigênio. Se algum moleque passasse por mim nadando estabanado, eu perderia o controle e afundaria. Um recém-nascido demanda cuidados, ele é frágil e indefeso. Eu era uma recém-nascida. Mas eu não podia explicar isso aos moleques desastrados, eu precisava agora encher meus pulmões. Por sorte, nenhum deles passou por mim, rindo e espirrando água para os lados, agitando a superfície. Eu estava sozinha neste trecho da piscina, a água lisa me sustentava como no leito de um berço.

Aos poucos consegui movimentar os braços e nadar de costas quase até a margem. Com os pulmões cheios me virei e dei algumas frouxas braçadas: alcancei a beirada, me segurei e atingi a escada, subi e saí da piscina caminhando insegura e meio tonta.

Me aproximei dele e o repreendi veementemente, “que grande irresponsabilidade a sua me falar que eu podia pular da prancha de dez metros, eu quase morri!”.

Ele, que esteve o tempo todo deitado na toalha, e nem me viu pular, apenas disse: “mas você está aqui. Você conseguiu!”.

 

 

 

***

 

 

 

No meio do inferno

 

Ele e seu primo foram passear no final da tarde, nas férias de verão, na trilha à margem da floresta avacalhada porque estava sendo desmatada para construírem um balneário. A trilha fazia parte da antiga rua, agora havia a autoestrada logo mais acima e a mata tomou conta do caminho de terra. Eles gostavam de caminhar nesta parte selvagem, desabitada, onde somente alguns raros automóveis passavam na estrada de areia e terra. Andavam descalços carregando as sandálias nas mãos. À volta, os pássaros piavam, os insetos zuniam, os sapos coaxavam e o verde escuro deixava transparecer os raios de sol fraco. As árvores não eram altas e cresciam intactas em um trecho; em outros, elas tinham sido desmatadas. Na mata densa, cobras, lagartas, aranhas e borboletas podiam ser vistas escondendo-se. As formigas formavam longas fileiras na areia fofa. Outros insetos desconhecidos habitavam aquele mundo. De vez em quando eles se deparavam com um corpo no solo e interrompiam o passeio para buscar um pau e mexer no morto. Virava para cima e para baixo, observavam a estranha couraça ou a pelugem, as antenas, as asas, as patas esticadas, e seguiam. Alguns répteis faziam ruído na folhagem ao saírem correndo assustados quando eles passavam falando alto. E eles se assustavam com o susto dos bichos.

Chegaram ao trecho onde ficava a antiga ponte. Mas ela não estava mais ali, apenas o seu esqueleto. Eles acreditaram que podiam atravessá-la. Assim cortariam caminho pela praia e chegariam em casa antes da tempestade. No canto esquerdo do horizonte nuvens escuras confabulavam. Ele foi na frente. No começo da ponte a madeira estava boa, quase no meio, quando ele passou com o primo atrás de si, a madeira rompeu-se. O primo não pôde continuar e regressou. Ele ficou no meio da ponte, entre um buraco e o outro mais adiante, que ele só viu agora. Lá embaixo o rio negro passava com as tranças da correnteza veloz. Do outro lado do buraco havia uma estreita estrutura de cimento dando seguimento à ponte. Ele tinha treze anos e não sabia nadar. Estava preso no meio do esqueleto da ponte.

— Você precisa pedir ajuda! berrou para o primo parado na margem.

— É, eu vou pedir ajuda! Mas primeiro eu preciso cagar! O seu primo gritou de onde estava.

— O que? Eu estou morrendo aqui e você precisa cagar? Ele retrucou irritado.

— Eu preciso cagar! O primo repetiu agitado e se escondeu atrás da moita ali perto.

Ele ficou sozinho, e não sabia se o seu primo precisava cagar porque estava nervoso ou porque não entendeu a gravidade da situação e tanto fazia quanto tempo ele permanecesse em cima da ponte. O melhor seria não contar com o primo para sair do apuro. Olhou novamente para o outro lado da ponte. Não podia olhar para baixo, a correnteza o deixava zonzo e o sugava. A tarde findava-se, a claridade do sol diminuía rapidamente, e as nuvens escuras se intensificavam e aumentavam. Reprovou a sua coragem. Nos passeios pela mata ele sempre saía andando na frente, enfrentando os répteis e os lamaçais. Agora parado imóvel sobre a frágil madeira ele chegou à conclusão que até o primo chegar em casa e pedir ajuda, já teria escurecido. Não havia luz elétrica ali. Seria breu puro mesclado ao ruído dos insetos. Além disso, os morcegos voariam raspando em seu corpo. Ele acreditava que não sobreviveria. Ele não sabia nadar, tinha medo daquela correnteza negra, do breu da noite e dos morcegos invisíveis.

Ele imaginava o seu primo chegando esbaforido em casa: “o Daniel está lá no meio de uma ponte quebrada sem poder ir para a frente ou voltar”.

— Que ponte, menino? Explica as coisas direito! A mãe diria. E depois da explicação confusa seus pais e seus tios sairiam em seu socorro, todos dentro do carro, munidos de faroletes, e seu pai dirigindo com dificuldade no caminho de areia. Talvez tarde demais! “Não. Eu não vou morrer”, pensou. E observou novamente a construção de cimento do outro lado, cogitando pular. Seria um risco de vida, ele sabia que precisava manter a calma e se concentrar e pular antes que a noite caísse como chumbo e então ele não enxergaria mais nada. Lá embaixo a correnteza passava indiferente. Mas ele podia morrer se pulasse tanto para o lado da viga de cimento quanto para a parte de madeira fragilizada. Talvez pular fosse mais perigoso do que se concentrar para permanecer em pé algumas horas, no escuro, esperando ajuda. Quem sabe os morcegos voassem essa noite para outro lado! E os insetos em solidariedade a ele zunissem mais baixo. Mas também o silêncio seria assustador no qual somente o murmúrio das tranças negras lhe chegaria ao ouvido. Era desesperador ter que escolher entre os diferentes caminhos ruins. Por que o seu primo precisava de tanto tempo? E se fosse o contrário, se fosse seu primo parado no meio da ponte e precisasse de ajuda? Como ele reagiria? O primo não seria tão sensato como ele; desesperado, ele provavelmente já teria caído na água. Mas por um momento ele pensou que em vez dele poderia ter sido o seu primo a estar ali. Ele tinha os mesmos treze anos e sabia nadar.

— Onde você está? Ele gritou para o primo e não recebeu resposta, apenas um pássaro gralhou e levantou voo por trás da copa de uma árvore.

Passados alguns minutos o primo finalmente saiu de trás da moita gritando:

— Eu vou buscar ajuda. Espera aí!

— E para aonde você acha que eu vou? Eu estou preso aqui. Ele respondeu irritado.

— Eu sei.

— Isso é muito sério. Vai correndo pedir ajuda. Eu não posso ficar aqui por muito tempo.

— Não se preocupe, eu estou indo. E a figura do primo desapareceu por entre as árvores e o matagal da trilha. Ele ficou só, ouvindo o ruído da água negra murmurando ameaçadoramente sob seus pés. Os pássaros haviam se calado e não mais voavam. Quanto tempo ele precisaria permanecer assim?

Ele precisava pular, sabia que era esse o único caminho. Seria uma questão de concentração, pensou ele, se se concentrasse livre e profundamente, conseguiria. E fixou o olhar na extremidade da viga de cimento, calculou exatamente onde pousaria o pé.

Durante alguns longos minutos ele pensou o que poderia acontecer, imaginou todas as possibilidade: bater a cabeça e morrer com a cabeça rachada ou cair na água e morrer afogado. O rio levaria o seu corpo para desembocar no mar. Ali na desembocadura o rio era raso e seu corpo permaneceria boiando na água escura misturada com a água clara e cheia de espuma do mar.

Ao longe, no horizonte esquerdo, na retaguarda, nuvens escuras já tinham se juntado em uma manada para desabarem em tempestade. E uma tempestade naquela região litorânea, depois de um dia quente, no meio do verão, significava vento forte, trovões ensurdecedores e inúmeros relâmpagos que se iluminavam intensos e tortuosos no azul cinzento do céu e toda a nervura das nuvens poderia ser vista no plasma sobreaquecido.

Ele precisava pular e sobreviver.

Concentrou-se em alcançar a viga de cimento com um pé (ali cabia somente um pé de cada vez), de forma nenhuma podia olhar para baixo. Seu olhar se mantinha firme para a frente, onde à sua volta as árvores, a montanha adiante, o horizonte acinzentado e uma risca de mar formavam a paisagem. O vento soprava cada vez mais forte. Em pé, sem ter onde se segurar, ele fitou mais uma vez as nuvens obesas marchando em sua direção. Pensou em se sentar, assim não se cansaria tanto e não ficaria tonto com o vento lhe compelindo o corpo. Mas imaginar as suas pernas penduradas em direção àquele negro vertiginoso passando lá embaixo lhe causou aversão. A correnteza maligna poderia criar braços ofídicos e lhe puxar pelos pés. Não, não podia se sentar.

Ele precisava pular.

O rio estava cheio e alargara-se, por causa da chuva dos últimos dias. A grossa correnteza fluía rápida, assustadora. O negro da água parecia com um rio de coca-cola, e, conforme o raio de sol e a profundeza da água, ele adquiria um tom avermelhado. A sua nascente ficava nas montanhas cujas silhuetas ele podia ver de onde estava. E ele não acreditava que a cor escura originava-se das raízes das árvores. Para ele aquilo era a urina daquelas árvores na montanha.

Ele precisava pular.

Escurecia muito rápido. Ele não conseguiria permanecer ereto e imóvel na escuridão. E os morcegos vinham à noite. Quantas vezes ele sentiu as asas de um passando rente ao seu braço nu ou ao seu rosto, quando estava sentado no muro do jardim, tarde da noite quente. Ele se assustava. A mãe lhe dissera para tomar cuidado, os morcegos mordiam, podiam transmitir doenças. Ele tentaria enxotá-los com os braços levantados e perderia o equilíbrio caindo na escuridão do rio.

E a tempestade o mirava. Os primeiros pingos grossos começaram a cair e explodiam em sua pele. Mas ele não podia se desesperar, o medo atrapalharia a sua concentração. Como em um alvo, os pingos lhe acertavam, molhavam a camiseta e o short.

Um sentimento forte de arrependimento lhe enjoava o estômago. Por que ele tinha que ter pisado nesta ponte? Por que ele foi o primeiro?

E de repente os pingos cessaram, também o vento forte parou de soprar e se transformou em uma leve brisa morna. Às vezes, isso acontecia, era o intervalo antes do dilúvio.

Ele precisava pular o mais rápido possível antes que chovesse ou escurecesse. Não podia esperar mais. Enrijeceu o corpo, fixou o olhar na ponta da viga de cimento, calculou a queda de seu pé direito exatamente ali. Convenceu-se de que conseguiria e concentrou-se.

Concentrou-se novamente.

E pulou.

O pé direito pousou no cimento duro, o corpo balançou desequilibrado, ele abriu os braços para recuperar o equilíbrio, e olhou para o horizonte a sua frente. A sensação de alívio transcorreu pelo seu corpo. Mas ele ainda não estava fora de perigo. E de forma alguma poderia olhar para baixo. Estava no começo da viga estreita de cimento, com os braços abertos como um Cristo Redentor caminhando com um pé meticulosamente atrás do outro, mantendo a máxima concentração.

E no final da viga havia mais um buraco entre a margem e a ponte.

Depois de toda a coragem e o risco para chegar até ali havia mais um obstáculo, faltavam poucos passos para ele estar a salvo e de novo o perigo a sua frente. Uma moleza de desânimo abateu o seu corpo, mas ele não podia vacilar.

A margem era um barranco escorregadio cheio de plantas gosmentas, e a água estava parada, suja de lama, de pólens e restos de plantas. Ele não podia cair ali, seria fatal, as raízes das plantas embaraçariam em suas pernas e o puxariam para o fundo lamacento. Mesmo que se segurasse nas plantas escorregadias, o breu da noite o mataria de medo sob o murmúrio da correnteza no meio do rio escuro como o inferno.

Ele precisava pular.

Novamente necessitava da concentração e do sangue frio. As taboas e as folhagens sussurravam com o vento. Repensar as chances que ele já tinha refletido até ali ele não queria e também não havia mais tempo. A penumbra cobria tudo de cinza. Ele precisava pular. Era assim que podia ser morrer, concluiu, apenas ir passear em uma trilha, na natureza, nas férias, em um final de tarde quente e cair em um rio. A morte não passava de uma brincadeira de mau gosto. Ele precisava pular. A tempestade estava no seu encalço, se chovesse enquanto ele estivesse caído na margem lamacenta, a correnteza alargaria-se e o atingiria levando-o consigo. Concentrou-se, ele precisava pular. Não cairia naquela água nojenta. Não podia cair ali. Daria o máximo de impulso. Ordenaria o seu corpo a voar alguns ínfimos metros, esticaria as pernas como um sapo na hora do salto. Nada o impediria de atingir o barranco e fincar os seus pés na terra firme. Concentrou-se. Esperou mais um momento e concentrou-se mais ainda.

Concentrou-se novamente.

E pulou.

E sentiu o pé carimbar a sua marca na parte seca e segura da margem, logo fincou o outro pé mais adiante e mais um largo passo. Estava salvo, nem sequer olhou para trás. A penumbra o envolvia e uma trilha seguia em direção ao mar. Estava livre, estava vivo, pensou correndo feliz naquele trecho descampado, de braços abertos para ele. Aspirou fundo o cheiro salgado da mata mesclado ao da terra e vislumbrou a silhueta escura da imensidão do mar. Estava salvo, estava livre.

Ao chegar em casa, encontrou o primo na varanda conversando com o tio. Tudo estava na sua ordem habitual. Seu pai e seus dois tios tomavam cerveja à mesa na varanda. O calor amolecia os gestos e a noite já tinha engolido as cores e os contornos. Nada revelava que eles tinham sido avisados, ninguém se mostrou contente ou aliviado em vê-lo.

Com um olhar intimidador, ele fitou o primo e o seu primo lhe revidou o olhar com expressão indecifrável.

Ele entrou na casa. As suas irmãs e os outros primos estavam na sala. A mãe e as tias terminavam de preparar a janta, na cozinha. Ele foi para o quarto onde se deitou de costas na cama e, com as mãos cruzadas embaixo da cabeça, mirava o teto no escuro, pensando que provavelmente aquela não seria a única ponte quebrada que necessitaria atravessar ao longo de sua vida.

Neste instante a tempestade desabou derramando gotas pesadas de água, o vento soprava veloz assobiando por entre as frestas de madeira e batendo na janela fechada do quarto, os relâmpagos iluminavam seguidos dos trovões estrondosos e ensurdecedores. Dentro da casa foi uma correria para fechar as portas e as janelas. O pai, os tios e o primo entraram carregando copos, garrafas e pratos de petiscos.

Do lado de fora a tempestade uivava como um monstro feroz, soltando raios e batendo a forte cauda de ventania.

 

 

Viviane de Santana (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Atualmente, vive em Berlim.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Héber Sales

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Sonhos

 

Meu pai faleceu há quase três anos, mas só recentemente desapareceu de vez deste mundo. Não lembro até quando, não faz muito tempo, ele ainda conversava comigo enquanto eu dormia – o sonho é lugar onde as pessoas realmente vivem.

Essa noite estive preso em um pesadelo, tentando me salvar de algo medonho, por não ter uma forma – faltava-lhe o nome. Só me senti um pouco mais tranquilo depois que Maya pariu corajosamente dois belos filhotes. O último deles me deixou intrigado, com o pêlo todo branco e uma única marca em forma de lágrima no canto do olho esquerdo. Uma palavra me distraía, não soava bem naquele verso, e isso ainda me aflige um pouco. As traças estavam terminando os poemas que o meu pai escrevia e nunca foram publicados. Ele não apareceu para comentar nada. Achei estranho. Tem sido assim nos últimos dias, parece ter experimentado a sua última morte.

 

 

 

***

 

 

 

A Vigília

 

O sol já estava se pondo. Iuri atravessou o jardim, caminhando lentamente em direção à rua. Seu cão pastor acompanhava-o quieto.

Talvez o companheiro tivesse adoecido, talvez ambos estivessem tristes somente. Esse dia parecia com o fim do mundo – não por uma catástrofe, mas como uma vela que se extinguisse aos poucos: logo não haveria mais sombras, tudo se apagaria.

Adiante deles, entre os telhados, viam crescer a mata que separava a vila das extensas plantações do vale lá embaixo. Em sua orla, os eucaliptos mostravam-se ainda mais altivos contra o céu derrotado.

Os dois continuavam andando para dentro da noite. Não lhes interessava mais o dia. Uma velha lâmpada incandescente havia se acendido no limite da brenha escura. Embora frágil e vacilante, estava pronta para a longa vigília.

 

 

Héber Sales nasceu em Pernambuco e reside em São Paulo, onde atua como professor e publicitário. Seus poemas, ensaios, prosas  e entrevistas têm sido publicados em periódicos como Germina, Cronópios, Mallamargens, Digestivo Cultural e aqui, no Diversos Afins. Alguns textos seus também podem ser encontrados no blog coisas para fazer com palavras.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa I

Kátia Borges

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Por um bunker

 

Sem saída, empreendi esta fuga. Havia uma ladeira no caminho para o trabalho, e aquelas árvores já conhecidas suas. Passei por elas feito um foguete. Parei rapidamente no mercado para retomar o fôlego e então segui em disparada, sempre em frente. Onde daria, não sei. Só queria estar ainda mais longe. É que, de repente, até minha cidade se tornara sua. E eu já não suportava mais estas paisagens. Nem mesmo o mar, o muro do mar. Foi quando decidi optar pelos livros, onde já me abrigara com sucesso tantas vezes. Olhei minhas estantes de universo, quantos seiscentos e tantos enredos a esperar por este personagem. Tal o desespero, que cabia até em a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Me encaixava em Benjamin sem eixo. Firme em não desistir, ainda que as pernas quase não aguentassem o peso, do corpo que se movia e se movia e se movia. Tal o desespero que cabia em diante da dor de Susan Sontag. Neste, só por ironia. Insone. Lendo e relendo Fante. Autômato do pensamento, rumo às teses que me sustentariam, espécie desajeitada de esqueleto. Pensei criar ali um bunker como o de Hitler. E enquanto as tropas aliadas não o destruíssem, de lá comandaria meu exército. Fechado em mim, sempre correndo, parei numa praça, revi o gramado e as flores. Havia minado o gramado, esmagado com meus pés as flores. Sentei um pouco em um de seus bancos de concreto, neoconcreto, mas sem sintaxe. Talvez ninguém me alcançasse. Ali, invisível, silencioso como se não existisse. Como alguém que prende a respiração para mergulhar e simplesmente esquece. Como quem entra num automóvel, a máquina imóvel segue rumo imprevisível. Confiaria. Em nova pausa, parei ofegante a olhar os folhetos coloridos na vitrine de uma agência de viagens. Para onde? Haveria certamente algum destino. Qual era mesmo o nome da ilha ao meio-dia? Aquela nossa ilha ao meio-dia. Você sabe. Todas aquelas coisas que julgara nossas e que foram apenas minhas. Ilusões pedem perdão. Só assim se consegue ir adiante. Mas sem parar é quase perto, quase. Se mais corresse, é certo, se mais e mais e mais corresse, quem sabe, finalmente me aproximaria. Após cruzar este país inteiro, chegar à rua em que você vivia.

 

 

 

***

 

 

 

Um verão invencível

 

A espera da chuva me comove. A frase soou como se eu houvesse proferido uma heresia antes. Falei que um dia de sol faz esquecer que a morte existe. Pensava nisso aquela tarde, caminhando no condomínio, quando a tempestade veio. Tão forte que parecia que o universo inteiro chacoalhava por dentro. A chuva me deprime, pensei em silêncio, adiando alguma intimidade. Não queria contar a ela sobre a casa da infância. Papai amarrando um plástico com barbante, abaixo do teto de telhas vãs, sobre nossas camas. Ficávamos vigiando enquanto a bolha enchia de água, até os olhos não aguentarem. No dia seguinte, mamãe mergulharia as pernas na enxurrada, tentando salvar os móveis. Sentia vergonha ainda. Nada denunciava minha expertise, quando via famílias que perdem todas as suas coisas. Não havia razão para dizer a ela que fui uma dessas crianças pobres que temem a chuva ou entregar em suas mãos algo que me revelasse. Uma distância sóbria seria nossa ponte, de preferência tão longa quanto Danyang–Kunshan. Que aquela moça ficasse em Xangai e me deixasse quieta em Nanjing. Mas então ela se aproximou da sacada da casa onde estávamos, por um desses acasos imprevisíveis, porque havia um jardim de inverno, e seus dedos finos desenharam no ar, próximo da minha cabeça, o que imaginei ser uma pequena árvore. Observava, lá fora, o céu cinzento, certamente comovida. Logo, logo, choveria. Tristeza, às vezes, é pesada feito nuvem. Um retrato sem profundidade. Era assim que desejava que me visse. Foto impressa em papel, apenas imagem. Como um desses perfis que expõem nas redes sociais. Talvez, no verso, uma frase inteligente, um aforismo de Nietzsche, algo que a impressionasse. Tudo menos que soubesse a penúria das janelas de madeira sem vidro, a fragilidade da porta de madeira, cheia de buracos, por onde imaginávamos espreitar-nos algum olho, e os ratos. Nunca falaria com ela sobre os ratos, sobre como convivera com os ratos. Temia que morresse de medo ou de ternura. Quem sabe o que uma coisa como aquela despertaria? Notei que ria, distraída, diante dos primeiros pingos. Um abismo crescia na forma como víamos a aproximação da tempestade.

 

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

 

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127ª Leva - 05/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa I

Dheyne de Souza

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

Ana, uma promessa

 

Eu sempre quis ter uma casa. Mentira. Na verdade sempre tive pavor de geladeiras fogões sofás essas coisas pesadas que querendo ou não atrapalham a gente a mudar. Se eu pudesse, se eu pudesse mesmo, era outra. É o que tento fazer todos os dias. Do mesmo jeito que todos os dias vejo as pessoas fazendo isso. Feliciando-se. Feliciando-se é quase que como emulando-se, estuprando-se, niilando-se, só que com a boca levemente curvada não rindo mas sorrindo. Aprendi na tv. Foi mesmo. Não vejo muito tv. Mas às vezes aprendo. Já fiz arguição sobre isso.

Eu quase nunca me apresento, não é uma falta de gentileza ou um esbanjar de arrogância, só. Odeio justificativas. Mas meu nome é Ana. Como sempre, vocês já devem estar sacando. Estou na verdade pensando que história conto ou invento sobre a minha vida. Há pontos de vista demais em mim.

Quando me pego pensando, acaricio meu lábio. Na verdade esse não é um hábito meu. Nunca fiz até então. Mas vi um dia. Um apartamento de Santos. Ela olhava o mar pela pequena fresta dos prédios. As pessoas conversando bebendo fumando rindo muito ao redor. Mas ela estava sozinha, com um ar francês. Ela de fato era da França. E eu do sofá fiquei olhando. Ela tinha as curvas bem finas dos lábios. E essa paisagem era realmente um campo no outono em algum lugar da minha memória europeia de películas. O olhar cor de nórdicos levemente parado. Quero dizer que se movia lentamente como se estivesse sugando não o mar da noite, mas subindo sorrateiramente pelas curvas das janelas. Às vezes inventava obstáculos nos lábios, acariciava-os com força e depois com leveza. Raramente o sentido anti-horário. Depois de um tempo, soltava a mão das montanhas finas. Parava no ar como se segurando entre os dedos um fio de ar. Exatamente isso porque eu podia ouvir dali seu som, um vento. Ela também levantava o pescoço. Digo, o queixo. Porque era mais belo. Às vezes alguém chamava seu nome. Ela virava a cabeça de lado, abaixava até o ombro e sorria, mas estava mais sentindo o cheiro do amaciante da roupa. Mas não me lembro como se chamava. Levemente da sua voz dizendo uma coisa que até hoje tento entender por que, e me arrependo de não ter perguntado. Nunca mais vou saber. Tinha um som de leite a voz dela.

Talvez assim funcione bem. Contando desse jeito, vocês entenderam, não foi? Posso fazer um trato, prometer a verdade, ainda que o caminho seja bem mais longo e com fissuras nas pontuações.

Esses momentos são mais tensos, não gosto. Vou pensar em uma história pra contar. Depois volto. Engraçado que quando voltei fiquei pensando um bom tempo se voltava e apagava um pouco ou se não. Idiota isso, mas sincero. Se é que se dá crédito ao mas depois de vírgula, hoje em dia. Quem é que sabe correr de justificativas.

As coisas ficaram mais difíceis. Minhas histórias das histórias diminuíram com o tempoa vidaacontaalamaoremoacamaaporradacultura.

Como as pessoas conseguem escrever fumando, me pergunto.

Eu digo, na minha cabeça mesmo. Eram mais ramificadas, digamos.

Não que eu não lembre. Assim, não muito cronológica e ordenadamente. Muitos buracos. Há espaços em branco impenetráveis. Talvez nem com a psicanálise. Aprendi muito bem como cerc(e)á-los.

Hoje, especificamente, não é um dia muito bom.

Uns dias atrás alguém buzinou e não soube se era para mim. Esse tipo de não resposta que fico guardando na memória. Não exatamente nessa proporção. Tentei ilustrar. Preciso pensar em alguma coisa rápido.

Às vezes me pego pensando que, se não fosse a Bíblia, eu teria me suicidado na adolescência.

Menos, bem menos.

Meu nome é Ana. Não tenho filhos, não tenho ninguém. Quase um aforismo.

Quem sabe na próxima tentativa eu possa ser melhor.

 

 

 

***

 

 

 

Cidade quente

 

A cidade quente gemia. Madrugada de final de agosto. A Avenida Goiás. Rua de sombra, de vapor, de um galho quebrado. Outro. Mais perto. O vento, ela pensava. O vento, na verdade, ia se aposentando aos poucos nessa época do ano. As folhas ao vento, dizia bem baixo. Quebrando galhos? Poderia parar, mas a possibilidade de ouvir o som mais perto, o som mais rápido, o som mais real, não. Uma moto passou tão devagar que escondeu o grito do galho. Mas foram instantes. Ela sequer olhou. Não estou com medo, tremia. O frio da madrugada na cidade quente é uma espécie de hálito móbil. Arriscou levantar os olhos do all star preto puído para uma fachada de prédio art déco. Se fosse outra cidade, todos tirariam fotos. Mas na cidade quente a gente se acostuma a olhar sapatos, anúncios, smartphones. Ela apertou a mão no bolso da calça jeans, mas desistiu das horas. Perdeu a contagem da proximidade do som do galho. Mas ele vinha. Sem certeza, atravessou a rua. Os bancos da avenida chamavam. Foi uma das primeiras avenidas que conseguiu identificar quando se mudou. Tinha 16 anos? Foram os bancos da Avenida Goiás. Os transeuntes da Rua 4 empatando os sebos. O Eixo Anhanguera cavando o sol no asfalto. Mas agora era madrugada e o asfalto urrava mudo. Tivesse coragem, molhava a mão na fonte onde tanta gente já se banhou. Mas faltavam só quatro quarteirões para subir pro apartamento, fumar um cigarro, tomar uma tequila ouro e fotografar da janela a memória do medo do som do galho na velha Avenida Goiás. Tinha o hábito de olhar o chão, o resto que fica no chão. E na cidade quente o chão é rico de história. Já descobriu pilhas, anéis, tickets, moedas, suores, seus relicários. Por isso cometeu o deslize de diminuir demais o passo. Era o braço de uma boneca. Não se abaixou para pegar porque sabia que estava muito perto tanto quanto não sabia que. O acaso? A última lembrança poderia ter sido o braço da boneca. Mas a mão no seio na calça em todos os seus buracos acordou de gritos alguns galhos que ainda não pegaram no sono no alto dos prédios cansados. Na Avenida Goiás, que lástima, logo agora que estava a dois quarteirões de casa.

Foda-se. Era só no que ele pensava enquanto andava mais rápido. Atrás da garota de blusa de alça. Poderia correr, mas. Foda-se. Uma moto quase. O cabelo dela tremia. Era bonito isso de os braços se abraçarem como se fosse frio naquela cidade de fogo atravessando a rua. A madrugada é uma solidão sem fome. Quando o braço da noite desliza. Se Deus quiser que assim seja, ela vai diminuir o passo.

Uma garota na Avenida Goiás sendo seguida, mas isso são horas. Vou devagar. Se ela estiver sem sutiã, não posso fazer nada, as pessoas precisam aprender a viver. Ela não tem a capacidade de olhar pra mim e pedir ajuda. O cara também nem me parece uma má pessoa. Agora quem procura acha. Quer saber foda-se.

Até pensei em chamar a polícia quando vi lá embaixo na Avenida Goiás aquela moça que parecia uma boneca quebrada, devia estar com um medo enorme, se fosse eu correria. Ou eu mesma vou. Mas com a dor que estou nas pernas até eu conseguir descer não vou sequer ver o que aconteceu. Ai meu deus uma moto. Hoje em dia moto é uma coisa que não dá pra aguentar nessa cidade. Se eu estou na rua à noite, mas não tão tarde, e passa uma moto, eu já mudo meu destino, sei lá. Nunca se sabe. Antes prevenir. Ela atravessou a rua, graças a deus vai dar tudo certo. Espera. Como assim, minha filha? Agiliza. Sai daí, sai. Ai meu deus do céu, misericórdia. Carlos André, acorda, me dá o remédio, corre! Esse calor do cão.

Adolescente é estuprada e morta na Avenida Goiás na madrugada desta terça-feira. Sem testemunhas no local, polícia segue investigação. Prefeito promete reformar asfalto. Os ipês-rosas estão morrendo enquanto florescem os ipês-amarelos. Bala perdida mata motociclista no centro. A temperatura continua alta na capital.

 

Dheyne de Souza está em Goiânia-GO. Tem um livro de poemas publicado (“Pequenos Mundos Caóticos”, PUC/Kelps, 2011). Em breve, lançará o livro, também de poemas, chamado “Lâmina”s (Martelo Casa Editorial). Publica poemas, prosemas e e-books no seu blog. Tem um canal no YouTube, em parceria com Helô Sanvoy, com leitura e vocalização de poesia.