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118ª Leva - 03/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

PERFIS DE UM PINCEL HONESTO

Por Nicolau Saião

 

Aníbal e as moscas filósofas

 

Arte: Nicolau Saião

 

Estava há sete semanas naquele quarto de hospital e principiava a chatear-se.

Todos o tratavam muito bem – alguém lhe emprestara mesmo uma telefonia – mas o certo é que começava a sentir-se ligeiramente aborrecido.

Não era que a enfermeira não lhe trouxesse a comida quentinha a horas certas, nem que o dr. Varela lhe faltasse com a sabedoria médica. Não. Toda a gente era realmente muito simpática, mas ele principiava a ficar um bocado… frio.

A partir da terceira semana começara a segredar para si próprio ideias que apanhava ao calhar. E, caso estranho, pensava, pensava muito, pensava como nunca havia pensado: pensamentos gordos, mesmo suculentos, que lhe deixavam na boca um sabor esquisito e galopante, como se fossem comboios molengões andando sobre carris podres. Não estava a gostar nada daquilo.

Além do mais, de noite o quarto enchia-se de vagas correrias, vagas risadas…

Virou-se para o outro lado.

O pára-choques apanhara-o exactamente em cheio no sítio onde as costelas dizem adeus ao estômago. Acordara depois, de súbito, numa cama descompassada com formigas e abelhas a passearem para baixo e para cima a toda a altura do esqueleto, suaves, venenosas. A cabeça muito bem entrapada repousava virtuosamente sobre uma almofada branca. Em volta, tanto quanto se lembrava, uns fantasmas abusadores deambulavam num leva-traz peculiar zurzindo o ar ambiente com uma lengalenga que nem por ser em voz sumida era menos estarrecedora.

Depois foi-se habituando.

O dr. Varela chegava ao crepúsculo, ou ao nascer do sol, com os óculos muito calmos e mudos a apontar na sua direcção: pegava-lhe no pulso, rosnava sabiamente, abanava a cabeça e, antes de sair, escrevia qualquer coisa num papel. Ele por momentos pensava que o dr. Varela tinha um pacto secreto com o seu aborrecimento, mas está-se a ver que era só impressão.

A enfermeira, como é natural, vinha mais vezes. Tinha um nome impronunciável, olhava aos ziguezagues e era magra e penugenta. Cheirava a relógios bem lubrificados e nunca se ria. Também não devia ter de quê, pensava ele, mas tudo aquilo lhe fazia nervos.

A enfermeira era ferozmente cumpridora. Uma boa profissional: puxava-lhe a roupa para o pescoço se o topava destapado, metia-lhe pastilhas entre os beiços, a horas correctas ajudava-o a assoar-se e a fazer mais coisas. Enquanto ele teve os braços em gesso, deu-lhe a papa com um clarão de bondade nos sobrolhos perfeitamente assustador.

O termómetro que sempre transportava no bolsinho da bata constituía uma realidade imprópria.

Saía depois de o olhar com satânico interesse enfermeiral. Antes de fechar a porta a sua mão traçava no ar um círculo cinzento e agressivo

A esposa visitava-o três vezes por semana, mas isso já não o arreliava por aí além. Ficara imunizado por dezassete anos de matrimónio. Já estava mais que familiarizado com o seu narizinho de coruja egoísta e com a sua voz que a passagem do tempo tornara rascalhante. Limitava-se a ficar calado, com os olhos bem fixos no meio do tecto. Às quatro da tarde a esposa abandonava a partida e ia-se com o seu passo de flamingo de noventa e oito quilos. Ele fingia que não era nada com ele.

Foi no dia em que lhe tiraram as últimas ligaduras que ele viu as moscas.

Eram duas, esvoaçando solenemente na meia sombra com um ar tranquilo e respeitável. Tinham o aspecto de moscas de sociedade, talvez já grisalhas dos anos e ele por uns segundos raciocinou que até nem se espantaria se lhes visse bengala e gravata.

Durante vários dias as moscas não lhe largaram o quarto.

Eram moscas filósofas. As suas conversas, num tom muito fino e discreto, eram do mais alto interesse e centravam-se sobre os grandes temas do universo: o Homem, o Tempo, a Infância, todas as coisas – enfim – que horrorizam ou causam prazer, o Mundo, o Amor e a Morte. Um nunca mais acabar de problemas maravilhosos e inextrincáveis.

A ele o que mais o danava era o seu arzinho superior, como fingindo que nem por ele davam: como se ele fosse um retrato decrépito que para ali estivesse. E, no entanto, elas bem sabiam que ele não perdia pitada das conversas, com os punhos o mais possível cerrados.

Começou a detestá-las. Precisamente no dia em que lhe tiraram o gesso da perna direita.

No entanto, por orgulho, nunca tentou imiscuir-se nas suas conversas. Ainda não descera tão baixo.

Na tarde seguinte, tarde de visita conjugal, as moscas falaram do Ser e das metafísicas, Falaram também das estrelas e seus prestígios, dos barcos à deriva nos mares antigos, dos astrónomos e dos reis dos países afastados. Ele sofria tanto que foi com renovado alívio que viu a cara-metade abandonar a cena da sua tortura.

Com pasmo e raiva estendeu o braço e abriu a telefonia. Adormeceu ao som dum fadinho picado em surdina.

E sonhou sonhos esquisitos de defuntos e bosques imensos, de catedrais e aranhas.

Acordou ao crepúsculo. Em cima da mesa estava uma bandeja com vitualhas. Nada se ouvia. Nem… o voar de uma mosca.

As moscas tinham partido. Durante o seu sono pela tarde fora, tinham decerto voado através da janela entreaberta buscando diverso poiso, concerteza sempre debatendo entre si as coisas belas e incríveis. E ele sentiu de súbito vontade de partir tudo, pois já lhes havia jurado p’la pele: quando estivesse de posse de todos os seus meios físicos, ele lhes diria. Haveria de as ensinar com decisão: ficariam, até, sem vontade de tasquinhar o mais apetitoso bocadinho de excremento!

Mas o certo era que haviam partido. Inexoravelmente. E nada, pensou, poderia fazer!

O crepúsculo, cinematográfico e devorador, entrava aos gargarejos para dentro do quarto. Do outro lado da porta uns passos conhecidos crepitaram com energia.

O dr. Varela entrou, com os óculos muito serenos.

Com uma branda emoção a palpitar progressivamente na garganta ele deu por si a notar, cheio de deliciosas comichões, que a cara do dr.Varela era mesmo, mesmo parecida com a da mosca mais faladora.

História natural

 

Arte: Nicolau Saião

Quando a tia pobre e amada lhe morreu espapaçada, como um figo podre, debaixo dum camião de transportes, Hipólito disse com as lágrimas a escorrer pelas bochechas: “É chato e dramático. É triste! Mas, se pensarmos bem… é natural. Sim, é natural!”.

Olhei-o sem muito espanto. É que eu já conhecia, desde os bancos da escola, o espírito eminentemente positivista do meu amigo, a sua visão racional. Hipólito era um verdadeiro realista e eu peço licença para dizer que filosofava como poucos. Como muito poucos.

A firma de que era sócio, num dia enevoado de Maio faliu com todos os matadores. Tal acontecimento causou nos meios apropriados um pânico considerável. Hipólito, contudo, limitou-se a franzir o cenho ao de leve: “É trágico. É mesmo perturbador! – disse – Mas, se pensarmos bem… é natural. Sim, é natural!”.

Estávamos, nessa altura, no seu gabinete de administrador. Hipólito, pensador de fino quilate, cérebro privilegiado, dava-me a honra de muito me considerar, embora eu fosse um simples empregadote sem mais valia. Foi então, recordo-me, que ouvimos um súbito alarido. Eu precipitei-me para o corredor. Hipólito seguiu-me calmamente. Fora o comendador Branco Madeira, presidente da Assembleia Geral da empresa. Caíra pela janela. Se calhar de propósito. Do décimo segundo andar.

Olhei lá para o solo, com os olhos arregalados. O comendador jazia como jazem os que se piram pelo décimo segundo piso: parecia uma mosca esfrangalhada e nojenta. Já o rodeavam muitas pessoas.

Por detrás de mim, Hipólito resmungou mansamente: “Que coisa! É extremamente constrangedor. Mas… é natural. Penso que é natural!”. Limpou uma lágrima furtiva, rápida, com a ponta do dedo mindinho. Ofereceu-me um cigarro, que aceitei ainda com as mãos a tremer.

Passados quatro dias, o seu filho mais novo ao praticar alpinismo numa montanha dos arredores caiu para dentro dum rio que lhe ficava na base e engoliu cerca de oitenta litros de água. Calculei eu. Finou-se, evidentemente. Senti muito a morte do moço.

Hipólito, de negro vestido, atrás do caixão inclinou-se levemente e rosnou para a minha orelha. Baixinho, mas eu ouvi bem o que sensatamente me disse. Inclinei a cabeça e continuámos a participar sem mais alardes naquele acto tristíssimo e trágico mas, como o meu amigo referira, perfeitamente compreensível. Hipólito era assim. Lógico, um matemático ou um astrónomo em potencia. Eu apreciava-o muito.

Em Agosto fomos passar as férias, juntos, para uma praia elegante. A mulher de Hipólito e o filho que lhe restava foram juntar-se a nós três dias mais tarde. Ao quarto dia, depois de ter levado a banca do casino à glória, a excelsa senhora defuncionou-se sem o querer, abatida a tiro por um croupier de maus bofes e nervoso.

Quando lhe levaram a notícia, Hipólito ergueu-se de repelão da cadeira de verga onde repousava. Tremia ligeiramente. Respirava um pouco apressadamente.

Pouco a pouco foi-se acalmando. Um véu de tristeza – eu acho que era um véu – nublava-lhe viuvamente o olhar cinzento. “Ora que maçada! É um problema chatíssimo! No entanto, no entanto… pensando bem, foi natural! – disse com inteligência.

Olhei-o com admiração. O espírito e a calma filosófica de Hipólito cada vez me atraíam mais inapelavelmente.

Ao voltarmos para casa, num carro funerário, o filho de Hipólito teve um percalço: chorava desabaladamente, contorcia-se, gemia duma forma que metia pena. Ao estorcer-se num gesto mais largo, sem que o pudéssemos deter saiu pela porta de vidraça descida (fazia cá um calor!). Dei um grito! Que querem, não me contive. O carro funerário parou, toda a gente desceu.

Hipólito, por uns momentos breves, contemplou longamente o que restava do filho como se acreditasse poucochinho. Eu mordia os dedos e as unhas.

Um largo suspiro se escapou do peito largo, profundo, de Hipólito enquanto ele com bondade me ajudava a afastar dos despojos. “Já é azar! É um azar tremendo! Mas, vendo bem as coisas, sopesando o caso… não deixou de ser natural!”.

Olhei-o mais uma vez com admiração fraterna.

Passou-se uma semana. Durante esse tempo não vi o meu velho companheiro de infância. Aliás, desempregado, passei o tempo a ler. Filosofia. De vez em quando tomava um cálice de conhaque. A bebida, segundo ouvi dizer, dos fortes e dos sabedores.

Ao oitavo dia, biblicamente, vi Hipólito. Tinha ido visitar-me. Demos um longo, cordialíssimo aperto de mão. Hipólito vinha anunciar-me que eu fora colocado por sua intercessão num emprego de futuro. “Com calma, Jagodes, tudo se consegue. Tudo se compõe naturalmente!”. Acenei que sim, emocionado. Entretanto, dirigimo-nos ao elevador.

Hipólito foi o primeiro a entrar. Azar dele. O primeiro e o último, aliás. Eu não entrei, pude aperceber-me que o elevador não estava lá! Só o buraco, negro e misterioso, esperava com maldade. Hipólito despenhou-se, soltando um grito em estilo “terror inglês”. Um grito meio grasnado.

Com o coração a bater um pouco desci as escadas, devagarinho e com cautela. Muitas escadas. Abri a porta do elevador, na cave e contemplei o Hipólito.

Hipólito gemia suavemente. Quando deu por mim, quando os sentidos algo abalados lho permitiram, começou a gemer mais alto. Quase a gritar!

Socorro, Jagodes! Vai chamar um médico depressa… senão morro. Sinto-me já a morrer. Chama-me um médico, um sacerdote… Jagodes!”.

Perdera a calma. Até suava. Tinha um bocado de espuma no queixo.

Dei uma gargalhadinha. Desatei mesmo a rir em pequenos solavancos. Filosoficamente.

Que querem? Estava a achar tudo naturalíssimo.

 

 História do cretino

 

Arte: Nicolau Saião

Na pequena povoação que interessa ao nosso conto havia apenas um cretino. O resto da população era constituída por pessoas extremamente inteligentes, posto que de diversas profissões e cometimentos.

O cretino da vilória perdida entre vales e montes – como sói dizer-se – à qual mal chegara a luz civilizadora da televisão, chamava-se Leopoldo e era um cretino integral. Creio que me faço entender. E era igualmente, como se compreende, muito solicitado para tudo o que fosse festarola, comilonice de arromba, beberete de alto lá com o estrilo, funeral aperaltado, discursata bamba e descante com jantarada. É que, principalmente nos meios de mais nobre elevação cultural e estomacal, um cretino é material de primeira necessidade e nunca por nunca ser deverá faltar em salão que se preze ou távola que se respeite.

De modo que o nosso cretino – que no seu princípio de vida passara os dias em frente do pequeno espelho da sua defunta madrasta a contemplar a face esguia e as noites a olhar para a lua à espera que de lá caísse um nacozinho de queijo ou um pedaço de chouriço-de-sangue – dum momento para o outro e sem se dar por achado pelas iguarias, começou a enformar, a engordar, a ganhar formas roliças que era um render graças ao Senhor. Muitas mudanças se lhe fizeram na vida. Durante o dia, nas horas de folga – que o nosso cretino, para não perder a forma, treinava-se lendo alguns jornais, revistas e olhando para um certo aparelho com figurinhas a mexer – contava os dedos das mãos e dos pés e, se acaso se enganava no número, dando-lhe por hipótese dezanove ou vinte e um, tecia considerações filosóficas à volta de tal matéria, sendo que muitas delas ultrapassavam de longe, isso vos garanto eu, muita coisata  que por aí se vai forjando.

E neste comer e descansar e sorrir cretinamente, como convinha, se foi achando o nosso herói bem nédio e lustroso, e satisfeito, mas com as faculdades a desmembrarem-se ligeiramente: nos discursos de gente graúda á da terra, o Leopoldo já tomava a atitude mais fácil, era pela lei do menor esforço: punha-se junto ao ombro direito do orador, cravava os olhos no vazio, afivelava uma expressão inolvidável e assim se ficava, quedo e palonço, sem dar vivas, sem amostrar a dentuça e o contentamento. Mais parecia uma santola francesa do que um verdadeiro cretino. Como se o houvessem grudado ao solo da pequena povoação. Nas festas de aniversário, após a primeira rodada, o cretino olhava em torno aspirando o ar ambiente com o seu nariz de xadrezista derrotado, embicava com o primeiro sofá ou cadeira que apanhasse disponível, cerrava os lúzios piscos e era um vê-se-te-avias de roncanço e de dormir a todo o pano. Desatava a rir – com motivo – das tiradas do lavrador Parreca, rico qual pirata e nas visitas obrigatórias que acaso fazia às viúvas, punha-se a praguejar baixinho, numa voz muito doce e amiga. Enfim, uma vergonha. Certa vez, num préstito fúnebre dos mais importantes do sítio – pois quem ia a enterrar era o célebre pároco da aldeia – tomou-lhe da mão empedernida e, sacudindo-a com garbo, desejou-lhe boa viagem. O imediato desmaio da governanta daquele santo homem foi, por assim dizer, a primeira pedra no vasto edifício da análise em que a melhor gente da povoação se lançou. Foi numa noite de trovões, em que o camarada Éolo soprava que não era brinquedo e cacarejava a chuva no lamaçal que eram as ruas, como uma cantadeira acatarroada.

Ficou logo decidido que o cretino teria de se morigerar. Sob pena de ser votado ao ostracismo e posto à margem da sociedade em exercício no povoado, Leopoldo teria de não desmerecer das suas antigas e apreciadas qualidades. É que esperto sim, mas devagar. E quando se passam certas marcas a cretinice começa esquisitamente a parecer-se com uma coisa que não é bem inteligência, não sendo burrice; que é uma espécie de meio caminho entre a definitiva bacoquice chapada e a esperteza chatarrona e incómoda. Enfim, qualquer coisa muito penosa de ver e de sentir. E de cheirar.

O Leopoldo foi de pronto chamado à pedra. Que tomasse juízo, que ali só amigos tinha; gente que lhe queria bem; e que não seria naquela aproximação da meia-idade que se proporia mudar de profissão; que tomasse tento e juízo.

E mais que leva e mais que deixa, e que frito e cozido, e alhos e malhos.

O cretino, emocionado, choramingava. Daí a bocadinho, lagriminhas e lagrimetas de comoção solidária, ais e suspiros – era o que mais saía dos sítios próprios da anatomia de toda aquela boa gente. E todos diziam com unção: cá temos de novo o nosso cretino! Que voltou ao bom caminho!

Ora naquele povoado, perdido como já se disse entre pinheiros e vacas, vivia uma senhora muito bondosa, inteligente e riquíssima, que morava na sua mansão solarenga acompanhada duma sobrinha e duma criada, ambas tão elegantes e insinuantes que era duma pessoa ficar de pronto catrapim, zás, trás. Vira nascer o cretino e lembrava-se ainda das suas faces rosadas e inocente infante, e recordava ainda as suas brincadeiras infantis, parvas mas engraçadas. Tinha-lhe mesmo dado, um dia, brinquedos que o cretino – por ser cretino – logo estrapaçalhou com um riso eficiente; e da vez que o derradeiro primo do Leopoldo batera a bota, deixando-o definitivamente só neste vale de lágrimas, emprestara-lhe um lenço de cambraia fina para ele ocultar as lágrimas e as ranhelas.

E decidiu a senhora, no que foi logo aplaudida, abrir os cordões à bolsa e organizar uma festa de graças e alegria, na qual compareceriam todas as pessoas gradas do sítio.

Se bem se pensou melhor se fez. Tratou-se de tudo – serviço, baixelas e comezaina – e o cretino até ajudou nos preparos e na confecção do banquete, e na escolha das entradas e na adequação dos vinhos, saborosas e capitosos como nunca se vira e provara.

Alta tarde, degustada a sopinha e os seguimentos e antes de se entrar nos pitéus de resistência, com toda a augusta confraria à mesa – excepto a criada, que era de servir e a sobrinha da anfitriã, que estava no leito com indisposições – ergueu-se a senhora para proferir algumas palavras. Mas ainda não pronunciara três frases – malhas que o império tece! – e começou de pôr-se branca, e tremebunda, e daí a um pouco, rígida qual patanisca de bacalhau, despencava-se da cadeira e partia prestes, notou-se, para o Além. E um por um, todos os convivas lhe seguiram o exemplo – tirante o cretino, que com a emoção nada comera nem bebera ainda.

Que havia sucedido? Nunca se soube e o cretino – por cretino ser – nunca o conseguiu dizer.

Com os convivas estirados no chão encerado da grande sala, partiu Leopoldo pelas escadas acima, rumo ao quarto da senhora sobrinha. A criadita, pelada de espanto e estupefacção, supõe-se, abalara aos trancos e baldrancos porta fora para os lados da cozinha e ficou fora de cena. Mistérios.

E estando o cretino no quarto da jovem sobrinha, calcula-se que tais cretinices lhe disse, tão engraçadas e sonsas, que daí a breves instantes já ela ria e dengava como se todo o belo mundo com ela estivesse.

Depreende-se que o cretino, cretino consciente e probo continuou. Pois se assim não fôra não teria depois casado com a linda jovem. Teria preferido a criada, que sabia lavar umas camisas, cuecas e calças, preparar iguarias de se lamberem os dedos e dar bom rumo a outras coisas interessantes.

Assim, hoje o cretino vive de mesa e pucarinho com a prendada jovenzinha, e é ele, pois então, quem toma conta das fraldas e outros aprestos das sucessivas crianças que apareceram ano após ano. Tendo somente como vantagem a administração dos bens da defunta.

Moral da história: Quem não quer ser inteligente não lhe veste a pele. A não ser por cretinice…

 

Nicolau Saião (Portugal, 1946). Poeta, artista plástico e ensaísta. Autor de livros como Passagem de nível (1992), Flauta de Pan (1998) e Os olhares perdidos (2000). Tem sido um frequente colaborador, no Brasil, da Agulha Revista de Cultura.

 

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118ª Leva - 03/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

André Mellagi

 

Foto: Kristiane Foltran

 

Vestígios

Entrei novamente na casa e investigo o silêncio que retorna após trancar a porta. Derrotado, mais uma vez o vazio preenche cada mobília da sala intocada. Desde que você foi embora, a poltrona permanece mutilada em seu lugar e os corredores já não ecoam mais seus passos descalços. Foi inútil tentar recuperar a petúnia; há dias suas mãos não dosavam a água e a entrada da luz que evitariam uma outra presença sua a se despedir da casa. A sua música, que antes me aborrecia e lhe concentrava sentada na poltrona incompleta, agora eu a suportava como um cubo mágico que desisti de decifrar, mas que insistia em combinar cores e tonalidades avessas. Os copos sem batom, os cinzeiros limpos e os filmes de cinema perdidos no jornal sem as sublinhas de esferográfica, eram assinaturas de giz no asfalto apagadas pela chuva. Sabia que estava próximo à cozinha quando o cheiro de canela misturava-se ao odor de almíscar, mas que agora atravesso despercebido até abrir e fechar a geladeira sem decidir por nada. Nenhuma presilha restava nas gavetas como uma peça arqueológica, e nenhum papel sobre a mesa continha os desenhos rupestres de suas letras escorregando uma anotação pelo telefone. Foi uma explosão que acendeu, um trovão que uivou; agora são sombras que avançam, mudez que cala. Sobrou apenas comigo a antiga fotografia guardada que escondia, entre os cabelos desalinhados entrelaçando dois rostos a sorrir numa praça desfocada, o movimento que se distende antes e depois daquele instante, a lembrança amarelecida de unhas peroladas, sorvete de creme e toalhas molhadas.

***

 

 

O Testamento de Ícaro

 

De volta à mesma esquina por onde Ícaro passou, estava novamente defronte à loja de 1,99 e perdido. As muralhas envidraçadas dos prédios domesticavam sua visão nas ruas estreitas da cidade, que perfurava cartazes e olhares desviantes. Às vezes, estes olhares irrompiam em desejo e violência, depois se esqueciam. Os carros seguiam a correnteza arterial dos viadutos e avenidas, sem encontrar um escoadouro que levasse a uma saída do labirinto. Ícaro olhou para o prédio mais alto. A maior lembrança de sua infância, quando subiu pela primeira vez sozinho a copa de uma oliveira em Creta, foi a alegria ainda maior na face de seu pai. Mais uma vez, queria mostrar a Dédalo que saberia decifrar aquele labirinto. De nada adiantavam os mapas que abstraíam os quiosques de garapa e os bueiros entupidos, em quadrados indiferenciados sem indicar qualquer escapatória. Queria ter a visão de Urano, que do alto tudo enxergava, com prazer quase científico, sua colônia de formigas amontoadas que se espremiam entre as casas de cobertura de telhas escamadas. Ícaro subiu o elevador do prédio mais alto, e do último andar olhou ao redor o continente de titãs de concreto. Mas ainda faltava muito para arranhar o céu; era preciso dar um salto decisivo para o alto. Apenas se afastando do turbilhão urbano teria a percepção daquela imensa mancha viva de cimento, metal e plástico, cujo vai-e-vem se harmonizava numa homeostase compreensível. Precisaria içar sua jangada para atravessar oceanos; levantar o braço para apanhar estrelas; subir degraus para escalar montanhas; lançar o olhar em direção aos limites do infinito. Implante-me asas, meu pai! Veja-me voar na morada dos deuses! Dê-me a oportunidade de vislumbrar daqui de cima, o quão pequeno é seu labirinto! Nada mais precioso que a vertigem! Venha, vento, levar-me acima das nuvens! Não se preocupe, pai, voo alto para não ouvir mais as vozes emaranhadas. O mundo se silencia e enfim ouço dizer-me sua extensão. Mais alto, vento! Que a iminente queda ainda conserve a imagem derradeira de que um dia fui livre!

 

 

 

***

O Jardim do Éden

Entre o Tigre e o Eufrates, encontrava-se um anjo morto com napalm. As asas mutiladas e a espada flamejante ao chão já não mais guardavam os resquícios de um antigo jardim cujos portais foram arrombados com tiros de morteiro. Dos destroços da cúpula de uma mesquita, o crescente refletia as labaredas que calcinavam os querubins abatidos por uma bateria antiaérea. No jardim, apenas a extensão do deserto que enfim invadiu as velhas cercanias, oásis que subitamente foi envolvido pelo deserto à marcha das cargas deflagradas. Uma árvore seca restava no meio daquele jardim esquecido, exalando a gás mostarda e rodeada de ossos espalhados ao chão como folhas secas. A tempestade de areia e pólvora devastou a paisagem onde já não mais importavam os nomes que batizaram plantas e animais; tudo era um amontoado de cinzas revolvidas com petróleo. Pois se a vida ainda estava lá, empreendeu-se com a razão e o conhecimento os meios de se apoderar dela; “haja luz”, disseram no princípio os criadores que manejavam o bastão, o arco, a espada e o fogo. Assim, da escuridão abriam caminhos passando por cima de si próprios até alcançar o fruto que faltava. Os anjos já não tinham mais como defender aquele jardim; os deuses mortais já sabiam voar, mergulhar, entrincheirar. Disputavam o que achavam o que era a vida em mútuas decapitações. Estava para começar o inverno mais quente do ano.

***

 

 

Encontro

De manhã ele acordou e silenciou o despertador, que deixou o dia murmurar. Ela se levantou e foi escovar os dentes, enquanto tentava juntar as peças de um sonho. Ele tomou o café sem açúcar e amargou as notícias de ontem. Ela olhou um vaso de flores e compadeceu-se diante de pétalas murchas. Ele deu partida e misturou-se resignado à massa de carros congestionados. Ela emudeceu as buzinas ouvindo sua música na bicicleta. Ele queria dois processos protocolados até o meio-dia e uma sequência de três ace na quadra de tênis à noite. Ela queria a notícia do pai de Gisela e um bom capuccino à tarde. Ele entrou no escritório, ligou o computador e coçou a testa. Ela chegou no consultório, vestiu o avental e estalou os dedos. Ele tamborilava teclas e ela organizava espátulas. Ele sacramentava resmas de papéis e ela vasculhava bocas. Parágrafo único do incisivo inferior lateral; bruxismo em desacordo com disposição legal; inventários ortodônticos.

Pausa para o almoço. Só um processo protocolado e Gisela ainda não chegou. Saem do escritório e do consultório, encontram-se na fila do restaurante por quilo. Ele deixa a pasta cair; ela apanha a pasta do chão e devolve a ele. Ele agradece e volta a decidir sobre o grão-de-bico. Ela verifica as unhas e pensa em adotar uma criança. Sentam em mesas separadas. Chove hoje à noite e chegarão tarde em casa.

André Mellagi, nascido em São Paulo, é formado em Psicologia, mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Participou de coletâneas de contos, tais como a primeira edição da revista Pulp Fiction do site Homo Literatus, além de publicar em blogs de literatura. Teve coletânea de contos que recebeu Menção Honrosa em 2014 no Programa Nascente da USP, e foi obra pré-selecionada ao Prêmio SESC de Literatura de 2016, a ser publicada pela editora Patuá em 2017.  

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Matheus Arcaro

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Até que a morte os separe

 

Cláudio chega arrastando os olhos pelo chão. Sequer quando abre a porta do restaurante eles se opõem à gravidade. Carrega sobre as pálpebras anos de frustração. Na língua, as palavras deitadas pela covardia conferem um sabor sórdido às possibilidades não cultivadas. Por que demorei tanto? Ele precisa de uma resposta para alvejar a boca. Porém, as respostas claras não existem na natureza, são construídas por mentes que necessitam de algo estável.  O acre da boca se intensifica quando pensa que a estabilidade da ponte entre Clarice e ele era apenas aparente. Por não atravessá-la com frequência, só via a regularidade do pavimento; não percebia a estrutura se corroendo sob os gestos e sorrisos complacentes.

Os primeiros tempos de casamento não deixaram a expectativa acima dos fatos. Mas não demorou muito, as cores começaram a desbotar e, quando ele tentou colorir o relacionamento, faltaram-lhe os dotes de artista. Fez um borrão que foi se extenuando até restar uma camada praticamente imperceptível que, de certo modo, sustentou o laço fraterno entre eles. Era avesso a traições, respeitava Clarice. E estava seguro da reciprocidade desse sentimento. Só não foi capaz de sentir que para o amor sobreviver é preciso uma dose mínima de desrespeito.

Quinta-feira, como se cumprisse uma obrigação herdada, ele estava sobre a esposa. Copiaria os mesmos movimentos das semanas anteriores se não sentisse o peito umedecer e ouvisse a voz entrecortada, o que estamos fazendo, Cláudio? Ele também começou a chorar. Os dois rostos se colaram e misturaram-se as lágrimas de anos. Na manhã seguinte, ele não acordou em sua cama. Antes de sair, insistiu para que se encontrassem dali a uma semana, onde tudo começou. Com um gesto emprestado, Clarice moveu lentamente a cabeça para cima e para baixo.

Cláudio sabe onde a esposa está sentada. No entanto não é por isso que não ergue os olhos; é porque sente medo de vê-la segura, asco de encontrá-la sustentada por si. Em verdade, sente-se como o suicida minutos antes de apertar o gatilho. A iminência da perda, mesmo daquilo que ele acredita abdicar, faz transbordar no peito uma sensação escura, espalhando o instinto de conservação por todo o organismo: as mãos estão molhadas, a boca seca, as orelhas quentes e os calafrios sobem e descem pela coluna.

Quando, enfim, levanta a cabeça, as narinas se expandem. Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente, criação de um artífice desatento que colocara naquele salão sombrio uma escultura delicada. Os olhos dela escondem-se e mostram-se conforme o vento tira para dançar a mecha de cabelos cor de mel. A pele branca, que não se curvou ao tempo, exala maciez e um sabor de futuro chega aos lábios do homem. Clarice não parece a mulher que na semana anterior repugnara-o na cama, mas a menina que estivera sentada ali dezessete anos antes.

Talvez por isso as pernas de Cláudio não se entendam entre si. Há somente cinco mesas ocupadas, contudo é como se o restaurante estivesse cheio de olhos voltados para ele. O homem não está preparado para conversar com uma menina, muito menos com a sua menina.

A cada passo, Cláudio tenta pinçar os fatos que poderiam salvar o relacionamento; refaz o percurso até chegar à tarde de primavera em que vira Clarice pela primeira vez, naquela mesma mesa. Mas não consegue preencher os pensamentos e o vazio é invadido por um homem que acaricia as mãos da sua esposa. Um homem que olha nos olhos dela e para quem Clarice consegue sorrir com algo mais do que a boca. Cláudio agita as mãos como a criança que se recusa a compartilhar o brinquedo que desaprendera a usar. Clarice é minha. Só minha, ouviu bem?

A ideia da esposa com outro o carrega para o banheiro. O que devo dizer? O discurso ensaiado não parece verossímil. Molha a testa como se pudesse inchar os pensamentos com persuasão, entretanto, diferentemente dos seus anseios, a água traz a imagem de um velho nu, deitado em posição fetal no centro da cama redonda. Só há a cama branca no quarto enorme. Ele invoca o nome de Clarice, atravessa as madrugadas por gritá-la até as costelas engolirem o abdômen, mas só ouve o eco da própria voz. Entra no banheiro um senhor que cumprimenta Cláudio com um movimento de cabeça. Ele retribui o sinal. O velho começa a gesticular, emitir grunhidos e apontar para a saída. Cláudio se desespera, foge do mudo e encosta sem ar na porta. Porém, não pode escapar da certeza de que nada do que falar para Clarice mudará o que está decidido. Uma decisão que vem sendo enrijecida ao longo dos últimos anos e que palavra alguma terá o poder de perfurar. É tarde demais: a aproximação da verdade traz o negrume aos seus olhos.

Como se chegasse ao matadouro, Cláudio se aproxima da mesa. Adormecida dentro de si, Clarice continua girando o canudo enfiado no suco de morango não sorvido, mesmo enquanto ele se senta. Um silêncio rígido perdura por longos segundos até que ele pede uma cerveja ao garçom, que prontamente o atende. A cerveja desce agarrada à garganta como se não quisesse fazer parte daquele corpo vencido. Os olhos de Cláudio percorrem o restaurante: o que vê não se assemelha ao conteúdo entalhado na memória. Tudo agora é áspero demais, esnobe demais. Ele, então, fixa a vista em Clarice como se desejasse prender aquele instante na superfície dos olhos, ciente que nunca mais ele seria seu. Procura em si palavras não nascidas, revira o vocabulário, mas nada de substancial desce à língua.

– As paredes não eram assim tão escuras…

– Acho que não.

Trocam ainda umas frases sem tonalidade. Cláudio se dá conta do que Clarice sabia antes de se sentar ali: as palavras são desnecessárias nos velórios. Ainda mais nos velórios tardios.

***

 

 

Condenado à liberdade

“Terei que correr o sagrado risco do acaso.
E substituirei o destino pela probabilidade.”
(Clarice Lispector, A paixão segundo GH)
 

Estou aqui há oito dias e alguns meses. Quantos meses? Não sei ao certo. Até a semana passada o calendário não passava de mais uma invenção vencida. O que sei é que estou nesta cela há tempo insuficiente. Está me ouvindo, Pagu? Parece mais peluda hoje, as patas maiores. Patas peludas e firmes, feitas para caminhar pelo teto, de onde você me vê como sou e não como parecia ser. Antes de me atirarem neste cubículo eu estava pronto, homem modelar. Sabia o que tinha que fazer. E fazia. E refazia. Usava o livre-arbítrio para alcançar a verdade que esperavam de um homem alto, 38 anos, cabelos grisalhos, chefe de família, empresário. Eu era. Até me enfiarem aqui. Só que eles se enganaram, Pagu. Todos eles. Ao me isolarem na solitária, não me privaram da liberdade. Privaram-me do que acreditam ser a liberdade, no que igualmente eu acreditava. Mas foi só aqui que conheci a verdadeira face da liberdade meses atrás: a chuva lavava os telhados; embora a cela estivesse tomada pelo hálito da penumbra, da minha cama vi a gota reluzindo no teto: as lágrimas começaram a desabrochar da alta fenda e despedaçaram-se no chão. Comecei também a chorar. Não somente porque fora educado a repetir, desta vez era diferente. O pranto, sem o soluço da dor, acordou o sorriso que há tempos não visitava meu rosto. A goteira ficou espessa, eu precisava entrar naquela torrente. Arranquei o macacão encardido, as meias, a cueca e corri para misturar minhas lágrimas com as do teto. E da água, antes translúcida, brotou uma espécie de corrente, mas cujo desenho, já não mais aquoso, foi aos poucos tomando a forma de… uma mulher! E como era maravilhosa. Linda o suficiente para um encantamento que me afogou numa emoção sem precedentes. Uma mulher de olhos ruivos. Quem é você? Sem dizer uma palavra, ela puxou minha pele, que facilmente se descolou da carne, feito estas paredes que você conhece tão bem. Depois, os músculos e os órgãos dissolveram-se com seu sopro: em instantes, eu era duas retinas suspensas e um coração pululando. Você não viu isso, não é mesmo? Acho que sequer era nascida. Pela primeira vez na vida eu era imperfeito. Incompleto. A partir deste banho, virei o avesso de Deus, um ser ébrio e imberbe, sem natureza (nem divina, nem humana), que não passa de criação! Lá fora, eu fora criado, avental e touca, servindo diariamente pedaços da minha vida ao destino. Ele comia, se lambuzava e, quando se dava por satisfeito, atirava os restos dentro de moldes construídos pelos Guardiões da Esperança. Só que aqui, Pagu, neste retângulo de seis metros quadrados, aprendi, como você, a arrancar do meu peito o fio sobre o qual eu passeio sem sair de mim. Mas terei que sair daqui a pouco. É o que diz na carta que o carcereiro me entregou semana passada. Envelope ocre, papel timbrado com as iniciais do doutor que conhece as vísceras da lei: “Ilmo. senhor Pedro, o pedido de soltura foi deferido; o senhor sairá em oito dias”. Eu contratei esse advogado? Para quê?  Sua eficiência arremessou meu avesso à boca do desespero: à medida que os novos dias engoliam os velhos, o temor escorria do peito aos membros: as pernas estrangeiras do corpo, os braços rigidamente esticados ao longo do tronco. A lembrança de antes da solitária deixava meu futuro anestesiado. Não, não posso mais voltar a ser como aqueles senhores que caminham ao lado da vida; não suporto mais vestir a máscara que cada situação suplica; não quero mais enfiar meus sentimentos num saco sujo. Jamais imaginei que poderia arrancar as boias que me prendiam à minha superfície. Aliás, nunca cogitei a existência dessas boias. Foi somente aqui que me tornei um abismo negro, úmido e cálido por onde caio sem eriçar os pelos e, em cada centímetro, encontro os andaimes frouxos, as entranhas e as arestas que não quero mais aparar. Antes de os homens fardados me buscarem em casa naquela manhã ensolarada, eu percorria, de cabeça erguida, um caminho marcado com tinta indelével; por isso não enxergava o traçado. Aqui aprendi a dançar sobre a minha história que escrevo a lápis em páginas sem pautas, dançarino surdo carregado pelo ritmo da respiração. Aqui consegui ouvir a vida gritando em meus pulsos, consegui apanhar a eternidade em cada átimo e soltá-la para que tudo não passe de possibilidades. É, Pagu, o mundo é pequeno demais; eu só caibo nesta cela. Porém, desde que recebi aquele papel pálido, o cheiro inebriante que irrompia dos meus poros não frequenta mais minhas narinas. Naquele momento comecei a registrar os dias na pele com a ponta do canivete. Não me olhe assim. Coagido pela lei, tive que aguardar a oitava manhã e ela nasceu chorando como se compartilhasse com o meu espírito o estado agônico de quem está prestes a ser aprisionado. Ouço os passos do carcereiro marcados pelo balançar das chaves, ele está vindo abrir a cela, provavelmente com os dentes à mostra. O que farei? Permanecerei abraçado às grades implorando que me deixe aqui? Gritarei, Excelentíssimo senhor Juiz, eu me declaro culpado, sou uma ameaça à sociedade? Subornarei o diretor da cadeia? Não, nada disso funcionará. Irei, mas nem vou me despedir de você, porque darei um jeito de voltar ainda hoje. Ainda hoje.

***

 

 

 

Sentido

 

Se eu fosse uma árvore entre as árvores, gato entre os animais, a vida teria um sentido.
(Albert Camus, O Mito de Sísifo)
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.
Eu não: quero uma verdade inventada.
(Clarice Lispector, Água viva)

Então vai buscar um sentido pra tua vida. Vai e me deixa com meus livros incompletos e meu mundo sem parapeitos. Com meus pedaços de presente que são, ao menos, mais intensos que o teu futuro cintilante. Não tenho a pretensão de unidade, querida. Há tempos a ilusão não me lança os olhos. Eu te admiro muito, fica sabendo. Iludir-se é uma dádiva. É preciso muita coragem pra desviar assim dos fatos. Mas agarrar-se à maior lasca de madeira quando se sabe que o resgate não chegará a tempo, não faz de ti um ser sagaz. Sabes por quê? Porque tu jamais te perguntas sobre a necessidade do resgate. E eu, Samanta, não preciso ser salvo. Prefiro nadar até perder as forças.

Não quero escrever “pai” com letra maiúscula somente pra me sentir protegido. Não quero levantar a cabeça pra desviar a vista das vicissitudes da terra. Contemplar as próprias vísceras é demais pro teu estômago frágil, não é? Porém o remédio que tomas pra esvanecer a vida apenas disfarça a doença que se alastra sob a tua pele. Nunca percebeste que no dia seguinte à festa, se aceita melhor em frente ao espelho aquele que não carregou a cara de tinta? Não há como esconder o tempo, amor. Mas tu insistes em pedir silêncio às engrenagens da vida. Insistes em colocar um pedaço de felicidade na ponta da vara amarrada às costas. Onde tu queres chegar, Frederico, tu esbravejas com a boca branca. Eu te devolvo uma pergunta que fica flutuando, sem força pra atingir teus tímpanos: existe esse “onde”?

Não há nada mais difícil que convencer alguém sobre o óbvio. A imagem é tão grande à frente dos olhos que fica indiscernível; é como o peixe que jamais se dá conta de que cumpre sua sina no oceano. O que te separa de uma prostituta? As duas se entregam em troca de conforto e segurança. A diferença é que travestiram tua atividade de decência. Tu és necessária à ordem. És necessária pra manutenção do que deve ser mantido. Mas há tantas janelas, Samanta! Por que abrir apenas uma e se conformar com a penumbra? Pra que construir apartamentos quando se pode comprar um balão por bem menos?

Vou te confessar uma coisa: não é saudável engolir as lágrimas pra transmitir serenidade. Não é saudável dormir às onze horas e acordar às sete ainda com a rodela de pepino sobre os olhos. Não é saudável usar roupa social no verão. O que há de natural em rir de uma piada de mau gosto só porque o chefe a contara?

Com o mundo sobre as costas, tu te conformas com o alívio de tirar o sapato ao fim do dia. Não te passa pela cabeça que possa ter algo de sensato em eu não querer usar sapatos apertados? Que eu prefira dançar a correr? Pois, sim, prefiro dançar descalço em círculos até as pernas pedirem pausa. Dançar por dançar, tu perguntarias. E eu, sem vontade na voz, responderia: vai procurar o teu sentido.

 

Matheus Arcaro é professor de Filosofia, artista plástico e, principalmente, escritor. Tem dois livros publicados: um de contos, “Violeta velha e outras flores” (Patuá, 2014), e o romance “O lado imóvel do tempo” (Patuá, 2016). Tem textos publicados nos sites Mallarmargens e Germina, além de ser colunista dos portais Língua de Trapo, Educa Dois e LiteraturaBr.  

 

 

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115ª Leva - 09/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Cristina Judar

 

Desenho: Re

 

duas vulvas cheias

 

desalojavam-se continuamente, suas vulvas em estado crescente, duas luas. permitiam-se pernas, ventriloquismos diversos e endoidecimentos, sob a pena de não darem conta de toda a noite. os desejos, secos, queimavam os ventres livres das senhoras estandartes. navegavam em solo profundo para depois ressurgirem soberanas em mantos de fúcsia e líquen. roucas. em uma rua qualquer da bela vista. que era madame, e também era Satã.

o bar improvisado em uma garagem de frente tocava em looping um CD mequetrefe com a miscelânia: pet shop boys e bauhaus, the cure, cindy lauper e “radio gaga”, do queen, como se tudo isso fosse a mesma coisa. o dono do lugar sempre diz: “é tudo a mesma coisa”. ele ama o tecno brega soante enquanto come o churrasquinho da calçada, ao lado da loja da moça de roupas de renda que tem como freguesas as crentes de bíblias quentes.

mas, voltando ao quarto, revolvendo os tecidos, tudo vazava em encanto, expurgo e esconjuração. uma delas sorvia o próprio batom, o sabor ácido & pastoso, ele, passado nos lábios para que a aparência garantisse o embelezamento aliado ao devido ultrapassar de fronteiras, em instantes ela iria subir por um elevador transparente que trafegava rumo ao alto, tão rápido a ponto de dar vertigem, com luzes roxas e douradas exibidas do lado de fora da caixa acrílica. um top of the rock imaginário, mas, mesmo assim, top of the rock.

esse era o cenário da orgia literária de bocas que dizem mais do que mil livros. quando emudecidas nos instantes preliminares de fortes contrações físicas e comportamentais. tensão e expansão do mundo entre lençóis. arquitetas do universo, ditavam sinfonias astrais como quem não está nem aí.

***

 

 

ordem X

 

Era de rituais e mitos que elas viviam. Os recriavam, os compunham, incluindo e desconstruindo personagens de jornadas virtuosas sem a vergonha de serem autoras suficientemente despreparadas para o negócio. Recitavam suas estórias em descompasso, para ninguém prestar atenção. Seus giros e circumambulações eram purificados com a água de córregos super habitadas por ovas de pequenos insetos que acreditava-se possuírem propriedades reconciliadoras quando grudavam nos fios de cabelo, formando coroas visíveis apenas telescopicamente. Coroas necessárias. As brigas eram frequentes e sempre aconteciam assim que o círculo era desfeito.

Não era para menos, a composição de braços, pernas e cabeças não podia ser mais desconjuntada, eram tantos os membros que subiam e desciam ao som de kalimbas e de um xilofone de brinquedo. Seus pensamentos também não adornavam ideias em comum, eram dotadas de uma consciência infantil, dada a criar cenários fantásticos de vestidos longos e transparentes, perfumados com incenso de patchouli (pogostemon cablim). Adorariam ter um tambor, mas as moedas que angariavam não davam nem para bancar alguns parafusos. De fato, dinheiro era o que menos havia por ali, apenas sêmen seco, excrementos de andorinhas e folhas em abundância. As amoras colhidas em ramos baixinhos tingiam suas unhas mas serviam como alimento. E molhavam seus corpos por dentro.

Com uma receita que levava manteiga, cardamomo, cerveja, uma gota de aguarrás, mel e sódio era possível preparar uma espécie de refeição ritualística com as mesmas amoras, que depois de tantas luas viradas, as mulheres não supunham mais conhecer o sabor – o que, para um estranho que por acaso passasse por ali, poderia parecer até interessante. Esse homem se esconderia atrás de alguns galhos, observando-as com os olhos quase cerrados, até que a celebração acabasse e o alimento da confraternização fosse finalmente liberado. Nesse meio tempo, elas realizariam a dança das estações, simulariam a morte e o renascimento com gestos exagerados e dançariam a Euforia até a contração final. Duas delas cairiam no chão, esmaecidas, corpos em formato de X, circundadas pelas irmãs de sua ordem.

***

 

 

Para que servem os atores

 

A antiguidade tem um cheiro próprio, mais desagradável do que a constatação de que muito tempo já passou. Naquela fantasia, o náilon de tonalidade castor estava grudado como nacos de jaca endurecidos, com aquela sua cola intrínseca e naturalmente eficaz. Tufos das fibras sintéticas carameladas entravam pelas minhas narinas, me fazendo engasgar com suas colônias de fiapos, ácaros coçavam tanto o céu da boca quanto o labirinto auricular e a minha ambição aos pedaços anteriormente embutida, hoje inerte.

Para fugir do autodesprezo e daquela agressividade humana que introjetamos na mente – a fim de obter a dignidade Crística de alguma punição – fingíamos ser macacos coffee & latte. E tentávamos parecer blasés. À nossa frente, a parcela animal da cena era enfatizada pelas patas da cadela de pelos curtos e duros, próprios para espinhar antes a alma do que a pele, ela de coleira com layout fetichista, tachinhas, couro preto e lembranças (dos carinhos e das mãos de pessoas).

“Puxe o rabo deles”, “Compre outro hot dog enquanto observo um pouco mais o animal humano da esquerda”, “Mãe, onde esse bicho se enquadra”, “Ele não olha, mira”, “mais mostarda, please”. Eram essas algumas das vozes e pensamentos que eu pressentia enquanto olhava pra tudo através daquele buraco forjado na pelúcia de forma grosseira, naquele universo passageiro em que o mundo não nasceu quadrado, mas encontrava-se oblíquo e coberto por penugens ruivas aparadas de maneira ordinária.

Pelos 25 dólares, eu finalmente teria o T-Bone e uma Weiss, mas o que eu queria mesmo era comprar um aparelho dentário para Mary Lee. Pena que faltariam mais uns 70 dólares. Eu mentiria que o sorriso dela era belo, portanto.

***

 

 

balanço de um rito não muito bem sucedido

 

Choviam notas xamânicas. Penas dos orixás nos toques redondos.

Plumb, plumb, plumb, para o coração relado.

As chamas coloridas pelos tocos das velas de cento e noventa e quatro dias.

Precipício, crepúsculo, pai Antônio, cobra coral aos pés, e era rápida, listrada ela.

Para comer depois do rito, flores e frutos, água da mina aplacava as visões.

Do suor, a tenda rezada, palavra náusea, plausível, gota, risível, racha.

Mil e uma visões eu ri.

E pulei de astro em pedra, jagunço sem cinta, liga, peguei o carro na estrada miúda, cerrada.

Fui que fui, a cento e oitenta graus por hora arremeti contra o espelho.

No ar, parei no meio, em legítima suspensão Matrix mas sem roupa de látex negro.

A onça pintada virou-me os olhos pra dentro.

De ouro, eles viram pepitas encravadas nas minhas vísceras.

Rico, eu rei.

Raptado, a verdade menti.

Pústulas nas flores murchas, pus.

Pari, parti, patriarcado, proletariado, picto.

Tudo em uma noite, um cocar de luz, aldeia das sete ondas, triste, chefe das sete contas, ralé das boas e aprendiz, com menos 250 reais na carteira, voltei pra São Paulo pela Rodovia Fernão Dias.

  

Cristina Judar é escritora e jornalista, autora das HQs Lina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir), ganhadoras do ProAc de HQ em 2009 e 2011. Seu livro de contos “Roteiros para uma vida curta” (Editora Reformatório) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto autoral “Questions for a Live Writing”. Atualmente, está em fase de finalização do seu primeiro romance, “Oito do sete”, contemplado pelo ProAc de Literatura em 2014. É uma das editoras da revista eletrônica de cultura LGBT “Reversa Magazine”.

 

 

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115ª Leva - 09/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Anderson Fonseca

 

Desenho: Re

O pequeno estava com fome, muita fome. Havia dias que não comia nem bebia. A boca era o deserto com rachaduras nas extremidades, de algumas emanavam fios de sangue. Mas o pequeno não chorava. Não gemia. Emudecido fechara-se num ovo. O sol castigara suas costas. O ovo rachou. As cascas uma a uma caíram. O pequeno lembrava um feto mal formado. Um urubu o viu e bicou seus olhos, depois seu estômago, depois chamou os outros que fizeram o mesmo. O que restou? O desenho do pequeno na terra.

***

 

À beira de um edifício, em pé, uma menina olha o horizonte. Atrás dela, alguém diz: – Você vai pular?

– Não.

– Seu pai pulou, sua mãe e seu irmão também. Você vai pular?

– Não.

– Olhe para trás.

Ela olhou e viu uma multidão enfileirada.

– Eles aguardam a vez.

Um velho lá do fundo gritou: – Pule menina!

– Não posso. Não quero perder a visão do horizonte.

A voz então lhe disse ao pé do ouvido: – Feche os olhos. É igual.

E a empurrou.

***

 

 

A garotinha estava brincando com o urso e um gatinho de pelúcia. Os dois bichinhos dialogavam.

– Como foi seu dia? – perguntou o urso.

– Foi bom, muito bom. – respondeu o gatinho.

– Me conte o que aconteceu. – suplicou o urso.

– Eu estava passando em meio aos escombros dos prédios, quando vi um buquê de flores. Elas começavam a murchar. Corri para pegar ao menos uma rosa e cheirá-la. Assim que me aproximei, agachei, estendi a mão. Mas era difícil puxá-la, algo a segurava com muita força. Então fiz força também para arrancá-la. Dei tudo de mim, até que a rosa veio, mas um líquido vermelho escorria do caule, um líquido espesso. Abaixei para ver de onde veio a rosa. Olhei através dos escombros. Uma mulher tinha os punhos cerrados em torno do buquê. Era um sinal de amor que a bomba tornou em morte. E como foi o seu?

 – Ontem à noite… – disse o urso. – Sai à procura de uma estrela cadente. Ouvi dizer que elas realizam nosso desejo. Basta olhar para elas e pedir. Eu estava com sorte. Depois que me sentei em cima de uma pedra e levantei os olhos, dezenas de estrelas atravessaram o céu. E aí eu sussurrei, “Quero estar ao lado de um amigo, porque sozinho é difícil superar o mal da guerra”. E agora estou com você.

Ao lado da garotinha dormiam seus pais.

 

***

 

 

– O que você fez com suas mãos? – perguntou o soldado à menina.

– Folheava um livro.

– Livro? Diga o nome.

As mãos dela estavam sobre a mesa.

– O sol é para todos.

– Repita.

– O sol é para todos.

– Diga mais uma vez.

– O sol é… – antes de terminar a frase, o soldado desceu a lâmina sobre as mãos dela.

– O sol é dos que o conquistam. – encerrou o soldado.

***

 

 

Quando Omran acordou, viu que as cinzas ainda estavam sobre ele. Quando tocou a própria face, sentiu-a manchada de sangue. Quando perguntou sobre seus pais, não ouviu resposta. Quando o silêncio cortou o ar, uma lágrima desceu.

Anderson Fonseca, 35 anos, é autor dos livros de contos “Sr. Bergier & outras histórias” e “O que eu disse ao general” – o primeiro de uma trilogia sobre a guerra e a política. Os contos aqui publicados fazem parte do seu próximo livro, “Crianças deitadas jamais se levantam”, obra que é a segunda da trilogia.

 

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114ª Leva - 08/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Barbieri

Milton Boeira
Foto: Milton Boeira

Carta a um anônimo

Não, não te escrevo do silêncio incômodo das madrugadas, embora tenha certo apreço pelos guinchados dos ratos domésticos, escrevo com o barulho imperceptível dos automóveis, o barulho das velhas máquinas de ponto, os ruídos dos estômagos de crianças famintas e com o sol se pondo em algum beco que não posso prever. Quando nos habituamos à loucura das cidades, os rumores deixam de ser ensurdecedores. Pensei muito sobre tudo que me disse, agora tento me organizar e respondo um pouco das suas indagações, contudo nunca tive o dom da clareza, não herdei o cérebro sistemático de certos predadores. Me pergunto, como poderíamos manter uma encenação amorosa dentro desses hotéis baratos com ambientação minimalista e objetos impessoais, com toalhas e lençóis mal higienizados e com espelhos embaçados duplicando o trágico-cômico de nossos corpos? Não sei se já te disse o quanto ando cansada de ter um corpo, preferia ser feita desses materiais sintéticos e impermeáveis, que se lava de quinze em quinze dias.

Como poderia te oferecer a ilusão de um amor se tenho consciência que tudo não passa de uma mentira burguesa bem contada? Nos ludibriaram feio, pode crer. Como posso dormir sossegada nos braços de um estranho se o amor não passa de um disfarce para negar nossa íntima semelhança com os primatas? Sim, sinto decepcioná-lo, embora saiba que você não é ingênuo, apenas se recusa a acreditar que animais são seres fatigados e não se procuram além da carne, não passamos de macacos com terno, gravata e emprego fixo.

Como te enganar se o desejo apodrece rente aos latões de lixo e a rua mal iluminada? Se a morte também estraga os cadáveres jovens? Se a vontade se desvanece perto dos cachorros sarnentos e abandonados pelos seus donos, que procuram bichos menos trabalhosos e mais ornamentais? Como ainda querer se há muito me perdi entre as compotas vermelhas, a pia abarrotada de louça e as faturas exorbitantes do cartão de crédito?

Não posso deixar esse espaço quase claustrofóbico, mesmo por poucas horas, apenas na invalidez desses cômodos eu suponho o significado da palavra imensurável, aqui eu já conheço o hábito das formigas, sei onde devo espalhar o inseticida, já experimentei a fúria dos marimbondos, conheço os pardais entediados que batem com frequência nas vidraças fechadas, sei onde as rachaduras deram lugar a infiltrações impossíveis de conter, sei onde as aranhas tecem suas teias e esperam compassivas para devorarem suas presas, sei em quais buracos as minhocas se escondem, sei o trajeto suicida dos pernilongos, sei da fome mediana dos peixes de aquário, sei como os cupins foram desaparecendo quando trocamos os móveis de madeira maciça pelos de MDF, sei que as abelhas sumiram há algum tempo e muitos afirmam que isso é uma das piores catástrofes ambientais e trará danos irreversíveis, mas nos calamos, agoniados pela cumplicidade do mesmo assassinato, a verdade é que a polinização das abelhas nos parecia afrontosa.

Como posso te vender um engodo? Se ao menos eu tivesse o corpo bonito, apetecível… se pudesse subtraí-lo ou doá-lo… No entanto, meu corpo é pesado, insosso, sem querer me recordo da anatomia intrigante dos elefantes, sinto a flacidez se instalando no meu ventre, as pernas perdendo os músculos, a gordura se acumulando e me proporcionando o aspecto de um ser dócil e inofensivo como as toupeiras. Invisível sim, não entendo como pode reparar na minha existência transparente, depois de certa idade as mulheres deixam de ser enxergadas, nos tornamos fantasmas gordos, cansados e sonolentos e quase sempre atrapalhamos a felicidade inconsequente dos adolescentes, porque fazemos questão de explicar antes de sermos interrogados sobre as necroses das paixões.

Entretanto, se apesar de tudo isso ainda me quiser, venha, eu te espero, mas venha rápido, pois está entrando dezembro e as baratas voadoras costumam romper os ferrolhos e se instalar nas frestas poeirentas da veneziana.

 

Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” e “As mãos mirradas de Deus”, os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil pela Terracota e na Alemanha pela Clandestino Publikationen), e “A Puta”. O romance “O enterro do lobo branco” será lançado esse ano pela editora Patuá.

 

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113ª Leva - 07/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Maira Moura

 

rety ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

52 hertz

 

Muito longe das bravuras humanas, dos arcos urbanos e das balbúrdias eletro-retrógradas, dos klaxons e apitos polifônicos, das freadas aromáticas, do parquinho das crianças, do farfalhar e do piar, da massa atmosférica que uiva no campo, no deserto, na charneca, e mesmo longe das costas salgadas, das areias meladas e da última espuma.

Longe demais, em um universo todo azul, maior ou do mesmo tamanho que o universo estrelado; um sítio de densidade, iluminado por cima, trevoso por baixo, é onde mora a última de sua espécie. Queria dar um bom nome para ela, como uma espécie de consolo: “você é especial, merece nome de gente. Que tal Elizabete? Catarina? São nomes de rainhas”. A baleia tem olhos pequenos e doces e uma potente voz que satisfaz a música de todo um mar. Vaga pela estrada submersa de joias crustáceas e… “vaga”? Seria mesmo um vagar sem rumo ou teria um propósito? Não é por lhe faltar um papel na família tradicional, uma ocupação burocrática na conjuntura dos mamíferos marítimos, ou da idosa moderna, que ela seria uma vadia. Caso contrário, seriam os animais todos uns vadios. Nada disso. Ao menos para os animais, existe um propósito suficientemente definido e propriamente nominado: o Ciclo.

Mas a senhora não procriará, ela é a última de sua espécie.

Cresceu redondinha, adolescente tímida, embaraçada de sua própria falta de jeito perante os animais menores; sua dimensão astronômica que ao mesmo tempo que a aproxima dos outros seres (por uma questão espacial), a distancia dos mesmos. Tentou penetrar uma família de jubartes, como um pato criado por cisnes, mas só conseguiu que a chamassem “baleia feia”.

Baleia
Como és feia
Uma chata bedelha
Some, se der, esgueira
Que o mar te aconselha

Por isso geme. Na infância gemeu “Papai? Mamãe?”; na adolescência gemeu por seu par. Agora, velhinha, não nos dá pista de quem chama. Não há em sua estante uma caixinha de contas com o retrato adesivo do neto sobre a tampa, nem na geladeira um desenho feito pela neta pregado com o ímã-lembrança da viagem para o litoral. (Preciso colocá-la em uma casa de senhora porque não compreendo suas referências azuis – porque entendo a essência de sua solidão, mas não a dimensão. E porque saio a humanizar tudo o que não compreendo, para satisfazer meu desprezo à ignorância. Não suporto ser ignorante.)

Medrosa da humanidade, não se permitiu ser vista, somente escutada. Um dia vai morrer e consigo enterrar a história de sua família (o que seria uma boa vingança). Os cientistas não vão prestar luto, mas criarão muitas teorias em sua memória.

Nunca nos encontraremos, me basta a gravação do seu gemido, frequência 52 hertz. Embora seu rastro seja sonoro, tão audível quanto o desabrochar de uma flor, e o meu seja o desastroso rastro da humanidade, ainda insisto em levá-la no coração, como uma irmã sentimental. Porque também sou uma solitária, a última de minha espécie.

 

 

 

***

 

 

 

Trecho para hipnose

 

Não estou dizendo que o livro funcione como um estimulante psicoativo, mas digo que aconteceu comigo. De qualquer forma, não é nada prático como uma pílula ingerida com saliva ou o método sublingual, mas leva pelo menos trezentas páginas até a primeira onda, que é pseudo-onírica, porque você precisa estar encaminhado para o sono, ainda sem dormir. Depois das seiscentas páginas os cavaletes e cavalinhos começam a cair como chuva no seu quarto, mas talvez isso seja pessoal porque os cavaletes são o símbolo do meu suporte e cavalinhos, símbolo da minha força. Chegando às oitocentas páginas, você não vai lembrar quem é e andar nu publicamente não é uma impossibilidade. Já ouviu falar na loira nua do parque Ludwig? Ela estava carregando um exemplar pocket totalmente improvável desse livro.

 

 

 

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Saudade e nostalgia

 

Um menino perguntou ao avô:

– Qual é a diferença entre saudade e nostalgia?

– Bem, é muito pouca e só tem uma maneira de explicá-la, que é contando a história do homem que foi para guerra. O homem que foi para guerra havia acabado de se casar, ou estava prestes a casar, quando partiu e deixou sua mulher, que era tudo para ele. A partir do momento em que saiu pela porta de casa duas meninas começaram a segui-lo, e com ele foram à guerra. Estavam quase sempre ao seu lado – evitavam as trincheiras e tinham medo de armas, mas bastava que ele se desocupasse por um segundo que elas surgiam. Eram duas irmãs muito parecidas, quase gêmeas, e seus nomes eram Saudade e Nostalgia. Às vezes, o homem cobria os olhos com as mãos enlameadas, enquanto as meninas corriam em sua volta, cantando cantigas de distância.

“Um mês, duas milhas,
Meu amor está longe
Três cartas, quatro feridas,
Nos separa um monte”

– Outras vezes, tinha vontade de estrangular os pescocinhos, mas isso não podia fazer. Quando a guerra acabou, as meninas os seguiram até a porta de casa. Era branca, a porta, e por trás dela vinha a mulher, que ia dizer o seu nome quando ele a pegou, abraçou e beijou, sem intervalo entre essas coisas.  Não se deram conta da segunda explosão, que foi o tiro que ele deu em Saudade. Ela não morreu imediatamente, foi agonizando por dias, enquanto o homem e a mulher se acostumavam, outra vez, um com o outro. Contudo, Nostalgia seguiu ao lado do homem. E era justamente perto da esposa que mais ele escutava a canção de Nostalgia. E por mais que tentasse pegar Nostalgia, não conseguia alcançá-la.

 

 

 

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Mania

 

Jéssica tinha a mania irritante de comprar relógios caros e olhar, quando perguntamos a hora, o visor do celular. Mateus escrevia sem usar vírgula e isso era além da conta. A mania irritante de Cléber era a música alta no carro dele (e ainda achava que dava para conversar). Sócrates tinha a mania da higiene dental e escovava os dentes à cada balinha de menta que lhe ofereciam. Carlos Alberto era um falastrão, mentindo sobre números e mulheres, mas ele não podia parar, era mania. Lola, quem eu nunca chamava para jantar, comia fazendo barulho que nem uma engrenagem. A mania irritante de Sofia era mostrar para todo mundo a foto que tirou com a Madonna e a minha é anotar manias irritantes.

Nascida e residente do Rio de Janeiro, Maira M. Moura é formada em Letras, leitora, contista e autora do livro O Jardim Animado (ed. Multifoco), além de ter contribuído para alguns periódicos, de papel ou não.

 

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113ª Leva - 07/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lima

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

TRAJETO

 

Esperou por ela ali no quarto.

Esperou que ela entrasse e fosse direto para o banheiro, como era de costume. Ah, sempre com a bexiga cheia, prestes a estourar. Ouviu o baque da porta sendo fechada e em seguida o jato do xixi batendo na água do vaso sanitário. O barulho da descarga, da porta sendo aberta e, por fim, o som de passos vindo em direção ao quarto.

Esperou sentado na borda da cama. Mas a espera tornava-se mais longa do que ele desejava. Os passos pareciam fazer um trajeto enorme, como se de repente a casa tivesse triplicado de tamanho. Para aumentar-lhe a ansiedade, ela fez um pequeno desvio e passou primeiro pela cozinha. Havia se esquecido de que, vez ou outra, ela chegava faminta. Cansada e faminta.

Esperou sentado na borda da cama e com o envelope pardo numa das mãos. Ela iria perceber, tão logo passasse pelo vão da porta, que o rosto dele não trazia aquela serenidade de sempre, o sorriso e a alegria por vê-la chegar em casa depois do trabalho. O quadro era outro, turvo e sombrio.

Esperou sentado na borda da cama até os passos começarem a ressoar como se já estivessem dentro do quarto. O coração deu um salto grande e sufocante, obrigando-o a se pôr de pé. No envelope pardo, as mãos deixavam marcas de suor e nervosismo.

Esperou sentado na borda da cama até aquele instante, em que ela adentrou o quarto com o rosto banhado em luz e graça. Ela vinha de uma outra alegria que não podia se conter, mas, ao deparar-se com a imagem corrompida pela dor e exposta com tanta nitidez, acusou o baque, – o rosto desbotou-se e ela entendeu logo a razão daquele envelope brandido com fúria diante dos seus olhos.

 

 

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ASSIM, DO NADA

 

A duas camadas de tecidos abaixo da pele negra, sentiu o motor da máquina-corpo falhar. A disritmia. O corte brusco no bombeamento de combustível através da malha de veias. A fisgada, não de peixe, mas de faca que penetra aguda e tensa.  Queria duvidar: cessar assim, sob sol matinal, o pulsar forte de todos os dias? O pulsar sanguíneo, ininterrupto? Pois não estava de pé há anos, numa demonstração de vigor e saúde esse tempo todo? Árvore frondosa, milenar, que não tomba nunca – baobá invencível pelo tempo. Até uma certa arrogância, de pretensa eternidade, nesse modo de viver. A esposa, mesmo pregando no deserto, alertava sempre, Não facilita, com saúde não se brinca.

Ainda há pouco havia planejado uma série de ações para os próximos dias, tal o estado de excitação e energia que lhe tomava o ser. Bebeu uma xícara de café bem quente e acendeu um cigarro. Ah, não poderia haver prazer maior que esse. Fuma lá fora, a esposa lhe pediu. Então abriu a porta e a brisa morna da manhã bateu de leve no seu rosto. Uma carícia tão agradável que o fez lembrar-se dos primeiros anos ao lado de Alice. Afastou-se alguns metros e foi aí que sentiu como que um soco no peito.

A duas camadas abaixo da pele negra, o motor da máquina-corpo enguiçando, dando sinais de uso e corrosão, de sobrecarga de emoção e estresse. Um bater agora fraco, quase nenhum. O som abafado do motor de um Teco-Teco pifando no alto, até vir abaixo e bater no solo. A mão invisível que puxa uma cortina enorme para diante dos olhos, isolando-os da paisagem. Não poderia esperar jamais um final assim tão abrupto, fora do script, sem tempo nem para agradecer ou dizer adeus.

***

 

DONA DE SI

 

Era uma mulher livre – no sentido pleno da palavra.

Ele a conheceu assim, um horizonte amplo e indefinido. Ainda que o amasse, não conhecia fronteiras nem amarras. Era uma dessas capazes de nos fazer sofrer mesmo em pleno gozo, tal a sensação de fluidez do seu espírito e o estado sempre movediço do seu corpo. Um corpo que, estando em nossos braços, já escorregava para outro plano, outros desvãos de desejos e sonhos.

 – Morri no dia em que ela me deixou – ele me revela com a voz ainda doente, cravada de pus e dor. Essa sua voz sem cura reverbera em minha pele e atravessa minha mente de ponta a ponta.

Dela, ele se recorda principalmente do cheiro de carne e de alma em brasa. Isso que, para ele, é uma incisão profunda na memória, como essas que o vento, ao longo de séculos, milênios, inscreve nas rochas.

***

 

 

ODISSEU

 

Estou prestes a adentrar uma região vasta, assustadoramente vasta. Mundo ermo, movediço, imprevisível. A partir daquele ponto ali, onde a luz cega e alucina, meu ser vagará à deriva, entregue aos caprichos da sedução.

Posso, nesse caso, fechar os olhos e tapar os ouvidos, blindando-me contra o fascínio da beleza e a magia da voz. Poderia, inclusive, fazer meia-volta e retornar daqui, onde sinto ainda a terra, firme e segura, sob meus pés. Poderia. Mas uma força extrema me arrasta para fora de mim.

Ah, um deus furioso deve ter me atirado nessa aventura insana, pois nunca alimentei em mim tanto desvario. O fio da razão rompeu-se. Ouço o canto da sereia e avanço despido de juízo e prudência.

 

 

***

 

 

GRITOS

 

De repente o tempo fechou dentro do salão. Vi um brilho de metal luzir sob a luz da lâmpada e dezenas de pessoas precipitarem-se em direção à porta. A porta, como era de se esperar, tornou-se estreita demais para tantos corpos, para tanto desespero. Consegui vazar pela janela e sumi dentro do breu. Parei uns quinhentos metros depois, sem ar nos pulmões e coragem para avançar no escuro. Então fechei os olhos e tapei os ouvidos para não ouvir nada, nem o tinir do aço nem o estalido das armas de fogo. Mas na mente, sem que eu pudesse interromper, a cena continuou a desenrolar-se violenta e gangrenada.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora/FAC), UM (romance, LGE Editora/FAC), “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições) e “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). Participou de algumas antologias literárias, como: Antologia do conto brasiliense (org, por Ronaldo Cagiano, Projecto Editorial/FAC, 2004); Todas as gerações – o conto brasiliense contemporâneo (org. por Ronaldo Cagiano, LGE Editora, 2006); e Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro (org. por Anderson Fonseca e Mariel Reis, Oito e Meio Editora, 2013).  É autor do roteiro do filme O colar de Coralina (em fase final de edição).

 

 

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Lizziane Azevedo

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Cama vazia

 

Acordei assustada ao sentir que ele me tocava. A mão dele estava fria, chamei a enfermeira. Ela veio, checou tudo o que podia e saiu. Pus-me em vigília novamente. Não havia outros acompanhantes. Para meus irmãos, nosso pai já havia morrido há muitos anos. Dormir era impossível naquele quarto de hospital. Um breve cochilo e os pesadelos me sacudiam o corpo. A presença dele me incomodava, sentia-me observada o tempo inteiro. Naquele lugar apertado e abafado eu podia apalpar o cheiro denso do suor azedo que sempre me nauseou. Ele acordou agitado, não dizia nada com nada. Segurava o peito com força, devia ser outro infarto. Demorei um pouco para chamar a enfermeira. No íntimo era bom vê-lo estrebuchar. Até sorri, vendo-o em agonia. Mal me virei para pedir socorro, senti a força da sua mão segurando-me o braço. A mesma força que me dominava quando criança para roubar de mim o meu sexo. Tremi. Sufoquei. Meu coração batia acelerado. Pensei em gritar, chorar. Respirei fundo e busquei me acalmar, quando percebi que ele queria dizer algo. Tive receio de baixar minha cabeça até ele; mesmo assim o fiz, reunindo minhas últimas forças. Ouvi um “perdoe-me” abafado que parecia mais uma de suas alucinações. Mas uma lágrima parecia confirmar a veracidade do pedido, que foi repetido: Perdoe-me, por favor. Perdoe-me. Paralisei com o que ouvia e via. Esqueci da enfermeira, da urgência… Pensei em dizer algo. Confusa, sem saber o que dizer, corri para fora do hospital. Chorei, chorei muito. Quando voltei, a cama já estava vazia.

 

 

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Catecismo

 

Ele subia o morro todas as tardes. A batina preta fazia-o suar bicas. Apesar dos desconfortos, não deixava um só dia de cumprir sua missão. Uma bíblia enorme deixava-o com apenas uma mão livre, que estava sempre agarrada a um lenço branco. Todos os moradores do morro conheciam-no e saudavam-no ao passar. Com um sorriso gentil, ele acenava para todos; vez por outra parava para tomar um arzinho e conversar um pouco com Tuco, dono do bar da ladeira. Inteirado das novidades, bebia um copo d’água e continuava sua romaria até a casa que ele usava como capela, onde dava aulas de catecismo. Só crianças cercavam-no por lá. Os meninos predominavam no meio de duas ou três meninas. Aula encerrada, os alunos começavam a sair, um após o outro, mas não sem antes beijar a mão do mestre, que sempre se arrepiava com o gesto, invisível às crianças. Ele permanecia no local por horas com três meninos do grupo. Seriam coroinhas na sede da igreja, dizia o padre. Alguns achavam que era por essa razão que eles eram privilegiados, ganhavam presentes, roupas, sapatos. Era nítida a diferença deles para os demais, que andavam com suas havaianas furadas e shortinhos e camisetas enodoadas e rasgadas, mas ninguém parecia desconfiar do padre, até que uma batida policial desmascarou-o. De santo ele não tinha nada. Falso! Nunca foi padre. Voava pelo morro nos aviõezinhos dos meninos que aliciava.

 

Sou Lizziane Azevedo, uma advogada ávida por literatura, razão pela qual nunca dispenso a companhia de um bom livro, hábito que compartilho com meu esposo, leitor, revisor e primeiro crítico dos meus textos: André Sérgio. Moro em Monteiro, interior da Paraíba, onde fui criada e onde aprendi sobre poesia. Já publiquei diversos contos na Câmara Brasileira do Jovem Escritor; no suplemento literário Correio das Artes, do jornal A União; na Revista de Literatura e Arte Boca Escancarada e no site Diversos Afins.

 

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112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma indelével e tortuosa via chamada memória

Por Fabrício Brandão

 

Capa de A Eternidade da Maçã

 

Existem coisas que deixam nossa mente impregnada de perspectivas. Quando elas nos sugerem imagens e sensações as mais variadas possíveis, é porque algo efetivamente aconteceu dentro de nós a ponto de estimular vontades criativas. Estas tais coisas vão maquinando outras tantas e logo nos percebemos diante de um produto materializado sob a forma de um livro, espaço de projeções, arremates e de livres invenções, sejam elas labirínticas ou não.

Mesmo quando não desejamos, somos acometidos pelo mundo que se anuncia em torno de nós. A partir daí, decidimos se avançamos ou recuamos, mas deixar de perceber as externalidades é graça um tanto improvável de nos ser concedida. Talvez por isso tamanhos conflitos se operem no pulsar desritmado da dimensão mais íntima que guardamos.

A razão para as linhas iniciais deste texto serem assim construídas está diretamente ligada à experiência de leitura proporcionada por “A Eternidade da Maçã” (Ed. 7 Letras), livro de contos do escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues. Nele, irrompe bem vivo um paralelismo de sensações narrativas que demarcam uma válida opção por relacionar aquilo que está fora e dentro dos domínios humanos.

Tendo como fagulhas marcantes de inspiração canções de Caetano Veloso, “A Eternidade da Maçã” apresenta todo um território de ficções contidas num dos períodos mais assombrosos da história do Brasil – a ditadura militar. E possuir como contexto o forte cenário de tensão sugerido pela repressão ditatorial acaba sendo uma espécie de armadilha quando um autor não sabe se livrar dos apelos fáceis do tema. Para a recompensadora constatação do leitor mais atento, Marcus Vinícius foge desses ardis criativos.

O fato é que estamos diante de sete contos marcados por uma menção temporal explícita a histórias compreendidas entre os idos dos anos 60 e 70 do século passado. Ainda assim, isso é apenas um recorte do tempo para situar quem se debruça sobre suas linhas. O destaque maior está em perceber que se trata de narrativas que seguem uma cronologia interna, desvinculada, portanto, de uma sequência ordenada de acontecimentos. Nesse contexto, importa ressaltar o viés notadamente psicológico dos personagens, cujas existências são alvejadas pela ambiência plúmbea dos anos em curso. O tempo psicológico é como um grande personagem central que abraça todos os demais personagens, fazendo-os desfilar suas dores, anseios, hesitações, contradições e desejos contidos.

Marcus Vinícius é hábil em posicionar num mesmo front da consciência de seus personagens tanto as dores de um coletivo (e aqui ressaltemos a mão obscura do regime militar por sobre toda uma sociedade) quanto aquelas individualizadas. Nesse contraponto entre o externo e o interno, as narrativas ganham uma conformação especial na medida em que intercalam cenários difusos de vida. O autor manipula a dinâmica entre passado e presente, utilizando acertadamente recursos de flashback como uma estratégica ferramenta de posicionamento de seus personagens diante da percepção da realidade na qual estão densamente mergulhados.

She has given her soul to the Devil/but the Devil gave his soul to God, canta Caetano numa de suas mais vigorosas composições do período em que amargou seu exílio em paragens londrinas. Esse trecho da música Maria Bethânia, utilizado por Marcus Vinícius como epígrafe de “A Alma do Diabo”, conto que abre o livro, por si só é emblemático e sugere um caminho através do qual o contista segue a seu modo, tornando-nos intrigados observadores. Diante disso, cabe uma pergunta: quais os humanos resultados do encontro, num hospital, entre um doente major e sua enfermeira cujo irmão foi torturado por aquele mesmo militar?

Em “Barco vazio”, as noções de integridade física e moral são postas em xeque ante a extrema necessidade de sobrevivência a qual está submetido seu protagonista. A escolha narrativa aponta que num estado de exceção lógicas tradicionais se invertem a tal ponto que também é permitido ao oprimido utilizar-se dos mesmos expedientes do seu algoz. De modo intermitente, na cabeça do personagem central ecoa a frase: “Às vezes é preciso fazer alguma coisa errada para fazer o que é certo”.

É interessante perceber como o contista foge de lugares comuns, subvertendo expectativas óbvias em alguns de seus personagens. É, por exemplo, o que ocorre em “A flor e a estrela”, trama que tem por curioso arremate a ingênua visão de mundo do seu protagonista, até então alheio a tudo o que representava viver num país subtraído em liberdade. O jovem enamorado que atravessa a cidade sitiada para levar uma rosa a sua amada é a demonstração de como uma suposta alienação política deu margem a algum tempo de delicadeza e poesia.

Mais à frente, no conto “Longe daqui”, subsiste um espaço para o desejo, que em meio a toda sombra circular da traição, encontra algum mínimo abrigo diante da ausência de liberdade plena. O beijo entre amigos do mesmo sexo, parceiros de experiência de vida desde a infância, carrega em si toda uma simbologia, algo que transcende qualquer noção de sexualidade e que se norteia pela consciência de que o corpo é também um receptáculo de gratidão e lealdade.  Estamos diante de uma amizade posta à prova por vias nada usuais.

Aos poucos, vamos percebendo que os personagens são pessoas normais que, mesmo diante dum amplo cenário de repressão, cultivam uma espécie de felicidade clandestina. Esta fugidia, é claro, mas o suficiente para recriar cenários da memória, através dos quais passam vívidos flashes de saudade ou de alguma distante tentativa de reparação. Quando encarcerados ou torturados, os protagonistas das histórias recorrem a lembranças que tanto significam uma válvula de escape para a dor presente como também uma tentativa de vislumbrarem o que seria deles se tudo fosse diferente, ou seja, se suas escolhas fossem outras.

Vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia 2016, “A Eternidade da Maçã” é uma obra que prima pela riqueza de suas narrativas. Seu criador lança mão de bem elaborados recursos descritivos, tecendo um painel que agrega o físico e o imaterial. Assim, não entrega respostas prontas ao leitor. É como se as histórias ficassem em suspensão, sem um arremate derradeiro e prontas para continuar sob a dinâmica de outros olhares.

Terminada a leitura do livro, fica a sensação de que Marcus Vinícius Rodrigues não quer que esqueçamos uma das páginas mais cruéis de nossa história. Na medida em que um autor como ele concretiza isso sem nos impor desgastadas formulações ideológicas, o saldo é por demais positivo. Quiçá a luz ideal posta sobre as coisas seja aquela realmente capaz de proteger a memória, e não usurpá-la repetindo frases perdidas ao vento num desatino sem propósito.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.