Pesquisadores investigam por que, poucos anos depois da introdução do Like na sociosfera, a Conversa e o Entendimento entraram para a lista de espécies ameaçadas de extinção.
Muito preocupados, alguns cientistas recomendam que, nas zonas mais infestadas por Likes, as pessoas coloquem seus smartphones em modo avião. O procedimento costuma manter esses animais afastados um do outro, evitando assim que copulem e se proliferem ao longo do chamado circuito sedutor das redes sociais, área onde reside hoje pouco mais de metade de toda a população brasileira.
Nas regiões em que esse método já foi testado, Conversas de 20 minutos, até então praticamente extintas no local, começaram a ser vistas com frequência novamente. Pelo menos meia dúzia de pessoas declararam ter interagido com elas no jardim ou no quintal da própria casa.
Os especialistas responsáveis pelo projeto estão bastante otimistas com esses resultados iniciais e vivem a expectativa de encontrar a qualquer instante Conversas de 1, 2 e até 3 horas de duração. Com um de pouco sorte, afirmam ser possível achar inclusive algum Entendimento entre elas. O planeta agradece.
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FORMAS DE RESISTIR
Ocupamo-nos todos demais e fazemos ruído demais, procurando um modo de escapar ao inquérito do silêncio. Há tantas questões… Respondê-las não cabe em uma só vida, e nós não temos tempo, é preciso viver. Alguns ainda se calam e se trancam em monastérios, cumprindo os seus rituais sem uma palavra sequer, e mesmo assim não estão alertas o bastante: a liturgia, afinal, exige toda a sua atenção. Compreensível, é realmente duro aceitar tudo como o silêncio nos pede, sem desviar o olhar de nada – as coisas incertas nos parecem más e a certeza do mal nos faz crer que o bem existe.
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O ANACORETA
Foi no parque da cidade, o sol entre névoas dormente ainda, no instante seguinte ao coro da alvorada, quando tudo aquieta e sonda, de si para si, a glória e o terror de um novo dia, o velho professor, ali, na hora em que, por demente ou asceta, sempre se ausentava do cotidiano, resolvera: queria continuar com a manhã.
Esperou o amém de um louva-a-deus para sorte e fez a imaginação correr com um riacho – concebera dar leito às suas visagens, que pudessem se por, uma após da outra, de volta ao sonho, e narrar desde quando renasciam, multiformes e afoitas.
O córrego porém, vadiando em peraltices e folguedos, fez do venerável repetente e barroco: labirinto, de cuja libertação precisou rogar a uma formiga, pelo atentar à sua trilha, para logo a descobrir tão alheia ao enredo quanto ele: a saúva, à paisana, gozava um feriado.
Só lhe restasse então aventurar o devaneio no voo de um pássaro, de modo a lhe dar destino.
Não demorou muito, um sabiá apareceu na boca da mata sobre um galho de marianeira. Eis a sua melhor oportunidade, pronto pensou, pois, além de lhes fazer sentido, a ave colocaria ainda um canto em suas palavras. Determinou-se. Fixou os olhos no pássaro, segurou o meu braço com força e, levando aos lábios o indicador em riste, arrastou-me para dentro do seu silêncio. Era uma questão de vida ou morte, pude sentir, arremeter com o caraxué.
Setembro, com tudo, conspirava contra nós: a temporada havia posto em cada ramo uma farta porção de bagas, e o sabiá, alheio ao velho mestre, já não tinha mais o que buscar no restante do ensolarado – o anacoreta precisaria de uma outra ave, de uma espécie tão estrangeira quanto a dele.
Foi afrouxando os dedos, devagarinho e derrotado, mas sem soltar de todo o meu pulso, pois não se havia seguro vagando sozinho no ermo que o acometia. Logo adiante, à nossa esquerda, observou uma vasta campina de flores desaparecidas; deixou perambular nela o olhar perdido: alguns canários colhiam sementes na gramínea madura; refastelavam-se também noivinhas e cardeais…
Nem nenhuma dessas aves, com tanto, emigrava!
“Elas ao nada se destinam, eu ao nada me destino, e nem você vai mais ao nada além do nada me destinar, em parágrafo algum”, falou finalmente, quase de áspero.
Héber Salesescreve. Natural de Pernambuco, reside atualmente em São Paulo, onde coordena o Grupo de Pesquisa em Semiótica Aplicada do UNASP (Centro Universitário Adventista) e atua como professor e publicitário. Seus poemas, ensaios, prosas e entrevistas têm sido publicados em periódicos como Germina, Cronópios, Mallamargens, Digestivo Cultural e aqui, no Diversos Afins. Alguns dos seus textos também podem ser encontrados no blog coisas para fazer com palavras. Tráfico de Drogas, seu primeiro livro de poesia, será lançado em breve.
Havia debaixo do colchão de sua cama um facão para cortar pela metade a dor e os sonhos. Julgava uma inépcia pessoas que se refugiavam em fantasias e escutava com lassidão seus discursos. Carregava consigo uma assepsia de emoções que o deixava embotado diante de sentimentos profundos. Foi uma criança sisuda e pautada nas farmacopeias que os mais velhos ensinavam. Considerava frugais as brincadeiras das outras crianças, optando quase sempre pela aspereza da solidão. Cresceu com os ossos dos joelhos ensimesmados e não houve especialista que conseguisse curar a dor lancinante em dias de tempestades. Embora ganisse a cada trovoada, deixava que a natureza se ocupasse de ficar úmida e trincava os dentes com força para não derrubar lágrima sequer. Tão logo alcançou maioridade, partiu de casa em busca de independência. Ambicionava ser um homem rico e também preencher a arcada dentária com ouro trazido de minérios negreiros. Sua personalidade compenetrada lhe rendeu um emprego promissor em uma importante madeireira. Tinha brios luciferianos e nas parcas correspondências que trocava com a mãe não se queixava de saudades, doenças ou escassez de comida, como costumavam fazer os outros rapazes de sua idade. A madeireira foi seu único emprego. Começou como estagiário e aposentou-se como sócio majoritário, exportando pinus à Europa e, para espanto dos colegas, também para as Índias. Saía com mulheres aceitáveis, mas nada extraordinárias. Permitir-se ao extraordinário era fado dos românticos. Jamais armazenou velas para gastar com defuntos. Permitia-se ternura e superstição apenas com seus gatos, que não lhe exigiam cuidados demasiados.
II
Havia algumas raras situações em que ele cruzava o olhar com mulheres que o deixavam em estado de Lua Cheia. Ele tinha pavor do efeito hipnótico e destemperado que elas produziam em seu comportamento. Após sentir o perfume de Cleópatra que emanava do tufo de pelos no meio de suas pernas e de bebericar seus orgasmos de ambrosia, voltava-lhe impiedosa a dor nos joelhos. Ele urrava quase esfarelando os dentes entre as mandíbulas, mesmo que lá fora fizesse um sol de latejar as têmporas. As enxurradas de suor daquelas mulheres lhe valiam mais do que três mil tempestades e não havia nada que amainasse sua dor. Concluía que elas eram ardis feiticeiras, com seus seios de Medeia e gracejos de fogueira, distribuindo sorrisos como quem despeja moedas estreladas em danças ciganas e mesmerizantes. Após o encontro com essas mulheres, caía em si e rechaçava a si mesmo por ter se permitido enveredar nas ratoeiras do desejo descomedido. Punha-se então a ruminar saídas mentais e estratégicas e empunhava tochas gélidas de racionalidade que o livravam do labirinto das câmaras dos átrios e ventrículos daquele monstro sentimental que pulsava na cavidade de seu tórax. Ele não concebia a ideia de ter um coração, apenas um cérebro. Seguinte ao pequeno descarrilamento emocional, retornava a seus afazeres, se inteirando em cálculos e bebericando conhaque em negociações com outros poderosos. Voltava a esvaziar as necessidades de homem em bordéis com gorjetas mesquinhas e não beijava a boca das putas. Substituiu os dentes naturais por dentes de ouro egípcio.
III
Embora tentasse fugir dessas raras mulheres feiticeiras, houve uma delas que fatalmente o envolveu em um véu de brumas aquáticas. Quando deu por si, estava se deitando com ela em meio a incêndios oceânicos que repartiam Netuno em dois e ásperos pedregulhos vigiados por cascavéis que avisavam com seus guizos plutônicos que, frutos férteis e lunáticos, estavam quase caídos dos pés. A feiticeira estendia seu efeito desagradável também sobre seus gatos, que em noites enluaradas estranhamente tomavam formas de enormes lobos, uivando insaciáveis. Os gatos, transmutados em lobos, sumiam na escuridão e traziam consigo, na manhã do dia seguinte, embutidas dolorosamente em seus membros ainda intumescidos, delicadas fêmeas andorinhas. Ele ficava horrorizado com tamanho espetáculo e esguichava água fria para que seus gatos deixassem de ser lobos e as fêmeas partissem, incumbidas de bicarem sozinhas suas feridas. Não se solidarizava com a dor alheia. Ademais, ele estava ranzinza a maior parte do tempo. Ora porque a feiticeira não estava por perto, ora porque ela se ausentava. Ansiava em ter sua sobriedade de volta, embora soubesse que o preço a pagar seria alto. Teria de expelir todo o carmim de suas paredes para revesti-las novamente com o cinza dos bordéis e dos números certeiros de seu livro de contas. Além disso, os gatos pareciam conspirar contra ele quando não transfigurados em lobos. Quando ele começava com suas especulações taciturnas sobre as implicações negativas acerca da feiticeira, os bichanos bocejavam modorrentos. Desde que haviam experimentado os presságios mágicos da Lua Cheia eles observavam sua soturnidade com audaz desprezo e abençoavam a entrada daquela mulher bruxa em suas vidas.
IV
Mal ele sabia que os gatos haviam desenvolvido o desagradável hábito de espionar suas noites de volúpia com a feiticeira, que dominava a arte do amor e entregava despudorada cada nuance de seu corpo quente. Ela engatinhava pelo quarto como uma pantera e colhia seu sêmen em uma taça de ouro. Quando ela fazia isso, os gatos que estavam espionando pelo vão da porta, ficavam de pelos eriçados e salivavam inebriados. Para ele, aquelas foram noites guiadas por um deus ébrio de Vênus e nada daquilo lhe soava linear. A passagem arrastada do tempo o deixava Saturno. Decidiu que era a hora de findar aquela desgraça. Após uma noite ardente, ele acordou e sentiu falta da feiticeira ao seu lado. Foi procurá-la pela casa e flagrou-a dando seu sêmen de beber aos gatos. Eles lambiam a taça de ouro e ameaçavam transformar-se em lobos. No lugar dos cabelos escuros e sedosos da mulher, brotaram-lhe serpentes que ondulavam sensualmente ameaçando o picar nos olhos para que ficasse cego. Ele começou a gritar apavorado, ordenando que Medusa fosse embora e que levasse com ela as serpentes e aqueles gatos-lobos repugnantes. E assim foi. Para disfarçar a sensação de perda ele iniciou uma criação de cabras. Elas talvez lhe pudessem render calmaria e algum trocado com o leite que produziam. Nutria uma raiva sombria daquela mulher que surgiu em sua vida para levar o que mais de precioso ele tinha: os gatos. E sua inconfessável presença de bruxa. A dor dos ossos do joelho se tornou violenta como uma maldição. Em vez de surgir em meio às tempestades, ela agora anunciava sua presença nas noites de Lua Cheia. Enquanto lobos uivavam ao longe, primeiro partiram-se as juntas e depois os ossos de seus joelhos. Os dentes de ouro de sua boca derreteram-se como argamassa, grudando seus beiços definitivamente. Ele morreu de hipotermia, julgando escutar lobos afônicos uivando lá longe, enquanto suas cabras pastavam tranquilamente na colina. Jamais derrubou lágrima sequer.
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Domingo maravilhoso
A madrinha arrumou-se com vaidade para participar das costumeiras novenas de quarta-feira que dona Neide, uma senhora ucraniana, grandalhona e azeda organizava na garagem de seu filho. Ordenou à afilhada para que tomasse conta do cachorro e da casa, que logo voltaria para prepararem o jantar e arrumarem as fotografias da parentada. Estava um mormaço por causa do extenuante calor e a afilhada estava deitada, lendo tranquilamente na rede da área, quando em meia hora a madrinha voltou para casa ofegante, dizendo que havia saído no jornal local a notícia mais fantástica do mundo: na paróquia onde ela assistia às missas de domingo, atraído pelos miados medrosos de seu gato, o padre entrou correndo na nave pensando tratar-se de um assalto, quando viu as chamas das velas num fogaréu atiçadíssimo, quase atingindo a cúpula da paróquia. Os santos todos flutuando sobre a mesa do altar. A madrinha em êxtase infantil, exibindo as pontes d’ouro dos dentes enquanto sorria.
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Aos anjos de Ana Cristina Cesar
20 de agosto de 2010
Quando vi o porteiro, contrariei as regras sociais todas e pedi para que ele me desse um abraço, na ânsia de consolo para a argamassa de ruínas que eu fechava atrás de mim no portão do prédio. Vesti-me de puta para agradar aquele homem. Puta mesmo, capa de chuva e nada por baixo, apenas as botas de cano alto. Quase cinco anos encarnando a personificação venusiana de um espancador de psiques.
16 de dezembro de 2000
A vó ficou preocupadíssima porque saí de casa às 2h da manhã com uma turma para ver o sol nascer no aeroporto. O carro de meu amigo estacionado na frente de sua casa e AC/DC no último volume a deixaram horrorizada. Eu carregava na mochila “O apanhador no campo de centeio” e “A hora da estrela”. O sol nasceu lindo naquele dia. Não me deixei ser beijada por W. Não queria ser beijada naquela manhã.
23 de setembro de 1999
M. e Carlos disseram-me para que eu não chorasse. Deram-me um baseado enrolado com muito amor e serviram-me vodka no maior copo de plástico. Carlos pôs um gomo de mexerica e mexeu a bebida com um galho de árvore. Estávamos na pracinha perto de minha casa. O namorado de M. dormia sobre um banco que nós duas já havíamos urinado, bêbadas. Senti-me em comunhão com o mundo compartilhando olhares cúmplices com minha primeira amiga de Escorpião. O busto do marechal piscou para a cadela no cio que revirava os lixos. O sangue dela pingando na calçada, que o absorvia como nanquim.
11 de junho de 2011
No plantão da clínica veterinária, 22h, com as mãos e o rosto cheios de excrementos de meu cachorro que estava morto, sendo em vão reanimado na sala de emergência. Joguei-me nos braços do guardião, dizendo a ele que a única coisa que poderia fazer por mim era me abraçar. Também sujei suas roupas com o excremento de meu cachorro e o cheiro não enojou nenhum de nós, pois fomos humanos e sabíamos que havia muito mais em jogo. Antes disso, quase lanhei o rosto do taxista que quis cobrar-me a lavagem do banco do carro. Disse-me que havia perdido todas as corridas da noite com a morte de meu cachorro em seu automóvel. Atirei uma nota de cinquenta reais em sua cara. Disse que no outro dia daria mais. Estava prestes a saltar sobre ele, pantera e mãe. Expus sua vergonha capitalista.
10 de setembro de 1998
Nunca havia me sentido tão feliz e parte de alguma coisa. Nós dois nos amávamos e um de nossos jogos favoritos era transmitir por pensamentos a cor da roupa de cada um enquanto conversávamos por telefone. Sempre acertávamos. Nossos amigos escutavam Garotos Podres, ensaiavam no porão da casa de Rodrigo e, nas horas vagas, jogavam cartas. Eu aproveitava tudo até à exaustão. Sabia que aquilo um dia viraria memória, eu não seria a noiva carregando flores de pitangueiras na catedral, então, parte de mim já despedaçava-se antes do tempo previsto, antecipando crises e passeios no cemitério municipal. Não perdi minha virgindade com B. Sentei-me em lápides e conversei com mortos.
24 de maio de 2000
Estava tentando gostar de Megadeth, por indicação de uma amiga que era apaixonada por eles. Ela era loira, com o cabelo ondulado gigante, caindo até seu magro quadril. Uma sereia simbolista. Em seu queixo havia algumas espinhas, o que estranhamente tornava-a mais charmosa e valente. Eu tentava ser vocalista de uma banda punk das meninas ricas do colégio. “Casa de bonecas”. Não pude seguir as penosas ordens das donas dos instrumentos e locais de ensaio, exigindo de mim uma disciplina de convento. Eu não era uma boneca. Eu não tinha casa. No fim, afastaram-se de mim, por ser “má influência”. Julio havia tomado muitos Benflogin e conversava com uma vaca que estava sentada no banco de trás, ao meu lado.
12 de junho de 1988
A falta de notícias suas atirou-me na gruta dos perdidos escandalosos por migalhas da sua boca que me navalha. Da sua ausência que me espicaça. Enterrei o peixe petit poá junto com o canarinho Kenny G. A tartaruguinha de Carolina perdida no acidente de carro. Exorcizar fantasmas alheios e atentórios dói. Frustrações atiradas como sacos de gelo sobre uma alma quente, porém destemperada. Incendiando nas labaredas de paraísos maniqueístas. Carolina levava-me ao cinema e dormíamos no banheiro, assistindo a várias exibições escondidas, de graça. Nossos corpos vicejados foram atravessados por um raio. Carolina cantou para mim. Você vomitou no BH Lanches. A cicatriz no ventre de sua mãe é profecia.
Priscila Merizzio é curitibana. Editora convidada da Germina — Revista de Literatura & Arte. Tem textos publicados em jornais, revistas literárias e antologias brasileiras e estrangeiras. Participou da Bienal Internacional de Curitiba de 2013 e outras exposições e mostras. É uma das organizadoras da Antologia 29 de abril – o verso da violência (ed. Patuá, 2015). Minimoabismo (ed. Patuá, 2014) é seu livro de estreia e foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2015.
Recebi o último telefonema. Ele queria o dinheiro ao meio-dia, nenhuma hora a mais. Tentei argumentar várias vezes, disse que não tinha tanto dinheiro assim nem tinha como conseguir, que eu era apenas um reles assessor de vereador (o cargo pode parecer pomposo, mas fora a pose e a vaga cativa no estacionamento eu não era ninguém). Mas ele sequer parecia me escutar, não se alterava com a minha histeria e nunca conversava comigo. Telefonava e só falava o que tinha planejado. Devia ser parte da estratégia não dialogar, o que me deixava mais enfurecido e acuado. Se existe algo que me tira do sério é ser ignorado, gosto de falar, gosto que me escutem, gosto de plateia. Confesso que sou até indelicado com meus interlocutores e mal os concedo o direito de abrir a boca. Agora ele fazia a mesma coisa comigo. Ele devia me conhecer, ele não apenas sabia quem eu era; ele sabia como eu era. Ele também sabia que eu seria capaz de tudo para destruir aquela gravação, que eu estava desesperado. Por isso não o subestimava, todo adversário de mérito tem o meu respeito.
Rastreei suas ligações, em vão. Cinco ligações, cinco horários diferentes, cinco telefones públicos do centro da cidade. No começo, pensava que era alguma brincadeira, porém ele logo me fez perceber que a história era à vera, ele sabia demais. Se aquele vídeo aparecesse eu estaria perdido, seria o meu fim. Com uma arma invisível engatilhada na minha testa não havia muito a ser feito. Saquei o que tinha disponível nos bancos, fiz dois empréstimos com terceiros e vendi o automóvel da minha esposa, ainda assim faltava bastante, mas acreditava que conseguiria renegociar cara a cara. O encontro ele marcou no Largo Dois de Julho, local muito movimentado, frequentado por todo tipo de gente, certamente pra não chamar atenção. “Como saberei quem é você?”. “Não se preocupe, você saberá”. Desde o início foi a única pergunta que ele respondeu.
Duas horas antes, já estava no local combinado. Comprei uma latinha de cerveja num bar e me sentei num banco de praça, com a maleta entre as pernas, tentando aparentar tranquilidade. Ele não demoraria, talvez já estivesse me vendo de uma daquelas janelas velhas, se divertindo com a minha tensão, mas não dei esse prazer a ele, não novamente. Em um dos seus telefonemas ele mandou lembranças para Melissa antes de desligar. Melissa é minha filha do meu primeiro casamento, tem dezessete anos e mora com a mãe na Federação. Me controlei enquanto pude, antes de decidir investigar — acho que eu estava vendo muitos filmes. Quis saber se ela tinha e quais foram seus últimos namorados, seus horários, suas rotinas, coisas que eu não fazia a mais vaga ideia. Cheguei a imaginar que ela e a mãe poderiam também estar envolvidas, porém vi o absurdo a que eu estava me submetendo: era só uma jogada, e eu caí. Não sei se era a intenção dele, mas comecei a desconfiar de todos a minha volta, ninguém escapava do meu paranoico controle de desconfiança. Concluí que era uma pessoa próxima, que ele estava acompanhando meus passos, me analisando, averiguando o efeito dos seus telefonemas, aguardando o momento oportuno para me desestabilizar. Era realmente um adversário que merecia meu respeito.
Meio-dia e nenhum sinal dele, comprei mais duas cervejas e continuei na minha espera. Todos que passavam por mim eu olhava detidamente, como se a qualquer instante fosse falar comigo alguma frase solta, codificada, que facilmente eu interpretaria. Um mendigo, um flanelinha, uma estudante, um bêbado, uma periguete, uma dona de casa carregando sacolas de compras, um vendedor ambulante, um velho, todos eram suspeitos. “Nada de gracinhas”, foi a recomendação que ele mais repetiu. Quis recrutar alguns amigos que eu tenho na milícia, gente experiente que sabe fazer um trabalho limpo, sem vestígios, sem alardes, mas seria melhor não correr nenhum tipo de risco, ele parecia ser muito esperto, não era um aventureiro, sabia o que estava fazendo. A cada minuto minha ansiedade aumentava, não queria, mas estava nervoso. Mais de uma hora da tarde, quanto ainda devia esperar? Sem saber a resposta, fui ficando, entre uma cerveja e outra, até ao anoitecer.
Voltei para casa exausto, me sentindo pior do que eu estava, o pesadelo não tinha acabado, brevemente começaria tudo outra vez. A qualquer momento o telefone tocaria, mantendo o suspense, foi o que eu pensei quando resolvi dormir na sala. Ele deve ligar hoje, foi o que eu pensei quando disse para a secretária do gabinete que eu não estava para ninguém. No entanto, seguiram-se os dias, os meses, e nenhuma notícia dele. Misteriosamente, ele tinha desaparecido. O que aconteceu? Provavelmente, jamais saberei nem pretendia especular. O certo é que aprendi uma grande lição disso tudo: não negocio mais nada, nada mesmo, sem ter a mais absoluta certeza de que eu não estou sendo grampeado.
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“A MINHA ALMA NUA”
“A minha pele de ébano é/ a minha alma nua” (Alegria da Cidade, Lazzo/ Jorge Portugal)
Houve um tempo em que eu tinha desistido de mim, não sabia o que era a luz do dia nem alimento que não fosse bebido, injetado ou aspirado. Quis cair de boca na boca da noite e acabei caindo nos dentes da Boca do Rio. Era requisitado pelos playboys da Pituba, pois constava sempre a massa boa, “a de qualidade”. Curtia a noite até a última ponta: suas dores, seus atalhos, seus clichês, suas miragens. Até conhecer Clara, uma negra de porte altivo e cabelos de nylon, que realizava um trabalho social com as prostitutas e travestis afrodescendentes da orla. Eu era útil para ela porque sabia o ponto e o nome de todas, algumas até o nome de batismo. Cheia de revolta e ideais socialistas, me fascinou seu discurso caduco, suas vestes de princesa africana e sua idolatria por Omolu, “o que mata sem faca”. Seu conceito de igualdade pouco se chocou com meu desencanto humanitário. Foi a minha pele parda, de mestiço do Recôncavo, que não combinava com a dela. Clara era o arco-íris de Madagascar, mas me considerava muito branco para o seu universo.
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AQUELES SEIOS
Trabalho no setor de mamografia de um hospital público há pouco tempo, mas o suficiente para eu perceber que sou o homem errado no lugar errado. Não sou uma peça na engrenagem, sou um hamster na roda. Atendo oito pacientes por turno, nenhum a mais. Mulheres amedrontadas na companhia dos maridos ou das filhas, com suas tetas velhas, flácidas, pálidas, gastas e adormecidas. Para mim, indiferentes montes de carne. Até eu conhecer Dona Filipa.
Dona Filipa apareceu no meio do expediente de uma quarta-feira. Quarenta e quatro anos, seis filhos, semi-alfabetizada, moradora da zona rural. Era o que dizia sua ficha. Tomei o último gole do café frio e, enquanto assinalava mecanicamente algumas opções do formulário, pedi para ela fazer a gentileza de tirar a roupa. No entanto, quando vi aqueles seios, emudeci assustado, logo eu, tão acostumado à malta infinda de donas de casa desnudas deparei com o mais belo e perfeito par que já existiu. Antes, acreditava que peitos bonitos só frequentassem clínicas particulares. Dispensei-a sem realizar seu exame.
Alguns meses depois, Dona Filipa retornou. E novamente não realizei seu exame. Se aqueles seios tinham algum vestígio de câncer eu preferia não saber.
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DIA DE VISITA
Hoje é dia de visita. Se fosse em minha casa, deixaria tudo arrumado, arejado. Prepararia aperitivos, abriria as janelas, trocaria as cortinas, lustraria os móveis, teria livros de fotografia e poesia na mesa de centro, colocaria os gatos do lado de fora, flores nos vasos da sala. Mas só se a visita fosse em minha casa. A visita em questão é à penitenciária, onde sou simultaneamente convidada e anfitriã. Sou eu que preparo os biscoitos, bolos, pães; compro frutas, cereais, cigarros. Esse rito semanal tem quase dez anos, desde que Pedro fez aquela bobagem, não deveria, mas me acostumei.
A palavra penitenciária é derivada de penitência, que quer dizer arrependimento de algum pecado ou culpa. Mas a última coisa que se encontra lá dentro são arrependidos, apenas amontoados de presos. A palavra presídio define melhor a situação.
Minha preocupação agora é a frente-fria que aportou sobre a cidade, dizem que nos últimos dias choveu o esperado para o mês inteiro, a capital praticamente parou, o que não é nenhuma novidade. Salvador é uma cidade de verão apenas no cartão-postal. Basta qualquer chuvinha para alagar as ruas, congestionar o trânsito, desmoronar encostas, desabrigar o povo e aparecer governante na TV fazendo promessas. Será mais trabalhoso sair com tantas sacolas debaixo desse temporal; no entanto, esperar é correr o risco desnecessário de perder o horário de visitas. De ônibus, com sorte, chegarei em duas horas.
O diretor do presídio, para não criarmos vínculos, costuma revezar as agentes que fazem a revista: procedimento inútil. Venho aqui há tanto tempo que sou amiga de todo mundo, nem me revistam mais. Porém hoje a funcionária nova quer que eu deite e abra as pernas, pede com a autoridade de recém-empossada. Ela está toda orgulhosa em seu colete preto, deve ser do tipo que engraxa repetidamente os sapatos e o distintivo. Não me incomodo, passo pelo constrangimento como se fosse uma consulta ginecológica.
Enfim, o portão principal é aberto e o primeiro grupo revistado é liberado para entrar. Voltou a chover forte. A área de visitas fica numa galeria do outro lado do pátio.
Não é permitida a entrada de guarda-chuvas.
Herculano Neto nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA). Publicou pela Fundação Casa de Jorge Amado o livro de poesia “Cinema” (Prêmio Braskem Cultura e Arte, 2007) e pela Coleção Cartas Bahianas da Editora P55 o volume de contos “Salvador abaixo de zero”. Organizou a coletânea de contos inspirados em canções de Raul Seixas, “Outro livro na estante”, pela editora Mondrongo; pela mesma editora lançou “A Casa da Árvore” (poesia).
Deixei minha covardia alimentar-se das decepções; não fui mulher pra te encarar, fazer de ti o homem que eu queria. Na cama e fora. Porque eu adoro quando seguras firme meu quadril e entras em mim, deixando que eu sinta cada milímetro do seu pau enrijecido e babado, num incontrolável desejo de ir além e gozas dentro ou em cima de mim, e, com a cara vermelha, dás um lindo sorriso despencando ao meu lado.
E você me dizia coisas doces no ouvido e me fazia surpresas, me deixando a mulher mais encantada e encantadora do mundo. Ficava segura quando pegavas em minha mão pra atravessar a rua. Assim, atravessaria cegamente qualquer avenida.
Mas meu orgulho não pode ser ferido desta forma, Lelo. Sou, como você chama com seu machismo, descontrolada. Faço qualquer loucura em autodefesa. Mas quando a lucidez do passional volta, Lelo, ela chega como uma ressaca moral sem remédio.
Você era a ponte da felicidade, o problema de todas as razões e a solução de todos meus distúrbios. A cura de feridas antigas, e a abertura da cárie do amor. Duvido se, onde estiver, não sentirá falta das minhas lembranças sobre os horários dos remédios, saber se você tinha lanchado de acordo com o que recomenda uma vida saudável.
E deves, neste exato momento, sentir falta da minha mão acariciando levemente seu braço, suas costas, te dando a certeza que há uma mulher de verdade ao seu lado. Eu sinto saudade da sua pele, dos seus pelos, do cheiro do seu perfume no pescoço.
Mas eu não sou submissa, por mais que ame e por mais que tenha te amado. Eu não aceito certos desmandos, de homem nenhum. Nunca aceitei, Lelo. E olhe que te amei e assim continuo. Tenho meus olhos cheios d´água e não sei exatamente porquê.
Por alguns milésimos, o arrependimento vem e, junto com ele, lágrimas salgadas de derrota, de covardia. Mas, por outros milésimos, penso que foi melhor assim, pra que não haja mais machucado na alma, nem sangue na mão.
Eu não quero fazer deste momento um drama, nem uma comédia, nem uma terapia mórbida, isto não é do meu feitio. Mas, enquanto te falo algumas palavras, meu coração se enche e eu tenho um imenso desejo de que me ouça. Ao menos, uma vez na vida, me ouça, Lelo, perceba o mal que você me faz em poucos minutos; em comentários desnecessários; em condenáveis faltas de atitude.
Mas além de tudo, quero muito que saiba de uma coisa: você vai estar dentro de mim, sempre. Dos meus gestos, da minha cabeça, da minha alma, da minha pele, de tudo que dirá respeito a mim como mulher. Porque assim me fizeste e me tornaste uma dama com seu cavalheirismo e companheirismo. Mas tudo se acaba em segundos.
É o momento de eu olhar seus olhos fechados, descansados, sua expressão de dor, e pensar nos bons tempos, pra achar alguma piedade em meio a esta cratera no meu orgulho. E encontro. Facilmente encontro, Lelo. Encontro bons tempos na nossa história. E tudo isto me faz sorrir. E é um sorriso diferente de todos que já experimentei. Do orgulho de mulher bem amada e o sorriso de mulher bem vingada. Eu vejo um anjo neste momento, que há pouco era um demônio algoz da minha feminilidade.
A saudade virá de tempos em tempos, arrebatadora como um tufão. Mas logo logo algum cavalheiro macho dará mais áurea a meu orgulho feminino e me fará ainda mais mulher, deixando-te apenas como especial. Alguém especial na minha trajetória. E nada mais. Talvez, Lelo, eu nem pense mais em você como homem.
E como sei que estará para sempre dentro de mim, vais ver os homens bonitos com os quais dormirei em Bali. Vais se banhar comigo nas praias paradisíacas, beber drinks com guarda-chuvinhas na borda do copo e azeitona. Se algum dia pensar em você com muito carinho, Lelo, prometo fazer-te a graça que sempre quiseste e deitarei com outra mulher. Que achas?
É estranho não sentir suas mãos acariciando as minhas de volta. Cada passo sem você, pelo menos neste início, vai ser muito estranho, tudo se tornará opaco, vazio… falta seu delicado toque de dedos em minhas mãos agora e falta sua voz em meus ouvidos e seu pau na minha buceta.
Você está quase gelado. Sinto seu dedo duro. O sangue está secando e fazendo uma gosma nojenta e eu esfrego em meu nariz, numa tentativa de colocar pra dentro seu cheiro, seus nutrientes, seus anticorpos – a química que equacionou com a minha e resultou em cumplicidade.
A temperatura do seu corpo alcança meu coração e me traz uma sensação de medo horrorosa. Eu queria de verdade era ficar ao lado do seu corpo pelo resto da minha vida. Mas com você assim, Lelo, sempre quieto e enrijecido. Frio, pra não ferir meu orgulho de mulher.
Não sei se tenho forças pra continuar, não sei se estou mesmo a fim de ver o mar de Bali ou tsunamis da Indonésia sem você fisicamente comigo. Meus desejos estão postos à prova, sendo encurralados, interpelados pelo machismo que carregas.
Eu não vou sozinha pra Bali, Lelo. Eu vou me entregar aqui mesmo. Tenho que engolir o sangue do meu orgulho, respirar fundo e voltar à vida real. Preciso olhar-te nos olhos e encostar minha taça na sua, respondendo-te a nós, selando ainda mais minha condição ao seu lado.
Sinto-me livre nestes pensamentos que insistem em cercar meu universo interno cada vez que vejo seu olhar cínico; sua arrogância machista. Imagino o que o destino teria nos reservado, caso estas cenas de despedidas, que insistem em rondar meu cérebro, fossem reais. Bom, o seu futuro não seria difícil de adivinhar.
Busco em você tudo que não podes me dar.
Então, eu saio destes pensamentos loucos que se fazem e desfazem em segundos da sua arrogância e brindo com você, Lelo.
Meu homem. Meu companheiro.
– Aos dez anos de casados. E que venha a segunda lua de mel.
Bali!
Tim tim.
***
Dose Fatal
Eu havia pedido apenas uma xícara, algo leve, o suficiente para me manter de pé e seguindo adiante, não tinha tempo para marcha ré. Foi meu amigo Grático quem me serviu dizendo que eu tomasse cuidado, pois era uma dose pequena, mas era uma dose forte. Eu falei a ele que estava acostumado com xícaras daquele tamanho e ele me disse que o problema não era a xícara, era a colher. A colher era pequena por demais, bonita até, quase sumia na mão dele antes de me entregar. Eu sorri quando a vi e perguntei que mal algo tão diminuto poderia provocar, até porque quando eu a usasse ela sumiria de vez e junto com o conteúdo da xícara e com a própria xícara, tudo entraria em mim e faria parte de mim, eu absorveria aquilo tudo e manteria meu caráter. Meu amigo riu e disse que não era bem assim porque eu não estava acostumado com a concentração de palavras, letras, ciências, astrologias e orgias que tinha ali naquele recipiente. Na hora, eu levantei a sobrancelha, peguei na colher fazendo-a sumir entre meus dedos e rodei, lentamente, a xícara. Vi aquele emaranhado de dizeres e regras e verdades misturar-se, pronto para encarar meu suco gástrico e meu amigo disse novamente que aquela pitada de matemática poderia me deixar infeliz, mas eu o tranquilizei porque disse que cinco mais cinco era vinte. Mas logo ele ficou nervoso de novo porque quando coloquei a ponta da porcelana na minha boca, ela era tão ácida, que queimou um pouco do meu lábio e meu amigo Grático mandou eu ir mais devagar e eu disse que não tinha tempo para marcha ré nem para paradas muito longas e deveria tomar aquele conteúdo de uma só vez para continuar andando, prosperar e nunca parar. E foi então que tomei a decisão, sem rima nenhuma me atrapalhando, de virar de vez para imaginar aquela acidez, que não tinha tempo para rima, digladiando com a acidez do meu ácido gástrico que chamam de suco, mas me faz mais mal que suco de laranja. E o conteúdo ácido e humano brigaria com meu suco ácido e biológico, transformando-me num homem desumano e cartesiano. Imaginei gregos e troianos, e me vi diferente e foi então que virei a xícara perdendo todo meu lábio, engolindo minha língua, minha acidez e o conteúdo quente que, imediatamente, esfriou-se dentro de mim, deixando-me uma estátua gelada e repleta de acidez, letras, ciências, astronomias, matemáticas e brochadas orgásticas.
Thiago Mourão é redator e escritor. Tem artigos assinados no Brasil Post, Gazeta dos Búzios e Jornal O Globo. Cursou cursos de pré-admissão para o mestrado em Literatura e Escrita Criativa da Harvard Extension School e está com o caminho trancado devido à alta do dólar. É especialista em Divulgação de Ciência pela Fiocruz RJ e é autor do livro Java Jota (ed. Patuá).
A velha sentada na varanda suspensa de madeira não mexe mais os olhos para ver o que acontece no chão, cinco metros abaixo. Ela não respira. Para não sentir o cheiro da podridão que vai além das fezes dos animais e do mijo dos bêbados e da porra dos homens que trepam com as prostitutas no beco e das línguas que envenenam histórias nos ouvidos fracos e do tabaco vagabundo dos operários. Ela não está morta. Mas é como se estivesse. E talvez esteja. Não da morte que deita no caixão e põe nas narinas algodões para aparar os fluidos fétidos do corpo. Ela morreu de inexistência. Do dia após dia em que ganhar nunca foi opção. Ela perdeu. Tudo. Os dentes da boca infectada; os cabelos brancos fracos e finos que os anos trouxeram antes ainda da velhice; o tesão que aliviou tantas noites cansadas de dias de trabalho insano; os filhos que não vingaram na barriga por causa da fome e das doenças; o companheiro que foi embora deixando para ela uma cria doente que mal vingou e quatro tíquetes de refeição que recebeu em pagamento por um serviço de pedreiro. Além dessa cria, que depois virou anjinho, ainda ficou para trás uma solidão que também tinha fome. A única que ela conseguiu nutrir até que os farelos se acabaram.
Inerte na varanda. É assim que ela vive. Na cabeça, um pano encardido para esconder a calvície. E um vestido preto que não é de luto, mas da sobra dos sacos de caridade da igreja. Um dos olhos já quase não se abre; e o outro não se importa. Ela não sente nada. Nem alívio. Ao lado, um prato de comida que alguém traz quando pode. Vazio. E uma caneca de água pela metade. Ela sempre come tudo. E bebe aos goles. Deixa que mãos estranhas a banhem numa bacia de água fria, a vistam com o mesmo vestido preto, envolvam a sua cabeça no mesmo pano encardido, e a levem de volta à cadeira na varanda. Ela come e bebe porque quer ficar forte para continuar a vigília. E se esquecer de tudo o que fede e grita cinco metros abaixo. Quer se aprumar para caminhar com a morte quando ela chegar. Na direção do céu que só existe bem longe. Lá, ela vai rever a cria, o pai funileiro, a mãe costureira. Gente que a saudade desassossegada nunca deixou partir do pensamento. E vai ganhar vestido novo. Todo branco. E uma tiara brilhante para prender os cabelos pretos, longos, cheios. Essas coisas que só Deus dá. No céu.
***
Na escuridão não existe cor-de-rosa
Quando eu era pequena, eu queria ser bruxa. Bruxas não usam cor-de-rosa. Nem são loiras. Eu não conheço bruxas loiras. Só conheço fadas. Castelos. Sonhos. Varinha de condão. Sapatos número 35 — vá lá, 36 nos dias de calor! —; manequim 34. Gestos delicados. Passos de gata no cio. Ou de gazela, ou de garça. Esses bichos dissimulados. Cabelos loiros. Loiro Ultraclaro 90. Koleston. Nem cachos, nem ondas. Liso europeu. Fadas são europeias. Olhos azuis bem claros. Da cor do mar de Aruba. Que não é na Europa. O mar das bruxas não é azul. É escuro. De tempestades e naufrágios. Mar Negro. Afunda cinco navios de uma vez. Carrega tudo para as águas de baixo. Embaixo d’água não tem fada. Fadas não podem molhar o cabelo. As bruxas podem. Bruxas têm cabelos de anêmona. E se grudam nas rochas do fundo do mar. E afundam navios. Cinco de uma vez. Para brincar de contar os corpos inchados dos afogados e os pedaços de barcos e lemes e adriças e quilhas e estais e gaiutas e birutas. Birutas são as fadas. Mornas como as correntes do Golfo. Bruxas são geladas. Como as correntes de Humboldt. Cheias de plânctons, de peixes. Ou quentes pela chegada afrodisíaca de El Niño. Eu queria ser bruxa. Quando era pequena. Vassoura, caldeirão, poções de magia, chapéu de ponta. A carruagem das fadas não é segura. Ela rola no precipício. No precipício das bruxas. Onde moram as cobras, os lagartos, os sapos que nunca viram príncipes. E os corvos, essas criaturas dadas às carnes mortas. Que só comem quando sentem fome. Que limpam a sujeira que não fazem. Limpam, limpam, limpam. Para que as fadas pisem terra sem restos. Para que as fadas não cheirem a podridão da morte. Mas as fadas insistem em preferir os passarinhos. E os dias de sol. E os meninos e meninas com juízo. E os homens bonitos. E o pagamento em euros. Ou libras. Cotação em alta. E tudo cor-de-rosa. As unhas, as bochechas, o pôr do sol, a vulva, a moldura do espelho. Bruxas não gostam de luz. Nem de reflexos. Por causa das verrugas que têm no nariz. Que afastam os meninos e meninas cheios de juízo. E os homens bonitos. Bruxas só gostam da noite. Entranhada dos sons das criaturas invisíveis. E da igualdade mais estranha. Na escuridão não existe cor-de-rosa. Nem fadas. Porque as fadas dormem com as galinhas para ter a pele mais bonita. Eu queria ser bruxa. Desde pequena. E de tanto gritar para a boca da noite, ela me respondeu: Your wish is my command!
***
Bonecas
Sentada na beira da cama, inexpressiva, ela deixa que ele vista seu corpo com o vestido azul brilhante. O batom vermelho e os cabelos arrumados como os de uma boneca importada são detalhes que ele ajeita com meticulosidade assustadora. Com as mãos trêmulas, ele prossegue, tirando do bolso da camisa um par de brincos pingentes. São caros e já foram usados. Ela não é a primeira. Longe disso. É de meninas como ela que ele sobrevive faz tempo. Muito tempo. Meninas compradas por algum dinheiro, meninas que ninguém quer. Ele quer. Com a obscenidade dos monstros.
Não sente culpa. São elas as culpadas. Os demônios que o fazem desejar e obter. São elas, e seus olhos ainda sem história, e seus corpos ainda sem forma, que o atraem para o pecado. Por isso ele as odeia. Criaturas malignas. Feitas para lançar no inferno homens como ele, que não resistem à pureza.
É um vício caro. Porque ele não repete nenhuma delas. Uma vez tocadas, não servem mais. Mas de onde vem uma, vêm todas. Histórias e histórias que se repetem nas ruas e nas periferias miseráveis. Todos os dias. Meninas oferecidas por pais e parentes em troca de pouco dinheiro. Ou espalhadas por avenidas e portas de cinemas, de teatros, de igrejas, em bandos barulhentos. Ninguém sabe delas. Ninguém quer saber. Ele quer.
Geralmente, o cafetão as entrega num quarto de motel. Mas acontece de ele mesmo ir buscá-las, quando os instintos se descontrolam em urgência. As roupas, no entanto, ele faz questão de escolher. Cada vestido, cada sapato, cada colar ou brinco. Os batons e a maquilagem dos olhos são baratos. Comprados sempre em lojas diferentes, mas com a mesma desculpa: presentes para a esposa. Como se a dele usasse batom barato, maquilagem barata. Como se a dele não fosse tratada a coisas caras. Como se a dele se prestasse às imundícies que ele comete nos motéis. A cadela de luxo que não quer lhe dar filhos. Ela jura que não pode, mas ele sabe que é mentira. Logo ele não é pai. Ele que quer tanto as suas próprias crianças para ninar e pôr para dormir. Para serem só suas.
Faltam apenas as sandálias. Mas ela continua sentada na beira da cama. Esperando. Indefesa como todos os impotentes. Pensando que nas ruas estaria dormindo no chão duro, sem ter o que comer. Que estaria fugindo do cafetão que bate em todas as meninas como ela. Que estaria com frio. Apenas por isso, e por tudo isso, ela acredita que tem sorte de ter sido escolhida. E olha a boneca bonita e sorridente que ele lhe deu. A boneca que é mais cara do que ela. Mais limpa. Mais feliz.
Ele a toca. E ela pensa que talvez seja melhor dormir na rua, com fome, sobre o chão duro forrado com pedaços de papelão das caixas de supermercado, agarrando-se às outras meninas para não sentir frio. Mas também pensa em tudo o que mais quer: a boneca. Tão bonita, tão limpa, tão feliz.
Então, ela se lembra do pequeno presente que as meninas mais velhas lhe deram. Confere, cuidadosamente, sob a língua desacostumada, o aço da gilete. Ele se ajoelha para lhe calçar as sandálias douradas, de salto alto. Assim, os dois na mesma altura, ele lhe parece apenas o que é: um bicho pronto a dar o bote. Um bicho que agora esguicha sangue no vestido azul.
Lentamente, ela começa a tirar aquela roupa suja, mas sempre olhando para ele. Para as mãos que pararam de tocá-la e que agora tentam estancar o sangue que jorra do pescoço. Para os olhos que se desesperam, esbugalhados. Para o corpo que se contorce grotescamente. E os sons da besta em agonia estranhamente a alegram.
Ela não chora. Não pode. A boneca bonita, toda suja de sangue, precisa dela. Coitadinha.
***
Bomba suja
Sujos, mortos, frios. Sobre a lama misturada ao sangue, quatro corpos de crianças. Não. Cinco, que vejo agora mais um que se esparrama aos pedaços. Nos rostos, uma paz estranha que não tem em gente grande quando morre. Morreram sem saber, sem pressentir, sem querer, sem poder, sem valer para nenhuma estatística mundial ou para a grande mídia. Morreram de estilhaço, de explosão, de insensatez. Da contabilidade da guerra, que nunca fecha.
E, contudo, estão serenos na morte. Como a dizer que o deus que se chama Alá, Emanuel, Buda, Krishna ou Coisa Nenhuma está com eles. Será? Não esteve. E, se esteve, é fraco esse deus que não vê, não impede, não ergue a mão pesada sobre os poderosos gestores das carnificinas, nem estende a mão-escudo aos homens de boa vontade.
São anjos deitados em fila. Apenas dormindo. Um deles parece sorrir. E talvez seja isso mesmo. Ri de nós que sobramos neste lugar de desconsolos. Ri dos nossos protestos caseiros, das nossas teses distanciadas, dos nossos fracos vômitos de repúdio.
Seriam adultos bonitos, posso ver daqui. Quatro deles. A menina — única em meio aos corpos — cresceria mãe. Essa profissão macabra que engendra e alimenta humanos para depois vê-los cair, cadáveres, sobre a lama remexida pelas bombas sujas. Os três ao seu lado, eu os diria homem santo, agricultor e soldado. Dou-lhes profissão para não os imaginar mendigando pão ou carregando água em vasilhas sobre as cabeças infantes. Disso, já me fartei.
O homem santo ensinará aos outros que ter virtudes neste mundo garante apenas o próximo. O agricultor contará aos outros que não conhece o gosto do alimento que produz. O soldado mostrará a eles que a blindagem antiminas do moderno Al-Zarar que conduz é a única fé que o satisfaz.
Para a quinta criança não tenho profissão. Nem palpite. É um menino — conta alguém que o reconhece não sei como. E permanece lá, multiplicado pela lama ensanguentada. Sem rosto sereno, sem rosto algum. Apenas um futuro estilhaçado em pedaços de carne imolada. Ele me lembra o cordeiro em sacrifício, morto em honra do deus que se zanga e vira as costas e se esquece de ser mais pai que senhor.
Sigo a trilha abjeta daquele corpo de criança explodido pela bomba suja e ensurdeço meus ouvidos aos lamentos das mulheres que choram em ódio e incompreensão. Elas não me interessam. São, como tudo o que ainda resta vivo, revolta inútil.
Quero vasculhar o barro fétido. E buscar os olhos da criança enterrada na lama vermelha. Só eles me mostrarão se a dor se leva para o outro lado.
***
Arremate
Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humanidade. Adeus, cão. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais fácil.
O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam o pó vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.
Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É contista. Queria ser poeta. Autora dos livros: Na escuridão não existe cor-de-rosa (2015); Sob os escombros (2014); Do todo que me cerca (2012), todos pela Editora Patuá. E de Para enfim me deitar na minha alma (2010), projeto aprovado pelo FAC-DF. Na Amazon Brasil, mantêm os e-books Atos e omissões e Contações. Está em diversas antologias de contos, em algumas poucas de poemas. Escreve todo dia 16 para a Revista SAMIZDAT.
As estrelas estremeceram quando a avalanche de pobres, sem conotações, passou a descê-las e seus valores começaram a deturpar-se em meio à solidão das notas recolhidas. Seus valores já não existem mais. Fodas. A cidade é o próprio artifício, indigestão recheada de restos. De tudo. Nuvens cinzas em um outubro de um ano marcado pela falta de sensatez. Humanidade. Estúpida. Perdida nas porras dos números. “Esclarecidos” da modernidade, esses moderninhos filhinhos de papaizinhos “esclarecidos”. Nem sei se devo tomar partido. Às vezes me recubro de pensamentos fascistas, quero persegui-los e demonstrá-los em gráficos como animais em extinção. Quantos por cento? A quantidade necessária. Cientificamente inferiores, não é? Não são inteligentes. Será que têm alma? Matar todos.
Esta noite os sons se ruíram. Me atirei como uma foice russa na direção de todos e queria acariciar, dolorosamente, seus fios de cabelos bem cortados e aparados. Suas roupas estetica-mente, perfeita-mente fora dos eixos. Toda revolta simulada me dá nojo. Subi como louco em uma das mesas do Mc Donald’s e, em gotas, saiu a, vodka, b, o cachorro-quente do tio da esquina com bastante maionese e ketchup, c, o álcool etílico, que queimou minhas cordas vocais, por isso, acho, não urrei feito um motor de caminhão no meio da madrugada. Provei em segundos aquele gosto azedo do vômito no salão e nos corpos purificados que estavam lá.
Interferência – Antes do fogo queimar, vaguei feito o desespero, haviam olhos ardilosos/ porco asqueroso/ o ar sempre fica pútrido/ algo neles me arrepia.
Passo vagamente. Um felino, rajado, cambaleando por todos os lados, dançando feito um chinês americanizado dos filmes da Sessão da Tarde. A metáfora não é uma metáfora. Os sentidos estão menosprezados na massa ardilosa assentada toscamente em uma parede de um quarto de motel na Guaicurus com São Paulo. Todos os cômodos deste hospício são resquícios de pessoas perdidas nas esquinas mal iluminadas, cheias de carros novos e sem-tetos. Virei a lágrima na boca e reconfortei a mente com mais um pouco. Chega.
Estamos agora parados em frente à máquina. Ela nos olha, vigia-nos, foi programada para isso. Logo chegaram os guardas, com seus olhos esfumaçados enxergando microcoisas, treinados, socando e atirando, dissimulando, nos campos de concentração. A raiva sob os olhos. Necessidade e desejo de tocar algo real. Senti uma forte pressão nos calcanhares, como se fosse uma batida entre caminhões frigoríficos. Meu peito ardeu com a mão, mas os dentes resistiram ao impacto com o chão. Olhei debochadamente para todos e sorri.
***
Trilha sonora
Belo Horizonte. Aqui todo dia tem uma manifestação. São professores, músicos, carteiros, moradores de rua. Isso, antes mesmo de virar moda. Todos os dias chego, me arrumo para labuta, depois de navegar dentro de dois ônibus lotados, e caros. Esse, por sinal, o estopim para qualquer mente cansada do barulho da cidade. Nem é mais só o centro. Tem carros com auto-falantes enormes, caixas de som portáteis e uma infinidade tecnológica de microaparelhos, servindo para tudo. Desde a sacanagem liberada a uma forma de divulgar a violência do Estado. Eu, vamos assim falando, há muito tempo cansei de pedir explicações destas tais autoridades, virei ateu. Nem azul, nem vermelho, nem rosa choque. Vivo com meu sax, nas ruas, das ruas e para as ruas, há muito tempo ocupo isso aqui, a única verdade, acredito, estas veias que pulsam.
De repente o tempo não era mais… Há alguns dias, o barulho mudou de tom. Um cheiro, esteve parado, circulando, como os gritos, outra hora, um copo de cerveja. Quente. Mijo, à revelia no poste à minha frente. Em seguida cambaleio até o Fórmula 1. Não sei se sou eu, ou outro, caminhando, com seu virtuoso, pomposo, entendimento da psicanálise clássica. Seu grupo. A música é a morte anunciada. Adolphe Sax e seu invento mágico. Há sempre um compasso, uma cadência, uma levada, mesmo quando nós… Tento acompanhar. A bota de couro apressada, pisando em papéis descartáveis, leve fantasia de uma criança sendo arrastada pela mãe, pela tarde. O medo.
Me surpreendi aquela manhã. Ouvi rumores. Mega manifestações em São Paulo, não achava que chegariam a BH. Nem pensamento. Talvez, sonho, mais truculento, energético, vandalístico, vivo. Por aí vai. Creio, até, fiz uma trilha sonora. Acordes dissonantes. Cambaleio pelo pouco espaço que sobra, os pés tentam seguir aquele ritmo. Trilho um, dois, três, não consigo mais contar. O beque, bolado. O ouvido afinado. Morto como Cristo no terceiro dia, de todas as formas, grito junto com a multidão. Uivo. Ginsberg. Meus dedos perderam o controle. O sopro vem junto com o tambor, com a macumba…
Mais um… engrosso o caldo desse feijão… tropeiro. Caminhamos, marchamos nesta festa. Risos altos. De principiantes. Lembro bem. Como esquecer tanto alvoroço pela manhã? O centro, sempre com seu ritmo conservado. Passos apressados, polícia para todo o lado. A praça. Aquela manhã não. Apareceram uns “bombadinhos”, sem saber o que fazer, lembro, tomei um bicudo. Filha da puta! Pensei. Em manifestação tem de tudo, até caso de possessão, vai explicar como uns caras pegam armas e atiram contra seus vizinhos, familiares e desconhecidos.
Não querem mais manter as portas abertas. Os bares. Botecos. Lojas de outros gostos. Bancos. Tropeço e erro a nota caída ao chão. Sorrio bem alto. Há uma tropa no meu gargalhar, meus dedos esquecem o corpo, perco a consciência quando queimo. Não deixo escapar o barril de minhas mãos. Álcool. Amargo, adoçando o fogo cristalino de séculos de abandono. Eu. Nunca estive tão só. Uma moça de trajes elegantes, hoje, curtos e colados ao corpo, realçando seus dias, bem alimentada e bebida de primeira, com maquiagens sutis como devassos moribundos, rela sua perna, no meu pé. Carrega um cartaz. Me olha com desdém, como se tivesse pisado em merda. Pegue minha mão. Pois a casa está quente garota. Me deixe levá-la para dançar. A casa está quente, baby. Eu grito, eu canto, desafino. Atinjo outros tons. Consigo ouvir o piano, a bateria. A casa está quente. Todas as calças são iguais. Saco da mochila o sax e acompanho a melodia. Dou mais um gole, na bebida, respiro. Sopro meu momento na multidão.
Relação mais próxima com a praça, ou pedra como os malucos costumam chamar. Os malucos de estrada, ou artesãos de rua, ou hippies, e/ou micróbios, na verdade existe uma infinidade de tipos e variantes. Nenhuma controlável, todas com suas liberdades, malucos. Existe uma proximidade de… “Traz logo a cerveja pô”. Como ia dizendo, maluco… A cidade é mesmo algo insondável, cheio de tipos, e esses, de repente, se agruparam no centro, na praça sete de setembro, em junho, foi um hospício. O que teve de notícia, de branquinho voando para o exterior, não cabia no jornal. Foram dias agitados. Nunca vi tanta gente reclamando ao mesmo tempo e na falta da voz, apareceu cartaz feito até com papel higiênico. Acho que até vi alguém vendendo cartaz. Mas cada um ajuda como pode, né? Quando aquele povo todo começou a andar em uma direção, pensei umas duas, três, e por aí vai, se ia ou não com eles. No meio disso tudo, vi passar uma galera, com instrumentos, tambor, macumba, violão, pandeiro, apito…
Tinha de tudo. Hipocrisia. Verdade. Fé. Tudo misturado. E alguém, e alguns, uma grande maioria, sem saber sobre o deserto. Ao olhar. De baixo para cima, e retorno, não escondo o volume crescendo. Meu escárnio. Abro a mochila. Lhe grito. Tocarei Sing Sing Sing, em homenagem ao seu belo sorriso… sua luta… e cartaz. O pisar fica mais pesado. A melodia… perde… a alegria… entra tristeza. O sentido do domínio. A alegria. Deixamos de sonhar… ou sonhamos demais? É preciso atingir a realidade. Observo seu pesar. Desisto. A casa não está para alegrias anunciadas. Ela adentra a multidão, como vulto tortuoso, um enigma. Retorno ao meu confinado pensamento, e um irmão, maluco, esses que ficam vagando pelo mundo, pelo menos, o Brasil, me oferece outro trago em uma garrafa com tantas misturas, que seria difícil para um químico descobrir a origem. Ah! Esses alquimistas de rua. Preparam os melhores venenos.
Cristiano Silva Rato nasceu em Japonvar, norte de Minas Gerais. Viveu a infância em Belo Horizonte (Vila N. Sa. de Fátima); a adolescência em Contagem (V. Pedreira Santa Rita), na Ruína II (V. Primavera), em Ibirité, e a juventude na Vila Formosa (BH). Atualmente vive no Morro do Papagaio, também na capital mineira. Em todos os lugares morreu e nasceu. No momento possui um blog (desatualizado). Tem um livro publicado (Sentido Suspenso, lançado em 2012, pela Editora Multifoco) e textos espalhados pela web e fanzines.
Tenho notado isso; a minha fala está cada vez mais pobre. A minha escrita também.
E isso não me surpreende: diante das circunstâncias, acho até natural.
Eu vejo TV, leio jornal, acesso as redes. Só não percebe quem não quer.
Eu não queria perceber; não era meu interesse entrar em conflito com Eles. Não é.
Tanto que só gritei quando a primeira palavra me foi subtraída. Um grito rouco, doloroso. Mas foi só. Não quero problemas.
Não sei como será amanhã — porque Eles estão em toda parte. Agora ainda mais.
Estas palavras, portanto, são importantes.
Podem ser as últimas.
***
TEORIA NA PRÁTICA
A coisa toda é bem simples: primeiro o pé direito, depois o esquerdo, um degrau, outro, e assim sucessivamente. Um piscar de olhos e pronto: alto da escada.
Bem simples — mas não pra mim. Faz dez anos que estou diante dessa escada e não consigo subir. Sei a teoria, mas a prática, ó, nem pensar.
Muita gente veio aqui me visitar: cientistas, engenheiros, vagabundos, todos eles me ensinando como é fácil atingir o alto da escada. Fui educado com todos, agradeci pela generosidade — mas sempre sinto vontade de mandá-los todos à merda: o que acham de mim? Que eu sou um idiota? Não, não, conheço a teoria melhor que todos eles. Só não me entendo direito é com a prática.
Dez anos. Onze, acho. Doze. Imóvel diante dos degraus. São Eles, é claro, são Eles que me impedem de subir. Não é nada surpreendente: Eles sempre fazem isso, basta um sujeito demonstrar conhecimento suficiente e Eles vêm atrapalhar. Tem sido assim desde sempre; Eles sabem e eu sei.
Já vi outros subindo essa mesma escada. Outros nem tão capazes quanto eu. Muitos não sabem sequer a teoria. Mas estão lá no alto, sorridentes e felizes como eu jamais serei. Sim, jamais. Eu, que sei que a teoria, na prática, é outra.
***
A GRANDE FOGUEIRA
Não era possível mais comer, onde é que já se viu? A água estava racionada. Oferta grande só mesmo a de oxigênio — mas por quanto tempo ainda?
Tudo dependia do Ministério. Da vontade do Ministério.
Do abençoado Ministério que ainda permitia, pelo menos, filmes & livros.
Mas um dia, é claro, o alto escalão do Ministério se reuniu e os homens, austeros, chegaram à conclusão de que filmes & livros poderiam causar grandes danos à ordem e aos bons costumes.
A grande fogueira de livros & filmes durou exatos 70 dias, ao fim dos quais a população, aliviada, agradeceu:
— Graças aos céus temos o Ministério aqui na terra!
O alto escalão sorriu. É claro que sim.
***
NADA É O QUE PARECE
Ele chegou ao balcão completamente exausto. Grossos cordões de suor amarelo lhe escorriam pelo rosto, pelo pescoço fino e comprido. O olho direito completamente fora da órbita.
O funcionário do outro lado do balcão sonhava paralelepípedos & centopeias. Seus dutos auriculares desconectados davam a notícia de que não queria ser incomodado. De jeito nenhum!
Mesmo assim, ele chegou ao balcão completamente esdrúxulo. Grossos fitilhos de suor regular lhe escorriam pela boca, pela língua torta e esburacada. A mão direita completamente entediada.
O funcionário do outro lado do balcão babava lembranças & meteoritos. Seus dutos fonéticos atentos:
— Quiqueres, quiqueres, estranho?
Ele chegou ao balcão completamente. A língua se desenrolou feito um tapete:
— Preciso falar!
O funcionário do balcão levantou a sobrancelha velha e desgastada. Do seu olho dormente escorreu um sentido:
— Já falou.
O funcionário do balcão suspirou tulipas & ornitorrincos. Era sempre assim: uma massa de gente dodecafônica e estropiada. Humpf!
— Próóóóximo!
***
VIDA NOVA
Já estou na terceira vida. Mas nem por isso diminuíram os meus problemas. Basta alguém do Ministério saber que estou de vida nova e tudo vai por água abaixo.
Muitos problemas, sabe como é. Não problemas meus, é bom que fique bem claro; o Ministério está sempre se superando em matéria de inventar problemas que não temos. Foi assim na primeira vida. Tudo se repetiu na segunda.
Esta terceira vida me assombra um pouco. Ainda não descobriram. Mas sei que o mercado negro de vidas está sendo ostensivamente combatido. Por Eles.
Ainda não descobriram. Mas o Ministério, eu sei, tem mil olhos, muitas bocas & braços também. É só uma questão de tempo. E depois, ah!, e depois?
Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Tem contos incluídos em diversas coletâneas. É autor, pela Editora Draco, do romance “Gabriel” e também da coletânea de contos “Delirium”, pela Editora Penalux.
E, então, eu seguro o pequeno animal peçonhento entre os dedos como se ele fosse um tesouro. Um único escorpião amarelo pode gerar até 40 outros. E sem necessidade de macho. Duas crias em um ano, 20 filhotes em cada cria. Uma espécie formada apenas por fêmeas, na qual os óvulos se desenvolvem sem fecundação. De repente, eu deixo o bicho cair no chão e outros escorpiões saem rapidamente dos esconderijos. Estão famintos, devoram-se uns aos outros. Acendo um cigarro e fico observando. Tanto veneno, meu Deus! Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho. Mas não contei o sonho inteiro. Há nele “uma ternura venenosa de tão funda”. E o medo. O medo que sinto de mim mesma. A visão que tenho de meus filhos mortos. A sensação em que me afundo ao olhar o céu. E o desabar de uma chuva que parece varrer o mundo. E que não cessa até que ela surja. Turva. Primeiro, vem bem menina e me puxa pela mão para ver o mar. Depois, quase adulta, tenta me afogar para que eu não diga nada sobre o que sinto. E, no entanto, sempre fomos cúmplices numa forma indescritível de sentimento. E até nessa falta de dor, espécie de anestesia que dura desde o casamento. Olho a minha casa, cheirando a pinho, e acho tudo muito bom. Como se a família fosse um esconderijo. Ninguém pode me ferir aqui no Caminho das Árvores. E, nas copas, avisto as damas que se assumem. Passam por mim no mercado, de mãos dadas, cheirando as frutas, mastigando as uvas, sujas, o sumo escorrendo da boca. Imagino que coisas fazem juntas e viro o rosto. Reviro os olhos. Sozinha na cama. O marido em viagem de negócios. Os filhos dormindo. E sonho de novo e de novo com os escorpiões amarelos. Mas nem sempre foi assim. Confesso. Eu também já fui suja de desejos. Quando ela vinha e apertava a minha pele entre seus dedos. Como se colocasse a mão entre as fendas de uma árvore. Eu a podia sentir em minha dor como carícia. E mordia os lábios, rindo por dentro, louca por arranhões, tapas e empurrões. Qualquer contato, por mais absurdo, entre meu corpo e o dela. Misto de camareira e inocente útil, eu cuidava de pentear-lhe os cabelos, outro pretexto, e de vigiar seus pretendentes de perto, levando e trazendo bilhetes. É este? Não. É este? Não. É este? E foi assim que conheci o homem que me faria pensar em casamento. Não por amor, infelizmente. Mas em agonia de morte, veneno inoculado no peito. Casei com ele só porque ela o queria. E ele a mim. Desde sempre. E ainda ardo na nossa última noite. Falei, enfim, sobre sonhos e pesadelos e escorpiões. O vestido de noiva sobre a cama, os convidados no andar de baixo, num misto de alegria e confusão. E tudo que lembro é a sensação da água, que subia, encharcando meus tornozelos e, logo, entrando pela boca e enchendo os pulmões. Até que já não podia dizer nada. E o sentimento em torno de mim era um oceano inacreditavelmente solitário e sombrio. Todo o resto foi puro exercício de existir. Vestir a roupa branca, percorrer a nave central da igreja, dizer sim. E, dentro dos anos, procriar, criar herdeiros da vergonha para deixar entregues ao mundo, ao grande mundo. Ouçam. O amor é armadilha. É sonho. Ou nada, nada mesmo. Os escorpiões sobreviveram a muitos cataclismos, mas não venceram. Vejam como ainda se escondem e usam o veneno. Pobres criaturas seculares. Tão venenosas quanto indefesas… Outro domingo. E deixo que tudo desapareça, engolido pela segunda-feira. Há um revólver guardado na gaveta direita da cômoda. E a carta que ela mandou antes de atirar. Sei que estou acordada, que estive acordada todo o tempo, e agora sinto o animal peçonhento subindo pelas pernas. Nenhum medo. Quase gozo. Ao sentir o ferrão penetrar a minha pele e destruir-me os nervos.
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Madrugada do dia dos mortos
Perto da meia noite, veio do nada e deu um chute na porta da casa frágil. Escutei a pancada e cobri a cabeça. Sabia quem era e o que viria em seguida. Chuva de tiros. Fiquei quieto, golfos ensopando o tecido. Morto? Talvez. Quando fez silêncio, arrastei o que restara de mim para fora. “Polícia é assim, não livra a cara da gente nem no Ano Novo”. O homem me puxou pelos braços e foi me empurrando para baixo até me esconder inteiro sob a cama. Vi uma mancha de sangue, uma rolha de champanhe no assoalho, a queda de um projétil. No céu, saraivada de fogos. No dia primeiro, o primeiro de todo o resto, finalmente conferi meu corpo. Intacto. Trêmulo. Pele e ossos.
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Sui Caedere
E traziam nos pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio. Um passado com o qual cada uma tratara de lidar muito a seu modo. A mais jovem, feito gato persa, desgarrara de tudo suas longas unhas. E vivia a correr mundo, ousando aviar receitas e abrir os corpos dos outros. Sempre a dar e consumir placebos. A outra arrumou um marido, cão de íntimos, e pariu duas crianças que trazia cativas em sua casa de cerca branca e varanda. Entretida em deixar impecáveis as roupas, e não queimar ou azedar o almoço, e estar magra para caber na cama e nos vestidos. Até que se viram, um dia, sem alvoroço. E notaram que traziam em seus pulsos, as duas, cicatrizes de suicídio.
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O céu da boca
Os dentes do meu pai, envolvidos em um guardanapo, roçavam as pontas dos meus dedos sempre que enfiava, esquecido, a mão no bolso. Estava no centro, atrás de um protético que desse jeito na parte superior da dentadura. Fazer uma nova custaria dez vezes mais, mas esse nem era o problema. A questão é que, aos 90, o velho já não conseguiria passar pelo processo de adaptação da boca à prótese sem me enlouquecer completamente. Então, genial como sempre, tive a ideia de encontrar um profissional capaz de restaurar a arcada, reconstituindo a porcelana que eu havia quebrado acidentalmente logo que fiquei responsável pela escovação diária.
Não que eu fosse descuidado com as coisas do velho, entenda. De início, no entanto, confesso que olhava bem pouco o objeto em minhas mãos, limitando-me a fazer movimentos circulares com a escova ensopada em dentifrício, como havia lido em um anúncio de creme dental. Isso, somado à distração habitual, permitiu que a chapa escorregasse algumas vezes na pia do banheiro, danificando a ponta dos incisivos lateral e central. Não eram danos muito visíveis mesmo para quem olhasse meu pai bem de perto. Em nossa família, todos têm bocas pequenas e lábios finos, e a verdade é que ele sorria cada vez menos.
Mas, os danos nas pontas dos incisivos lateral e central, embora pouco visíveis, dificultavam a mastigação, e o desconforto do meu pai era suficiente para justificar a heróica travessia da cidade no inverno. Salvador ao Sol é uma Aldeia Potemkin. Engana britânicos, franceses e prussianos. Sob a chuva, no entanto, todas as suas estruturas parecem se desfazer em papelão. Saltando poças de lama, pulando entre as marquises dos prédios de outro século, eu caçava abrigo da água, movendo com desajeito o corpo magro, projeto inacabado de Shigeru Ban, à cata do consultório de um tal Heráclito Hernandes. Rua Chile, 190.
Ainda há pouco, no táxi que me levara aos solavancos do bairro nobre à parte antiga, comentara com o motorista o fato de o nome do protético ser Heráclito. “O obscuro”, me disse o homem ao volante, como se soubesse um bocado sobre filosofia e dialética. Eu só conhecia o Panta Rei e me inquietava a ideia de que tudo muda e a metáfora das águas e dos rios. Estivera a vida toda obstinado na construção de pontes, pontos fixos de observação e travessia. Tudo sem molhar os pés. “Mas, esta nobre arquitetura demanda grande conhecimento”, ouvi ao descer do carro. Isso eu sei. Demanda pilares e arcos muito sólidos e pedras e madeira de boa qualidade e metal e concreto e partes que são montadas aos poucos como num quebra-cabeça.
Há ainda pontes suspensas, mas isso eu não disse ao taxista. Pontes suspensas que são erguidas bem alto por cabos de aço. Toda vida, meu caro condutor, é apenas técnica. Tudo demanda grande conhecimento, pensei, já entrando na viela estreita que dá acesso a Avenida Sete de Setembro. Mesmo o mais simples objeto, veja bem. Mesmo a dentadura danificada em meu bolso. Mesmo eu, o nobre, o filho generoso, o herói do velho, hoje frágil, incapaz de limpar os próprios dentes. Pouco restara do homem que conheci forte e macho a me ensinar a ser. A encher de sabão a minha boca para lavar com violência palavrões, nicotina e esperma. A vida nos moldou, os dois, a foice, como sói acontecer a toda gente. Se há um consolo, este é ser como todos.
Maldita seja a diferença, dizia meu pai em seus ensinamentos sem o dizer. Seja honesto com os honestos e valente com os valentes. Nunca seja apanhado, faça o que fizer. Aos poucos, todas as lições seguiram para o ralo e ele parecia saber. Aquele moço magro e molhado que carregava seus dentes no bolso pelas ruas do centro em busca do consultório do protético era, sobretudo, um fraco. Sim, um fraco. Por mais que em mim ainda residisse a pouca força do velho e sua dinâmica viesse do apoio dos meus braços. Quis o destino que coubesse ao filho maricas cuidar de suas escaras, trocar as fraldas, levar ao banho, limpar as fezes. Agora, concentre-se, pedi a mim mesmo, devidamente perdido em meio à chuva. Onde, nesta avenida, entro para a Rua Chile?
Apenas siga adiante, disse uma senhora meio curva. E eu segui. Incerto, pelo caminho conhecido desde a infância. Subitamente alterado, tonto. Em algum ponto, na altura do Relógio de São Pedro, senti que algo havia se partido, uma fenda no tempo, e todas as coisas do mundo, como no Aleph de Borges, pareciam espreitar sorrindo. Olhei seus dentes como se examinasse a boca de um animal antes de submetê-lo a grande esforço. E, nela, na boca do centro, enxergasse o escuro formado pelo palato. O céu. Algo apertava meu coração, como se uma grande mão, a grande mão do sofrimento, estalasse todos os seus dedos no céu de chumbo e, ao redor do meu peito, voltasse então a contraí-los. Eu precisava ir, localizar o endereço, achar o protético. Imaginei meu pai, perdido em mutismo e desespero, e me agarrei à expressão murcha de seu rosto por alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos, alguns segundos…
Kátia Borges é escritora, jornalista, mestre e doutoranda em literatura e cultura pela Ufba e professora. É autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012) e São Selvagem (P55, 2014). Teve alguns de seus poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013) e traduzidos para o francês, espanhol, inglês e alemão.
Não há flores colhidas que resistam ao sol. Colhidas são a pré-morte. Uma espécie de carimbo “frágil” bem ralo, mal batido numa repartição pública mofada.
Há outras maneiras de deixá-las bem mais mortas. Fazendo confete, carnaval, um segundo de festa com nome polido: homenagem. Sim é possível matar bem mais se você despetalar. Despetalar é autópsia. Descobrir a causa mortis.
Acha que é cuidado colher flor em diagonal nas hastes? É lindo campo de flores programadas para datas? É uma carnificina agendada, meu caro.
Ela floreou meu terreno. Meticulosamente ordenou linhas e talas às hastes. Foi ensinando o caminho reto de ser flor. Flor ensinada: assim pode, assim não pode. Nesse dia você venha, no outro se afaste. Tratou como tempestade uma nuvem banal. Deu uma cobertinha coberta de insegurança. Furos por toda parte. Estufa de calor. Água às vezes.
Adubou, cortou folhas. Fez da flor muito menos que outra. Num dia comercial qualquer vendeu um caminhão bem cheio. Jogou lá como coisa reciclada.
Pela estrada foram as mortes, cada uma com véu branco na cabeça segurando a decadência da leveza.
Única beleza, disse o motorista, como se elas existissem: todas exalam medo silencioso e parecem coração solto.
Toda flor que foi trocada por volta de meio-dia sofre. Quando o telefone tocou e ficou dito “não venha” foi o sol quem cegou e estragou a esperança. Lembrou da sua condução em hastes eretas. Doeu demais ser flor correta.
Foi o sol de meio dia.
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Dançava na terceira lua cheia do ano.
Foi vista andando pela cidade novamente.
Ela que tentou tanto o não, guardando todas as mazelas debaixo das dúvidas já sofridas e escarnecidas. Falou docemente de nenhuma expectativa, querendo sempre o não, o nunca. Aplicou não nascer. Cobriu sua casa com os mantos das benzedeiras. Deu machadadas na porta para o mal colar e ficar.
Dava pena… Dizem que dava pena. Não sei bem. Dançava no vento junto com as sacolinhas plásticas. Abraçava aos sussurros nos muros chapiscados a sua imaginação. Sangrava toda tarde de segunda-feira. Já foi vista à meia noite correndo pela rua. Capturando e bebendo no seu ser a mistura da razão com coisa nenhuma. Foi assunto de dona de casa de cidade pequena. Um boato corria que fazia mensalmente dois vodus com muitas agulhas. Satanicamente dançava na terceira lua cheia do ano. Disse sempre uns berros doidos e roçava seu rosto no chão da dor. Embruteceu sem mais desejos.
Não houve mais luz do dia, nem distração à toa, nem corrida matutina, nem dia de nada, sequer três de janeiro… oito, nada…
Não impediu. Ficou uma pedra no meio de tantas cores, tanto nada jogado fora.
Triste ver hoje sua dança ao som de um bandolim imaginário, recitando a história do limbo humano. Canta ela num lirismo antigo: sua papoula de vícios guardados foi colhida inadvertidamente por um encanto, que tolheu seus sentidos. Queimou-se na poção errada. Morreu aos gritos de pavor.
Sobrevive hoje fazendo reza para tirar brabeza de criança. Ri e conta graça. Como todas as flores, essa mulher foi flor colhida, morta, simplesmente ignorada.
São raras as replantações de flor. Hoje os vales têm capim. Uma armadura leve.
Não acha viver ilusão. Acha ilusão o que vê.
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Tenho segredos guardados no escaninho da sala
Quis miseravelmente sua ausência. Sombreei meus olhos com cor de quadro negro antigo. Desenhei duas funções de x. Como me decifraria? Está sempre tão longe.
Tenho segredos guardados no escaninho da sala dos professores. Alunos obcecados por pontos planejam copiar as chaves. Mas somente eu tenho as provas.
Sonho aplicar a medonha e fatídica prova final. Escrever bem de vermelho para seus pais verem sua vagabundagem: excesso de faltas. Mas vou te obrigar a ficar horas teimando em resolver. E no fim, bem no fim, quando tocar o sinal, sua súplica será rasgada.
Cada rasgo vai cortar seu coração. A princípio se sentirás injustiçado. Recorrerás aos gritos injuriosos das mais mal amadas das pessoas. Sorrindo sentirei todo rancor dos meus lábios.
Dizendo silenciosamente que foi ausência. Ausência quem matou todas as aulas. De amor. Nenhuma lágrima. Apenas a dura, fria e calculada reprovação de seus atos.
Que cresça em outras bandas. Beba e enlouqueça. Que eu já me cobri no inverno infinito para que nada de bom me aconteça.
Aden Leonardo:pessoa engolidora de choros, por isso sofre de derrames por extensos quase todas as noites. Os assuntos que ela escreve referem-se ao enorme mundo à volta de seu umbigo. Adora escrever e fazer andanças, sobe morros e picos. Suspeita que a felicidade é algo tão difícil de alcançar que deve estar no mais alto ponto do Himalaia. Por isso escala em MG e RJ, vai que existem felicidadezinhas nas montanhas menores? Não suspeita que é escritora, é uma atrevida mesmo.
Acuado, o calango magro e comprido rebolou em ligeireza de pavor, riscando o chão de terra batida: hora ruim para errar ali. Fez-se dele caça, o mínimo peru, a porção de carne para aquela noite de Natal.
A guarnição, um punhadinho de vagens de feijão verde debulhadas vagarosamente pelas pequenas mãos de Ednaldo, Ednei e Edmilson – a mãe Lindalva os pusera à cata de véspera, e pedia cuidado para que nenhum grão se perdesse, a bacia de lata como bateia de pequeninas riquezas. Um naco de rapadura seca escondida num vão da taipa, pepita de ouro que adoçaria o desfecho.
Pai não havia, ou, antes, houvera, sem nome nem registro, Lindalva nem saberia dizer. Apenas que eram seus filhos, saídos de si, um tanto barrigudinhos e empoeirados pelas faltas tantas.
Para cada um dos meninos, embrulhadas em chita florida com o requinte do laçarote, duas bolinhas de gude verde-azuladas, gotas de vidro, simulacros de chuva no calorão trincado, desidratada a vida.
Na mesinha solenemente posta, a lamparina de querosene, um círio natalino; o calango magicamente dourado e trinchado para que se lhe borrasse a forma original, sobre cama de farofa branca. Os feijões verdes boiando cozidos numa água rara, muito caprichosamente chegados ao ponto de alguma dignidade – o dia todo vigiara a Lindalva o fogo pouco para que a ceia maturasse em perfeição.
No arremate, a rapadura, picada em cubos, nenhuma lasca de desperdício, de modo a render dois pedaços a cada um – abria mão da sua porção para oferecer os haveres aos filhos em número par, duas bolinhas de presente, dois pedaços de doce, recurso que era um refrigério imaginário, ilusão de abastança, um despiste à miséria, que alguma ilusão nos salva um pouco.
Pôs os meninos a ajudar depois na limpeza dos pratos de ágata lacerada, permitiu-lhes o jogo de gude, bolinhas que à luz da lamparina brilhavam como água abençoada, quicando e lavando a existência seca, até a exaustão lhe espreitar. Então chamou os seus três meninos às redes de dormir, alimentados, não fartos, mas pacificados, numa noite feliz.
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Marina
Marina, porque é bonito, coisa de mar, a minha mãe me contou, justificando alguma coisa. Eu, substantiva e adjetiva demais. Eu um aposto, enfim. O meu tom é elegíaco. Paixão me define, muito mais que beleza. Só fiquei bonita aos vinte e seis anos, quando meus olhos enfim serenaram e adquiriram a expressão de muita coisa vista, quando o rosto perdeu o redondo infantil e rosado mantendo, entretanto, a inocência necessária. Eu mímica e atriz, porque não tinha um outro modo.
Cheguei ao mundo com o susto de quem veio de lugar nenhum carregando coisa alguma, o mesmo espanto de quem vê milhões de instrumentos ao seu redor e sequer sabe dar um passo adiante de si. Com aquele rancor de quem aparece e vê as coisas prontas sem que tivesse tido ao menos a chance de poder escolher participar ou não da feitura delas.
Eu era aquilo que chamam uma existência toda arredondada em si. Uma circunferência em que não havia cantos, não havia desvãos, inexistiam as angulosidades. Eu só era. Só havia. Só estava. Posta no mundo. Chegada à vida aterradora, que acabou me lapidando logo umas farpas e uns nichos dos bem sulcados; daqueles que não sedimentam nunca (tentei uns cimentos inúteis), mas agora eu os quero assim_ valas abertas, abismos sem fim, infernos abissais, por onde sobrevoam moscas de um esverdeado fosforescente para que eu não me esqueça do que está aberto e do que se esvai. Até agora, eu sou tudo isso_ ou enfim, nada disso.
Hoje o espetáculo. Ouço o burburinho dos primeiros espectadores tomando os seus assentos no teatro. Será que vou conseguir? Será que vou conseguir?_ sempre a pergunta rutilante. Ainda há tempo. Olho-me refletida no espelho. Há areia e pedras ancestrais, beleza, há vivência, uma aptidão para o prazer, há capacidade de ternura, há choro nesse rosto.
As lâmpadas emoldurando o espelho do meu camarim ainda não me desnudam e penso, quase ríspida: o que quer que eu pareça ser, ainda não me tornei ou já deixei de ser. Não me defina nem ilumine, que eu quero sombra para ter contorno.
Vou maquiando lentamente minha face, que deverá parecer alegre em meus desdobramentos todos_ voz de arlequim, o nó na garganta da islâmica, o horror de uma górgona, a sabedoria das encantadoras, fertilidade de deusa minóica, feiúra de Medusa, o riso desdentado de uma andina miserável, leveza de ninfa, a gordura cumulativa de uma alemã calvinista. Catacúmena, casta, divina também eu sou. Dalí, Artaud e Tzara em mil cores na minha cama, _ na cabeceira dela_mimetizando-me em imposturas deliciosas.
Mora em mim a mulher de todas as mulheres, aquela que viveu em todas as outras anteriores a mim. Tenho útero para conceber, tenho seios para amamentar, tenho coração para sentir e uma armadura de aço na aura_ eu também empunho uma espada. E é no próprio seio da minha natureza que caio, quando, de tempos em tempos fico grávida de amores, de ideias, de esperança, porque o que se desfaz será refeito sempre.
Estou impregnada dessa mulher que há milhões de anos me persegue antes mesmo de ter tido a grande coragem de descer das árvores. Sou ainda aquela macaca robusta de tetas caídas que protege a cria entre os braços compridos, ainda aquela que se tiver fome mata os filhotes, aquela que teme e não explica os trovões, minha espinha dorsal ainda carrega uma curva que me aproxima mais do chão que do céu_minha porção primata não me permite grandes voos porque dela trago o medo, estou carimbada pela dor da minha espécie e gênero.
Afundo minhas mandíbulas num pedaço de carne qualquer e sou eu, há milhares de anos, a antropófaga, a hierática egípcia, sou a celta das adivinhações nos lagos, indiana deusa Kali com o encanto de uma flor no Saara, a bruxa perseguida, a fada incendiária, sou qualquer uma, uma Maria ou uma Joana, a ferina gueixa de lábios vermelhos, Xica da Silva em terra de zumbis, sou rainha chinesa sugando um narguillé porque quer vida, Sherazade nos jardins de Alá, sou babilônica prostituta caminhando por Sodoma e Gomorra, óbvia Eva que inevitavelmente abocanha a maçã, santíssima Nossa Senhora, sou assassina Lucrécia Borgia, concubina de Mefisto, domesticada Amélia, matrona italiana, uma troiana, sou a nordestina ressequida com os olhos úmidos da africana mãe que vive em mim. Substância de todas elas. Sou nácar de uma concha do mar feita de restos de estrelas: uma poeirinha cósmica, um quase nada.
Guardo os meus tótens e ritos, invoco aos deuses proteção nos ciclos em que a lua cheia me agita por dentro em caudalosas hemorragias. Nos dias de cio, loba de dentes afiados ardendo de desejo, os instintos derramados espargem mel. Sempre soube que a vida não me trataria bem gratuitamente, por isso aprendi a sorrir quando me atravessavam um punhal nas costas, por essa mesma razão aprendi a decodificar a mensagem de um olhar e a lançar o meu próprio olhar de intenções. A mulher de todas as mulheres me ensinou o feminino sedutoramente macio e próximo, às vezes, fatal. Sei que dessa mulher que mora em mim, suas fraquezas, suas pobrezas, seus pavores, suas forças, suas limitações me acompanharão, para que a minha célula da mulher de todas as mulheres, continue viva em todas as outras que me sucederão nos próximos milhões de anos_ será essa a minha ressurreição.
Giro pelo camarim à espera da centelha, aquilo que de repente me arrebata e puxa pelos cabelos_ um querer ser, um miraculoso tornar-me.
Na penteadeira, as cento e uma marcas de batons, os trinta e três frascos de tonalizantes epidérmicos, a cola para os cílios postiços, os incontáveis vidrinhos de óleo balsâmico para tensões musculares, os vinte e cinco tons de sombras para os olhos, os dois potinhos de purpurina, as quatorze perucas e as duas zibelinas que me constroem na mais imponderável criatura que houver dentro de mim.
Recebo um buquê de magnólias, uma edição amarelada de Gogol e Tchecov reunidos, um bilhetinho de amor, a proposta para um espetáculo Nô, um (ora!) ovo de avestruz embrulhado em celofane azul.
Olho-me mais fundo e começo a esfregar o rosto e lentamente vou me desfazendo ao retirar a maquiagem. Flagro a desconhecida na pele morena, nas linhas, diretrizes que o tempo deu de presente ao meu rosto, as quais, curiosa, vou seguindo e examinando uma a uma na esperança de saber aonde darão. O espelho me ostentando e ultrajando, simultaneamente, ali imóvel, os círios todos ofuscantes do lado de fora, a ribalta à minha espera enquanto me transmuto em outro personagem_ aquele que sempre mas nunca fui. Olho a majestática lagarta que há na crisálida, minhas olheiras dramáticas, minha cabeleira castanha delineando a cabeça. Nesse assassínio, deviscerando minhas personas, matando-as uma a uma, as máscaras vão se crestando e despedaçando em plena pele, sinto a dor de um parto, dando-me a mim própria à luz.
Não conheço mais o íngreme caminho que terei de percorrer para subir ao tablado. E num clarão, num repente, vejo que não quero ser entendida (entendimento é silêncio dos menos profícuos, amordaçamento que impede a extensão, reticência infrutífera), não quero tampouco o favor de ser compreendida (quem compreende está intimamente contrafeito e quem é compreendido, fadado à compaixão); quero ser sentida. Quero ser respirada. Ah, a divina graça de ser sentida através do que tenho de mais real: a exalação de mim. E através das minhas maiores sutilezas: toda a suave e expressiva dança de um olhar que se prolonga na visão de algo e encomprida-se mais longe e vago, num tentáculo, na captação da coisa vista para dentro de mim. Sinta esse movimento. E depois a respiração; vai daí a paixão. O contínuo do que se guarda e do que se expulsa. Paixão é efervescência e viver, um total estremecimento_ finalmente o destino de almas perdidas que ruminaram formas, mastigaram livros, sentiram tanto, inventaram sons, estremeceram músicas, que nunca beberam paz.
Nesse momento sou apenas sangue, ganas e retórica e, toda rosto, como subirei ao palco? Assim? Desnuda? Personas, eu ainda vos imploro! Mas sei que já é tarde demais. Manca, de um só fôlego, numa súbita coragem, piso o tablado. E antes que algo me exclua da ideia de um passo adiante, eu me lanço, tornada absoluta interioridade visível em carne viva sobre o picadeiro. Os olhares assustados que me recebem_ quase ninguém está realmente preparado para o tapa na cara que é a nudez de um rosto_ insinuam o absurdo da água marinha de que sou feita em terra. Uma voz longínqua dentro de mim sopra que algo se quebrou na suave remissão de uma rosa despedaçada.
Era a minha última e tão primeira vez. Palcos eu ainda pisaria. Outros.
Vanessa Maranha participou de diversas antologias de contos, entre elas “+30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira” (Record). Venceu concursos de contos como os da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais, o Prêmio Off Flip de Literatura (2012), o Prêmio UFES de Literatura (Universidade Federal do Espírito Santo) com o livro “Quando não somos mais” (EDUFES, 2014) e também o Prêmio Barueri de Literatura com o volume de contos “Oitocentos e sete dias” (Multifoco, 2012). Foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 pelo romance “contagem regressiva”.